terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Rato numa Ratoeira


Despite all my rage I am still just a rat in a cage


"Bullet with Butterfly Wings" / Mellon Collie and the Infinite Sadness / Smashing Pumpkins / 1995

domingo, 28 de janeiro de 2018

Abençoai-me Senhor Abade Que Eu Não Pequei

Ler sobre "pecado" no livro "Anti Cristo" do filósofo Nietzsche, entre outras coisas, tais como a primeira (ou segunda?) namoradinha, muito loira de cabelos naturais (ainda mais que a outra primeira ou segunda) e que estudava num colégio de freiras e andava, aos quatorze anos, a ler o Anti Cristo e queria ir estudar artes para a Soares dos Reis, fez-me lembrar do dia em que pela primeira vez tive de ir ao padre confessar-me antes de fazer a primeira comunhão.

Aos oito anos eu era uma criança extremamente bem comportada, bom aluno, e que, mesmo olhando com os olhos castradores da Igreja, para quem quase tudo é pecado, dificilmente teriam algo com que me ameaçar como fogo do Inferno. Sim, nesse tempo ainda havia fogo do Inferno, entretanto é que a Igreja Católica veio dizer que já não há. Não sei que terá acontecido. Uma coisa é certa, certamente que não foi por falta de clientes que o Inferno fechou o tasco. Má administração também não creio, uma vez que certamente nenhuma empresa encontraria CEO mais ardiloso que Satanás! Talvez nunca ninguém descubra afinal porque diabo o Inferno fechou portas! Estou mesmo em crer que este será mais um dogma da religião católica, e como bem sabemos os dogmas não se questionam, assumem-me como boas ovelhas amestradas e pronto.

Agora não há Inferno mas no meu tempo de criança havia. E tínhamos de nos ir confessar pela primeira vez, depois de dois anos de catequese e antes de fazermos a Primeira Comunhão. E eu lá fui, pela primeira vez ao confessionário, falar com o Padre Alberto, que era careca e usava uns óculos de massa e lentes de fundo de garrafa retangulares. 

"Abençoai-me senhor abade que eu não pequei" era o que lhe podia ter dito. E na verdade não lhe disse nada, tão simplesmente porque eu não tinha pecados para lhe confessar em segredo. 

Mas como a Igreja não admite que uma criança de oito ano não tivesse pecados, de preferência deveria era ter muitos e cabeludos, vim para casa, com o recado que depois me deveria apresentar de novo ao senhor abade, a saber confessar-me devidamente.

Vistas bem as coisas e a esta distância, quem supostamente deveria dar formação sobre como é que uma criança se deve ou não confessar deveria ser o padre e não os pais. O padre é que deveria dar uma lista com todas as coisas que poderiam ser consideradas pecado e as outras (quase nenhumas!) que não o eram. Mas tudo bem. Não houve grande problema. Chegado a casa e depois de ter informado a minha mãe que tinha chumbado nessa prova de mostrar como tinha muitos pecados (acho até que só eu e outro é que "não nos soubemos confessar") a minha mãe rapidamente tratou de elaborar uma bela lista de coisas consideradas "pecado" aos olhos da igreja, para que então, quando me apresentasse de novo ao padre Alberto, já tivesse uma bela lista de pecados para ele ouvir e ver como de facto eu já me sabia confessar devidamente. A ironia disto tudo é que o padre, basicamente o que fez, foi instruir a minha mãe a ensinar-me a mentir-lhe. A religião é mesmo uma coisa linda não é?

Mas agora ainda há outra coisa muito engraçada. Se a Igreja Católica já decretou o fim do Inferno, e infelizmente quando morrer já não irei ser recebido no Inferno por nenhuma Diaba, de chifres, toda boa, que me receba para uma bela orgia - que chatice! - então, porque raio é que as pessoas continuam a ter de se confessar se já não há o risco de irem arder no fogo eterno? Se já não há qualquer temor que seja sobre ser castigado, então para quê continuar ir ao confessionário e a ter de rezar duas ou três Avé Marias para ser perdoado? É muito parvo não é? Acho que a malta lá do Vaticano se esqueceu deste pequeno pormenor...

Como seria se uma Mulher tivesse Cio como uma Gata?

Estamos no fim de Janeiro e já se ouvem por aí as gatas a berrar como se não houvesse amanhã, desejosas que um macho lhes trate do que as aflige. E de repente, eu que sempre me interrogo sobre os mais variados assuntos, perguntei-me, e aposto que nunca nenhuma outra cabeça tinha pensado no assunto, como é que seria se acontecesse o mesmo com as mulheres? Aquele miar das gatas nós humanos não entendemos, mas  e se ouvíssemos as mulheres como se fossem as gatas com cio?

Após séria reflexão, passando imenso tempo a observar as criaturas, posso-vos assegurar que seria uma coisa mais ou menos assim?

"Hoooomem!! Quero hooomem! Alguém que me venha fodeeeeeer!  Jááááá!
Não quero vibradores nem dildos! Nem quero usar as mãos! Eu preciso é de hoooomeeeeem! Ouviram? Quero hooooomem! Podem até ser dois ou três! Hoooomens venham a mim. Jááááá!!"

Brevemente irei refletir sobre como seria uma mulher a ter relações sexuais, como se fosse uma gata com cio. Não percam. Ou então não.

(o ano ainda agora começou e esta será provavelmente a melhor publicação do ano!)

Conversas Improváveis 18

Sentados num banco de pedra junto ao crematório do Prado do Repouso, de onde se podia sentir um leve cheiro a churrasco e virados para o sol envergonhado que nos aquecia num sábado de Inverno, ela constata:

"A única coisa boa que o ser humano faz pelo Planeta é morrer e adubar a terra". 


Via Google Images

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Invenção do Pecado

"Compreenderam-me. O início da Bíblia contém toda a psicologia do sacerdote. O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência - o conceito salubre de causa e efeito. Mas a ciência prospera em geral apenas em condições boas - é preciso ter tempo disponível, importa ter espírito em excesso para "conhecer"... "Logo, é preciso tornar o homem infeliz" -  foi esta em cada época a lógica do sacerdote. Adivinha-se já o que, em conformidade com esta lógica, assim entrou no mundo: o "pecado"... A noção de culpa e de castigo, toda a "ordem moral do mundo" foi inventada contra a ciência, contra a libertação do homem a respeito do sacerdote... O homem não deve olhar para fora de si, deve olhar para si mesmo; não deve olhar para as coisas com sagacidade e circunspeção, como aprendiz, não deve ver absolutamente nada: deve sofrer... E deve sofrer de maneira a precisar sempre do sacerdote. Fora com os médicos! Precisa-se é de salvação. A noção de culpa e de castigo, incluindo nela a doutrina da "graça", da "redenção", do "perdão" - mentiras rematadas e sem qualquer realidade psicológica - inventaram-se para destruir no homem o sentido das causas: são o atentado contra a noção de causa e efeito! E não um atentado com o soco, com a faca, com a franqueza no ódio e no amor! Mas promanam dos instintos mais cobardes, mais astutos e mais baixos! Um atentado de sacerdotes! Um atentado de parasitas! Um vampirismo de sanguessugas pálidas e subterrâneas!... Se as consequências naturais de uma ação já não são "naturais", mas se imaginaram como suscitadas por espetros concetuais da superstição , por "Deus", "espíritos", "almas", enquanto simples consequências "morais", como recompensa, castigo, advertência, meio de educação, então destruiu-se o pressuposto do conhecimento - cometeu-se então o maior crime contra a humanidade. O pecado, diga-se mais uma vez, essa forma de autopoluição do homem par excellence, inventou-se para impossibilitar a ciência, a civilização, toda a elevação e nobreza do homem; o sacerdote reina graças à invenção do pecado. 

O Anti Cristo / Friedrich Nietzsche / 1888

Afetos Seletivos

No próximo dia 9 de Março, passam dois anos que Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República. Marcelo tem um estilo completamente diferente, para melhor, do seu antecessor Cavaco Silva. Se Cavaco passava meses a fio calado, dando quase a impressão que Portugal não tinha presidente, ou então só abrindo a boca para comer bolo rei ou dizer coisas tão absurdas como não conseguir viver com 15 mil euros por mês, ou para falar no sorriso das vacas, já Marcelo é o oposto. O homem mais parece um vendedor que anda na estrada a fazer entregas, e que passa por todas as estações e apeadeiros. 

Se os nossos presidentes tivessem, tal os nossos réis tiveram cognome, Marcelo já teria ganho o seu. Marcelo como presidente dos afetos, seria "O afetuoso". Com ele há sempre um abraço e um beijinho para dar em todo o lado e montes de fotografias para tirar. Ele tem abraçado tanta gente que até ganhou uma hérnia e teve de ser operado recentemente hum hospital público, pago com o nosso dinheiro, apesar de, enquanto deputado ter votado contra o Sistema Nacional de Saúde. São ironias da vida. 

Contudo, há uma pergunta que deixo e que responda quem souber responder: por que é que Marcelo não foi a Sacavém dar um abraço às trabalhadoras da Triumph que estiveram em luta desde o início do mês? Porquê? Será que a luta delas não era digna de serem abraçadas e por quem se devesse mostrar solidariedade?

Quando temos um presidente que é "hiperativo", tal como lhe chamam os média, e que simplesmente está em todo o lado, depois dá muito nas vistas quando não vai a algum lado, onde se calhar, até  tinha obrigação de ir. E coincidentemente Marcelo também não esteve na luta dos trabalhadores dos CTT e da PT. Todos têm direito a um abraço, mas parece que os trabalhadores não têm direito. 

Marcelo tem muitos afetos para dar, mas não são para todos. Marcelo é um presidente, mas de afetos seletivos. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Vê lá se queres ir para Youtuber!

Há trinta anos qualquer pai ou mãe poderia dizer para o filho(*):

"Olha, ficas já avisado, se não estudares vais ter de ir carregar baldes de massa e trabalhar nas obras". 

Hoje, se eu tivesse um filho, poderia muito bem dizer-lhe:

"Vê se percebes que, se não te instruíres um bocadinho e não quiseres estudar, não te restará mais nada que não seja começares a fazer vídeos completamente idiotas, como por exemplo engolir cápsulas de detergente e colocar esses vídeos no Youtube. Toda a gente vai querer ver e depois ganharás rios de dinheiro.Vê la, não estudes não. Vê lá se queres ir para Youtuber!


(*) Filho, homem pois claro, porque hoje, trinta anos depois, felizmente que graças ao movimento feminista, que sempre reivindicou a igualdade de género, que já existe igualdade nos trabalhadores, e nenhuma casa se constrói no mundo, sem que metade dos trolhas não seja mulher.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Rádio Errática

Quarta-feira passada fiquei até mais tarde no trabalho. Na vinda para casa apanhei o programa "Prova Oral" do Fernando Alvim na rádio Antena 3. Este é um programa que não tenho por hábito ouvir, precisamente porque não apanho no carro e não o ouço nem na rádio nem na internet. 

Este episódio versou sobre o Shifter e os seus fundadores, que é um site de informação na net que pretende ser independente, e falou-se genericamente sobre o jornalismo dos dias de hoje. E a determinado momento o apresentador Fernando Alvim diz o seguinte:

"Esta história de nós transmitirmos no Facebook, foi algo que eu no início tive alguma resistência, até porque as pessoas pessoas diziam "porque é rádio, a magia da rádio e tal". Sim, eu de certa forma também achava isso romântico, só que depois de perceber o boost que é teres uma transmissão ao vivo no Facebook e a quantidade de comentários que se multiplicam a cada minuto, tu percebes que seria errático não fazeres isso. É inevitável."



Errático Alvim? Porquê?

Eu também sou dessas pessoas que gosta da magia da rádio, de ouvir uma bonita voz e imaginar quem será que está por detrás dela. E é por isso que se chama rádio e não se chama televisão, vídeo-conferência ou outra coisa qualquer. No fundo o que tu estás a dizer é que fazes rádio porque se te desse a oportunidade de fazer o Prova Oral num canal de televisão mudavas-te logo, como se usasses a rádio para algo maior. Ou estou errado?

A magia da rádio, é por exemplo, eu, de repente, ter começado a ouvir uma mulher nas manhãs da Antena 3, uma tal de Inês Lopes Gonçalves, que me impressionou pela sua inteligência e humor refinado, e ter ficado intrigado porque sabia que conhecia aquela voz de algum lado. E mais tarde lembrei-me que era alguém que eu costumava ver no Canal Q, quando ainda tinha televisão. Só que houve um problema, eu troquei-lhe o corpo. Durante muito tempo fui pensando que era uma mulher magrinha, de cabelo curto e óculos de massa, e mais tarde, porque me cruzei com ela num qualquer telecrã sintonizado na RTP3 percebi que o corpo era outro. E já me disseram que ela anda pelo Cinco para a Meia-Noite... quem sabe comece a cuscar na net.  

Mas é precisamente por isso que se eu fosse radialista nunca que partilharia a minha imagem em lado nenhum. A alma e a magia da rádio é voz. A rádio não é imagem, para isso já existe a televisão. A pessoa que faz rádio vale-se desse único instrumento que são as suas cordas vocais. Se agora se transmite em direto um programa para a internet , nomeadamente para o Facebook (ou outras redes sociais) então isso para mim já não é rádio. Chamem-lhe outra coisa qualquer.

Bem sei que a pressão da imagem e da alimentação do ego é cada vez maior. E é ver os programas todos de rádio no Youtube ou nos seus sites em Podcast, em que a imagem de fundo é agora, quase sempre o corpo do radialista. Afinal, tem de se colocar ali qualquer coisa. Mas também se poderia muito bem colocar ali só o logótipo do programa, não? 

Eu ainda me lembro de um outro programa de rádio que, outrora, fruto de outro horário de trabalho apanhava todas as sextas-feiras na TSF. Esse programava chamava-se e chama-se ainda "Governo Sombra". E eu ainda me lembro muito bem de ouvir de o Carlos Vaz Marques, o moderador do programa, dizer que aquele era um programa de rádio, e que sempre recusou e recusaria qualquer proposta para o levar para a televisão. Mais. Ele até defendia que era precisamente por ser em rádio que aquele programa funcionava tão bem e tinha tanta audiência. Hoje, como todos sabemos, o "Governo Sombra" é um programa que passa na TVI. Está visto que o Carlos Vaz Marques também mudou de opinião e achou que seria errático não se vender e dar o dito pelo não dito. 

Eu sei que as coisas mudam e evoluem e todos temos de nos deixar levar, adaptar ou então resistir. Eu sei que o mundo gira atrás do dinheiro e que se as coisas não dão dinheiro, inevitavelmente deixarão de existir. E sei que as pessoas procuram protagonismo, e procuram mais público, e que tal como disse o Alvim, que seria "errático" não se vender. Mas onde é que fica a coerência no meio disto tudo? Admito perfeitamente que talvez o errático seja eu. Eu também poderia ir para as redes sociais para me promover, promovendo também os meus blogues; na volta ninguém me lê, basicamente porque são uma valente merda, mas eu comecei a escrever para mim, nunca pensei num blogue para tentar ganhar dinheiro ou para tentar mostrar como sou fixe. Talvez o errático seja mesmo eu. Humildemente admito que sim. Bem sei como é bem mais fácil deixarmo-nos levar pela corrente, do que nadar contra ela. Mas eu sou eu, e se eu me vender passarei a ser uma mercadoria. Deixarei de ser coerente e isso não me agrada. 

E será que vale tudo em troca do protagonismo e das audiências? É  mesmo preciso vender a alma ao Diabo? Eu achava que não. 

Qual será melhor: ser Amado ou Temido?

"Daqui nasce um dilema: é melhor ser amado que temido, ou o inverso? Respondo que seria preferível ser ambas as coisas, mas, como é muito difícil conciliá-las, parece-me muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas. Há uma coisa que se pode dizer , de uma maneira geral, de todos os homens; que são ingratos, mutáveis dissimulados, inimigos do perigo, ávidos de ganhar; enquanto lhes fazes bem, são teus, oferecem-te o seu sangue, os seus bens, a sua vida e os seus filhos, como disse atrás, porque a necessidade é futura; mas, quando ela se aproxima furtam-se. 

As amizades que se conquistam com dinheiro, e não pelo coração nobre e altivo, fazem sentir os seus efeitos - mas são como se não as tivéssemos, pois de nada nos servem quando delas precisamos. Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido, pois o amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os homens serem maus, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito; mas o medo mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona (...)

Voltando ao que disse acerca de ser temido e amado, concluo que, visto os homens amarem segundo a sua fantasia e temerem à mercê do príncipe, um príncipe prudente e sensato deve basear-se no que dele depende, e não no que depende dos outros, e deve estudar a maneira de não ser odiado, como já disse.

O Príncipe / Nicolau Maquiavel / 1513

Anda Tudo Muito Desconsoladinho

Esta semana, ali a dois passos da Torres dos Clérigos no Porto, a propósito da arte do pizaiolo napolitano ter sido reconhecida como Património Cultural e Imaterial da Humidade, decidiram confecionar e oferecer fatias de pizza a quem por ali passasse. Mas eu não pude deixar de ficar boquiaberto quando a minha colega de trabalho me diz que uma amiga dela partilhou no Instagram - parece que já ninguém usa o Facebook não é? (gargalhada maléfica!) - e que ela escreveu que já ali estava há mais de uma hora para poder dar duas trincas numa pequenina fatia de pizza. Vou repetir para melhor interiorizar: esperar mais de uma hora para dar duas trincas numa fatia de pizza!

O que é que move esta gente? Há qualquer coisa que se passa nos cérebros humanos, eu não sei bem o que é mas certamente que a psicologia deve explicar, que mal as pessoas ouvem a palavra saldo, promoção, rebaixa ou "dá-se" que como que ficam todos paralisados e hipnotizados. Isto até seria um teste interessante: qual seria o máximo tempo que alguém estaria disposto a estar ali, de pé, em pleno frio de Inverno, a esperar, salivando, pelas suas duas trincas numa fatia de pizza? Duas horas? Três horas? Até desfalecerem e caírem para o lado?

Mas eu sei muito bem o que isto é, pois, certa vez, coloquei um anúncio em que oferecia algumas plantas, visto que tenho muitas e precisava libertar espaço. E então pude constatar que, para comprarem, mesmo que seja a um preço muito barato 'tá quieto! Mas mal eu decidi colocar "Oferece-se", apareceram-me pessoas, que fizeram não sei quantas dezenas de quilómetros só para poderem levar para casa uma planta que valia menos que o dinheiro que gastaram na deslocação. 

Por algo gratuito há pessoas que vão até ao fim do mundo se for preciso! Isto é mais ou menos como aquele pessoal que é capaz de fazer dez quilómetros de carro só para poder abastecer o depósito de combustível cinco cêntimos por litro mais barato, não tendo em conta o gasto que tiveram na deslocação, muitas vezes tendo até de estar meia hora à espera para abastecer, nem fazendo as contas que com o combustível que abasteceram (menos limpo) dificilmente vão fazer tantos quilómetros como se se tivessem abastecido um combustível aditivado.

Mas depois ainda há outra questão. Estamos ainda a meio de Janeiro (e ontem na Loja do Cidadão ainda ouvia alguém a desejar "Bom Ano!" - até quando mesmo é que se pode desejar um bom ano? Até quê, 30 de Dezembro?) e ainda há menos de um mês as pessoas empanturraram-se com a consoada de Natal, com o almoço do Dia de Natal, com a consoada do jantar de fim de ano, com o almoço do primeiro dia do ano, com a consoada dos reis e com todos os dias seguintes a comer restos e mais restos de quinhentos mil doces diferentes, mas mesmo assim, ainda há gente disposta a esperar mais de uma hora numa bicha, para dar duas trincas numa pequena fatia de pizza! Parece que anda tudo desconsoladinho.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Por que é que a Igreja é de Direita se Jesus era de Esquerda?

"Pedro Tercero continuava a ser delgado, com o cabelo teso e os olhos tristes, mas ao mudar a voz adquiriu uma tonalidade rouca e apaixonada com a qual seria conhecido mais tarde, quando cantasse a revolução. Falava pouco e era escuro e rude no trato, mas terno e delicado com as mãos, tinha grandes dedos de artista com que esculpia, arrancava lamentos das cordas da guitarra e desenhava com a mesma facilidade com que segurava as rédeas de um cavalo, brandia um machado para cortar lenha ou guiava o arado. Era o único em Las Tres Marias que enfrentava o patrão. Seu pai, Pedro Segundo, disse-lhe mil vezes que não olhasse o patrão nos olhos, que não lhe respondesse, que não se metesse com ele, e no seu desejo de protegê-lo, chegou a dar-lhe grandes sovas para lhe baixar a grimpa. Mas o filho era rebelde. Aos dez anos já sabia tanto como a mestre-escola de Las Tres Marias e aos doze insistia em fazer a viagem ao liceu da povoação, a cavalo ou a pé, saindo da casinha de tijolos, às cinco da manhã, chovesse ou trovejasse. Leu e releu mil vezes os livros mágicos dos baús encantados do tio Marcos, e continuou alimentando-se com outros que lhe emprestavam os sindicalistas do bar e o padre José Dulce Maria, que também o ensinou a cultivar a sua habilidade natural para fazer versos e para traduzir em canções as suas ideias. 

- Meu filho, a Santa Madre Igreja está à direita, mas Jesus esteve sempre à esquerda - dizia-lhe enigmaticamente entre dois golos de vinho  de missa com que celebrava as visitas de Pedro Tercero. 

Assim foi que um dia Esteban Trueba, que estava descansando no terraço depois do almoço, o ouviu cantar qualquer coisa de galinhas organizadas que se uniam para enfrentar o raposo e o venciam. Chamou-o. 
- Quero ouvir-te. Canta, para ver! - ordenou-lhe. 
Pedro Tercero pegou na guitarra com um gesto apaixonado, acomodou a perna numa cadeira e dedilhou as cordas. Ficou-se a olhar fixamente o patrão enquanto a sua voz de veludo se elevava apaixonada na calmaria da sesta. Esteban Trueba não era parvo e compreendeu o desafio. 
- Aí está! Vejo que a coisa mais estúpida se pode dizer cantando - grunhiu. - Aprende a cantar canções de amor!
- Eu gosto patrão. A união faz a força, como diz o padre José Dulce Maria. Se as galinhas podem enfrentar o raposo, o que detém os homens?

A Casa dos Espíritos / Isabel Allende / 1982

Conversas Improváveis 17

Há duas coisas que acontecem quando os gajos vão para o ginásio:
- Nascem-lhes ovos debaixo dos braços e incham-se-lhes os tomates


Eu a fazer pernas não me custa tanto.
Tu não precisas fazer pernas porque pernas já tens, jogas muito futebol. Tu precisas é de fazer abdominais, porque barriga também tens!









# Um ginásio é um sítio que cheira a chulé

# Logo vamos ao ginásio?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A noite está muito muito fria...

Corres o risco de apanhar pneumonia....



"Cão muito mau" / Éramos Assim / Boitezuleika (por Carolina Torres) / 2005

Conversas Improváveis 16

Nomes de países começados pela letra: A...B...C...D...E....

Países começados por P:

- Paraguai
- Polónia
- Panamá
- Palestina
-  A Palestina é um país não é?
Acho que sim, tem bandeira e tudo.

Países por P....acho que não me lembro de mais nenhum. 
Oh... que parvos! Não nos lembramos de Portugal! 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Engate no Século XVIII - Orgulho e Preconceito

"Hoje não há regras não sabemos como agir quando nos encontramos. Apertamos a mão? Um beijo na cara? Dois beijos na cara? Batemos nas costas um do outro? Ninguém sabe. Não há regras.


O comportamento mais aceitável era parecer que não se queria um marido, apesar de se querer. Mas com a natureza humana a ser o que é, mulheres e homens tiveram de descobrir maneiras de se atraírem e deixarem a outra pessoa saber. Isso era aceitável. E uma grande parte disto aconteceria no salão de dança. 

A dança era absolutamente central para a sociedade da época no que diz respeito a encontrar um bom marido ou uma boa mulher. Quando se ia a um baile ou se havia uma dança no fim de uma festa, estar-se-ia sempre na presença dos pais. Portanto, se pensarmos como nos queremos comportar em frente aos nossos pais...

Era muito definido, muito claro. Ajudava muito, acho, olhando para trás. Levantamo-nos se uma senhora entra e fazemos uma vénia. Acho que hoje em dia, vemos isso como oprimente e demasiado formal. Eu de certa forma, gosto disso. Acho que dá à coisa um certo quê... Acho que é, na verdade bastante libertador.

O facto de ser difícil falar com alguém por quem se está apaixonado está brilhantemente realçado no período de Austen, onde não se podia falar com a pessoa a sós, exceto quando se dançava. Só assim podiam estar a sós e poder utilizar a dança dessa maneira. 

Os homens e as mulheres podiam estar juntos sem um chaperone e podiam falar um com o outro. 


É por isso que a ideia de um baile era tão excitante para elas. Porque se podia dançar com o filho do talhante, alguém que, num dia normal, não seria possível abordar para conversar. 

Se só se pode ter contacto físico na dança, então dançar com alguém é elétrico, é intenso. E é ter essa estrutura formal. Especialmente a dança. Representar esses pequenos momentos nessa altura formal. 

Eles não se tocam realmente. As mulheres não apertam as mãos dos homens. A primeira que o Darcy toca na Elizabeth é quando a ajuda a subir para a carruagem. E é um momento mesmo bonito. Porque é o primeiro toque de pele. E eu acho que hoje em dia não pensamos sobre isso, de todo. Eu apertoa mão às pessoas, beijo-as, o que for. É interessante pensar, se não se tiver essa natureza tátil, quão importante um toque pode ser."

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Incendiários do Facebook Anóninos


Portugalex / Antena 1 e Antena 3
Realmente há gente a escrever muito bom humor em Portugal. Genial. 

domingo, 14 de janeiro de 2018

Declaração Amigável de Engate & Foda

Esta semana, quando lia um artigo do The Guardian percebi que as neo-feministas americanas começaram a deixar as verdadeiras feministas, as francesas, com os cabelos dos sovacos em pé. Tudo porque, segundo a própria atriz francesa Catherine Deneuve, toda esta onda de denúncias de mulheres americanas acabou por se tornar numa verdadeira caça às bruxas e a colocar em causa a liberdade sexual.

Eu tenho para mim que, a continuar assim, em breve todos nós, homens e mulheres, teremos de andar connosco com uma declaração. Estão a ver aquelas declarações amigáveis que preenchemos quando temos um acidente, em que cada uma das pessoas preenche os seus dados, e até faz um desenho e tudo de como aconteceram as coisas?

Para esta gente muito em breve terá de ser assim.


Olhe, peço desculpa, mas olhei para si e gostaria de a conhecer. Quer avançar com o preenchimento de uma Declaração Amigável de Engate?

É neste momento que ambas as pessoas preenchem na mesma folha o formulário em que descriminam muito bem o que permitem que vá acontecer. Ficará decidido o tipo de abordagem e linguagem - não se estão a esquecer que o piropo já é crime pois não?  (portanto, muito cuidado!) ficará também decidido quem pagará os não sei quantos jantares que irão acontecer, até que, alguém se lembre de perguntar ao outro se podem preencher uma Declaração Amigável de Foda.

Atenção que, quando estamos a falar de uma Declaração Amigável de Engate, não estamos necessariamente a falar da procura de namorado(a) ou da busca de uma relação. Estamos só a falar do interesse normal que as pessoas têm em se conhecer ou relacionar-se, e logicamente, também do interesse em ter sexo, afinal, o sexo é uma das forças que movem o mundo.
Mas será expressamente proibido duas pessoas terem sexo sem terem antes uma Declaração Amigável assinada. A Declaração Amigável de Engate será uma espécie de Seguro que cada pessoa terá, principalmente se, muitos anos mais tarde vier a ser a ser muito conhecida, correndo o sério risco de vir a ser acusada, por não sei quantas pessoas, que se lembrarão que afinal, no passado, andou a tentar engatar alguém.

Para se passar ao nível seguinte e assinar uma Declaração Amigável de Foda as pessoas serão obrigadas a ter primeiro terem uma Declaração Amigável de Engate. Faz sentido não é? Os bois vão sempre à sempre à frente da carruagem. Na Declaração Amigável de Foda constarão lá todos os elementos em que cada pessoa permite envolver-se com outra(s) pessoa(s). Se gosta de minete e broche, se gosta de anal e a menstruação até só uma lubrificação extra, ou, se pelo contrário, só se permite sexo às escuras, com um lençol por cima do corpo e à missionário, tal como manda expressamente a santa madre igreja. Obviamente que só se pode fazer o que um e outro tenham assinalado em comum. Mas, de qualquer forma, em qualquer momento, qualquer um dos dois pode atualizar a sua Declaração Amigável de Foda e acrescentar mais alguns elementos.

Estou certo que este é o caminho que muitas pessoas querem. Ser humano, ter desejos e tesão é um ultraje para muitas pessoas. Acredito que as Declarações Amigável de Engate e de Foda serão uma realidade a breve prazo. Ninguém poderá falar para outra pessoa sem primeiro ter uma Declaração Amigável de Engate. Chamar amigo a quem se acaba de conhecer na net, e até tirar fotografias completamente nu e enviá-las para o telemóvel de alguém que se acaba de conhecer virtualmente é um comportamento normal e perfeitamente aceitável. Ousar dirigir palavra a outrem, abordar alguém que está à nossa frente, e manifestar-lhe o nosso interesse, seja ele qual for, é um injúria grave e que merece, no mínimo, o empalamento na praça pública. E com tudo isto, o verdadeiro assédio sexual,  agressivo e criminoso começará a passar despercebido.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cannabis: Expliquem-me como se Eu fosse mesmo muito Burro

"O estado proíbe ao indivíduo a prática de actos infractores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los." (Freud)

Via Google Images
Hoje discutiu-se no parlamento a legalização da Cannabis para efeitos terapêuticos. E o que eu gostava era que me explicassem, como se eu fosse mesmo muito burro, por que é que o Estado português vende um produto manipulado por forma a criar vício, e que mata, e que até colocou mesmo nas embalagens que "Fumar Mata", mas que, por outro lado, proíbe uma planta natural que a Natureza criou e que tantos benefícios tem.

Gostaria também que alguém me explicasse, igualmente como se eu fosse mesmo muito burro, por que é que o Estado português permite que se venda a droga que, cientificamente está comprovado, é a que mais estragos provoca na vida das pessoas, e essa droga chama-se álcool e que no entanto até se pode comprar em qualquer mercearia, mas depois, o mesmo Estado, vem dizer que é proibido cultivar e ter em casa uma planta, que por acaso até tem propriedades terapêuticas que ajudam em diversos problemas de saúde, mas que quando fumada pode fazer rir. Então temos que: Produto que mata? Pode-se vender! Produto que faz rir? Nem pensar! Toca a proibir!

Gostaria também que me explicassem como se eu fosse mesmo muito burro, por que é que o Estado  português diz que é proibido ter, cultivar ou propagar Cannabis em casa, mas depois, o mesmo Estado português, permite que se cultivem grandes plantações de Canabis em Portugal destinadas à exportação. 

Produzir Cannabis em Portugal para tratar doentes portugueses? É crime e dá cadeia. Produzir Cannabis em Portugal para tratar os doentes estrangeiros? Perfeitamente legal. 

Ide-vos foder a todos mais a puta da vossa hipocrisia. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Políticos que Mudam de Opinião conforme o Vento

"Depois do que passei, em 2004, 2005, depois do que aconteceu, com mais culpa minha ou não, acho que se concorresse a primeiro-ministro não tinha possibilidades de ganhar as eleições. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso, nem que o vento mudasse 10 vezes" (Santana Lopes 2013)



Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter dito que "Nem que Cristo desça à terra" (não serei candidato à liderança do PSD) e ter acabado por dar o dito pelo não dito e ter acabo por suceder a Fernando Nogueira, eis que é agora a vez de Santana Lopes, de mostrar que é tão irrevogável quanto Paulo Portas.

E eu espero, sem dúvida, que Santana Lopes, quatorze anos depois de ter sido primeiro-ministro durante quatro meses, possa voltar a ser líder do PSD. A vida política portuguesa agradece, pois será bem mais divertida. 


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A Serenidade dos Assuntos Sem Solução

"Eu tinha a minha vida inteira dentro do computador quando, de repente, crachou. Eu estava a ver o meu e-mail num hotel em Santa Maria da Feira e, sem explicação, como se tivesse vontade própria, o computador suspendeu-se, deixou de responder (...)

Eu tinha a minha vida inteira dentro de um computador que não me obedecia, que parecia  desfalecer. Depois chegou a serenidade dos assuntos sem solução. Essa paz tornou-se um terreno propício, uma planície, para o otimismo. 
Eu sei que hoje em dia, os técnicos de informática são capazes de recuperar a memória de discos muito mais intransigentes. Era sábado, estava em Santa Maria da Feira, ficaria adiada a solução. Eu não queria duvidar da possibilidade de uma solução. 

Ainda assim, nesse fim-de-semana, com amigos, houve algumas vezes em que nos faltou tema de conversa. Depois de falar da chuva e do frio, eu cedia perante a preocupação que escondia sob o otimismo, e contava-lhes o que tinha acontecido ao computador. "Não fazes backups?" Eu ficava a olhar para eles sem nada para dizer (...)

Passando o tempo, passou o sábado e passou o domingo. Na segunda-feira, cedinho, fui procurar o técnico que me foi sugerido por uma amiga. "Não fazes backups?"Andei por ruas de Alvalade com o computador ao colo até encontrar a direção que tinha escrita num papel mas que já memorizara (...)

O técnico tinha óculos e um vagar simpático. Devia ter fumado milhares de cigarros inclinado sobre aquela secretária. O cinzeiro estava a transbordar e o cheiro estava estranhado no pó. Expliquei-lhe. Ora vamos lá ver. Ligou o computador e não houve problema nenhum. Ligou-o de novo, e de novo, e voltou a não haver problema nenhum. Jurei-lhe que tinha acontecido o que descrevi antes. Olhou para mim, acho que acreditou e deu-me de novo a lição de que, quando se tem a vida toda dentro do computador, deve fazer-se backups. Isso já eu sabia, obviamente. 

Fui para casa, acreditando que era essa a mensagem que o computador me queria transmitir. A vida dos computadores é muito menor que a das pessoas, menor até que a dos gatos ou dos cães. Um ano na vida de um computador deve equivaler a uns vinte anos na vida de uma pessoa. Pensando assim, acreditei que o meu computador ancião me queria avisar antes de partir. Talvez sentisse a morte a aproximar-se. Esta ideia foi contrariada quando cheguei a casa, o liguei e, de novo, com a mesma insistência, me mostrou a tal mensagem e se recusou a deixar-me aceder a tudo o que transferi para o seu interior. Senti, por momentos, que era algo pessoal (...)

Por isso e por mil outros motivos iguais a esse, o computador ainda está ali, atrás de mim. Está coberto por cartas abertas, convites para lançamentos de livros e jornais que não leio. Mas creio que não estou preocupado, Ou, melhor, não estou mesmo. Afinal, eu sempre fiz backup de tudo num disco muito mais importante. Esse disco está coberto pelo meu nome. Funciona com imperfeições. No dia em que deixar de funcionar completamente, nada mais me importará. 

Disco Interno / Abraço / José Luís Peixoto (2011)

domingo, 7 de janeiro de 2018

E Não deveria o Amor ser Sempre o mais Importante?

Estávamos junto ao Cais de Gaia a conversar dentro do carro. De repente a conversa derivou para a temática dos filhos. E talvez essa conversa não tivesse aparecido por acaso. Quando estamos apaixonados por alguém, especialmente há pouco tempo, e já não somos umas crianças, vamos analisando o outro, tentando perceber que terreno pisamos, com o que podemos contar. Creio que ela estava a ser mais analítica que eu, apesar de, como é lógico, também eu, ainda que de uma forma mais distraída fosse apreendendo que mulher era aquela que me abalou as estruturas. 

"Eu vou ter dois filhos", disse-me. Eu ouvi isto, não como um desejo muito grande da parte dela, mas como um facto. Eu sabia que ela só me estava a informar. Nesse momento uma grande tristeza abateu-se sobre mim e ela percebeu-o. Porque eu nunca quis ter filhos. E a determinada altura, ainda dentro do carro, abraçamo-nos. 

Lembro-me perfeitamente de conversarmos sempre de forma tranquila, e de lhe ter perguntado se ela afinal procurava um homem que a amasse ou se buscava um pai para os filhos dela. Claro que a resposta era óbvia: ela queria os dois. Mas para mim, não ter filhos é um duplo sentimento de amor, ainda que, se calhar, poucos o entendam. Antes de mais, e por maior ordem de importância, para mim, não querer ter filhos é um ato de amor pela mulher que amo. Depois, e só depois, porque a minha mulher teria de vir sempre em primeiro lugar, não colocar filhos neste mundo e nesta sociedade apocalíptica, seria um ato de amor por eles.

Mas é sempre tudo tão irónico... É tão irónico porque eu não deveria estar aqui a escrever. Muita coisa não era suposto ter acontecido, porque se tudo tivesse decorrido normalmente, eu hoje não estaria aqui neste mundo. Talvez não esteja mesmo. Talvez isto seja só uma realidade alternativa, de como seria o mundo destas pessoas a quem me dei, e como é que seria se eu tivesse nascido e vivido no meio delas. Se calhar só mesmo eu é que vejo esta realidade alternativa. Porque muitas vezes bem tento, mas parece que as pessoas me olham mas na realidade  não me vêem. É como se eu estivesse noutra dimensão, os visse e ouvisse mas não me vissem a mim, nem lhes pudesse tocar. 

Eu fui transplantado no tempo e fiquei a reviver estes momentos, ainda tão presentes, quando esta semana estive com um casal a degladiar-se, porque um dos dois quer ter muito pelo menos um filho, mesmo que não seja para já, mas o outro parece-me que, por sua vontade, nunca iria querer ter nenhum.
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E o que é que se faz quando num casal um quer ter filhos e o outro não quer? Cedências? Consensos? Mas como é que se cede ou se chega a um consenso nesta matéria? Ter filhos contra a vontade, ou ficar toda a vida frustrado sem filhos (quando se tem companheiro para os fazer) não é bem o mesmo que ir ver um filme que à partida se sabe que não se vai gostar, mas a que se vai só para fazer fazer a vontade do outro. Ter ou não ter um filho não é bem o mesmo que chegar a um acordo sobre se compramos um monovolume ou uma carrinha, se passamos a comprar açúcar amarelo em detrimento do branco. Esta questão dos filhos é um bocadinho mais complexa que isso.  

E sem dúvida que ninguém deveria ficar frustrado e triste por passar uma vida sem ter filhos. Tal como ninguém deveria sentir-se obrigado a ter filhos contra a sua própria vontade. E acho que ninguém pode dizer que uma posição é mais ou menos importante que a outra e acho que é sempre preciso respeitar-se a vontade do outro, ainda que se possa conversar muito a esse respeito e quem sabe, eventualmente, as pessoas possam chegar a um entendimento.

Na verdade eu não sei como é que um casal resolve essa questão sobre os filhos, quando um tem um desejo oposto ao outro. Mas o que eu sei, de certeza, é que o Amor vem sempre muito antes dos filhos. E não deveria o Amor ser sempre o mais importante?

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Alguém tem o Número de Telefone da Gisela João?



Ó Gisela, quando estiveres em casa, sozinha, a reclamar que nenhum homem te convida para sair, diz, que eu convido-te. Tens é que estar por Barcelos que eu não vou a Lisboa frequentemente. E se queres saber, tu não me metes medo nenhum. Talvez a Fernanda Câncio me metesse mais medo, mas tu não. Tudo bem, tu és uma fadista desta nova geração, e se sairmos juntos se calhar muita gente te vai reconhecer... Mas isso não me vai deixar amedrontado. Tu é que podes não estar preparada para sair comigo!

Mas deixa-me que te diga que tu deves-te dar com uns homens um bocado estranhos pá! Até te digo mais, amedrontado eu ficaria se fosse uma figura pública. Se eu fosse aqui ou acolá e toda a gente me reconhecesse. Isso sim deve ser horrível. Acho ótimo o anonimato. É um descanso! Agora sair com uma gaja conhecida? Era o que me havia de faltar, afinal eu ficaria sempre na penumbra. Sair contigo deveria ser tão entusiasmante como andar a passear com a namorada com as mamas ao léu na  praia... Mas só experimentando -queres experimentar?

Mas concordo totalmente contigo, apesar de, como foste um bocado atropelada pelo Bruno Nogueira e pelo Miguel Esteves Cardoso, não percebi totalmente onde irias chegar com "os portugueses são muito contidos". Mas é verdade, nós somos muito contidos, e eu revejo-me nisso. Posso ver qualquer pessoa conhecida que faço sempre vista grossa. Não vou lá a correr importuná-la. Mas não achas que isso pode ser bom? Ou preferes que um bando de gente, sempre que dobras uma esquina, vá ter contigo para te chatear com autógrafos e fotografias e mais não sei o quê? Não é positivo dar descanso ao artista? A mim parece-me que é mas percebi que pensas de maneira diferente.

Sobre a questão dos homens não te abordarem, bom, acho que eles têm razão. Tem que ver com insegurança. Uma gaja conhecida pode escolher quem quiser, por que é que haverias de te interessar por mim? Acho que é mesmo por aí. Então para não levarem um não, os homens preferem ficar quietos no seu cantinho, e enquanto isso tu vais chuchando no dedo. 

Mas pronto, já sabes. Quando estiveres aí em casa, sozinha, a deprimir, liga-me. Não me convides é para ires dançar! Mas podemos sair, jantar - se quiseres até te deixo pagar ! vê lá como eu sou moderno! - e podes-te rir e falar alto. Estás à vontade! E eu não tenho problemas nenhuns com isso, nem com mulheres independentes!

Já agora, tu foste daquelas fadistas que andou a posar nua para o Bryan Adams? Ele é que não é nada parvo não! Olha... eu também gosto muito de fotografia, por isso é mais um tema de conversa!  E tu chamas-te mesmo Gisela João ou é nome artístico?  Pronto está bem, quando sairmos contas-me isso tudo, e eu conto-te aquilo da Fernanda Câncio! Combinado?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Vacina da Gripe Afinal Previne o Quê?



Em Outubro era anunciado que o Estado comprou uma pipa de vacinas, o que representou um aumento de cerca de 20%. 

Entretanto passaram só dois meses, o frio do Inverno ainda nem sequer veio, e já se fala numa enorme afluência de pessoas aos hospitais por causa da gripe???

Mas então a vacina previne o quê, caralho?




Ah pois é, afinal parece que a vacina da gripe afinal só tem eficácia de 10%!! Mas só convém avisar as pessoas disso depois de toda a gente a ter tomado! 

Tomar a vacina da gripe não é mais do que um ato de fé. É acreditar que tudo vai correr bem. Depois, como muita gente escapará e não terá gripe, se a tiver tomado, acreditará piamente que foi graças à vacina que escapou. Se ficar com gripe na mesma, acreditará sempre que se não a tivesse tomado, ainda teria sido pior! 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Recordação dos Tempos da Telescola

Feita a instrução primária, o meu primeiro e segundo ano da escola foram feitos na Telescola. A Telescola pareceu-me um bom método de ensino, aliás, tão repleto de sucesso, que ao que parece outros países vieram cá estudá-lo. A coisa funcionava mais ou menos assim. Os primeiros dez ou quinze minutos das aulas, eram ministrados com recurso à televisão. Naquelas horas, a RTP transmitia exclusivamente, do Monte da Virgem em Gaia, as emissões de cada aula específica (ciências, matemática, história, etc) e com recurso ao professor da televisão, que todos os alunos ouviam em silêncio, passavam-se então depois para os exercícios dos livros, com ajuda do professor  presencial da sala de aula. 
Tínhamos dois professores, um para Ciências e outro para Letras. E os testes era todos feitos no mesmo dia, para todas as escolas, e depois, se não estou em erro, eram sorteadas escolas que tinham de enviar os testes dos alunos para serem avaliados externamente. 

E quando nós, alunos da Telescola, chegamos ao já chamado 7º ano, acho que estávamos muito bem preparados, porque os outros, os que vinham do sistema de ensino "normal" não tiravam melhores notas que nós, bem pelo contrário. 


Ao fazer aqui umas arrumações deparei-me com fotos dos temos de escola e da minha turma do 6º B. Quase não sei o que é feito da maioria desta gente, mas acho que só não me lembro do nome do professor de Letras, de resto, mau era se não me lembrasse deles todos. O maior era o João Paulo, que está ao lado do Pedro, o filho da professora Luísa. Acho que aqui nestes tempos, com onze anos, ainda não tinha grande interesse pelas raparigas, aliás, algumas, duas ou três, até já tinham corpo de mulher.
Sei que a Nela e a Luísa mantêm a mercearia/tasco que era dos pais. E elas bem que eram espertas e vivaças. A Angelina sublinhava tudo muito bem sublinhado, com várias cores, mas tinha algumas dificuldades de aprendizagem, fruto talvez de uns pais muito mais velhos e muito antiquados e conservadores que não a souberam acompanhar. A Mafalda também está ali, é a tal que já tem uma filha adolescente com bom corpinho para levar umas boas palmadas. A Adélia ficou viúva ainda jovem... O Paulo Jorge, meu camarada da primeira-classe até aos 15 anos, e que desenhava bastante bem, é engenheiro civil e tem a sua empresa. O Eurico era muito bom de bola e maluco pelo Benfica! E agora que penso, talvez o seu nome não seja assim tão à toa, porque houve um Eurico que foi jogador do SL Benfica nos anos setenta, apesar de nos oitenta ter representado o Sporting e depois o FC Porto.  Havia ainda os dois Carlos, o Rui que tinha uma voz anasalada; os dois nHugos, o Neca (com quem troquei a moeda do meu avô) a Célia,  que parecia mais santinha do que na realidade era; a Marta com aqueles lábios grossos que faria muita inveja hoje em dia!; a São, a Natércia, a Anita, a Mónica, que certa vez desenhei numa aula de Educação Visual; o Cláudio, o Rui José, o Delfim e  o Miguel. Não sei o que é feito da maioria desta gente. Cruzámo-nos nos tempos de escola, e cada criança cresceu e seguiu as suas vidas. A maioria crianças de pais humildes, ainda assim, acho que longe, o mais carenciado seria eu.