domingo, 30 de janeiro de 2022

Conversas Improváveis (66) - Eu até há 10 Minutos Julgava Que Eras Inteligente


Semana de obras na empresa. Imagine-se, pintar um teto que era preto e deixá-lo bem branco. Levou umas quatro demão porque o preto, que absorve a luz em vez de a refletir, é a cor mais difícil de cobrir. Nem quero imaginar quantas demão é que teve que levar a pele do Michael Jackson para ficar mais branca que uma gótica que não apanha sol desde 1986!

Vários trabalhadores a pintar, um a fazer paredes de pladur e um eletricista a mudar a iluminação. A fazer os recortes um jovem de cor bem morena e cabelo grenho, que pelas conversas percebi que é de origem africana tendo vindo para Portugal aos cinco anos.

Durante os primeiros dias da semana fui conversando com um colega que relembrou a história de ter descoberto que um primo, de 23 anos, que antes até votava PS mas que agora assumiu que iria votar no CH por "protesto". 

Eu manifestei a minha estranheza. Afinal, iria protestar contra o quê? 
- Chega de aumento do salário mínimo todos os anos?
- Chega de desemprego em mínimos históricos?
- Chega de crescimento económico acima da média Europeia?
- Chega de país mais vacinado do mundo? 
- Chega de prosperidade?

Mas meu colega respondeu-lhe muito bem:

"Eu até há dez minutos julgava que eras uma pessoa inteligente".

As obras foram continuando ao longo da semana e a pouco e pouco os trabalhadores sentem-me com mais confiança com quem as pessoas da empresa. Por exemplo, ao início até apareciam de máscara, mas rapidamente - que basicamente foi no dia seguinte! - ninguém as usava apesar dos cinquenta mil casos COVID diários. Estranho ainda mais porque os pintores lidam diariamente com produtos químicos, mas tudo bem. 

No último dia de semana, e no meio de todo aquele caos de obras e tentar trabalhar, o choque. Passo de relance por um telemóvel pousado em cima duma estante e via-se André Ventura a falar. Não liguei, Mas momentos depois o outro colega chama-me a atenção: o pintor estava a ouvir o discurso do fascista! Eu fiquei boquiaberto!

Aquele jovem português de origem africana, que terá certamente sangue escravo nas veias, estava a ouvir o discurso do político racista, xenófobo, homofóbico e que quer fazer cercas sanitárias a minorias étnicas!

"Eu até há dez minutos julgava que eras inteligente".

Quando esta coisa deste partido ilegal apareceu (com mais destaque nos media que o anterior partido fascista PNR), dizia-se que o seu discurso era acolhido pelos mais velhos. Mas não é nada essa a minha sensibilidade. Tão simplesmente porque os mais velhos ainda se lembram muito bem da ditadura, das prisões arbitrárias e mortes, duma guerra colonial injusta, mas principalmente da fome e da "sardinha para três". 

Pelo contrário. São estes jovens que cresceram numa sociedade em que não lhes falta nada, que mais se deixam seduzir por estes discursos fascistas. Bom, não lhes falta nada é como quem diz: falta-lhes o mais importante: inteligência.  

sábado, 29 de janeiro de 2022

Quando o Inverno Era Inverno e Não Travestido de Primavera

 Dia 29 de Janeiro de 2022, véspera das legislativas que irão encher o parlamento de fascistas. Pleno Inverno. 

Não chove há semanas e pouco ou nada tem chovido neste Inverno que tem sido quente. Vários incêndios a decorrer no dia de hoje. De tarde andei de manga curta ao sol. Mas não suficientemente estranho, andei a regar as plantas porque a terra estava completamente seca.

Há um ditado popular que diz: "Muito vai mal Portugal quando não tem três cheias antes do Natal". 


Relembro as palavras de Hélder Pacheco, em 1995:

"Quando a humanidade do meu quinteiro acreditava nas virtudes purificatórias e propiciatórias dos rituais para se defender do Mal, das Trevas, dos Mafarrico e demais forças ocultas, gozava à tripa-forra no Entrudo e em alguns dias do seu prolongamento no tempo da mortificação: a Quaresma. Era, claro, humanidade - como se diz agora - mais do que básica, pois, além de não possuir quatro canais de televisão a debitar telenovelas, suportava invernos à altura dos seus pergaminhos astrológicos e não travestidos de Primavera. Naquelas eras Inverno era Inverno, sendo preciso afastá-lo, renegá-lo deitá-lo fora como trapo velho para que o rejuvenescimento da Natureza fosse feliz e sem entraves. Eis, no fundo, a essência dos rituais do Natal à Páscoa, com plena representação na Serração da Velha, no enterro do João e na morte - queima - ritual do Judas antes da alegria esplendorosa da Ressurreição da Vida. 

Conversas Improváveis (65) - Não Vás Votar de Bicicleta


 Com isto da pandemia e dos infetados e isolados poderem ir votar (porque os partidos sobre o seu interesse pessoal estão sempre de acordo, mesmo acordando que votar é mais importante que a saúde e a vida) comentei que, se calhar, no dia das eleições, levantava-me cedo e até ia mas era de bicicleta. 

O meu colega:

"Não vás de bicicleta. Assim ficam logo a saber em quem vais votar"!

E, de facto, ele tem toda a razão! Ficavam logo a saber que vou votar num partido de Esquerda! 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Pobres de Direita ou Inconsciência de Classe

Na escolinha aprendemos que, há uns séculos, antes da revolução industrial, existiam três classes: povo, nobreza e clero. Mas hoje porque adora-se fragmentar e estratificar tudo, dividimos as pessoas em muitas outras classes além destas: pobres, classe média, ricos e multimilionários, quando na verdade poderíamos dividir em duas: os que tudo têm e exploram os outros e aqueles que nada têm além da mão de obra que vendem para sobreviver. 

E entre aqueles que nada têm tanto está o sem abrigo que vive na rua, aquele eremita que vive sozinho e come do que planta no sopé da montanha; o operário que trabalha na linha de produção, ou o engenheiro informático que ganha cinco mil Euros numa daquelas melhores empresas para se trabalhar em Portugal, bem como o pequeno empresário empreendedor. 

Mas Königvs, como é que tu metes no mesmo saco o operário com o 9ºano de escolaridade duma linha de produção com um engenheiro que ganha cinco mil Euros numa bela duma empresa com playstation, televisão e mesa de ping pong?

Meto porque ambos vivem de se vender para sobreviver. O operário trabalha 8h por dia para ganhar 700€ e gasta em função desse salário mínimo, de igual forma também o engenheiro faz o mesmo: de vender a sua mão-de-obra para pagar as despesas que esse salário lhe permite. 

Ou o que é que acham que vai acontecer ao engenheiro dos cinco mil Euros por mês se tiver um cancro e deixar de trabalhar? Será que ele tem dinheiro para pagar os custos dos tratamentos do seu bolso e pagar as suas despesas como as prestações do apartamentozinho que lhe custou 300 mil euros a quarenta anos bem como o Volvo de 60 mil Euros, ou está bem fodido porque estouraria as poucas economias que amealhou se não existisse um coisa chamada Serviço Nacional de Saúde, que não existia durante a ditadura (nem pela vontade de PSD e CDS)? Porque se estivesse à espera que o seguro de saúde que não fez (porque em Portugal só os pobres fazem seguros de saúde) bem morria ao desmazelo porque os seguros não cobrem esse tipo de tratamentos caríssimos. 

De um lado estão os trabalhadores, do outro os donos dos meios de produção que enriquecem à custa da exploração do lucro que obtêm. De um lado os 99%, do outro os 1% que tudo têm. e põem os trabalhadores a mijar para uma garrafa. 

Mas se entendo que alguém que ganhe cinco mil euros por mês possa pensar mais no seu bolso do que no bem comum (a nível de impostos por exemplo), já acaba por ser ridículo que o trabalhador que se queixa de ganhar o salário mínimo vote no mesmo partido que vota o seu patrão!

A Direita existe para representar os 1% que tudo têm. É justo. Em democracia todos se devem fazer representar. Mas o que não faz sentido nenhum é os ratos continuarem ao longo dos tempos a eleger os gatos para os governarem. 

"No Brasil, o pobre odeia o miserável, a classe média odeia o pobre, o rico odeia a classe média, o milionário odeia o rico, acha cafonérrimo. E por aí vai, é sempre o ódio pela classe imediatamente abaixo."

Infelizmente assistimos a uma constante luta entre trabalhadores. Quem ganha o salário mínimo tem ódio de quem tem que se sujeitar a receber 90€ de rendimento mínimo; trabalhadores do privado atacam trabalhadores do público; a casse média despreza os pobres, enquanto são desprezados pelos ricos.

Contudo para mim a ideologia não está à venda. Bem ou mal tenho as minhas convicções e penso pela minha cabeça. Ganhasse hoje o Euromilhões - algo impossível porque não jogo - e continuaria a defender que quem mais ganha mais impostos deve pagar, para haja uma maior redistribuição da riqueza para o bem comum, e não só para engordar meia dúzia, os mesmos de sempre.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Coisas Que as Pessoas Deixam Dentro dos Livros (2)

 Quem será a Alexandra que tem esta bela caligrafia? 


# Coisas Que as Pessoas Deixam Dentro dos Livros (1)

Tinder Político Legislativas 2022

Estamos a uma semana de novas eleições legislativas, perfeitamente dispensáveis diga-se. Culpo toda a gente, desde logo o culpado-mor, o rei-das-selfies que dissolveu a assembleia e esperou para marcar eleições porque toda a direita estava em pé de guerra: PSD, CDS, CH, todos sem líder e em disputa interna. Culpo também o primeiro-ministro, aquele que tendo minoria é obrigado a negociar. Mas culpo também os partidos da oposição, todos eles menos o PAN e as deputadas não inscritas, porque quiseram chumbar um orçamento de Estado que, já se sabia, acabaria por resultar em eleições porque assim tinha definido o presidente da república.

Temos assim que, em plena pandemia, com o país a crescer acima da média europeia, e precisando de investir na recuperação, ficaremos estagnados, se calhar com um ano sem Orçamento de Estado, porque quase toda a gente colocou os seus interesses à frente dos interesses do país. 

Mas o mal está feito, há eleições e temos que votar. 

Não vi nenhum debate, tal como não ouvi nenhuma entrevista. E acho que ver tempos de antena e acompanhar campanha eleitoral é como aquele aluno que nunca foi às aulas mas depois quer entender toda a matéria no dia anterior ao exame. Eu já tenho uns cabelitos brancos para conhecer de ginjeira todos os partidos com assento parlamentar. 

Mas ainda assim gosto sempre de fazer testes políticos. Credíveis como é lógico e não como o do jornal Manipulador em que se pessoa responder neutro em tudo dá que é de extrema-direita!

Creio que foi em 2019 que já tinha feito o teste político do jornal Público. Repeti agora, numa coisa estilo Tinder, em que os resultados me parecem muito fidedignos, salientando no entanto que nos resultados só encontramos os partidos com assento parlamentar. 

Se o teste é uma espécie procura de relação no Tinder, então eu posso dizer que me saiu uma menage-a-troi com o Rui Tavares, a Catarina Martins e Inês Sousa Real. E parece-me muito bem


O teste pode ser feito aqui.

Não é a Tua Amiga Aqui na Revista?

Sim e não. Sim, é a pessoa que tinha falado, mas não é minha amiga. Em boa verdade até já faz muito tempo que deixamos de falar.  

Anteriormente já tinha aqui falado como as figuras públicas exercem um enorme poder de atração sobre os anónimos. E quem não me conhecer até poderá pensar que eu já tive uma amizade com alguma figura pública ou, pior, que andei envolvido de alguma forma com alguma. Lamento desiludir mas, não! E por isso não há detalhes sórdidos para ninguém!

Contudo, já tive uma pequena amostra quando me deparei com uma cantora, bem conhecida do meio que frequentava e que, muitos anos depois, acabei por ter como colega de trabalho. E a verdade é que, nunca a consegui ver como outra pessoa comum, igual a outro colega. Havia ali sempre uma diferença.

Se eu agora, por algum motivo, começasse a conversar, ainda que na net, com determinada figura pública, não tenho dúvidas que seria sempre toldado pelo fascínio, mais ou menos como a atração que, de noite, os mosquitos sentem pela luz. 

Acredito que para um ~ilustre anónimo como eu, seja sempre uma espécie de troféu ou conquista, mesmo que ninguém saiba. "Eu sou amigo, ou eu relaciono-me ou eu ando a comer a pessoa X". Que fixe que é. Sou o maior! Porque o que vem primeiro não é o conhecimento da índole ou personalidade da pessoa pública mas sim o brilho do mediatismo e o feito de nos relacionarmos com alguém que tem determinado protagonismo e que está muito acima de nós. 

Sim, eu conheci aquela senhora que apareceu na revista. Foi um conhecimento virtual ainda que, a determinada altura, até tenha sido agendado um encontro pessoal que acabou por não acontecer. Foi meramente um encontro casual num local inesperado do éter cibernético que desembocou em conversas e revelações pessoais. 

Fomos trocando conversas entre dois iguais, meros ilustres anónimos e, só bem mais tarde, fruto de a ir acompanhando na sua rede social, comecei a perceber, bem antes das revistas, que se estava a tornar numa figura de destaque mundial. 

Guardo para mim a triste revelação (na minha maneira de ver as coisas) que nunca se apaixonou. Que estava farta de ver as amigas sofrer por causa das suas relações. Então, decidiu nunca se entregar. Começou a pedalar com rodinhas na bicicleta e resolveu nunca mais as retirar com medo de cair. É verdade que assim não corre o risco de cair e aleijar-se, mas também nunca conhecerá a sensação de pedalar livremente. Viver sempre debaixo da cama com medo que a casa um dia venha abaixo também não é viver. É só existir. A dor faz parte da vida, tal como faz a alegria. É legítimo estar sempre na defensiva, mas eu acho triste. Mais triste ainda foi confessar-me que achava que os homens só a viam como um bom naco de carne para foder. 

Deixamos de falar, de forma natural, tal como deixamos de falar com tantas outras pessoas com quem nos cruzamos na net. Como deixamos de falar com os próprios amigos, que estão à distância de um clique na rede social. Também sei que será uma pessoa extremamente ocupada, sempre a viajar de um lado para o outro lado do mundo e a gerir o grupo de pessoas que com ela trabalha diretamente. E depois eu também nunca gostei de sentir que estou a forçar algo. Gosto de deixar fluir.

Fico feliz que esteja a ter muito sucesso porque o trabalho ou o sucesso profissional, e consequente reconhecimento pessoal, é sempre uma componente importante das nossas vidas. Mas mais importante que o brilho dos holofotes, espero que longe deles, a vida pessoal também lhe esteja a correr bem. 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Caravana do PAN


 Pausa de almoço. Resolvi ir ver como estavam as magnólias do Parque da Quinta das Devesas. Perto da entrada, cruzo-me com um carro vazio de humanos e com um cão ao volante. Certamente deveria ser um cãodidato a seguir para uma caravana do PAN.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Conversas Improváveis (64) - Macetes e Batota


 Ela está muito entusiasmadas a fazer a sua árvore genealógica. Comprova-se a análise de ADN dando-lhe 80% de origens europeias e descendência judia que já suspeitava. 
Hoje em dia, com o digital, temos à nossa disponibilidade potentes ferramentas para que, sem sair de casa, possamos chegar aos nossos ancestrais de vários séculos atrás. Mas aos poucos ela já domina a coisa e diz-me:

"Mas eu já descobri um macete..." 
Só  uma observação, nós não usamos essa palavra, "macete", mas eu sei o que é. E, curiosamente, agora que penso, lembro que quando era criança e jogava às cartas fala-se em fazer "macetes", que queria dizer que se estava a fazer uma trafulhice qualquer, o mesmo que batota. 
Ela ri-se, e eu pergunto incrédulo:
Tu não sabes o que é "batota"?

domingo, 16 de janeiro de 2022

O Altruísta

Muito sucintamente, "O altruísta", romance de 1884 de Bernard Shaw, (An Unsocial Socialist, no original) o primeiro livro que li este ano, é uma sátira, a história de Sidney Trefusis que herda um império mas que, percebendo que tudo foi roubado pelo seu pai, que escravizou os trabalhadores, acaba por desprezar a sua classe e privilégios em que nasceu e abraça a causa socialista na luta e defesa dos mais pobres. Para isso, por vezes assume assume uma outra identidade, Smilash, um humilde e cómico trabalhador, para se aproximar das pessoas que entende e tentar persuadi-las à sua causa. 

"A sociedade inglesa moderna, a parte brilhante, a esfera na qual nasci , afigura-se-me tão corrompida como o consentem o sentimento da  sua cultura e a sua ausência de honestidade . É uma multidão de hipócritas que admira a mentira, detesta a realidade, garatuja, palreia, procura a riqueza, os prazeres, a celebridade. Já perdeu o temor do inferno e não substitui este temor pelo amor da justiça. Por isso ela deseja sòmente a parte de leão das riquezas arrancadas, pela ameaça da fome, das mãos das classes que as produzem.


Tu sabes o que sou, segundo a descrição convencional: um senhor que tem muito dinheiro. E conheces a origem de todo este dinheiro e do meu nascimento ilustre?

Vou dizer-te por que razão somos ricos. Meu pai era um homem de Manchester, espertalhão, enérgico e ambicioso, para quem uma troca qualquer era uma transação em que um homem deve ganhar e o outro perder. O seu objetivo na vida foi fazer tantas trocas quantas lhe foi possível, mas sendo sempre a ganhar (...) Além disso o meu pai adquiriu conhecimentos sobre a manufatura do algodão. Economizou dinheiro, pediu mais de empréstimo sobre a sua reputação de homem de homem conhecedor de negócios e estabeleceu-se por sua conta, como mais tarde me contou. Comprou uma fábrica de algodão bruto (...)

Quando o meu pai começou a trabalhar por sua conta, havia muitos homens em Manchester que gostariam de trabalhar como ele, mas esses homens não tinham fábricas onde trabalhar, nem máquinas, nem algodão bruto, pela simples razão de que esta planta indispensável, como os materiais para a produzir, tinham sido açambarcados por outros homens chegados antes deles. Encontravam-se portanto com o estômago vazio, os braços trémulos, as suas mulheres e os seus filhos cheios de fome, num lugar chamado a sua terra, onde igualmente cada parcela de terra e todas as origens possíveis de subsistência estavam em mãos de outros. Em circunstâncias tão lamentáveis, os pobres diabos dispuseram-se a mendigar o acesso à fábrica e ao algodão bruto por um preço que pelo menos lhes permitisse viver. Meu pai acedeu nas seguintes condições: os homes deveriam trabalhar ativamente desde manhã cedo até entrada a noite, para criar um valor novo ao algodão que manufaturavam. Com o valor assim criado por elesdeviam indemnizar meu pai do que lhes tinha fornecido: abrigo, gás, água, máquinas, algodão, etc., e pagar-lhe os seus servios como diretor, administrador e vendedor. Mas, depois disto tudo pago, ficava um saldo proveniente do trabalho desses homens exclusivamente. E o meu pai impôs: "Vocês retiram deste saldo o suficiente para não morrerem de fome e fazem-me presente do resto para me recompensar do mérito de que dei provas economizando dinheiro. É esta a minha proposta. Na minha opinião é justa e sere para encorajá-los a adquirir o hábito da economia. Se não concordam com o meu ponto de vista procurem um fábrica e algodão para vocês, que na minha fábrica e no meu algodão não põem as unhas". Por outras palavras podiam ir para o diabo e morrer de fome, porque todas as outras manufaturações pertenciam a pessoas que não ofereciam melhores condições (...)

Em seguida comprou mais máquinas e como as mulheres e crianças podiam fazê-las trabalhar tão bem como os homens, mais barato e eram mais dóceis, despediu cerca de sessenta por cento das suas "mãos" - era assim que chamava aos homens - e substituiu-os pelas mulheres e crianças, que ganhavam dinheiro para ele mais depressa do que até então (...)

Numa palavra, se Josephs Tréfusis, membro do Parlamento, que morrer milionário no seu palácio de Kensington, tivesse sido um ladrão de estrada, eu não o detestaria mais a ordem social que tornou a sua carreira não só possível, mas eminentemente honrosa aos olhos dos seus semelhantes. A maior parte dos homens esforça-se por imitá-lo na esperança de se tornarem ricos e ociosos nas mesmas condições. É por isso que lhes volto as costas. Não posso tomar parte nos seus festins sabendo o que estes custam de miséria humana e vendo que magra margem de humana felicidade eles produzem. Qual é a tua opinião a este respeito, meu tesouro?

"O Altruísta" - Bernard Shaw (1884)

sábado, 15 de janeiro de 2022

Coisas que se Compram por 1 Euro


Os portugueses conhecem bem o filho. O pai, o escritor Orlando da Costa poucos conhecerão, tal como eu não conhecia muito. Aderiu ao PCP em 1954 e foi preso pela PIDE e, antes de morrer (segundo a Wikipedia) desenvolvia no PCP atividade na área da cultura literária. Talvez não tenha sido por acaso que o filho mais velho tenha sido o único líder do PS a conseguir fazer um acordo de governo com os comunistas, nove anos depois da sua morte. 

É sempre curioso quando encontramos estes achados por um preço simbólico, e depois ainda por cima abrimos a capa e encontramos lá dentro uma dedicatória do autor.

Mãe: Tive 2K no Twitter!


Chego à conclusão que, claramente, sou melhor a tweetar do que a colocar fotos no Instagram ou vídeos no Youtube.

Nunca consigo antever se determinado pensamento em forma de frase vai ter, ou não, destaque. Se vai criar bastantes reações ou nenhumas. Por vezes penso "olha que coisa que inteligente que me lembrei e vou partilhar" e depois não acontece nada. Noutros casos, quase sem querer, partilho algo tão simples como a minha sebe de heras e os bonsai que dela fiz, e uma figura mediática partilha dizendo que é das melhores coisas que se vê no Twitter.

A verdade é que, além da importância (ou estupidez do conteúdo) tudo depende de muitos fatores, como a hora a que se partilha, mas principalmente se é visto e partilhado por outras pessoas que, tendo milhares de seguidores, permitem uma exposição muito maior. 

Contudo, não deixa de ser curioso observar que, essas mais de duas mil aprovações em formato coração, ficam ainda muito longe de uma publicação no Bucólico-Anónimo que, num texto sobre eucaliptos, em três dias teve mais de onze mil visualizações, e num tempo em que eu ainda nem sequer estava nas redes sociais. 

domingo, 9 de janeiro de 2022

As Vinhas da Ira do Interstellar

"Nas estradas, onde o gado transitava e onde as rodas dos carros moíam o chão e as patas dos cavalos calcavam a terra, rompia-se a crosta de lama e formava-se a poeira. Tudo que se movia lançava a poeira no ar; um viandante levantava uma camada, que lhe chegava à cintura, uma carroça fazia-a subir até aos taipais e um automóvel deixava uma nuvem atrás de si. E só muito tempo depois a poeira acabava de assentar". 

"Homens e mulheres refugiavam-se precipitadamente nas casas e, quando saíam, atavam lenços ao nariz e punham óculos para proteger os olhos. 

Entre o Natal e o Ano Novo vi vários grandes filmes de vários géneros como: O Labirinto do Fauno, Amadeus, Efeito Borboleta (director's cut) e Interstellar. Relembrar que são filmes provenientes dos enormes lotes de DVD que comprei mas não esquecer também que, muitas vezes, faço verdadeiras séries com os filmes que vou vendo ao longo de vários dias. Ou seja, não vejo assim tantos filmes ao longo do ano.

Interstellar havia-me sido recomendado pelo meu ex-patrão. Se nada das suas opiniões políticas me interessava como, por exemplo, me ter massacrado que Trump merecia o Nobel da Paz ou que a pandemia era uma gripezinha, já no campo cinéfilo coincidíamos bastante. E, se já por sua sugestão acabei a ver Inception, primeiro filme que vi em 2016, curiosamente acabei agora por ver este Interstellar, primeiro filme de 2022. 

Apesar de não ser propriamente fã de filmes sobre a conquista do espaço, não posso dizer que o filme não seja bom (e ainda por cima tem o sorriso de Anne Hathaway, não é?) mas, para mim, o mais curioso de tudo foi ser transportado para os cenários narrados por Steinbeck em "As vinhas da Ira". 

Não é subliminar. Está tudo lá escarrapachado! A casa; o pó por todo o lado e os pratos em cima da mesa virados ao contrário; as máscaras e os óculos que as pessoas usavam para se proteger; os campos de cultivo cada vez mais improdutivos e a fome generalizada; o êxodo dos carros carregados com os haveres em cima do tejadilho; e até há um Tom no filme.

O filme, de facto  é muito bom, mas vão por mim, o livro é um clássico assombroso. 

E a Ira começou a Fermentar

sábado, 8 de janeiro de 2022

Pequenas Coisas para Melhorar a Vida (sem grande esforço)

https://addicted2success.com/

No primeiro dia do ano, geralmente dado a resoluções de ano novo, o The Guardian publicou um artigo leve e descontraído sobre como podemos mudar pequenas coisas no dia-a-dia para melhorarmos as nossas vidas. Não são aquelas "grandes" decisões, o deixar de fumar ou passar a fazer mais exercício depois de terem enchido o bandulho com toda a porcaria que poderiam ter dividido ao longo do ano. São pequenas coisas, mas algumas fazem todo o sentido. Só um apanhado:

1. Exercício 2a feira à noite - nada de divertido acontece 2a à noite!
2. Em dúvida sobre uma compra? Então espera 72h antes de comprar.
4. Leva frutas para o trabalho. E para a cama também!
16. Reserva 10 minutos por dia para fazer algo que realmente gostes - seja ler um livro ou jogar.
24. Começa a manhã de sábado com um pouco de música clássica - dá o tom para um fim de semana tranquilo.
30. Sê educado com estranhos mal educados - é estranhamente emocionante!
32. Liga-te com a natureza: fica lá fora descalço por alguns minutos - mesmo quando está frio.
33. Junta-te à tua biblioteca local - e usa-a!
34. Dá um passeio sem telefone.
38 .Dorme com o telefone numa divisão diferente (e compra um despertador).
42. Não tenhas Twitter no telefone
43. Se encontrares uma peça de roupa que adores e tiveres a certeza que a usarás para sempre, então compre três.
44. Experimenta tomar um banho frio (30 segundos a dois minutos) antes do banho quente. Faz bem à saúde saúde - tanto física quanto mental.
47. Tira os fones do ouvido ao caminhar - ouve o mundo.
48. Compra em 2a mão
51. Se alguma coisa no mundo está a deixar-te com raiva, escreve educadamente ao teu deputado - eles vão ler.
52. Diz olá aos teus vizinhos.
53. Aprende o básico para consertar as tuas roupas.
55 Aprende os nomes de 10 árvores.
56. Liga a um velho amigo do nada.
62. Vai para a cama mais cedo - mas não leves o telefone.
78. Tira sempre  um dia extra de folga a seguir a um feriado.
79. Ignora o algoritmo - ouve música fora do teu gosto habitual.
80. Silencia ou sai de um grupo do WhatsApp.
83. Junta-te a um grupo local de apanha de lixo.
85. Não compres um animal de estimação.
88. Compra uma bicicleta e usa-a. Aprende a consertá-la também.
89. Recusa convites educadamente que não queres ir.
92. Não olhes para o telefone durante o jantar.
93. Faz aquela coisa que vens adiando.
94. Elogia ampla e livremente.
96. Anda com um livro na bolsa para resistir à tentação de vegetar no telemóvel.

98. Faz um amigo de uma geração diferente.

Esta lista foi inspirada na de 2000, 100 Maneiras de Tornar o Mundo um Lugar Melhor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Origem do Bolo-Rei (que deixou de ter fava)

"Se calhar a maioria das festas do meu quinteiro teve origem em comemorações remotas adaptadas a novos tempos. Assim, folguedose e costumes da Natividade foram - digamos - a cristianização das saturninas romanas. 

As saturninas, celebradas a 16 e 17 de Dezembro - quando começa a novena de Natal -, eram grandes festejos a Saturno (que, na tradição romana promoveu a paz, trouxe a abundância e ensinou a agricultura aos homens). Tais honrarias celebravam a igualdade entre os indivíduos e davam origem às maiores licenciosidades e liberdades. Incusive dos escravos, a quem tudo permitiam. Rezam as crónicas que pessoas de bem e gent séria até abandonava Roma, ness ocasião, para não serem incomodadas. 

Porém, não só herdámos do passado as grandes festividades - Natal, Páscoa, Entrudo, São João e outras - mas também pequenas tradições, humildes e significativas. É o que caso da fava que aparece no bolo-rei, estranho costume hoje visto ao contrário do seu significado original. A história é assim: o alimento base dos primeiros romanos, camponeses e rudes e sóbrios, tinha o nome de pulmentum, composto de farinha de trigo (ou cevada) e água. No serão que precedia a festa saturnal - que tem evidente analogia com a atual consoada -, era costume comer daquela espécie de pão, em cujas entranhas se escondia uma fava seca. O comensal que, bafejado pela sorte, a recebesse no prato convertia-se no homem principal da comemoração de Saturno. E isto independentemente da sua condição social, já que, por sorteio, a igualdade da condição humana era proclamada.

O crescimento do Império transformou o pulmentum em pão de qualidade e a própria festa saturnal em extensa e imaginativa orgia. Neste novo contexto festivo-luxirioso, os escravos, vestidos como os amos, vinham para as ruas fazer pantominas nas calendas de Januaris, e o velho costume do sorteio gastronómico da fava converteu-se em jogo erótico. Mediante ele elegia-se o rei escravo que encontrasse o fruto seco, aquando da partilha de um grande doce chamado scriblita. O poder daquele "rei por um dia" não era mais do que possuir mulher (ou homem - conforme os gostos) que quisesse escolher, de qualquer condição social. 

Estes saturnais, criticados por Séneca na frase non semper sunt saturnalia (nem tudo são saturnais), foram abolidos após a cristinização do Império, que, todavia, não conseguiu evitar o enraizamento da crença nas virtudes da fava. Desde há mais de 2000 anos ela adquiriu novos cambiantes, deslizando das formulações eróticas e sexuais romanas para as interpretações que atualmente lhe damos: encontrar a fava é pouca sorte, pois implica comprar um novo bolo-rei para a festa seguinte. 

No entanto, mesmo este costume pacífico e amigável não corresponde à lenda cristã sobre a origem do bolo-rei e do uso da fava: aquando do nascimento do Menino-Deus, começaram a chegar a Belém sábios, sacerdotes e magos. Vinham prestar homenagem ao anunciado redentor do mundo. Os magos não chegaram, todavia, a acordo sobre qual deles seria o primeiro a oferecer os presentes ao Menino. Resolveram então fazer um bolo contendo, no interior, uma fava (a continuidade do uso romano). O bolo seria repartido por todos, em partes iguais, e aquele a quem saísse a fava teria sorte de oferecer o presente antes dos outros (é a crença num objeto benfazejo e signo da sorte). 

A lenda não diz a quem saiu. Mas o facto correu de boca em boca e, a partir daí, propagou-se o hábito de cozinhar um bolo com a fava dentro sempre que fosse necessário resolver - pela sorte - qualquer divergência. Posto isto, se lhes sair a fava, em vez de chorarem o que vão ter que pagar, pensem como, há milhares de anos, em Roma, ficaria o felizardo a quem caberia ser rei por um dia - com os atributos e facilidades daí advindas. 

"Vistas do Meu Quinteiro" / Hélder Pacheco (1995)

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Tinder Surpresa

 


Comprar lotes de livros sem saber bem o que está lá dentro é como uma criança abrir um Tinder Surpresa.  

Não sei se fui eu que coloquei o número errado no GPS ou se, pelo contrário, foi ele que se arrogou na vontade própria de me levar quatrocentos números adiante do antiquário. E como ainda por cima era numa estrada de sentido único, e porque meia hora depois tinha outro compromisso (e ultimamente sou um gajo de tantos compromissos que hoje até tentei comprar uma agenda. Tentei mas a menina da papelaria disse-me que já tinha vendido todas) então, acabei por deixar o carro onde estava e caminhar os quatrocentos números a pé. 

Lá chegado fiquei surpreendido pelo peso dos livros. Mas o caminho é em frente. A senhora arranjou-me um daqueles sacos resistentes das compras, e eu ainda coloquei o saco que levei por cima, não fosse os pingos de chuva conspurcarem-me as raridades e fiz-me ao caminho, primeiro carregando os livros numa mão, depois passei para outra e, por fim, carreguei-os com as duas mãos até à mala do carro. E sou tão pouco curioso - à semelhança de quando recebia cartas de amor - que, só quando cheguei a casa, depois do outro tal compromisso, é que fui ver o que me me tinha calhado em sorte. 

Devo ter parecido uma criança com os olhos a brilhar enquanto retirava os livros, um-por-um, com muito cuidado dentro dos caixotes, e, sempre surpreendido com o título que ia saindo. E tanta coisa absurdamente interessante e valiosa me calhou em sorte pelo preço de uma ida ao cinema...