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domingo, 14 de dezembro de 2025

Encontrar a Saída


No pântano onde não há vida
Um fedor pútrido apodrece a terra
Apenas as almas solitárias dos mortos
Vivem aqui, tão perto do fim

Uma ténue luz surge no nevoeiro
Brilha como uma estrela no céu
Chama a minha mente a seguir este fulgor
Encanta-me, e não sei porquê

Ignis Fatuus é a luz-guia que conduz os homens perdidos pela noite
Bruma sinistra e o mistério que governam este lugar ao redor
Ignis Fatuus é a única esperança neste pântano sombrio e morto
Deves seguir esta luz mágica para encontrar a saída arcana

Neste pântano, com esta coisa brilhante
Talvez tudo seja irreal
Devia ser mais cauteloso aqui
Nunca se sabe qual é a sua verdadeira vontade

Ignis Fatuus é a luz-guia que conduz os homens perdidos pela noite
Bruma sinistra e o mistério que governam este lugar ao redor
Ignis Fatuus é a única esperança neste pântano sombrio e morto

Deves seguir esta luz mágica para encontrar a saída arcana

GRYMHEART - Ignis Fatuus (2023)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Eloísa de Castro - A Filosofia Heavy Metal - FiloMetal (2)

O El País voltou ao tema do Heavy Metal e da Filosofia, desta vez na revista de domingo, com uma entrevista a Eloísa de Castro que "escreve, canta, pinta, faz teatro e filosofa". E que "através do metal, traz para a actualidade a sabedoria das pensadoras históricas esquecidas que mais a inspiram. Assim, criou um novo género musical: o filometal".

Aqui fica a entrevista na íntegra e, no final, deixo o último álbum da artista que está na sua conta de Youtube.


"O olhar torvo de Camilo José Cela parece pousar sobre esta jovem de cabelo ruivo que posa com um vestido gótico, sob o qual se entrevê um corpo tatuado. Os saltos dourados ecoam sobre o soalho de madeira solene da Galeria de Retratos do Ateneo de Madrid, com rostos de ilustres senhores a observarem a filósofa, ensaísta, cantora de heavy metal e pintora Eloísa de Castro (Madrid, 28 anos). 

Entre os quadros, o da filósofa rebelde María Zambrano, a única mulher rodeada por 28 homens. Ela é um farol intelectual para De Castro. “Acaso não sou livre para sentir? Acaso não sou luz para viver?”, entoa a artista, de sangue burgalês, na sua canção María Zambrano, Ordo Amoris. De Castro recolhe o legado intelectual da pensadora malaguenha para o transportar para um gineceu musical, onde reúne pensadoras ignoradas pelos seus contemporâneos e esquecidas pela história. Fá-lo através do heavy metal, um género difícil para o profano, mas utilizado como veículo para a filosofia ou a ética, a mitologia ou a história. O seu é um exercício contra a corrente em tempos de altifalantes a cuspirem versos sobre quem tem o carro ou o cu maior.

O heavy seduziu essa criança com os seus casacos de cabedal e cabelos compridos. Também explorou o seu lado científico, pois encontrou o seu gineceu quando pediu que lhe oferecessem um microscópio e um telescópio. “Em pequena queria ser Rosendo e Einstein ao mesmo tempo”, comenta. Dois pro-homens peculiares. 

Não tinha referências femininas. Aos oito anos perguntou à mãe: “Sou um rapaz?”, pois os seus gostos pareciam masculinos: fascinava-a o metalero Leo Jiménez, vocalista dos Saratoga e grande figura do metal espanhol. “Não, és uma rapariga, com gostos que também são de raparigas”. E então conheceu Doro, diminutivo de Dorothee Pesch, a rainha do metal. E tudo se acelerou. 

“Convido os jovens a experimentar, a serem chonis, rappers, para depois escolherem o seu género e não verem o metal como algo satânico. Infelizmente fizeram-me bullying no secundário por gostar disto. Somos luz dentro da nossa escuridão e procuramos levar cultura às pessoas, não a maldade”, aponta.

@elodecastrofficial

Aquela adolescente foi percebendo pouco a pouco que também há mulheres na música sombria, embora demasiadas vezes enfiadas em espartilhos de couro sexualizados. “Pode ser uma ferramenta de expressão, desde que seja escolha delas. Eu gosto de ser mais elegante, não tão provocadora”, diz a filósofa, que hoje enverga um vestido comprido do qual sobressai a tinta da sua pele. Os nomes do irmão e da mãe, tatuados em grego antigo nas coxas. Num braço, o ícone do seu livro Antiética do Narcisista. Também um dragão, um símbolo, junto a uma chave inglesa em memória do seu avô Manolo e, no alto do peito, o núcleo da questão: a palavra Filometal. “É o meu bebé, a fusão entre filosofia e heavy metal, divulgando filosofia e ciência de teses exclusivamente femininas”, recorda.

Disseram-me que, se não aparecesse com um corpete, uma banda e mais decote, não teria hipótese nenhuma. Eu respondi: ‘Estão a confundir-me com outra pessoa’. Uma mulher que canta, escreve letras e lidera o seu próprio projecto mete medo. Todas as pessoas a quem se pode pedir conselho são homens. Alguns estão bem, mas a outros não lhes agrada que se iguale o seu poder. Se o filometal fosse feito por um rapaz da minha idade, agora estaria a rebentar”, diz a autora, que nas suas obras fala sobre o narcisismo da sociedade e os seus artifícios. Questionada sobre se teme afogar-se no seu reflexo, confessa que a sua psicóloga lhe receita regularmente um: “Não te esqueças de quem és”. Assim consegue aterrar e continuar a criar.

O seu disco de filometal Gineceu (2022) - que terá uma versão em teatro musical em Viagem ao Gineceu, que se apresentará a 27 de Março no Ateneo de Madrid - vai-lhe trazendo ganhos, alguns económicos e muitos morais, como ter conseguido que a sua avó compreendesse o filometal e a incentivasse a nunca se submeter. “A filosofia deve abrir caminho, tal como o heavy metal, através de um palco, lida, ao vivo. Nas redes sociais há muitos divulgadores. Gosto muito da Bea Jordán, tem uma onda muito choni! A filosofia tem de estar na rua, e deve-se debater como se debate A Ilha das Tentações”, ri-se. “Seria espetacular uma Operación Triunfo de filósofas! Levaria a Bea Jordán, a Alba Moreno [uma física divulgadora com estética choni], a La Zowi - estou apaixonada pela La Zowi —, a [a bióloga molecular e candidata a astronauta] Sara García e a Inés Chamil, divulgadora de heavy”.

“Defende o teu direito a pensar, porque até pensar de forma errada é melhor do que não pensar”

“Defende o teu direito a pensar, porque até pensar de forma errada é melhor do que não pensar”, insiste De Castro, que está convencida de que hoje em dia não se pensa, limita-se a seguir a massa. “Em tempos cinzentos, de crise, com pouco acesso à habitação e tudo o resto, os jovens precisam de uma aurora, como falava Zambrano, para nos consciencializarmos de que virá um futuro melhor. A história diz que depois do negro vem a luz”, confia. A artista critica, em tom de brincadeira, o filósofo Immanuel Kant por ter distinguido entre ciências e letras, como se as humanidades fossem inferiores. “As humanidades e a ciência não se entendem uma sem a outra; a filosofia é a mãe da ciência. É valiosíssimo estudar o cancro, mas precisas de ética, de saber ser um bom cidadão, de entender de política, de ter o teu momento artístico. Um bom cientista deve ter uma boa base humanística e vice-versa”.

- Uma mulher que escreve, canta, pinta, faz teatro e filosofa é um homem do Renascimento?

- O Renascimento foi uma boa época. Sem o desmerecer, isto é um remix do Renascimento, é também modernidade. Deveríamos dizer que somos pessoas do Renascimento, agora que estamos a incluir absolutamente tudo.

EL PAÍS, 7 de Dezembro de 2025 Por Juan Navarro | Fotografia de Lupe de la Vallina


Para Sempre Completamente Sozinho


"Olho para o céu
o sol desvaneceu-se
o luar brilha sobre mim
os deuses tocam as suas sinfonias
Sinto-me tão perdido que caio de joelhos
Penso nos tempos que já foram

Não consigo encontrar as palavras certas para dizer
Não sei como dizer adeus

Aqui… aqui estou… a vida é luminosa…
…Não há tristeza… nada nos pode deter…
…Mostrou-nos a esperança… anjo da minha floresta…
…Vi a minha perfeição… na minha própria alma… a morte é injusta… isso é dor real…
…Recordo-te… estou quase morto…
…Eu… eu perdi a minha esperança…
…A minha… a minha vontade de viver…
…O meu último adeus… para sempre… completamente sozinho…

Nos meus olhos não vês orgulho
Nos meus olhos não vês luz
Nos meus olhos vês uma lágrima
Nos meus olhos vês o meu medo
Nos meus olhos vês o meu amor
Nos meus olhos não vês aflição
Nos meus olhos vês o meu ódio
Nos meus olhos vês o meu destino

Para sempre completamente sozinho

All Alone | Sins of Thy Beloved (1997)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A Filosofia Metaleira - e o Porquê dos Metaleiros Serem Pessoas Pacíficas e Felizes

 Deixo aqui um artigo publicado ontem no El País sobre a filosofia do Heavy Metal. E, já agora, no fim, e porque vem a propósito, adicionei um documentário que já tinha visto no Youtube há uns tempos, sobre o porquê dos metaleiros serem das pessoas mais felizes e pacíficas e estar cientificamente provado que o heavy metal tem um impacto positivo na saúde mental. 


"As chaves da filosofia metaleira: cepticismo, intensidade e honestidade brutal

O rock mais duro é também uma ferramenta para canalizar a rebeldia e para nos lembrar que devemos manter-nos fiéis a nós próprios

Em 1987, os Bruque cantaram “o heavy metal não é violência”. Agora, tantos anos depois, algumas vozes perguntam-se se esse tipo de música - um ruído infernal para muitos - esconde uma missão luminosa nas suas entranhas. Uma coisa é verdade: quando chega a hora de viver, perante a paisagem desolada de dificuldades, miséria e morte sem resposta, milhões de pessoas encontram sossego na fúria de um riff de guitarra. “O metal é uma transgressão existencial - explica ao telefone o sociólogo e filósofo Hartmut Rosa, autor de Cantam os anjos, rugem os monstros: uma breve sociologia do heavy metal. Entra na escuridão abismal, liberta os monstros e carrega dentro de si um anseio de redenção. Com a sua música procura-se activamente uma experiência genuína e profunda.”

É uma rocha a que agarrar num mar de disparates. “É mais do que música, é uma forma de olhar o mundo com lucidez e rebeldia, de encontrar sentido e irmandade no meio do caos”, reflecte por e-mail David Alayon, consultor e responsável pelo podcast Heavy Mental juntamente com o humorista Miguel Miguel e o engenheiro Javier Recuenco. “A forma como um metaleiro olha o mundo parte de uma mistura de cepticismo, intensidade e honestidade brutal. Não se trata de negar a escuridão, mas de a encarar de frente, transformá-la em força e converter a dor, a raiva ou o desespero em algo criativo e colectivo.

Alguns relacionam as letras do metal com o pensamento existencialista. A jornalista Flor Guzzanti escreve na revista Rock-Art que aquilo que Black Sabbath ou Judas Priest exprimem através da distorção não é assim tão diferente do que Camus e Sartre escreveram: o confronto com o absurdo, a alienação e a liberdade. Descartar o metal é descartar a filosofia feita de som. Alayon concorda. “Partilhamos uma visão existencialista, aceitando que o mundo é duro e que a única coisa autêntica é manter-te fiel a ti mesmo e aos teus.” E vem à cabeça a voz do recentemente falecido Ozzy Osbourne a cantar Electric Funeral, que incita a não nos deixarmos prender numa cela em chamas.

Para Andrés Carmona, autor de Filosofía y heavy metal , o universo sónico da cultura heavy (na sua vertente proto-heavy, thrash, death, grunge, e também hard rock - embora a definição e os limites deixemos para os puristas) é uma boa ferramenta de aprendizagem filosófica. “Ainda que não nos apercebamos, andamos o dia todo a pensar no bom, no justo, no belo. Não podemos não filosofar, e a música ajuda”, explica por telefone. Carmona, professor de Filosofia num liceu de Ciudad Real, usa a canção Gaia, dos Mägo de Oz, para apresentar aos alunos Lynn Margulis e a sua teoria sobre o peso da cooperação na evolução, e explica o conceito de liberdade utilizando Ama, ama y ensancha el alma, uma canção dos Extremoduro que contém versos como “hay que dejar el camino social alquitranado / prefiero ser un indio que un importante abogado” (do poeta Manolo Chinato).


Num artigo da revista Crawdaddy, William Burroughs escreveu que o rock era uma tentativa de sair deste universo morto e sem alma e devolver magia ao mundo. Se assim é, a sua vertente mais heavy procura uma catarse colectiva através da experiência física. A música tem o poder de transformar e, no caso do heavy, “algumas bandas actuam como uma unidade de ressonância que move o público, que quer ser chamado em busca de contacto e transformação junto com outras pessoas”, segundo Hartmut Rosa. Porque, enquanto o presente e o futuro se dirigem para as abstrações do digital, na cultura heavy o ritual físico é fundamental. Há a viagem, o vestuário, o encontro prévio, a explosão da música ao vivo vivida em comunidade e o seu caloroso reencontro quando voltamos a ouvir essas mesmas canções a sós. “Num concerto combinam-se sentimentos, emoções, cantar um tema com outras pessoas ao mesmo tempo. E há também o disco, em vinil ou em CD, a importância das capas, das letras… Não gosto de listas de reprodução”, ri-se o sociólogo alemão.

Na parafernália heavy metal há luz e trevas, há anjos e demónios, infernos e céus, fadas e monstros - uma encenação alimentada por uma imaginação que joga com certa ironia romântica, que leva as coisas meio a brincar, meio a sério. Mas há uma certeza: seja na Alemanha, em Espanha, na Noruega, no Japão, no Irão, na Argentina ou na Austrália, para a irmandade metaleira a música é fundamental. Segundo um estudo do psicólogo Nico Rose — autor de Hard, heavy & happy, um best-seller na Alemanha -, quase 40% dos 6 mil inquiridos concordaram que o metal os afastou de pensamentos negros, com a sensação de que “lhes tinha salvo a vida pelo menos uma vez”.

O embrião do heavy metal está em Birmingham, um dos epicentros da revolução industrial inglesa (e com uma riquíssima tradição musical nos anos sessenta do século passado). Os seus maiores representantes no início dos anos setenta - Black Sabbath, com Ozzy Osbourne à cabeça, ou Judas Priest - vinham da classe trabalhadora ou eram quase marginalizados. E outros grupos, como Saxon, Iron Maiden, Slayer, Anthrax ou Metallica, também. Talvez por isso as suas canções sejam hinos contra a ordem social, o controlo ou a falta de liberdade, e os seus seguidores constituam uma imensa “comunidade de marginalizados voluntários que encontram nos riffs, nos concertos e na estética do metal uma forma de pertença sem submissão. Ninguém te exige que acredites em nada, apenas que sintas e resistas”, segundo Alayon.

Mas será que essa comunidade aceita todas as pessoas por igual? Há quem considere que o universo heavy é sexista e heteronormativo até ao paroxismo. No entanto, faz mais de 25 anos que Rob Halford, vocalista dos Judas Priest — considerado o Deus do Metal — se assumiu abertamente como gay, e figuras como Girlschool, Thundermother, Doro Pesch ou Arch Enemy desmentem essa uniformidade masculina. Mas ainda há trabalho pela frente. Como reflecte Guzzanti, “hoje, os colectivos feministas reclamam espaços em festivais, fanzines e plataformas online, afirmando que a resistência deve ser interseccional. A sobrevivência do metal depende de abraçar esta inclusividade”.

Nietzsche dizia que a vida sem música é um erro, uma fadiga, um exílio. É preciso continuar a procurar - e talvez não seja má ideia fazê-lo através da crueza metaleira. “É preciso aguentar sem medo a dança sobre a fenda existencial: este parece-me ser o feito do heavy metal”, sentencia Hartmut Rosa. Como cantam os AC/DC, for those about to rock (we salute you): A todos os que vão rockar… saudamos-vos.

EL PAÍS – 30 Nov 2025 – por Mar Padilla

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Da Rússia, sem Amor


Tão pequena, junto ao tecto, vou-me escondendo às escondidas
A ouvir cada passo teu
Risos em sussurro atrás de mim, uma voz quase familiar
E eu esqueço-me de respirar

Como acalmar a tua dor?
Leva para ti o meu sono e a minha lucidez
Já não tenho forças para aquecer esta casa
Escondo-me nela, pelos cantos

Respiro fundo, sigo-te feita de lágrimas
Estendo-me no chão como um tapete
A minha casa parte-se toda… queria apenas perder-me nela

E esquecer e adormecer, esquecer e adormecer
Esquecer e adormecer, esquecer e adormecer
Esquecer e adormecer, esquecer e adormecer

Como acalmar a tua dor?
Leva para ti o meu sono e a minha lucidez
Já não tenho forças para aquecer esta casa
Escondo-me nela, pelos cantos


Рушана – Углами (лайв в коридоре) (2025)

domingo, 24 de agosto de 2025

O Nosso Amor Nunca Morrerá

 

"Acordado ao crepúsculo
Suspenso sobre dentes farpados
Línguas insípidas
Rasgam a baía
Esculpindo um sorriso
Tento gritar
Mas os meus pulmões colapsam
Lábios trémulos
Formam súplicas mudas
Estou desonrado
Tu não estás apagado
Traçaram uma linha
Rabiscaram o nome deles
Não é o mesmo

Acordado ao amanhecer 
Membros entrelaçados 
O cheiro de fumo 
E o ar do verão 
Os nossos pulmões partilham 
O primeiro fôlego 
E o suspiro “O nosso amor nunca morrerá”
O sono desfaz
Estes nós no meu estômago
E devolve
O fumo e aquele verão
Os nossos pulmões partilham
O primeiro fôlego
E o suspiro
“O nosso amor nunca morrerá”


Disgraced - Cairiss (2016)

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Eu Costumava Ser Livre

"Eu costumava ser livre
Costumava ter dezassete anos"



Hoje, com os cabelos brancos continuo a ser o mesmo adolescente assustado de quando tinha 17 anos...

Seventeen |Sharon Van Etten (2019)

domingo, 25 de maio de 2025

Muitos Merecem Tudo o que o Futuro Lhes Teserve


Subimos um monte negro
E caímos na desventura 
À espera dum milagre
Sonhando com a fartura
Escolhemos ver apenas aquilo que dá mais jeito
Recusando ter o outro como alguém digno de respeito
Mão no peito a gritar um hino que não nos serve
Fala mano Dino, o sangue deles ferve
A fatura pesará e por muito que me enerve
Muitos merecem tudo o que o futuro lhes reserve


Na Loucura | Carlão | 2025

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tudo Está Verdadeiramente Errado

"Tive de desistir da necessidade de acreditar
Que alguém pudesse vir e salvar-me
Tudo está errado, verdadeiramente errado"



Everything Is Wrong | Interpol | 2014

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Arauto da Ruína


Os ventos da ilusão varrem o vale
Ecos silenciosos de promessas enterradas profundamente numa cova
Pedras desfeitas sob o céu em chamas
O presságio chama enquanto a última esperança morre

Renascido através do fogo
E desperta o silêncio
Discernimos interiormente o clamor do nosso céu
Como um aviso de um rebelde

Os ventos suspiram como tu suspiras
A iluminação aproxima-se
E as tuas esperanças
Nunca alcançarão o outro lado
Na ira eterna de Deus

Os céus expulsaram o ar dos céus gelados
E desnudos, os olhos dos inimigos odiosos para nós
Para percorrer a distância até ao fim do tempo
Para seguir a luz da vida eterna

Os ventos suspiram como tu suspiras
A iluminação aproxima-se
E as tuas esperanças
Nunca alcançarão o outro lado
Na ira eterna de Deus

O presságio, a minha ruína
Através dos seus olhos vejo
Tudo o que nunca serei
O pesadelo do seu grande desejo
Dentro de mim, o seu fogo
Dentro de ti!

Os ventos da ilusão varrem o vale
Ecos silenciosos de promessas enterradas profundamente na cova
Pedras desfeitas sob o céu em chamas
O presságio chama
Mas nada, nada
Devemos morrer


Muito raro acontecer não conhecer uma determinada banda que me seja sugerida pelo Youtube, e ouvir uma música pela primeira vez e adorar logo. Esta banda com nome de suculenta - na verdade Aeonian significa "eterno" - e a sonoridade lembra-me Draconian. É lento e muito triste, mas depois alterna com agressividade, raiva e rapidez. Música lançada no 25 de Abril de 2025. 

sábado, 15 de março de 2025

Isto é uma Coisa que Vem Germinando...

"Quando nós fizemos o "Pelo meu relógio são horas de matar", em que por causa de um videoclip que era inofensivo - não queríamos matar ninguém - mas nós tivemos censura e cancelaram-nos concertos. Isto [fascismo] é uma coisa que vem germinando no tempo... |





Pensamento Único - Mão Morta (2025)

Editado:

A origem do nome Mão Morta:  tem q ver com os "bens de mão morta" da Igreja: "A Igreja chegou a acumular, como consequência de doações ou compras, uma imensa quantidade de propriedades territoriais e urbanas que a tornaram, na Idade Média e no Antigo Regime, na maior proprietária."(Wikipedia)

sábado, 7 de dezembro de 2024

Serj Tankian - o Músico Ativista

Já não sei precisar o ano, mas sei que conheci System of Down no programa de rádio Hipertensão da Antena 3 no final dos anos noventa ou inícios do novo milénio e, se não estou em erro, vi-os ao vivo, em Coimbra, em 2004. Tornaram-se numa das maiores bandas do mundo - e para constatar isso basta ver quando milhões de visualizações têm as suas músicas no Youtube - ainda que, ironicamente e contrariando a vontade do público tenham sempre estado muitos anos parados, não produzindo novos álbuns nem fazendo novas turnês. 

Há muitas especificidades sobre os elementos constituintes da banda e, em particular, acerca do vocalista Serj Tankian. E podemos ficar a conhecê-lo um pouco melhor nesta entrevista da revista brasileira Isto É desta semana:



"Serj Tankian nasceu no Líbano, cresceu nos EUA e vive entre Los Angeles e a Nova Zelândia. Ele é considerado um dos maiores cantores de rock do mundo, liderando a banda System of a Down, mas se você fizer uma procura desavisada pelo seu nome no Google topará com o título de principal ativista da causa armênia no planeta. Entenderá o porquê se ler seu livro autobiográfico que acaba de ser lançado no Brasil: Down with the System – uma obra de memórias (ou algo assim). Seus quatro avós eram armênios e fugiram do país durante o que ficou conhecido como genocídio armênio, promovido pelo Império Otomano (atual Turquia) entre 1915 e 1923. Tankian cresceu com as histórias de seus pais, avós e instituiu como missão principal na vida a batalha pelo reconhecimento do massacre. De Los Angeles ele conversou com ISTOÉ sobre o tema, sobre seu café, continuidade da banda e preocupações políticas.

Todos nós o conhecemos por meio da música mas é difícil classificá-lo: você é pintor, poeta, desenvolvedor de software, promissor executivo dos negócios de família, ativista e cantor de rock. Você acha que tudo o que faz é uma consequência de sua luta pela Armênia?

Não sei, talvez tudo seja uma consequência de minha curiosidade incessante. Isso vem do fato de eu ser um artista. Mais do que qualquer outra coisa, eu gosto de experimentar. Quando estou apaixonado por alguma coisa, isso é endêmico de um artista, então você explora, fica entusiasmado e se aprofunda cada vez mais, seja nos negócios, seja escrevendo um livro, seja pintando, música. Para mim, é tudo a mesma coisa.



Não tenho certeza se você está ciente, mas um apoiador de Jair Bolsonaro se explodiu em frente ao Supremo Tribunal Federal em protesto. Seu país natal, o Líbano, está sob ataque de Israel, tivemos Donald Trump sendo eleito presidente dos Estados Unidos pela segunda vez. Como ativista dos direitos humanos, como enxerga o mundo hoje?

O mundo é um lugar muito preocupante, especialmente se você tem filhos. Com o passar do tempo, a migração decorrente da catástrofe ambiental e das guerras, invasões e colonização criou um problema de imigração em toda a Europa, o que está levando vários governos a adotarem políticas anti-imigração de extrema direita. Está se tornando uma situação muito perigosa e segregadora. Fico triste por meus filhos e pelo planeta. Como ativista, sou totalmente contra a maioria das coisas nessa direção e quero ver crescimento sustentável, quero ver pessoas que realmente tenham em mente a humanidade e a consciência do planeta no comando, em vez daqueles que querem lucrar e apenas explorar o planeta. 

Mas a única maneira de me manter são psicologicamente, espiritualmente e esperançoso é viver de forma muito limitada com minha própria família, em meu próprio grupo de amigos e tentar me manter saudável. Mas se eu pensar na questão mais ampla, em nível regional e mundial, é muito triste. Eu acho que as lições dos genocídios do século XX não foram aprendidas e estão acontecendo novamente hoje, como os bombardeios indiscriminados que mataram muitos civis no Líbano, em Gaza, na Cisjordânia ou em Israel. Sobre as eleições nos EUA, um amigo me perguntou: “o que você achou?”. Eu disse: Estamos votando entre o colonialismo e o fascismo, em vez de progressão e sustentabilidade. As propostas estão erradas.

Sua ideia inicial de memórias era escrever um livro sobre a intersecção entre justiça e espiritualidade. Resolveu contar sua história porque impactaria mais as pessoas?

Na verdade, não. Eu nunca penso no público quando estou criando ou na falta dele. Sempre penso no que quero expressar. Na época, um agente literário entrou em contato comigo interessado em um livro de memórias. Eu não estava interessado em escrever um, mas sempre tive a ideia de escrever um livro filosófico sobre a interseção de justiça e espiritualidade. Ao conhecer o Dalai Lama, conversei com ele sobre a intersecção entre justiça e espiritualidade e concordamos que é possível fazer as duas coisas em um livro de memórias. Isso também é uma exploração filosófica desses temas e foi isso que tentei fazer ao criar este livro.

Não quero desmerecer sua carreira mas, ao ler as memórias, fica claro que sua missão na vida têm a ver com o reconhecimento do genocídio armênio. Concorda?

O genocídio armênio foi uma verdadeira luta que meu povo teve de enfrentar para entrar na Era Moderna. Eu sou um deles e meus avós foram sobreviventes do genocídio, mas quero dizer que o genocídio é uma lição muito importante, uma simbologia para falar sobre coisas atuais, porque, como discutimos anteriormente, o genocídio está acontecendo hoje. Quando o genocídio ocorreu, não havia julgamentos de Nuremberg. Quando ocorreu o Holocausto, houve esses julgamentos. As pessoas foram responsabilizadas, houve a Comissão da Verdade e Reconciliação depois do genocídio de Ruanda. Você pensa que todas essas coisas criariam uma atmosfera em que os horrores da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade não ocorreriam, mas ainda estão ocorrendo. Portanto, conto a história do meu povo no genocídio não apenas porque é de onde venho mas também é um modelo para o que está acontecendo.

Você acha que a banda ter se tornado a numero 1 nos EUA no dia 11 de setembro de 2001 é uma coincidência ou, como Shakespeare diz, ‘há mais coisas entre o Céu e a Terra do que nossa vã filosofia pode imaginar”?

A palavra coincidência é realmente muito interessante porque a usamos como uma definição de algo casual. Mas na matemática, coincidência representa coincidir. Portanto, é difícil para nossas mentes compreenderem a vastidão de possibilidades em um dos vários mundos em que vivemos: mundo espiritual, mundo físico, mundo psicológico etc. Portanto, se isso foi coincidência ou não, não sei, mas definitivamente nos levou ao lugar onde precisávamos estar para lidar com as coisas com as quais precisávamos lidar.

Seus colegas de banda, do System of a Down, disseram que o grupo não segue o ritmo que o público gostaria, com lançamentos de álbuns e turnês, por sua causa. Isso está correto?

Não sei, talvez. Eu não gosto muito de fazer turnês. É algo que há muitos anos me faz sentir dentro de uma repetição de si mesmo. Mas eu gosto de fazer shows. Eu gosto de tocar em eventos únicos. Portanto faremos shows, mas não serão turnês longas, porque isso é algo fisicamente exaustivo e artisticamente redundante. Agora o fato de não atendermos a um público é a definição de ser um artista. Claro que nós também entretemos, mas fazemos o que queremos fazer; um artista faz o que quer fazer e, se as pessoas gostarem, ótimo; se não gostarem, que seja. Mas, sim, eu tenho sido o motivo pelo qual a banda não tem feito turnês extensas nos últimos anos.

Você até sugeriu que eles encontrassem outro cantor para substituí-lo, só que você é uma peça fundamental da banda e os fãs provavelmente não veriam o grupo da mesma forma. Você ainda apoia a ideia?

É muito simples. Eu amo os caras da minha banda mais do que amo a banda. Portanto, tudo o que eles quiserem fazer, está bem para mim. Se houver coisas que eu não quiser fazer e eles quiserem fazer, eu não me importo. Mas concordo com você. Temos um núcleo tão interessante dentro de nós, como artistas, que mudar a fórmula realmente atrapalha. Não me sinto confortável com essa ideia, mas também amo meus amigos, meus irmãos, então, o que quer que eles queiram fazer, eu apoio.



Quando você diz que ama mais os seus colegas, depois a banda, isso me faz lembrar de uma parte do seu livro. Lançar um álbum de músicas armênias e folclóricas com seu pai é tão importante quanto sua carreira no System of a Down?

É algo importante para mim porque meu pai me apoiou em minha aventura musical. Passei por um período muito difícil economicamente na história da família, então, quando ele se aposentou e teve tempo, eu sabia que sua paixão estava esperando para ser revelada. Então, eu o apoiei na gravação de um disco. É o disco dele, cantei em algumas músicas e ajudei a produzi-lo, mas é o disco dele e foi um prazer fazê-lo. Não comparo maçãs com laranjas, são duas frutas diferentes. Mas eu gosto de ambas.

Você é o principal porta-voz das causas armênias em todo o mundo, e continuamos com muitos contratempos lá. Como isso te impacta?

Em 2018 a Armênia teve uma bela revolução pacífica, chamada Revolução de Veludo, para derrubar o sistema corrupto da oligarquia pós-soviética. Por um ano e meio estava prosperando até que o Azerbaijão atacou sem aviso prévio, com a ajuda do governo da Turquia e do exército turco, e foi uma guerra horrível de 44 dias. A Armênia foi superada pelo segundo maior exército da OTAN no mundo e pelo Azerbaijão, e perdemos 5.000 jovens. Por terras que Stalin havia arbitrariamente dado ao Azerbaijão na década de 1920, que sempre foram terras indígenas armênias por 2.000 anos, em resumo. Portanto, houve uma limpeza étnica em 2023, duas semanas antes de o Hamas atacar os israelenses, e o Azerbaijão, depois de nove meses de bloqueio econômico e fome, recebeu duas ordens da Corte Internacional de Justiça de ordens contra a ação. Então, eles atacam essas pessoas, 120.000 armênios étnicos. Então, estou muito frustrado, porque quando vejo a injustiça sobrepor-se à Justiça, fico muito irritado. Mas a Armênia está se reconstruindo economicamente, crescendo em um ritmo incrível. Vai acabar se juntando à União Europeia (EU) em breve. Os inimigos estão sempre na fronteira, mas acho que com o tempo se tornará um centro cultural muito importante.

Podemos esperar alguma notícia sua sobre o System of a Down em um futuro próximo?

Com certeza.

E quanto às suas outras atividades? Há algo que podemos esperar?

Acabo de lançar um álbum há cerca de um mês, um EP chamado Foundations que está indo muito bem. Há muito tempo tenho uma galeria de cafés em Los Angeles. Quem estiver na região e vier visitar o Lake, venha conferir: temos o melhor café da cidade. Estamos fazendo lá uma exposição de fotografias do System of a Down por Greg Waterman, nosso fotógrafo nos últimos 23 anos. Terminei dois filmes e uma série de TV, que serão lançados, até o ano que vem. Quando digo terminar os filmes, estou me referindo à trilha sonora desses filmes. Muitas coisas estão acontecendo.

Luiz Cesar Pimentel | revista ISTO É


domingo, 24 de novembro de 2024

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

sábado, 13 de julho de 2024

A um Lugar Que Só Nós Sabemos...


Caminhei por uma terra vazia 
Conhecia o caminho como a palma da minha mão 
Senti a terra debaixo dos meus pés 
Sentei-me junto ao rio e isso completou-me 
Oh, coisa simples, onde foste? 
Estou a ficar cansado e preciso de alguém em quem confiar 
Deparei-me com uma árvore caída 
Senti os seus ramos a olhar para mim 
Será este o lugar que costumávamos amar? 
Será este o lugar com que tenho sonhado? 
Oh, coisa simples, onde foste? 
Estou a envelhecer e preciso de algo em que confiar 
E se tens um minuto, porque não vamos 
Falar sobre isso num lugar só nosso? 
Isto pode ser o fim de tudo 
Então, porque não vamos 
A um lugar só nosso 
?

domingo, 21 de abril de 2024

A Tua Mão Contra a Minha

"Os dias passam
Sem que nada mude 
As minhas palavras desaparecem 
Para pintar a constante falta 
Do teu fogo que se agita 
E do Além que nos espera

Escapando de outra hora 
Ouço a tua voz familiar 
Afogada num intenso 
Silêncio despovoado 
Longe do teu coração 
Nas manhãs geladas 
Paradas no tempo


A noite aperta-me 
Esquecer tudo 
Para finalmente lembrar-me 
Vagueio sem poder 
Encontrar o meu caminho 
Afundando-me 
Em cada vez mais escuridão

A tua mão contra a minha 
As memórias incandescentes 
Do teu rosto sorridente 
E tudo para poder revivê-las...



Flamme Jumelle / Alcest (2024)