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sábado, 18 de novembro de 2023

O Golpe de Estado de 7 de Novembro de 2023

 Aquela terça-feira, 7 de Novembro de 2023, era um dia como outro qualquer. Como de costume eu estava a trabalhar trabalhar, tranquilamente, a poucos metros da ponte D. Luís  quando inesperado acontece! 

O chefe chega, todo empolgado, e pergunta se sabíamos das últimas notícias. Parece que todo o governo estava a ser investigado, vinha aí o Diabo e, no mínimo iam rolar cabeças. Eu continuei no meu canto, impávido e sereno. Já os meus colegas tinham colocado os smartphones a dar em direito as notícias e, com tanto frenesim, mais parecia que vinha aí o fim do mundo em fio dental a íamos ser invadidos por extraterrestres. 

Mas foi pior. Um comunicado de imprensa da Procuradoria Geral da República acabava de cometer um golpe de Estado e deitar abaixo um governo de maioria absoluta, eleito democraticamente pelos portugueses. 

Perante os indícios e o diz-que-disse do comunicado, o primeiro-ministro demite-se. Foi um escândalo nunca visto. Certamente em breve todos iriam ser todos exemplarmente presos. 


Uma parte do país estava completamente eufórica. Nem imagino a quantidade de garrafas de champagne que terão sido abertas nesse dia. Contudo, eu, que nem sequer tinha contribuído para eleger este governo e de quem até sou muito crítico, não me senti particularmente feliz, pelo contrário, fiquei muito apreensivo. O meu primeiro sentimento foi de dúvida, sabendo muito bem que a justiça portuguesa ainda não tinha tido o seu 25 de abril, e que está completamente dominada por interesses, quer da maçonaria, quer pelos próprios partidos, quer do partido ilegal da extrema-direita que viola a Constituição e que se tem infiltrado nas forças de segurança. 

Como já há quase dez anos que não tinha televisão, não via telejornais nem ouvia os manipuladores, disfarçados de comentadores políticos, nem ouvia as escutas diárias, às pinguinhas, a queimar em lume brando os arguidos que, segundo a Constituição gozam de presunção de inocência.

Ainda assim, nunca foi por não ter televisão que me tinha por mal informado. Naquele tempo não esperava que a informação viesse ter comigo, era eu que ia atrás da informação e, entre outros, lia todos os dias o JN, DN, El País, Guardian, Folha de São Paulo, e comecei a ler o que diferentes figuras relevantes, de diversos setores, tinham para dizer, E o mais curioso é que, todos eles, convergiam com as minhas suspeitas: ou o ministério público rapidamente apresentava as graves provas que tinham reunido ou então estávamos perante um golpe de Estado. 

Cândida Almeida, ex-diretora do DCIAP escrever no Jornal de Notícias:

A justiça portuguesa é, afinal, a mais célere do Planeta! Com estrondosa e censurável violação do segredo de justiça, esquecida que foi a discrição até então, o país foi acordado na passada terça-feira com notícias sobre a realização de várias diligências, de detenção, buscas e apreensões domiciliárias e não domiciliárias, no âmbito do processo relativo à exploração do lítio e hidrogénio verde. De imediato, os média rodearam-se de alguns espertos nestas matérias, e não só, que rapidamente se organizaram, nomeadamente sobre a égide dos vários canais de televisão, em mesas redondas, quadradas e de outras formas possíveis. 

Pela primeira vez na história da nossa liberdade assiste-se de forma grave e perigosa a uma negativa conexão entre a Justiça e a Política. 

As vozes sensatas presentes nesses debates foram desconsideradas e abafadas. Era preciso condenar, sem recurso, pelos crimes de que aqueles eram indiciados, corrupção activa e passiva, prevaricação e tráfico de influências. Registe-se que os detidos nem sequer tinham sido interrogados pelo juiz de instrução. A justiça da praça pública serve interesses ocultos e entusiasma os pretensiosos e ignorantes. O processo encontra-se em segredo de justiça (!), porém os justiceiros já decidiram a causa, no conforto de uma cadeira estrategicamente colocada num espaço de TV.

Com maior gravidade ainda foi a revelação de que corria no STJ inquérito contra o primeiro-ministro António Costa por actos relativos à investigação sobre o lítio. Rompendo com todas as normas deontológicas, alguém informou a imprensa da existência do inquérito, não obstante sem suspeitos ou arguidos constituídos. Por curiosidade, na passada quarta-feira, o Expresso online referia que são praticamente inexistentes indícios do cometimento de crime por António Costa, que até pode não ser constituído arguido. 

Receio que a nossa democracia não esteja de boa saúde. E falta esclarecer o porquê e para quê a Senhora PGR foi a Belém!...

Num artigo intitulado "Um dia negro", Miguel Sousa Tavares escrevia no Expresso:

E assim, curto e grosso, o país viu-se sumariamente enxovalhado e na lista negra de lugares onde seja saudável e prudente investir. De caminho, também e para efeitos internos, interrompeu-se a meio uma legislatura de maioria absoluta, atirou-se ao lixo um Orçamento prestes a ser votado e várias medidas urgentes e úteis para as pessoas dele constantes, interromperam-se as inadiáveis negociações com os médicos e a reestruturação do SNS, paralisou-se a execução do PRR e lançou-se em Bruxelas a suspeita sobre a boa aplicação dos seus dinheiros, aplicou-se um golpe de consequências ainda imprevisíveis na política de transição energética essencial a um país sem petróleo, gás ou centrais nucleares, mais uma vez protelou-se a escolha sobre o novo aeroporto de Lisboa, deixou-se a gestão governamental suspensa num momento em que paira uma recessão no horizonte, soltou-se, ufano, o populismo e a descrença nas instituições no ano das celebrações do 25 de Abril e devolveu-se a praça a alternativas forçadas que não existiam por si há três dias. Independentemente das culpas, da razão ou da sem razão de tudo isto, do lugar de esquerda ou de direita de onde se olhe para o fatídico 7 de Novembro, quem ainda consegue angustiar-se com o destino deste infortunado país não pode deixar de lamentar mais uma oportunidade perdida. Uma maio­ria absoluta, um Governo sem albergue para extremistas, contas certas, a dívida pública a ser paulatinamente diminuída a benefício de agora e dos que virão e o dinheiro europeu como nunca mais virá: tudo desperdiçado, outra vez.

Em 7 de Novembro aconteceu uma de duas coisas, e apenas uma de duas coisas, pois não há terceira hipótese. Ou um impensável cancro andou a ser congeminado e a germinar entre várias pessoas do círculo íntimo do poder e do primeiro-ministro, sem que ele desse por nada — o que eu quero acreditar, e acredito —, ou vários magistrados do Ministério Público (MP), confundindo diligências de governantes com indícios de crime de corrupção e “intervenções para desbloquear procedimentos” com crime de tráfico de influências, decidiram, leviana ou conscientemente, derrubar um Governo eleito pelos portugueses e agora ficarem tranquilamente sentados durante 10 anos a assistir à “justiça a seguir o seu curso” e à história a mudar abruptamente o seu.

Já Garcia Pereira escreveu no Noticias Online:


E assim sendo, e tendo tal forma de actuação do Ministério Público conduzido – como era tão previsível quanto inevitável que conduzisse – à demissão do Primeiro-Ministro e à queda do Governo, não há agora alternativa a esta questão: ou as suspeitas do Ministério Público têm um mínimo de credibilidade e não podem deixar de, num processo justo e com as devidas garantias de defesa, conduzir a uma fundamentada acusação e depois a uma justa condenação, tendo António Costa que assumir as respectivas responsabilidades jurídico-penais e políticas; ou tudo isto não passou de autêntica “fumaça”, e o Ministério Público, a sua dirigente máxima e todos quantos com eles alinharam nesta operação de cerco e aniquilamento não poderão deixar de ser política e criminalmente responsabilizados pelos gravíssimos danos pessoais, sociais e políticos que causaram, até porque não é de todo admissível que, numa situação como esta (ou seja, se se vir que a pública imputação não tinha fundamento), o Ministério Público possa, num autêntico golpe de Estado, derrubar um Primeiro-Ministro e o seu Governo, sejam eles quais forem"!

O insuspeito Pedro Tadeu escreveu no Diário de Notícias:


Vamos lá puxar pela memória. Paulo Pedroso, político, esteve em prisão preventiva entre maio e outubro de 2003, no âmbito do Processo Casa Pia. Cumpriu quatro meses e meio. Os tribunais inocentaram-no. O Estado português foi condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos a pagar-lhe uma indemnização de 68 mil euros por detenção injusta.

O ator Herman José foi indiciado por um crime alegadamente ocorrido em Portugal a 8 de fevereiro de 2002. No entanto, Herman José apresentou provas, como gravações vídeo e bilhetes de avião, que demonstravam que naquela data estava no Brasil em trabalho para a SIC. Não foi julgado, mas fora despedido da SIC e sofrera graves danos reputacionais.

Madeleine McCann desapareceu na noite de 3 de maio de 2007, quando tinha quase 4 anos de idade, do seu apartamento em Praia da Luz, Algarve. As autoridades contaminaram o local do desaparecimento. Os pais foram publicamente declarados como principais suspeitos de uma morte acidental e de ocultação do cadáver da filha. 16 anos depois, o mês passado, a BBC noticiou que elementos da Polícia Judiciária se tinham deslocado a Londres onde tinham pedido desculpa ao casal. A Judiciária emitiu um comunicado a desmentir essa informação, alegando que foram apenas dadas informações sobre o andamento do caso, que foi arquivado pelo Ministério Público em 2008 e reaberto em 2013, sem resultados.

Miguel Macedo demitiu-se em 2014 de ministro da Administração Interna ao ser envolvido pelo Ministério Público no chamado Caso Vistos Gold. Ao fim de quatro anos foi absolvido de todas as acusações. Nunca mais voltou à política.

O antigo primeiro-ministro José Sócrates foi detido em 2014 (Operação Marquês) e preso preventivamente durante nove meses. A decisão de que o caso deveria seguir para julgamento só aconteceu sete anos depois. Dos 31 crimes que o Ministério Público o indiciava o juiz de instrução anulou 25. Há recursos a correr no Tribunal da Relação, da defesa e da acusação, num caso que se eterniza.

A pergunta que deixo é esta: Não podendo, nem devendo, a política meter-se no trabalho da Justiça, que penalizações a própria Justiça aplicou aos responsáveis por erros, omissões, incompetências, demoras, desleixos, teimosias e atropelos ao bom senso que, como é evidente, sempre que um caso é mediático, sistematicamente os investigadores judiciais cometem?... Que fizeram sobre isso, por exemplo, o Conselho Superior do Ministério Público ou o Conselho Superior da Magistratura?
E já nem falo das violações de segredo de justiça que, em todos estas situações, aconteceram e que arruinaram a reputação pública de alguns inocentes.

Se o Ministério Público quer que confiemos nele, tem de fazer Justiça a si próprio.

Assim de cabeça e sem recorrer à Wikipedia, em fevereiro de 1908, Manuel Buíça, que pertencia à carbonária e apoiado pelos republicanos, espeta uns balázios na cabeça do rei e, dois anos depois, uma revolução deita abaixo a monarquia e proclama a república. Dezesseis anos depois, em 1926, a Igreja Católica ressabiada pela perda de influência, e com o apoio dos militares faz um golpe e instala uma ditadura fascista que haveria de durar 48 anos, até de 25 de abril de 1974 em que, outra revolução comandada pelos militares devolve a liberdade e a democracia.
 
O Brasil teve os seus dois golpes, primeiro de Dilma, depois de Lula. Costa foi afastado exatamente da mesma forma e eu lembrei-me logo de um vídeo da Porta dos Fundos que satirizou isso muito bem. No nosso caso poderia ser:
"Já estou com dores nas costas".
Vocês disse "Costa"?  
Manda um comunicado a dizer que vamos investigar o Costa!

  

Dias depois do 7 de novembro e, como eu pensava, as minhas suspeitas mostraram-se certas, a montanha havia parido um perigoso golpe de Estado através de um comunicado da procuradoria.

Portugal era olhado com gozo "o primeiro-ministro que se demitiu por engano" ou "o ministério público que tinha confundido o nome do primeiro-ministro"! 

Mas ó Konivs, tu não achas que houve ali no governo do PS trapalhadas e facilitismos que pode roçar a corrupção?

Ó cara leitora ou leitor desprevenido que por aqui aterrou: é lógico que a tentação de quem tem a possibilidade de meter algum ao bolso é sempre grande, seja meter ao bolso a caneta lá da empresa, seja a meter uns dinheiros por debaixo da mesa na junta de freguesia, a câmara municipal ou no governo, porque, como até sabemos, diz-se que a melhor profissão que há é a de ex-ministro. 

E o problema é que, apesar de, contrariamente à maioria da opinião pública, nós nem estamos assim tão mal no que se refere à percepção da corrupção no mundo, a verdade é que temos que melhorar muito a esse respeito. E antes mesmo de apontarmos o dedo a quem quer que seja, nós mesmos, na nossa vida deveremos pautar a nossa vida pela ética e não tentando sempre arranjar um esquema ou aproveitarmo-nos das situações. 

Mas depois, eu olho para a Justiça, e vejo uma clara diferença de tratamento quando se trata de PS ou PSD (e eu estou muito à vontade porque não voto em nenhum dos dois). 

Na minha visão, o processo Casa Pia ia servindo para tentar decapitar o PS e meter na lama Paulo Pedroso. Sócrates esteve detido durante um ano para ser investigado, e está há 10 anos à espera de julgamento! E agora, um governo eleito democraticamente, de maioria absoluta é decapitado porque alguém se baralhou nos nomes! Mas estamos a brincar?

Por outro lado, se a Justiça é rápida a acusar uns, depois já não se vê nada quando se trata dos casos dos outros. Lembrar os submarinhos do irrevogável Paulo Portas, em que quem os vendeu na Alemanha foi preso, bem como quem os comprou na Grécia mas em Portugal nem sequer foi a tribunal! Ou lembrar também a Tecnoforma de Passos Coelho em que a comissão europeia, contrariando o ministério público português disse que houve graves irregularidades e corrupção! Mas também não foi a tribunal!


Assusta-me ver o rumo que isto está a tomar. Deita-se abaixo um governo com maioria absoluta assim do nada. Serão milhões de prejuízo. O país fica parado mais uns meses. O crescimento do populismo a acenar com o papão da corrupção. Apesar de todas as minhas críticas ao governo de António Costa, temos que o que venha a seguir seja bem pior...

sábado, 15 de janeiro de 2022

Coisas que se Compram por 1 Euro


Os portugueses conhecem bem o filho. O pai, o escritor Orlando da Costa poucos conhecerão, tal como eu não conhecia muito. Aderiu ao PCP em 1954 e foi preso pela PIDE e, antes de morrer (segundo a Wikipedia) desenvolvia no PCP atividade na área da cultura literária. Talvez não tenha sido por acaso que o filho mais velho tenha sido o único líder do PS a conseguir fazer um acordo de governo com os comunistas, nove anos depois da sua morte. 

É sempre curioso quando encontramos estes achados por um preço simbólico, e depois ainda por cima abrimos a capa e encontramos lá dentro uma dedicatória do autor.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Maldito Salazar!

roubado daqui: http://pedroribeiroferreira.blogspot.com
Depois de nas legislativas um pequeno partido de extrema-direita ter eleito um deputado no parlamento português, soaram os alarmes. Cuidado! Os fascistas também já chegaram a Portugal, como se de mais uma moda se tratasse, e  como bem sabemos, tudo que são modas, e que vêm lá do estrangeiro, demoram sempre mais um bocado a chegar a Portugal! Mas isto é tão ridículo porque esse mesmo deputado estava no Partido Social Democrata e teve inclusive o apoio de Passos Coelho para ser candidato à Câmara Municipal de Loures em coligação com o Centro Democrático Social (CDS), que depois lhe retirou o apoio, quando o senhor veio com aquele discurso polémico e racista sobre os ciganos. 

Fala-se com muito medo da extrema-direita, mas a verdade é que isto não surge de geração espontânea! Os fascistas já vivem no meio de nós! E de vez em quando lá mostram a sua face!, e ontem confrontei-me com um colega que treina comigo e de quem nada sei, mas que após o velho argumento do ressabiamento da direita que "o Costa tomou o poder de assalto", passado um bocado já me estava a dizer maravilhas do Salazar!!

Alto! Para tudo! Então a democracia não presta - bem lhe tentei explicar que em democracia governa quem tem mais deputados! - mas, espera lá, a solução é uma ditadura em que o ditador pode matar  qualquer pessoa que pensa diferente? Mas o que é que esta gente tem dentro da cabeça, caralho?

Eu comecei por tentar explicar - não estava a ser fácil fazer-me ouvir! - porque parece que as pessoas já se esqueceram do que aconteceu na sequência das eleições legislativas de 2015! Vêm com a puta da cantilena que quem teve mais votos foi a coligação de direita, mas fazem o choradinho que foi o Costa que tomou o poder., como se ele tivesse montado num tanque de guerra e tomado o pode de assalto! Não! Não foi nada assim que se passou. A PAF teve mais votos nas eleições e o senhor presidente da república Cavaco Silva (aquele que não conseguia viver com 15 mil euros por mês, lembram-se?) empossou como primeiro-ministro o Passos Coelho, mesmo já sabendo que os partidos de esquerda no parlamento se tinham pela primeira vez unido para varrer  a direita, visto que como tinham maioria absoluta no parlamento poderiam suportar um novo governo. Chama-se a isso democracia!

O senhor Passos Coelho toma posse, mas fica na história portuguesa como o primeiro-ministro dum governo que durou menos tempo: onze dias!, porque após uma moção de censura, 123 votoram a favor e 107 votaram contra. E caía assim o governo de Passos e Portas, simplesmente porque tinha menos deputados no parlamento. Então se calhar a direita não ganhou eleições nenhumas, tão simplesmente porque não elegeu 116 deputados (mais de metade do total de 230) A isto chama-se: democracia, mas parece que anda por aí muita gente, até com responsabilidades, que não sabe bem o que isso é!

Depois desta explicação o meu contendor começa a disparar em todas as direções! Mais parecia um soldado com uma metralhadora descontrolada! Que não deveria ser assim, que está mal, que os partidos se deveriam coligar antes e não depois das eleições - o que faz um sentido do caralho visto que eu posso-me identificar com um partido, que estando coligado com outro que detesto já irá perder o meu voto! Os partidos vão a votos, as alianças a existir fazem-se depois, ainda que também possa ser feitas antes. Mas caso não se concorde com este sistema então que se mude a Constituição e se façam leis diferentes! Mas para já são estas as regras que temos, não temos mais nenhumas, nem se mudam as leis a meio do jogo.

E conversa vai e conversa vem, e fico a saber que nos tempos de Salazar é que afinal o país estava muito bem!! Puta que pariu!!

E são sempre os mesmos argumentos de sempre! Já parecia os argumentos dos defensores das touradas! Porque no tempo de Salazar havia "respeito" e não havia crime como hoje! "Tu vives no terceiro país mais pacífico do mundo caralho, queres o quê"? No tempo de Salazar não havia respeito, havia era muito medo, porque arrebitavas cabelo e ias servir de alimento aos peixes no fundo do rio Douro!

Ah, e a economia!! Sempre o argumento da economia! O povo morria de fome, os bens eram racionados, mas o país estava rico! Recentemente também houve outro iluminado, Luís Montenegro, ex-líder da bancada parlamentar do PSD que, em pleno governo de Passos Coelho veio dizer essa alarvidade: "a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor"! Fico realmente na dúvida em saber o que afinal será um país!



As pessoas morriam de fome, fala-se na célebre "sardinha para três" e comia-se muita batata com couves - quem as tinha! - senão era batatas com batatas, mas o país estava um espetáculo! Havia racionamento, aos agricultores era confiscada toda a produção do que produziam, mas depois todo esse roubo ia para o estrangeiro em comboios que diziam - veja-se da falta de vergonha da propaganda fascista! "As Sobras de Portugal"!



"Eu tinha quatro filhos e era filha de lavrador – filha única, que eu não tinha mais irmãos. E o milho era todo arrecadado para depois ir para as outras nações que tinham a guerra, não é? Os comboios diziam assim: Sobras de Portugal. Cá não havia sobras: era fome! A gente aqui esticada à fome! (Foi a [guerra] de 1939 a 45. Chamavam o racionamento. Nem os próprios lavradores podiam ter o milho! Tinham de o esconder. Levaram o milho todo!"

Portugal viveu um período de cinquenta anos de obscurantismo, de repressão e de analfabetismo, de fome e censura, no entanto há hoje pessoas que acreditam cegamente - e que puta de lavagem cerebral lhes devem ter feito! - que no tempo de Salazar é que é era! E já diz o povo "mais vale cair em graça que ser engraçado"! Nada do que se argumente convence estes fanáticos. Nada!! É um dogma: "Salazar é o melhor português de sempre" mesmo que tenha matado montes de pessoas, umas diretamente como Humberto Delgado do "obviamente demito-o", como tantos outros anónimos que combatiam o regime, como matou tanta gente à fome e de miséria, e muitos outros na guerra colonial.

Eu gosto de discutir e trocar ideias, porque "é da discussão que se faz luz" mas quando encontramos gente que diz este tipo de barbaridade, então simplesmente é melhor cada um ficar na sua. Passamos uma hora a discutir em vez de treinar - e há torneio na 6a feira! - e ainda por cima apanhei um leve resfriado, e aquela hora da noite se calhar ainda incomodamos os vizinhos.

Maldito Salazar!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Despedir o Treinador Que Ainda Nem Sequer Fez Um Jogo

Rui Rio é presidente do Partido Social Democrata (que já foi PPD) há precisamente um ano (13 de Janeiro). Ganhou as eleições depois de Passos Coelho se ter cansado de anunciar a vinda do Diabo, que nunca mais havia jeito de vir.

A primeira pessoa a chegar-se à frente na sucessão foi Rio, ex-presidente da Câmara Municipal do Porto. Na iminência de não ter qualquer oponente, apareceu Santana Lopes (para delírio das Santanetes) que como se sabe "anda sempre por aí". E, mesmo depois de ter dito em 2013 que (depois da porcaria que fez nos quatro meses em que foi primeiro-ministro em 2005) "nem que o vento mudasse dez vezes teria hipótese de voltar a ser primeiro-ministro", foi mesmo a votos para disputar a liderança do PSD. Mas perdeu. 

Rui Rio ganhou com 55% dos votos. Só que Rui Rio começou a mandar no partido, mas contra a maioria dos deputados eleitos pelo PSD e escolhidos por Passos Coelho para o parlamento. E desde então, em vez do partido se unir para tentar ser uma alternativa ao governo socialista (acho que é isso que se deveria chamar, "alternativa" e não "oposição") não, entraram em guerrilha permanente. E o que eu gostaria de saber é, como é que um partido que nem sequer se entende, pode ousar pensar que as pessoas lhes confiarão votos para governar um país?

A liderança foi então disputada por Rui Rio e Santana Lopes porque mais ninguém quis avançar, queimar-se perante a impressionante cavalgada da coligação de esquerda no parlamento. 

O ex-líder da bancada parlamentar, Luís Montenegro, que em pleno período de cortes e roubos de salários teve esta tirada: "A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor", que me deixou a pensar até hoje, afinal, o que é um país? Será um pedaço de terra em que não vive ninguém?
Montenegro, muito apoiado para uma eventual candidatura, acabou por decidiu não concorrer à liderança do partido, alegando razões "pessoais e políticas" e por entender que “não estavam reunidas as condições necessárias” para o fazer.

Entretanto passou um ano. Não houve qualquer eleição para tentar aferir da opinião dos portugueses acerca da popularidade de Rui Rio, mas agora sim, já aparece Luís Montenegro a exigir novas eleições no PSD! Claro, agora sim já era o momento certo, porque há um cheiro de poder no ar, porque se avizinham eleições legislativas lá para Outubro!



No Partido Socialista passou-se o mesmo. José Sócrates decidiu abandonar a liderança do partido e José Seguro foi eleito líder do partido com quase 70% dos votos contra Francisco Assis que teve pouco mais de trinta. Repito: António José Seguro foi eleito em 2011 líder do PS com quase setenta por cento dos votos!! 

António José Seguro, como líder do partido, venceu duas eleições: as autárquicas de 2013 e as Europeias de 2014. Só que, de novo, o cheiro a poder já fedia no ar porque havia Legislativas no ano seguinte, em 2015. E foi então que deu à costa a oposição interna. António Costa começou a criticar o líder e a dizer que "não basta ganhar" porque "quem ganha por poucochinho é capaz de poucochinho". 

Olhemos então para o que aconteceu. António José Seguro ganhou duas eleições como líder, mas ao fim de três anos apareceu António Costa para lhe puxar o tapete em eleições internas criticando-o por vencer por "pouco". António Costa vai a votos e, perante o governo mais odiado de sempre, perde para a coligação (PSD+CDS) e com um resultadozinho de 32%!! 

Temos então que, no PS mandou-se embora um treinador que só sabia ganhar por 1-0 ou 2-0 mas ganhava. No PSD são ainda mais inteligentes, querem despedir um treinador que ainda nem sequer fez um só jogo!! 

Não, isto não faz sentido nenhum e estamos a falar dos dois maiores partidos em Portugal. PS e PSD só estão interessados no poder, o resto nada interessa. Vai-se para a política, não para tentar fazer algo pelas pessoas, mas sim para satisfazer clientelas e agendas próprias. E depois queixam-se da escalada de votos em partidos fascistas de extrema-direita. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Por que é que o António Costa usou Calças de Ganga em Angola?

Porque como a Doutora Cristas, aquela senhora muito competente (que assinou o tratado de resolução do BES sem o ler, e que como se preocupa muito com os pobrezinhos lançou uma lei que previa aumentos de mil por cento nas rendas dos bairros sociais) nos ensinou, são precisamente as calças de ganga, a roupa mais adequada para usar quando vamos visitar os pobrezinhos. É como se fosse uma roupa de trabalho, um equipamento de proteção individual, porque os pobrezinhos sujam muito, e não queremos estragar a nossa melhor roupa, não é?



domingo, 20 de maio de 2018

Se Voltarmos a Ter uma Tragédia nos Incêndios, Os Diretores das Televisões Vão-se Demitir?

Ainda me lembro bem. Estávamos em Agosto de 2005. 

(Sim, grandes incêndios não é de agora. Tem décadas. Os eucaliptos também.) 



Francisco Louça insurge-se na Assembleia da República contra a cobertura televisiva dos incêndios em Portugal. E lembrou o antigo líder do Bloco de Esquerda que, em muitos outros países, as televisões não mostram as imagens das chamas. Fazem as suas reportagens, e cumprem o seu dever de informar, mas nunca mostram as imagens, pois, como se sabe, as imagens dos incêndios são um incentivo para os pirómanos. Como em tudo, é o efeito imitação.

Mas curiosamente, na altura, António Costa (atual primeiro-ministro) e ministro da administração Interna da altura, disse que era "errado os agentes políticos pronunciarem-se sobre este assunto". No entanto lembrou que, por exemplo, em Espanha, "há um acordo estabelecido segundo o qual não há exibição de chamas. Muito menos existe um pivot de telejornal com chamas em fundo".

Na sequência destas declarações, o diretor de informação da RTP, Luís Marinho afirmou que "temos de ver refletir e ver o que fazer". Ainda assim, e apesar do serviço público a que está obrigado o canal do Estado, lembrou que a fazer-se algo teria que ser a três, entre a RTP, SIC e TVI. 

Só que os canais privados não quiseram fazer este pacto para ajudar a travar este flagelo. E se um ou dois pirómanos não se sentissem motivados a provocar incêndios, estou em crer que já seria uma vitória para todos. 

Mas esta gente, que não faz a mínima ideia do que seja jornalismo, e que se limita a cumprir uma determinada ideologia e determinada linha editorial, vive e respira para as audiências e dá às pessoas o que de pior pode haver, e relatar os dramas individuais, de quem tudo perdeu, na sequência de um incêndio, é um prato cheio. 

O senhor Presidente da República, figura decorativa da democracia portuguesa, veio dizer - de forma despropositada - dizer que não se recandidataria a um segundo mandato caso voltássemos a ter uma tragédia este ano com os incêndios.

Então e os diretores das Televisões? Lavam as mãos? 
Pois é...