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sábado, 29 de agosto de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Ditadura da Desatenção

Cedo o ecrã torce a concentração do pequenino.


 "Quando a criança está exposta ao ecrã ela está numa atitude passiva. O ecrã não lhe vai responder. O ecrã não vai motivar a comunicação. Não há tomada de vez no ecrã. A criança não fala e o ecrã responde. Não há esta reciprocidade e, mesmo que ela fale, é numa repetição eventual daquilo que está a ver e portanto deixa de ser num contexto comunicativo. 

Por outro lado, em relação à qualidade daquela exposição, aquilo que nós estamos a fazer quando as crianças estão em frente ao ecrã, e na maior parte dos conteúdos nós temos passagens muito rápidas, de flash de imagem para flash de imagem, o que é que nós estamos a treinar o cérebro da criança a fazer? É a ter tempos de atenção curtíssimos. E, às vezes, nós temos pais que nos dizem; "ah, mas ele até tem um tempo de atenção grande porque consegue estar uma hora em frente ao ecrã". Aquela hora que ele está em frente ao ecrã, ele viu um número infindável de flashes e a atenção daquela criança não é de uma hora, é daqueles flahses todos pequeninos. 

Portanto, quando ela passa para uma atividade de mesa, por exemplo, fazer um puzle, fazer plasticina, para brincar até com umas bonecas no chão, rapidamente se aborrece porque ela não está habituada a que sejam atividades mais longas. E isto depois tem um impacto muito grande, neste tempo de permanência na tarefa, que depois vai também consequentemente impactar a capacidade que essa criança tem de aprendizagem quando for para a escola, e isso é um problema que se vai adensar quanto maior a criança for.

Duas de Prosa (Podcast) Episódio 89 - de 12 mai 2026 - RTP Play

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Alter Ego


No velório, uma prima perguntou:
- Não vais pôr no Facebook que a tua mãe morreu?

Hoje, a mesma pergunta:
"Tu colocaste nas redes sociais que a tua mão morreu?"
Não, até porque eu não tenho redes sociais. 
Quem tem redes sociais é o Königvs.  

sábado, 14 de junho de 2025

A Pressa Suicida dos Jovens



Primeiro apercebi-me que começaram a ouvir audios e ver vídeos e filmes em velocidade aumentada e ninguém achou mal... 

De repente percebeu-se que as crianças começaram a falar sem os verbos e muitos especialistas acham que é só uma mutação da língua quando, na verdade, os jovens estão tão apressados que já nem sequer pronunciam os verbos.

Mas o que eu ainda não percebi é qual é a urgência dos jovens. Bom, ir para o comboio não deve ser certamente, porque andam todos de UBER, aquela empresa que corrompeu grande parte dos líderes mundiais, mas que, ironicamente, ninguém a "cancelou", como dizem os jovens. 

Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, todos os adolescentes entraram em modo de ansiedade. 

Ao mesmo tempo todos passaram a ver filmes e ouvir audios com a velocidade aumentada (e só o fazem porque houve um idiota ou génio qualquer que achou boa ideia disponibilizar essa ferramenta. 

Ao mesmo tempo, os jovens de todo o mundo começaram a aderir à extrema-direita... 

E agora alguém que me responda, porquê? Porque é que ao mesmo tempo, qual vírus, por todo o mundo, os jovens começaram a aderir à extrema-direita?

Ah, já sei, a culpa foi da Esquerda. Foi a Esquerda que deixou os jovens ansiosas e que criou as redes sociais, e que aumentou a velocidade dos filmes, e que propalou mentiras que os jovens, que não sabem história, acreditaram. 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

A Minha Frase do Dia (3) - Os Estranhos

 


A minha geração, que cresceu na rua a jogar à bola e à malha, e a última ainda a fazer um sem número de coisas na rua, cresceu também a ouvir os pais a dizer-lhes para para nunca falarem com estranhos. 

Hoje, os pais, que são a minha geração, tiram fotografias dos filhos de três e quatro anos e metem em todos os cantos da internet para todos os estranhos do mundo verem, colocando-os eles mesmos em perigo quando deveria ser eles os primeiros a querer protegê-los. 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Quantos dos Teus Pensamentos Vieram de um Algoritmo?


 Quantas decisões que tomas são de facto pensamentos teus? É muito curioso analisar o rebanho, que agora é mundial. A internet ligou todas as pessoas do mundo, umas às outras. Depois criaram-se as redes sociais, e hoje são os tempos da ditadura dos algoritmos que conduzem a manada para o que deve fazer - qual é a nova tendência? - onde é que vamos todos de férias este ano? em quem devemos votar? qual é a musiquinha idiota que todos estão a ouvir e eu também vou de certeza gostar? Onde é que eu devo meter injeções e inchar uma parte qualquer do corpo?

Quantos pensamentos são de facto nossos? 

Há dois anos achei curioso. Porquê aquela minha amiga estrangeira quis ir comigo a Sevilha? Afinal, dois dos meus colegas também queriam ir e foram. De repente lembraram-se todos de naquele ano ir a Sevilha?

Quantas escolhas e decisões que tomamos são de facto nossas e não sugeridas sub-repticiamente pelo algoritmo? Provavelmente foi o algoritmo que me injetou a ideia de escrever este post, obre a forma como hoje o algoritmo nos manipula os pensamentos e eu nem me apercebi!

A imagem é da revista Adbusters, do Canada. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

A Geração Mais Aborrecida da História

Alegremo-nos. O futuro da humanidade está nas mãos de uma geração que não bebe nem fuma e que se preocupa muito com a alimentação e com o corpo. Acham que a beleza vem de dentro mas têm pavor de envelhecer. Mas vão conseguir salvar o mundo fechados dentro do quarto a fazer scroll e com pânico de atender o telefone. Mais um excelente artigo que saiu no fim de semana passado no El País:


 "A imprensa anglo-saxónica chama à geração Z (nascida entre 1997 e 2012) "Gen ZZZZZZ". Excessivamente preocupada com a saúde e com fobia ao envelhecimento (apesar de ainda não ter chegado aos 30), não fuma, bebe pouco álcool, evita açúcares e hidratos de carbono de absorção rápida, sai pouco e madruga para fazer 40 agachamentos e 80 flexões enquanto os seus gurus da produtividade sussurram no TikTok: “Ganha a manhã e ganharás o dia”. “Ter barriga e banhas é coisa de quem ganha pouco”.

Uma geração que poupa para pagar subscrições em ginásios premium e que se suplementa com colagénio, magnésio, proteínas e adaptogénios. Venera a ordem, a disciplina e a doutrina estóica, onde os seus pais e avós teriam escolhido o hedonismo epicurista. Note-se que os últimos relatórios de saúde indicam que os hábitos de vida “problemáticos”, o elevado consumo de álcool e as doenças sexualmente transmissíveis já não são predominantes entre os mais jovens, mas sim entre os maiores de 55 anos, os seus pais e avós.

Por outro lado, os mais jovens sentem vergonha (com frequência ou muita frequência) se o seu estilo de vida não for considerado saudável, e quase 80% tem em conta critérios de saúde ao decidir o que come e bebe. E isso inclui o bem-estar físico e emocional, conclui um estudo global encomendado, entre outras empresas, pela Ikea, Pepsi-Cola, Visa e WWF International, abrangendo 27 mercados. O relatório indica que, à medida que a idade diminui, aumentam as horas dedicadas ao ginásio, a preocupação com a saúde mental e a gestão do stress.

Pouco dados à ironia, interpretaram literalmente a ideia de que a verdadeira beleza vem de dentro. Aterrorizadas com a possibilidade de envelhecer, as mulheres investem em produtos de skincare e, apesar de dominarem melhor as técnicas de maquilhagem do que as suas mães e avós, submetem-se a massagens linfáticas e dietas anti-inflamatórias que prometem eliminar olheiras e celulite, não apenas disfarçá-las.

Os homens querem abdominais six-pack e músculos bem definidos. Não procuram calças de ganga que lhes assentem bem no rabo – querem esculpi-lo no ginásio com exercícios de glúteos e creatina. Querem ver no espelho um rosto firme, sem sinais de cansaço, manchas ou acne e, quando não se sentem bem, afirmam nas redes sociais que têm “cara de cortisol”. Exibem uma pseudo-gíria especializada que traduz uma visão da estética e da beleza como sinónimo de optimização da saúde, mesmo que isso implique uma disciplina monástica e intermináveis rotinas detox.

Vidas organizadas e o medo de envelhecer

Viver segundo folhas de produtividade, aplicar critérios de eficiência a cada aspecto da vida e seguir horários rígidos é compatível com a loucura da juventude? Estaremos perante a geração mais organizada, saudável e aborrecida da história?

“Provavelmente é uma das gerações mais bem informadas de sempre sobre nutrição e os efeitos nocivos do álcool, mas também apresenta algumas obsessões e mudanças de hábitos. É provável que não morram de um ataque cardíaco antes dos 50, mas podem enfrentar outros problemas relacionados com o uso de esteroides anabolizantes no ginásio para atingir um físico específico, com músculos definidos e hipertrofiados”, refere o psicólogo Luis Miguel Real. Segundo ele, para estes jovens, a identidade está no corpo, e ganhar dinheiro é o auge da felicidade. “O que vejo em consulta é a adopção de hábitos produtivos tóxicos que colocam em risco a saúde mental. Não investem em relações saudáveis e têm a ideia perigosa de que tudo depende apenas deles próprios.

O lema “normalizemos cancelar planos” é uma categoria popular de conteúdos no TikTok e ilustra o que muitos consideram um plano ideal para o fim de semana: ficar no quarto com o telemóvel e evitar os riscos da vida social. Sentem-se muito mais confortáveis a fazer scroll do que a conversar com desconhecidos.

Oriol Bartomeus, director do Institut de Ciències Polítiques i Socials (ICPS), da Universitat Autònoma de Barcelona, acredita que a pandemia serviu como um teste para os mais jovens, ensinando-os a estar sozinhos e a relacionar-se com o mundo através de um ecrã. “É uma geração com angústia existencial”, diz. Talvez por isso nunca atendam chamadas. Nada lhes causa mais horror do que o telemóvel a tocar e a expectativa de terem de responder. Segundo a última sondagem da Uswitch, um quarto das pessoas entre os 18 e os 34 anos nunca atende o telefone. Ignoram-no e depois respondem por mensagem. Se não reconhecem o número, pesquisam-no no Google. Mais de metade dos inquiridos associa o toque do telefone a más notícias.

Os especialistas notam que as interacções digitais ultrapassaram, em muitos casos, os contactos presenciais, e esse modelo digital não exige “lubrificantes sociais” como o álcool, cujo consumo caiu drasticamente. Segundo um estudo da HBSC, apoiado pela OMS, apenas 8% dos jovens consome álcool semanalmente, quando em 2006 esse número era de 25%. Além disso, quase 80% considera que beber cinco ou seis copos num fim de semana pode ter “consequências graves”. Felizmente, décadas de campanhas públicas contra o consumo excessivo de álcool começam a dar frutos.

“As cervejas e o vinho deixaram de ser as bebidas padrão”, observa Felipe Romero, sócio da consultora The Cocktail. Segundo dados da Euromonitor International, o mercado de bebidas sem álcool em Espanha tem crescido 18% ao ano nos últimos três anos. Romero descreve um cenário onde dominam as bebidas energéticas, batidos e águas minerais. “E, se bebem, preferem bebidas de menor graduação alcoólica. Existe um forte desejo de estar sempre disponível, activo e produtivo. E o álcool não é um optimizador”, explica.

O preço da disciplina

No Ocidente, triunfam startups que procuram a quadratura do círculo: uma bebedeira sem ressaca. Experimenta-se com novas bebidas que oscilam entre o álcool e a abstinência, oferecendo um ligeiro estado de desinibição e alegria, sem comprometer a lucidez e o controlo. Chamam-lhes “bebidas espirituosas funcionais sem álcool”, sendo a mais popular a Three Spirit, uma infusão de chá verde, ashwagandha e cogumelo melena de leão, com efeitos nootrópicos, ou seja, que acalmam a mente e melhoram a memória e a concentração – três fragilidades da primeira geração nativa digital.

Porém, esta é também uma geração disposta ao sacrifício. Levantam-se todos os dias às cinco da manhã para maximizar o desempenho cognitivo e serem produtivos. Diz-se que todos os bem-sucedidos na vida – de Jennifer Lopez a Tim Cook – começam o dia a essa hora mágica. Um ritual de esforço sustentado por best-sellers como O Clube das 5 da Manhã, de Robin Sharma, e pela comunidade #5amClub do TikTok, que soma mais de 18 milhões de publicações a partilhar rigorosas rotinas matinais.

Bartomeus acredita que esta geração vive angustiada e quer um regresso aos básicos, a um mundo mais simples. “Assumiram que o futuro será terrível, que a festa acabou. Sentem-se vítimas e procuram vingança. Na política, isso traduz-se num desejo de ordem. Muitos rapazes, em particular, seguem com fervor as doutrinas do rigor e da disciplina.”

Segundo o World Happiness Report, esta é uma geração menos feliz do que os seus pais e avós. Desde 2006, os níveis de felicidade dos jovens caíram em todos os continentes. A geração mais saudável e disciplinada da história não parece estar a divertir-se. Ou então, os mais velhos – boomers, geração X e millennials – não estão a perceber nada.

Jovens e Estoicos | Karelia Vázquez | El País (23 de Fevereiro de 2025)

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Pensa Por Ti Próprio - Pensa Como Nós

Mais uma excelente crónica publicada no fim de semana passado no jornal espanhol El País.
 

"
Imaginemos dois momentos marcantes na história da tecnologia e, portanto, da humanidade. No primeiro, assiste-se a um famoso anúncio de televisão. Enquanto se sucedem imagens a preto e branco de ícones como John Lennon, Pablo Picasso ou Maria Callas, o ator Richard Dreyfuss recita um poema:

“Isto é para os loucos. 
Os desajustados. 
Os rebeldes. 
Os agitadores. (…) 
Porque eles mudam o mundo. 
Eles inventam. 
Eles imaginam. 
Eles curam. 
Eles exploram. 
Eles criam. 
Eles inspiram. 
Eles impulsionam a humanidade para a frente.”

O anúncio termina com o slogan Think Different, Pensa Diferente. O ano é 1997, e Steve Jobs acaba de regressar à Apple.

A segunda cena é mais recente, de há algumas semanas. A Apple é agora a empresa mais valiosa do mundo na Bolsa, e o seu presidente, Tim Cook, um firme defensor da igualdade de género, raça e orientação sexual, observa com expressão séria a segunda tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA. Como o resto da elite tecnológica, também ele fez doações para a campanha. Perto dele, estão Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai e Sergey Brin (Google), Elon Musk (X, SpaceX, Tesla) e Sam Altman (OpenAI). No dia seguinte, Trump posa para uma foto com este último e com Larry Ellison (Oracle), e anuncia um enorme investimento em inteligência artificial para garantir a liderança tecnológica dos EUA nas próximas décadas.

Juntos, todos eles representavam o fim do discurso da defesa das liberdades sociais por parte das empresas tecnológicas, que nasceram na Costa Oeste dos EUA, capitalista, mas também livre e radicalmente inovadora. Um dia, reivindicaram a diferença. Steve Jobs não viveu para ver este momento nem o crescimento das pseudociências modernas. Morreu jovem, de um cancro no pâncreas pouco agressivo, que optou por tratar fora da medicina convencional.

Os grandes líderes de Silicon Valley já não nos incentivam tanto a "pensar diferente", mas sim a reconhecer a visão superior de um empresário multimilionário ou de um líder autoritário. A ideologia do Silicon Valley disfarça-se de pensamento crítico e, através das suas próprias redes, exporta-se como propaganda para todo o mundo. Está por trás de frases como "pensa por ti próprio", "faz a tua própria investigação" ou "não deixes que pensem por ti", elementos-chave na desinformação, no pensamento conspiratório e na polarização que definem o nosso tempo e alimentam populismos. Uma vez desprezado o consenso social sobre o conhecimento, explora-se o apelo de soluções simplistas baseadas num individualismo extremo.

O que aconteceu? O que mudou em Silicon Valley para que a sua mitologia de criatividade e independência se tenha transformado numa ferramenta de obediência populista?

TRÊS FASES DE SILICON VALE

A resposta vem da Califórnia - onde o sociólogo e ex-ministro das Universidades Manuel Castells se encontra evacuado devido aos incêndios. Ele, um dos maiores historiadores da internet, descreve três fases.

Na primeira fase, da qual emergiram figuras como Steve Jobs e Bill Gates, “o empreendedor era o modelo e a inovação o objetivo, mais do que o dinheiro. O individualismo coexistia com valores sociais como o feminismo, o ecologismo e a tolerância sexual e religiosa”.

Nos anos 90, consolidaram-se as grandes empresas, que acabaram por se tornar oligopólios. “Embora pregassem inovação e liberdade, na realidade, a acumulação de capital e o lucro tornaram-se as ideologias dominantes: tornaram-se capitalistas e empresários mais do que inovadores, embora mantendo um discurso liberal e tolerante.”


Desde 2010, entrámos numa terceira fase. Castells aponta que o 5G, os satélites e a inteligência artificial impulsionaram uma nova geração de inovadores de sucesso rápido: a chamada PayPal Mafia - um grupo de empreendedores que começou na empresa PayPal antes de lançar outros projetos. Entre eles, Elon Musk, Peter Thiel e Marc Andreessen.

“Estes tecnocratas não querem apenas inovar, querem o poder total”, explica Castells.

A sua ideologia defende que os "melhores cérebros" - eles próprios - devem afastar "a plebe ignorante". Esta é, segundo Castells, a base da sua aliança com Trump.

São tecnocratas libertários que querem ocupar o Estado para impor o seu projeto. São perigosos porque estão convencidos, têm poder material e, acima de tudo, ambicionam poder.

Na posse de Trump, Musk atraiu todas as atenções ao ser nomeado chefe do recém-criado Departamento de Eficiência Governamental, após um gesto no palco que fez lembrar uma saudação nazi. Philip Low, fundador da Neurovigil e antigo amigo de Musk, escreveu no LinkedIn:

“Elon Musk não é nazi, mas talvez seja algo melhor - ou pior, depende da perspetiva. Os nazis acreditavam na superioridade de uma raça inteira. Elon acredita que ele próprio está acima de todos.”

Outros membros da PayPal Mafia, como Peter Thiel (dono da empresa de cibersegurança Palantir) e Marc Andreessen (criador do Netscape e agora conselheiro de Trump), não estavam presentes.

A NOVA DIREITA TECNOLÓGICA

Thiel, financiador do senador J.D. Vance, defende a liderança empresarial sobre a democracia. No seu livro Zero to One, argumenta que os grandes líderes empresariais devem ignorar convenções sociais. Andreessen, por sua vez, publicou em 2023 um Manifesto Tecno-Otimista que mistura anarcocapitalismo, aceleracionismo e Nietzsche, defendendo que a tecnologia nos tornará super-homens livres.

O seu pensamento é influenciado por livros como Atreve-te a não agradar, um best-seller japonês baseado na psicologia de Alfred Adler, que argumenta que não é o passado ou o ambiente que nos limitam, mas sim a falta de coragem.

No início de 2025, vemos um grupo de tecnocratas convencidos da sua superioridade intelectual e validados pelo mercado. Controlam empresas com um poder de influência sem precedentes, conhecem as dinâmicas sociais e são atraídos pela ideia de um governo autoritário gerido como uma empresa.

“PENSA POR TI PRÓPRIO”

Como esta ideologia se relaciona com os seus clientes e eleitores?

Mark Zuckerberg é um exemplo: passou de defensor do politicamente correto (woke) para um campeão da "liberdade de expressão", desmantelando políticas de moderação no Facebook e aproximando-se de Trump.

A cultura digital, com a sua exaltação do individualismo e desconfiança na informação tradicional, alimentou esta nova mentalidade. A obsessão pelo pensamento crítico levou a uma sociedade onde todos acusam todos de "pensar mal".

Sam Wineburg, professor de Stanford, alerta:

“Se as pessoas realmente entendessem como funciona a internet, fariam escolhas melhores. Mas a maioria navega às cegas, confiando ingenuamente na própria capacidade de discernimento.”

Assim, num mundo onde os algoritmos são controlados por bilionários e onde o caos informativo favorece os mais poderosos, a máxima parece ser:

"Pensa por ti próprio… desde que penses como nós."

O PENSAMENTO CRÍTICO E A ARMADILHA DA DESINFORMAÇÃO

Se há uma frase que indica que alguém está prestes a entrar numa espiral conspirativa, é "pensa por ti próprio", frequentemente acompanhada de "faz a tua própria investigação" ou "não deixes que pensem por ti". O pensamento crítico continua a ser, como defendia Hannah Arendt, um imperativo moral, mas aqui esconde-se uma armadilha.

“A ciência nasce da curiosidade sobre aquilo que desconhecemos e gostaríamos de explicar”, explica a neurocientista Carmen Estrada.

No seu ensaio A Herança de Eva, Estrada descreve a ciência como um esforço coletivo, construído ao longo de gerações, baseado na colaboração e na continuidade do conhecimento.

Sam Wineburg, professor na Universidade de Stanford e especialista em literacia digital, acrescenta:

"Se as pessoas realmente compreendessem como funciona a internet, como as palavras-chave distorcem os resultados das pesquisas, como a otimização dos motores de busca manipula a informação, então fazer a própria investigação levaria a decisões mais informadas. Mas, na realidade, a maioria de nós navega às cegas, confiando ingenuamente na própria capacidade de discernir a verdade no meio do caos digital.

Wineburg é coautor do manual Verified, um guia prático de verificação de factos. Ele e Mike Caulfield defendem um conceito inovador: a necessidade de "ignorar criticamente".

“Vivemos numa economia da atenção, onde as plataformas digitais competem para manter os nossos olhos fixos nos ecrãs. Avaliar informação exige pensamento crítico, mas o pensamento crítico alimenta a atenção. Na internet, o primeiro e mais importante ato de pensamento crítico é determinar se a informação merece ser analisada criticamente. Aprender a ignorar fontes de baixa qualidade preserva a nossa atenção para o que realmente importa.

A ASCENSÃO DOS TECNOPOPULISTAS ~

Se juntarmos a esta cultura digital um individualismo mal interpretado, um mundo complexo simplificado por visões reducionistas, a ilusão de uma democratização do conhecimento e o reforço psicológico gerado pelas comunidades online, obtemos um cenário perigoso.

Polarizamos este contexto com um sistema informativo manipulado pelos donos dos algoritmos – empresas que lucram com o caos emocional gerado pelas redes sociais. O resultado? Líderes políticos e económicos fortes e populistas, admirados pela sua suposta independência (mesmo em relação aos seus próprios partidos e seguidores), que dizem defender a liberdade, mas acolhem com agrado aqueles que “ligam os pontos”... desde que os liguem a seu favor.

Quando se admira um líder que “pensa por si próprio”, na verdade, admira-se alguém profundamente emocional, que alimenta ressentimentos e desconfiança nas instituições.

Um título do jornal satírico El Mundo Today ilustra bem esta confusão no início do segundo mandato de Trump:

Um jovem que não se deixa manipular defende exatamente as mesmas ideias que os três homens mais ricos do mundo.”

Esta ironia reflete-se nas redes sociais, onde discursos de milionários do Silicon Valley se misturam com declarações de figuras inesperadas, como o ex-futebolista Javi Poves, um fervoroso defensor da teoria da Terra plana.

"Quem te diz que não sou mais inteligente do que Kepler? Ou do que Galileu? Não sei. O que sei é que hoje tenho mais meios técnicos para o demonstrar", disse Poves à rádio Cadena Cope.

Nesta nova era digital, os tecnomagnatas transformaram a inovação em um novo tipo de dominação. A sua narrativa, que outrora promovia a criatividade e a liberdade, agora alimenta desinformação e autoritarismo. A inovação já não é apenas um objetivo - é uma ferramenta de poder.

Delia Rodrguez | El país | 2 de Fevereiro de 2025

domingo, 26 de janeiro de 2025

Convite a uma Revolta

Sobre a pressão social, as modas, o sentimento de pertença e a cobardia de não querer passar por diferente. Artigo de  Antonio Muñoz Molina, publicado no  El País a 25 de janeiro de 2025:

"
O remorso por algumas tolices cometidas no passado pode não ser estéril se nos servir para agir com mais sensatez no presente. Uma tolice pode também ser um erro, mas nela há algo de banal e supérfluo que agrava o dano que produz, em vez de o aliviar. Uma desculpa parcial é que os acertos, os atos de nobreza e o esforço no trabalho levam o selo do que há de melhor em cada um de nós. Já a tolice tende a ser coletiva, não fruto de uma escolha consciente, mas da submissão atarantada ou cobarde a uma moda. Algumas das maiores tolices das quais me arrependo na vida surgiram não de uma vontade puramente minha, mas do medo de ficar para trás em algo que os outros celebravam, da ansiedade de partilhar algo prestigioso que pairava no ar.

Quando eu tinha cerca de 18 anos, as drogas começaram a chegar ao mundo provinciano onde me movia, envoltas numa perigosa e tentadora lenda de clandestinidade que as tornava mais atraentes. Associar a emancipação ao consumo de haxixe era uma tolice colossal, ainda mais se fosse adornada com a capacidade de abrir as "portas da perceção" ou de libertar a criatividade. Também se dizia na época que o álcool e o tabaco eram ferramentas tão necessárias para a literatura como o papel, a caneta e a máquina de escrever. Eu ficava até altas horas a escrever à máquina na mesa da sala, sob a luz débil do aquecedor, e pela manhã a minha mãe encontrava, ao lado da máquina e dos papéis, um cinzeiro cheio de beatas. Com tal método, era pouco provável escrever uma obra-prima precoce, embora fosse fácil adquirir uma respeitável tosse brônquica antes dos 20 anos.

Sendo medroso por natureza, o haxixe assustava-me. Comecei a fumá-lo pela mesma razão que me levou a fumar tabaco alguns anos antes: para imitar outros mais audazes do que eu, porque, de repente, toda a gente o fazia. Toda a gente falava usando os novos termos associados à gíria prisional —o “costo”, o “pasote”, o “talego”, etc.— e eu tinha vergonha de ficar antiquado, como ficaram antiquadas, alguns anos depois, as jaquetas de bombazina, as botas de montanhista ou metalúrgico e as barbas compridas. Eram os finais dos anos 70 e os primeiros dos anos 80, e tudo acontecia muito depressa. Tão depressa que o haxixe também passou de moda, porque de repente o novo, o último grito e o obrigatório era a cocaína. Agora, as jaquetas tinham ombreiras dignas de filmes policiais, as calças eram largas e pendiam abaixo do cinto, e alguns dos heróis barbudos de bombazina tinham-se barbeado e exibiam patilhas à altura das têmporas, fazendo o gesto vaidoso de tapar uma narina com o dedo indicador e respirar fundo pela outra, indicando que ainda lhes restava um pouco da cocaína consumida pouco antes.

O haxixe e a marijuana tornaram-se antiguidades de hippies tardios ou, como se começou a chamar depois, “cães-flautistas”. O moderno era a cocaína. A coca era um símbolo de status, como o design ou os restaurantes de nova gastronomia, onde os beneficiários dos ventos descontrolados de dinheiro público celebravam os seus pequenos ou grandes êxitos, trazidos pelos grandes projetos da era socialista, culminando nos Jogos Olímpicos e na Expo de 1992, autênticos fogos de artifício galácticos.

Diziam que a coca animava a vida e exaltava todas as faculdades, inclusive as eróticas, e que, além disso, não era viciante. Parte da tolice da minha época, também a consumi ocasionalmente, sobretudo quando me convidavam. Nunca me ocorreu então que estava a alimentar um negócio criminoso que, já na altura, afogava em sangue, terror e corrupção uma parte do mundo. O que nem eu nem ninguém podíamos ignorar eram os efeitos atrozes que começou a ter em muitas pessoas aquela substância aparentemente tão benéfica e inócua, que não deixava cheiros persistentes nem marcas como o haxixe, nem rastos de sangue e seringas pisadas em casas de banho públicas.

Talvez tenha sido o castigo dessas antigas tolices e vícios que me deixou vacinado contra a moda de muitos anos depois, que agora atingiu o seu paroxismo destrutivo: as redes sociais. Tal como o haxixe ou a cocaína, chegaram com o prestígio de uma novidade imperdível, na grande onda do messianismo tecnológico, que também trazia o seu vocabulário, os seus propagandistas e os seus gurus, todos eles disfarçados de jovens benfeitores boémios. Agora parece que o Facebook é uma distração para reformados, como o jogo de cartas ou o crochet, mas há uns 15 anos não abrir uma conta ou perfil —ou lá como se chamasse— era tão imperdoável como não aspirar uma linha de cocaína numa reunião de políticos ou empresários corruptos. Homem do meu tempo, passei algumas horas nessa rede e percebi de imediato como poderia tornar-me dependente e da extraordinária quantidade de tempo que ela me roubava sem que eu notasse e sem qualquer proveito.

O fundador era, na altura, um jovem simpático, com ar de adolescente desajeitado e algo rebelde, mas bem-intencionado, com a sua camisola de capuz e o seu desembaraço de recém-chegado à universidade e a sua simpática máxima: “Move-te rápido e quebra coisas”. E como quebraram! O dano causado pelos senhores da droga empalidece perante a pandemia de distúrbios mentais entre crianças e adolescentes que a empresa deste indivíduo promove nas suas várias plataformas, cada vez mais viciantes, propagadoras conscientes de ansiedade e mentira.

A droga de Zuckerberg experimentei-a um pouco e deixou-me o mesmo desagrado dos primeiros charros. A que Elon Musk trafica agora com tanto sucesso tenho a modesta satisfação de nunca ter experimentado. Nunca entrei no Twitter ou no X.

Sei que recebo toda a informação que preciso através de jornais, rádios e plataformas digitais confiáveis. Ao mesmo tempo, poupo-me à crispação e imundície desse lodaçal. Quebrar a nossa dependência desses fabricantes de vícios é das poucas liberdades reais que nos restam.

sábado, 29 de junho de 2024

As Dificuldades na Escola Vieram com as Redes Sociais?

Ao ler uma reportagem sobre resultados dos PISA num jornal espanhol, foi olhar para os resultados no site oficial, e olhei para este gráfico em particular, e uma coisa chamou-me a atenção: os maus resultados dos alunos, que começaram a cair abruptamente, entre 2009-2012, foi quando as redes sociais se massificaram e em que apareceram as câmaras selfies dos smartphones.

Será que isto é só uma mera coincidência, ou há, de facto, uma causa-efeito?

domingo, 17 de setembro de 2023

O Twitter Morreu e eu Fui Para o Céu



No início de cada as pessoas gostam muito de fazer resoluções, mas não foi nenhuma resolução que me levou a registar no Twitter a 1 de Janeiro de 2019. E não me quero repetir porque já aqui anteriormente expliquei  "Porque é que Gostei Tanto do Twitter". 

Só que entretanto a rede social do passarinho azul foi comprada pela criança-empresário dos carros elétricos que a transformou num caos depois de ter despedido imensa gente. 

Aos poucos e poucos tudo começou a mudar. O que víamos, as interações, a visibilidade, o número de pessoas que nos começava a seguir. Aos poucos parece que comecei a ficar mais invisível, culpa da ditadura do novo algoritmo imposto, e a malta da extrema-direita começou a ter muito mais visibilidade.

Mudou as regras, soltou todos os presidiários da cadeia como Trump, limitou o que cada um pode ver, incentivou o pagamento para ter determinados conteúdos que antes eram gratuitos e, pior, acabou com os bloqueios. Ou seja, toda aquela gente que nos insultou, que diz barbaridades, ou todas aquelas contas que decidimos bloquear (e eu por exemplo tinha o partido Chega e o senhor Ventura bloqueados), tudo isso acabou. 

É como se um juiz decretasse que determinada pessoa que nos fez mal não se pode aproximar de nós a menos de duzentos metros e viesse um artista e dissesse: "nada disso, eu quero o caos, não quero regras nenhumas, e, se estás aqui fazes o que eu quero ou vais-te embora".

E eu fui-me mesmo embora! Deixei uma mensagem de despedida e fim, acabou-se a minha relação de três anos e meio com Twitter, que entretanto a criança dona da rede social mudou o nome para "X", ainda que o link continue a ser twitter.com, o que faz um sentido do caralho!



Muitas pessoas debandaram, muitas outras decidiram ficar. Mas decidir ficar é fazer o jogo da criança ditadora em corpo de adulto. As pessoas têm o poder de mudar as coisas só que, infelizmente, preferem acomodar-se, preferem continuar a alimentar o ego. 

Eu também gostava de escrever uma merda qualquer e ter centenas de gostos, dezenas de novos seguidores. Mas a que preço? Continuar a alimentar uma rede social que foi comprada por um idiota chapado que não tem qualquer respeito pelos utilizadores? Vamos aceitar tudo o que ele quiser, incluindo baixar as calcinhas e deixar-mo-nos sodomizar? Não e por isso bazei. 

Entretanto recebi um convite para ir para uma nova rede social: o Bluesky. Uma senhora com quem nunca sequer tinha trocado mensagens envia-me uma mensagem privada: "tenho um convite para o Bluesky, queres vir"? E, em boa verdade nem sabia bem o que aquilo era. Mas pareceu-me bem. É do mesmo criador do Twitter, o conceito é o mesmo, só que ainda está numa fase embrionária, por isso só se entra por convite ou vai-se para uma lista de espera. 

E assim foi. O Twitter morreu porque foi assassinado pelo Musk e eu decidi fazer o meu funeral e ir para o Céu. Azul. 





sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Ateu, Graças a Deus

 Por estes dias tornou-se viral nas redes sociais uma frase de Carlos Magno dita numa qualquer televisão: "Eu sou ateu, graças a Deus. 

Acontece que a frase é uma citação do realizador espanhol Luis Buñuel, que ainda na adolescência (obrigado Wikipedia) se tornou anticlerical e ateu. 

Cavalgando, e muito bem, a onda, a Azul Pop aproveitou para colocar a frase num azulejo que se pode comprar por 6€ no site. Confesso que, se calhar, até ficava aqui bem no meu quarto!





terça-feira, 1 de agosto de 2023

A Falácia da Meritocracia e Porque Deixamos de Ler na Adolescência

"Aos 20 meses de idade, um bebé de uma família de alto nível cultural articula 200 palavras enquanto um bebé de uma família de baixo nível cultural articula 20. É ultrajante. Eles aprendem a ler tarde e, quando começam a usar a leitura para aprender, faltam palavras. Muitas vezes eles não gostam aprender. Muitos de nós descobrimos as nossas vocações na escola, mas se não formos capazes de entender, nunca nos vamos entusiasmar com nada".




Entrevista a um professor do ensino secundário sobre os jovens e a leitura a propósito do seu livro "(En) Plan Lector - Sobrevivir a la adolescencia sin dejar de leer", publicada este domingo no El País. Por um lado deixa bem evidente a falácia da meritocracia, por outro é assustador o que smartphones e redes sociais estão a dazer. Aqui ficam alguns excertos:

"Por que é que na adolescência deixamos de ler?
Os jovens estão mais focados em compartilhar experiências com os amigos. O telemóvel é um lazer muito mais acessível. Assistir a um vídeo de 30 segundos não custa nada, mas pegar num livro exige esforço, mesmo que a recompensa seja muito maior.

A concentração dos meus alunos caiu muito com os smartphones. Tocamos no telemóvel cerca de mil vezes por dia e nos conectamos cerca de 150 vezes. Com o telemóvel na mesa, ages como uma pessoa com um QI muito mais baixo. Muitas vezes as crianças que brilham academicamente praticam balet ou música, que exigem muita concentração. As crianças geralmente estão muito cientes de que não se lembram dos vídeos curtos que viram ou que ficam nervosas se não houver uma mudança na atividade. Assistem às séries a uma velocidade de 1,5x porque são incapazes de suportar o ritmo normal, e até mesmo a música é acelerada. Nenhum deles acabou de ouvir uma música, eles sempre clicam no botãozinho antes disso. Isso faz com que sua capacidade de atenção seja esmagada.

Por isso, é impossível que leiam um romance. 
Eles leem porque não têm escolha, mas depois gostam muito. Na minha escola, levamo-los à biblioteca uma vez por semana para ler. Eles não podem tirar o telemóvel ou fazer qualquer outra atividade. A maioria adora. O fundamental é uma boa seleção de textos e deixá-los com tempo para ler. A leitura seria o exercício perfeito para que as crianças se tornassem donas de sua capacidade de se concentrar novamente. É uma luta que vale a pena levantar nas escolas diante de tantos tablets. As redes sociais ganham dinheiro com sua fragmentação de atenção. Eu sempre digo às crianças que elas são o produto, caso contrário elas estariam a pagar pelas redes sociais. É falsa essa ideia de que as redes sociais são um novo meio de comunicação, são sim um meio de publicidade. Temos que nos interessar pelo mundo deles. E isso é muito difícil. Tenho 11 anos no ensino secundário e no início tinha as chaves para entender as crianças e agora custa-me muito. Porque antes eu via televisão e eles também. Mas agora não porque eles estão no Youtube, TikTok...

Insiste muito na falta de compreensão da leitura em todos os níveis... 
Se eu não tenho palavras para nomear algo isso não existe para mim. Aos 20 meses de idade, um bebé de uma família de alto nível cultural manuseia 200 palavras e de baixo nível cultural 20. É ultrajante. Eles aprendem a ler tarde e, quando começam a usar a leitura para aprender, faltam palavras. Muitas vezes eles não gostam aprender. Muitos de nós descobrimos as nossas vocações na escola, mas se não formos capazes de entender, nunca nos vamos empolgar com nada.

A afirmação de que a leitura melhora a empatia é surpreendente no livro. Todos nós que somos leitores achamos que experimentamos a sensação de nos colocarmos no lugar de uma pessoa que não tem nada a ver conosco no início. A literatura faz-te entender que, além dessas diferenças está o ser humano".

domingo, 7 de maio de 2023

As Redes Sociais Não São Uma Representatividade da Sociedade

 Pequena sondagem no Twitter para aquilatar das crenças das pessoas. 


Não estranhamente os resultados são o inversos dos últimos censos. Mais de 80% afirma não ter religião ou é ateu ou agnóstico (tal como eu, que não pude votar).

Só que as redes sociais são pequenos guetos. As pessoas que votaram, a grande maioria, suponho, são pessoas que me seguem, logo, terão formas de pensar parecidas com a minha. 

E, não podemos partir desses guetos e depois extrapolar e achar que isso representa toda a sociedade. 

É verdade que eu digo, e é a minha convicção, que o cristianismo se irá extinguir, no médio prazo. Mas ainda demorará uns anitos até isso acontecer.

terça-feira, 25 de abril de 2023

O Professor que Conseguiu que os Alunos lhe Dessem os Telemóveis

 * artigo publicado no jornal La Vanguardia (Espanha) no dia 23 de Abril (Dia Mundial do Livro) 


O professor do ensino secundário Telmo Lazkano conseguiu que 19 de seus 23 alunos duma turma duma escola de San Sebastián lhe dessem seus telemóveis por uma semana. Ele manteve os telefones fechados na e pediu aos jovens, de 15 e 16 anos, que escrevessem um pequeno diário naqueles dias. Os resultados foram surpreendentes. Durante os primeiros três dias, eles relataram "um quadro muito claro de dependência"; A partir do quarto dia, porém, começaram a falar de um sentimento de liberdade ou de terem tirado uma pedra dos ombros. A iniciativa espalhou-se para escolas e Lazkano acaba de receber o prémio Elkar Eraginez do Governo Basco.

O projeto em questão, denominado No Phone Challenge, surge da preocupação de Lazkano com este problema: “Há vários anos que leio boa parte da literatura publicada sobre esta questão e os dados que as diferentes investigações produziram pareceram-me alarmantes. Ao mesmo tempo, como professor do ensino secundário, tinha diante de mim aquela realidade que a pesquisa mostra”.

Este professor de Inglês e Ciências Sociais de 29 anos começou por fazer uma pergunta aos seus alunos: quantas horas passais à frente do teu telemóvel? “Diretamente não me disseram, e a média era entre cinco e seis horas por dia. Em alguns casos, nos finais de semana chegavam sete ou oito horas por dia”. Além disso, Lazkano surpreendeu-se com o desconhecimento dos alunos sobre o funcionamento das redes.

“Quando temos de pagar por algo, por uns sapatos ou por uma bicicleta, tendemos a desconfiar e a valorizar se o preço é condizente com o produto, se o material é bom ou se a origem é ética. Quando é gratuito, por outro lado, essa desconfiança desaparece. Deveria ser o contrário. Deveríamo-nos estar a perguntar por que empresas multibilionárias investem tanto dinheiro em aplicações como estas e porque os oferecem gratuitamente. É evidente que nós somos o produto, e não existia essa reflexão entre os alunos”, aponta.

Este diagnóstico foi o ponto de partida da experiência, que exigiu um trabalho prévio. Em primeiro lugar, assistiram ao documentário El dilema de las redes e gerou-se um debate. Em segundo lugar, refletiram sobre temas como os filtros de beleza nas redes ou sobre a perspetiva aspiracional destes. Por fim, pediu que lhe dessem os seus telemóveis por uma semana: “Foi totalmente voluntário. Se eu considerasse sem aquele trabalho anterior, eles não teriam concordado. Buscamos conhecimento e, posteriormente, reflexão crítica. A motivação foi gerada em torno do projeto”.

A partir daí, o que foi anotado nos diários pelos jovens mostrou a profundidade da experiência: “Nos primeiros três dias, aconteceu exatamente o que os estudos diziam: um quadro muito claro de dependência. Viviam com nervosismo, não conseguiam dormir, comiam mais do que o normal, sofriam com pensamentos intrusivos, não sabiam lidar com o tédio, irritavam-se com facilidade... Foram deixados numa quinta-feira e isso chamou-nos a atenção que a partir do quarto dia, após o fim de semana, ocorreu uma virada. Eles começaram a expressar que se sentiam mais felizes e, acima de tudo, muito mais livres. Que eles haviam removido uma pedra de cima. Disseram que saíam como se fosse algo excitante e que podiam dedicar essas cinco horas a hábitos saudáveis ​​como ler, visitar a avó, ir às montanhas ou ver um pôr do sol sem registá-lo”.

Um dia antes do fim do projeto, alguns alunos disseram que não queriam recuperar os telemóveis ou com medo de cair na dinâmica anterior. Outros, entretanto, estavam ansiosos para saber quantas mensagens haviam recebido. “O objetivo era torná-los mais conscientes da sua relação com os telemóveis e as redes, e estabelecer a partir daí hábitos mais saudáveis. Quando voltamos ao assunto, depois de alguns meses, alguns alunos mostraram que haviam reduzido pela metade o consumo diário”, aponta.

Lazkano vê no seu dia-a-dia as consequências que o uso compulsivo de telemóveis está a causar entre os menores: “As empresas tecnológicas lutam pela nossa atenção naquilo que se chama economia da atenção. Como nosso tempo é finito e a concorrência é grande, eles implementam diferentes estratégias para nos manter na frente do ecrã. As consequências destas técnicas são as que mais tarde afetam a sua auto-estima, a sua saúde mental ou a sua atenção”.

E é aí que surge a pergunta: é possível um adolescente manter uma relação saudável com o telemóvel? “A melhor medida para conter os seus efeitos nocivos é o treino adequado, o contacto progressivo, o acompanhamento no processo e a idade adequada à ferramenta que vai utilizar. É difícil para uma criança menor de 16 anos ter uma relação saudável com o telemóvel sem formação. Além disso, seria apropriado que os pais não fizessem guerra por conta própria e concordassem em adiar a idade inicial. Há muito a ganhar."

quinta-feira, 2 de março de 2023

A Cultura da Pressa e a Desumanização das Relações

Imagem roubada da net

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A conexão perpétua condenou-nos à disponibilidade eterna nas redes sociais. A necessidade de resposta imediata e a demora quando o retorno do outro lado não vem geram uma série de angústias. O resultado é uma sociedade stressada e mentalmente doente.

A iniciativa Desacelera SP existe desde 2015 como uma “desaceleradora de pessoas e negócios”. A sua fundadora Michelle Prazeres passou a questionar a cultura da pressa após o nascimento de seu primeiro filho. “Nem todo mundo tem 24 horas iguais”, defende.

Desde então, ela já lançou uma série de iniciativas ligadas ao movimento slow, como o Guia Desacelera SP, com lugares para aproveitar a cidade com calma e o Dia Sem Pressa, com atividades que estimulam a desaceleração.

Prazertes pesquisa as relações entre a comunicação, as tecnologias e a aceleração social do tempo, e questiona avanços como o controle de velocidade de áudios de WhatsApp e de streamings.

“Empresas de tecnologia geram necessidade. O acelerador de áudio é um exemplo. De escolha passa a ser hábito e de hábito, regra.”

A pandemia teve um grande papel ao naturalizar a cultura da atenção, afirma. “Vivemos situações em que estávamos mediados pela tela, com nossa atenção muito dividida. Saímos da pandemia pior do que entramos, com dificuldade de fixação, apressados.”

Por que não conseguimos nos desconectar? 

Existe uma engrenagem que exige a gente conectado o tempo todo. Não interessa ao mundo do consumo o tempo que a gente não gasta consumindo. Pensar não dá dinheiro, dormir não dá dinheiro. Estamos vivendo algo bastante sofisticado. É ainda mais difícil para a nova geração, que não sabe virar a chave, eles não sabem o que é desconexão, ter direito a ficar alguns dias sem responder uma mensagem.


De quem é a culpa? 

Silicon Valey convenceu a gente de que agilidade é bom, de que tecnologia é progresso. E toda vez que alguém tenta falar qualquer coisa mais ponderada é tachado de nostálgico, dinossáurico, “lá vem os chatos da tecnologia”. Eu estou olhando para os aspectos humanos disso. As pessoas estão adoecendo por causa da velocidade. Não é nostalgia, não é querer acabar com a cibercultura, com a tecnologia, mas a gente olha para a desumanização das relações, as pessoas estão exaustas, aceleradas, desinteressadas pelas outras.

Há a expulsão do outro.

Como isso está comprometendo as relações sociais? Sem se interessar pelo outro, a gente não se conecta, não acha sentido comum. As trocas e os processos humanos ficam comprometidos. Esses dias eu estava numa entrevista e a pessoa do outro lado atualizava o feed. É a desumanização das relações sociais. Esse fenómeno tem a ver com o fato de as tecnologias estarem completamente imbricadas em nossa vida, de não existir mais o conceito de “entrar na internet”.

Como tornar as relações pessoais mais humanas? 

Dá para construir alguns combinados. Se é um círculo de intimidade, estipule contratos de tempo de permanência no telemóvel. Diga coisas como “olha, estou falando com você, pode terminar de responder o celular”. A pessoa fica constrangida e para. Se você está num ambiente de trabalho, proponha um pacto de concentração, de não usar o celular, de guardar num potinho. Diga que a reunião vai ser rápida, mas nesse tempo todo mundo tem que prestar atenção.

Se perceber que alguém está usando, repita o “quando terminar eu continuo”. Também rola o constrangimento. Não podemos naturalizar essa divisão da atenção.

E o que é preciso para sairmos disso? A desconexão é uma das saídas para combater a exaustão extrema. As buscas desse livramento são individualizadas, nosso regime sociopolítico empurra a gente a acreditar que as soluções têm que ser individuais. Eu sei que o que serve para mim pode não servir para os outros. Tem casos que a urgência não é individual. A gente precisa de uma transformação cultural.

Como você lida com a urgência? 

Eu estou atenta ao WhatsApp, mas tem horário que não respondo. Tenho a sensação de que quando você tem as rédeas, essa relação fica menos angustiada. Não é o caso do meu filho de 11 anos. Ele não tem maturidade para lidar. Quando ouve o celular apitar, ele quer pegar na hora, é uma angústia. Eu combinei com ele que tem horário específico para isso.

O que cada um pode fazer?

Tirar notificações, estabelecer horários, tomar medidas no âmbito do direito à desconexão. Não precisa ficar três dias ausente, mas ter pequenos momentos de desconexão já dão um respiro. Eu percebo que os dias que estou mais ativa no WhatsApp por causa do trabalho ou dos filhos, fico mais ansiosa. Eu recomendo também o “não, pera, isso é necessário?”. Não aderir a uma tecnologia só porque é moda e todo mundo entrou. Usar a tecnologia de acordo com a necessidade. Não precisa responder na hora ou estar sempre online.

Em termos de sociedade, o que pode ser feito? 

O Brasil faz uma sinalização de que haverá políticas públicas nesse sentido quando uma secretaria [Secretaria de Políticas Digitais, dentro da Secom] se propõe a pensar letramentos digitais e regulação das plataformas. Temos um longo e desafiador caminho pela frente. Temos gestos, sinais e gente construindo. Essas mudanças nunca são imediatas. Eu tenho esperança".

*Entrevista de Mateus Camillo a Michele Prazeres publicada no jornal Folha de São Paulo a 28 de Fevereiro de 2023

domingo, 1 de janeiro de 2023

Tweet do Ano 2022

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 Fazem hoje quatro anos que me registei no Twitter. 

Neste ano que passou uma criança, ainda que seja a criança mais rica do mundo, Elon Musk, comprou a rede social Twitter. Muita gente saiu. Milhares ou milhões. Musk como que soltou os criminosos sob a falsa desculpa da liberdade de expressão. Bloqueou recentemente as contas de jornalistas americanos que o criticam. Ele é aquela criança que leva a bola para o recreio e, quando contrariado, expulsa quem não lhe faz a vontade. 

Muita gente fez questão se ir para outras redes sociais. Eu nem saí, nem fui tentar descobrir mais uma rede social. A verdade é que, por exemplo, cada vez menos utilizo o Instagram e cada vez menos me apetece ir lá e não consigo lá estar muitos minutos.

O Twitter é a rede social da comunicação, da troca de ideias, argumentos. Também cada vez mais, como as outras, a rede social das mentiras e do ódio. Mas, até ver, sinto-me confortável por lá, e enquanto sentir por lá ficarei. Quando não fizer sentido saio. 

Não planeio ir para outro sítio. Talvez porque não seja de desistir facilmente, seja nas relações, no clube, nos amigos... Se sair do Twitter, ficarei na minha casa, que é esta, o blog, e de onde nunca saí, apesar de por vezes o tomar por garantido, e haver tempos em que esteja mais presenta e tempos em que esteja mais afastado. 

No Twitter não é fácil subir em número de seguidores. Em 2022 atingi os mil seguidores, não é nenhum troféu, mas é um número redondo engraçado. E por uma questão de curiosidade fui ver qual tinha sido o "tweet" (no Twitter os "posts" (ou mensagens) chamam-se "tweets") e foi uma reflexão sobre os 90 milhões de euros que o Estado (alegadamente) laico vai gastar nas jornadas da juventude da Igreja Católica. 

Curiosamente estes 90 Milhões de Euros não fazem memes, não enchem jornais, não são discutidos nas televisões, nem originam demissões de presidentes de câmara, nem secretários de Estado nem ministros... e toda a gente se sente confortável com isto. Não é o meu caso. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Desgostos de Amor em Tempos de Instagram


No Instagram, a rede do ego por excelência, o amor não só é maravilhoso e mais intenso do que na vida real; a água do mar é mais turquesa, os diamantes brilham mais e ninguém tem barriga ou rugas. As separações também são idílicas e harmoniosas... até que deixem de ser.

Um dos primeiros a patentear esse modelo de separação acordada e em bons termos foram Sara Carbonero e Iker Casillas, que há poucos dias se meteu numa chatice ao declarar-se gay no Twitter, farto de tantas namoradas que lhe atribuem desde que estão separados. 

Belas fotos e palavras sinceras são escolhidas para dizer adeus. Exalam tanta harmonia que nem parece o fim de um relacionamento romântico.
Shakira e Piqué também compartilharam uma imagem juntos no Dia dos Namorados deste ano, quando ele já arrastava a asa para outra. A imagem já tem 33 semanas e não há um dia que um seguidor não peça para a colombiana apagá-la.

Em tempos de exibição da vida privada nas redes, o ditado "diz-me o que presumes que eu dir-te-ei o que te falta" foi superado por outra teoria: as imagens mais açucaradas e com os protagonistas mais apaixonados do que nunca assinando mensagens de amor eterno, o mais provável é que a coisa termine de forma conturbada. 

Excerto traduzido do texto "El desamor en tiempos de Instagram" publicado no jornal La Vanguadia.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Porque é Que Gostei Tanto do Twitter?

 As coisas são como são. Em 2009/2010 começava toda a gente a debandar o Myspace, rede social onde estava, e mudavam-se para o Facebook para plantar alfaces. A esta distância posso dizer que, no Myspace consegui apaixonar-me, fazer várias amizades que chegaram aos dias de hoje, e ainda ganhei bilhetes para concertos e festivais. 

Foi por essa altura, quando toda a gente debandou e ali fiquei sozinho, e quando todos me pressionavam para me registar no Facebook (que não o fiz) que creio que estive dois anos num fórum, um tanto ao quanto deprimente (mas tinha ficado desempregado e tinha tempo) fórum esse onde até tinha umas quantas admiradoras mas depois debandei porque estava de certa forma a ser perseguido por duas ou três personagens que parece que tinham alguma dor de cotovelo de lhes ter tirado o protagonismo. 

Foi no Myspace que conheci alguém por quem me encantei. E foi essa pessoa que teve a ideia de me sugerir a criação de um blog onde escrevesse sobre as minhas "erbices". E três anos estive sem o começar, sempre com a desculpa de não ter o nome certo, quando no fundo sempre achei que não conseguiria fazer nada minimamente decente. 

Mas nesses tempos de 2009/2010, nem depois disso, nunca ninguém alguma vez me disse "tens que te registar no Twitter". Ouvia falar por alto, mas não fazia a mais pequena ideia do que seria. 

Registei-me sim, já depois de ter os blogues e a conta do Youtube, mas no Google+ (para agregar tudo numa só conta) mas, foi uma rede social que, vá lá saber-se porquê (talvez por ter aparecido no momento errado) nunca teve grande aderência por parte das pessoas, mas eu, claro, como resistente, fiquei até ao fim. Até a Google ter encerrado a rede social.

E, vá lá saber-se porquê, no início de 2019, logo no primeira dia do ano, e não se tratou de nenhuma nova resolução, decidi registar-me no Twitter.

Não conhecia ninguém. O que era ótimo. Aliás, uma das razões porque sempre disse que não me registaria no Facebook era porque não estava interessado em cruzar-me com ex-namoradas ou reencontrar gente que se afastou de mim, fossem familiares ou ex-coleguinhas de trabalho. Gostava de estar numa rede social sim, mas que pudesse conhecer pessoas novas, com quem tivesse afinidade.

Mas não é fácil como muito bem escreve a Carmo Afonso no Público. O Twitter não é uma rede social fácil. Não é fácil de ali chegar e logo perceber como funciona, e ganhar seguidores, que quase têm que se conquistar a custo. Mas não desisti às primeiras contrariedades. E muitas vezes nem sequer percebia do que ali andavam a falar, como daquela vez que a Fernanda Câncio começou a amplificar uma brincadeira que todas as mulheres gostavam de beber a sua própria menstruação!

Eu comecei por seguir maioritariamente jornalistas, porque posso assegurar que o Twitter é uma excelente fonte de informação e, por vezes é mesmo ali que as notícias "acontecem". Comecei depois por mandar uns bitaites nas conversas dos outros. E depois a verdade é que: "primeiro estranha-se mas depois entranha-se". 

E uma rede social é aquilo que nós quisermos que ela seja. Sim, o Twitter pode ser, como agora se diz, "tóxico", mas tudo depende também do nosso comportamento. Eu não estou ali para me chatear, ou para andar a insultar os outros ou a discutir com quem não conheço. Estou ali para minimamente me informar (lembrar que nem sequer vejo televisão) e para escrever umas larachas, maioritariamente sobre política, e trocar uma ideias. 

E se o Instagram é a rede social das gajas que abanam o cu e o Facebook foi a rede social "pimba", o Twitter é onde está a elite pensante, e talvez por isso me tenha sentido muito confortável por lá. Porque gosto de pensar. 

Mas, como em tudo hoje em dia, também no Twitter encontramos uma manada de carneiros que gostam de caminhar todos para o mesmo lado e a ditadura do pensamento único. E ai de quem ousar pensar pela sua cabeça, pois logo é linchado. Já me aconteceu uma vez, a propósito de Tomás Taveira e terei perdido alguns seguidores mais sensíveis - mas, por vezes também é bom sacudir a Árvore dos Seguidores, para ver se estão bem agarrados e alguns mais podres poderem cair ao chão - mas tudo bem na mesma. 

Eu gosto do Twitter com as suas muitas virtudes e os seus defeitos. 

Se tenho pena de só lá ter chegado tão recentemente? Tenho. Mas, como comecei por escrever, "as coisas são como são". Se calhar, se em 2010 tivesse ido para o Twitter, hoje teria milhares de seguidores mas não teria criado os blogues, que me são muito queridos, e dos quais não desistirei, apesar de saber que tenho andado muito ausente (fruto do cansaço e ocupação dos últimos meses). 

E já agora, a propósito deste artigo do Público que partilho, é curioso pois não fazia ideia quem era a Carmo Afonso. Segui-a porque tropecei num seu tweet e ela simpaticamente seguiu de volta. Percebi depois que também é argumentista (e em tempos falou-se muito de um filme que ela escreveu mas que eu ainda não vi). E pode-se dizer que é uma das figuras do Twitter português. É muitas vezes olhada como uma ovelha negra e saco de pancada por, tal como outras pessoas (como a Constança Cunha e Sá que também por lá anda) ousar pensar pela sua cabeça e ir além do pensamento único da manada.