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sábado, 15 de novembro de 2025

Tudo o que Leio é Sobre a Minha Mãe


Quando estamos preocupados com algo, ou algo nos ocupa a mente, de repente, parece que só vemos isso à frente. Como se as coisas nos aparecessem propositadamente, mas não, como estamos muito preocupados ou focados em determinada coisa, reparamos nessas coisas que normalmente não darímaos tanto valor. E foi o que me aconteceu com a doença da minha mãe. 

Há seis meses, quando partilhei no Bluesky excertos do texto "Cuidar dos pais nos faz pensar sobre finitude" de Cláudia Colluccino (Folha de São Paulo), legendei com "Tudo o que leio é sobre a minha mãe" e aqui deixo um excerto, mas acrescento também um artigo sobre o tabu da morte de Régis Debray publicado na mesma altura no jornal espanhol El País. 

Como os textos estavam aqui nos rascunhos do blog e demorei tanto a decidir-me deixá-los aqui, vou agora acrescentar também mais dois artigos. Um sobre como é viver sabendo que se tem uma doença terminal, publicado em junho no jornal espanhol La Vanguardia, e, mais recentemente, um artigo sobre a felicidade tóxica e as "patrulhas do luto", publicado, tal como o primeiro, no Folha de São Paulo.

"Foi na primeira vez que tive que dar um banho na minha mãe que a ficha caiu. Naquele instante, os papéis de cuidados haviam se invertido e eu nunca havia me preparado para isso. Três semanas antes, ela havia tido um diagnóstico de um silencioso câncer avançado.


Cinco semanas antes, ela tinha me recebido com meu prato favorito. Sete semanas antes, ela se divertia comigo, brindando a vida em uma cantina italiana. E agora lá estava eu diante daquele corpo frágil, que sempre foi meu colo, o meu remanso, precisando de ajuda para as necessidades mais básicas.

Eu que sempre valorizei o conhecimento, com mais de 20 anos de estudo, entre graduação e pós-graduações, não me atentei para o fato de que, sim, cuidar dos nossos pais exige aprendizado. Às vezes, de forma rápida e sem manual de instruções.

(..) Acompanhar de perto o envelhecimento dos meus pais (e envelhecer junto com eles) me fez enxergar como é importante o planejamento para tornar esse período da vida mais suave.

Desde o ponto de vista emocional, para encarar a fragilidade daqueles que, para nós, sempre foram sinónimos de fortaleza, até para decisões financeiras, já que os custos serão altos, e escolhas de fim de vida
.

Mas nem tudo é dificuldade. Há muita beleza e benefícios em acompanhar o envelhecimento dos pais. Cuidar deles permite que a gente reveja laços, acerte pendências, e aprenda muito sobre empatia e compaixão.


Encarar o declínio de alguém que a gente ama também nos faz refletir sobre a nossa própria vida, finitude, valores e sobre como queremos ser cuidados na nossa velhice".



“O tabu que era o sexo agora é a morte”

Ele encarou a morte de frente uma vez. Foi em 1967, quando, após combater ao lado do Che Guevara, foi capturado e torturado. Passou quatro anos numa prisão na Bolívia e foi condenado à pena máxima. Relata esses momentos, quando pensava que seriam os últimos: “É curioso, porque primeiro entra-se em pânico, mas no fim, quando se acredita que chegou o momento, torna-se quase um espectador. Estava perante o pelotão e, na verdade, era uma simulação, mas eu não sabia. Há um momento em que tudo se torna leve. Resignamo-nos”, explica Régis Debray.

O filósofo (Paris, 84 anos) publicou há dois anos O Último Suspiro, uma obra a duas vozes em que, juntamente com Claude Grange, chefe de unidade de cuidados paliativos, aborda a importância do acompanhamento nos últimos momentos de vida. Foi nessa experiência que se inspirou o cineasta franco-grego Constantin Costa-Gavras, de 92 anos, para o seu último filme, com o mesmo título, estreado hoje em Espanha.

Um “trabalho corajoso” que aborda “o tabu deste século”, explica Debray na sua casa em Houdan, uma vila a 70 quilómetros de Paris, um templo cheio de livros classificados por género, rodeado de prados verdes e amarelos. “Não podemos aprender a morrer, claro que não. Podemos aprender a ver morrer, mas aprender a morrer é absurdo, quase cómico”, analisa.

Aos 84 anos, Debray refugia-se neste espaço após uma vida cheia de risco e épico: foi amigo de Fidel Castro e depois juntou-se ao Che Guevara para tentar expandir a revolução até à Bolívia. Embora não queira aprofundar muito esse episódio: “Na verdade, só estive prestes a morrer aquela vez.” “Temos de aceitar a ideia de que o homem é mortal. Por isso, no contexto dos cuidados paliativos, o problema é ver morrer”, aprofunda.

Contudo, nas visitas que fez a esses centros, para escrever O Último Suspiro, apercebeu-se de uma realidade: “Os médicos que lá trabalham não estão tristes. Não há nada de fúnebre nos centros paliativos, os profissionais de saúde estão bem-dispostos, isso surpreendeu-me”, salienta. Em França morrem por ano 600.000 pessoas e “existem apenas 200 centros paliativos. Fala-se em multiplicá-los, sim, mas há poucos voluntários”. As mulheres, diz, “são mais corajosas perante a morte, talvez por terem dado à luz e terem mais resistência à dor; creio que têm menos medo da morte”.

Em O Último Suspiro, a vida e a morte - ou a sua aproximação - reconciliam-se através de uma conversa: a que mantêm um médico responsável por um hospital de cuidados paliativos e um escritor, interpretados pelos atores Denis Podalydès e Kad Merad (Debray e Grange). No elenco participam também as atrizes Ángela Molina e Charlotte Rampling.

“Queria fazer um filme mais divertido”, reconhece Debray, mas Costa-Gavras “preferiu fazer um filme não sobre a morte, mas sobre a prevenção, uma ode à vida. É muito corajoso num momento em que fazemos de tudo para apagar a morte, porque ele propõe o debate, não o evita, e faz um filme sobre um tema tabu”.

A morte é rejeitada, ocultada, negada e transformada em algo “quase clandestino”, assegura. “Durante o século XX o tabu era o sexo; no século XXI já não é tabu, e nisso Freud teve grande influência. Hoje é a morte, um tabu mais difícil de ultrapassar do que o do sexo.”

Embora tenha sido um firme defensor da laicidade em França - a separação entre Igreja e Estado (foi um dos primeiros membros do comité pela laicidade da República Francesa) - Debray analisou o papel da religião e da fé nos grupos sociais. Considera que o declínio do cristianismo influenciou muito este repúdio à ideia de morrer. “Antes era apenas uma etapa, não uma partida definitiva, mas o desaparecimento relativo da fé e da crença no paraíso, e sem a ideia de ressurreição, transformou-a cada vez mais num tabu.

EUFEMISMOS

A prova disso, defende, é a forma como a cobrimos de eufemismos: hoje não se fala em morte, mas em fim de vida; o cancro é “uma longa doença”; um “velho” é um sénior; e a eutanásia é “uma ajuda para morrer”. “Tudo muito politicamente correto. Fazemos de tudo para evitar a morte física e moral, e há pudor em falar sobre ela”, denuncia.

Também perdeu o seu lugar nos rituais, fruto dessa decadência da fé e, nessa tentativa de a apagar do mapa, “já não há cortejos fúnebres, como os que antes atravessavam as aldeias para que as pessoas se despedissem do falecido; o luto desapareceu, o espetáculo da morte está proibido, tornou-se algo clandestino e faz-se de tudo para que não se torne um problema. Tornou-se uma obscenidade”. Quase, denuncia, está a desaparecer o velório: antes velava-se os mortos em casa, e “hoje tornou-se algo incómodo”.

Nos dias que se seguiram à entrevista, Régis Debray teria de se submeter a uma intervenção, o que não o impede de pedir um cigarro à esposa. Passeia-se pela sala rodeado de livros enquanto reflete. A morte é um tabu, mas teremos menos medo da morte dos outros do que da nossa? “Também aí, cada vez a aceitamos menos. Antes podia tirar-se uma fotografia de alguém que tivesse falecido, agora está proibido.

Recorda que uma das últimas fotos de falecidos célebres publicadas na imprensa foi a da cantora francesa Edith Piaf, que morreu a 10 de outubro de 1963. Foi no mesmo dia que o poeta Jean Cocteau, mas “ela ocupou as capas da imprensa e ele, as páginas interiores”. Este último “teve o azar de morrer no mesmo dia que uma figura tão popular como ela. Até para morrer é preciso escolher bem o dia”, reflete com ironia.



"Em novembro de 2023, Sílvia Socias (Barcelona, 1975) começou a perceber que algo não estava bem. Sentia dores numa perna e começou a andar mais devagar do que era habitual. Decidiu consultar um neurologista. Este foi o início de uma longa peregrinação por várias consultas médicas que terminou no início de 2024. O resultado? Esclerose lateral amiotrófica (ELA). Confessa que o diagnóstico provocou-lhe “um colapso brutal”. Mas com o tempo, conseguiu encarar a situação de outra forma. E tudo graças ao seu esforço, ao apoio da família e dos amigos, e ao acompanhamento da Fundació Catalana d’ELA Miquel Valls, cujo departamento de psicologia integra o programa de atenção integral a pessoas com doenças avançadas, promovido pela Fundação La Caixa.

Embora o diagnóstico só tenha sido confirmado no início de 2024, ela já suspeitava há bastante tempo que se tratava de algo grave. Ainda assim, mantinha a esperança de que pudesse haver alguma solução médica para o seu caso. “Mas quando pronunciaram a palavra ELA, foi um colapso total”, conta ao La Vanguardia. Nesse momento, diz, sabemos que temos um prazo de validade: “Dizem-te que estás a morrer”.

Todos sabemos que um dia chegará a nossa hora - argumenta -, mas acreditamos que ainda falta muito. Tenho dois filhos, uma rapariga de 13 anos e um rapaz de 7. A primeira coisa em que se pensa é que não os veremos crescer, que também não poderemos envelhecer ao lado do nosso marido. Nesse momento, vivemos um luto muito grande”.

Com o passar do tempo, no entanto, conseguiu ultrapassar essa fase. “Percebemos que é preciso seguir em frente, que os meus filhos ainda têm a mãe, e que é preciso viver o momento, porque é um presente. É verdade, estou doente e a piorar progressivamente, mas tento ser positiva e fazer as coisas de que gosto”.

Admite que explicar a situação aos filhos foi muito difícil. À filha, a mais velha, conseguiu contar com mais detalhe. Já ao mais novo, não. “Só lhe disse que estou doente. Ele pergunta-me se vou morrer um dia. Digo que sim, mas que não será hoje nem amanhã”.

Eles - relata - foram testemunhas do seu agravamento. De caminhar, passou a usar muletas. Pouco tempo depois, cadeira de rodas. “No meu caso, a doença avança muito rapidamente”, lamenta. No entanto, ainda conserva algumas capacidades: “Ainda consigo mexer um pouco os braços, falo bem, consigo escrever alguma coisa, ler, embora esteja totalmente dependente”.

Afirma que a Fundació Catalana d’ELA Miquel Valls tem sido uma grande ajuda, tanto com a terapia individual como com o grupo de apoio, onde pessoas afetadas pela doença – que ontem teve o seu dia mundial – partilham as suas experiências. No início, estava relutante – “pensava que seria lembrar constantemente que estou doente”, diz – mas acabou por se revelar muito benéfico. “No grupo há pessoas muito positivas e com muita vontade de viver, e isso ajudou-me muito”.

A fundação procura incentivar e promover estes grupos. “Criar espaços onde possam interagir entre si é muitas vezes mais poderoso do que qualquer intervenção individual”, afirma Maria Dalmau, psicóloga da instituição.

“São pessoas que estão a viver a mesma situação e podem partilhar conselhos e experiências. Encontram conforto ao falar entre elas. Alguns doentes pensam: ‘Se alguém como eu consegue encontrar sentido na vida, eu também posso’”.

A entidade oferece apoio em todas as áreas: física, psicológica e social. “Ajudam-nos em cada fase da doença, que vai evoluindo. Ajudam com a tecnologia. Por exemplo, se precisares de um guindaste porque o teu marido já não te consegue levantar”, explica Sílvia. A fundação conta também com uma terapeuta ocupacional e ajuda a agilizar a documentação necessária.

Para os seus profissionais, como Maria Dalmau, não é fácil lidar com pessoas que sofrem de uma patologia sem cura. “Ver que o nosso trabalho pode melhorar a qualidade de vida delas é reconfortante”, aponta. “Vivemos situações difíceis, mas sentimo-nos gratificados com o cuidado que damos. Vemos que o nosso trabalho tem sentido”, acrescenta.

Sílvia lamenta não ter sentido qualquer melhoria após a entrada em vigor da lei contra a ELA, em 1 de novembro de 2024. “É contraditório: a doença evolui muito depressa, mas os processos são muito lentos. Desespera-te. Tens consciência de que os trâmites não acompanham a rápida progressão da patologia”, conclui.



ClaudiaQuando minha mãe morreu, aos 62 anos, após dois anos e meio de sofrimento com o câncer, algumas amigas ficaram preocupadas comigo: “Mirian, você tem que sair, se divertir, seguim frente. Tem que pensar positivamente, ir dançar, fazer algo diferente, arranjar um novo amor”
"As patrulhas do luto e adeptas da felicidade tóxica enxergavam a minha tristeza como doença. Elas acreditavam que a minha tristeza era contagiosa.

Quando acompanhei meu pai, desde o primeiro minuto em que ele descobriu o câncer até o dia em que ele partiu, aos 68 anos, perdi dez quilos. No enterro, uma tia disse: “Mirian, você está um cadáver, parece que saiu de um campo de concentração”.

Assim que voltei a dar aulas, uma colega da UFRJ me elogiou: “Nossa, como você emagreceu, está linda. O que posso fazer para ficar com esse corpinho? Estou morrendo de inveja. Veja o lado bom da perda”.

No dia 17 de abril de 2022, quando perdi o amigo que mais amei em toda a minha vida, achei que iria morrer de tanta tristeza. Minhas amigas insistiram: “Mirian, você tem que sair da toca, não pode ficar tão enclausurada, vai viajar, toma antidepressivo, tem que curar essa tristeza”. Fiquei na minha toca e escrevi “Memórias de uma Antropóloga Malcomportada” em homenagem ao meu melhor amigo.

Meu maior arrependimento é não ter escutado as histórias dos meus pais. Não conheço as suas histórias e, portanto, não conheço a minha própria história. Por isso, quando a Unicef me convidou para participar de um projeto sobre legados que transformam, tenho pensado muito no meu legado para as novas gerações.

No vídeo que gravei para a Unicef, falei que tenho um sonho: construir A Casa da Bela Velhice. Brinquei com a palavra “casa”: C de coragem, A de autonomia, S de significado e A de amizade.

A Casa da Bela Velhice será um espaço acolhedor para ensinar jovens e crianças a “a arte de escutar bonito” os velhos de hoje e os velhos de amanhã. A Casa da Bela Velhice será um lugar para ensinar a enxergar a beleza da velhice, um espaço em que os mais velhos se sentirão amados, cuidados, protegidos, respeitados e valorizados.

A Casa da Bela Velhice será o melhor lugar do mundo para brincar com a criança que nunca deixamos de ser. Uma casa em que os velhos de hoje e os velhos de amanhã, juntos, irão descobrir que nunca é tarde para amar, brincar e sonhar com um mundo em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele e sim pela beleza do seu caráter. Livres, somos livres enfim...

A partir do seu sofrimento nos campos de concentração, de 1942 a 1945, após perder a esposa grávida, o pai, a mãe e o irmão assassinados pelos nazistas, Viktor Frankl, no livro “Em busca de sentido”, escreveu que acreditava na capacidade humana de transformar criativamente os aspectos negativos da vida em algo positivo ou construtivo. Ele chamou de “vazio existencial” a sensação de falta de sentido da própria vida.

Depois de perder as pessoas que eu mais amei na vida, descobri o significado da minha vida no amor incondicional, no trabalho, na criação e nos meus projetos de vida. Em tempos em que existe uma felicidade tóxica, sei que tenho a liberdade de escolher a melhor atitude para transformar a realidade perversa e cruel que os mais velhos sofrem dentro das próprias casas e famílias.

Aprendi com o meu melhor amigo, de 98 anos: “Tem que ter coragem, Mirian. Coragem, você vai sim!”.

Miriam Goldberg | Folha de São Paulo

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Alter Ego


No velório, uma prima perguntou:
- Não vais pôr no Facebook que a tua mãe morreu?

Hoje, a mesma pergunta:
"Tu colocaste nas redes sociais que a tua mão morreu?"
Não, até porque eu não tenho redes sociais. 
Quem tem redes sociais é o Königvs.  

sábado, 31 de dezembro de 2022

Não lhe Dava Mais de 36

 A minha mãe pergunta-me que idade tinha a cantora (Cláudia Isabel) que morreu há dias de acidente de viação. Googlei mas o mais engraçado é que, os dois primeiros resultados, e estamos a falar de sites de jornais (Jornal de Notícias e Diário de Notícias), supostamente fontes de informação fidedigna, e surpreendentemente dão-me resultados bem diferentes:


Que 2023 nos continue a brindar com informação rigorosa!

Pista Sobre uma Morte Inesperada

 

fineartamerica.com

Foi no verão de 2018 que acordei morto num quarto de Hotel. E, não sei como é com o resto das outras pessoas e se têm a mesma sensação do que eu, mas na minha vida parece que tudo se repete e volta a repetir - e é curioso que ainda hoje fiquei a saber que aquela cantora Claudisabel, que recentemente morreu de acidente de viação, já tinha dito que havia tido um outro no passado, e que lhe deixou sequelas - e também eu, lá voltei a morrer da mesma forma absolutamente estúpida. 

Tinha acabado de chegar ao quarto com a cabeça aberta e toda ensanguentada. Trouxe gelo. Mas mais importante, ainda me lembrei de escrever um bilhete a explicar o sucedido: "bati na mala e abri a cabeça". 

Já sabia que havia a possibilidade de acordar morto e depois como é que ia ser? Iam dar comigo com a cabeça toda ensanguentada. Ia ter que vir a polícia judiciária e chatear os meus pais e os meus colegas do ténis-de-mesa iam ser suspeitos, afinal, tinham sido as últimas pessoas que me viram vivo. E quem é que iria ser suspeito de me ter dado uma bordoada na cabeça? E porque motivo? Nunca ninguém iria desvendar o mistério! Isto ia ser pior do que o filme da Madeline McCann! Assim o mistério estava já desfeito numa folha branca com letras maiúsculas. Uma pessoa assim morre descansada!

Já era quase meia noite quando me lembrei que no dia seguinte tinha combinado de ir entregar as rodas do meu Scarlet. E ainda por cima ia trabalhar no dia seguinte, o último dia de trabalho de 2022, depois de uns dias de férias meio compulsivas, porque, voluntariamente, nunca me lembraria de gastar os poucos dias de férias que temos, ali entre o Natal e o ano novo. E lá as fui buscar aquela hora para não o ter que fazer na manhã seguinte antes de ir para o trabalho.

O impacto foi tão violento que percebi de imediato que a situação era grave. Meti a mão na cabeça e esta veio pintada de vermelho. Tinha aberto a cabeça e feito um belo dum hematoma, Enfiei a cabeça debaixo da caleira, e ali fiquei, durante uns minutos, a lavar a cabeça com água da chuva a jorrar por cima da cabeça tentando estancar a hemorragia.

Fui para casa, não incomodei ninguém. Meti-me na cama e esperei pelo sono profundo.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Querido Blogue, desculpa...

Querido blogue, desculpa. 

Sei que tenho andado muito ausente e não te tenho dado a devida atenção. Provavelmente nestes quase oito anos nunca passei tanto tempo sem te escrever e certamente que não foi por falta de assuntos ou acontecimentos para relatar. Mas a verdade é que, se comecei muito bem o ano com 22 publicações no mês de Janeiro, estas caíram para 10 em Fevereiro e para 2 em Março, desde então tem sido um longo vazio de cinquenta dias. 

E, como já por aqui eu mesmo refletia em 2014: 

"Os blogues são como o sexo, quanto menos se escreve menos apetece escrever".

Pois então comecemos já a aquecer com os preliminares. A minha ausência pode ser explicada com um absurdo volume de trabalho nos meses de Março e Abril, que teve como resultado algum esgotamento físico e mental. E, tal como ler é exigente porque exige concentração, e é bem mais simples virar vegetal em frente da televisão ou estar na internet, escrever, mesmo que seja uma verborreia qualquer como a minha, é igual, pois exige concentração. Talvez por isso, e a frase não é minha, Trump, escrevia muito no Twitter mas nunca teve um blogue. 
 
Mas o cansaço e até algum esgotamento mental não explica tudo para esta ausência tão prolongada. A verdade é que as redes sociais, também me têm consumido bastante tempo, nomeadamente o Twitter. Por estes dias até me perguntava se, acaso tivesse eu descoberto o Twitter em 2009 quando apareceu por cá, (e a verdade é que, quem me rodeava na altura só me falava das maravilhas da nova rede social onde se podia plantar alfaces) se hoje teria algum blogue. Mas não sei, porque uma coisa não implica necessariamente a outra. 

Se a rede social é algo tribal, já o blogue é o diário em que refletimos e escrevemos para nós. Se é verdade que o blogue não nos dá o rebuçadinho imediato dos gostos e não nos alimenta tanto o ego, por outro lado também não temos que nos sujeitar à censura e ao ruído da tribo, ainda que isso também pouco me incomode. Cada vez mais um blogue é mesmo um diário guardado na internet que ninguém lê, e isso é ótimo na mesma, e isso até pode ter vantagens. 

Aproveitando que voltei aqui hoje a escrever, e para fazer um ponto de situação da minha vida pessoal, dizer que talvez esteja num ponto de viragem. Se calhar é como se a carta da Morte me tivesse saído no tarot, e isso significa, precisamente o "fim de uma fase", "estoicismo", "desapego", quem sabe, a multirresistência em face da adversidade. E que signifique também o regresso à blogosfera. E que a próxima publicação siga já dentro de momentos...

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

As Últimas Ameixas da Vida

Há coisa de um mês decidi-me a arrancar a enorme estrelícia que tinha em frente da casa. Não, não foi propriamente um "Querida Mudei o Jardim", foi mais um já-estava-farto-de-tanta-raiz-a-tomar-conta-do-relvado-e-farto-de-ter-que-a-cortar-e-podar-em-volta-que-vou-fazer-uma-limpeza-nisto-tudo. Já tinha até começado a cavar em volta (a tarefa não é propriamente fácil) até que os pais, como estão por casa, ofereceram-se para ir lá a casa arrancar aquilo.

No dia em causa que isso aconteceu, cheguei a casa e passado um bocado ouço o meu vizinho a chamar por mim. Este meu vizinho mora duas casas ao lado mas que inicialmente até viveu mesmo ao lado porque aquelas casas são todas da mesma família. Eu cresci ali, naquela rua, e desde pequeno que fui convivendo, ainda que à distância, com os vizinhos, e sempre me habituei a respeitar aquele senhor, que inicialmente usava um bigode e que para ali veio morar porque casou com a filha dos donos daqueles terrenos e que na altura conduzia um Opel Kadett preto de matrícula AU.

Ele chamou por mim e foi subindo o passeio com um saco plástico na mão. Disse-me que, como tinha visto os meus pais por ali, foi apanhar umas ameixas para lhes dar, mas que entretanto quando voltou já os meus pais tinham ido embora. Confiou-mas então a mim para as entregar aos meus pais.

Via Piterest
Não muitas semanas antes tinha-o apanhado a passar na rua e estivemos a conversar. Falamos de várias coisas. Disse-lhe que tenho sempre muito que fazer no jardim, falei-lhe do relvado e ele disse-me que não há nada como andarmos entretidos a jardinar a cuidar das nossas coisas. Quando falamos do relvado, contei-lhe até da minha pequena extravagância de ter comprado um escarificador e até o convidei a ir lá à garagem ver, e ele ficou admirado com a grande máquina que comprei. Grande e potente, "fizeste uma boa compra por esse preço", disse-me. Por momentos parecíamos dois homens a apreciar o novo bólide que um dos dois tinha comprado!

Foi há cerca de cinco anos que soube que ele estava doente e isso revoltou-me porque parece mesmo que "coisa ruim não tem desvio" e que só os bons é que se vão antes do tempo. Ele deixou de trabalhar e estava sempre por casa. Mas sempre o vi a trabalhar em casa, nas mais variadas tarefas como cuidar do jardim e do pequeno quintal por onde andam galinhas e patos por entre árvore de fruto, e sempre o vi bem disposto e alegre, ainda que muitas vezes, como é compreensível, se protegesse e recolhesse mais.

E se é verdade que eu sempre tive o hábito de me despedir das pessoas como se fosse a última vez que as vou ver - "tudo de bom!", até porque um dia isso irá mesmo acontecer, com ele, fazia mesmo sempre questão de, sempre que por ele passasse na rua, de carro, ou o via passar da minha casa, sempre fiz questão de lhe dar um aceno e um sorriso sincero. Em boa verdade, já fazia antes de saber que estava doente, mas agora fazia-o ainda com mais sentimento, como que a transmitir-se uma força subliminar, que estamos todos a torcer por ele.

Mas, inesperadamente, no penúltimo fim-de-semana, que ainda por cima fui passar fora, liga-me a minha mãe em choque. Ele tinha morrido e sido enterrado no dia anterior, sem que os meus pais, que moram a setecentos metros de distância, tivessem sabido e podido ir ao funeral, porque não tocou o sino da igreja, que na aldeia serve de alerta que alguém morre.

No telefonema a minha mãe dizia-me que já tinha chorado mais do que se fosse uma pessoa de família, porque, digo eu, não são os laços de sangue que obrigatoriamente nos fazem estar mais ou menos ligados a alguém, é o sentimento que temos por alguém que faz com que determinada pessoa seja importante para nós. E um vizinho, a quem quase só dizemos "olá", mas que temos em grande conta, pode-nos ser mais precioso que alguém da nossa família com quem não temos ligação e que só vemos, com sorte, de dez em dez anos em algum funeral.

A minha mãe viu naquele gesto generoso naquele saco de ameixas (que eram mesmo muito boas) oferecido semanas antes de partir, o simbolismo de se despedir de nós. Talvez tenha sido... não sei, só ele saberá. Mas o que sei é que aquela Rua das Flores ficará mais silenciosa, mais pobre e, senão todos, eu, pelo menos, lhe sentirei bastante a falta. Até sempre R...

domingo, 30 de setembro de 2018

Acordar Morto Num Quarto de Hotel

Que puta de morte mais estúpida, pensei. Como é que eu me fui matar assim? Isto até poderia aparecer naquele programa das mil diferentes maneiras de morrer, simplesmente duvido que eles fossem descobrir as verdadeiras circunstâncias da minha morte. Afinal, eu apareci ali, morto, sozinho num quarto de Hotel (que na verdade até era um prédio de Alojamento Local).

Quem havia de dizer. Foi mesmo caso para pensar "ninguém diga que está bem"! Um gajo trabalha uma vida toda para ter uma morte em condições, para depois morrer assim, da forma mais estúpida possível, num quarto em Lisboa na Praça da Figueira.

Deitei-me cedo e cedo terei aterrado pouco depois, afinal, passear também cansa. Antes de adormecer nem sequer ainda me tinha apercebido que o quarto tinha televisão. Só reparei nela depois, de manhã já depois de morto.

Acordei a meio da noite e, ao acordar, não sei como é que consegui aquele feito de bater com a cabeça na quina viva da mesinha de cabeceira que estava mesmo encostada à cama que era pequena. Passo a mão pela cabeça e sinto os dedos todos molhados. Acendo a luz do candeeiro e de imediato vejo os dedos marcados a vermelho no interruptor. Tinha as mãos cheias de sangue.

fineartamerica.com
Levanto-me, vou ao espelho, e vejo o sangue a escorrer todo pela cara abaixo. O meu sangue era bastante fluido e não era azul como o dos ricos, era mesmo de um vermelho bem vivo. Mais parecia que tinha entrado num filme de terror e ia sair daquele quarto para a morgue.

E é assim que um gajo morre, sozinho num quarto de um prédio de Alojamento Local a pensar como é que será quando de manhã, quando nos descobrirem ali morto, tudo nu, e cheio de sangue na cabeça e na cara e com vestígios de sémen nos lençóis.

Mas ainda não foi desta que o jogo acabou. Foi só apenas uma vida que se foi ao ar e agora tenho é de passar a ter mais cuidado com as que restam.

sábado, 22 de setembro de 2018

Tenho que Avisar no Blogue que vou Morrer logo ao fim do Dia

Tenho que avisar no blogue que vou morrer logo ao fim do dia. 
Acho que estou num hospital.... Não consigo perceber muito bem. Talvez seja uma cadeia, ou pelo menos estou preso de alguma forma. 
Sei que a decisão chegou e vou morrer logo ao fim do dia. 
Tento convencer-me que todos temos que morrer. 
Até que abraço a minha mãe e fico num pranto. 
E de repente penso que tenho que informar no blogue que vou morrer logo à tarde para as pessoas saberem.
Até que acordo e vou à casa de banho. E volto feito morto-vivo. 
São 3:12. 
Parece que o meu espírito ainda não voltou para o meu corpo. 
Bem, vou ver se durmo outra vez. 
Mas antes vou avisar no blogue que vou morrer logo ao fim do dia. 



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Constatações Às 5 da Manhã

O presente é sempre o momento mais próximo que já estiveste da morte.

Não é no futuro que estás próximo da morte, é no presente. Então, vive o presente. E não faças grandes planos para viver no futuro. Porquê? Porque no futuro estás morto.



domingo, 28 de janeiro de 2018

Conversas Improváveis 18

Sentados num banco de pedra junto ao crematório do Prado do Repouso, de onde se podia sentir um leve cheiro a churrasco e virados para o sol envergonhado que nos aquecia num sábado de Inverno, ela constata:

"A única coisa boa que o ser humano faz pelo Planeta é morrer e adubar a terra". 


Via Google Images

segunda-feira, 20 de março de 2017

As fotografias dela: Nua

Não é que eu achasse propriamente que ia morrer, mas uma operação é sempre uma situação de risco, por mais vulgar que seja. Há pessoas que vão tirar um furúnculo e depois acabam por morrer por incompetência médica, por uma qualquer complicação, ou simplesmente por azar. E os azares acontecem a qualquer um. Nós podemos morrer a qualquer momento, talvez a nossa data até já esteja marcada, não sei, mas acho que talvez seja normal, antes de uma cirurgia, refletirmos sobre a eventualidade de podermos morrer.

No dia anterior paguei as contas. Bom, neste caso não era com medo de morrer, pois se morresse, ao menos já não tinha de pagar mais nada a ninguém! Foi simplesmente para deixar as coisas já tratadas, apesar de, em princípio, vir embora do hospital no dia seguinte.

Nós podemos morrer a qualquer momento, mas na verdade nunca preparamos a nossa morte. E da minha morte, para já, só é conhecida a minha vontade de não ter nenhum padreco por perto. Não sou católico, não preciso de nenhum advogado de defesa - que ainda por cima nem sequer me conhece! - para meter uma cunha junto lá do São Pedro. Se for preciso, eu mesmo apresento a minha defesa sozinho, obrigado. Sinceramente, não acho que os 100€ que o padre cobra me irão ajudar de muito. Acho que o devem ajudar mais a ele!

E de repente pensei nas fotografias dela. Nua. 
Eu tenho aquele CD, sei lá, há uns doze anos talvez. Por que é que nunca apaguei as fotografias?Bom, em primeiro lugar aquilo não é de apagar. Apagar está à distância de dois cliques. Num disco compacto implica parti-lo. Não sei, mas parece-me algo de extrema violência. Deve ser o equivalente a rasgar as fotografias em papel ou a queimar os negativos. 

Via Pinterest

Eu guardei as fotografias, em primeiro lugar, porque as fotografias são minhas. Fui eu que as tirei. com autorização da própria. Mas depois também vos pergunto: mas será que sempre que terminamos uma relação, temos de destruir todas as fotografias? Se sim, porquê? Ou são só as comprometedoras? E por que é que teríamos de o fazer? Eu, tantos anos depois, ainda não o fiz, porque na verdade nunca achei que teria de o fazer.

Se não estou em erro, são fotografias a preto e branco. Sem dúvida que as pessoas ficam muito melhor nuas, em fotografias a preto e branco. Incomparavelmente! 

Eu não guardei as fotografias para passar a vida a andar a olhar para elas quando que me apetecesse. Aliás, há muitos anos que não as revejo. Mas também se visse, qual era o problema? Eu estou solteiro, qual é a diferença entre ver fotografias nuas de uma namorada ou, por exemplo, ver pornografia? 

Depois atentemos no seguinte. Eu se quiser ver as fotografias dela, não preciso ir buscar o CD e metê-lo aqui na gaveta do computador. Eu se quiser vê-la nua, basta ir à pasta dela, que está no meu cérebro! As nossas memórias não se apagam! Eu entendo que muitas pessoas destruam tudo que esteve ligado a uma relação anterior, como que se querendo purgar-se do passado. Mas na verdade não acho que isso faça muito sentido, tão simplesmente porque nós não apagamos o passado! Nós hoje, somos o produto de todas as experiências que vivemos no passado! Nós carregamos o passado sempre connosco e de maneiras que muitas vezes nem sequer nos apercebermos. Há pequenos acontecimentos, e que nem sequer tiveram importância, mas que ficarão guardados para sempre, e de vez em quando saltam cá para fora.

Na verdade, acho que a única coisa que me preocupa naquelas fotografias, é quando eu morrer. E não é por mim obviamente, é por ela. Quando eu morrer, já nada vai importar, mas é como se eu me sentisse o guardião da imagem dela contida naquelas fotografias. Talvez eu tenha mesmo que destruir o disco um dia destes, Não sei. Talvez o melhor mesmo fosse eu entregar-lho, mas isso também já não se coloca, desde logo, porque já não temos qualquer ligação há mais de uma década. 

Eu lembro-me frequentemente de uma frase dela quando nos despedimos, e que acho que, sinceramente, também nunca percebi muito bem o que ela quis dizer: "Preserva a nossa história". Preservar significa proteger; resguardar. Então nesse sentido, tem sido isso que eu tenho feito com as fotografias dela. Tenho-as preservado todo este tempo. 

sábado, 29 de agosto de 2015

22 anos

Passam hoje vinte e dois anos que vi o meu pai partir sendo ainda menor de idade. E vinte e dois anos é muito tempo. Os anos passam e o tempo vai apagando algumas memórias, porque a vida tem de continuar. Mas se paramos por um segundo a relembrar o passado, essas memórias começam a voltar aos poucos e tornam-se cada mais nítidas.  

O meu pai não teve uma vida nada fácil. Talvez se lhe adivinhasse uma vida de algum sucesso profissional, pois apesar de só ter a escolaridade obrigatória da altura, era uma espécie de empreendedor e cheio de competências técnicas. A imagem que recordo dele, é de um verdadeiro engenhocas cheio de ideias geniais e de uma habilidade fora do comum.

Mas o destino não se compadeceu e pregou-lhe uma grande partida. Um grave acidente de viação marcou-o com queimaduras pelo corpo, mas marcou-o principalmente para o resto da vida. Tudo poderia ter sido diferente, mas foi assim que as coisas tiveram de acontecer. E tudo mudou. Ainda me lembro de se contar a história, dos irmãos irem de gravata preta, esperando o pior num certo dia, depois do coração ter estar parado uma infinidade de segundos, e dos médicos os terem desenganado. Mas ele resistiu, sobreviveu esse dia, e a outro, e acabou mesmo por passar dois anos enfiado numa cama de hospital. E haveria de sair do hospital pelo seu próprio pé.

Contrariou os médicos e ainda foi a tempo de casar com a mulher que gostava dele, e que por ele sempre esperou, apesar dos "conselhos" de algumas pessoas, que a aconselhavam a desistir - afinal o amor nunca foi incondicional não é? É só na saúde e nos bons momentos. Nos maus, abandonam-se as pessoas, tal como se abandona um cão quando se vai se férias. Mas ele ainda haveria de ir a tempo de casar e ainda foi a tempo de deixar um descendente neste mundo: Eu. 

freeimages.com

E eu muitas vezes como que me culpo por não ter ajudado mais o meu pai. Ajudado naquilo que eu se calhar, hoje acho que poderia ajudar, mais do que as drogas dos médicos. Eu sei que ainda não tinha o conhecimento ou a sensibilidade para tal... E talvez também por isso acabei por me transformar numa pessoa que hoje nunca desiste de ajudar que está por perto...mas infelizmente não fui a tempo de ajudar o meu pai. 

Muitas coisas aconteceram nestes vinte e dois anos. Muitas coisas se passaram na minha vida e que o meu pai não pôde acompanhar. Talvez ele tenha mesmo ido podendo acompanhar ainda que observando as coisas de outro plano, que não o plano terreno. E eu não faço ideia do que ele acharia de mim, do adulto em que me tornei. Nós temos de viver por nós, temos de fazer as nossas escolhas, por vezes cometer os nossos erros, e por vezes temos de fazer as coisas de forma muito diferente daquilo que os nossos pais fariam. Mas claro que gostaria de saber que ele, esteja onde estiver, sentisse um pouquinho de orgulho no filho. Aquele orgulho que ele sentia, quando eu tinha três anos e sabia o nome de centenas de jogadores de futebol nos cromos da bola. "Ele tem de saber ler" diziam as pessoas estupefactas. Mas não, eu só sabia os nomes dos jogadores nos cromos da bola, porque o meu pai, me ensinava os nomes deles, e eu então memorizava-os. 

Há algum tempo, uma amiga transmitia-me a informação: "ele já não anda por cá,  ele já passou para o outro lado". Pois então, e seja esse lado onde for, que esteja bem e que tenha alcançado a paz, pois tormentos, infelizmente, já passou que chegue em vida. 

Até breve. Espero que nos possamos reencontrar de novo, um dia,  nesse tal outro lado. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Vem morte...

"Vem morte, tão escondida, 
que eu não te sinta chegar, 
para que o prazer de morrer 
não me dê novamente a vida."




* Citação de Teresa D'Ávila / Fotos de minha autoria retiradas de um cemitério

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Cancro: Quando eu?

Muitas vezes acontecem-nos coisas negativas, e tão pouco prováveis, que na revolta nos perguntamos "porquê eu"? No que ao cancro diz respeito, trata-se agora só de uma espera. Esperar que nos calhe a nós. Fumadores, não fumadores, gente doente e gente saudável, todos estamos a morrer de cancro. No entanto grande parte das pessoas, incluindo os políticos que têm o poder de mudar muitas coisas, andam todos, a fazer de conta que o cancro, ainda é uma coisa que só acontece aos outros.


São pessoas amigas que nos contam que foram a um funeral de um amigo ou familiar que morreu de cancro; é uma colega de trabalho que nos conta o drama que viveu no processo de quimioterapia; são familiares de quem nada sabíamos há muito que morrem de cancro;  são figuras públicas que morrem de "doença prolongada"; são funcionários públicos que morrem por estar a trabalhar debaixo de telhas com amianto e o governo nada faz, porque não são eles que lá têm de trabalhar; é uma pessoa, sem cabelo que se senta ao nosso lado no comboio, ou passa por nós no centro comercial; e são pessoas que vivem conosco na mesma casa que nós.

É um vizinho, boa pessoa, que aparentava andar cheio de saúde, que se sabe que tem cancro, ao que parece não operável, está por casa sem trabalhar e comenta-se que já não quer visitas. 

Não é fácil lidar com tudo isto. Não é fácil colocar-me na pele dele. Não é fácil, de um momento para outro, sabermos que temos pouco tempo de vida, e que o fim não será dos mais fáceis.

Todos estamos a morrer, é um facto, mas existem muitas formas diferentes de morrer. Nenhum de nós sabe como será a sua morte, mas certamente se nos fosse dada a possibilidade de escolha, ninguém escolheria morrer de cancro. Não é uma forma digna nem misericordiosa. A morte não chega até nós e diz-nos "vem comigo, chegou a tua hora". Não, diz-nos "vais morrer brevemente, mas antes, ficas aí a definhar até não aguentares mais. Depois sim venho-te buscar". 

Mais do que qualquer pessoa, eu tenho uma grande probabilidade de vir a ter - se não tiver já - um cancro. A ciência da medicina ocidental, está a medicar-me, e chegaram à conclusão que, ponderando os pós e os contras, é melhor eu poder morrer de cancro, mas ir tendo alguma qualidade de vida. E isso a mim não me deixa muito tranquilo sinceramente. 

Ponderando bem, começo a perder o medo de andar de avião.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

E se eu estiver morto?

Hoje podia ter morrido. Talvez até tenha mesmo morrido e ainda não sei, tal como a Grace (Nicole Kidman) em "Os outros" não se apercebeu que estava morta, e era ela a intrusa que assombrava, sem saber, os habitantes daquela casa, e não o contrário. Ou como o Malcolm (Bruce Willis) que no filme "Sexto sentido", não se apercebeu que o menino com quem conversava, e que dizia ver pessoas mortas, via-o e conversava com ele, porque ele mesmo também estava morto, e era ele, sem saber, que procurava ajuda junto daquela criança, que tinha a faculdade de comunicar com os espíritos, e não ele, que estava a ajudar a criança como seu psicólogo. 

Na volta a casa explodiu mesmo, eu morri, simplesmente ainda não me desprendi de vida terrena. Ou então estou mesmo vivo porque hoje ainda não era o meu dia.


O primeiro dia - Sérgio Godinho - 1978