sábado, 28 de outubro de 2017

Pêssego ou Manga Laranja?

Acho que foi no fim-de-semana passado que comecei a pensar que no tinha acabado de pedir na roulotte. Perante a pergunta sobre qual molho eu queria no prego, respondi prontamente "Ketchup". Mas por que é que eu pedi Ketchup e não Mostarda ou Maionese? Eu estaria a pedir Ketchup porque de facto é um molho que eu muito aprecio, ou estaria a pedir por outro motivo?

Sinceramente já não me lembro quando comi pela primeira vez um prego em pão de hamburguer. Mas tenho quase a certeza que estaria com ela. E de certeza que até então nunca que tinha provado um prego com maionese, com mostarda e com ketchup para já ter formulado a minha escolha. Hoje, tantos anos depois, continuo a pedir Ketchup nos pregos em pão de hamburguer, porque era assim que ela me dizia que gostava. Que assim era melhor. Mas era melhor para ela. Será que era mesmo o melhor para mim? 

Há pessoas que chegam à roulotte e pedem tudo. Pedem todos os ingredientes que estejam disponíveis: alface, tomate, cogumelos, milho, cebola, ervilhas, batata-palha, ovo, queijo, fiambre, tabasco no bife, e mais algum ingrediente que me possa estar agora a escapar! E à pergunta - molhos? Respondem: "todos"! E a senhora ou o senhor, apertam no frasco de cada molho que está pendurado, e apertam-no como se estivessem a ordenhar uma vaca, e ejaculam para cima da sande montes de molho em círculos e mais círculos. E depois repetem no segundo molho e no terceiro, e fica para ali uma bela bodeguice. 

Talvez porque estas pessoas nunca que tiveram a oportunidade de parar para pensar sobre qual será o seu molho preferido. Então, na dúvida, pedem todos. Afinal, estão a pagar, e assim sentem-se reconfortados, estão a pedir o máximo de comida possível, o máximo de ingredientes, e o máximo de bodeguice. 

Por mim escolheram o Ketchup. E eu aprendi a gostar de Ketchup no prego. Talvez fosse agora preciso nascer de novo, para conseguir decidir o que eu gosto verdadeiramente. Ou então talvez de uma nova namorada, para me dar a provar outro molho, para eu provar outro sabor, e ver como afinal este novo melhor é melhor que Ketchup.

No filme Runnaway Bride, que saiu no mesmo ano que comecei a namorar com a pessoa que me fez gostar de Ketchup no prego,  também podemos ver a protagonista, a sorridente Júlia Roberts, que em determinado momento do filme é confrontada pela personagem de Richard Gere, que nem sequer nunca soube como gosta dos ovos. Ela gosta dos ovos conforme for a forma que o namorado com quem estiver no momento gostar. 



E, durante muitos anos pedi, a acompanhar, por norma, uma torrada ou uma tosta mista, um néctar de pêssego. E também agora vejo que era como ela gostava. Era o que ela bebia. E será, ocorre-me agora, que também ela ainda hoje, sem se aperceber, faz determinadas escolhas porque fui eu que lhas plantei sub-repticiamente? E que escolhas serão essas? Ou será que, por ter passado a dividir a sua vida com outra pessoa, já não restará qualquer resquício da minha influência? Se é importante para mim saber? Claro que não é importante! São só meras curiosidades retóricas. 

Mas nós estamos sempre a ser influenciados nas mais pequenas coisas, mesmo sem nos apercebermos. E há coisas que nos ficarão para sempre. Sim, eu sei, "sempre" é muito tempo. Professora de química do oitavo ano: "As tampas colocam-se sempre viradas para cima". E não sei porquê mas esta frase ficou.me sempre na cabeça, e sempre que abro uma rolha de uma garrafa e a coloco em cima de uma mesa, a verdade é que a viro sempre para cima. Sim, muito provavelmente  os professores, depois dos pais, talvez sejam das pessoas que mais nos influenciam ao longo da vida. 

E sempre que vou dar saída de um Hotel, ouço a frase dela: "Vê se não deixamos nada caído". E sempre que vou dar saída num Hotel, reviro os lençóis, espreito debaixo da cama, vou duas vezes à casa-de-banho e olho por todo o lado, para ver se não deixo nada caído em nenhum lado. 

E muitos anos depois, provei um néctar de Manga Laranja. "Mas isto é muito bom", disse-lhe. Mas e eu, afinal, de qual é que gosto mais? De Pêssego ou Manga Laranja? 

Nos Meus Sonhos Beijo a Tua Cona...




In my dreams I kiss your cunt, 
your sweet wet cunt. 
In my thoughts I make love to you all day long.








Atonement / Joe Wright / 2007

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Correios Privados de Portugal: Um Serviço de Merda (3)

Após ter enviado uma encomenda no dia 11 de outubro em correio normal e, duas semanas depois o destinatário me ter dito que não a recebeu, tive a simpatia de enviar nova encomenda, de borla (pagando apenas novos portes de envio) mas desta vez na modalidade de correio registado, para saber ao certo por onde andava a encomenda. 

Isto foi na segunda-feira dia 23. Hoje, dia 26, TRÊS DIAS ÚTEIS DEPOIS!!!, escreve-me o destinatário a dizer que, apesar da encomenda ter sido registada, e que dever ser entregue OBRIGATORIAMENTE no dia seguinte, ainda não tinha recebido nada. 


Com o código do registo, fui agora mesmo ao site e confirmei, como podem ver acima, o que o destinatário me disse. Mas ainda não foi entregue porquê? Como é que é possível?

O meu sentido obrigado a Passos Coelho e Paulo Portas por terem privatizado os Correios de Portugal, transformando o nosso país no primeiro país da Europa com correios nacionais privados, ainda por cima, provavelmente o serviço público que melhor funcionava, e que, como se pode ver,  agora transformou-se numa merda que simplesmente não funciona. Parece que em vez de distribuírem a correspondência, estão agora mais empenhados em abrir bancos... que provavelmente depois irão à falência e teremos de pagar, mais uma vez, do nosso bolso. Sem dúvida que ao privatizar ficamos muito melhor servidos. Deveriam era ter privatizado também as putas que vos pariram a todos.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Inquietante País-Correio-da-Manhã

"Essa capa é vergonhosa. 

É inquietante o país-correio-da-manhã. A Sábado é agora uma porta travessa do Correio da Manhã. É inquietante o país Correio da Manhã.

A imprensa é uma coisa importantíssima e que tem de ser defendida, e é com capas como esta que ela acaba por ser muito criticada e até destruída. Portanto, não é aceitável. É preciso respeito pela tragédia humana. Transgride tudo que é bom senso, da ética, e de qualidade de carácter, como aconteceu com a revista Sábado. 

É tão fácil manipular declarações. 


Antes do 25 deAbril fui perseguido e não podia fazer nada, mas agora acontecem-me coisas esquisitíssimas. Uma delas, por exemplo, foi fazer um programa sobre as barragens. (...) Já se sabia isso, as barragens foram uma asneira. Fiz quatro programas. Passou o primeiro. O jornalista desgraçado que trabalhou comigo, que fez o programa foi despedido.
Onde?
TVI.

Um Certo Olhar / Com Eugénio Sequeira, Luísa Schmidt, Gabriela Canavilhas, António Araújo e Luís Caetano /Antena 2 / 20 Outubro 2017

A Francesa que tem Orgulho na sua Floresta e Não Gosta de Viver em Paris

A Morgane é alta. Bom, pelo menos é mais alta que eu, e em Portugal acho que é considerada uma mulher alta. Trazia um gorro na cabeça que lhe escondia os cabelos castanhos claros, volumosos, e vestia um casaco castanho por cima de uma camisa branca, e umas calças com cintura subida, também castanhas, que lhe ficavam justinhas nas nádegas. Gostei particularmente dos sapatos, Doc Martens vermelho-escuro, com aquele picotado caraterístico à volta, a fazer lembrar os modelos de algumas décadas atrás. 

Enquanto eu guiava pelas ruas do Porto, elas iam conversando em inglês porque ela percebe-nos mas não fala português. Ouvi-a falar com orgulho da região onde vive e da sua floresta. E até pegou no telemóvel e mostrou uma fotografia da paisagem da sua terra. Eu só vi de relance, porque tinha era de estar atento ao trânsito, apesar de ser hora de jantar e as ruas do Porto, apesar do pouco estacionamento, estavam bastante desertas, talvez por aquela hora o FCP estar a jogar no Dragão.
Etrigny
Depois ouvi-a falar de Paris, cidade para onde foi estudar e que detesta. Claro que é muito bom para passear e fazer turismo, e tem magníficos museus e sítios para visitar disse, mas onde ela não gostou de viver. Onde é tudo impessoal e ninguém se preocupa com ninguém. Onde uma mulher pode estar grávida, com uma enorme barriga e ninguém se preocupar em dar-lhe o lugar. Onde já ninguém diz "Bom dia" ao motorista do autocarro e como às vezes se sente quase uma extra-terrestre, quando ficam todos a olhar para ela, só porque quebra essa indiferença e trata as pessoas com educação, tal como deveriam ser sempre tratadas. "It's a human being" disse. É um ser humano que está ali.


Love is a Losing Game



Uma exposição de Maria Imaginário e Mariana, a miserável 
Inaugura no dia 9 de Novembro às 18 horas no espaço Art Room - Príncipe Real. Desde que se conheceram, descobriram que fazem parte da mesma equipa... A equipa dos incuráveis românticos, dos lesionados das emoções e magoados no coração. A equipa que perde.

domingo, 22 de outubro de 2017

Em Portugal Há Mais Hipocrisia que Eucaliptos



"Para acabar fica aqui o meu beijinho lambuzado para os canais televisivos informativos do querido Portugal. Agora estão cheios de imagens e entrevistas sobre o incêndio e muito pesar pelo abandono a que as pessoas foram sujeitas, mas na noite do drama estavam a dar programas de bola na TV, e às 3 foram todos para a cama e estavam-se para as tintas para o drama. Coisas docinhas não é?

Em Portugal há mais hipocrisia do que eucaliptos. É pena não arder a primeira."

Bruno Nogueira / Mata Bicho / 20 de Outubro de 2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Perseguição à Lua Minguante ao Som da Weeping Song


E já se passou um ano que fomos a Espanha. Que regressamos já ao anoitecer, e que paramos num pequeno parque junto da estrada nacional espanhola para comer. E que quando entramos em Portugal, pelo Lindoso, quiseste ficar a ouvir a "Weeping song" do Nick Cave, repetidamente, enquanto te entretinhas a olhar para a lua e a filmá-la conforme ia aparecendo por trás das montanhas. Para pouco depois adormeceres como um bebé, reclinada no banco até casa. 

Não ter a Puta da Vergonha na Cara

Estávamos em 2013 e o governo de Passos Coelho e Paulo Portas, pela mão da então Ministra dos Eucaliptos, Assunção Cristas, aprovou o Decreto-Lei nº 96/2013, que ficou conhecido como "Lei do Eucalipto Livre". Esta lei veio permitir que se pudesse plantar eucaliptos livremente, favorecendo, mais uma vez, os interesses da indústria da pasta de papel e dos proprietários. Por outro lado, e por incrível que pareça, este novo regime passa também a penalizar a plantação de espécies autóctones! Não é fantástico? De uma assentada beneficia-se a indústria e os grandes grupos económicos, e por outro lado, dificulta-se a defesa da floresta nacional!

Só que entretanto a ministra deixou de ser ministra e passou a ser líder do seu partido, o CDS. E foi aí que apareceu uma rã. Uma rã que queria ser boi...


"Em declarações à Antena1, o presidente da Liga para a Proteção da Natureza e especialista nesta área, Eugénio Sequeira, mostra-se contra a hipótese de se regar eucaliptos com equipamentos de regadio público mesmo que sejam antigos. “Quem é que paga a água? A água é precisa para outras culturas. O pior é que vai ficar tudo com eucalipto e nós não comemos papel. E não temos água para isto tudo. E vão aumentar os fogos, porque o regadio, em vez de ter culturas que não ardem, vai ter eucalipto, que arde”, avisa Eugénio Sequeira." (clicar para ouvir)

E se passamos anos e anos a ouvir esta gente do CDS (bem como do PSD) a falar que precisamos de menos Estado, que menos Estado (que somos todos nós) é melhor Estado. Tal como passamos anos a ouvir até dizer que o papel social do Estado deveria ser feito pelas IPSS! Claro, meter ainda mais dinheiro no cu de privados, de gente rica que se disfarçada de caridosa. 
Mas, subitamente, o fumo dos incêndios começou a toldar convenientemente os ideias a esta gente de extrema-direita. Não é que, começamos agora a ouvir a senhora Cristas vir dizer que o SIRESP tem de ser gerido pelo... quem é mesmo Cristas? O Estado, aquele que tu querias Menos! Quer até que os bombeiros sejam funcionários públicos (que são do Estado!) Mas muito pior ainda! Quer ainda que os meios aéreos de combate aos incêndios deixem de ser entregues a privados! E passem para as mãos de quem? Do Estado! 

Mas então em ficamos Cristas? Queres menos Estado ou ainda Mais Estado como andas agora a apregoar aos sete ventos? Mas afinal agora és mais comunista que o Jerónimo e a Catarina Martins? Que puta de ideologia é essa Cristas? És de extrema-direita no governo mas comunista convicta na oposição? Estás quê? A seguir a ideologia do monárquico Paulinho das Feiras, que na oposição passava a vida a falar na lavoura? Tu estás a seguir o quê? A ideologia do que mais convém à opinião pública no momento? Eu sei, tu és uma rã que quer ser boi. 

Mas sabes, eu acho mesmo é que preciso não ter nenhuma puta de vergonha na cara. Teres sido tu, a pessoa que, na letra da lei liberalizou as plantações de eucalipto em Portugal, e que venhas agora, de forma sorrateira, nojenta e oportunista, pedir a demissão do governo que travou o mal que tu fizeste. Só porque infelizmente morreram muitas pessoas nos incêndios e como se tu mesma, não fosses a pessoa que neste país mais tem as mãos sujas de cinza. 

É mesmo não ter a puta da vergonha na cara.

Não Há Nenhuma Cidade Assim



"Não há nenhuma cidade, assim, que subitamente se não torne secreta"
(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Bode Expiatório

"Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós"


"... E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para expiação do pecado e um carneiro para holocausto. Depois Arão oferecerá o novilho da expiação, que será para ele; e fará expiação por si e pela sua casa. Também tomará ambos os bodes, e os porá perante o Senhor, à porta da tenda da congregação. E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo Senhor, e a outra pelo bode emissário. Então Arão fará chegar o bode, sobre o qual cair a sorte pelo Senhor, e o oferecerá para expiação do pecado.
Mas o bode, sobre que cair a sorte para ser bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o Senhor, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como bode emissário. E Arão fará chegar o novilho da expiação, que será por ele, e fará expiação por si e pela sua casa; e degolará o novilho da sua expiação. (Levítico 16)

Via Google Images
Nos dias de hoje, bem longe dos tempos hebraicos que a citação acima do Levítico descreve na bíblia, aplica-se a expressão de "Bode Expiatório" para apontar o escolhido, arbitrariamente, que mais convém no momento, para arcar, sozinho, com a responsabilidade de uma calamidade, de um crime, ou qualquer evento negativo, embora não tenha sido ele a cometê-lo. O bode expiatório é muito empregue na propaganda política. Alguém tem de ser degolado, sacrificado, para todos os outros passem incólumes, por entre os pingos da chuva, e para que todos nós sejamos salvos. Ámen.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Conversas Improváveis (14)


Via Pinterest

No trabalho, uma colega:

"Há gente que parece que nasce com o cu virado para a Lua. Eu gostava era de ter a Lua dentro do cu."


Certezas & Gavetas

"Olhe, em áreas como a igualdade, os direitos das minorias, etc. O movimento que muitos de nós pensaram e desejaram que seriam um movimento sem passos atrás, tenho dúvidas... É evidente que, com alguma frequência, disfarçado pelo politicamente correto, mas (...) olhe, por exemplo, em relação às homossexualidades, se a Inês pensa que eu só oiço reticências ou pontos de exclamação escandalizados das gerações mais velhas, está completamente enganada. Eu oiço de gente muito mais nova as velhas frases "tudo bem, mas então façam essas coisas em casa deles... não à vista de todos". Eu ainda oiço gente, e isto é doloroso para alguém com o trajeto que eu tenho. Eu ainda oiço gente de dezoito, dezanove, vinte anos, empregar palavras como "que nojo" ou "que vergonha" em relação a outras pessoas. 


Via Pinterest

Olhe, quer ver outro exemplo clássico? É assim. "Não tenho nada contra os gays, etc, mas, que necessidade é que eles têm de fazer uma parada e isto e aquilo...?" Uma pessoa não tem obrigação nenhuma de gostar de paradas, aliás de gays, ou sem serem gays. Por exemplo (fora da questão da orientação sexual) eu, por exemplo, por vezes sentia-me envergonhado com o que observava nas paradas das queimas das fitas, porque de repente, havia uma parcela da população, que podia passear-se pela cidade, bêbaba como um cacho (ou pelo menos a maior parte) porque era estudante universitário e porque se estava naquela semana. E espetáculo não era edificante. Mas o que  é curioso, é que as pessoas dividem isso, espontaneamente, pela orientação. Como se aquilo, aquele tipo de espetáculo, só pode ser feito pelos gays. Os heterossexuais são incapazes e fazer aquilo. O que não é verdade. E depois esta questão de homogeneizar toda uma população é outro erro. Eu conheço gays que não apreciam nada as paradas de orgulho gay, e que alguns até dizem assim: "eu compreendo a intenção", outros até dizem "eu compreendo que em determinada altura isto foi a única forma de nós, verdadeiramente, metermos a realidade pelos olhos dentro das pessoas, mas hoje em dia acho que esse ponto está ultrapassado e portanto não seria necessário .É uma opinião legítima, portanto, logo aqui você vê como a vida é complicada, que é, passa uma parada gay, e você tem a assistir heterossexuais em alguns dos quais estão divertidíssimos, heterossexuais que estão escandalizados, e tem gays que stão a olhar para aquilo e, eventualmente, a pensar a célebre frase do Herman José "não havia necessidade". E é esta diversidade absoluta que existe, que as pessoas negam porque nós temos uma nostalgia espantosa, de ter certezas e de ter gavetas. 



Intervenção Divina

Ontem:

Eu: A meteorologia dá chuva para aqui, para esta madrugada à 1h da manhã....
Mãe: Mas se Deus existisse mandava a chuva já, para apagar todo este inferno dos incêndios. 

Hoje:

De manhã acordei, fui lá fora, e o chão estava imaculadamente seco. Ao longe, do outro lado do rio, via os montes a arder. Ontem acabei por não regar o jardim, afinal parecia que ia chover. E para quê desperdiçar água, esse bem tão precioso, se ela iria cair dos céus? Só que, quis acreditar nos meteorologistas mas, infelizmente, podemos acreditar tanto nas previsões da meteorologia como nas previsões dos economistas. Mais ou menos como podemos confiar na intervenção divina. 

Este Fim-de-Semana Foi Assim II




domingo, 15 de outubro de 2017

Porque lhe faltava tudo o resto

"Clara descreveu esta cena com minúcia no diário, pormenorizando com cuidado os dois quartos escuros, cujas paredes estavam manchadas pela humidade, a pequena casa de banho suja e sem água corrente, a cozinha onde havia sobras de pão velho e um tacho com um pouco de chá. o resto da vivenda de Férula pareceu a Clara congruente com o pesadelo que tinha começado quando a sua cunhada apareceu na sala de jantar da grande casa da esquina para se despedir (...)




*Esteban afastou-se a grandes passadas levando Clara pelo braço quase de rastos, se dar atenção à água suja que salpicava as impecáveis cinzentas que o alfaiate inglês. Estava furioso porque a irmã, mesmo depois de morta. conseguia fazê-lo sentir-se culpado, como quando era uma criança. Recordou a sua infância, quando ela o rodeava com as suas solicitudes obscuras, envolvendo-o em dívidas de gratidão tão grandes que não conseguiria pagá-las em todos os dias da sua vida. Tornou a sentir o sentimento de indignidade que frequentemente o atormentava na sua presença e o detestar o seu espírito de sacrifício, a sua severidade, a sua vocação para a pobreza e a sua inabalável castidade, que ele sentia como uma acusação pela sua natureza egoísta, sensual, e ansiosa de poder. "Que o Diabo te leve, maldita! disse entredentes, negando-se a admitir, nem no mais íntimo do coração, que a sua mulher tão-pouco chegou a pertencer-lhe depois de ter posto Férula fora de casa. 

- Porque vivia assim, se lhe sobrava dinheiro? gritou Esteban.
- Porque lhe faltava tudo o resto - replicou Clara docemente."

(*cena que não aparece no filme)


Onde Há Fumo Nem Sempre há Fogo

Eu estava aqui deitado a ler um pouco. Como a estrada da casa dos meus pais só dá para passar um carro de cada vez, e no larguinho mais acima dá sempre sol, costumo deixar o jipe no monte em frente (por aqui também se usa a palavra "sorte" para designar um terreno não murado), e onde ainda se pode ver, pendurada num pinheiro, uma placa da ERA. Ao que parece todos aqueles milhares de hectares já têm dono. Parece que o compraram. Parece. Uns tipos já por aqui estiveram, fazendo-e passar por novos donos, e até disseram aos meus pais que podem usar aquele bocado de terreno (que os meus próprios pais limparam) para o que quiserem (para colocar lenha para a lareira por exemplo). Mas parece que não se sabe nada ao certo. Afinal, pergunto-me, quem é que compra tamanho terreno para depois não fazer nada dele? Mas o que sei é que tem pinheiros demasiado perto da casa, apesar de todo o mato estar limpo. E como os pinheiros dão uma boa sombra todo o dia, é ali que agora tenho vindo a deixar o carro ao fim-de-semana.


Mas de repente irrompe a minha mãe quarto adentro: "Tens de ir tirar o jipe do monte. Os bombeiros já estão aqui, isto está tudo a arder, o fogo já deve estar mesmo aqui perto". Levanto-me à pressa,  calço-me, pego nas chaves do carro (pelo meio ainda vi o carro dos bombeiros a ir-se embora) e lá fui eu pegar no jipe e levá-lo para minha casa. Pelo caminho vi muitas pessoas a olhar para o imenso fumo preto que se via por cima da igreja. Em breve parece que a aldeia iria ficar engolida pelas chamas. E a meio do caminho de casa, já via, ao longe, outros focos de incêndio, com enormes colunas de fumo (mas este era branco) na direção do que me parecia ser o Parque Botânico do Castelo

Já em casa e entretido a fazer qualquer coisa no jardim, liga-me a minha mãe. Foram ver, e afinal o fogo nem é deste lado do rio Douro! aparentava ser só lá para os lados de Arouca, bem longe daqui portanto. Afinal, e como ao que parece, eu estou sempre a dizer: "não podemos generalizar". E não podemos mesmo, porque, até o fumo tem uma exceção. Afinal, nem sempre onde há fumo há fogo! 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mais Ninguém...

Outubro / 2000

... E daqui a alguns anos quando fores ler isto novamente, vais pensar que eu tinha razão quando dizia que ficaríamos sempre juntos, porque aí já estaremos juntos, a viver juntos, a fazer tudo juntos. Nesse dia vais amar-me ainda mais, e à noite vais abraçar-me e vais pensar: "fomos mesmo feitos um para o outro" e eu vou sussurrar-te ao ouvido: "Eu sei, eu sempre soube"...


Banksy - Londres

Passaram dezassete anos desde que escreveste estas palavras naquele livrinho-diário, de amor eterno, com fotografias, mensagens em folhas que se desdobravam, citações, datas de coisas importantes como o dia em que perdemos a virgindade (e eu já nem fazia ideia quando foi), e onde nem faltam os nossos cabelos, juntos, lado-a-lado. E passado todo este tempo reli de novo as tuas palavras que, logicamente, nem sabia que as iria encontrar. Mas hoje, aqui nesta grande cama onde estou, com o portátil em cima das pernas, não está cá ninguém. E não é que eu precise de alguém para me aquecer, porque, felizmente, até sou um homem bem quentinho. Mas como vês, não estás cá tu para me abraçares nem para me sussurrares ao ouvido o que quer que seja. E se queres saber, não estás cá tu, nem está cá mais ninguém. 

Da Manipulação da Imprensa: Duas Tragédias, Duas Coberturas Jornalísticas Diferentes

Este verão tivemos duas tragédias: Pedrógão e Madeira, contudo, de uma delas mal se falou. Falou-se no própria dia mas já no dia seguinte quase nem sequer fez capa nos jornais diários. Relembremos os acontecimentos. No dia 15 de Agosto (quase um mês depois do incêndio de Pedrógão Grande!) durante as cerimónias da Senhora do Monte no Funchal, uma árvore caiu e matou treze pessoas e feriu outras quarenta e nove. 


Já estamos em Outubro, e neste tempo todo, vimos a imprensa prestar-se ao servicinho de ir atrás do futuro ex-líder da oposição que veio dizer, que segundo fonte segura, estavam pessoas a suicidar-se em Pedrógão Grande por falta de assistência psicológica. Pouco depois Passos Coelho veio confirmar que era tudo mentira, que afinal foi mal assessorado. A sério? Mal assessorado? 
Mas como uma mentira não chegou e as eleições estavam aí, algum tempo depois tivemos o escarro jornalístico chamado Expresso (aquele que o ex-futuro líder da oposição que plagia Trump disse que era preciso ler para saber a verdade) vir dizer que o governo andava a esconder o número de mortos do incêndio, esquecendo que há separação de poderes, e essa é uma competência do Ministério Público e não do governo. Depois, mais uma vez, veio-se a confirmar que era tudo mentira do Expresso e consequentemente de Passos Coelho. 

Mas no meio disto tudo o que me intriga é: porque raio nunca se falou da tragédia da Madeira? Que Passos e Cristas não mencionassem o assunto eu até compreendo, mas por que é que a nossa imprensa e televisões nunca mais falaram no assunto? Recordo de novo: treze mortos e quarenta e nove feridos! Por que é que nunca se fizeram reportagens até à exaustão (como no caso de Pedrógão Grande) e por que é que não se fez apelo do sentimentalismo barato e do sensacionalismo tão típico da nossa imprensa merdosa e não se fizeram reportagens com os sobreviventes, ou com familiares dos que morreram?

Será que pode ter sido por esta tragédia ter acontecido numa região autónoma que tem um governo PSD? Será possível que a imprensa portuguesa (toda ela de direita) está constantemente a manipular as pessoas, ou será que é tudo da minha cabeça? 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A relação Espanha e Catalunha como se fosse um Casal

Catalunha: Precisamos falar. 
Espanha: Ui, mas que é que tu queres? Espero que não me venhas com a conversa do costume que te queres separar. É que eu já estou um bocado farto dessas tuas conversas. 
Catalunha: Pois, eu sei. Eu também estou farta de tentar levar isto a bom porto mas não está a resultar. Precisamos conversar porque isto para mim não dá mais. Achas que isto é vida para nós? Já não conversamos, a nossa vida é um inferno. Já para não falar que já não fodemos vai para mais de cinco anos. Isto não é vida para ninguém. 
Espanha: Mas que é que tu queres afinal caralho?
Catalunha: Quero o divórcio. 
Espanha: Tu queres é levar no focinho minha grande puta. O que Deus uniu o homem não separa. E se me vens com essas conversas de divórcio de novo vais ter sérios problemas, estás a ouvir? 
Catalunha: Eu quero o divórcio, mas pronto, se quiseres, podemos dar só um tempo para tentar dialogar um pouco mais.... (e depois separar-mo-nos de vez!...)





Ontem, dia 10 de Outubro pelas 18h37 ouvia na rádio o presidente do governo da Catalunha declarar a independência. Minutos depois, seja isso lá o que significar, declarava a sua suspensão temporária para um possível diálogo. Mas eu está-me cá a parecer que este casal nem com terapia lá vai.


domingo, 8 de outubro de 2017

Como Lágrimas na Chuva

"Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva."




Não sei se já tinha visto o Blade Runner, filme de 1982, já com uns quantos anitos portanto. Quase de certeza que sim, que em adolescente o tenha apanhado na televisão, mas na verdade se vi não retive grande coisa. E é curioso que já me lembro bem, por exemplo d' A Boneca Mecânica (Cherry 2000) de 1987, filme igualmente de ficção científica, e que também explora um pouco, ainda que de outro ponto de vista, os sentimentos entre seres humanos e robôs. 

Mas em Blade Runner, o que mais me chamou a atenção foi aquela frase do replicante Nexus-6 Roy Batty que, depois de inesperadamente ter salvo Deckard, diz-lhe que já viu coisas que ninguém imagina, e que todos esses momentos, se perderão para sempre.

E refleti sobre mim, sobre as minhas vivências, as minhas memórias, as coisas que vi, pelas quais passei, o que aprendi. As coisas que todos nós vimos, aprendemos, toda a sabedoria que carregamos. E talvez seja esse o medo pelo qual temos de morrer. Se calhar não tenho propriamente medo de morrer, de não poder continuar a viver e a acumular sabedoria, mas a tristeza que seria, ver todas essas memórias desfazerem-se... "Como lágrimas na chuva". 

Foi graças à Catalunha que Portugal se tornou Independente

É sempre bom relembrar, nestes tempos em que tanta gente por cá opina sobre a Catalunha, como nós portugueses aqui chegamos. Na verdade, se hoje Portugal é um país independente de Espanha, deve-o em grande parte à Catalunha, que tentou a sua própria independência na chamada "Revolta dos Ceifeiros (ou Sublevação da Catalunha) em 1640, e ao facto de Madrid ter apostado tudo, com os seus melhores soldados, em decapitar a revolta catalã, o que, estrategicamente deixou a porta aberta, para que os portugueses pusessem fim ao reinado filipino e tivessem declarado a sua independência, que só foi reconhecida por Espanha em 1668, depois de quase trinta anos da Guerra da Restauração. 

"Em 1640 há uma revolta na Catalunha. Há uma revolta de nobres na Catalunha apoiada pelos franceses. E o que é que Filipe III de Portugal e IV de Espanha (que é o mesmo) decide fazer? Primeiro, a revolta da Catalunha é um fogo muito mais perigoso do que estas alterações populares de Évora e as outras que se seguiram. Pretende acabar aquele fogo perigosíssimo porque estava estava mais perto da fronteira francesa. E porque também há, de facto, um movimento independentista na Catalunha, matando dois coelhos com uma só cajadada. Convoca o Duque de Bragança, que é o comandante do exército português por nomeação filipina, com o exército português para vir para Madrid combater, conjuntamente com o exército espanhol na Catalunha. E aí é que a nobreza portuguesa dá o seu grito de Ipiranga. E quarenta nobres, em 1640, combinam ir ao palácio, onde está a Duquesa de Mantua, que é a vice-rainha, prendê-la, para que ela dê ordens à guarnição militar que está em Almada para se render e tomar conta do palácio, para depois vir o D. João, de Vila Voçosa, nas calmas (para ver se não há problemas nenhuns) e ocupar o lugar como rei de Portugal. 

E o que é que acontece? O exército espanhol não se virou de imediato para Portugal. Virou-se para a Catalunha, e este processo do exército espanhol ir combater a Catalunha, e pôr apenas um pequeno exército a tentar pela nossa fronteira do Alentejo, permite ao Duque de Bragança e à nobreza portuguesa, organizar as nossas fortalezas na fronteira, e permite a Portugal restaurar a sua independência. 

Sem a Revolta da Catalunha, por um lado, e sem as alterações de Évora, não teria sido possível que a restauração da independência se tivesse feito no dia 1 de Dezembro de 1640. Primeiro, as alterações de Évora de 1637 foram o motor desta restauração da independência, Por que é que foram o motor? Porque obrigaram a nobreza a atuar. E era a nobreza que tinha que atuar porque eles é que tinham as armas. A revolta da Catalunha em 1640 permitiu, que a restauração fosse possível, em termos militares no dia 1 dezembro de 1640. Pode-me dizer "Ah, se não fosse em 1640, podia ser no século XVIII". Mas eu penso que já não seria mais."



"Na corte de Madrid pensava-se em tornar mais eficiente o jugo sobre Portugal. Havia um projeto de reforma administrativa, em que o país ficaria reduzido às proporções de simples província espanhola. Com o pretexto de serem ouvidos acerca da reforma, foram chamados à capital Espanha os grandes vultos da sociedade portuguesa, entre os quais os arcebispos e o bispo do Porto. Pelo mesmo tempo era investido no cargo de Governador das armas do reino, muito contra a vontade e após repetidas escusas, o próprio Duque de Bragança. Tratava-se de subornar, ou de incapacitar perante os portugueses (...) O golpe era de mestre. Não lhe tendo admitido as escusas, Olivares obrigava-o a pôr em execução a última ordem de Madrid em matéria militar: o levantamento em Lisboa de uma força importante de Cavalaria, nos Açores de alguns terços de Infantaria, e, na própria metrópole, de quatro regimentos de soldados experimentados e dois terços de voluntários. Todas estas forças seriam postas à disposição do gabinete de Madrid. O duque levantaria e equiparia nas suas terras, à sua custa, mil soldados. Os navios da frota portuguesa seriam entregues a oficiais espanhóis e incorporados da Armada de Espanha (...)

(1939) Uma grande esperança, de ordem internacional, os animava: a certeza de que encontrariam na França uma cooperação decidida. Richelieu, o hábil ministro de Luís XIII, encarregara um homem da sua confiança, Saint-Pé, de vir a Lisboa e promover a sublevação dos portugueses, ao passo que outros agentes fomentariam o levantamento na Catalunha. (...)

A revolta na Catalunha estalou, com efeito, em Junho de 1940. A ocasião era propícia: as tropas portuguesas deveriam ir combater os catalães revoltados; novos impostos recairiam sobre a nação. Um padre, Nicolau da Maia trabalha pela restauração entre os elementos populares de Lisboa (...)

Atribui-se uma influência decisiva, neste passo ao duque, à duquesa, D. Luísa de Gusmão, e à sua imensa vontade de ser rainha.Segundo uma versão que foi acreditada e divulgada, ela teria afirmado que "antes ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida" (...)

Naquele dia 21 de Novembro, em Lisboa, e no próprio palácio dos duques de Bragança, onde João Pinto Ribeiro residia, se estabeleceu o plano do movimento revolucionário e se lhe marcou o dia e a hora: 1 de Dezembro, às nove da manhã (...)

A 1 de Dezembro, numa luminosa e serena manhã de Inverno lisboeta, juntavam-se no Terreiro do Paço umas dezenas de fidalgos, vindos em coches, em que transportavam armas, e um punhado de populares que o padre Nicolau da Maia convocara. Logo que as nove soaram nas torres da Sé, um grupo numeroso invadiu a entrada do paço e inutilizou, com alguns tiros, a resistência da guarda real, que correra às alabardas. D- Miguel de Almeida, um velho magnífico de energia, lançava-se à frente, de espada em punho clamando: "Liberdade! Liberdade! Viva El Rei D. João IV".

(História de Portugal - Restauração da Independência - Ângelo Ribeiro - 2004)

sábado, 7 de outubro de 2017

A Mirabolante História da Planta do Lidl

Entrei no Lidl, e logo à entrada botei o olho nalgumas plantas suculentas que lá estavam. Um vaso em particular chamou-me a atenção. Peguei nele, tentei ver se tinha alguma identificação da espécie (nunca tem não é?) e fiquei a admirá-lo, pois era uma espécie que não tinha. Sem me aperceber, um casal, a alguma distância, observava os meus movimentos. A amiga que estava comigo foi ao multibanco, e enquanto por ali fiquei, achei que, se calhar, o melhor seria, no fim de todas as compras passar então por ali, para colocar a planta por cima para não se danificar. E fui ter com a minha amiga. 

Quando volto, um minuto depois, já o casal, no meio de todas aquelas plantas, tinha pegado, precisamente, no vaso que eu queria levar. É preciso não ter sorte nenhuma pensei! Tinham precisamente pegado na única que eu queria levar! Bom, também não é caso para entrar em depressão, é só uma planta de quase dois euros, que provavelmente posso encontrar noutro sítio qualquer... ou não! E lá fomos fazer as compras. 

Até que, eis se não quando, junto à prateleira dos alhos, olho, e o que vejo? Precisamente o mesmo vaso, ali deixado por entre os restantes alimentos. Isto só podia ser um milagre! Alguém tinha ali deixado um vaso com a mesma planta que eu queria, ou, o mais provável, aquele casal que tinha pegado nela, desistiu da ideia de a levar, e deixou-a ali ficar. Para mim! Olha que sorte?! Deixei-a escapar, porque era a única e não a meti logo no carrinho, mas agora tinha a segunda oportunidade de ficar com ela. Lá peguei nela e coloquei-a num cantinho do carrinho por entre as outras compras. 

Ainda fomos ver mais qualquer coisa, até que, de repente, sou interpelado pelo senhor, o mesmo que tinha visto na entrada a admirar o mesmo vaso que eu tinha escolhido, e que me pergunta se fui eu que peguei no vaso que estava na prateleira, e enquanto isso, vê a planta no carrinho. Lá me explica que tinha sido a mulher, que a ali tinha pousado enquanto foram comprar outras coisas, que até me tinham visto, mas que não tinham visto eu a pegar na planta.

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Explicou-me que me tinham visto na entrada, a escolher especificamente aquela planta, mas como eu tinha desistido (não tinha não!) foram ver, e ele achou que eu tinha mesmo bom gosto: aquela era a planta mais bonita que ali estava! E então, lá me pediu desculpa, uma e outra vez, se podia levar a planta. E já que, ao que parece eu parecia perceber de plantas, perguntou-me se tinha de mudar de vaso. Pois claro que tem de mudar de vaso. E lá levou a planta com ele.
Mas que história mirabolante, comentei. "Mesmo", respondeu o senhor, que me ouviu apesar de já ir alguns metros mais à frente. 

O que retiramos daqui? Em primeiro lugar que, quando queremos realmente algo, ainda para mais raro ou único, como era o caso, e se chegamos primeiro ou se temos oportunidade de quisermos ficar com ela para nós, devemos, logo ali, exercer o nosso direito reivindicativo de tomarmos conta da ocorrência. Em alternativa, depois, podemos sempre dizer "já não tinha de ser". 

Em segundo lugar, como é interessante analisar que as pessoas adoram seguir os outros, seguir as escolhas dos outros. Se eu escolhi aquela planta, é porque ela deveria ser a melhor, a mais bonita. Na verdade eu nem achava que fosse a mais bonita, era tão somente uma espécie interessante, mas um cromo que não tinha na caderneta. Mas quando aquelas duas pessoas olharam para ela, e que já tinha sido namorada por mim, acharam logo que, para eu a querer, então é porque ela era mesmo bonita e especial. Muitas as vezes as pessoas nem sabem do que gostam e precisam sempre que lhes digam do que gostar. Lembram-se do filme "Runaway Bride"? A personagem de Júlia Roberts, que passava a vida a deixar os noivos no altar, no fim confessa, que nem sequer sabe como gostava dos ovos, gostava deles, simplesmente da mesma forma que o atual noivo gostasse. Ou quantas vezes vemos inúmeras pessoas interessadas nesta ou naquela pessoa, só porque anda meio mundo atrás dela? E se andam, é porque valerá a pena. Porque será que quando várias pessoas se junta na frente de uma tenda de vendas, logo muitas pessoas ali se vão juntar para ver o que se passa? 

Entretanto, vamos ver. Pode ser que aquela mesma planta me volte às mãos!

Mother North na Opera


"Mother North" / Nemesis Divina / Satyricon 1996  (Ao vivo com a Orquestra Nacional da Noruega 2015)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Pedro e o Diabo

O Pedro era uma criança em corpo de adulto, que um dia, sem perceber muito bem porquê, deixou de poder brincar de primeiro-ministro e passou a ser a líder de oposição. Mas tal como uma criança, fazia birra, gritava e esperneava, que não podia ser quando ficou, de castigo, sem o seu brinquedo. Dizia que tinha ganho as eleições, e que ele é que tinha de continuar a ser primeiro-ministro. Mas, como sabemos, as crianças não percebem muito de política, e o Pedro ainda não tinha apreendido muito bem o que era essa coisa das eleições legislativas, em que se elegem deputados e não primeiros-ministros. Pedro ainda não sabia que, sem maioria absoluta, só forma governo aquele que conseguir uma maioria estável no parlamento.

Mas nestes dois anos, Pedro nunca se habituou à ideia de que lhe tivessem tirado o brinquedo Portugal, e não se habituou a brincar de líder de oposição. Nunca percebeu que um líder da oposição deve apresentar propostas, alternativas ao que está a ser feito, porque senão não é precisa oposição para nada! E como não percebia nada disso de ser líder da oposição, Pedro começou a dizer que o novo governo não sabia brincar com Portugal. Ele é que tinha sabido! Mas este novo governo começou a tratar o brinquedo muito melhor. Remendou e reparou todas as maldades que o Pedro tinha feito. 


E então o que Pedro dizia? Que tratar bem o brinquedo ia dar muito mau resultado! Que isso ia fazer com que o Diabo ficasse muito chateado, e viesse destruir tudo e todos. Ia ser o fim do mundo! Mas aos poucos, todos começaram a ficar contentes com a forma como o novo governo estava a brincar, porque tudo voltava a entrar numa certa normalidade. E agora o que passou o Pedro a dizer? Que tudo estava a dar certo, mas o mérito era dele, por ter maltratado anteriormente o brinquedo! quando um ano antes, dizia precisamente o contrário, que mudar a política dele ia ter muito mau resultado!

Ora, e de tanto gritar pela vinda do Diabo, as pessoas começaram a fartar-se desta criança muito piegas, que em vez de trabalhar, só sabia dizer que vinha o Diabo, que vinha aí o Diabo, que tudo ia dar errado e que o Diabo ia vir aí... E vai daí, nas eleições autárquicas o partido liderado pelo Pedro, teve o pior resultado de sempre!

Mas Pedro acabou por ter razão. O Diabo não viria em Setembro de 2016 como ele previra. Nem em Setembro de 2017. O Diabo viria sim, mas a 1 de Outubro no dia para eleições autárquicas. Para o levar para o Inferno, por ser uma criança muito mal comportada.

Nunca Invejes a Vida dos Outros...

Sempre que ouço as pessoas invejarem a vida dos outros, achando que os outros é que estão bem, que os outros é que têm sorte, e que elas é que estão muito mal com a vida que têm, lembro-me sempre desta frase de Sócrates que guardo desde há muitos anos:


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ouvi dizer que houve mais um Massacre nos Estados Unidos...

Não li nem vi nada sobre o assunto (e ainda bem!) mas ouvi dizer qualquer coisa lá no trabalho sobre mais um maluco que matou umas dezenas de pessoas nos Estados Unidos. Mas certamente que isso não tem nada a ver com o facto de, por lá, as pessoas poderem comprar livremente as armas que quiserem, visto que, por mera coincidência claro, os Estados Unidos da América até são o maior produtor mundial de armas e se não as venderem é uma chatice.


Em 1999 também ocorreu um massacre, e desse lembro-me bem. Aconteceu numa escola secundária, e que resultou na morte de quinze pessoas (alunos e professores) e de várias dezenas de feridos. Na altura, disseram que um dos culpados foi o Marilyn Manson. Agora, certamente, será culpa de outra coisa qualquer. Mas claro que nunca será culpa das armas, que ironicamente, só por mera coincidência, é que foram inventadas para matar os outros. 

A Liberdade Aparente

Domingo 1 de Outubro de 2017. 
Pouco depois de votar, ouvia no carro, as notícias sobre os catalães, que também queriam manifestar a sua opinião, no seu referendo, a favor ou contra a separação de Espanha. E enquanto ouvia, refletia acerca das cargas policiais sobre cidadãos desarmados, que a única arma que poderiam ter consigo, era uma caneta para assinalarem uma cruz num papel, transmitindo assim a sua opinião sobre este assunto. Não importa se estavam a favor ou contra. Nada disso me interessou refletir no momento. A única coisa que para mim importou, é  que o grande crime que aquelas pessoas estavam a cometer, era quererem emitir a sua opinião. Ironicamente, os catalães pretendiam fazer a mesma cruz que eu momentos antes tinha acabado de fazer em três diferentes papeis. Mas em Espanha, tal gravíssimo crime, mereceu da parte do governo espanhol uma violenta carga sobre as pessoas.

De repente, parece que estávamos na era medieval, em que qualquer manifestação contra o Rei merecia nada menos que a pena de morte. É que nem de propósito, no dia anterior, sábado, de visita ao Museu do Vinho do Porto, relembrei, de novo, a história da Revolta dos Taberneiros (1757), contra a criação da Companhia dos Vinhos e do constante aumento de impostos, revolta da qual, o rei, quando soube, não gostou nada. E o resultado foi, depois de identificarem as pessoas, foram enforcadas e decapitadas para que servisse de exemplo para os demais não se atrevessem, de novo, a contestar o poder absoluto do rei. 


E eu fiquei a pensar nisso. No domingo passado, eu, bem como todos os portugueses, fomos todos incentivados a colocar lá as cruzinhas nos boletins de voto. Talvez porque, no fundo, escolhêssemos o que quer que fosse, a escolha como que já está sempre feita por nós. O sistema permanece sempre o mesmo, que beneficia quase sempre os mesmos em detrimento dos outros. Já os catalães queriam fazer uma escolha fora do sistema. E o sistema está feito para se proteger a si mesmo. E quando alguém ousa colocar em causa os poderes instituídos, esse sistema reagirá com grande violência, tentando amedrontar os demais. 

E é por isso que vivemos uma liberdade faz de conta, uma liberdade aparente, que não é real. Parece que temos liberdade de expressão, mas na verdade somos cada vez mais controlados e, incrivelmente, são agora as próprias pessoas a quererem entregar de bandeja a sua privacidade. Outrora, na era medieval, usava-se a forca e a decapitação. Hoje, em pleno século XXI, quando é preciso, a força é usada na mesma, sem qualquer respeito pela liberdade de expressão das pessoas. E a democracia é muito bonita "o governo para o povo" ou a ditadura escolhida pelos ingénuos, mas a própria democracia matou Sócrates, o pai da filosofia e  um dos seus mais acérrimos críticos.
Em democracia, o poder de escolha é sempre uma liberdade aparente. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Oeiras: e os Burros Somos Nós?

Das eleições autárquicas de ontem só me interessava saber uma coisa: quem seria o próximo presidente da Câmara Municipal de Gondomar?

Ao longo dos últimos dias eu fui sempre comentando que não queria acreditar que o ladrão, que foi despedido do exército por roubar, e bem mais recentemente foi condenado a três anos de cadeia por corrupção, e que se voltou a candidatar à câmara municipal (com um Coração de Ouro!) pudesse, de novo, vencer as eleições, depois de ao longo de vinte anos ter enterrado a autarquia em dívidas e em conhecidos favorecimentos pessoais. Eu não queria acreditar que iria de ter levar com este sujeito por mais quatro anos, se ao menos não tivéssemos a sorte que morresse antes. 

Para mim qualquer candidato servia, desde que não fosse Valentim Loureiro. Qualquer um, todos menos ele. Sim, é verdade que Gondomar ficou no mapa, passou a ser uma terra conhecida, depois que o homem, que na altura era presidente do Boavista e presidente da Liga de clubes, para cá veio. Mas Gondomar não ficou conhecida pelos melhores motivos. Ficou conhecida por ter habitantes que se deixavam comprar com eletrodomésticos e com música foleira de cantores que plagiam outros cantores.


Nesta campanha o major apostou forte. Na internet ia sabendo que usava os mesmos métodos arcaicos que funcionam sempre bem em meios mais rurais, e em que as pessoas são mais ingénuas e fáceis de enganar ainda por cima por um rosto conhecido que aparecia constantemente na Televisão. E quem aparece na televisão é sempre gente importante, de nível, pensam os ingénuos! Métodos como pudemos ver na novela O Bem Amado, em que a personagem de Odorico encarnava o típico político corrupto. E parece que nada mudou desde então! Festa popular, com cantores e porco-no-espeto. Tudo de borla como convém! E mesmo aqui onde vivo, neste sítio recôndito e muito afastado do centro do concelho, ouvia-se todos os dias a musiquinha repetitiva com o supostos feitos de pôr quarenta mil gondomarenses a voar (entre outras coisas) e vi apoiantes seus na rua onde vivo, e depois ainda vi crianças com a T-shirt verde da sua campanha.

E o dia das eleições chegou. Quatro anos depois de ter saído da câmara pela lei de limitação de mandatos, era esperar para ver o que sucederia. A noite não começava da melhor maneira. Um dos antigos dinossauros e ex-presidiário ganhava a eleição em Oeiras. Mas sobre Gondomar, até à hora que fui dormir nem uma só palavra na rádio. E no sítio da internet das Autárquicas, o concelho ainda só tinha metade dos votos apurados. Mas de manhã, a primeira coisa que fiz quando acordei, foi verificar quem tinha ganho. O major nem aos 20% tinha chegado, teve menos de metade dos votos do candidato vencedor, e unicamente mais três mil votos que a CDU. Já poderia respirar de alívio!

Mas ainda assim reflitamos um pouco sobre Oeiras e Gondomar. 

Oeiras, é sabido, é o concelho que mais licenciados tem no país. Gondomar por seu lado, é um concelho mais rural, de muita gente pobre e iletrada. Ambos os concelhos, Gondomar e Oeiras, tiveram presidentes de câmara por vinte anos ou mais, que tiveram problemas com a justiça e foram condenados a penas de cadeia por comportamentos pouco recomendáveis para quem quer gerir dinheiros públicos. Os eleitores licenciados de Oeiras, estudados, doutores e engenheiros, votaram, legitimamente, no candidato ex-presidiário. Pelo contrário, em Gondomar, as gentes simples e os parolos preferiram varrer de uma vez por todas o homem-político-corrupto.

Mas então, pergunto eu: o que é que esta gente de Oeiras anda a aprender nas escolas e nas universidades? Vocês é que são ricos, burgueses, cultos, gentes de bem, com boas casas na capital e com muitos cursos superiores, mas então e nós? 

Será mesmo que os burros somos nós?