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domingo, 27 de setembro de 2026

Camus, as Mulheres de Maio e de Setembro e a Noite da Consoada

Na semana anterior ao acidente de carro que o vitimaria aos 46 anos, Camus escreveu várias cartas de amor às mulheres da sua vida, incluindo a esposa. A Maria Casáres anunciava a sua chegada para um reencontro que acabaria por nunca acontecer. 

"Última carta. Só para te dizer que chego na terça-feira de carro... Estou tão feliz com a ideia de te rever que me rio enquanto escrevo"

É sabido que os dias 15 e 16 de setembro são os dias do ano que mais bebés nascem em Portugal. E, como é lógico, se há muitas pessoas que nascem em setembro, seria normal que eu me relacionasse com mais mulheres nascidas neste mês. 

Curiosamente, na primeira metade da minha vida adulta não foi com mulheres de setembro que me fui relacionando: foi sim com mulheres de Maio. 

O primeiro grande amor é de Maio. A melhor amiga de Maio é. A arquiteta grega é de Maio. A mulher dos olhos grandes é de Maio. A amiga das tartarugas é de Maio. A dona da loja gótica é de Maio. E a Seguidora Fantasma, que conheci neste blog, também é de Maio. 

Como se pode ver, num ápice, consegui enumerar sete mulheres de Maio que me foram ou ainda são (e só uma ainda é) muito próximas. Não é uma nem duas, são sete, por isso tem que haver aqui um padrão qualquer. Coincidentemente, todas do signo Touro, nenhuma do signo Gémeos. 

Mas entretanto dei-me conta - como se fosse impossível não dar - que nestes anos da meia idade, comecei a relacionar-me com mulheres de Setembro, de signos Virgem e Balança. Hoje uma namorada do passado faz anos, há três dias outra namorada fez anos, há seis dias outra namorada também, e dois dias antes a artista candidata a deputada também fez anos. Quatro mulheres separadas pelos dias de uma semana. Também me parece que há aqui outro padrão.

É curioso porque o mais provável talvez fosse que acabasse por me relacionar numa proporção de 1/12 de todos os meses que existem. Mas não foi assim, apesar de ainda me ter relacionado, muitas vezes intensamente, e ainda que à distância, com mulheres de Escorpião e Caranguejo.

E depois veio a descoberta insólita. Quem nasceu nos dias 15 e16 de setembro - os tais dias do ano em que mais bebés nascem em Portugal - significa que foi, provavelmente, concebido na véspera de Natal. 

E isto deixou-me a pensar. 

Cozinhar sem parar para depois comer sem parar, com a barriga cheia quase até rebentar. Família, compras e prendas, e fazer de conta que se gosta de pessoas com quem só se fala uma vez por ano e conversar até altas horas da noite. Ir ver o madeiro a arder ou até à missa do Galo e, depois disso, quantas vez com alta taxa de alcoolemia, ainda assim ter disposição para procriar como se não houvesse amanhã... 

Camus conseguiu, até ao fim, manter as suas mulheres por perto. Eu só consegui manter as datas dos aniversários e as memórias.

domingo, 6 de setembro de 2026

Kuni - Künne - König - Kuning - KönigLöwe - Königvs

Não se diz Konigves. É Kö-ni-gus. 
Eu sei porque fui que inventei! 


 Excerto do livro "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado" de Engels.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

E Se Deus Fosse Uma Velhinha a Precisar de Ajuda?


Ao almoço saí do restaurante a pensar que tenho de ir comer fora menos vezes e levar mais vezes comida para o trabalho. Passei a costeleta à salsicheiro e o bife especial com as porcarias do molho de francesinha e fui para a picanha. Acabei a pagar 11€ por arroz e batatas frias porque a carne era impossível de mastigar. 

Saio do trabalho e passo no hipermercado para comprar uns filetes e três embalagens de esparguete. Paguei quase trinta euros. 

Saio do Lidl e a alguns metros vejo uma senhora idosa com dificuldades a pedir boleia. A mesma senhora que momentos antes estava na caixa a pagar quando cheguei à bicha a pedir ajuda ao casal com a criança que estava a fazer birra imediatamente à minha frente. 

Ligo o Konigvsmobile, faço marcha-atrás e, do nada, já a senhora está ao meu lado a perguntar-me se ia para os lados do Parquipão. Não fazia ideia do que era mas, pela sinalética parecia que era para os lados onde eu ia. Ajudei-a a meter o saco de compras na mala e lá fui eu ao desconhecido. 

"Que Deus Nosso Senhor o Ajude", ia repetindo. 

Sabe, eu não sou crente. 

- Então, mas quem é que criou isto tudo?

Conversa vai e conversa vem e vai-me metendo a mão no braço. Diz-me que se divorciou e que alguém espírita já lhe tinha dito que o casamento não iria resultar. Que teve uma loja e que teve que dormir lá uns anos para não pagar renda, mas que depois comprou casa. E tirou a carta. 

"Sabe que eu tenho a capacidade de tocar nas pessoas e tirar-lhes a dor"? 

Eu ia conduzindo e perguntando para ela me dizer onde a poderia deixar, mas de repente já estamos em Pedroso e ela nem se apercebeu. Tinha de voltar para trás e então pedi-lhe a morada e assim foi mais fácil. Ela vive a 900m do Lidl, mas já é demais para as dificuldades que tem. 

Vive sozinha, tem um único filho que de vez em quando a vai ajudar. 

Pediu-me ajuda para lhe colocar o saco de compras em frente ao prédio e eu despedi-me dela com dois beijos e vim embora com mais uma história inesperada para contar...

Se vim mais leve por ela me ter tocado? Pelo menos deixou-me a sorrir com este encontro inesperado. 

De resto, não sei, mas o que me parece é que as dores que carrego, se calhar, nem ela, nem o Deus Nosso Senhor dela me conseguiriam tirar, mas, por via das dúvidas eu vou guardar a morada ela. 

Talvez um dia destes precise de ir falar com Deus. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Rádio na Cozinha


"Tenho de comprar um rádio para meter na cozinha e não estar sempre a ouvir os meus pensamentos", pensei há minutos. 

Claro que poderia aceder a uma qualquer rádio portuguesa on-line e ficar a ouvir. Mas a verdade é que isso quase nunca acontece. Tal como não acontece ver a RTP Play no computador. Talvez ainda tenha um espírito demasiado analógico, não sei.

O que sei é que viver sozinho e sem televisão em casa muitas vezes é estar sempre a ouvir os meus pensamentos. E isso reflete-se ainda mais quando não estamos assim tão bem e há dias menos fáceis. 

O mais curioso é que depois reparei que eu até sempre tive ali um rádio na cozinha e tudo. Um Nora, um rádio a válvulas, que era do meu pai. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Idade de Cristo Depois


A última vez que tinha cortado o cabelo numa cadeira de barbeiro tinha sido há trinta e três anos, precisamente, a idade atribuída a Jesus Cristo. 

De repente, e num leve abrir e fechar de olhos, saio do antigo barbeiro na rua do Heroísmo da cidade do Porto com o cabelo rapado a pente 2 dos lados e mais volumoso em cima, e entro de cabelos grisalhos, bastante compridos mas finos num cabeleireiro feminino da Boavista.

Uma senhora de cabelos loiros, curtos aplicava o que parecia ser uma pasta numas pratas nos cabelos volumosos de uma mulher brasileira e passado uns minutos chama-me. "Respira fundo, é como se estivesses na cadeira do dentista, custa o bocado, mas depois passa", pensei. 

Ela molha-me o cabelo, passa os dedos pelos cabelos rarefeitos que evidenciam a moleirinha e massaja. E depois penteia. E pergunta quanto é para cortar. 

E está feito. E paguei o mesmo conto de reis de há trinta e três anos para ficar com muito mais volume e uma sensação de que me foi amputada parte de mim. 

terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

segunda-feira, 30 de março de 2026

Ser Português - Coisas que Escrevia no 12º nos Anos Noventa

Continuando a arrumar tralhas e a separar montes de coisas para o ecoponto azul, deparo-me com este texto, talvez, digo eu, um teste qualquer do 12ºano. Não tenho o enunciado, não faço ideia do que se pretendia, mas o texto tem o título "Ser português" e foi classificado como 50/60 (numa escala de 20 daria 17 valores)

A trinta anos de distância, noto no jovem Königvs, sem grande surpresa, uma grande revolta e crítica social muito acirrada. Vamos ao texto, tal como o escrevi na altura:


Ser Português 

Estando a Europa a atravessar um período em transformação, visando interesses comuns, quer de ordem económica, militar e cultural, interessa saber até que ponto este tal federalismo irá modificar a nossa cultura, porque quer se queira ou não, ser europeu na Inglaterra não é o mesmo que ser português na Europa. Qual será então a cultura dos europeus que vivem em Portugal denominados por portugueses?

Bom, sem querer generalizar, até porque nada é generalizável, o português tem um metro e setenta, cabelo preto, olhos castanhos, e é macho ou não fosse latino e a prova disso é o seu bigode assovelado.

A mulher do português, a portuguesa, com menos de dez centímetros, é simpática e formosuras e gosta de ver telenovelas brasileiras na televisão. O português acompanha a telenovela com a esposa mas perante os amigos diz que não vê, porque não é dado a costumes efeminados, prefere, sem dúvida, o futebol. Por vezes desloca-se aos estádios para acompanhar o seu clube, não para o incentivar como se faz no resto da Europa, mas para elogiar a mãe do árbitro e lançar gritos e apupos à equipa adversária.

O português é radical, gosta de fazer rali nas estradas com o seu carrinho de choque. E tão bom condutor que ele é, a culpa é dos outros porque em Portugal é assim, os outros é que são maus condutores.

E por falar nos outros, o português não se preocupa muito com os outros, pensa mas mais em si, já que em greve e manifestações os outros que as façam que ele depois lá está a usufruir os dividendos sem ter feito nada para o merecer.

Enquanto em Espanha e França camionistas conseguem reivindicar os seus direitos, paralisando países enormes comparativamente com o nosso. Enquanto cá milhares de utentes de uma ponte pagam cobardemente uma portagem. contra o esforço de muito poucos que legitimamente mostram o seu direito à indignação.

Cá a população manifesta-se a favor de um polícia quando este mata um jovem presumível assaltante a três metros de distância. Mas nestes casos é normal, porque sempre que polícia adverte alguém disparando para o ar, acaba sempre por matar algum ser vivo.

Portugal é um dos países da Europa em que os ordenados são mais baixos, contudo o nosso país tem maior número de telemóveis per capita. Isto mostra bem a filosofia do português: o supérfluo é importante, o necessário fica para depois, ou ainda "passo fome mas não perco a pose".

Em termos de cultura o português é um expert, é mais ou menos assim pró big popular pimba. Os Lusíadas têm quatro cantos e o Che Guevara deve ser o próximo reforço do Benfica.

Gosta de ler, como lê o português, lê “A Bola” e a "Caras", tudo o que tenha a ver com futebol ou com intrigas de figuras públicas e políticas. Política, ora aí está uma coisa de que gosta o português, hoje vota num, amanhã vota noutro, ou então como a minha vizinha que votava no Cavaco porque ele é um homem muito bonito. Agora deve votar nos sinais do Guterres, nos olhos do Marcelo ou nos cabelos grisalhos do Carvalhas.

O que o português não entende muito bem, é isso da esquerda e da direita, já que, como é ambidextro chuta com o pé que está mais à mão.

Anda uma geração a educar outra para depois a apelidar de “rasca”. É muito fácil falar do passado, pois não é preciso alterá-lo. E que seja esta nova geração a dar esperança para que, de futuro um jovem tenha orgulho na sua pátria, no fundo em ser português.

sábado, 28 de março de 2026

Em 1977 1 Litro de Gasolina Custava 12 Cêntimos - Hoje é Mais Caro ou Mais Barato?

 O meu pai morreu há 33 anos e, como seu único herdeiro, ainda guardo todos os seus pertences. E acho que dou mais valor a peças que foram feitas pelas suas mãos, apontamentos feitos com a sua caligrafia e até ferramenta que usou, do que outras coisas. 

Num pequeno caderninho, estilo bloco de notas, com uma mulher com um ramos de rosas vermelhas nos braços e em que está escrito "Casa 1976", e, no verso "Livro de Apontamentos da Construção da Casa - Início 1977", tem toda uma série de apontamentos de gastos e dá para saber quanto custavam as coisas na altura. 

Estávamos nos anos setenta, bem longe da vertigem dos empréstimos bancários, e, tal como os meus pais, a maioria dos portugueses era aforradora e poupada e para isso convinha perceber para onde estava a ir o dinheiro. 

Hoje em dia fazem-se cursos on-line com especialistas em finanças pessoais, influencers que falam de 'literacia financeira' e explicam onde melhor aplicar o dinheiro, e o atual governo que nos governa até retirou a educação sexual das aulas de cidadania (porque no entender deles é muito melhor aprender na pornografia), e meteram no currículo uma forte componente económica para aprender de pequenino a ser bom contribuinte. 

Contudo, nos anos setenta, qualquer pessoa, mesmo sem saber ler nem escrever, sabia empiricamente mais de finanças pessoais do que hoje em dia os jovens que saem da universidade. Porque onde há muito pouco é preciso arte e engenho para saber poupar muito.

Mas vamos ver alguns preços de diferentes produtos anotados no bloco de notas do meu pai: 

Então, em 1977:

- Um saco de cimento custava 65 cêntimos

- Um garrafão de vinho = 49 cêntimos

- Uma carga de areia = 3€

- 1Kg de bacalhau = 47 cêntimos

- 1Kg feijão = 15 cêntimos

E 1 Litro de gasolina custava 12 cêntimos

Ena!, naquela altura 1L de gasolina só custava 12 cêntimos! Mas isso é mais barato ou mais caro do que agora, visto que, com as sucessivas guerras os combustíveis estão pela hora da morte?

Contas simples de merceeiro:

1977: 

1L gasolina 0,12€ 
Salário mínimo 22,45€ 

É preciso trabalhar 55 minutos para comprar 1L de gasolina 

2026: 

1L gasolina custa 1,95€ 
Salário mínimo 920€ 

É preciso trabalhar 22 minutos para comprar 1L de gasolina 

Conclusão: em 1977 a taxa de esforço era mais do dobro do que agora para comprar 1L de gasolina

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Antes que Janeiro Acabe

Todos os inícios de ano lembro-me que deveria comprar uma agenda, principalmente porque gosto de escrever em papel e não gosto muito dos calendários digitais. Mas depois sei que, e definitivamente não é de agora, acabo por não a usar como deveria e a maioria das páginas ficará em branco. E é uma tristeza que assim.

E tantas coisas que tenho eu para tomar nota como: as datas dos jogos da nossa equipa, dos meu torneios de veteranos, das injeções, das consultas médicas, dos aniversários, além, como é lógico, de todas as outras coisas normais do dia-a-dia, e talvez até gostasse de fazer da agenda um mini diário.

Tudo isto só para dizer que passaram dez anos que uma leitora deste blog simpaticamente me enviou uma agenda... Dez anos!, e parece que foi ontem que ela aqui deixou o seu primeiro comentário. 


Infelizmente talvez nos tenhamos aproximado demais, para depois termos de nos afastar. 
Tenho saudades tuas, Seguidora Fantasma. Onde quer que estejas, espero que estejas bem. 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Olá Doutora, Como Está?

 "Olhe que não, doutor, olhe que não"!, é uma conhecida expressão de Álvaro Cunhal no célebre debate que teve com Mário Soares em 1975.

Não é de agora. Há alguns anos que, na brincadeira, trato toda a gente por Doutor(a) - "como está, doutor(a)? - influência das brincadeiras no penúltimo emprego em que muito se falava de política.

Estávamos no final do milénio passado. Eu vestia preto e calçava Doc Martens 365 dias por ano. Quando a conheci, ela tinha o cabelo pelas orelhas e usava umas calças de ganga rotas nos joelhos e, por vezes, roupas do irmão. 

Ela achava que eu era uma espécie de Deus grego e que depois de termos começado a namorar seria roubado por uma gótica ou metaleira toda boa! 

Já eu comecei a sentir alguma insegurança quando ela foi para a universidade. Eu era cinco anos mais velho e estava a meio de um curso técnico-profissional, pós 12º, de três anos. Não é que me tivesse em má conta, porque aos vinte anos até era um jovem eloquente, bem falante e minimamente culto, pelo menos acima da média medíocre. Mas ela ia para uma universidade, na altura ainda não era uma coisa assim tão comum, e eu imaginava um local de jovens cultos, de boas famílias, ainda por cima ela tinha entrado numa privada. Se ela temia que uma gótica boazuda eu temia alguém mais culto do que eu (e quão errado isto haveria de ser).

Uns oito ou nove anos depois - estamos agora no final da primeira década do século XXI - e cada um já tinha seguido caminhos diferentes. A primeira mulher que, para minha grande estranheza voltou-me a tocar - aquela mão nas minhas costas não era a mão que habitualmente me costumava tocar - era uma jovem metaleira, universitária, que trabalhava num bar. 

Saímos bastantes vezes, fomos a muitos concertos juntos. Até era bastante curioso, porque ela depois começou a namorar, mas nós continuamos a sair, e algumas pessoas terão pensado que ela seria minha namorada. Só que, não. Na verdade, e pensando bem, eu sempre tive mais fama do que proveito, mas, como dizia a outra, isso agora também não interessa nada. 

Se não me engano ela estava a estudar engenharia civil numa faculdade privada. E, certo dia, vem-me com o seguinte discurso:
- "A sério que nunca pensaste ir para a universidade? A universidade abre-te os horizontes e dá-te uma perspectiva do mundo completamente diferente".

Uau! A sério? Mas não, não passava pelos meus planos ir para a universidade. Não pude ir em tempo útil, não iria agora, depois de estar a trabalhar há uns quantos anos e chegar a casa cansado e ter ainda que estudar à noite. 

E eu imagino que sim, que a universidade seja fantástica, mas, não querendo ofender todos aqueles que nelas estudaram, mas também me lembro de uma célebre frase de Tchekhov: "A universidade desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez"!

Saltando no tempo para o presente. Conheci-a semanas depois de ter ficado sozinho no mundo e às vezes penso que isto não pode ter sido por acaso. Não pode mesmo, tantas são as coincidências improváveis. 

A primeira vez que a tratei por "Então, doutora, tudo bem"? em vez do habitual "então menina, como estás"?, e não me conhecendo ainda bem, ela levou a expressão à letra. E explicou-me como se sente desconfortável, quando, uma mulher que trabalha com ela há tantos anos ainda insiste em tratá-la por "doutora". 

Pensando bem, acho que nunca me tive uma grande consideração e, por exemplo, mantenho pouca autoconfiança, a disputar o coração de uma mulher. Talvez seja humildade, não sei, mas sei que hoje humildade é defeito. A autoconfiança cega e a arrogância, sim, essas são qualidades. Tal como também sei - não generalizando - que as mulheres mais desejadas são dos homens que mais lata têm. 

E por estes dias, tantos anos depois, lá voltou a conversa da universidade, se eu nunca tinha pensado em ir para a universidade... "Oh que caralho, tu queres ver..." Mas, não, foi num sentido completamente oposto do de há quinze anos. "Tu hoje terias tanto para ensinar aos miúdos da universidade"...

E o pior aconteceu a meio da semana passada. Liga-me ao almoço a perguntar como tinha corrido um curso que eu tinha começado no dia anterior com a Raquel Varela... E mais à frente, desarmou-me completamente e não soube onde me meter. Diz-me que eu sou das pessoas mais cultas que já conheceu, que eu estudo os temas e sei defendê-los com argumentos, e que se sente um grãozinho de areia à minha beira e que é um desperdício o trabalho (indiferenciado) que estou a fazer.

Ouvi e calei. Não sinto nada disso. Ela sim, é a senhora doutora, ao passo que eu sou só eu aquela pessoa comum, um tudo nada estranha até. No entanto, quando pessoas há que passam a vida a fazer-te sentir uma merda, receber um elogio de vez em quando para variar sabe bem. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Fogo em Lume Brando

Dois desconhecidos, de cavernas distantes cruzaram-se na internet.
Sem nada saberem, sequer como o outro era ou como se chamava.  



Ela tinha 22 anos e ele tinha 32. 
Começaram a conversar e a querer saber do outro. 
Ela era muito misteriosa, defensiva mas também muito protetora e amiga. 
Ele achou-a muito madura para a idade que ela tinha. 
Ela falava-lhe do mundo dos ponteiros dela e ele falava-lhe do mundo das conexões do trabalho dele.
Ele falava dela para os amigos próximos e todos queriam saber daquela figura misteriosa que ninguém sabia quem era. Eles queriam-se muito sem querer mais nada, e isso bastava.

Ela tinha 22 anos e ele tinha 32. 
Tinham passado dois anos do maior desgosto de amor da vida dele...
Passado pouco tempo começaram a falar ao telefone.
E aos poucos passou a ser todos os dias da semana.
Todos os dias, e, enquanto ela apanhava os diversos transportes, ele fazia-lhe companhia. 
Ele era muito tranquilo, nunca a pressionava mas, aos poucos, parecia-lhe que algo não estava bem.
No fundo talvez já soubesse, mas não queria acreditar. 
Ela tinha 22 anos e ele tinha 32.
Ela tinha namorado e não lhe disse.

Ela agora tem 39 anos e ele tem 49. 
Ninguém sabe, mas foi ela que, há muitos anos, o incentivou a começar um blog. 
E anos depois de tantos anos de silêncio ela vasculhou no blog dele.
Como que à procura de um sinal. 
E algures viu que, recentemente, ele tinha falado dela. 
Significava que ele não a havia esquecido. 
Mas sentia-se culpada e com medo.
Entretanto, pé ante pé, voltaram a corresponder-se e a falar.
Mas, agora, como que por magia, até podiam ver-se. 
Afinal, ele agora até tem um smartphone e tudo. 
Estão mais velhos. 
E em momentos diferentes das suas vidas. 
Ela está a solidificar-se; ele ficou destruído. 

Ela agora tem 39 anos e ele tem 49. 
Ela tem namorado e disse-lhe.

sábado, 22 de novembro de 2025

A Melhor Pessoa com Quem se Pode ter um Acidente

Foi numa sexta-feira 14 e chovia imenso. Fui à horrorosa cidade do Porto que agora mais não é do que um estaleiro a céu aberto e em que se demora meia hora de carro para percorrer 5Km. Não se via um palmo à frente dos olhos e por isso mesmo fui sempre com o máximo cuidado. Atravessei a cidade e o rio para o lado de lá e haveria de ter um acidente a quinhentos metros da loja onde trabalho. 

Seguia em frente quando, de repente, o meu colega exclama: "olha, olha olha!" e nem deu tempo de eu olhar e só senti mesmo o impacto dum carro bater-me e a projetar a carrinha alguns metros. 


Olho para a esquerda e vejo uma senhora de óculos sem ter percebido bem o que tinha acontecido. Chovia bastante, e em face dos carros que já paravam atrás ela fez o que nunca se deve deixar que faça num acidente de automóvel: ela moveu o carro do sítio. Quando há um acidente deixam-se os carros estar no sítio onde ficaram e tiram-se fotografias para melhor perceber o que aconteceu, ainda que, neste caso, parece-me óbvio de quem é a responsabilidade.
 
Chovia imenso, eu entrei no carro de trabalho dela, um Hyundai TVDE, e ela ia apanhar uma cliente e talvez por isso mesmo, digo eu, se calhar distraiu-se, e procurei o triângulo e os coletes, mas só encontrei a caixa de primeiros socorros e um extintor. Acabei a sugerir que fôssemos para a nossa loja para que, com calma, preenchêssemos a declaração amigável. 




Acalmei-a e disse-lhe que são coisas que acontecem. Posteriormente, num ato demasiado voluntarioso e, quando ela chorava, passei-lhe as mãos pela cabeça... Depois pedi-lhe desculpa!

Eu e o meu colega ficamos com dores no pescoço devido à violenta chicotada lateral. Mas, ainda no próprio dia haveria de jogar pela minha equipa na jornada do campeonato federado. Ainda não contei? Sim, Com cinquenta anos tornei-me pela primeira vez atleta federado!

Na rede social toda a gente me dizia para ter cuidado, e deram os próprios exemplos pesoais que poderia até de ter que andar com aquelas golas no pescoço, mas eu também não sou tolo de todo - ao que a minha querida mãe responderia: "muito fino também não és"! - e a verdade é que nada de especial de passou. 

De tudo me tem acontecido neste ano de 2025, e já só faltava mesmo um acidente, mas pronto, ao menos eu sou a melhor pessoa com quem se pode ter um acidente. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O Pernas de Alicate e o Max Cavalera do Ténis de Mesa

No ano passado tinha ido à final, mas hoje, se quisesse passar a fase de grupos tinha de vencer o atleta seguinte já bem meu conhecido. Mas fui para a mesa a pensar em quem seria aquele atleta de 47 anos que antes deste jogo se aproximou de mim e disse: "nós conhecemo-nos mas não sei se onde, tu até me apresentaste uma banda portuguesa...", e depois mostra-me uma foto de uma demo de 99 de uma antiga banda de Lisboa, os Te Deum da Cristina Lopes. Sim, de facto, ele não estaria enganado porque eu conheci bem de perto os Te Deum...

Peguei na bolsa da raquete, na toalha e na garrafa e lá fui para o jogo. Entrei totalmente desastrado. No primeiro set até falhei 3 serviços... "Ele tem olhos azuis mas aquele maxilar e aqueles dentes não me são estranhos. Ele disse que nos teremos conhecido nos anos 90... Já sei! É o Pernas de Alicate! Tinha um cabelo comprido, muito loiro e usava uma t-shirt de Lacrimosa! À boca pequena davam-lhe esse nome porque usava calças elásticas muito coladas às perninhas finas. Como é que eu o poderia reconhecer agora, sem cabelo e muito mais gordo?

O meu adversário estava a jogar mal mas eu não estava ali de todo, estava bem longe a pensar de onde conhecia este desconhecido que me tinha abordado. Ele era da turma de gestão de redes e eu de automação e robótica. Era dali que nos conhecíamos. De certeza! Perdi 3-0 mas fui ter com ele contente, tinha vencido o desafio de o encontrar na minha memória! Disse-lhe de onde nos conhecíamos e ele confirmou logo!

Casou e engordou bastante. "Tu continuas na mesma", disse-me. Claro, não casei mantive o mesmo peso, pá! "Espera, vou já ligar à minha mulher para me divorciar"! Trocamos números de telefone. Claro que não tem redes sociais. É engenheiro informático e sabe bem a merda que são. Esteve no Twitter mas, tal como eu, saiu mal o Musk comprou a rede social. Usa as redes sociais russas, mas eu disse-lhe que estou no Bluesky e aliciei-o a ir dar uma vista de olhos. 

Ele teve um esgotamento e a psicóloga aconselhou-lhe desporto. Tal como eu também não gosta de ginásio e certo dia a ver os Jogos Olímpicos viu ténis de mesa e lembrou-se como gostava de jogar na escola e inscreveu-se num clube da Maia. 

Paralelamente a esta aparição e reencontro, curiosamente, um outro adversário nosso conhecido, e atleta do clube organizador, é vocalista de uma banda que eu inclusive vi, há muitos anos, aqui na minha terra! Ele arbitrou o meu primeiro jogo e disse-lhe que o meu colega de clube o tinha reconhecido. Ao que ele responde que seria natural porque veio ao nosso torneio. Não, ele reconheceu-te da banda que és vocalista! 

No ano passado fui à final deste torneio. Desta vez nem passei da fase de grupos. Mas foi espetacular na mesma!

sábado, 13 de setembro de 2025

Sinistra Última Fotografia

Reparei agora a apagar fotografias que esta foi a última fotografia que tinha no telemóvel, tirada na casa onde vivi os últimos trinta anos.

domingo, 24 de agosto de 2025

O Mister

 Tinha comentado com os colegas que se iria realizar aqui no Porto um curso de treinador, numa de ver se alguém se juntava a mim e aproveitar esta oportunidade de fazer a formação aqui ao pé de casa, porque os sítios vão variando de ano para ano. Eu até já tinha feito o curso de árbitro em 2019, ainda que nunca tivesse exercido, porque não tenho vida para isso, para trabalhar toda uma semana, chegar cansado ao fim de semana e, depois, passar o fim de semana a arbitrar em torneios, ou ter mesmo que arbitrar mesmo durante a semana.  

O tempo foi passando e ninguém demonstrou interesse, mas, por insistência de um colega, que achava que seria uma boa oportunidade, lá acabei por me inscrever e pagar os 150€ do meu bolso, mas sem saber muito bem naquilo que me ia meter e o que iria implicar. 


O intuito nunca foi ter uma certificação para ser de facto treinador, até porque o ténis-de-mesa é uma modalidade tão técnica, que é preciso saber para depois se mostrar como se executa com os gestos corretos. Ou seja, é preciso ser bom praticante para melhor se ensinar, bem diferente, por exemplo, do futebol, em que não é preciso saber dar um chuto numa bola, nem sequer é preciso ter sido jogador de futebol para poder vir a ser um bom treinador de futebol. O meu intuito foi sim aprender, para por um lado tentar como é óbvio poder ajudar os colegas do clube a evoluir um pouco mais tecnicamente, mas também para estar por dentro dos meandros da modalidade. 

Em breve fui contactado e fiquei a saber que a parte teórica seria ministrada em três fim-de-semana, quatro horas à sexta-feira depois de oito horas de trabalho, e sábados e domingos o dia todo. Mas pronto, era um pequeno esforço que tinha de ser feito. Paralelamente teria também que assistir a quatro treinos das seleções nacionais jovens, algo que fiz logo num dos primeiros fim de semana do início da época desportiva. 

E seguiu-se o estágio, duas horas e meia por semana em contexto de clube, mais os quatro relatórios que teria que fazer e entregar para poder concluir o curso. E não deixa de ser curioso como as coisas mudam. Há seis anos estava na bancada a ver uma atleta do clube sagrar-se campeã nacional, agora, um atleta que vem do lazer e nunca sequer foi federado estava ali, a fazer o curso de treinador.

Chamemos turma ao grupo de onze ou doze inscritos que, vindos de todas as partes do país, incluindo as meninas da ilha do Pico que tinham de apanhar dois ou três aviões para chegar até ao Porto, ou o venezuelano sempre bem disposto e com muito apetite, que vinha da ilha da Madeira. Ao contrário de mim, todos eles já eram treinadores, simplesmente não tinham a certificação. O Hermenegildo, que até tinha uma fotografia com o Ma Long no telemóvel (o equivalente ao Maradona do ténis-de-mesa) até já tinha curso, mas creio que o IPDJ não validou o certificado angolano.

Ao contrário do ano anterior, em que o grupo de inscritos era bem superior, um grupo mais pequeno permitiu aos formadores proporcionar um acompanhamento mais próximo e por outro lado cria também maiores laços de proximidade entre os alunos. 

Eu era o mais velho da turma e sempre tive consciência das minhas limitações técnicas, quando me comparava com os restantes colegas, todos bem mais evoluídos. E no estágio também senti esse desconforto. Eu estava num clube que está há quinze anos na primeira divisão, e eu era um matreco que não sabia fazer um top spin de esquerda! E não ratas vezes tinha ali ao lado um atleta que ainda há não muito tempo andava na seleção principal!

Outro desafio que iria enfrentar no estágio eram as crianças. Eu não tinha qualquer experiência com crianças, porque não lido com elas (excluindo as crianças adultas). Não tenho filhos, nem sobrinhos ou afilhados. Acho que sempre tratei as crianças como adultos. Ora um treinador de grau I está orientado para a iniciação e, por conseguinte, formação de crianças ou iniciação. E essa também foi uma experiência social que tive. 

Ser professor deve ser fascinante porque todas as crianças são diferentes (e darão origem a adultos todos diferentes). Durante este ano que passou estive com cerca de uma dúzia de crianças, entre os cinco e treze anos, com maior número de rapazes mas também com meninas. Vi de tudo. Crianças extremamente focadas (mais as meninas) e crianças sempre cansadas e que se aborrecem facilmente e outras até bastante preguiçosas (meninos). Uma até muito instável e do nada parece começar a querer chorar. Ou outro, que a tutora logo me preveniu, "fica atento e não o deixes fazer o que quer". Mas também não durou muito lá, afinal, um clube não é uma escola pública e tem as suas regras e até interesses. 

"Tu também queres tudo."

Este não foi um ano fácil. Bem pelo contrário, foi mesmo dos piores anos da minha vida, mas, ainda aqui estou. Inscrevi-me no curso em final de maio ou junho do ano passado, dois ou três meses depois da minha mãe começar a adoecer. Todas as segundas-feiras fui para o estágio e, a partir de março deste ano, quando foi internada no IPO, era mesmo o único dia que não a visitava, porque saía as cinco da tarde do trabalho e às cinco e meia tinha de estar no estágio até às 8h da noite. E eu sei que a minha mãe tem razão, eu meto-me em demasiadas coisas ao mesmo tempo e não paro. Só faltei mesmo ao estágio nas duas últimas semanas, em que até tirei "férias", férias essas que não terei este ano, porque tirei simplesmente os dias para aproveitar ao máximo todo o tempo possível para estar juntinho dela, até ao fim.

O importante para mim foi a aprendizagem, as conversas com os colegas, estar por dentro, entender o que é a modalidade, que além de desporto também é negócio, como em tudo nesta sociedade. Ter também tido a oportunidade de ter estado com dois atletas da seleção e ouvi-los falar da sua experiência. E, claro, no estágio, ter podido passar muitos meses, sendo orientado e poder dar treino às crianças, e poder agora de forma autónoma poder fazê-lo na coletividade onde promovo a modalidade e, como provavelmente iremos para o federado, não precisamos agora de arranjar alguém que assine como treinador, eu mesmo o farei. 

Isso foi definitivamente o mais importante porque, no fundo, não preciso de diploma nenhum porque eu não irei fazer carreira como treinador. Mas meti-me nelas, queria concretizá-las e, mais importante, não queria agora sentir-me culpado, por ter andado a perder tempo com uma formação, quando poderia ter aproveitado mais um pouco a estar ao lado da minha mãe. Está feito, junto ao curso de árbitro o curso de treinador. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Facilidade na Expressão Escrita

Depois de um monte de fichas, bastante elogiosas, mas em que não se dá grandes detalhes, nesta lê-se que sou "muito nervoso" e que "penso precipitadamente". Por outro lado tenho muita facilidade na expressão escrita, sobretudo nas composições.

3a classe |  1984 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Não Gostas Mais do Que Eu...

 

Vagueio por esta casa silenciosa onde vivi até perto dos vinte anos e sou bombardeado por muitas memórias. Tenho talvez três anos, o cabelo loirinho da cor do ouro e estou sentado em frente da garagem, num triciclo de punhos vermelhos. Pego num pequeno canivete e começo a aparar as reentrâncias dos punhos, mas, a determinado momento, a lâmina escapa-me do controlo e vai ao pulso deixando uma bela cicatriz branca, que só desaparecerá quando eu morrer. 

Disseram-me que aprendi a andar aqui quando a casa ainda estava a ser construída. (Não sei porquê) mas lembro-me de andar devagarinho nas traseiras a perseguir um pássaro... E lembro-me dos maços de jogadores de futebol em papel e de como sabia os nomes deles todos muito antes de saber ler. E lembro-me de ter quatro ou cinco anos e de ouvir tocar o sino da igreja e perguntar aos meu pais o que aquilo significava. E foi nesse dia que perdi a inocência e fiquei a saber que, ao contrário do que imaginava até então, não vivemos para todo sempre. 

Vivemos todos como se fôssemos eternos, esquecendo que, mais cedo ou mais tarde, todos teremos o mesmo fim. Tantas vezes, angustiado, perguntava-me a idade e depois tranquilizava-me porque pensava na idade do meu avô, e ela certamente ainda duraria mais uns bons anos. Mas, trinta e dois anos depois, a pessoa que era tudo para mim e para quem eu sempre fui a razão de viver, que esteve comigo no momento da minha primeira respiração e que eu estive juntinho no momento do seu último sopro de vida, partia, muito angustiada por me deixar sozinho... Foram cinquenta anos, sempre juntos. Se existe amor incondicional, então foi só o amor da minha mãe.

Os dias não param, correm apressadamente uns atrás dos outros. Nem podemos sossegar nem tempo temos para estar tristes. E há que fingir que está tudo bem, mesmo que tudo esteja verdadeiramente mal. De dia parecer bem para depois, no silêncio da noite, poder despir essa capa dura de forteza e poder mostrar-me frágil. "Prometi" que não ia fazer nenhum disparate. Não posso prometer que não vou ficar muito triste...

Disse-lhe muitas vezes: "gosto muito de si". "Não gostas mais do que eu", respondia-me. 

domingo, 4 de maio de 2025

Quando me Pediste para Te Deixar Ir...

 "Por favor vá-se embora. Sei que deveria ser eu a partir, é esse o meu dever, mas estou sem forças, não posso continuar assim. Quando me sento, senta-se ao pé de mim, quando eu falo é o senhor que responde. Fico corada ao pé de si e toda a gente repara. Mas... quando estou sozinha...

Suplico-lhe que se vá embora. Vá-se embora, por favor. 

- É isso que quer?

Que quer que lhe diga?

Que não quero que se vá embora? Não posso dizê-lo. Não posso!


Revi "Valmont" de Milos Forman, filme de 1989. Esta cena remeteu-me para o meu próprio passado, quando também ela, sem forças, pediu-me para a deixar ir porque não aguentava mais estar longe de mim... E eu "deixei"... Mas porque é que é tão difícil fazer o que parece certo? 

Era Mesmo o Konigvs!

"Ontem fui ver o primeiro post que comentei no Multi. Já foi há quase 2 anos. E eu senti um friozinho na barriga...

Só li os nossos primeiros dois comentários, mas já estava com a barriga às voltinhas...E é engraçado porque eu lembro-me perfeitamente da noite em que fiz o comentário. E eu tenho muito má memória mesmo, mas lembro-me exactamente dessa noite e da quantidade de vezes em que hesitei comentar.

(eu estava a escrever mais algumas coisas, mas vai ter de ser em outro dia...é que já comecei aqui a chorar e não posso...)"
(Esta citação não foi escrita nesta madrugada, estava sim guardada há muito tempo nos rascunhos do blog e hoje, sem motivo aparente - simplesmente porque calhou e estou a publicar coisas que já para aqui estavam - se calhar irá ver a luz do dia, não só para lembrar a Seguidora Fantasma deste blog, mas também outras pessoas que, estando vivas (e eu espero que estejam) acabaram por desaparecer das nossas vidas, não porque nos tivéssemos chateado, mas, pelo contrário, porque nos tornamos demasiado cúmplices)

A primeira vez que aterraste no meu blog foi em 2015, anos depois de, e em boa altura, eu ter saído daquele fórum em que estive cerca de um ano e em que já me ias lendo, e dois anos depois de ter começado com os blogues.