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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Amor ao Primeiro Ouvido

Depois dos inúmeros telefonemas que fizemos ao longo do último mês, finalmente conheci o senhor Mário e ele acabou também por me ficar a conhecer a mim. Eu não o imaginava assim mas julgo que ele ficou bem mais surpreendido comigo, e foi por isso mesmo que, depois de me ter metido no carro sorria para mim mesmo, com o ar de surpresa com que ele me olhou, quase boquiaberto.

Se eu passasse por ti na rua sem te conhecer, nunca que diria que és a pessoa que és.

A visão é um dos sentidos mais importantes que temos mas, nas relações humanas, não raras são as vezes que, infelizmente, desvia-nos do essencial e foca-nos no supérfluo. Concentra-nos demasiado no papel que embrulha e ignora o que está lá dentro. Claro que todos nós gostamos de rostos atraentes, de sorrisos bonitos com dentes direitinhos e corpos tonificados e com esta ou aquela característica consoante o gosto de cada um.  Mas já por diferentes vezes eu já me perguntei se por caso fôssemos todos cegos, se escolheríamos as mesmas pessoas com que nos envolvemos romanticamente. E a resposta é: não.

Os ouvidos não vêem. Os olhos vêem mas não prestam atenção.

E o coração, precisa de ver ou de escutar?

A partir do momento que iniciamos a comunicação com uma pessoa que não conhecemos pessoalmente nem sequer imaginamos como é fisicamente, de imediato começamos a pintar-lhe o perfil na tela em branco. E ao longos dos últimos quatorze anos muitas foram as vezes que isto me aconteceu. E a grande aproximação, principalmente se começamos pela escrita, é a voz. E agora que penso, veja-se como já existem video-chamadas há tantos anos, mais de dez certamente, mas as pessoas continuam a colocar os telemóveis nos ouvidos e não nos olhos. Não é curioso isso? Foi assim tão importante essa invenção? Sim, se for para fazer umas poucas vergonhas certamente que tem a sua grande utilidade da estimulação visual, de resto, a verdade é que ainda hoje, seja nas empresas ou do ponto de vista particular, não tem grande utilidade.

É muito curioso que agora, até nas redes sociais e tudo, que me vou apercebendo de coisas que já toda a gente sabia menos eu. Coisas como, num vídeo ou numa fotografia em que alguém está a falar de determinado assunto, as pessoas muitas vezes vão ignorar o que está a ser dito, e vão reparar na estante que está lá atrás ou em todo e qualquer pormenor sem importância e a mensagem que é importante perde-se. Os olhos não filtram, muitas vezes perturbam. Há um termo na fotografia que era revelada em película que se chamava grão ou ruído. E o mesmo se passa com os nossos olhos analógicos. Perante um determinado cenário eles focam-se um determinado ponto que lhe interessam, e tudo à volta fica granulado, com ruído, desfocado.

A este propósito observei por estes dias um bom exemplo. Naquele programa dos agricultores, o mais jovem agricultor tinha em casa três jovens mulheres. De imediato focou-se só numa e toda a sua linguagem corporal denunciava-o claramente. Olhava sempre para a mesma, a que de imediato reclamava mais atenção como se fosse uma cria de pássaro a piar mais alto e a abrir mais o bico que as outras. E ele caiu no engodo e só alimentava aquela cria que ia ficando cada vez mais gorda ao passo que as outras, se calhar tão mais cheias de virtudes, ficaram esquecidas. E o que qualquer homem no lugar dele deveria fazer era tratar todas as convidadas por igual, ouvi-las a todas por igual. Mas não é isso que as pessoas fazem. E eu quase que aposto que, se lhes fossem só mostradas as fotografias das concorrentes, a escolha deles recairia exatamente na mesma pessoa que vão escolher, ao fim de todo aquele tempo para supostamente as conhecer.

Não há amor à primeira vista. Há beleza à primeira vista.
Há beleza à primeira vista para saber se estás, ou não, à minha altura. Há conta bancária à primeira vista, para saber se és, ou não, um bom partido para mim. Há a pressão social. E o que é que os outros vão dizer? E não duvido que na maior parte dos casos é isso que pesa: a pressão social.

Eu namorava contigo mas só se cortasses o cabelo.

Por artes mágicas, foi também numa Primaverava passada, que uma certa desconhecida de uma terra distante para onde, curiosamente, eu  há vinte anos, todos os anos me dirigia, haveria de me telefonar. E eu sempre achei, ou quis achar, ou comecei a querer acreditar porque a vida tem-me mostrado que comigo é assim que vem acontecendo, que nós andamos sempre à volta daquela pessoa com quem eventualmente um dia haveremos de chocar. E nos vinte anos a correr para aquela localidade, é bem provável que já tivéssemos estado bem próximos, mas quis o sortilégio da vida que haveria ser naquela Primavera, por causa dum interesse comum, que só naquele ano é que tinha passado a ser comum. Se naquele ano, por um milhão de pequenos acasos, esse interesse não tivesse sido plantado na sua cabeça, não teríamos tido oportunidade de ter chocado um contra o outro.

E o tal dia que me haveria de telefonar chegou. Os dois desconhecidos chocaram. A conversa decorria com tal sintonia e interesse que até me haveria de esquecer dum encontro lá com a malta do ténis-de-mesa. Todo eu era todo ouvidos e estava a gostar muito do que estava a ouvir daquela pessoa eu não sabia absolutamente nada: idade, estado civil ou índice de massa corporal. Nada. Falava-me da paixão comum das plantas; que certo dia carregou o carro com livros e os doou à biblioteca (logo eu que os continuo a acumular sem ler metade). Falava-me de Mujica e do tempo, e de como todas as coisas que temos não são compradas com dinheiro, mas sim compradas com o tempo que perdemos a trabalhar... E que coisa tão bonita de se ouvir.

Ouvindo-a com atenção, a determinada altura já me tinha decidido encantar-me bem antes de saber se um dia ainda nos iríamos conhecer pessoalmente...

segunda-feira, 27 de abril de 2020

27 de Abril de 1927

A 27 de Abril de 1927 nascia o meu avô que se fosse vivo faria hoje 93 anos. 
Espero que, onde quer que esteja, esteja bem.





quinta-feira, 2 de abril de 2020

A Forma Certa Para o Pé

Sempre vi no meu avô aquela pessoa muito vertical e correta em quem me deveria inspirar. O meu avô não teve uma vida propriamente fácil. Cedo ficou sozinho no mundo com os irmãos pequenos, e sem pais, primeiro porque o pai fugiu com uma brasileira para o Brasil, abandonando cá a esposa grávida, e segundo porque pouco tempo depois a mãe morreu. Eram tempos de muita fome e doenças e as pessoas mais pobres morriam frequentemente. E é por isso que ninguém poderia falar bem do Salazar ao pé do meu avô que ele exaltava-se, porque em tempos de liberdade, ninguém deveria falar bem de um ditador que dava fome ao povo e deixava-o morrer, e depois ainda tinha a grande lata de dizer que mandava as sobras de Portugal para ajudar os países europeus em guerra.

O meu avô ficou ao cuidado de uma tia, irmã do pai, que teve que andar a pedir para alimentar aquelas quatro crianças, que, mal começaram a ter idade, tiveram que ir servir, como se dizia na altura, para casas de pessoas de mais posses, serem basicamente escravas, ainda que, como ainda me lembro de ouvir o meu avô contar, em casas em que se rezava o tercinho todos os dias porque era tudo gente de bem e temente a Deus-Nosso-Senhor mas os criados bem que podiam ir para o Inferno mortos de fome.

O meu avô casou e, ao contrário do irmão gémeo, que cedo tratou de arranjar um trabalho por conta de outrem, o meu avô sempre foi vivendo da terra, naqueles tempos em que se faziam terras, e em que do trabalho que se tinha a plantar, metade do que a terra dava, ainda tinha que se entregar a senhorio. Metade aos melhores senhorios! porque os mais fascistas exigiam duas partes e o rendeiro morria de fome com a parte que lhe restava para alimentar toda a família. E não deixa de ser irónico que, hoje, que os tempos da escravatura felizmente que já passaram, é ver agora todas aquelas enormes quintas aqui em volta, vedadas ao abandono, a silvas e mato. É fácil ser-se empreendedor quando os outros trabalham por nós, mas ainda há quem diga que "agora ninguém quer trabalhar". As pessoas querem trabalhar porque o dinheiro não cai do céu, não querem é ser escravas.

O primeiro filho do meu avô foi a minha mãe, que, ainda muito criança começou a lidar com o gado, a cozinhar e que ia para a escola de socos velhos, muitas vezes sem meias. Ouvi-a contar até que, certo dia, estava tanto frio, que teve que pôr a mala no chão e colocar os pés por cima. Aprendeu costura e, ainda por estes dias de quarentena, de umas meias grossas costurou um belo gorro! Pena não ter tirado uma fotografia às meia para ter o antes e o depois. Mas costura foi profissão que não seguiu porque cedo a vista lhe traiu os planos.
A filha do meu avô foi crescendo e tornou-se uma bonita jovem, recatada, de cabelos loiros, volumosos, e cheia de predicados que interessavam os jovens casadoiros da altura. Mas apesar de atrair também os filhos de boas famílias, que é como quem diz, de famílias de posses, muito superiores aos parco recursos dos meus avós, minha mãe acabou sempre a fugir deles.

O meu avô sempre instruiu a minha mãe que nós devemos procurar uma forma certa para pé, e não devemos querer uma forma que nos fique muito folgada e sempre foi assim que a filha do meu avô procedeu. Mas muitos anos mais tarde, haveria de chegar o dia em que a filha do meu avô se vira para mim e me diz:
- "Acho que ela tem uma forma um bocado grande para o teu pé".

# Origem da Expressão "pé rapado"

terça-feira, 31 de março de 2020

Quando Íamos à Venda

Há uma série de palavras ou expressões que, apesar de muito usadas num determinado momento, uns anos mais à frente podem rapidamente desaparecer do léxico popular e deixam de fazer grande sentido.

Quando eu era miúdo, por exemplo, usava-se muito a expressão "ir à venda". Ir à venda significava ir à mercearia fazer compras. Hoje em dia já ninguém vai à venda fazer compras ou, melhor, vão mas dão-lhe outros nomes. Hoje cada vez menos se fala em mercearias. Apareceram os mini-mercados e os mercados Não satisfeitos seguiram-se os supermercados e por fim os hipermercados! Sempre a aparecer cada vez mais um maior a engolir todos os outros mais pequenos.

Expresso.pt
O primeiro hipermercado Continente abriu em 1985 em Matosinhos e foi a loucura. Faziam-se excursões de todo o país para lá ir gastar dinheiro. O deslumbramento era tanto que se conta que muitas pessoas chegavam às caixas e depois tinham que ir devolver muitas compras porque não contavam com uma conta tão elevada. Mas não se pense que as coisas mudaram muito desde os anos oitenta. A mesma romaria continua a fazer-se hoje, se bem que eu nunca tenha percebido muito bem porquê, pois sempre que abre um novo centro comercial na cidade, ou por exemplo uma nova grande superfície de contraplacados sueca, ou uma nova mega-mercearia espanhola é ver toda a gente em procissão lá ir ver o que lá se passa.

Abriram enormes hipermercados e centros comerciais que tiveram livre acesso a estarem abertos ao domingo, que começaram a esmagarar as milhares de mercearias e os pequenos negócios que havia por todo o país e que, muitas vezes, se calhar ainda vão sobrevivendo nos dias de hoje, primeiro graças à proximidade nos meios mais pequenos, mas também à facilidade que algumas, mais antigas, que ainda permitem que se lá vá pagar depois, tal como se fazia antigamente com o livro dos calotes, em que as pessoas compravam e depois iam à venda pagar mal recebessem o salário.

Hoje em dia já não se vai à venda. Vai-se ao Continente, ao Pingo Doce, ao Minipreço e ao Lidl. E os novos livros dos calotes são agora as carteiras carregadas cartões dos diferentes hipermercados e dos postos de combustível e de talões para descontar na próxima visita ao hipermercado.

sábado, 23 de novembro de 2019

Da Minha Rua Para o Multiusos


Muita coisa aconteceu desde o torneio de ténis-de-mesa do ano passado cá na semana cultural da união de freguesias. Este ano, e como já era mais do esperado não houve revalidação do título! E se no ano passado a minha presença no torneio deveu-se ao folheto que encontrei na caixa do correio, este ano tudo foi diferente porque passei de paraquedista a elemento da organização.

Findo o torneio do ano passado, logo tratei de me filiar na coletividade para poder bater umas bolas todas as semanas e tentar evoluir um pouco mais. E assim foi. O que não estava à espera era que, apesar do ténis-de-mesa na coletividade ser praticado quase só por lazer, pudesse ter tido a oportunidade de ter um treinador a sério, com curso de desporto e tudo, e bater bolas com o seu pai, um ex-campeão nacional. Se o ping pong sempre foi uma paixão de criança, e todos os intervalos lá estava no polivalente da escola a jogar, trinta anos depois, a vida encarregou-se de me presentear. E eu sinto-me muito grato por isso. É uma coisa tão simples, mas é algo que me faz feliz. Certamente que não é agora que vou treinar para competir, mas vou treinar simplesmente porque gosto. É essa a definição de amador, sinónimo de amante, apreciador ou diletante. Não por ofício ou obrigação como os profissionais, mas simplesmente por gosto.

Começamos a treinar nas manhãs de domingo e duas vezes a meio da semana, conforme a disponibilidade de cada  um. Os meses foram passando e começamos a pensar na organização de um torneio cá na terra, mas por vários motivos acabamos por não reunir o apoio necessário para fazer um evento num espaço apropriado  e onde pudéssemos captar atletas  federados e não federados. Mas entretanto movido pela motivação de ter mais condições de treino indaguei os meus camaradas e presidente do clube sobre a possibilidade de conseguirmos arranjar um espaço melhor, com mais condições, e perguntei (depois de ter visto uma disputa do campeonato distrital) se por ali perto não haveria, por exemplo, uma escola vazia que se  pudesse solicitar na Junta de Freguesia. Havia, e a uns quinhentos metros, e mesmo em frente de um café sede de um rancho folclórico, que por certo iria atrair atenções.


E assim foi. Tinha ficado decidido treinar na escola, à experiência, para ver como as coisas correriam, durante dois meses, até à data do torneio. Se houvesse adesão, seria para continuar, assegurara o presidente do clube. Começamos a treinar na antiga escola primária, e treino após treino mais gente começou a aparecer, mesmo que alguns mal soubessem pegar na raquete, mas nesses mais visíveis ainda  eram os progressos mal passavam pela mão do Mister.

Entretanto começou-se a preparar o torneio anual da semana cultural. Divulgou-se nas redes sociais, imprimiu-se cartazes e eu espalhei inclusive vários nos locais de maior afluência na minha freguesia e outros noutros locais. Na ausência de algum material para o torneio (que não houve nas duas edições anteriores) contactei a associação distrital da modalidade no sentido de saber da disponibilidade para emprestar. Fiquei surpreendido, a resposta foi muito favorável, emprestavam o que quiséssemos e incentivaram a divulgação da modalidade.

Os dois meses a treinar na escola, com treinos abertos e gratuitos para a população tinham sido um sucesso. Fizeram-se alguns vídeos que foram divulgados nas redes sociais. Já o número de inscritos para o torneio não foi assim grande sucesso. E todos aqueles, amigos e colegas, a quem disse para se inscreveram, nem um sequer, por diferentes motivos apareceu. Porque uns tinham um casamento, outros de tarde tinham cenas marcadas, outros porque por este ou aquele motivo, a verdade é que nem um só se inscreveu. E dois antes da data marcada tinha chegado o dia do sorteio. A mim havia-me calhado na fase de grupos o finalista do ano anterior e um nome que ninguém conhecia.

E até ao dia do torneio algumas coisas não correram como o devido. E o pior foi mesmo o balde de água fria que não esperava, mas esses aspetos prefiro agora não mencionar.

Mas o que interessa é que, mal ou bem, com melhor ou pior organização, com maior ou menos afluência o torneio realizou-se. O vencedor foi o óbvio, com os seus sessenta anos, que entretanto poderemos ver arbitrar nos nacionais. Eu acabei por vencer o meu grupo. O tal nome desconhecido era uma criança de onze anos! Ainda nos aquecimentos comentei logo com os meus colegas que o miúdo tinha muito jeito. Vinha pela mão do pai que também dava uns toques.

Quis o sortilégio do sorteio que nas eliminatórias se  defrontassem, vejam só!, pai e filho! O filho de onze anos, implorava ao pai que o deixasse ganhar! E que é que vocês fariam no lugar do pai, hein?  O pai acabou por jogar normalmente, e a três ou quatro pontos da vitória já eram visíveis as lágrimas nos olhos do pequeno jogador. Eu fui avançando nas eliminatórias mas já sabia, iria tão longe possível enquanto não apanhasse o nosso campeão! Mas pelo meio ainda  perdi um set e comecei-me a enervar e tive com calma fui até à meia final onde perdi por 3-0 e venci depois o pai da criança para ficar em terceiro lugar.

Os senhores convidados, entre os quais o autarca procedeu à entrega dos prémios, deixou elogios aos treinos realizados na escola primária e deixou-nos à vontade para por lá ficar. De imediato aproximei-me dele, agradeci, mas a verdade é que ainda estou para saber porque raio não mais para lá voltamos.
Toda aquela gente que ia treinar se perdeu. O pai e o filho, que no torneio logo se mostraram interessados em fazer sócios e treinar também nunca apareceram. Acabamos por angariar mais dois jogadores, o Leandro e o Paulo, sempre cheios de motivação e continuamos à espera que o treinador venha do exílio, ou do fim do trabalho escravo como ele diria.

Vai daí vi divulgado nas redes sociais o tornei anual do Ala Nun'Alvares em que também se iria realizar um torneio de "populares" que é como quem diz não federados. E nem pensei duas vezes! De imediato falei com os meus colegas e  inscrevi-nos a todos. Mas logo os avisei que iríamos levar uma valente tareia! O torneio aconteceu numa sexta-feira, às oito da noite, à mesma hora que se realizava, umas mesas ao lado, um jogo do campeonato nacional de femininos! Eu era uma espécie de gladiador deslumbrado por pisar pela primeira vez o Coliseu de Roma, mesmo sabendo que estava a fazer o aquecimento para morte! Fiquei mesmo deslumbrado! Eu ali no pavilhão multiusos a pisar aquele vinil e a jogar naquele espaço com mesas profissionais e a ter a oportunidade de competir.

Dois colegas nossos, incluindo o nosso melhor representante, infelizmente não puderam ir. Um amigo meu foi e depois ainda tirou algumas fotos para recordar. A minha ideia em ir, era que, por um lado iria competir o que é sempre importante, por outro seria fazer alguns contactos e aprender, ver ali ao vivo como é que quem sabe, organiza as coisas. E aconteceu um pouco de tudo isso.
Começamos por treinar, bater bolinhas, e rapidamente percebi que o nível amador ali era alto, nada comparável aos nossos torneios que levam pessoas que estão habituadas a jogar uma ou duas vezes por ano! Nos gestos de manobrar a raquete rapidamente ficamos a saber o nível de determinado jogador ainda que, uma coisa é bater bolinha, outra bem diferente é jogar.

Ao certo não sei, mas estariam por ali entre trinta e quarenta atletas. Por ali estavam pessoas mais velhas, de cabelos brancos, tantos homens como mulheres, por certo alguns ex-federados, e também malta jovem do desporto escolar. Percebi que a organização dividiu bem o mal pelas aldeias. Todos os grupos (de três ou quatro pessoas) tinham uma mulher, e nenhum de nós ficou no mesmo grupo. Eu fiquei num grupo com dois miúdos de dezoito anos, um rapaz e uma rapariga, que me tratavam por você. Equipados a rigor, como grande parte dos presentes, com equipamentos de marcas de ténis-de-mesa, o que já diz muito do nível das pessoas. Nós fomos de forma descontraída, nem sequer vestimos os pólos do clube (ficará para a próxima vez!)

Como sempre entrei muito nervoso. Por isso talvez seja importante competir mais. Talvez todo este nervosismo comece a desaparecer, ou não. Nao sei. Mas às vezes parece que o meu maior opositor está dentro de mim mesmo e as coisas não me saem naturalmente. De repente, no primeiro set já estava a perder 6-0 contra o rapaz! Como é possível estar eu a perder os pontos todos? Respirei fundo, tentei acalmar-me e fiz um e outro ponto seguido. E de repente já dava para sentir o nervosismo no adversário. E a verdade é que consegui mesmo empatar a 10-10 e depois ganhei o set. E a partir daí parece que a tensão abrandou e comecei a jogar mais tranquilamente. Venci a primeira partida e depois a segunda contra a menina que também jogava bem e estava apurado para os oitavos de final em primeiro lugar. Os meus dois outros colegas também se conseguiram apurar o que foi ótimo!

Nos oitavos de final a todos nós nos calharam mulheres! E não vale a pena fazer grande mistério, a verdade é que todos perdemos contra elas! A mim calhou-me a irmã da menina que perdera comigo na fase de grupos. E neste caso se calhar não entrei focado o suficiente. Os jogos foram muito renhidos, mas ela venceu as duas partidas, para minha incredulidade no final. Porque cá entre nós, não fiquei totalmente convencido. Acho que tinha jogo para lhe ganhar, mas ela venceu bem. De qualquer das formas, caso eu vencesse, iria ficar-me pelos quartos de final porque iria defrontar o senhor que venceu o torneio com grande destaque.

Lá continuamos até ao final, a ver as restantes eliminatórias e entretanto as meninas que tinham estado a disputar o jogo do campeonato nacional, incluindo a campeã nacional também por ali apareceram, e estavam a apoiar as suas amigas, incluindo a que jogou contra mim! Entretanto o Leandro telefona ao meu colega, e este informa-o que já tínhamos sido todos eliminados, ao que ele terá falado em limpeza, porque o meu colega diz-lhe "Sim sim, limpavas isto tudo. Até parece que tem por ali uma vassoura"!

Foi muito fixe, competir ali, num clima de boa disposição e desportivismo. Entretanto logo veremos o que se sucederá na nossa coletividade onde estão previstas obras para breve.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

As Últimas Ameixas da Vida

Há coisa de um mês decidi-me a arrancar a enorme estrelícia que tinha em frente da casa. Não, não foi propriamente um "Querida Mudei o Jardim", foi mais um já-estava-farto-de-tanta-raiz-a-tomar-conta-do-relvado-e-farto-de-ter-que-a-cortar-e-podar-em-volta-que-vou-fazer-uma-limpeza-nisto-tudo. Já tinha até começado a cavar em volta (a tarefa não é propriamente fácil) até que os pais, como estão por casa, ofereceram-se para ir lá a casa arrancar aquilo.

No dia em causa que isso aconteceu, cheguei a casa e passado um bocado ouço o meu vizinho a chamar por mim. Este meu vizinho mora duas casas ao lado mas que inicialmente até viveu mesmo ao lado porque aquelas casas são todas da mesma família. Eu cresci ali, naquela rua, e desde pequeno que fui convivendo, ainda que à distância, com os vizinhos, e sempre me habituei a respeitar aquele senhor, que inicialmente usava um bigode e que para ali veio morar porque casou com a filha dos donos daqueles terrenos e que na altura conduzia um Opel Kadett preto de matrícula AU.

Ele chamou por mim e foi subindo o passeio com um saco plástico na mão. Disse-me que, como tinha visto os meus pais por ali, foi apanhar umas ameixas para lhes dar, mas que entretanto quando voltou já os meus pais tinham ido embora. Confiou-mas então a mim para as entregar aos meus pais.

Via Piterest
Não muitas semanas antes tinha-o apanhado a passar na rua e estivemos a conversar. Falamos de várias coisas. Disse-lhe que tenho sempre muito que fazer no jardim, falei-lhe do relvado e ele disse-me que não há nada como andarmos entretidos a jardinar a cuidar das nossas coisas. Quando falamos do relvado, contei-lhe até da minha pequena extravagância de ter comprado um escarificador e até o convidei a ir lá à garagem ver, e ele ficou admirado com a grande máquina que comprei. Grande e potente, "fizeste uma boa compra por esse preço", disse-me. Por momentos parecíamos dois homens a apreciar o novo bólide que um dos dois tinha comprado!

Foi há cerca de cinco anos que soube que ele estava doente e isso revoltou-me porque parece mesmo que "coisa ruim não tem desvio" e que só os bons é que se vão antes do tempo. Ele deixou de trabalhar e estava sempre por casa. Mas sempre o vi a trabalhar em casa, nas mais variadas tarefas como cuidar do jardim e do pequeno quintal por onde andam galinhas e patos por entre árvore de fruto, e sempre o vi bem disposto e alegre, ainda que muitas vezes, como é compreensível, se protegesse e recolhesse mais.

E se é verdade que eu sempre tive o hábito de me despedir das pessoas como se fosse a última vez que as vou ver - "tudo de bom!", até porque um dia isso irá mesmo acontecer, com ele, fazia mesmo sempre questão de, sempre que por ele passasse na rua, de carro, ou o via passar da minha casa, sempre fiz questão de lhe dar um aceno e um sorriso sincero. Em boa verdade, já fazia antes de saber que estava doente, mas agora fazia-o ainda com mais sentimento, como que a transmitir-se uma força subliminar, que estamos todos a torcer por ele.

Mas, inesperadamente, no penúltimo fim-de-semana, que ainda por cima fui passar fora, liga-me a minha mãe em choque. Ele tinha morrido e sido enterrado no dia anterior, sem que os meus pais, que moram a setecentos metros de distância, tivessem sabido e podido ir ao funeral, porque não tocou o sino da igreja, que na aldeia serve de alerta que alguém morre.

No telefonema a minha mãe dizia-me que já tinha chorado mais do que se fosse uma pessoa de família, porque, digo eu, não são os laços de sangue que obrigatoriamente nos fazem estar mais ou menos ligados a alguém, é o sentimento que temos por alguém que faz com que determinada pessoa seja importante para nós. E um vizinho, a quem quase só dizemos "olá", mas que temos em grande conta, pode-nos ser mais precioso que alguém da nossa família com quem não temos ligação e que só vemos, com sorte, de dez em dez anos em algum funeral.

A minha mãe viu naquele gesto generoso naquele saco de ameixas (que eram mesmo muito boas) oferecido semanas antes de partir, o simbolismo de se despedir de nós. Talvez tenha sido... não sei, só ele saberá. Mas o que sei é que aquela Rua das Flores ficará mais silenciosa, mais pobre e, senão todos, eu, pelo menos, lhe sentirei bastante a falta. Até sempre R...

domingo, 12 de maio de 2019

Coisas Que Me Lembram de Ti (3) - O Teatro


Uma cidade que tu gostas. Um filme que abortou antes de começar. Um dia de chuva miudinha. O surpreendente conforto da traseira duma carroça.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não Invoques o Passado... Porque Ele Pode Entrar-te Pela Janela Sob a Forma dum Passarinho

Foto Emprestada da Net

Há coincidências verdadeiramente curiosas. 

Na mesma semana em que, estupidamente, decidi colocar o teu nome lá na rede social onde as pessoas colocam fotografias de si mesmas a olhar para o chão ou em frente de espelhos, um passarinho entrou-me sala adentro e confirmou-me o que há muito suspeitava. Estás separada.

Sim, não sei que me passou pela cabeça para colocar o teu nome. Sempre que me lembro disso apetece-me ir buscar o cilício e malhar com ele forte e feio nas costas para não voltar a cometer tamanha estupidez. O pior é que tu estavas mesmo lá. Felizmente que a tua conta está privada e só vi a foto de perfil com os três nomes com que sempre assinaste. Entrei em choque. E espero mesmo esquecer-me desse vislumbre atual e manter na memória a imagem da pessoa que conheci há mais de vinte anos. 

Foi uns dias depois de ter comprado uma estante preta, toda modernaça, e vê lá tu que é o primeiro móvel IKEA que comprei para minha casa (aquela que eu sempre dizia que era a nossa casa) e logicamente que foi uma estante usada (como nova) e a um excelente preço, porque, como já não te lembrarás, eu não brinco com essas coisas de gastar dinheiro, e, depois de a ter montado (parecia que tinha voltado atrás no tempo para montar os Legos que não tive em criança) entrou-me um passarinho preto, de tons azulados na sala e, no meio de todas as pilhas de tralhas que estavam por lá dispostas, ao ver uma pequena moldura, com várias fotografias tuas e com uma minha no meio, disse-me, assim do nada, que estavas separada. Nada que eu já não suspeitasse há anos, afinal, tu mesma me confidenciaste. Ele não iria ficar contigo para sempre como eu ficaria...

Sorrio cinicamente quando penso que, tantos anos depois, estamos ambos na Casa da Partida. Não me invade nenhum sentimento de regozijo ao saber disso. Pelo contrário. Tenho pena. A sério. Não por nós, mas por ti. Tinhas obrigação de saber que o Karma é muito fodido. 

E ontem tinha ido ao carro buscar uma esferográfica para escrever umas coisas com a minha camarada de trabalho, quando olhei para a caneta e lhe disse que a tinha recebido numa entrevista de emprego há uns bons anos. Éramos uns nove candidatos para uma só vaga. E como é que eu poderia ter ficado com a vaga? Até o meu ex-chefe (com melhor currículo) estava lá!

E não é que hoje, estávamos os dois, lado a lado a trabalhar, quando o senhor administrador, que tinha entrado com alguém de fora da empresa, me chama.... Olho, ainda à distância, e... é o Carlos!!
O que é que estava ali a fazer o Carlos?, o meu primeiro formador da anterior empresa onde trabalhei até ter encerrado portas? Estava lá, precisamente, de camisola vestida com o nome da empresa para a qual eu tinha concorrido e eram nove candidatos, e onde também tinha estado o meu ex-chefe, que era ele, e que por ali entrou hoje, um dia depois! Então foi mesmo ele que ficou com a vaga!

Claro que não fiz vista grossa, cumprimentei-o efusivamente, tendo-me até alheado do que o senhor administrador me havia pedido. Não foi por mal!

E devo ter repetido umas duzentas vezes "que engraçado"....
- Tens falado com alguém que trabalhou lá na empresa?
Não, não estou no Facebook e afins, não tenho falado com ninguém.
Como te compreendo!

Mexer na merda implica sempre um cheiro nauseabundo. Seria impossível remexer no passado e não ficar a pensar nele. Como é que se chamava a última empresa onde trabalhaste nos últimos meses que estivemos juntos? Não me conseguia lembrar... Mesmo tendo sido eu a ter visto o anúncio no Expresso e a incentivar-te que enviasses, de novo, para lá o currículo, para  que para lá regressasses... Mas como é que se chamava a merda da empresa? De vez em quando temos brancas.... O Freud é que explicava isso bem. Deves saber melhor que eu, afinal, tu é que és de psicologia. Mas é sabido que por vezes apagamos mesmo certas informações. Não acho que tenha sido o caso, mas pronto, queria-me lembrar da merda do nome da empresa! Mas nada que com a internet hoje em dia não se descubra, não é? E de novo o choque. Eu sempre digo que nós andamos sempre à volta uns dos outros, mas estar a trabalhar a cinco minutos dessa empresa é um bocado coincidência demais, não?

E para finalizar em grande a semana, o reencontro com o João.

"Eu sento-me como quiser"!

Como assim, não estou ver. Relembra-me...

Quando tu não estavas corretamente sentado, e passa uma empregada e diz-te que não é assim que se senta e tu: "eu sento-me como quiser", e o pessoal todo a olhar... Hei....

A sério, já não me lembrava como era tão rebelde!

De tarde quando me ligavas, falavas que o passado tinha regressado - também a ti?, perguntei!

Foi muito bom o reencontro que aconteceu há meia dúzia de minutos. Histórias semelhantes. Relações que acabam de forma semelhante. Olhar o passado com os olhos de quem já cá está há algum tempo. O que correu mal... como poderia ter sido tão diferente... ou tão igual. As mesmas histórias repetidas até à exaustão, porque se calhar todas as histórias de amor são iguais.

Mas todos os dias voltamos à Casa da Partida. Todos os dias são novas oportunidades. Quanto ao passado, bom, é melhor não invocá-lo, porque ele pode mesmo decidir aparecer.

sábado, 6 de abril de 2019

Nome em Árabe


O meu nome em árabe. 
(isto se o sujeito não escreveu para ali outra coisa qualquer!) 
Esta pintura (chamemos-lhe assim) foi feita há uns 15-19 anos na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Um Abraço de Dois Anos

Não me esqueço de quem se lembra de mim e não me esqueço que faz hoje dois anos que vieste, lá de tão longe, só para me ver e constatar que, apesar da falta de algumas peças e um bocado remendado, eu ainda estava inteiro. Não esqueço também de quem me telefonou, todos os dias, sem falta, para saber como estava, de quem se preocupou, e, de uma ou outra forma, esteve presente num momento complicado, e é nos momentos difíceis que fazemos a chamada e vemos quem está presente. 

Mas, por este ou aquele motivo, acabaste por ser a única pessoa que o fizeste pessoalmente, e mesmo que tivesses tido oportunidade de ter ficado só umas dezenas de minutos, a verdade é que vieste na mesma. E essas coisas não se esquecem.


Eu não cuidava era que aquele abraço, um bocadinho menos forte que o habitual, mas só para que não me pudesses rasgar pelo picotado, tivesse que aguentar tanto tempo, sem que as tuas águas viessem, de novo, banhar a minha areia...

Coisas Que me Lembram de Ti (2) - Árvore das Rosas




Um pouco por todo o lado vêem-se agora rododendros em flor. E agora, como todos os anos por esta altura, sempre que os vejo em flor, em especial com flores vermelhas, vejo-te a posares para esta fotografia num dos sítios mais bonitos do país, sítio esse que te levei a descobrirmos, os dois, juntos, pela primeira vez. 

Ensinei-te o nome, e repeti-te em diferentes alturas: "ro-do-den-dro"!
- Acho que já não te lembrarás! É normal. Eu sei que não é propriamente um nome de muito fácil memorização e podia-te ter explicado o nome, bem mais interessante que tem em português.

Rododendro vem de "Rhodon" + "dendron". Em que "rhodon" significa "rosa" e "dendron" significa "árvore". Ou seja, a um rododendro podes chamar-lhe: "Árvore das rosas".

Já viste que bonito que é? E agora já sabes que sempre que vejo uma árvore das rosas é-me impossível não me lembrar de ti...

sábado, 26 de janeiro de 2019

"O que eu gosto em si é a sua alegria e otimismo"

Em poucos minutos a conversa estava já incontrolável, o que comigo não é nada difícil de acontecer. Eu pareço uma espécie de soldado com a metralhadora descontrolada a disparar palavras por todos os lados. Acho que no entanto deixei espaço para a ouvir, ainda por cima ela é daquelas pessoas que tem um timbre de voz que dá gosto ouvir. Há pessoas assim, que ainda não conheço pessoalmente mas já gosto da sua voz. Ela foi um desses casos.

E assim do nada disparo inesperadamente:
- Já viu como tenho as mãos?
"Já tinha reparado, mas não disse nada."
Ela já tinha reparado... Recentemente é pelo menos já a segunda pessoa que me diz que "já tinha reparado". E se calhar, agora que penso, já não há mesmo como não reparar. Mas não interessa, porque fui eu que fiz questão de lhe mostrar! Na verdade, pensando bem, acho que agora passo a vida a mostrar as minhas mãos às pessoas.

Foto emprestada da net
E já agora, faço aqui um parêntesis para me dirigir às duas leitoras que comentaram na publicação "As últimas palavras que me escreveste". Da mesma forma que vos disse na altura, que, só quem está à vontade com o seu passado é que fala abertamente dele, também só quando aceitamos uma doença ou uma deficiência é que, alegremente, até fazemos reclame dela. Porque se querem saber, durante muito tempo eu escondi as mãos, e logo eu, que sempre falei muito com elas... E ter de passar a escondê-las não era fácil. 

Muito bem. Ela tinha então já reparado nas minhas mãos...
Mas o mais engraçado foi que, minutos depois, sem nada que o fizesse prever, e com todo o à vontade do mundo, aquela mulher, que nada sabe de mim e com quem só tinha estado uma meia dúzia de vezes, talvez uns dois ou três minutos de cada vez, o tempo suficiente para pegar numa encomenda e colocá-la na mala do carro, e a quem eu sempre, respeitosamente, estendi a mão, de repente, com enorme à vontade (defeito profissional?) pega-me nas mãos e lentamente começa a massajá-las...

Ainda conversamos mais uns quantos minutos, até que a chuva fez questão de nos interromper, e também de me lembrar que tinha de ir trabalhar. Coloquei-lhe a encomenda na mala do carro, mas desta vez não lhe estendi a mão. Disse-lhe-lhe:
- Olhe, vou-lhe dar dois beijos! 
"Também já tinha pensado nisso", respondeu-me! 

Cada um foi à sua vida e eu fiquei a reviver aquele encontro meio surreal. Retive uma frase que ela me disse:
"O que eu gosto em si é a sua alegria e otimismo"...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando o Meu Avô Rasgou o Cartão de Sócio

Passava os olhos pelas capas dos jornais desta manhã, e uma frase de um treinador ("marcamos mais golos mas não ganhámos") fez-me lembrar de uma das muitas histórias que o meu avô contava e que eu nunca me cansava de ouvir: o dia em que ele, em pleno campo da bola, rasgou o cartão de sócio e decidiu nunca mais ir ver um jogo de futebol.

Apesar de ter ouvido esta história dezenas de vezes (peço desculpa mas o neologismo "estórias" faz-me bué da comichão na psoríase) na verdade já não sei bem todos os pormenores.

Creio que se tratava de um daqueles clássicos, um Medas - Zebreiros (ou seria um Medas - Melres?) jogos que na certa acabam em pancadaria, e que, segundo o meu avô, o árbitro esteve sempre a prejudicar o clube que era associado. E por falar em associado, ainda por cima, o meu avô já andava a ficar chateado porque, lá de longe a longe, quando se lembrava de ir ver um jogo, chegava ao lá e, azar, era "Dia de Clube" e lá tinha de pagar! E até que, nesse tal clássico da terrinha, houve um lance por demais evidente da roubalheira. Farto daquilo, o meu avô, ainda no campo rasgou o cartão de sócio e fez promessa de não voltar a meter os pés num campo de futebol. 

"Ando-me para aqui a chatear, a gastar dinheiro, quando na verdade só ganha quem aqueles senhores de preto quiserem? Não!"

Eu estou em crer que, quando a maioria das pessoas fizer o mesmo, talvez os senhores que mandam tomem de facto medidas para que o futebol deixe de estar aVARiado. 

Imagem emprestada da net

sábado, 5 de janeiro de 2019

As Últimas Palavras Que me Escreveste

Imagem emprestada da net
"Sinto falta das nossas conversas e das pequenas coisas também! Sabes que durante tanto tempo fomos companheiros de vida... Não é de um dia para o outro que passa tudo... Fazes-me falta em muita coisa! O teu apoio, a tua amizade... Eu sei que perdi tudo...
Com a decisão que tomei perdi o amor e o amigo. Tenho que viver com isso. Por mais que custe e que magoe... Faz de conta que não recebeste esta sms. Foi um desabafo... Um beijo.

Fiquei com lágrimas nos olhos... Sei que me conheces melhor do que ninguém... E tenho as minhas dúvidas se algum dia alguém conhecerá tão bem... Mas tenho de ser forte... A fragilidade fica mais para a noite, quando estou só serenidade da minha cama... Nunca duvides da tua importância na minha vida! Só peço isso. Beijo

És tão duro nas tuas palavras, mas eu perdoo e aceito. Não mereço outra coisa mesmo. Só o teu desdém. Meu amor, meu amigo, encontrar-nos-emos um dia! Acredita!"

Sinais dos tempos. Começamos por nos corresponder no milénio passado com esferográfica e papel. Já as últimas palavras que me escreveste vieram pelo ar, do teu telemóvel para o meu. E há muitos anos que tinha estas tuas mensagens guardadas num telemóvel. Na altura transferia-as de um outro telemóvel para este, e depois apaguei o teu número. E por estes dias voltei a pegar nesse mesmo telemóvel antigo (porque num qualquer dado momento volto sempre a pegar num qualquer telemóvel antigo) e ao remexer-lhe nas gavetas, voltei a dar de caras com as mensagens (como com outras mensagens guardadas de outras pessoas que foram também importantes em determinada altura da minha vida). Mas não penses que foi uma enorme surpresa o que ali encontrei escrito por ti. E não foi porque eu sempre retive essas palavras no disco rígido mais importante: o meu cérebro.

No entanto acho que o mais interessante para mim, foi depois fazerem-me saber que, meses depois destas tuas palavras que me escreveste tinhas casado. Estavas mesmo aflitinha, pá! Está bem, eu retiro o "pá" porque acabei de me lembrar que detestavas que eu te chamasse "pá"! 

Eu sei que em momentos como aqueles, de tão grande intensidade emocional, acho que é normal dizerem-se coisas que não se sentem. E eu sei que me foste dizendo umas quantas que não sentias. Não podias sentir. Eu sei que era só para me magoar (ainda mais). 
Acho que foi mesmo por eu te ter dito isso, que escreves ali a determinada altura que não conseguiste segurar as lágrimas. Talvez porque, como também disseste, afinal, eu era aquela pessoa que, eventualmente, nunca nenhuma outra te iria conhecer melhor que eu, não é? 
E também eu te disse umas quantas coisas das quais não me orgulho. Mas sabes que quando se deita álcool diretamente numa ferida aberta arde. Tu sabias que me iria arder muito, mas talvez só te tenhas querido iludir a ti mesma que não, que eu iria ser uma espécie de Rambo que deita pólvora numa ferida aberta e lhe chega fogo como se nada fosse!

Mas ardeu e tu não estavas muito preparada para as dores que isso me ia causar. Acho que no fundo, já antevendo isso, tu foste um bocadinho cobarde e não tiveste coragem de o fazer por ti mesma, de forma frontal, preferindo fazer as coisas de modo a que, tivesse que ser eu mesmo que, de uma vez por todas tomasse uma decisão. Então, tirei-te o frasco das mãos e despejei eu a merda do álcool todo sobre mim mesmo. E ardeu. Mesmo muito. 

Eu não vou negar que às vezes, e passados todos estes anos - fazem vinte este ano, não é? (eu a fazer de conta que não sei as datas todas de cor!) ainda dou por mim a pensar se ainda te lembras de mim. 

(Não, minha querida e linda e muito inteligente e culta futura namorada: não é porque eu ainda acalente o sonho de um dia voltar  a reencontrá-la e fodermos como martas (como nós dizíamos) e, mais importante, de retomarmos o ponto de separação para então sim sermos finalmente felizes para todo o sempre! Não! É mesmo só uma mera pergunta retórica sem segredos escondidos. A minha querida e linda futura namorada deveria sim preocupar-se quando as pessoas não falam de determinados assuntos, e não quando os outros têm as situações bem resolvidas na sua cabeça)

Sinceramente? Acho mesmo que não, que não te lembrarás mais de mim. Admito que possa estar enganado, mas... acho mesmo que não. Ainda por cima acho que isto de relembrar as relações passadas é muito mais coisa de gajo. Nós homens é que nos pomos a falar de antigos amores. Acho que nisso as mulheres - sem querer generalizar! - são muito mais pragmáticas. Acabou? Siga para Vigo. Ou é para Bingo? Nunca sei!

Mas não vou negar que acharia muito curioso e interessante ter hoje uma conversa contigo. Passaram-se muitos anos. Estamos mais velhos, passamos por diferentes experiências na vida. Tu casaste, até ouvi dizer recentemente que tens uma menina, e tudo isso mudará necessariamente a vida de uma pessoa; ao passo que eu continuo solteiro e fiel ao que era há vinte anos. 
Não sei, e se calhar até talvez achasses curiosas algumas particularidades da minha vida, como as pessoas que conheci, de quem me tornei amigo, das coisas que gosto de fazer... 

Tal como eu também eu em relação a ti. Não faço a mais pequena ideia do que farás hoje profissionalmente, ainda que, não seja a profissão que nos defina, que diga alguma coisa sobre o que nós somos. Não sei que filmes é que gostaste; nem das músicas que ouves nos dias de hoje; ou dos livros que entretanto leste e gostaste ou se deixaste de ler; dos sítios que visitaste e mais gostaste; das coisas em que te envolveste e que te orgulhas... No fundo saber que escolhas fizeste e saber da pessoa em que te tornaste. 

E logicamente que, se, como eu acredito, que já nem te lembrarás de mim, há muito tempo que não pensas que "nos encontrarnos-emos um dia". São são coisas que se dizem num determinado momento tal como quando eu e a Tina fizemos um pacto de quando um de nós morresse fosse ter com o outro para contar como é! A Tina lembrar-se-à agora de mim! E eu sei lá bem por onde é que ela andará agora para, quando eu morrer ir ter com ela! E depois e se eu lhe aparecesse ela ainda morria de susto!

São coisas que se dizem num determinado momento mas lembras-te de uma coisa que eu te dizia muito frequentemente nos tempos em que começamos a namorar e éramos estupidamente felizes?
"- Vamo-nos acertar definitivamente neste vida?, ou ainda vamos precisar de mais umas quantas encarnações"? Se calhar tens razão, como dizias, ainda teremos mesmo de nos encontrar um dia. Mas  certamente não será nesta, terá mesmo que ser noutra encarnação para nos pacificarmos.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Vai-te Despedindo Dela Porque Eu Vou Levá-la Comigo

Imagem emprestada da net
As folhas quadriculadas com linhas azuis que tenho aqui comigo foram escritas por mim já no milénio passado. São meros rascunhos e anotações que bem que podiam ter ido para o lixo. Mas mantive-as sempre guardadas. Talvez para servirem de prova. Não foi sonho. Tudo aquilo foi bem real. E eu escrevi-o na altura em que o estava a viver, para que mais tarde, como hoje por exemplo, não duvidasse das minhas próprias memórias. 

Quis a vida que certo dia nos cruzassemos na rua e tu perguntaste-me se podíamos ser amigos. Disse-te que sim e tornamo-nos correspondentes. E depois amigos. Só amigos, se calhar, durante tempo demais. Mas foi o tempo que teve de ser até não ter dado mais para sermos só amigos. Até eu ter deixado de resistir e de mentir para mim mesmo, achando que éramos como irmãos. Até ao dia em que, sozinhos na traseira de um autocarro, disseste-me: "abre os braços". Eu abri e tu aninhaste-te no meu peito e disseste: "agora fecha". E eu fechei. E os abraços, como eu já imaginava que seriam, e fui depois aprendendo ao longo da vida, são muito intensos e perigosos quando gostamos muito de alguém.

Correspondentes. Amigos. Namorados.
Parece que passou tanto tempo entre a altura em que éramos meros desconhecidos, que nos cruzávamos nos transportes, e o tempo em que te tive pela primeira vez nos braços. Mas em boa verdade terão sido quê, dois anos? Mas quando somos novos dois anos é um tempo que nunca mais acaba.

Mas qualquer coisa aconteceu com o nosso encontro que despertou algo para o qual eu não estava preparado. Ninguém está não é? Porque ninguém nos  ensina a lidar com este tipo de coisas. Poucos dias depois de termos passado a ser mais do que amigos, abateu-se sobre nós, mais sobre sobre mim se calhar, qualquer coisa de diabólico, porque uma qualquer força que os meus olhos não conseguiam ver, queria-me afastar de ti.

Eu sou uma pessoal comum, não sou nenhum "special one" como o outro que se acha especial. Eu não tenho informação privilegiada do além. Eu não rezo aos santos; não sou religioso; não falo nem consigo ouvir o meu anjo da guarda, que se me fala eu não o ouço; nem ouço nem vejo ninguém que não seria suposto ver. A minha linha telefónica com o além está sempre desligada. Chama mas ninguém atende, ou ligam-me mas eu nunca consigo ouvir. 

O primeiro verdadeiro choque que tive foi quando percebi, sem sombra de dúvidas, que alguém falava por ti. Escondido no teu corpo, sabe-se lá durante quanto tempo, alguém nos observava. Alguém me observava a mim de perto sem eu me aperceber. Mas aos poucos foi saindo do armário. E é verdade que eu não sou nenhum special one, mas mesmo parecendo distraído, que o sou na verdade, sou também atento. E na sequência de várias ocorrências que não faziam grande sentido,  um dia percebi-o claramente. O choque foi ter percebido que, por vezes, não era contigo que estava a falar. Alguém te manipulava, alguém que me queria manipular, fazendo crer que eras sempre tu que falavas comigo. E nesse momento sim, assustei-me um bocadinho. 

Eu não sei há já quanto trarias aquilo contigo, nem há quanto tempo aquilo te manipulava. Não sei porquê, mas só se começou a manifestar quando começamos a namorar. Estava tudo bem enquanto éramos só amigos, ficou tudo mal quando começamos a namorar. E quando somos jovens e não temos grandes experiências nestes assuntos do foro sobrenatural, vamos aprendendo a estar muito atentos a tudo. Foi assim que fiz. Sempre atento e aprendendo aos poucos como as coisas funcionam na prática, e claro, procurar ajuda. Chamar reforços.

Chegamos a conversar os dois sobre o que poderia ter originado aquilo que se estava a passar contigo. E chegamos à conclusão que, uns anos antes, uma certa brincadeira ao jogo do copo que não correu muito bem, poderia ter estado na origem, mas na verdade, sei lá o que pode ter originado aquilo. Há coisas que muitas vezes simplesmente se identificam connosco e se colam a nós, ou que não gostam de todo de nós. Sei lá...

Mas foi curioso que, a partir do momento que aquela coisa se apercebeu que eu sabia da sua existência, então não precisou mais de camuflar e de se esconder atrás dela. Passou mesmo a falar diretamente comigo. E chegaram os primeiros avisos:

"Ela é minha, ou a deixas ou levo-a comigo. Nunca ninguém gostou dela, vens agora tu e estragas tudo? És um estúpido, estou-te a dar a oportunidade de saíres. Faço com ela o que quiser. Não acreditas"?  

Uma das coisas que percebi na altura, é que há coisas sobrenaturais muito mal educadas! E temos que ter noção que eu só vi a miúda do Exorcista possuída, a torcer a cabeça e a insultar toda a gente anos depois!

E durante vários meses passei a conversar com duas entidades diferentes: ela e outra coisa qualquer, em que a única coisa que queria era que eu a deixasse. Mas eu sou um bocadinho de ideias fixas e nunca a deixei. No desespero da coisa até acho que por vezes consegui achar alguma graça. Afinal, eu andava a ter grandes conversas não sei bem com quem lá do além! "Ele" começou inclusive a telefonar-me! E percebi que só se mostrava para mim. Uma vez ele estava a falar comigo ao telefone,  a mãe chamou-a, e de imediato ele desapareceu e respondeu ela. E ainda bem que naquele tempo não havia internet, senão sei lá, ainda vinha para aqui para os meus blogues tentar aterrorizar-me com mensagens ameaçadoras para toda a gente ler! Era o que me havia de faltar! 

Certo dia, depois dela ter ido comigo ao hospital porque eu fui fazer análises, passeávamos de autocarro porque eu ainda não tinha tirado a carta. E lembro-me bem deste pormenor que não está nas folhas quadriculadas azuis. Tu ias do lado da janela e passávamos pela Praça da Liberdade no Porto. Eu olhava para ti e estavas serena, parecias muito feliz. Eras tu. Mas de repente, as tuas feições e os teus olhos já não eram os teus olhos. Pelos teus olhos alguém olhava para a cidade, como se a estivesse a ver pela primeira vez. Já não eras tu. Estendi-te a mão para a apertares e ele fez com que me rejeitasses. Disseste-me: "deixa-me que eu já não te amo".  

Ele começou a ficar cada vez mais agressivo. Dizia-me que te ia matar:
"Despede-te dela porque já estou farto de ti, e agora vou levá-la comigo". 

Num outro fim-de-semana, debaixo das grandes árvores do Palácio de Cristal, trouxeste-me todos os medicamentos que tinhas em casa para eu guardar. Acho que ainda os tenho comigo guardados porque ainda guardo tudo o que era teu. Ele ameaçava-me fazer-tos tomar, e tu tinhas medo que sucumbisses e que ele te vencesse. Claro que ninguém sabia do que se estava a passar, e tu não andavas nada bem. E os exames finais para acesso da universidade aproximavam-se. Era um turbilhão de acontecimentos, uns atrás dos outros. E ainda por cima eu também tinha os meus próprios problemas que por essa altura não eram propriamente poucos. Estávamos, por exemplo, a poucos meses do meu primeiro internamento no hospital, que depois de lá sair, para lá teria de regressar porque saí de lá pior do que entrei. 

Se eu nunca fui uma pessoa especial, dessas que sentem, que ouvem ou que vêem, e que sabem dessas coisas, mas ainda assim, algum mérito eu tive que ter tido. Acho que qualquer outro namorado no meu lugar tinha simplesmente achado que tu eras louca. Mas repara que eu nunca me afastei de ti. Não fugi com medo. Nunca duvidei dos teus sentimentos sobre mim mesmo quando dizias o contrário. Eu nunca fui especial, mas ainda assim hás-de convir que alguma coisa de bom eu deveria ter. 

Eu lutei, resisti, pedi ajuda e fui onde foi preciso ir. Ao céu ou ao inferno. Ia onde tivesse que ir. 
E aos poucos, apesar d'ele ir estrebuchando, foi-se dissipando. Deixou de me falar, passou a manifestar-se indiretamente, e a sua força foi ficando cada vez mais fraca, até que, creio que nunca mais deu sinais de vida. 

Muitos anos depois haveríamos mesmo de nos separar, ou haveriam de nos separar. Não sei, também não interessa agora saber isso. Mas uma coisa é certa, não foi porque eu tivesse querido embora. Foi porque tu quiseste ir. Foi a tua escolha, o teu livre-arbítrio. Para o bem ou para o mal, tivemos todos de lidar com a tua escolha: tu, eu, e as pessoas que depois entraram na tua vida e as pessoas que depois entraram na minha vida. Nenhumas dessas pessoas teriam entrado nas nossas vidas se tu não quisesses ter ido embora e ainda hoje estivéssemos juntos.

E já passaram muitos anos. Tenho a certeza que já nem te lembras disto que fiz por ti. Nem tens que te lembrar. Eu não o fiz para que te lembrasses. Fi-lo para te tentar ajudar, tal como tu me terás ajudado em tantas outras situações que eu também já não lembrarei.
Mas olha como são as coisas. Anos mais tarde, fui sempre encontrando dessas tais outras pessoas verdadeiramente especiais, que me falaram de como sentem as coisas de uma forma que eu nunca senti. Talvez para me fazer acreditar, porque eu duvido muitas vezes. Não sei. Todas elas me disseram que têm guias que as orientam. Até porque é preciso saber lidar com aquilo e não deverá ser nada fácil. Percebi que é um dom que por vezes vezes se pode tornar numa maldição. Se calhar muitas dessas pessoas só gostariam de ser normais, como eu e como todas as outras. Disseram-me que vêem pessoas que já morreram. Que lhes mostram sinais. Sabem coisas que mais ninguém poderiam saber. Dizem-lhes para não saírem de casa de carro porque podem ter um acidente. Salvam-nas de morrer atropeladas. Vê lá  que coisa mais triste, até tiveram a honestidade de me dizer que as alertaram contra mim...  ou então, por outro lado, anunciaram-lhes que eu chegaria às suas vidas em breve.

E vê lá tu que umas dessas pessoas especiais disse-me mesmo que eu tenho uma missão cá nesta vida. Mas isso tu nunca vais saber. Tal como eu nunca saberia se tu não te tivesses decido ir embora. 

sábado, 20 de outubro de 2018

"Only The Strong Survive"

Já quase duas décadas se passaram, assim, num abrir e fechar de olhos, mas entretanto o disco do cérebro tem vinte anos de novos dados acumulados e essas lembranças de há vinte anos tenho de as ir buscar à reciclagem, correndo o risco da informação já não ser bem precisa, no entanto, acho que o essencial está cá. 

Depois de uma Primavera e Verão muito atribulados nas nossas vidas (com capítulos que há muito me tem vindo a apetecer escrever, porque são momentos importantes da minha vida), tinhas entretanto acabado o secundário e preparavas-te para ser a primeira pessoa da tua família a ir para a universidade. Sim, algo que te poderias orgulhar. 

A tua escolha número um era a Psicologia, área que te era muito familiar visto que era o que andavas a estudar. Mas como na altura a média de entrada era bastante elevada, acabaste por entrar na tua primeira alternativa que era Recursos Humanos. É curioso, como quando começamos a desfiar as memórias, acabamos por nos lembrar de certos pormenores e eu acabo de me lembrar, de quando certa vez me dizias que tinhas uma professora que dizia que os humanos nas empresas não são um recurso. São tudo, porque sem humanos não existiriam empresas, o que de facto faz todo o sentido e La Palisse não diria melhor!

Até que chegou a altura de começar as aulas, e discutimos o tema da praxe. E acho que até aqui no blogue um qualquer leitor fantasma que não me conhece, mas me vá acompanhando, facilmente saberá o que eu penso sobre o tema. E penso hoje o que pensava há vinte anos. 

Praxe, fui agora ver ao dicionário para saber a origem, e a palavra é originária do grego prâksis que significa ação, transação, negócio e que no nosso português significa "prática habitual". Temos pois que humilhar os novos alunos numa universidade porque é a "prática habitual". A tradição. 

A praxe está para as universidades como as touradas estão na sociedade. É uma prática habitual tolerada. É uma prática sim, mas ridícula! Mandar um piropo a uma mulher é crime. Dar um chuto num gato dá direito a dois anos de cadeia efetiva. Mas humilhar violentamente os alunos que chegam a um novo estabelecimento de ensino é praxe, uma prática habitual tolerada.

Falamos sobre isso e tu explicaste-me o porquê de te ires submeter aquela tortura. Era tudo por causa dos teus pais e, para que, mais uma vez, não fosses apontada como ovelha negra, como diferente, como aquela pessoa que é sempre do contra, ainda que, ser contra a humilhação não é ser do contra mas sim ser em defesa da nossa sanidade mental, decidiste seguir a carneirada e fazer o que todos fazem. E eu, mesmo sendo contra, apoiei-te. 


Claro que já não sei os detalhes todos. Mas sei que odiaste tudo aquilo. E estamos a falar duma universidade privada, cheia de betinhos filhos de papás ricos, e duma cidade que não Coimbra, onde o terror será, como bem se sabe, bem maior. 

Chegavas a casa verdadeiramente aterrorizada. Chegaste mesmo a pensar desistir porque aquilo estava-te a causar graves danos emocionais, mas quiseste levar o masoquismo até ao fim, pelo direito a que, quatro anos depois, lá pudesses fazer todo o cerimonial da "prática habitual", onde eu sempre lá estive, contigo ao lado, até mesmo na "Benção das Pastas" com o bispo e tudo, e mesmo sendo absolutamente contra aquele triste espetáculo, que depois encerra com a Queima das Fitas.


Mas logo no primeiro ou segundo dia de aulas, acho que foste tu que me pediste a minha camisola de Machine Head para passar uma mensagem porque nas costas da camisola diz: Only The Strong Survive (só os fortes sobrevivem). E tu sobreviveste à praxe. Mas continuo a achar que ninguém se deveria deixar humilhar voluntariamente só porque é a "prática habitual". O "mundo pula e avança" e todos nós deveríamos querer um mundo melhor, não o mundo velho dos Velhos do Restelo que nunca querem que nada mude mas, tão simplesmente porque as coisas sempre foram assim. 

Sim, eu ainda tenho aquela velha e gasta camisola de tantas lavagens. Aliás, tirei mesmo a fotografia esta semana, no trabalho, enfiando-a num porta-paletes servindo assim de modelo, já a pensar no que iria escrever sobre ela. Talvez devesses ter querido ficar com ela. Se me tivesses pedido eu ter-ta-ia dado porque sou um gajo espetacular. Tal como te devolvi a pasta com as fitas, que ma tinhas dado, em que duas das fitas fui eu que as escrevi e pintei... Ou talvez anos depois a camisola já não fizesse sentido para ti porque afinal já não estávamos juntos. Não sei. Mas parece-me que aquela camisola foi, ainda que num curto período de tempo da tua vida, mais importante que em todo o tempo que a tive. Durante todos aqueles dias em que foste humilhada, em que berraram contigo, em que te fizeram rastejaste como um animal, era aquela camisola que trazias contigo, era também, como e fosse a minha segunda pele que te protegia. Hoje é só uma velha camisola vintage, que se calhar ainda vale algum dinheiro se eu quiser vender no Ebay.  

domingo, 7 de outubro de 2018

Cinco Anos

Confesso que não tinha a data de cor na minha cabeça, mas claro que sabia que era agora, mais dia menos dia, que fazia anos que nos conhecemos. Então fui revirar os cerca de cinco mil e-mails que tenho ali numa pasta com o teu nome para chegar à conclusão que o dia é hoje.

O nosso encontro foi um pouco insólito. Não nos conhecíamos, tu esqueceste-te do telemóvel em casa, e ainda por cima chegaste bem mais cedo do que seria suposto, mas ainda assim, por artes mágicas, eu consegui estacionar a uns cinco metros de onde estavas sentada. De imediato eu fiquei com a ideia que aquela jovem menina, magra, de chapéu preto de aba larga na cabeça, e que lhe escondia metade da cara, ali sentada a ler um livro fosses tu... mas podias não ser!, até porque não era suposto estares ali aquela hora!

Nesta semana que passou, por diversas vezes dei por mim a pensar como a tua vida tem mudado radicalmente. Há cinco anos quando te conheci, tinhas o nono ano de escolaridade. Mas não foi por isso que desde logo deixei de pensar que serias uma das pessoas mais cultas que tive oportunidade de conhecer. 

Aguarela pintada por ti com o teu auto-retrato
A cultura, que define muito do que somos, é muitas vezes uma das principais desigualdades quando nascemos. Tu por exemplo, tiveste a sorte de nascer no seio de uma família de classe média-alta, com uma mãe das letras, um avô anarquista importante e tudo, e rodeada de livros por todos os lados. Por vezes tens mesmo de ter cuidado para não ficares soterrada debaixo de todos esses livros! Outras pessoas, como eu, nascem em casas onde não havia livros ou, e quiser ser mais exato, onde havia apenas um livro (ou conjunto de escritos) a que se dá o nome de Bíblia Sagrada. 

E claro que ninguém é melhor do que ninguém só porque tem um imenso conhecimento de literatura, cinema, pintura, fotografia, no fundo tudo que está associado às artes e que tu dominas. Tal como ninguém é melhor do que ninguém só porque tem um canudo ou dois, aliás, como disse alguém, a universidade apura todas as capacidades, incluindo a estupidez. Tal como todos nós temos as nossas especificidades, e não raras vezes, é nas pessoas mais humildes que encontramos os maiores ensinamentos.

O teu caminho não tem sido propriamente fácil. Por vezes também tem que ver com a nossa forma de ser, com as nossas escolhas, também com a sorte. Mas, aos poucos, não deixa de ser assinalável as experiências por que aquela menina fechada na sua concha passou. E, depois de tantas peripécias que fui acompanhando, ora mais de perto, ora mais à distância, contavas-me por estes dias, pessoalmente, porque já sabes como sou, que ias começar, inesperadamente, com as aulas na universidade.

Fazem hoje cinco anos que nos conhecemos. 

domingo, 30 de setembro de 2018

Acordar Morto Num Quarto de Hotel

Que puta de morte mais estúpida, pensei. Como é que eu me fui matar assim? Isto até poderia aparecer naquele programa das mil diferentes maneiras de morrer, simplesmente duvido que eles fossem descobrir as verdadeiras circunstâncias da minha morte. Afinal, eu apareci ali, morto, sozinho num quarto de Hotel (que na verdade até era um prédio de Alojamento Local).

Quem havia de dizer. Foi mesmo caso para pensar "ninguém diga que está bem"! Um gajo trabalha uma vida toda para ter uma morte em condições, para depois morrer assim, da forma mais estúpida possível, num quarto em Lisboa na Praça da Figueira.

Deitei-me cedo e cedo terei aterrado pouco depois, afinal, passear também cansa. Antes de adormecer nem sequer ainda me tinha apercebido que o quarto tinha televisão. Só reparei nela depois, de manhã já depois de morto.

Acordei a meio da noite e, ao acordar, não sei como é que consegui aquele feito de bater com a cabeça na quina viva da mesinha de cabeceira que estava mesmo encostada à cama que era pequena. Passo a mão pela cabeça e sinto os dedos todos molhados. Acendo a luz do candeeiro e de imediato vejo os dedos marcados a vermelho no interruptor. Tinha as mãos cheias de sangue.

fineartamerica.com
Levanto-me, vou ao espelho, e vejo o sangue a escorrer todo pela cara abaixo. O meu sangue era bastante fluido e não era azul como o dos ricos, era mesmo de um vermelho bem vivo. Mais parecia que tinha entrado num filme de terror e ia sair daquele quarto para a morgue.

E é assim que um gajo morre, sozinho num quarto de um prédio de Alojamento Local a pensar como é que será quando de manhã, quando nos descobrirem ali morto, tudo nu, e cheio de sangue na cabeça e na cara e com vestígios de sémen nos lençóis.

Mas ainda não foi desta que o jogo acabou. Foi só apenas uma vida que se foi ao ar e agora tenho é de passar a ter mais cuidado com as que restam.

domingo, 9 de setembro de 2018

O Melhor da Minha Rua......... e da Aldeia Vizinha!


A meio da semana tinha um folheto na caixa do correio, com os eventos culturais cá da terra. Subitamente - o quê? Um torneio de ténis-de-mesa e eu nem sequer soube? Cheguei ao trabalho e a primeira coisa que fiz - primeiro estão as coisas verdadeiramente importantes! - toca a informar-me sobre o torneio e se poderia ainda inscrever-me. Sim, ainda me poderia inscrever!

Na sexta-feira, piquei o ponto para sair e, em vez de vir embora, não, fui para a cave, sozinho, praticar serviços! Sim, poderia-me dar para pior! Mas há que treinar. Sim, eu sou um bocadito para o obsessivo. E na verdade de repente pus-me a pensar como parecia aqueles alunos a querer aprender toda a matéria dois dias antes do exame. 

E chegou hoje o dia. Tinha-me inscrito num torneio a realizar-se na freguesia vizinha e iria lá chegar sem conhecer ninguém, o que também teria as suas coisas positivas, entre as quais, ninguém me conhecer a mim, e mais importante, a minha maneira de jogar. 

Bom, mas antes de mais as coisas verdadeiramente importantes! A roupa! Eu não pertencia a nenhum clube, ia como individual, mas tinha de escolher a roupa! Escolher de entre os vários calções e as inúmeras T-shirts! Mais importante ainda, pensei, que calçado? Uma pessoa tem que se sentir confortável a jogar! Liberdade de movimentos e conforto são essenciais!

Levantei cedo, preparei as coisas, levava a minha menina no saco e lá fui eu. O dia apesar de um pouco cinzento até estava bonito. No carro procurava um música que me deixasse mais tranquilo. Nao encontrei, mas lá fui, sempre bem disposto. Quando lá cheguei, dez minutos antes de supostamente as eliminatórias começarem,, ainda andavam a preparar as coisas: colocar as redes nas mesas, ver a melhor disposição da mesa, colocar a mesa dos árbitros. Apresentei-me e rapidamente travei conhecimento com algumas pessoas. 

O sorteio tinha sido efetuado ontem. Como não conhecia ninguém, tanto se me dava se ia jogar com o Manuel ou o Joaquim. Lá logo via quem me havia calhado em sorte, e se encontrasse alguém forte no primeiro jogo, já sabia que corria o risco de ser logo despachado!

Sou muito ansioso e nervoso, sempre fui, desde criança. E hoje, tal como em criança quando tinha de ir as primeiras vezes para a escola, senti-me logo a tremer quando chamaram o meu nome para a segunda partida das eliminatórias. Mais nervoso fiquei quando, às primeiras trocas de bolas, as deixava todas na rede. Não parecia eu... Este primeiro adversário era alto, elegante, corpo cuidado. Aos poucos, depois do jogo começar, lá fui ganhando confiança, e rapidamente vendi a primeira partida sem grande dificuldade por 3-0 e passei à fase seguinte. 

Fui vendo os jogos entre todos os participantes e fui percebendo quem é que me poderia colocar mais dificuldades. O miúdo (sim, eu sei que estou velho) com a t-shirt do curso de engenharia, o senhor de t-shirt do clube, amarela, que cortava muito bem as bolas, e a primeira pessoa que conheci, do clube organizador, que também me pareceu um bom jogador. Havia-me contado que, como não tinha com quem jogar, ofereceu a mesa ao clube (que nos dias de hoje o seu forte é a orientação) e assim as pessoas jogar lá no clube. 

Havia jogadores de quase três geração. Mais ou menos novos, eu, e ainda gente mais velha que do eu. Não sabendo como estava o emparelhamento das eliminatórias, percebi depois que me havia calhado o miúdo de engenharia, de barba de um centímetro. O meu nervosismo estava de tal ordem, que comecei a falhar os serviços quase todos, uns atrás dos outros, e só sei que, antes de perder o primerio Set, pensei mesmo que ia ser despachado na segunda ronda. Tentei focar-me ao máximo, e no mínimo teria de vender cara a derrota. Eu sabia que era melhor jogador, mas é preciso prová-lo em jogo e simplesmente os nervos não me deixavam jogar o que sei. Aos poucos, com calma, fui dominando desde o início o segundo Set e acabei por o vencer com alguma margem. Estava 1-1, íamos disputar o último Set para ver quem seguia em frente. Com calma e agora a vencer quase sempre os meus serviços, acabei por dar a volta ao marcador e vencer por 2-1. E dos dez Set's que fiz até chegar à final, este seria o único que haveria de ter perdido. 

A meia-final era com a pessoa da organização que ofereceu a mesa ao clube, porque (tal como aconteceu comigo) não tinha com quem jogar. Desde logo achei que aquela seria a final antecipada. Achei que tanto ele como eu éramos melhores jogadores que os outros dois da outra meia-final. Fui sempre liderando o marcador, mas o rapaz da mesa por vezes desconcentrava-se e em vez de assinalar ponto para o jogador correto, virava o marcador do outro jogador, e a meio do primeiro Set, quando pensava ter dois ponto à maior por 6-4, vi no marcador 5-5. Fiquei um bocadinho chateado mas aquilo só serviu para me motivar, e achar que ia ganhar na mesma. E assim foi. Venci as duas partidas sem grande dificuldade e estava na final.


Tal como eu previa, o meu adversário cilindrou no jogo de atribuição de terceiro e quarto lugar. Pouco depois ouvia-se nos altifalantes. "Não percam já a seguir a final, entre..." Mas as centenas de pessoas que estavam, depois de meio-dia, a encher o bandulho nas tasquinhas, deixaram-se estar. Na final estava o senhor de amarelo, e se sapatilhas com riscas amarelas. Bons serviços que o adversário raramente conseguia devolver provocavam estragos, e sem grade dificuldade vencia a final por 2-0. 

Tudo aquilo tinha-me deixado com muita fome! Eu não deixo estas coisas ao acaso! Na mochila, além da raquete, tinha uma garrafa de água, e algo para comer. A água fui sempre bebendo entre os jogos, apesar de nem ter transpirado muito. Era agora preciso esperar pela entrega dos prémios, pelo pódio e pelas fotografias, e que chegassem as pessoas da Junta (claro que os políticos não faltam nestas ocasiões). 

Foi um dia diferente em que saí da caverna para jogar e socializar um pouco. Irei-me fazer sócio do clube organizador, e aparecer por lá para dar umas raquetadas bem dadas! 

Não deixa de ser interessante que nada disto teria acontecido se eu não tivesse ido trabalhar para onde fui, e um certo jantar da empresa, me tivessem oferecido umas raquetes de ping pong:


... e aos poucos a minha nova menina vai somando vitórias:


.... quase como se, vitória atrás de vitória, a nossa raquete, adquirisse os poderes do adversário que acabamos de derrotar!