Mostrar mensagens com a etiqueta amor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amor. Mostrar todas as mensagens

domingo, 24 de agosto de 2025

O Nosso Amor Nunca Morrerá

 

"Acordado ao crepúsculo
Suspenso sobre dentes farpados
Línguas insípidas
Rasgam a baía
Esculpindo um sorriso
Tento gritar
Mas os meus pulmões colapsam
Lábios trémulos
Formam súplicas mudas
Estou desonrado
Tu não estás apagado
Traçaram uma linha
Rabiscaram o nome deles
Não é o mesmo

Acordado ao amanhecer 
Membros entrelaçados 
O cheiro de fumo 
E o ar do verão 
Os nossos pulmões partilham 
O primeiro fôlego 
E o suspiro “O nosso amor nunca morrerá”
O sono desfaz
Estes nós no meu estômago
E devolve
O fumo e aquele verão
Os nossos pulmões partilham
O primeiro fôlego
E o suspiro
“O nosso amor nunca morrerá”


Disgraced - Cairiss (2016)

domingo, 16 de fevereiro de 2025

O Amor Consumista

Passou mais um dia dos namorados e falou-se novamente de como 75% dos nossos jovens acham perfeitamente normal controlar, perseguir ou agredir psicologicamente. E depois o problema é as aulas de cidadania! Se calhar deveriam era aumentar a carga horária para aprender a respeitar o outro. E obviamente muito se escreveu na imprensa internacional sobre o preço dos chocolates e sobre o amor... Este artigo de José Nicolás do El País foi talvez dos que mais me chamou a atenção e aqui fica:


Se pensamos hoje numa pessoa que procura um parceiro, imaginamos frequentemente alguém que passa parte do tempo colado ao telemóvel, aprovando ou rejeitando perfis numa aplicação de encontros. Obviamente, nem toda a gente o faz, mas é muito comum. O Tinder é a aplicação mais utilizada em Espanha, com mais de três milhões de visitas por mês: agora, pode-se “namorar com toda a gente, a toda a hora e em todo o mundo”, escreve Liv Strömquist em "Não sinto nada". 

A internet e a sua utilização para encontrar um parceiro afastam-nos do momento romântico de começar a sentir algo por um colega de trabalho, de reparar na pessoa com quem coincidimos nos transportes públicos, de trocar olhares num bar… agora, tudo é escolhido. Acabamos por iniciar uma relação não por instinto, mas pela informação que um perfil escrito pelo outro nos fornece.

Strömquist acredita que optamos por esta forma racional de iniciar um relacionamento porque temos a tendência de querer compreender tudo: “A expansão da sociedade de consumo faz com que nos comportemos como consumidores racionais e que tentemos tirar o máximo proveito até mesmo das nossas relações pessoais.”

Neste excelente ensaio em forma de banda desenhada, a autora sueca cita pensadores como Byung-Chul Han, Eva Illouz e Slavoj Žižek, que argumentam que, devido à sociedade consumista e superficial em que vivemos, apaixonarmo-nos – cair de amor (fall in love em inglês ou tomber amoureux em francês) – tornou-se cada vez menos comum: “Em vez de nos deixarmos surpreender por um sentimento e tomarmos decisões intuitivas, pensamos de forma racional, como consumidores”, resume.



Há indícios de que o amor e o consumismo andam de mãos dadas. Nestes dias, as empresas de marketing lançam campanhas para oferecer as melhores experiências para casais, as floristas preparam-se para fazer o seu agosto e as empresas de chocolates e rebuçados faturam, numa semana, um terço dos lucros de todo o ano. No entanto, entre montras repletas de corações, ainda há espaço para a conexão espontânea, para os amores à primeira vista.

Algo assim aconteceu a Francis há alguns meses, durante uma visita ao Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba). Numa das salas, cruzou-se com um rapaz que “lhe pareceu muito interessante”. Foi assim que uma amiga sua o descreveu na conta de Instagram do museu, que publicou um carrossel de imagens com um apelo: “Alejandro, estamos à tua procura”. A série de fotos reproduzia o pedido da amiga de Francis: “Na sala onde estão as obras de Remedios Varo, conheceu Alejandro, um colombiano que está em Buenos Aires em home office”, dizia uma das imagens. “Quando conta a história, sente que conheceu alguém que poderia ser um amigo especial (ou talvez algo mais). […] Agradecia muito se me ajudassem a encontrar o Alejandro. A minha amiga é uma das pessoas mais maravilhosas que conheço, e tenho a certeza de que Alejandro teria muita sorte em conhecê-la melhor.”

Hoje, a publicação tem mais de 36.600 gostos e é, de longe, a mais bem-sucedida da conta do Malba. Nos comentários, centenas de pessoas torciam para que o famoso Alejandro aparecesse e aguardavam ansiosamente a continuação da história. E aconteceu. O próprio Alejandro respondeu: “Uma amiga mostrou-me este post e eu sou o Alejandro. Que loucura e que graça isto.” O museu colocou-os em contacto e, mais tarde, ele publicou um vídeo onde contava que também sentiu uma ligação com Francis e que os dois já trocavam mensagens e se estavam a conhecer melhor. “É muito bonito”, dizia, visivelmente entusiasmado.

Está visto que encontrar o amor nem sempre exige recorrer a uma aplicação de encontros, ao programa A Ilha das Tentações ou ao balcão de um bar. Às vezes, basta visitar um museu – acontece quando e onde menos esperamos.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

"Não tinha a intenção de encontrar esta missiva que desencadeou tantas memórias do meu passado. Estava à procura de outra coisa, remexendo numa antiga caixa na minha cave, quando encontrei uma carta de amor com décadas, escondida entre postais, artigos e fotografias.



Tinha o carimbo de setembro de 1991 e estava endereçada paraa mim através de entrega geral nos correios de Block Island. É um milagre que a tenha recebido. Era longa: cinco páginas de prosa manuscrita com espaçamento simples, desvendando a alma de um homem por quem me tinha apaixonado profundamente.

Ele escreveu: 

“Parte de mim odeia a arte, a literatura e a busca pelo eterno. Parte de mim não poderia viver sem isso. Estou dividido, esmagado e confuso.”

Ele continuou, mergulhando mais fundo na nossa crescente paixão. 

“Tu trazes o melhor de mim, mas não o consomes; brincas com isso, atacas, dás vida, mas não o consomes. Depois de estar contigo, sinto-me revigorado. Respeito-te pelo teu amor, pela tua força e pela tua franqueza. Nunca encontrei uma mulher tão segura do seu corpo.”

O sentimento era mútuo. Este homem era meu igual em todos os sentidos - intelectual, sexual. Era deslumbrantemente bonito, de ascendência alemã, tal como eu. Talvez os nossos antepassados se tivessem amado numa era distante?

Não éramos desconhecidos quando as nossas vidas colidiram - conhecíamo-nos na faculdade - mas qualquer atração na altura era atenuada pelo facto de estarmos em relacionamentos amorosos com outras pessoas.

Alguns anos depois, ele estava de férias com a família em Block Island, ao largo da costa de Rhode Island, onde eu trabalhava como empregada de mesa no Hotel Manisses. Ele viu-me a conduzir pela cidade e, mais tarde, andou de bicicleta por toda a ilha à procura do meu carro distintivo, com o vidro traseiro cheio de autocolantes da nossa alma mater. Foi uma grande surpresa quando ele chegou à casa que eu alugava com amigos e me encontrou sentada na varanda. Conectámo-nos instantaneamente e planeámos um encontro. E isso, como se costuma dizer, foi história. Uma explosão de mentes, espíritos e destino sexual.

Ele recordou esse tempo na sua carta, descrevendo as mulheres com quem tinha saído: 

“Todas pareciam tão desamparadas, tão dispostas a entregar-se; não falo dos seus corpos, mas da sua dignidade. Submetiam-se a mim. Tu, por outro lado, enfrentaste-me. Levaste-me até uma rocha num lago infestado de tartarugas mordedoras e seduziste-me. Mataste-me - de uma maneira boa, claro. Admiro mulheres fortes.”

Sorri ao recordar esta memória, recordando a nossa excursão noturna de mergulho nu em Sachem Pond e o amor que fizemos nessa rocha. Tão intenso que perdi uma coisa valiosa, uma pulseira de jade e prata feita pela tribo Shoshone no Wyoming. Uma relíquia esquecida, há muito enterrada sob a lama salobra.

Encontrámo-nos num momento terrível, ambos nos nossos vinte e poucos anos, tateando o caminho, tentando descobrir para onde apontavam as nossas bússolas. Eu tinha acabado de voltar da Europa; ele estava prestes a embarcar numa viagem de bicicleta de vários meses pelos Estados Unidos.

Ele escreveu: 

“Estou imprudente por ti. Não consigo acreditar que vou estar longe de ti tanto tempo. Como será? Por outro lado, achas que poderíamos passar longos períodos juntos? Não tenho a certeza. O sexo pode matar-nos. Mas estou disposto a tentar - alguma ideia? Áustria? Alemanha? Londres? Califórnia? Canadá? Isto pode ser pesado demais.”

Na altura, o meu coração explodia de alegria com as suas palavras, vendo as nossas conversas íntimas traduzidas em papel, referenciando lugares que eram importantes para ambos. Tudo o que eu queria era abraçá-lo, beijá-lo e gritar, “Sim!” Mas nem sequer tinha uma forma de o contactar na estrada, isto sendo antes dos telemóveis e da internet. Teria sido loucura reorganizar as nossas vidas um em torno do outro após tão pouco tempo? Sim. Mas eu teria ido até ao limite da insanidade por este homem, e não creio que ele soubesse disso.

Nunca tivemos a oportunidade de explorar essas opções tentadoras. O nosso pouco tempo juntos, mais tarde naquele outono, foi demasiado confuso com encontros estranhos, em parte porque nenhum de nós tinha vidas estáveis ou uma ideia clara de onde estavam os nossos futuros. Pelo menos, eu não tinha. Além disso, não consegui dar-lhe o que ele precisava, em termos de palavras. Tinha sido condicionada por um amor anterior a nunca revelar demasiado.

Havia um milhão de coisas que eu queria dizer a este homem. Concordava com tudo o que ele escreveu e mais ainda. Mas não consegui, ou não escrevi. Já passou tanto tempo que não me lembro. De qualquer forma, o que quer que tenha produzido não foi suficiente, e o meu coração partiu-se naquele Natal quando ele partilhou a sua decepção com a minha incapacidade de expressar os meus sentimentos como ele.

Nessa altura, eu tinha mudado para a Califórnia, e ele estava a fazer as malas para a Europa. Passámos o nosso último dia juntos numa praia em Santa Monica, sabendo que as coisas tinham corrido mal.

Acredito verdadeiramente que se tivéssemos arriscado e nos mudado para algum lugar juntos, poderíamos ter partilhado um amor e uma vida incríveis. Mas era demasiado para contemplar na altura, e não conseguimos superar as barreiras estruturais e emocionais.

Agora, quase 35 anos depois, acredito que ele foi um parceiro perfeito para mim de mais maneiras do que uma, confirmando aquele instinto primitivo que tive quando jovem. As coisas poderiam ter funcionado. Mas não funcionaram.

Ele escreveu: 

Não quero uma jovem frágil e delicada ao meu lado; quero uma mulher que se possa cuidar, uma mulher que possa temer, amar, respeitar e brincar.

Essas palavras ainda doem agora, quase tanto como quando o encontrei alguns anos depois com a sua esposa ao lado, uma mulher que conheceu logo depois de namorar comigo. Ele fez uma piada desculpando-se sobre a sua conexão, parecia, e tentei não mostrar o quanto isso me magoava.

Segui caminhos diferentes, amei homens diferentes, e estou grata por essas experiências. Especialmente pelo homem com quem casei e os filhos que partilhamos. Mas, quanto mais envelheço, mais confortável estou com a ambiguidade e dualidade coexistindo dentro do meu coração. Amo desesperadamente o meu marido e lamento que esta outra relação não tenha funcionado.

Já fazia muito tempo que não estávamos em contacto, então fiz uma pesquisa rápida na internet. Para meu choque, descobri que, após anos a viver milhares de quilómetros de distância, ele e a sua esposa agora vivem muito perto de mim. Perigosamente perto. Considerei ligar-lhe, mas não o fiz. Adoraria vê-lo, mas não tenho pressa.

Ele tinha escrito, depois de descrever o que queria numa mulher: 

“És tu essa mulher? Às vezes, parece que sim. Somos jovens, no entanto. Não quero manchar o que temos prevendo um futuro sério/delicioso. Por agora, quero-te tal como és, e em poucas semanas, sentirei a tua falta e desejarei-te.”

Enterrei a cabeça nas mãos depois de ler essas palavras, sentindo a falta deste homem poético e bonito e da paixão que partilhámos. Mas agora somos mais velhos, com famílias. Fizemos as nossas escolhas, seguimos caminhos diferentes. O que poderíamos partilhar agora quando esse tipo de amor ou futuro já não está em cima da mesa?

De qualquer forma, as coisas mais importantes que quero dizer-lhe são as palavras que escrevi aqui: amei-te profundamente uma vez, e lamento tanto que não tenha funcionado entre nós.

Talvez ele leia este ensaio numa manhã de domingo, bebendo café à mesa da cozinha. Reconhecer-se-á ou às suas palavras? Sente o mesmo? De certa forma, isso não importa. Sempre poderei saborear as nossas memórias. Mais um capítulo numa vida rica pela qual estou muito agradecida.

Provavelmente farei outra coisa também. No último ano, passei por uma grande evolução na minha vida e comecei a escrever livros, quase três até agora, todos tratando de amor e relacionamentos. É a maior diversão que já tive, e para o bem ou para o mal, sou mais capaz de expressar os meus sentimentos por este homem agora.

E isso, sinto, é provavelmente a melhor e mais segura maneira de lidar com algumas das emoções que revi quando li a sua carta. Escrever uma história de amantes amaldiçoados pelas circunstâncias e pelo mau timing. Consigo vê-la agora no olho da minha mente, numa noite de verão quente em Block Island.

A Life Shaken by an Old Love Letter / The New York Times (28 / 7 / 2024)

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Adeus ao Mito do Amor Romântico - Há Outras Formas de Amar

Há duas ou três semanas apanhei um casal na Prova Oral da Antena 3 a falar de poliamor. E ao que parece até têm um espetáculo a falar da coisa. Eu tenho todo o respeito por outras conceções e formas de amar e fiquei a ouvir porque o tema das relações e do amor sempre me interessou mas a forma como ouvi ali retratado por aquele casal é uma enorme complicação! Eu não quereria aquilo, assim, daquela forma, para mim. Uma pessoa pensa em poliamor e pensa em amor livre, não naquela coisa tão complexa e cheia de regras e nomes complexos. 

E, por coincidência, dias depois mostraram-me a sátira que a Joana Marques fez e eu acabei a concordar com a maioria das críticas. Aquilo que aquele casal descreveu não são relações humanas mas sim uma tese de doutoramento, ainda que envolvido por verdades. 

E a verdade é que, por muito que custe a muita gente, não há relações monogâmicas. Eu pelo menos não conheço nenhum casal monogâmico. Vocês conhecem? Monogamia é um parceiro para a vida. Não é ser fiel numa relação e passado um tempo ter outra relação fiel. Depois, a monogamia é uma construção cultural e social, e não sou eu que digo, diz quem sabe do assunto como o Júlio Machado Vaz ou o Daniel Sampaio. Mesmo na natureza, quase não há espécies monogâmicas. 

E eu não sei como deveria ser para funcionar melhor, e as pessoas que vivam como acharem que é melhor para si. Mas, uma coisa é certa, setenta divórcios por cada cem casamentos é um ato de fé. Algo está muito errado. Ou é a sociedade pós-moderna ou é o tipo de relações que as pessoas vivem nesta sociedade, cada vez mais acelerada e sem tempo. Relações fugazes, pessoas egoístas e narcisistas, cada vez mais menos importadas com o outro e só interessadas o seu umbigo. Pessoas que cada vez menos sabem aquilo o que querem e andam no mundo por ver andar os outros.

Mas, para repensar o tema "outras formas de amar", aqui deixo um artigo publicado no El País a 16 de Abril de 2023:




"Há outras formas de amar. A busca pelo sonho romântico pode ser contraproducente e tornar as pessoas infelizes. Precisamos de uma nova teoria do amor que considere, entre outros modelos, o poliamor.

A história de amor romântico que todos aprendemos começa com um rapaz e uma rapariga. Conhecem-se, cortejam-se e apaixonam-se. Enfrentam contratempos e dificuldades que devem superar, mas, contra toda a lógica, acabam juntos "e viveram felizes para sempre".

Isso significa que a maior parte do relacionamento — a maior parte do amor — desenrola-se depois de terminar o conto. Como se supõe que o amor deve ser uma vez que atingimos esse "viveram felizes para sempre"? Devemos acordar todas as manhãs com o coração alegre, cantando canções da Disney para os pássaros e as criaturas da floresta?

Claro, sabemos que esse é um objetivo pouco realista para a nossa vida. Assim como sabemos que os padrões de beleza criados pelos publicitários e influenciadores são um objetivo pouco realista para o nosso corpo. Mas há um inconveniente: saber isso não nos impede de nos compararmos com essas referências pouco razoáveis. Continuamos a sentir-nos insuficientes quando vemos esses corpos "ideais" e percebemos a distância que os separa do nosso.

O mesmo acontece quando pensamos que a vida "ideal" é o "viveram felizes para sempre" no final de uma história de amor: a distância entre essa fantasia e a nossa realidade torna-se clara. Na vida real, podemos estar sozinhos, talvez por escolha própria ou talvez não. Ou, se tivermos um relacionamento, pode ser complicado ou turbulento. Ou, mesmo que tenhamos um relacionamento pacífico e estável, a nossa vida pode ter dificuldades e obstáculos de outro tipo, tornando esse "viveram felizes" tão realista quanto viver em Marte.

No entanto, poderíamos pensar: Não é bom ter um objetivo a que aspirar? Dessa forma, esforçamo-nos para alcançar um objetivo, embora na verdade seja inatingível, e esse esforço, sem dúvida, melhorará a nossa vida. Mas aqui está a questão: neste caso, não acredito que seja assim. Tentar tornar realidade a ideia romântica de um amor "viveram felizes para sempre" é um plano errado.

Porquê? O que há de errado em tentar ser feliz? Acaso "a busca da felicidade" não é um dos nossos direitos inalienáveis, tão crucial que é mencionado junto com "a vida" e "a liberdade" na Declaração de Independência dos Estados Unidos?

Como costuma dizer-se, é preciso ter em conta a fonte. A busca da felicidade faz parte da conceção americana de uma boa vida. Mas, em geral, até que ponto os Estados Unidos estão a melhorar a vida dos seus habitantes? Segundo o Centro de Controlo de Doenças de Atlanta, a esperança de vida nos Estados Unidos está a diminuir; e o censo de 2021 revelou que 11,6% — 37,9 milhões de pessoas — vivem na pobreza. De acordo com o relatório do índice de progresso social de 2022, "nos Estados Unidos, o progresso social permanece estagnado desde 2011 e está em declínio desde 2017". Existem múltiplos fatores que explicam essa situação lamentável, mas, de qualquer forma, o país não é propriamente um grande exemplo para "a busca da felicidade".

Os filósofos e outros teóricos têm vindo a afirmar há muito tempo que a busca da felicidade não te torna feliz. Pelo contrário, considera-se contraproducente. Isso é conhecido como o paradoxo da felicidade. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl escreveu em 1946 que "uma característica da cultura americana é que, uma e outra vez, somos instruídos a 'ser felizes'. Mas a felicidade não pode ser perseguida; deve acontecer." O filósofo inglês John Stuart Mill escreveu em 1873: "São apenas felizes... aqueles que têm a mente focada em algum objeto que não seja a sua própria felicidade: na felicidade dos outros, na melhoria da humanidade, até mesmo numa arte ou passatempo, que perseguem não como um meio, mas como um fim ideal em si mesmos. Assim, quando tentam alcançar outra coisa, encontram a felicidade no caminho."

Para pensadores como Mill e Frankl, a felicidade não é um objetivo, mas um efeito derivado de uma vida que tem significado para a pessoa que a vive.

E isso leva-me a suspeitar que devemos aplicar a mesma sabedoria quando pensamos em procurar o "viveram felizes para sempre" romântico como objetivo na vida. Talvez, em última instância, essa busca também seja contraproducente; e quando penso em quantas pessoas perseguem o sonho romântico apenas para acabarem infelizes, não posso deixar de sentir que há algo nisso.

Desde que Frankl escreveu nos anos 40 sobre "a ordem de ser feliz", tem havido uma tendência crescente, especialmente na cultura dominante americana, de "centrar-se no positivo" e enfrentar "apenas com boas vibrações" qualquer situação. O resultado pode ser que as pessoas que se queixam e outros considerados "negativos" sejam envergonhados ou ignorados. Isso é chamado de "positividade tóxica". Um elemento importante desta mensagem é que, se não somos felizes, é nossa culpa porque não nos fazemos felizes a nós mesmos. (Não são consideradas questões estruturais como o racismo, o colonialismo, a misoginia, o capacitismo ou a pobreza. Apenas o individual importa).

Neste contexto, o "viveram felizes" romântico tornou-se o modelo de uma vida amorosa bem-sucedida, e o correspondente "romantismo tóxico" diz-nos que, se não alcançamos esse estado ideal, é nossa culpa ou um fracasso pessoal.

Então, o que se pode fazer? Muitas coisas podem ser ditas a respeito, mas acredito que uma das decisões mais importantes que podemos tomar é deixar de nos obsessar com a felicidade — seja na vida ou no amor — como ideal ou como objetivo. Em vez disso, precisamos valorizar mais a enorme variedade de experiências emocionais humanas, incluindo as chamadas emoções "negativas", como tristeza e raiva. Todas as emoções desempenham um papel importante nas nossas vidas e, na minha opinião, todas podem fazer parte do amor.

Quando decidi intitular o meu novo livro "Amor Triste", foi porque me fascinou a suposição de que o amor sempre tem que ver com a felicidade. Quando perguntamos a um amigo se o relacionamento está indo bem, perguntamos se ele está "feliz com" o parceiro. Se estão "felizes juntos". Tendemos a assumir que estão em busca do "viveram felizes" romântico com essa pessoa. Em contraste, quando pensamos num amor triste, geralmente imaginamos algo devastador. Desde a cultura clássica, com histórias como "Cumbres Borrascosas" e "Romeu e Julieta", até as nossas listas de reprodução favoritas e catárticas para as separações, na nossa cultura, o amor triste é representado como uma situação de fracasso total: atroz, devastador e explosivo. Parece que só conhecemos duas histórias de amor: o conto de fadas e a tragédia.

Esses dois relatos tão polarizados deixam de lado o imenso espectro de experiências complicadas e cheias de nuances que compõem a nossa vida e os nossos amores na realidade. Por exemplo, quando lutamos com a escala de cinzas de uma depressão de longa duração, não estamos felizes, mas também não estamos melodramaticamente tristes. No entanto, podemos estar apaixonados. Devemos entender o amor como algo que abraça todas as nossas emoções, até as mais monótonas.

Uma vez que esquecemos a história do "viveram felizes para sempre" como o único modelo de uma boa vida, abre-se todo um leque de possibilidades sobre como viver uma vida cheia de amor. Novas histórias surgem como possíveis modelos amorosos: o poliamor, por exemplo, onde é aceitável ter mais de um parceiro romântico ao mesmo tempo, com o conhecimento e o consentimento de todos. A ideologia romântica dos contos de fadas diz-nos que esta é uma forma de amar de segunda categoria ou depravada. No entanto, a realidade é que, quando todos os envolvidos se sentem mais confortáveis e completos numa dinâmica de relacionamento não monogâmico, envergonhá-los ou estigmatizá-los por seguir o seu modelo de boa vida está fora de contexto e é injusto.

Se deixarmos para trás a ideia de "viveram felizes para sempre" e a conceção romântica do amor, com o que substituímos? Se dermos ouvidos a Frankl e Mill e pensarmos que a felicidade não é um objetivo a aspirar, mas algo que deve ocorrer, então também podemos considerar que a felicidade numa relação não é um ideal ou um objetivo pelo qual lutar, mas sim um possível efeito derivado de um amor que possui outras qualidades.

Quais seriam essas qualidades? Na sua obra, Frankl baseia-se nas suas experiências com outros prisioneiros num campo de concentração nazi para tentar compreender o que diferencia uma vida que vale a pena viver de outra que não vale. O que importa, diz ele, não é a felicidade, mas ter um sentido, um propósito. E em tempos mais recentes, aumentaram os dados empíricos que apoiam a afirmação de que a felicidade deriva de encontrar significado na nossa vida, muitas vezes (como também propuseram Frankl e Mill) através da conexão e colaboração social. Suponhamos, portanto, que o objetivo supremo de uma relação amorosa não é a felicidade, mas sim ter um significado. Em que consistiria esse amor carregado de significado?

Quando os filósofos analisam a ideia de uma boa vida, costumam falar de eudaimonia, uma antiga palavra grega usada por Aristóteles para expressar as suas ideias sobre o "florescimento". Não sou muito adepta das ideias de Aristóteles sobre a eudaimonia (entre outras coisas, ele afirmava que o florescimento consiste em ser racional e virtuoso, e que só as pessoas belas podem alcançá-lo completamente). Em vez disso, prefiro focar-me nas raízes etimológicas ainda mais antigas de eudaimonia. É uma palavra construída a partir do prefixo eu-, que significa bom (como em euforia), e daimon, que significa espírito ou entidade sobrenatural. Portanto, uma vida eudaimónica é uma vida com bom espírito.

Não é necessário interpretar literalmente esse daimon ou espírito como uma entidade sobrenatural. Podem ser simplesmente outras pessoas: não é nada de novo que as relações prosperem quando contam com o apoio de amigos e familiares, e se ressintam quando estão sujeitas ao estigma social. Mas os daimon que influenciam as nossas vidas também podem ser mais abstratos: a "atmosfera" de uma reunião, um zeitgeist cultural ou até mesmo grandes conceitos amorfos como o capitalismo ou o patriarcado.

O que tento fazer no meu trabalho é desenvolver uma teoria do amor eudaimónico, um amor "com bom espírito", que leve em consideração as profundas e dramáticas repercussões da nossa capacidade de nos conectar. A nossa vida amorosa não se desenrola no vazio ou "em privado": mesmo quando nos isolamos na nossa vida convencional ou fechamos a porta do quarto, levamos connosco a nossa história social e a nossa bagagem cultural.

Amor eudaimónico significa amor colaborativo, dentro e fora da relação. É um tipo de amor cujo objetivo não é a felicidade individual das pessoas naquela relação, mas os projetos criativos e as relações sociais que dão sentido à nossa vida, as coisas que fazem com que valha a pena viver, segundo pensadores como Frankl. É o amor que conta com o apoio de amigos, família, comunidade e sociedade (por isso é tão importante deixarmos de estigmatizar todas as formas de amor que se afastam do que consideramos "normal"). O amor eudaimónico não é definido por nenhuma emoção em particular, mas está aberto a toda a gama de experiências emocionais, positivas e negativas. Não precisa ser um amor romântico, embora possa ser: o amor a um amigo ou o amor à família também podem ser amor eudaimónico.

E não é necessariamente feliz. Mas talvez seja a nossa melhor oportunidade de sermos felizes.

Sempre que não o procuremos por esse motivo.

---------------------------------------------------------------------------

Carrie Jenkins é professora de Filosofia na Universidade de British Columbia, Canadá. O seu livro "Amor Triste. As relações amorosas e a busca de sentido"

El País | 16 de Abril | 2023

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Se Me Traíste Não Precisas de Me Contar Pormenores

" São cada vez mais raros estes amores.


O que eu acho é que agora as pessoas confundem paixão com amor. E depois quando a paixão acaba - que é por natureza uma coisa efémera, muito intensa, avassaladora e felizmente as pessoas unem-se pela paixão e fazem um projeto de vida - mas depois a paixão tem as suas vicissitudes e acaba. E o que eu digo a muitos casais jovens que me procuram numa situação de rotura ou mesmo depois de separados e me dizem "o amor acabou", eu costumo dizer "não, o amor não começou", porque o amor é uma construção e essa construção demora tempo e, no meu entender, é preciso ultrapassar as crises. 

Eu não sou nada contra as relações curtas e casuais, não tenho nenhuma posição moralista sobre isso, o que eu acho é que uma relação amorosa longa é uma relação que confere estabilidade emocional e confere segurança psicológica. E essa é uma dimensão importante da nossa vida. Nós temos a sobrevivência biológica (comer e beber) mas depois há outra parte muito importante que é a sobrevivência psicológica e, no meu entender isso deriva muito das relações que nós tivemos com os nossos pais na infância (que são importantes emborra não totalmente determinantes) e depois as nossas relações com o par romântico. São relações muito importantes e estruturantes da nossa maneira de estar no mundo. 

O casamento como instituição eu acho que está em crise e teve um peso muito grande na vida das pessoas. É como se as pessoas tivessem que ser como as princesas e os príncipes, tivessem que casar e ser felizes para sempre. O livro abre com uma citação de um mestre americano que diz que "o casamento é um estado horrível, a coisa pior é ser solteiro". Eu concordo muito com isso. É muito difícil ter uma relação ao longo do tempo com uma pessoa, mas, como eu lhe dizia é estruturante, transmite serenidade e é um antídoto para a ansiedade das nossas vidas. Sobretudo se formos capazes de partilhar a vulnerabilidade que todos nós temos com a pessoa que está ao nosso lado. Há vários ingredientes dessa relação estável. Um deles é a delicadeza no trato. É muito interessante porque nós verificamos que muitos casais não se tratam bem. Não têm gentileza, amabilidade. Isso é fundamental numa relação a dois. Pensarmos o que é que as nossas palavras vão provocar no outro. E depois há outra coisa também que é muito característica da sociedade atual, que é a pessoa estar muito auto centrada. Ser muitas vezes narcísica, cultivar o seu bem estar pessoal, o bem estar do seu corpo e do seu espírito. Isso também é um ingrediente contra a relação a dois porque temos que pensar no outro. 

Mas também defende que há coisas que não devemos dizer...

Sim, isso é também outro mito, que se deve dizer tudo ao parceiro(a) com quem estamos. Eu acho que há coisas que são do nosso íntimo, por exemplo fantasias que nós temos a meio da noite, pensamentos estranhos que nos aparecem... Não temos que partilhar tudo. E, muitas vezes, essa partilha vai ferir o outro. Na história desse livro "Para tão curtos amores tão longa vida" entre o João e a Luísa, eu fiz de propósito e os dois foram infiéis, porque a infidelidade é um tema muito importante na relação prolongada e então pus um a contar e o outro a não contar. Isso foi propositado para suscitar a discussão sobre um tema que me interessa muito que é, justamente, revelação, o que é que nós devemos contar. E quem ler o livro fica com essa dúvida. O que é que é certo contar ou não contar. Não tenho uma resposta para isso, o que eu acho é que, em cada situação cada pessoa deve refletir sobre o que deve contar e não deve ter o mito de contar tudo o que se passa à pessoa com quem vive. 

É muito difícil superar de uma traição?

O caso do João e da Luísa do meu livro ilustra isso. Ele soube da infidelidade da mulher e muitos anos depois continua a falar sobre isso. Eu acho que nós temos que desdramatizar um pouco a monogamia e a infidelidade e não temos que dar um cunho tão crítico a certas situações de infidelidade porque elas são muito diversas. Por exemplo, eu digo no livro que há casais felizes onde aparecem traições. E as pessoas não sabem porquê. Foi uma situação que ocorreu, não sabem explicar porquê. Por exemplo, o caso da Luísa que foi um caso que durou um ano, não é tão pouco quanto isso, ela, de facto nunca quis pôr em jogo o seu casamento. Foi uma coisa que aconteceu, que foi seguramente importante para ela, não foi uma relação de curta duração, para uma relação extra conjugal uma relação de um ano é significativo, mas nós podemos pensar que a ligação com o João era a relação mais importante para ela. Ela nunca quis pôr isso em causa. O problema é que ele pôs em causa quando se sentiu traído. Esse casal tem que fazer um movimento que é um movimento de reparação no caso de quererem continuar juntos e esse movimento de reparação é difícil de fazer porque as pessoas ficam muito magoadas. 

O ciúme do homem é diferente do ciúme da mulher. O homem tem muito ciúme ligado à sexualidade. Portanto ele fez muitas perguntas "quantas vezes fizeste amor com ele"? "como é que foi"?, e ela nunca respondeu. E fez muito bem em não responder. Porque não se pode alimentar essa situação porque a pessoa que está a fazer perguntas é insaciável e, se faz dez a seguir faz trinta. Portanto, é preciso dizer "isto aconteceu, vamos agora projetar-nos no futuro". Não esquecer porque isso não é possível, mas vamos avançar no sentido da reparação do nosso sofrimento. Agora, se a pessoa está permanentemente a atualizar o que se passou nessa altura não é possível continuar. 

Acredita na monogamia ou é uma construção cultural e social?

É uma construção social e cultural. O que eu diria sobre isso é que a monogamia é desejável mas é difícil. 

Entrevista de Inês Menezes a Daniel Sampaio no programa Fala com Ela a propósito deste seu último livro. 

domingo, 13 de agosto de 2023

O Amor Para Sempre é o Amor Impossível


"A 8 de março de 1933, o poeta Pedro Salinas escreveu uma carta manuscrita dirigida à sua amante, Katherine Whitmore, que constituiu um dos monumentos literários ao amor mais desconhecidos e melhores expressos, do século XX. Não é à toa que Salinas ficou conhecido, na geração de 27, como o “poeta do amor”; não é também à toa que os seus melhores trabalhos, que se acreditava serem dirigidos a Margarita Bonmatí, sua esposa, foram na verdade dirigidos a Whitmore, com quem viveu um amor apaixonado e febril durante 15 anos em que mal se viram.

“Eu continuo a falar, tenho que continuar a falar das tuas cartas. Elas possuem-me, estão presentes em mim, sou impedido pelo que me impede de pensar nelas. Vejo, entre sonhos, minhas linhas verdes, sobre o azul listrado em dois tons. (Aquela faixa azul que parece luz de verão filtrada por uma persiana)” é o início da carta.


Em 2002 foi publicado um livro surpreendente: Salinas's Correspondence with Whitmore: Letters to Katherine Whitmore. O epistolário secreto do grande poeta do amor. Surpreendente por vários motivos, desde logo porque Withmore sempre foi escrupulosamente discreto sobre o relacionamento (tão secreto que quase ninguém sabia, e quando Margarita Bonmatí, esposa do poeta soube, tentou o suicídio), e só permitiu a sua publicação quando ele morreu (foi cedido  à Universidade de Harvard em 1999 por instruções de Whitmore, que morreu 15 anos antes). Surpreendente também, porque naquelas cartas de Salinas há uma exibição absoluta da sua intimidade que é avassaladora. Referimo-nos ao autor de La voz a ti due (1933) e Razón de amor (1936), dois poemas universais escritos na febre dos seus sentimentos por Withmore; portanto, cartas particulares também escritas na época em que deixou essas obras.

Após a tentativa de suicídio da esposa de Salinas, Katherine Whitemore tentou romper o relacionamento. O casal Salinas-Bonmatí viveu nos Estados Unidos durante o exílio. Na verdade, eles viram-se sobretudo nos primeiros meses que ela passou em Madrid. Houve muito poucos encontros nos 13 anos seguintes, embora tenham deixado uma enorme correspondência. Foi um amor antes do amor, platónico e desenfreado, que, ao não se consumar, ajudou Salinas a escrever sobre ele de uma forma que ele não poderia ter escrito. A musa no seu melhor. "A vida realizada, a vida de facto e a vida desejada, a vida na esperança, são duas áreas diferentes, tragicamente separadas."


Histórias de Amor 2 / Publicado no jornal El País a 9 de Agosto de 2023


Eu tendo a concordar que o único amor para sempre é o que não é vivido, é aquele que não possui, é o que quer mas mas que, por algum motivo não pode ter. É o amor que sobrevive à rotina, às toalhas pelo chão, às dores de cabeça, ao cansaço da lida doméstica... Mas também porque, como dizia Oscar Wilde: "Cada pessoa acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente"...

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Amor Contactless


Uma das notícias desta semana é que o nosso cartão de cidadão vai passar a ser contactless, sem contacto, basta aproximar e já está, tal e qual os cartões multibanco (e nunca foi tão fácil comprar, pagar e ficar sem dinheiro na conta!) 

Tudo está cada vez mais rápido, mais fácil, mais descartável. Tudo está cada vez mais contactess.

A sociedade humana evoluiu tanto e estamos tão modernos que também as relações humanas, quer sejam de amizade ou amor, também elas passaram a ser contactless. Sem contacto, sem afeto, sem toque, sem conversa, sem presença. Contactless.

Bem vejo à minha volta. Não se conversa, mete-se os fones nos ouvidos e está cada um no seu mundo virtual a ser escravo do divertimento muitas vezes idiota.

Ainda por estes dias o Júlio Machado Vaz dizia que as queixas dos casais no que se refere à intimidade evoluíram do "ela fica a ler na cama" para "ele fica a ver televisão" para "fica cada um na cama a olhar para o telemóvel. 

A ditadura do divertimento matou as relações humanas. E o amor passou a ser contactless. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Desgostos de Amor em Tempos de Instagram


No Instagram, a rede do ego por excelência, o amor não só é maravilhoso e mais intenso do que na vida real; a água do mar é mais turquesa, os diamantes brilham mais e ninguém tem barriga ou rugas. As separações também são idílicas e harmoniosas... até que deixem de ser.

Um dos primeiros a patentear esse modelo de separação acordada e em bons termos foram Sara Carbonero e Iker Casillas, que há poucos dias se meteu numa chatice ao declarar-se gay no Twitter, farto de tantas namoradas que lhe atribuem desde que estão separados. 

Belas fotos e palavras sinceras são escolhidas para dizer adeus. Exalam tanta harmonia que nem parece o fim de um relacionamento romântico.
Shakira e Piqué também compartilharam uma imagem juntos no Dia dos Namorados deste ano, quando ele já arrastava a asa para outra. A imagem já tem 33 semanas e não há um dia que um seguidor não peça para a colombiana apagá-la.

Em tempos de exibição da vida privada nas redes, o ditado "diz-me o que presumes que eu dir-te-ei o que te falta" foi superado por outra teoria: as imagens mais açucaradas e com os protagonistas mais apaixonados do que nunca assinando mensagens de amor eterno, o mais provável é que a coisa termine de forma conturbada. 

Excerto traduzido do texto "El desamor en tiempos de Instagram" publicado no jornal La Vanguadia.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Demonstrações de Afeto e Palavras Gastas

Gostei muito do último Fala com Ela, uma conversa de Inês Meneses com Gregório Duvivier, a propósito do espetáculo que veio fazer a Portugal com o seu amigo Ricardo Araújo Pereira. 

Uma conversa muito interessante em que o comediante da Porta dos Fundos aborda a sua vida pessoal, do que mudou desde que foi pai há três e falou também das diferenças que encontrou em Lisboa. 

Sentes que algo mudou cá? 

Mudou. Uma invasão bárbara de visigodos, alemães, franceses. Todo lugar novo que abriu tem "The" na frente. "The Prego", "The Tasca". Eu entro e as pessoas falam "Hello". Coisa estranhíssima. Não entendo isso.

Sendo uma espécie de ativista, falou também, da realidade política brasileira. Do inferno que tem sido o Brasil, desde o impeachment de Dilma, à eleição de Bolsonaro, aos seiscentos mil mortos de brasileiros por causa da pandemia. 

No Brasil, 90% da população adulta já se vacinou. Contra um presidente que disse que a vacina COVID provocava SIDA. É um ótimo indicador que a população brasileira não embarca mais nesse barco.

A maioria da população vê a prisão de Lula como injusta. Mesmo os que não gostam dele.
A perseguição que fizeram ao Lula, tão desprovida de direitos transformou-o num mártir. Deu-lhe uma sabedoria que ele talvez não tivesse. Ficou um ano na prisão e acho que leu uns 50 e tal livros. Ele sai maior da prisão dele.

É também muito enternecedor ver como Gregório, estrela de um país gigante como o Brasil mostra-se  sempre extremamente humilde e elogioso com Ricardo Pereira:

"Não dá nem para encher o saco dele (para fazer mais espetáculos em Portugal). Ele não tem rede social. Das coisas que mais admiro nele".

Mas no fim do programa, quando Gregório falou do seu mais recente livro "Sonetos de Amor e Sacanagem", lembra que a palavra "lamechas" não existe no Brasil.  

A Inês Meneses reflete que nós portugueses temos um problema com as demonstrações de afeto. Gregório concorda que os portugueses têm um problema a falar do amor, acham "piroso", outra palavra que não tem no Brasil.  

Ironicamente, no Brasil, gastam-se as palavras e fala-se "eu te amo" a torto e a direito. Ama-se tudo, qualquer coisa. E isso sim já está a ser importado por nós. "Eu amo esta saia, este filme, este carro". Ama-se tudo e, depois, as palavras ficam gastas. 

E como é que quando se diz "eu amo" a torto e a direito, depois damos importância quando o ouvimos estando numa relação amorosa?

Gregório remata com o poema de Eugénio de Andrade "As palavras estão gastas:

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

terça-feira, 20 de julho de 2021

As Mulheres no Tinder e um Site Que Não é Para Mim

Há coincidências curiosas, ou, então, só reparamos nelas quando estamos sugestionados. Tinha acabado de comprar o telecrã (televisão de mão com internet que fica no saco porque continuo a usar como telemóvel um antigo Nokia) e, ao mesmo tempo, ouvi vários programas a falar do Tinder, nomeadamente na Prova Oral da Antena 3. E também a minha colega de trabalho disse-me na altura: "Pronto, agora também podes instalar o Tinder"! 

Mas a verdade é que, se quisesse, já o poderia ter feito no computador como aliás acabou por acontecer ainda que, posteriormente comecei a usar na empresa, motivo pelo qual comprei o telecrã: entreter-me numa empresa onde passava oito horas por dia sem fazer nada e onde até li o Ana Karenina em pouco mais de um mês.

E poderia instalar uma aplicação de engate ou todas as outras que quisesse porque, afinal, estava de novo solto para fazer o que quisesse, mas, sempre à distância, pois estávamos (e ainda estaremos mais uns tempos) a viver uma pandemia e atravessamos não sei quantos Estados de Emergência e, com proibições, por exemplo, de passar concelhos diferentes. 

Não era a primeira vez que me registava num site de encontros, mas foi a primeira vez num site que, de facto, tinha muitas mulheres registadas. O meu melhor amigo até já me tinha dado um conselho de me registar num outro site - "foi nele que nos conhecemos" - mas confesso que achei a ideia de pagar 25€ por mês desinteressante. Ora se eu nunca fui às putas, ia agora pagar para ter só a oportunidade de poder eventualmente falar com mulheres na net? Era o que haveria de faltar!

Depois do registo feito lá comecei a deslizar para a direita e para a esquerda, e, depois de ter mandado umas largas dezenas de mulheres para o lado errado e gastado os "super likes" todos por engano, lá comecei a atinar mais com aquilo e as correspondências começaram a aparecer. 

As primeiras impressões foi que aquilo causa extrema ansiedade mas algum vício também, como se fosse uma espécie de jogo em que se quer chegar ao fim num instante. A pressão de decidir em segundos se aprovamos ou desaprovamos alguém, até porque o algoritmo já tem outras largas de dezenas de perfis mulheres em espera. E como é que se aprova ou desaprova alguém só por uma foto, muitas vezes cheia de filtros, e mais importante, tantas vezes sem ter nada descrito, nem sequer os interesses? Então comecei a usar a regra, se não tem nada escrito, nem sequer os interesses se deu ao trabalho de colocar, então, dessas, escolho só as bonitas! Das que têm um perfil mais descritivo escolho as que tenho interesses comuns. E assim fui fazendo e lá comecei a conversar com algumas mulheres em que a maioria não tinha fotografia, tal como eu deixei de ter, porque me parecia que poderia causar algum ruído desnecessário.

O estereótipo da mulher que me aparecia era sempre o mesmo: entre os 40-50 anos, licenciada e que não está ali para "ONS" e com pouca disposição para comunicação. E perfil após perfil lá aparecia aparecia: "não interessada em ONS". Mas que caralho de merda é essa da ONS? E lá tive mesmo que pesquisar para ficar a saber que significava one night stand, porque na primeira vez até pensei que OMS estava mal escrito! 

Mulheres que parece que é preciso comprar-lhes a vontade para comunicar. Acho que por uma questão de cordialidade, quem dá "match" deveria ser a pessoa a interpelar o outro primeiro. Mas nem assim, eu se quisesse que falasse porque a senhora dá-se ares de muita importância para meter conversa com a ralé. 

Mas mesmo quando a conversa fluía tinha sempre que ser eu a voltar a interpelar a senhora nos dias seguintes. Sempre foi assim e era se quisesse, porque se há muita mulher no Tinder, por certo haverá muitos mais homens e o mulherio tem muita solicitação a quem atender. Mas esse é, precisamente, o problema. Demasiadas atenções, demasiadas conversas com pessoas atrás de pessoas e chegou uma altura em que eu tinha mesmo de tirar notas sobre as utilizadoras para depois não me baralhar todo para saber quem era e gostava do quê. Aliás, antes mesmo de começar a utilizar li os conselhos da própria aplicação, que diz, que não devemos interagir com mais de nove pessoas, e faz todo o sentido, precisamente porque, como referi, a pessoa começa a baralhar-se e acabamos por não conhecer ninguém, fica tudo no ar e é uma puta duma confusão.

E o meu problema, quem sabe, talvez agudizado pela idade, é que eu cada vez menos sou dado à persistência de andar sempre a reclamar atenção a quem se dá ares de importância. Não, minha cara, se não há reciprocidade desinteresso-me, corre tu atrás de mim se quiseres. Não queres conversar? Boa sorte então. E é por todos estes fatores: por causar ansiedade, vício em estar sempre a escolher os menus do dia, por saturar, pela forma como as mulheres se comportam, e, por ser verdadeiramente inútil naquilo que se propõe que abandonei o Tinder. 

# 400 Match no Tinder

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Amor em Tempos de Máscaras


 Hoje saí de casa para mais um longo e duro dia de trabalho sem ter nada que fazer, entretido nos últimos capítulos do Ana Karenina intercalando com vegetar de vez em quando com o telecrã. Saio, no carro o relógio ainda marca 8:30 porque ainda não me dei ao trabalho de acertar as horas, ponho o motor a trabalhar, ligo os médios e lá vou eu, devagarinho aldeia abaixo. 

Um quilómetro depois, passo pela mesma menina de todos os dias, sozinha na paragem de autocarro, e ainda há tão pouco tempo uma criança e agora cada vez mais com formas de mulher. Vestia hoje calças brancas  que condiziam com a máscara branca. 

Continuando a descer por entre mais curvas e contracurvas, quinhentos metros adiante, tendo já começado a subir em direção à estrada nacional, e logo após a curva mais fechada de todo o percurso, o momento romântico do dia. 

Mal percorro a curva e começo a ver a nova prolongada subida, deparo-me com dois adolescentes na paragem. Trata-se mesmo só de uma paragem de autocarro, sem as comodidades, por falta de espaço, do comum abrigo, mais ou menos moderno, de betão ou de vidro, e com o banco onde as pessoas se podem sentar. Eles eram uma rapariga, em quem reparei primeiro, cheiinha, de cabelos escorridos pelos ombros, e sorridentemente desconfortável de máscara no queixo. Ele, mais alto e trinca-espinhas, abraçava-a pela cintura e tomava conta do momento, beijando-a, certamente não tão à vontade quando a minha carroça lhes surgiu na estrada. 

É assim que, em tempos de pandemia, que os mais jovens vivem os seus primeiros amores, na clandestinidade de uma máscara caída no queixo. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Amor ao Primeiro Ouvido

Depois dos inúmeros telefonemas que fizemos ao longo do último mês, finalmente conheci o senhor Mário e ele acabou também por me ficar a conhecer a mim. Eu não o imaginava assim mas julgo que ele ficou bem mais surpreendido comigo, e foi por isso mesmo que, depois de me ter metido no carro sorria para mim mesmo, com o ar de surpresa com que ele me olhou, quase boquiaberto.

Se eu passasse por ti na rua sem te conhecer, nunca que diria que és a pessoa que és.

A visão é um dos sentidos mais importantes que temos mas, nas relações humanas, não raras são as vezes que, infelizmente, desvia-nos do essencial e foca-nos no supérfluo. Concentra-nos demasiado no papel que embrulha e ignora o que está lá dentro. Claro que todos nós gostamos de rostos atraentes, de sorrisos bonitos com dentes direitinhos e corpos tonificados e com esta ou aquela característica consoante o gosto de cada um.  Mas já por diferentes vezes eu já me perguntei se por caso fôssemos todos cegos, se escolheríamos as mesmas pessoas com que nos envolvemos romanticamente. E a resposta é: não.

Os ouvidos não vêem. Os olhos vêem mas não prestam atenção.

E o coração, precisa de ver ou de escutar?

A partir do momento que iniciamos a comunicação com uma pessoa que não conhecemos pessoalmente nem sequer imaginamos como é fisicamente, de imediato começamos a pintar-lhe o perfil na tela em branco. E ao longos dos últimos quatorze anos muitas foram as vezes que isto me aconteceu. E a grande aproximação, principalmente se começamos pela escrita, é a voz. E agora que penso, veja-se como já existem video-chamadas há tantos anos, mais de dez certamente, mas as pessoas continuam a colocar os telemóveis nos ouvidos e não nos olhos. Não é curioso isso? Foi assim tão importante essa invenção? Sim, se for para fazer umas poucas vergonhas certamente que tem a sua grande utilidade da estimulação visual, de resto, a verdade é que ainda hoje, seja nas empresas ou do ponto de vista particular, não tem grande utilidade.

É muito curioso que agora, até nas redes sociais e tudo, que me vou apercebendo de coisas que já toda a gente sabia menos eu. Coisas como, num vídeo ou numa fotografia em que alguém está a falar de determinado assunto, as pessoas muitas vezes vão ignorar o que está a ser dito, e vão reparar na estante que está lá atrás ou em todo e qualquer pormenor sem importância e a mensagem que é importante perde-se. Os olhos não filtram, muitas vezes perturbam. Há um termo na fotografia que era revelada em película que se chamava grão ou ruído. E o mesmo se passa com os nossos olhos analógicos. Perante um determinado cenário eles focam-se um determinado ponto que lhe interessam, e tudo à volta fica granulado, com ruído, desfocado.

A este propósito observei por estes dias um bom exemplo. Naquele programa dos agricultores, o mais jovem agricultor tinha em casa três jovens mulheres. De imediato focou-se só numa e toda a sua linguagem corporal denunciava-o claramente. Olhava sempre para a mesma, a que de imediato reclamava mais atenção como se fosse uma cria de pássaro a piar mais alto e a abrir mais o bico que as outras. E ele caiu no engodo e só alimentava aquela cria que ia ficando cada vez mais gorda ao passo que as outras, se calhar tão mais cheias de virtudes, ficaram esquecidas. E o que qualquer homem no lugar dele deveria fazer era tratar todas as convidadas por igual, ouvi-las a todas por igual. Mas não é isso que as pessoas fazem. E eu quase que aposto que, se lhes fossem só mostradas as fotografias das concorrentes, a escolha deles recairia exatamente na mesma pessoa que vão escolher, ao fim de todo aquele tempo para supostamente as conhecer.

Não há amor à primeira vista. Há beleza à primeira vista.
Há beleza à primeira vista para saber se estás, ou não, à minha altura. Há conta bancária à primeira vista, para saber se és, ou não, um bom partido para mim. Há a pressão social. E o que é que os outros vão dizer? E não duvido que na maior parte dos casos é isso que pesa: a pressão social.

Eu namorava contigo mas só se cortasses o cabelo.

Por artes mágicas, foi também numa Primaverava passada, que uma certa desconhecida de uma terra distante para onde, curiosamente, eu  há vinte anos, todos os anos me dirigia, haveria de me telefonar. E eu sempre achei, ou quis achar, ou comecei a querer acreditar porque a vida tem-me mostrado que comigo é assim que vem acontecendo, que nós andamos sempre à volta daquela pessoa com quem eventualmente um dia haveremos de chocar. E nos vinte anos a correr para aquela localidade, é bem provável que já tivéssemos estado bem próximos, mas quis o sortilégio da vida que haveria ser naquela Primavera, por causa dum interesse comum, que só naquele ano é que tinha passado a ser comum. Se naquele ano, por um milhão de pequenos acasos, esse interesse não tivesse sido plantado na sua cabeça, não teríamos tido oportunidade de ter chocado um contra o outro.

E o tal dia que me haveria de telefonar chegou. Os dois desconhecidos chocaram. A conversa decorria com tal sintonia e interesse que até me haveria de esquecer dum encontro lá com a malta do ténis-de-mesa. Todo eu era todo ouvidos e estava a gostar muito do que estava a ouvir daquela pessoa eu não sabia absolutamente nada: idade, estado civil ou índice de massa corporal. Nada. Falava-me da paixão comum das plantas; que certo dia carregou o carro com livros e os doou à biblioteca (logo eu que os continuo a acumular sem ler metade). Falava-me de Mujica e do tempo, e de como todas as coisas que temos não são compradas com dinheiro, mas sim compradas com o tempo que perdemos a trabalhar... E que coisa tão bonita de se ouvir.

Ouvindo-a com atenção, a determinada altura já me tinha decidido encantar-me bem antes de saber se um dia ainda nos iríamos conhecer pessoalmente...

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Porque o Amor é o Que Somos


Esta noite
Eu estou livre
Tão livre

Pela primeira vez
Eu tenho visto
Uma vida nova
Vida nova

Começar a respirar

E tu vieste para mim
De algum modo
E minha vida
Nunca será a mesma

(E um dia tu vais me sentir
Um sussurro na brisa)

E naquela noite
Como eu sonhei
E eu me afastei

Para outro lugar
Onde falaste comigo
Deste dia
Deste dia

E vieste para mim
De algum modo
E minha vida
É como um furacão

Pois tu és minha
E eu sou teu
Para a vida

O medo é apenas uma ilusão

---------------------------------------------------------

Numa vida
Há um momento
Para despertar

Ao som de
Do seu batimento cardíaco
Intacto

E tu estás agora livre
E eu permanecerei
Sonhando

Vivo e consciente
O amor em que eu acreditava

E um dia vai-me sentir
Um sussurro na brisa
E eu ver-te-ei parado lá
Destemida

E eu falo contigo silenciosamente
Mas tu vais-me ouvir
O sentimento é o maior que eu já conheci

Volta para mim
Por favor acredita

O sentimento é o maior que eu já conheci
Não acredito que foi apenas uma ilusão

O sentimento é o maior que eu já conheci

E um dia vais-me sentir
Um sussurro na brisa

------------------------------------------------------

Agora que te encontrei
Não te vou deixar
A Terra continua a girar
Espíritos refletindo
O meu coração bate por ti

Fora do meu corpo
Hoje à noite, na minha mente
Preciso que esperes

Uma promessa de futuro
Sonhando às cores
Estarmos juntos
Espíritos refletindo
Os sentimentos são tão reais
A beleza é infinita
Nesta noite, na minha mente
Eu preciso que me esperes

Fogo
À noite
E almas
Em voo
E tempo
Pode curar
Todas as cicatrizes
Ocultas

Porque o amor
É o que somos
Quão perto
Ou a que distância
E vida
Vai trazer
A verdade
Em sonho

The Lost Song (part 1, 2 e 3) / Anathema (2014)


domingo, 1 de setembro de 2019

Interessa Mesmo Que Eu Esteja a Namorar?

Via Pinterest

Há muito tempo que me demonstravas receio que eu voltasse a namorar. Se por um lado querias muito que eu encontrasse alguém especial, que aos teus olhos me merecesse, e com quem eu pudesse ser feliz, por outro lado isso deixava-te desconfortável, porque sentias que isso nos iria afastar ainda mais.

Eu sei que é um paradoxo fodido. Querer a felicidade de alguém, nós mesmos querermos que pudéssemos ser nós a fazer o outro feliz, mas não o podermos fazer. E como é que se pode querer a felicidade do outro, se ver o outro feliz implica vê-lo sem nós. Fodido, hein?

Mas muito sinceramente, interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Afinal, de que é que adiantou eu não estar a namorar durante os últimos novecentos dias se nem por uma só vez nos pudemos ver? Se deixámos de falar ao telefone, e se passam meses sem nos correspondermos?

Interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Pois eu acho que não interessa nada. Tal como não interessa que tenhas ainda, ou não, marido. O que interessa é o que nós sentimos um pelo outro, e que eu, sinceramente, acho que não vai mudar tanto assim com o tempo, mesmo que um de nós se mude para um planeta distante. Diferentes são as nossas vidas que têm se seguir, como as de toda a gente, dia após dia, após dia, até ao dia final.

E na vida não dá para fazer Pausa. Os dias correm. Novecentos dias passam a correr. Quando mal dermos conta estamos velhinhos e desperdiçamos toda uma vida sem nos falamos. E isso sim é um bocado triste. Eu sei, gostar de alguém com quem não se pode estar também é muito triste.

Mas, se não nos pudemos ter, ou se não nos quisemos ter porque não nos podíamos ter, interessa mesmo que outras pessoas entrem (e saiam) das nossas vidas? Tu sabes que não podemos fazer Pausa nas nossas vidas. A vida é uma correria. Cruzamo-nos com tanta gente que um dia esbarramos em alguém...

Tu andas por aí sabe-se lá por onde e eu estou aqui a escrever-te porque, para mim, verdadeiramente importante é não esquecer quem foi importante para nós. Por isso, diz-me, interessa mesmo que eu esteja a namorar?


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Estar Atento

"Uma vez, durante as férias grandes do meu primeiro ano da universidade, fui até ao Norte do Japão, e no comboio conheci uma mulher oito anos mais velha do que eu, também ela a viajar sozinha, com quem passei uma noite. Na altura, lembro-me de ter pensado que tudo aquilo parecia tirado das primeiras páginas do Sanshiro.

Ela trabalhava na secção de operações cambiais num banco de Tóquio. Sempre que tinha uns dias de férias, agarrava num punhado de livros e metia-se à estrada por sua conta e risco. - Viajar sozinha é muito menos cansativo - confidenciou-me. 

Tinha o seu encanto e ainda hoje estou para perceber como se foi logo interessar por um estudante universitário de dezoito anos, magro e taciturno como eu. E, contudo, parecia sentir-se nas suas sete quintas, ali sentada à minha frente naquela carruagem de comboio, a falar de tudo e mais alguma coisa. Fartava-se de rir à gargalhada. Por uma vez, até eu dei por mim a falar pelos cotovelos. Por mero acaso, saímos ambos na estação de Kanazawa.

- Tens onde ficar? - perguntou-me ela. 
- Não - respondi eu, que nunca na vida fizera uma reserva de hotel. 
- Tenho um quarto disse-me. - Se quiseres, podes ficar comigo. Não te preocupes - acrescentou -, o preço é exatamente o mesmo quer esteja ocupado por uma ou duas pessoas. 

Estava nervoso na primeira vez que fizemos amor, o que fez com que o meu desempenho deixasse algo a desejar. Apresentei-lhe as minhas desculpas. 
- Mas que bem educado me saíste! - exclamou ela. - Não precisas de pedir desculpa por tudo e por nada. 

(...)

Pronto, imagina o seguinte. Supõe que vais fazer uma longa viagem de carro com outra pessoa qualquer, e que vão conduzir por turnos. Nesse caso que tipo de pessoas escolhias? Uma que guiasse bem, mas que fosse imprudente, ou uma que não guiasse tão bem, mas que fosse prudente?
- A segunda, provavelmente - respondi eu.
- Também eu - retorquiu ela. - Temos aqui uma situação muito parecida. Ser bom ou mau, ser despachado ou desajeitado, isso são coisas de somenos. Na minha opinião, o que é importante é estar atento. Ficar calmo, estar atento ao que se passa à nossa volta. 
- Atento? repeti eu.

Ela não respondeu e limitou-se a sorrir. Mais tarde quando fizemos amor pela segunda vez, tudo correu na perfeição. Tive a sensação de começar a perceber o significado de "estar atento". Foi também a primeira vez que vi como reage uma mulher quando se abandona a um prazer intenso. 

No dia seguinte, depois de tomarmos o pequeno-almoço juntos, foi cada um para seu lado. Ela seguiu o seu caminho, e eu o meu. À despedida, contou-me que se ia casar daí a dois meses com um colega de trabalho. 
É ótima pessoa - acrescentou - toda sorridente. - Já andamos juntos há cinco anos, e agora vamos finalmente oficializar a situação, o que significa que, uma vez casada, vou deixar de poder andar a viajar por aí sozinha. Talvez seja esta a última vez. 

Eu era ainda muito jovem e pensava que histórias como excitantes destas aconteciam com frequência. Mais tarde, acabei por compreender, e de que maneira, que as coisas não eram bem assim. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Não Há Desgosto de Amor Como o Primeiro


Imagem emprestada da net

Frases feitas. "Não há amor como o primeiro".
Mas será mesmo assim? Afinal isso significa concretamente o quê? Que nunca iremos viver um amor tão intenso como com aquela primeira pessoa que, muitas vezes, o único mérito que teve foi, simplesmente, no nosso pequeno universo, ter sido a primeira a aparecer? E, se tantos anos depois, pudéssemos voltar atrás, e fizéssemos uma troca temporal na nossa vida? E essa pessoa, que teve a sorte de ter sido a primeira, aparecesse mais para a frente no tempo, e outra pessoa, de quem também gostamos muito, passasse a ter sido a primeira pessoa que amamos? Como é que seria? A importância das pessoas seria a mesma? Qual seria agora o amor mais importante? Seria a mesma pessoa, independente do lugar em que aparecesse, ou já seria a primeira? Mas então a relevância do amor mede-se só pelo acaso de termos esbarrado em determinada pessoa em primeiro lugar?

Para mim, o encanto do primeiro amor tem unicamente que ver com uma coisa: a descoberta das novas sensações. Foi com aquela determinada pessoa que descobrimos aquele sentimento forte, o amor, sentimento esse que, todos aqueles que o sentiram, acreditaram e quiseram que tivesse sido para todo sempre. Tal como foi com essa pessoa que, muitas vezes, se descobriram tantas outras coisas em conjunto. Mas, por este ou por aquele motivo, as pessoas afastaram-se, e, como que traíram esse sentimento. E o tempo há-de passar, e muitas vezes um novo amor há-de aparecer e as pessoas voltarão a estar sozinhas, e em vários momentos das suas vidas voltarão de novo a olhar o passado com nostalgia.

A nostalgia dos tempos passados. A mesma nostalgia que invade as pessoas quando se lembram de coisas que faziam na sua infância, quando se lembram dos colegas de escola ou amigos de longa data que não vêem há anos. Lembrar o primeiro amor é mergulhar na nostalgia do primeiro encantamento, no tempo em que ainda se pensava que o primeiro amor seria para sempre. Mas afinal não foi. E não raras vezes o segundo e o terceiro também não. E, se calhar, o melhor seria voltar ao passado, ao tempo do primeiro amor, e fazer tudo de novo, para que o primeiro amor pudesse dar certo e não tivesse sido preciso falhar tantas vezes de novo. Certo? Não, errado.

Eu, sarcasticamente, costumo dizer que não há amor como o segundo. Mas, em boa verdade, acho que não deveria haver amor como o último que vivemos. Porque é sempre desse que temos que nos curar. Não é do primeiro. O primeiro já lá vai, longe, distante, tantas vezes já lembrado e esquecido. Mas, quando o primeiro amor não resulta, as pessoas descobrem uma outra coisa, por vezes tão intensa e trágica: o primeiro desgosto de amor. E, por mais amores que voltem a ter, não mais voltarão a ter outro primeiro desgosto de amor, será, tão simplesmente, só mais um.

Então, se voltamos a amar alguém, que não se comparem amores, independente do lugar espaço-temporal que tenham ocorrido. Contudo, por mais amores que possamos viver, só por uma vez perdemos a ilusão que o primeiro amor seria para sempre. Daí que, se calhar, não se deveria dizer que não há amor como o primeiro, mas sim, que não há desgosto de amor como o primeiro.

terça-feira, 19 de março de 2019

Coisas Que me Lembram de Ti (2) - Árvore das Rosas




Um pouco por todo o lado vêem-se agora rododendros em flor. E agora, como todos os anos por esta altura, sempre que os vejo em flor, em especial com flores vermelhas, vejo-te a posares para esta fotografia num dos sítios mais bonitos do país, sítio esse que te levei a descobrirmos, os dois, juntos, pela primeira vez. 

Ensinei-te o nome, e repeti-te em diferentes alturas: "ro-do-den-dro"!
- Acho que já não te lembrarás! É normal. Eu sei que não é propriamente um nome de muito fácil memorização e podia-te ter explicado o nome, bem mais interessante que tem em português.

Rododendro vem de "Rhodon" + "dendron". Em que "rhodon" significa "rosa" e "dendron" significa "árvore". Ou seja, a um rododendro podes chamar-lhe: "Árvore das rosas".

Já viste que bonito que é? E agora já sabes que sempre que vejo uma árvore das rosas é-me impossível não me lembrar de ti...

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Pode-se Estar Apaixonado por Duas Pessoas ao Mesmo Tempo?

Peguei no livro e abri mais ou menos a meio, ao calhas:



Não. Não se pode estar apaixonado apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo. (enamorado parece-me uma palavra bem mais interessante e a cair em desuso) 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

#1000 - Quando me seguravas a mão, isso não era real?

Há filmes que, por este ou aquele motivo, nos ficam na memória por muitos anos.
Estávamos em 2001, ano do Dragão (e também eu nasci num ano do Dragão) quando fui ao cinema ver o filme "O Tigre e o Dragão" de Ang Lee. Já não sei ao certo de quem terá sido a escolha do filme, se minha se dela, mas suspeito que terá sido minha. 


À primeira vista é só mais um filme de artes marciais de exímios guerreiros(as) com espadas, que levantam voo e saltam por cima de casas e andam sobre florestas de bambus. Mas o filme é muito mais que efeitos especiais e muito mais que artes marciais. Este filme é bem mais que um Matrix asiático. Tal como está descrito na sinopse do filme, O Tigre e o Dragão é um filme de amor:

Dois romances ligados às artes marciais, um incapaz de reconhecer o seu amor e o outro vivendo uma relação apaixonada, cruzam-se num cenário de crime e de disputas políticas da China Imperial, quando a preciosa espada "Destino Verde" é roubada. À medida que cada guerreiro luta pela justiça, depara-se com o seu maior inimigo - e o inevitável e sofredor poder do amor...

De diferentes filmes que vi no cinema guardo diversas memórias e diferentes sensações que me causaram. E o final deste filme, e talvez não consiga explicar bem porquê, teve o condão de me causar um grande impacto emocional. Ainda bem antes da cena final e de se perceber o que iria acontecer em seguida, já os meus olhos se enchiam de lágrimas...


Revi o filme por estes dias. Foi o segundo filme do ano que (re)vi. O primeiro foi o Cyrano de Bergerac (1990). E ao rever o Tigre e o Dragão, mal ouvi o nome Li Bu Mai como que fui, de novo, transportado no tempo para aquela sala de cinema. 

Não há eternidade nas coisas que podemos tocar. O meu mestre costumava dizer:
Não há nada a que nos possamos agarrar neste mundo. Só deixando ir é que podemos possuir o que é real". 
Mesmo para um velho tauísta como tu, nem tudo é real. Quando me seguravas a mão, isso não era real?
A tua mão é fria e tem calos de praticares com a faca. Todos estes anos nunca tive coragem de lhe tocar. Há tigres aninhados e dragões escondidos no submundo, tal como os sentimentos. As espadas e as facas têm perigos escondidos, tal como as relações humanas. 
Eu dei a Espada Verde do Destino com sinceridade, mas trouxe-nos problemas. 
Reprimir os sentimentos só os torna mais fortes. 
Eu não posso reprimir o meu desejo. Quero estar contigo. Estar sentado assim, dá-me uma sensação de paz.


O Tigre e o Dragão teve dez nomeações aos Oscares e é considerado por alguns críticos como um dos melhores filmes de sempre. Para mim, mais importante que a crítica mais ou menos positiva é tratar-se de um dos meus filmes preferidos. 

E esta é a publicação 1000 deste blogue.