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domingo, 25 de janeiro de 2026

Olá Doutora, Como Está?

 "Olhe que não, doutor, olhe que não"!, é uma conhecida expressão de Álvaro Cunhal no célebre debate que teve com Mário Soares em 1975.

Não é de agora. Há alguns anos que, na brincadeira, trato toda a gente por Doutor(a) - "como está, doutor(a)? - influência das brincadeiras no penúltimo emprego em que muito se falava de política.

Estávamos no final do milénio passado. Eu vestia preto e calçava Doc Martens 365 dias por ano. Quando a conheci, ela tinha o cabelo pelas orelhas e usava umas calças de ganga rotas nos joelhos e, por vezes, roupas do irmão. 

Ela achava que eu era uma espécie de Deus grego e que depois de termos começado a namorar seria roubado por uma gótica ou metaleira toda boa! 

Já eu comecei a sentir alguma insegurança quando ela foi para a universidade. Eu era cinco anos mais velho e estava a meio de um curso técnico-profissional, pós 12º, de três anos. Não é que me tivesse em má conta, porque aos vinte anos até era um jovem eloquente, bem falante e minimamente culto, pelo menos acima da média medíocre. Mas ela ia para uma universidade, na altura ainda não era uma coisa assim tão comum, e eu imaginava um local de jovens cultos, de boas famílias, ainda por cima ela tinha entrado numa privada. Se ela temia que uma gótica boazuda eu temia alguém mais culto do que eu (e quão errado isto haveria de ser).

Uns oito ou nove anos depois - estamos agora no final da primeira década do século XXI - e cada um já tinha seguido caminhos diferentes. A primeira mulher que, para minha grande estranheza voltou-me a tocar - aquela mão nas minhas costas não era a mão que habitualmente me costumava tocar - era uma jovem metaleira, universitária, que trabalhava num bar. 

Saímos bastantes vezes, fomos a muitos concertos juntos. Até era bastante curioso, porque ela depois começou a namorar, mas nós continuamos a sair, e algumas pessoas terão pensado que ela seria minha namorada. Só que, não. Na verdade, e pensando bem, eu sempre tive mais fama do que proveito, mas, como dizia a outra, isso agora também não interessa nada. 

Se não me engano ela estava a estudar engenharia civil numa faculdade privada. E, certo dia, vem-me com o seguinte discurso:
- "A sério que nunca pensaste ir para a universidade? A universidade abre-te os horizontes e dá-te uma perspectiva do mundo completamente diferente".

Uau! A sério? Mas não, não passava pelos meus planos ir para a universidade. Não pude ir em tempo útil, não iria agora, depois de estar a trabalhar há uns quantos anos e chegar a casa cansado e ter ainda que estudar à noite. 

E eu imagino que sim, que a universidade seja fantástica, mas, não querendo ofender todos aqueles que nelas estudaram, mas também me lembro de uma célebre frase de Tchekhov: "A universidade desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez"!

Saltando no tempo para o presente. Conheci-a semanas depois de ter ficado sozinho no mundo e às vezes penso que isto não pode ter sido por acaso. Não pode mesmo, tantas são as coincidências improváveis. 

A primeira vez que a tratei por "Então, doutora, tudo bem"? em vez do habitual "então menina, como estás"?, e não me conhecendo ainda bem, ela levou a expressão à letra. E explicou-me como se sente desconfortável, quando, uma mulher que trabalha com ela há tantos anos ainda insiste em tratá-la por "doutora". 

Pensando bem, acho que nunca me tive uma grande consideração e, por exemplo, mantenho pouca autoconfiança, a disputar o coração de uma mulher. Talvez seja humildade, não sei, mas sei que hoje humildade é defeito. A autoconfiança cega e a arrogância, sim, essas são qualidades. Tal como também sei - não generalizando - que as mulheres mais desejadas são dos homens que mais lata têm. 

E por estes dias, tantos anos depois, lá voltou a conversa da universidade, se eu nunca tinha pensado em ir para a universidade... "Oh que caralho, tu queres ver..." Mas, não, foi num sentido completamente oposto do de há quinze anos. "Tu hoje terias tanto para ensinar aos miúdos da universidade"...

E o pior aconteceu a meio da semana passada. Liga-me ao almoço a perguntar como tinha corrido um curso que eu tinha começado no dia anterior com a Raquel Varela... E mais à frente, desarmou-me completamente e não soube onde me meter. Diz-me que eu sou das pessoas mais cultas que já conheceu, que eu estudo os temas e sei defendê-los com argumentos, e que se sente um grãozinho de areia à minha beira e que é um desperdício o trabalho (indiferenciado) que estou a fazer.

Ouvi e calei. Não sinto nada disso. Ela sim, é a senhora doutora, ao passo que eu sou só eu aquela pessoa comum, um tudo nada estranha até. No entanto, quando pessoas há que passam a vida a fazer-te sentir uma merda, receber um elogio de vez em quando para variar sabe bem. 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O Problema deste País São os Ricos

O problema deste país não são os ciganos nem o Rendimento Mínimo. Nem os africanos ou os brasileiros que vêm para cá ser explorados na agricultura ou que por aí andam a transportar comida e dão milhões à Segurança Social para pagar os nossos subsídios de desemprego e as reformas de país mais envelhecido da Europa. O problema deste país são os ricos que, apesar de serem ricos, roubam o pouco que está destinado, exclusivamente, a todos aqueles que são verdadeiramente carenciados.

Jornal de Notícias | 2011

terça-feira, 25 de abril de 2023

O Professor que Conseguiu que os Alunos lhe Dessem os Telemóveis

 * artigo publicado no jornal La Vanguardia (Espanha) no dia 23 de Abril (Dia Mundial do Livro) 


O professor do ensino secundário Telmo Lazkano conseguiu que 19 de seus 23 alunos duma turma duma escola de San Sebastián lhe dessem seus telemóveis por uma semana. Ele manteve os telefones fechados na e pediu aos jovens, de 15 e 16 anos, que escrevessem um pequeno diário naqueles dias. Os resultados foram surpreendentes. Durante os primeiros três dias, eles relataram "um quadro muito claro de dependência"; A partir do quarto dia, porém, começaram a falar de um sentimento de liberdade ou de terem tirado uma pedra dos ombros. A iniciativa espalhou-se para escolas e Lazkano acaba de receber o prémio Elkar Eraginez do Governo Basco.

O projeto em questão, denominado No Phone Challenge, surge da preocupação de Lazkano com este problema: “Há vários anos que leio boa parte da literatura publicada sobre esta questão e os dados que as diferentes investigações produziram pareceram-me alarmantes. Ao mesmo tempo, como professor do ensino secundário, tinha diante de mim aquela realidade que a pesquisa mostra”.

Este professor de Inglês e Ciências Sociais de 29 anos começou por fazer uma pergunta aos seus alunos: quantas horas passais à frente do teu telemóvel? “Diretamente não me disseram, e a média era entre cinco e seis horas por dia. Em alguns casos, nos finais de semana chegavam sete ou oito horas por dia”. Além disso, Lazkano surpreendeu-se com o desconhecimento dos alunos sobre o funcionamento das redes.

“Quando temos de pagar por algo, por uns sapatos ou por uma bicicleta, tendemos a desconfiar e a valorizar se o preço é condizente com o produto, se o material é bom ou se a origem é ética. Quando é gratuito, por outro lado, essa desconfiança desaparece. Deveria ser o contrário. Deveríamo-nos estar a perguntar por que empresas multibilionárias investem tanto dinheiro em aplicações como estas e porque os oferecem gratuitamente. É evidente que nós somos o produto, e não existia essa reflexão entre os alunos”, aponta.

Este diagnóstico foi o ponto de partida da experiência, que exigiu um trabalho prévio. Em primeiro lugar, assistiram ao documentário El dilema de las redes e gerou-se um debate. Em segundo lugar, refletiram sobre temas como os filtros de beleza nas redes ou sobre a perspetiva aspiracional destes. Por fim, pediu que lhe dessem os seus telemóveis por uma semana: “Foi totalmente voluntário. Se eu considerasse sem aquele trabalho anterior, eles não teriam concordado. Buscamos conhecimento e, posteriormente, reflexão crítica. A motivação foi gerada em torno do projeto”.

A partir daí, o que foi anotado nos diários pelos jovens mostrou a profundidade da experiência: “Nos primeiros três dias, aconteceu exatamente o que os estudos diziam: um quadro muito claro de dependência. Viviam com nervosismo, não conseguiam dormir, comiam mais do que o normal, sofriam com pensamentos intrusivos, não sabiam lidar com o tédio, irritavam-se com facilidade... Foram deixados numa quinta-feira e isso chamou-nos a atenção que a partir do quarto dia, após o fim de semana, ocorreu uma virada. Eles começaram a expressar que se sentiam mais felizes e, acima de tudo, muito mais livres. Que eles haviam removido uma pedra de cima. Disseram que saíam como se fosse algo excitante e que podiam dedicar essas cinco horas a hábitos saudáveis ​​como ler, visitar a avó, ir às montanhas ou ver um pôr do sol sem registá-lo”.

Um dia antes do fim do projeto, alguns alunos disseram que não queriam recuperar os telemóveis ou com medo de cair na dinâmica anterior. Outros, entretanto, estavam ansiosos para saber quantas mensagens haviam recebido. “O objetivo era torná-los mais conscientes da sua relação com os telemóveis e as redes, e estabelecer a partir daí hábitos mais saudáveis. Quando voltamos ao assunto, depois de alguns meses, alguns alunos mostraram que haviam reduzido pela metade o consumo diário”, aponta.

Lazkano vê no seu dia-a-dia as consequências que o uso compulsivo de telemóveis está a causar entre os menores: “As empresas tecnológicas lutam pela nossa atenção naquilo que se chama economia da atenção. Como nosso tempo é finito e a concorrência é grande, eles implementam diferentes estratégias para nos manter na frente do ecrã. As consequências destas técnicas são as que mais tarde afetam a sua auto-estima, a sua saúde mental ou a sua atenção”.

E é aí que surge a pergunta: é possível um adolescente manter uma relação saudável com o telemóvel? “A melhor medida para conter os seus efeitos nocivos é o treino adequado, o contacto progressivo, o acompanhamento no processo e a idade adequada à ferramenta que vai utilizar. É difícil para uma criança menor de 16 anos ter uma relação saudável com o telemóvel sem formação. Além disso, seria apropriado que os pais não fizessem guerra por conta própria e concordassem em adiar a idade inicial. Há muito a ganhar."