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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tudo é Política Até a 1a Página de um Jornal

 Estamos em 2026 e não perdi um minuto da minha vida a ver o Mundial de Futebol. Acordei à pouco e fui ver as primeiras páginas dos jornais e, então, fiquei a saber que a Espanha venceu a Argentina na final.

E, como se costuma dizer: "tudo é política", até as primeiras páginas dos jornais. 

Até na escolha da fotografia para ilustrar a vitória da Espanha no Mundial, diferentes jornais espanhóis optaram visões bem diferentes. 


O jornal El País, mais conotado com a esquerda, optou por exaltar os obreiros, os trabalhadores, os jogadores. O jornal La Razón, conservador e conotado com a direita, exulta o rei, a monarquia, o poder instituído. 

E aqui está, numa simples primeira página de jornal, como podemos definir o que é esquerda e o que é direita. Mesmo assim, a maioria dos trabalhadores não sabe o que é tal coisa. 

# Eles Só Precisam da Tua Atenção

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Seleção Morreu na Praia

Acabou o mundial para Portugal. Eu não vi nem um minuto sequer dos jogos da seleção. 

Ao menos agora deixaremos de ter que pagar as viagens constantes do Luís aos Estados Unidos. Não entendi porque não ficava por lá, a fazer de conta de governava o país à distância, tal como se fosse um nómada digital, ainda por cima sempre deveria ficar mais barato e com uma pegada ecológica menor.  



Antes da ida da seleção para os Estados Unidos comentei com os colegas que estava tudo mal no que há preparação dizia respeito, e que as idas à praia transmitiam, até para os jogadores, uma ideia errada do que estava ali a fazer, E deve ser a mim, mas a praia costuma dar-me sono. 

sábado, 4 de julho de 2026

É Melhor Jogar Golfe e Ver a Bola do Que Governar

 


Ainda que tenha tido os seus méritos na gestão financeira, quem me conhece sabe que não fui propriamente fã da gestão de Rui Rio à frente da Câmara Municipal do Porto. Ainda  assim admirava-o num ponto: sempre se distanciou desta parolada e promiscuidade dos políticos se misturarem com o futebol para aparecerem nas televisões. É do pior que existe. Sim, o pior foi o Montenegro ter cancelado o 25 de Abril e comemorado depois com cantor pimba nacional que plagia as canções dos outros. 

Montenegro nunca demonstrou ter propriamente muito sentido de Estado. Basta lembrar, por exemplo, quando faltou a uma reunião na Europa, a propósito da guerra Rússia-Ucrânia para ir jogar golfe com o seu avençador. ´


Agora está-se a disputar o mundial de futebol e esta semana começou a fase a eliminar. Não estamos nem nas meias-finais, muito menos na final. Estamos só na primeira de cinco eliminatórias, isto se Portugal atingir a final. Ainda assim, o primeiro-ministro de Portugal já foi a correr duas vezes aos Estados Unidos, para ver a bola. 

Estamos em alerta vermelho por causa das altas temperaturas mas o primeiro-ministro do país acha que o melhor melhor é ir ver a bola em vez de fazer aquilo para o qual foi mandatado.

Ainda assim noto uma evolução. 

Em 2016 Luís Montenegro viajou para ver a bola à pala da Olivedesportos (crime de recebimento indevido) para ver o Euro 2016, mas depois porque se soube na opinião pública, tratou de rapidamente martelar os cheques e dizer que pagou as despesas do seu bolso. Mais ou menos como no caso da Spinunvida, em que primeiro era uma empresa para gerir as heranças familiares, depois a empresa era da mulher, e depois já era dos filhos. No fundo, as trapalhadas que nos foi habituando, no entanto fez-nos crer que o ser partido dá banhos de ética aos outros. 

Agora em 2026, dez anos depois, viaja agora para ver a bola mas à pala dos portugueses trochas que votaram nele, mesmo depois de saber que anda a receber avenças de empresas por debaixo da mesa. 

Mas, como estou sempre a dizer: as pessoas só têm o que merecem. 

domingo, 3 de maio de 2026

O Verdeiro Zandinga

 Há mais de dez anos que deixei de acompanhar futebol e desporto em geral (excetuando o ténis-de-mesa), contudo, lá vou fazendo as minhas previsões, mormente com os colegas de trabalho. 

Há dois anos fiz a seguinte previsão: "quem vencer a supertaça perderá o campeonato", e acertei. 

No ano passado, no início de mais um campeonato e contra todas as probabilidades e opiniões dos colegas disse e ficou escrito: "O Jorge Costa morreu, então, o Futebol Clube do Porto será campeão".


Se calhar ando-me a perder e deveria virar-me para a adivinhação. Se houver clubes interessados, já sabem, acerto mais do que o Zandinga!







domingo, 23 de junho de 2024

O Futebol Durante o Nazismo

Junho de 2024. Joga-se o Europeu de futebol na Alemanha. Europeu que eu vi talvez uma horita, somando os dois jogos da seleção e já não conheço metade dos jogadores. E é em Belim, na Alemanha, que está patente uma exposição sobre o futebol no tempo do nazismo, que veio descrita nos dois diários espanhóis, o El País e o La Vanguadia e que achei muito interessante: 

"Os grandes eventos desportivos, como os Jogos Olímpicos de 1936, serviram ao Reich como altifalantes do nazismo. Uma exposição no Olímpico de Berlim mostra isso.Adolf Hitler elogiava as virtudes do desporto, especialmente o seu efeito entre os jovens. “Que corpos tão maravilhosos podem ser vistos hoje!”, comentou certa vez, após contemplar a foto de uma nadadora. Mas, no que toca ao exercício físico, não se pode dizer que pregasse pelo exemplo. “Recusava praticar qualquer desporto”, escreve nas suas memórias Albert Speer, o arquitecto favorito do Führer, confidente e ministro do Armamento do Reich: “Tampouco mencionou alguma vez tê-lo feito na sua juventude”.

Aos nazis, contudo, o que lhes interessava no desporto era a sua capacidade como arma de manipulação em massa. Os grandes acontecimentos desportivos, como os jogos de futebol, cenário de paixões arrebatadas, eram a ocasião ideal para inocular a ideologia fascista entre as multidões

Um bom exemplo disso é a exposição "Sport. Masse. Macht. Fußball im Nationalsozialismus" (Desporto. Massas. Poder. O futebol durante o nazismo), que se encontra no Museu do Desporto de Berlim, num edifício construído pelos nazis dentro do complexo olímpico, cujo estádio acolherá a final do Euro 2024, num momento em que a ascensão da extrema-direita - AfD foi a segunda força mais votada nas eleições europeias do passado dia 9 - preocupa o continente.

“O futebol já era um desporto de massas nos anos 20. Todos os fins de semana, milhares de pessoas de diferentes idades e classes sociais juntavam-se nos estádios. Para os nazis, esses espetáculos eram uma forma ideal de procurar o apoio de uma maioria que ainda não tinham”, explica Julian Rieck, historiador e curador da exposição. “No futebol, criava-se uma atmosfera de unidade que permitia praticar em massa gestos e rituais como a saudação nazi”.

A exposição mostra como o desporto foi utilizado para criar uma identidade comum e como ferramenta de propaganda no estrangeiro. A partir de abundante documentação, fotografias históricas e recortes de jornais, a mostra percorre o destino de dezenas de clubes judaicos de futebol durante a ascensão do nazismo e revela um aspeto pouco conhecido dos campos de concentração nazis: como também lá se jogou futebol. E como alguns dos seus prisioneiros salvaram a vida graças a isso.

A incrível história do burgalês Saturnino Navazo destaca-se entre os muitos exemplos de vidas de desportistas truncadas pelo nazismo. Navazo tinha sido jogador de segunda divisão antes de se alistar no exército republicano durante a guerra civil espanhola. Em 1939, escapou pelos Pirenéus para França: ficou internado no campo de Argelès-sur-Mer até que o governo francês enviou os republicanos espanhóis para trabalhar na indústria de armamento nazi.

Em Mauthausen, acabou por ser capitão da equipa de futebol espanhola e provavelmente graças a isso salvou-se a si mesmo e a um órfão judeu de oito anos, Siegfred Meir, que fez passar por seu filho quando o campo foi libertado. “Biografias como a de um espanhol que chega a um campo de concentração alemão e salva um menino judeu de Frankfurt evidenciam que o nazismo nasceu na Alemanha mas afetou toda a Europa”, assegura Rieck.

Um dos casos notórios de propaganda através do desporto é o jogo entre as selecções de futebol de Inglaterra e Alemanha, realizado a 4 de dezembro de 1935 em Londres, precisamente em White Hart Lane, o estádio do Tottenham Hotspur, equipa com uma notável afición judaica. Para essa ocasião, o governo nazi organizou a deslocação de 10.000 adeptos que fariam a saudação nazi durante o encontro.

O jornal Jewish Chronicle analisou assim a intenção do evento: “Há poucas dúvidas de que o propósito ulterior é apresentar ao mundo o espectáculo de uma confraternização anglo-nazi, para silenciar os protestos contra a tirania nazi [...] e para dar a impressão de que este país se reconciliou com o nazismo e tudo o que isso implica”. Assim que se soube da convocatória, o jogo desatou uma onda de protestos. Organizaram-se concentrações e difundiram-se cartazes. Um pode ser visto na exposição: “Propaganda para a guerra, propaganda para o ódio racial e o selvajismo é o propósito que Hitler vê cumprido com esta visita”.

Em 1938, proibiu-se por lei aos judeus participar em atividades desportivas. Com a invasão da Polónia pelo Terceiro Reich e o avanço da Segunda Guerra Mundial, os nazis destruíram clubes de futebol judaicos em toda a Europa ocupada. A exposição exibe reproduções das camisolas de 11 clubes destruídos pelos nazis e permite ler exemplos dos chamados parágrafos arianos, textos acrescentados aos estatutos dos clubes que vetavam sócios “não arianos”.

Durante a guerra, os atletas também viveram histórias de heroísmo e de miséria, que a exposição resgata brevemente. Como a de Otto Harder (1892-1956), bicampeão da Liga alemã com o Hamburgo e internacional pela selecção alemã, reconvertido em comandante de um campo de concentração onde morreram centenas de pessoas. Os visitantes também podem ver cinco atletas atuais apresentar em vídeo as biografias de outros tantos desportistas de elite (Lili Henoch, Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch) cujas carreiras e vidas foram destruídas pelos nazis. As suas histórias representam milhões de vítimas em toda a Europa.

El País, 16 de junho de 2024, ELENA SEVILLANO

"Em alguns campos nazis de tortura e morte, jogava-se futebol. Era um futebol precário como as vidas dos prisioneiros, que, no entanto, tinham mais hipóteses de sobrevivência se chutassem uma bola. Uma exposição no recinto do estádio Olímpico de Berlim, intitulada Desporto. Massas. Poder. Futebol sob os nazis, explora a utilização do futebol pela Alemanha de Adolf Hitler e, entre outros aspetos, detalha a paradoxal situação nos campos de concentração. A exposição, situada no Museu do Desporto, um edifício construído pelos nazis perto do estádio onde Hitler inaugurou os Jogos Olímpicos de 1936 e onde no próximo dia 14 de julho se disputará a final do Campeonato Europeu, pretende ir além da história.

“Aqui mostramos como os nazis pensavam que deviam ser os atletas e que tipo de pessoas podiam ser alemães; e se queríamos mostrar como o nacional-socialismo praticava a exclusão de determinadas pessoas, também devíamos refletir que a sua forma de excluir ainda tem continuidades pessoais e ideológicas em certa gente do desporto, embora, claro, não seja igual ao que era durante o nazismo”, explica o politólogo e historiador Julian Rieck, comissário da exposição, coorganizada pela Câmara Municipal de Berlim e pela entidade What Matters, dedicada a projetos contra o antissemitismo, racismo e outros tipos de discriminação.

Com copiosa documentação, reproduções de fotografias históricas e recortes de imprensa, réplicas de troféus realizadas com impressora 3D e camisolas de clubes judeus proibidos, a exposição percorre um tempo em que o futebol funcionou como uma peça mais do mecanismo nazi, e explora também reminiscências que afloram por vezes no desporto atual.

A imagética nazi desenvolveu-se como propaganda, e o desporto, que já nos anos vinte apresentava características de fenómeno de massas, foi sempre importante para o Terceiro Reich. “O desporto era central na ideologia nazi. Comunicava o ideal de masculinidade marcial. A ideia de uma comunidade nacional ariana ou Volksgemeinschaft podia ser gravada na psique alemã através do desporto. Além disso, os eventos desportivos, tal como outras reuniões de massas, proporcionavam um lugar para praticar rituais simbólicos como a saudação nazi”, relata um dos painéis da exposição. Mais ainda, o desporto deveria preparar a população, física e psicologicamente, para a guerra.

Tal como outras atividades da sociedade, o desporto serviu ao regime nazi para decidir quem pertencia à Volksgemeinschaft e quem não. Onze camisolas feitas para a exposição – não existem originais – lembram os onze clubes de futebol judeus proibidos a partir de 1933, como o Bar Kochba de Frankfurt ou o Hakoah de Essen. Também estrelas do desporto foram perseguidas ou assassinadas ou viram as suas carreiras truncadas, como a atleta Lilli Henoch ou os futebolistas Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch, cujas vidas são relatadas na exposição. Todos eram judeus, exceto Kerz, que foi perseguido por ser negro. Kerz e Guttmann sobreviveram.

Nos campos de concentração onde os nazis internaram milhões de pessoas em condições desumanas que levaram tantas à morte, algumas puderam jogar futebol. “As histórias de prisioneiros a jogar contra guardas são material de Hollywood, não se encontrou nenhuma evidência histórica disso; e não eram onze contra onze, os jogos faziam-se com o que estivesse disponível: bolas de trapos, os das cozinhas contra os carpinteiros, ou por nacionalidades… e fazê-lo dependia de se o comandante do campo gostava de futebol – explica Rieck. Também influía uma lógica cruel nazi: a partir de 1942 o exército precisava cada vez mais de munições, muitas eram fabricadas por trabalhadores forçados dos campos de concentração, e para que pudessem trabalhar ainda mais começaram a maltratá-los um pouco menos e a deixar-lhes o domingo livre para descansar.

Na exposição, uma grande foto panorâmica mostra os barracões do campo de Sachsenhausen com uma baliza de futebol na esplanada, em algum momento de maio ou junho de 1945, após a libertação. Também podemos conhecer a história de dois republicanos espanhóis, prisioneiros em Mauthausen (Áustria), que deixaram marca a jogar futebol. 

O socialista Saturnino Navazo (Hinojar del Rey, Burgos, 1914-Haute Garonne, França, 1986) ia ser contratado pelo Betis quando estalou a Guerra Civil. Lutou na contenda e, após a vitória franquista, fugiu para a França, onde se alistou sob bandeira francesa, foi capturado pelos alemães e enviado para Mauthausen. Lá, graças ao futebol, foi transferido da pedreira para a cozinha e organizou ligas para entretenimento dos guardas, uma oportunidade de salvação e acesso a mais alimentos para os que jogavam. Protegeu um menino judeu de Frankfurt, Siegfried Meier, que após a guerra adotou como filho –o menino passou a chamar-se Luis Navazo para que os aliados não o enviassem para um orfanato.

Também em Mauthausen e no campo anexo de Gusen jogou futebol o republicano Manuel García Barrado (La Calzada de Oropesa, Toledo, 1918-Mauthausen, 2006), que lutou na Guerra Civil, fugiu para a França e no campo nazi foi enviado para escritórios como desenhador. Treinou-se nos juvenis do Real Madrid e continuou a jogar no cativeiro, desenhando ainda cenas desportivas. Após a libertação, escolheu ficar a viver na Áustria, onde trabalhou como guia do campo de Mauthausen para visitantes espanhóis.

O pós-guerra na Alemanha não implicou desnazificação, tampouco no futebol. Um caso flagrante é o de Josef Sepp Herberger, treinador nacional durante o nazismo (numa fotografia de 1938 vê-se com suástica na camisola), que em 1950 foi nomeado selecionador da Alemanha Ocidental. Na RDA comunista, Heinz Krügel, ex-membro das SS nazis, fez carreira como treinador. “Nos anos oitenta e noventa havia muito racismo e antissemitismo nos estádios alemães, e ainda hoje se produzem incidentes – recorda o historiador Rieck. Mas hoje há muitos adeptos e futebolistas que lutam contra a discriminação; é uma tarefa de todos no futebol.

Fútbol en los campos nazis |Maria-Paz López | La Vanguardia

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

A Felicidade dos Jogadores de Futebol

Neste artigo do Jornal de Notícias, publicado no dia 13 diquei a saber que: 

"O bem-estar nas empresas vai muito além de promoções e salários altos. Segundo os especialistas, apostar em horários flexíveis, trabalho remoto e espaços confortáveis são algumas das soluções que podem proporcionar uma maior felicidade no local de trabalho e travar os problemas de saúde mental. Com o objetivo de promover a felicidade corporativa, o Happiness Camp, criado pelo grupo Lionesa em 2022, junta amanhã, na Alfândega do Porto, mais de 30 oradores para apresentarem às organizações estratégias de bem-estar no trabalho. A entrada é gratuita".


Ora isto deixou-me a pensar porque dias antes, a 30 de agosto, no mesmo Jornal de Notícias tinha lido um artigo de opinião de Rafael Barbosa que versava o seguinte:

"1. Muhammad al-Ghamdi tem 54 anos, foi professor. Tinha duas contas no Twitter (agora X) em que criticava o regime saudita. É irmão de um dissidente, exilado em Londres. Foi preso, passou vários meses numa solitária, sem direito a visitas da família nem acesso a um advogado. Em julho, foi condenado à morte. Aguarda a execução da sentença.

2. Salma al-Shehab tem 34 anos, estava a fazer um doutoramento em Medicina em Londres. Tem duas filhas, de seis e quatro anos. Tinha conta no Twitter e usava-a para criticar o regime saudita. Em dezembro de 2020, de férias no país, foi detida e acusada de terrorismo. No ano passado, os tribunais ampliaram a pena para 34 anos de cadeia (entretanto reduzidos para 27).

3. São sete rapazes, todos detidos antes de fazerem 18 anos (um deles tinha 12 anos). Foram condenados à morte. Seis deles foram considerados terroristas por participarem em protestos contra o Governo saudita, ou comparecerem em funerais de vítimas da violência do regime. Foram torturados e assinaram as confissões. Sete crianças aguardam o dia da execução 



(....)



5. Os sauditas gastaram sete mil milhões de euros, desde 2021, com o desporto e, sobretudo, com o futebol. Os futebolistas e treinadores portugueses alinham, como outros, nesta operação pornográfica para desviar a atenção sobre as atrocidades do regime, de sorriso rasgado pela chuva de dólares: Jesus, Rúben Neves, Otávio e, antes de todos, Ronaldo são os promotores de um regime atroz. Bastariam uns minutos de navegação pelos sites da Amnistia Internacional ou da Human Rights Watch para perceberem que Muhammad, Salma, as sete crianças, as centenas de etíopes vivem e morrem num Inferno. Coisas desagradáveis que não interessam quando a bola rola e há milhões para faturar. Mas é verdade que não estão sozinhos na hipocrisia".



Pá, eu junto uma e outra notícia e concluo o seguinte:

Se nas empresas, no trabalho em geral, não é só o dinheiro que conta para que as pessoas se sintam felizes, isto significa que os jogadores da bola abandonam os milhões que recebiam na Europa e abalaram para a Arábia Saudita, para estarem felizes num local do planeta onde faz 50º à sombra e onde matam crianças e apedrejam mulheres até à morte. É que, como compreendemos "não é só o dinheiro que interessa"!

Para concluir dizer que os jogadores da bola cometem esta enorme hipocrisia, depois daqueles rituais de dizer não ao racismo e à discriminação e depois rumam à Arábia Saudita por dois motivos. O primeiro é não terem um pingo de vergonha na cara. O segundo é porque não tem qualquer custo. Porque ninguém insulta um jogador de futebol que foi para lá, nem são cancelados nas redes sociais. Porque fingimos que está tudo bem. Porque se supõe que todos faríamos o mesmo.

"Os jogadores de futebol iriam até Mordor ou para a Coreia do Norte desde que pagassem bem". (Íñigo Domínguez)

domingo, 7 de maio de 2023

O Planeta Está Todo Fodido, Mas, Enfim, Esqueçamos Isso!


O que interessa é que parece que estamos na Idade Média e até vão montes de jornalistas cá do burgo lá para o reino de sua majestade porque parece que há um novo rei para ser coroado e é preciso mostrar aquela gente toda, os príncipes e princesas e toda a gente bem vestida, e uma grande festa que vai custar milhões ao povo quando o rei, ele mesmo, possuí muitos milhões roubados ao povo. 

O que interessa são e as intrigas e o diz-que-disse entre Marcelo e Costa, outrora professor e aluno, horas a fio, com comentadores, todos da mesma cor e a debitar a mesma cassete e a salivar nas televisões para que o ex-comentador e rei das selfies dissolva o parlamento sem ter qualquer fundamento para o fazer. Ainda assim, isto tem a vantagem de servir para educar, pois, se já em 2015 algumas pessoas aprenderam que não se elegem primeiros-ministros mas sim deputados, tenha agora esteja a servir, espero, para que tenham ficado a saber - especialmente entre aquelas pessoas que não fizeram a instrução primária, e parece que são muitas - que, quem fiscaliza o governo é o parlamento e não o presidente da república. Mas tranquilizemo-nos, Marcelo, sete anos e dois meses depois, vai estar "atento"!

O que interessa é que vai ser campeão de futebol. Pois que seja o meu clube, que é sempre prejudicado, o teu não que é sempre favorecido pelos árbitros, e ainda que, mesmo depois de terem metido os árbitros a ver na televisão, pois mesmo assim ainda há comentários sobre a arbitragem! Mas, no fundo, todos roubam e é preciso roubar muito para pagar salários de milhões a uns tipos que só sabem dar uns chutos numa bola. Mas isso não se questiona. O que importa é que o nosso clube ganha e, se ganhar, ficamos estupidamente felizes, sem saber bem porquê! 

E o festival da canção também interessa muito. Pois desta vez é que vamos vencer. E se não for desta será para o ano. Também mandamos sempre uns gajos que não sabem cantar nada de jeito e com aspeto de drogado como aquele que tinha problemas do coração... mas quando ganhou eu fui logo para as redes sociais dizer que sempre disse que desta é que íamos ganhar! Desta vez é que tínhamos alguém que sabia cantar!

Fado, futebol e, claro, Fátima! Estamos em Maio e o que interessa são as encenações de Fátima. As idas a pé a Fátima rezar à santinha e aos pastorinhos. Ainda que tenhamos sempre que meter uma cunha, até nos pedidos de milagres! Mas lá têm que ir a Fátima rezar e acenar para o boneco, ainda que a bíblia as proíba, aos bonecos e às imagens. 

Sim, o planeta está todo fodido, mas, enfim, esqueçamos isso! Há coisas mais importantes para serem faladas nos media. Depois quando houver novamente eleições, aí sim, os políticos podem vir falar de todas as coisas grandiosas que vão fazer para salvar o planeta. 

Já agora, alguém me sabe dizer quando é começam os saldos, para eu comprar um monte de merdas, só porque estão mais baratas?

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Futebol: Há Mais de 100 Anos que é Jogo de Ricos para Entreter Pobres

 

"Os gaiatos jogavam com uma pelota, o jogo que tinha vindo dos bifes, o football, pelo qual se digladiavam uns quantos ricos, em associações de lazer e desporto, onde só podia entrar quem tivesse dinheiro e posição, fazendo constantemente desafios e jogatanas para ver quem ganhava, deixando por vezes alguns dos players ou jogadores entre mazelas, algumas graves, e para o resto da vida, fazendo apostas a dinheiro. 

Este jogo que se tem tornado popular, não é mais do que uma forma de entreter o povo, distraindo-o com estes desafios ao domingo, depois das missas, claro. 

Há uns para o lado de Benfica e o Conde de Alvalade, o "torpedo" já tem também o seu próprio grupo. 

Anatomia de um Regicídio / José Ramos Perfeito

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Demência: O Tema Tabu do Futebol

É curioso que, ainda por estes dias, aquando da morte do grande goleador e cabeceador do FC Porto, Fernando Gomes, falava precisamente que jogador da bola não morre de velho.

Estou em crer que o maior tabu do futebol é que não existe homossexualidade na modalidade. "O futebol é para homens de barba rija", "o futebol não é para meninas", dizia-se. Infelizmente os homens que hoje jogam à bola transformaram-se numas meninas teatrais e o futebol feminino envergonha-os jogando um futebol muito mais limpo e com mais tempo útil de jogo. 

Mas o outro tabu de que não se fala é, e que encontrei este bom artigo no jornal espanhol El País é a demência no futebol:


O facto de as doenças neurodegenerativas serem pouco faladas em Espanha no vasto universo do futebol não torna o assunto menos ou inexistente. Acostumado à chuva massiva de publicidade positiva, o futebol tem pavor de enfrentar desafios incómodos.

"Dos 11 titulares da seleção inglesa que venceu a Copa do Mundo de 1966, só sobreviveram o atacante Geoff Hurst e Bobby Charlton, diagnosticados com demência em 2020. Quatro outros jogadores -Jack Charlton, Ramon Wilson, Nobby Stiles e Martin Peters- morreram depois de muito tempo processos de demência. É uma desproporção assustadora.

Em 2002, morreu com 59 anos Jeff Astle, antigo avançado do West Bromwich e da selecção inglesa. Uma autopsia realizada em 2014 revelou que sofria de encefalopatía crónica traumática, conhecida anteriormente como demência pugilística

Fidel Uriarte e Txetxu Rojo, dois jogadores extraordinários, rapidamente forjaram a lendária ala esquerda do Athletic nos anos 1960, novamente na memória dos adeptos após a recente morte de Rojo, aos 75 anos. Em 2016, Fidel Uriarte morreu, aos 71 anos. Ambos eram afetados por doenças neurodegenerativas, muito comuns no futebol para enterrar sua importância".

Toda a gente sabe disto mas não se fala. Enterra-se a cabeça na areia e fazermos de conta que o problema não existe. E os papás? que metem os filhinhos nas escolas de futebol? Gostam assim tanto deles, ou acham que é mais importante que possam vir a ganhar muito dinheiro a ter uma vida com saúde?

domingo, 11 de dezembro de 2022

Resumo do Mundial 2022 por quem Não Vê Futebol


Ai os Direitos Humanos... 
Ai que morreram milhares de trabalhadores sem condições no Qatar. 
Ai a discriminação das mulheres e dos LGBT...
Ai que não pode ser e estamos todos muito revoltados apesar do Qatar ter vencido a organização do mundial em 2010 e ninguém na altura se preocupou muito com isso e em 2013 rebentou o escândalo de corrupção. 

O Qatar garantiu a organização do Mundial em 2010. Na altura, Nicolas Sarkozy era presidente de França e lobista do violento regime Qatari. A UEFA, fundamental na escolha do Qatar, era liderada por Platini. E Platini foi um dos convidados para uma célebre reunião na residência oficial de Sarkozy, juntamente com o Vladimir do Qatar, Tamim bin Hamad al Thani. A reunião terminou com duas certezas: que o Mundial de 2022 seria no Qatar e que o Qatar encomendaria 14 mil milhões de dólares à indústria francesa do armamento. Pelo caminho, com os trocos que sobraram, ainda compraram o PSG. (daqui)

Sobre os direitos humanos bem prega Frei Tomás: a Europa trata os direitos humanos abaixo de cão. A UE criou e paga milícias líbias para gerir um campo de concentração para todos os desgraçados dos imigrantes apanhados no meio do mar. E muitos morrem. (Pedro Tadeu / Os comentadores)

A minha indignação com esta Copa vergonhosa é tal que não tenho alternativa: serei obrigado a tomar medidas drásticas. Vou colocar uma fotografia do símbolo da Fifa de pernas para o ar nas minhas redes sociais. E talvez uma bandeira do arco-íris, para eles aprenderem(Ricardo Araújo Pereira)

O que eu comentei na empresa foi: "se eu sou judeu e der uma festa, faz algum sentido as pessoas virem comer à minha pala mas, em protesto, trazerem braçadeiras com suásticas no braço"? Acho que não. E, como tal, quem está revoltado com a organização do Mundial no Qatar deveria simplesmente não ir! E não ir para lá protestar, porque o Mundial tem que se fazer porque há muito dinheiro para meter ao bolso. 

Mas assim que a bola começou a rolar de imediato se esqueceu os direitos humanos, tal como tinha pedido o nosso presidente-comentador "mas enfim, esqueçamos isto" e todos se viraram para a bola.

Nós tínhamos os melhores, e o melhor do mundo, que para muitos com cinquenta anos há-de ser sempre o melhor do mundo!, e, portanto, como é lógico, iríamos vencer facilmente o torneio, mesmo que até hoje nunca tenhamos vencido um campeonato do mundo e a melhor prestação que obtivemos foi um terceiro lugar no mundial de 1966. E estaríamos a jogar com duas equipas, a seleção propriamente dita, e a equipa das ronaldetes, que está mais interessada nos seus recordes, no seu ego, do que, propriamente, nos interesses da seleção

... como já se tinha visto contra a Nigéria, a equipa joga infinitamente melhor sem ele, liberta da escravidão de ter de servir os seus interesses pessoais, os seus recordes, o seu egoísmo, o seu ego. É, de facto, uma tristeza ver terminar assim uma carreira verdadeiramente notável (Miguel Sousa Tavares)"

Eu, apesar de não ver nem ligar minimamente a futebol, acabei a ver os jogos da seleção, porque o chefe instalou uma televisão na empresa e sempre que dava um jogo nós parávamos de trabalhar e íamos ver e conversar e é fixe para o espírito de grupo. Além disso ainda apostamos! E cinco pessoas, a apostar no resultado dos jogos, e nem uma só pessoa sequer acertou num único resultado! E ainda bem que saímos nos quartos-de-final, caso contrário ainda ia à falência! Não, estou a brincar, foi so 1€ por jogo!

O cúmulo do ego chega a ponto tal do capitão da seleção (que nunca o deveria ter sido pois é mais do que evidente que não tem perfil para tal) de querer retirar um golo a um colega só para que, qual criança, seja ele a ter o protagonismo e bater o seu recorde de golos. O importante não é que seja golo de Portugal e que Portugal ganhe, não!, o importante é que o Cristiano brilhe!


Primeiro, Ronaldo ficou furioso por ser substituído no jogo frente à Coreia e insultou o treinador. Depois, ficou furioso por não ser titular contra a Suíça e terá ameaçado abandonar a seleção portuguesa. É uma pena. Cristiano Ronaldo está convencido de que é Cristiano Ronaldo —um erro que nunca tinha cometido. Essa era, aliás, a razão do seu sucesso: Cristiano Ronaldo recusava-se a acreditar que fosse Cristiano Ronaldo. Todo o mundo se espantava: você é Cristiano Ronaldo, por que treinar tanto? E, no entanto, ele continuava a ser o primeiro a chegar e o último a sair do treino. Você é Cristiano Ronaldo, por que não relaxar um pouco? E ele mantinha uma vida de monge: comida saudável, água, cama às 21h30. Você é Cristiano Ronaldo, vale a pena tanto esforço? E ele não desistia de tentar correr mais depressa, saltar mais alto, chutar com mais força, sempre acreditando que ser Cristiano Ronaldo era um objetivo que estaria ao seu alcance, desde que ele não julgasse já o ter alcançado.

Em 2015, perseguindo o propósito de ser Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo fez 48 gols e 16 assistências em 35 jogos pelo Real Madrid, no campeonato espanhol.

Quando algum outro jogador, com uma produção muito menor, se dava ares de estrela, alguém lhe fazia a pergunta fatal, que o punha imediatamente na ordem. “Quem é que você pensa que é? Cristiano Ronaldo?”

Nesta época, Ronaldo marcou um gol e fez zero assistências em dez jogos da liga inglesa pelo Manchester United. Desses dez jogos, foi titular em apenas quatro.

Agora chega à seleção e, ao verificar que fica no banco de suplentes, pergunta pela primeira vez: “Como assim, não jogo? Eu sou Cristiano Ronaldo”. Creio que Cristiano Ronaldo não concordaria com esta alegação extravagante. (Ricardo Araújo Pereira)

Mas o triste fado cumpriu-se e perdemos com uma seleção considerada inferir, seleção africana, a primeira seleção africana a estar presente nas meias-finais de um mundial de futebol, mas que antes, e não de somenos importância, já tinha despachado a campeã do mundo Espanha. 


Este jogo fez-me lembrar o que vi em Braga contra a Espanha. Os nossos andaram a passear as camisolas e a bola durante toda a 1a parte, ignorando olimpicamente a baliza adversária, a brincar com o tempo como se de um treino se tratasse. Marrocos deu-nos uma lição de humildade (Felisberta Lopes)

Daqui por quatro anos há mais. E o Cristiano pode de novo tentar bater o recorde de nove golos num mundial que pertence a Eusébio, e seremos de novo candidatos a vencer o mundial apesar de ainda não termos ganho um para amostra.

domingo, 22 de maio de 2022

Conversas Improváveis (67) - Por Quantos Centímetros?


 Estava a jantar com os meus pais quando, de repente, o meu padrasto comenta:

O Porto ganhou.

A minha mãe, que nem sequer liga puto a futebol entra logo a pés juntos:

- Por quantos centímetros?


sábado, 27 de novembro de 2021

Bruxaria: uma Profissão de Futuro


 A Bruxa de Matosinhos, que eu não faço ideia de quem seja, só de um cliente, Pinto da Costa, o bom católico e crente das Encenações de Fátima, recebe 50 mil euros por mês. Eu não faço ideia quantas horas a senhora trabalha por mês, e sei lá que sortilégios serão precisos só para aconselhar o presidente do Futebol Clube do Porto, mas assim à partida, não me parece nada mau salário!

Já um jovem que passa tantos anos  estudar - temos a geração mais formada de sempre não é? - chega ao mercado de trabalho e vai ganhar menos de 950€ / mês (menos que um salário mínimo em Espanha). E depois estranhem que um terço dos jovens queira emigrar e os patrões andem agora, todos os dias, a choramingar nos jornais que não conseguem contratar ninguém para trabalhar ser explorado. 

Concluindo.

Puto, se queres ser alguém na vida, não te mates a estudar medicina, engenharia, arquitetura, direito ou outras tretas quaisquer para acabares no bicha do centro de emprego. Se não tens jeito para dar uns pontapés na bola, então o melhor é começares já a ler o livro de São Cipriano e aprender a fazer umas bruxarias, porque isso sim é uma profissão com futuro!

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Quando te Conheci Não Pensei que Gostasses de Futebol


 Se eu fosse remexer nas dezenas de cartas que trocamos, por certo que lá pelo meio encontraria uma em que ela me diz "quando te conheci pensei não gostasses de futebol". Ora, isto não deixa de ser curioso, porque foi precisamente numa conversa de futebol entre amigos comuns que nos cruzaram pela primeira vez diretamente (porque indiretamente há muito que os meus olhos tinham reparado naquela adolescente de quatorze ou quinze anos, tal como há muito ela já tinha reparado em mim, principalmente quando eu me sentava na mesma soleira da porta, da mesma casa da rua Barão de São Cosme, onde ela também gostava de se sentar enquanto espvaera a camioneta). 

E foi nas traseiras duma camioneta que ambos apanhamos, que estivemos uns quantos à conversa. Lembro-me bem da Vânia, a mais afoita defensora do seu FC Porto, bem como da Patrícia, sua prima, que mora aqui na aldeia, e talvez também o Mauro estivesse presente; se não esteve nessa ocasião, esteve depois, em muitas outras conversas, nas traseiras de muitos outros autocarros, que naquela altura chamávamos de camioneta ou carreira. Nessa tal conversa sobre futebol, retenho na minha minha cabeça que terei mantido uma postura de Álvaro Cunhal, que, perante a argumentação do Mário Soares, lá ia soltando, de vez em quando, um "Olhe que não, doutor, olhe que não". 

E se eu encontrasse a tal carta em que ela me diz que quando me conheceu não pensava que eu gostasse de futebol, procurando bem, nas outras dezenas de cartas que lhe escrevi, encontraria também a carta em que lhe respondi (porque ela mas devolveu, todas, como se tivessem sarna) em que lhe terei respondido que, sim, gostava de futebol, mas que não me tinha por fanático. Que gostava de analisar o jogo dentro das quatro linhas e que tinha as minhas opiniões.

Mas não deixa de ser muito curioso e até irónico. Quando me conheceu ela pensava que eu gostava de futebol; já eu, quando anos depois começamos a namorar, nunca pensei que um dia ela me pedisse para a levar à festa do "Penta" porque queria-se juntar à multidão em festa com as amigas da escola. "O Jardel até me disse adeus!". E eu que nem imaginava que ela fizesse ideia de quem era o Jardel. 

Relembrei esta passagem da minha vida quando, por estes dias, começou o Europeu de futebol. Como que me perguntei se deveria - sei lá, por dever patriótico? - ver os jogos da seleção, ou se iria cometer a heresia e o pecado mortal de ignorar os jogos da seleção. 

Decidi ignorar porque a paixão, aquele fogo que arde sem se ver, há muito que se extinguiu completamente e o rescaldo, aqueles trabalhos que se fazem para que não haja reacendimentos, foram muito bem feitos nos últimos quase dez anos, e, entretanto, os eucaliptos foram substituídos por carvalhos e azevinhos, e não há forma do interesse ser reacendido. 

Posso afirmar que ser um um ex-adepto de futebol como sou hoje, é como se tivesse deixado de fumar e já conseguisse ver com clareza a estupidez que cometi durante tantos anos a gastar dinheiro que me faz falta e a dar cabo da saúde com os cigarros. 

Hoje, se alguém me conhecesse assim, ignorando o futebol e toda a irracionalidade que envolve o fenómeno, muito estranharia que um dia gostei de futebol, que vibrei com as vitórias ou ficava pior que estragado nas derrotas. Se hoje fosse uma criança, ninguém me iria querer chatear porque o clube da minha simpatia perdeu - ou poderia dar também o exemplo do emprego, sim, porque parece que crescemos, mas continuamos a ter os mesmos comportamentos de criancinha, em que se fica calado como um rato quando o nosso clube perde, até se diz que não se gosta de futebol, mas depois, subitamente, já gozamos com os outros, quando é o clube dos outros a perder. Tristes aqueles que ficam felizes com o mal dos outros, é o que vos digo. 

E, se hoje alguém me tivesse conhecido a ignorar este aborrecido espetáculo de hora e meia - porque a verdade é essa, hoje em dia o futebol é uma verdadeira seca! - e em que a vitória é tantas vezes decidida pelos homens do apito, e em que todos ganham salários pornográficos à custa do pobre que vai ao estádio ou tem uma assinatura de televisão, quando mal ganha para comer - quanto muito, o que me poderia dizer, uns tempos mais à frente, seria: "nunca imaginei que um dia tivesses gostado de futebol". 

*na imagem Sócrates, antigo jogador de futebol brasileiro, médico e filósofo, que ficou conhecido por Doutor Sócrates e pelas suas convicções políticas

# O Benfica Deixou de Ter Seis Milhões de Adeptos

# Quando o Meu Avô Rasgou o Cartão de Sócio

sábado, 25 de julho de 2020

O Benfica Deixou de Ter Seis Milhões de Adeptos

A preferência clubística foi-me transmitida pelo meu pai que era simpatizante do Benfica porque, estou em crer, preferia a cor vermelha ao azul e ao verde. E uma das memórias que fui retendo, porque disso muito se falava conforme fui crescendo, era quando o meu pai, na garagem lá de casa onde reparava algumas motorizadas, me exibia por volta dos quatro anos, pondo-me na mão um monte de cartas de jogadores da bola (formato cartas de jogar) e me pedia para mostrar como sabia os nomes deles todos. Jogador após jogador eu deixava o meu pai orgulhoso acertando sempre no nome, ao que os clientes ficavam muito impressionados e achavam sempre que eu tinha de saber ler. Mas não, eu simplesmente memorizava o que o meu pai me dizia.

Foi por esta influência que me fui tornando simpatizante de um clube que fica a 300Km do local onde nasci e em que a maioria das crianças com quem cresci, sejam vizinhos ou colegas de escola, simpatizavam mais com um outro clube, de azul e branco vestido. Conforme fui crescendo comecei a querer que os vermelhos ganhassem principalmente para que na segunda-feira seguinte de escola (sim, antigamente só se jogava ao domingo às três da tarde e não agora em que parece que há jogos todos os dias!) principalmente para que na segunda-feira seguinte de escola não me chateassem, ainda que, em boa verdade, não me chateavam muito porque eu também nunca fui muito de aferroar os outros. 
Mas se ao longo dos anos oitenta as coisas ainda estiveram equilibradas, a verdade é que a partir dos anos noventa foi mesmo para esquecer. A máfia portista era tanta e à descarada, com os casos da agência de viagens Cosmos, mais tarde da fruta e os chocolatinhos e os apitos dourados, que era mesmo impossível aos vermelhos ganhar o que quer que fosse, o que, diga-se me revoltava um bocado.


Fui um adepto da bola igual a tantos outros, mas não creio que alguma vez tivesse sido fanático até porque graças a Odin sempre tive espírito crítico e pensei pela minha própria cabeça. No entanto sempre gostei de estar bem informado para rebater os argumentos adversários o que por vezes chateia as pessoas. É mais ou menos como quando discutia religião com os crentes! 
O futebol foi também elemento determinante num dos momentos importantes da minha vida. Na traseira dum autocarro discutia-se bola. Uma adolescente que não conhecia pessoalmente ia sentada no banco à minha frente, à esquerda, olha a determinado momento para trás após um comentário meu e há trocas de conversas entre todos. Mais tarde essa jovem torna-se minha amiga, e mais à frente namorada durante quase oito anos. "Pensei que não gostasses de futebol" disse-me. No entanto foi ela que, não gostando de futebol, quis ir à festa do penta lá do seu clube azul e branco. Eu levei-a e ela depois foi ter com as amigas da escola. "O Jardel acenou-me", disse-me feliz (e eu que pensava que tu não gostavas de futebol!)

À medida que me fui tornando adulto o entusiasmo foi decaindo, mesmo quando os vermelhos começaram a ganhar mais. Ganhar mais significava que que ninguém me chateava tanto com o futebol o que é ótimo! No trabalho a grande maioria dos azuis andavam sempre caladinhos, e muitas vezes o motivo de se lembrarem que o futebol existia não era quando o clube deles ganhava. Não!, era sim quando os vermelhos perdiam! Por isso sempre achei que o segundo maior clube em Portugal nem era azul nem verde, era sim o anti-vermelho!, o que não deixa de ser completamente absurdo mas no futebol raramente as coisas fazem algum sentido.  

Eu nunca fui adepto de ir ver jogos ao estádio, nem aquele adepto que tem que comprar o jornal da bola todos os dias. Mas o afastamento do fenómeno futebol tornou-se ainda maior quando Miguel Relvas, ministro do governo de Passos Coelho, que estava empenhadíssimo em privatizar a RTP, resolveu retirar o futebol da lista de interesse público e a RTP deixou de transmitir aquele único jogo de futebol semanal que dava em sinal aberto e, quem quisesse assistia a jogos na televisão pública teria que passar a assinar um canal pago no cabo ou ir ao café ver os jogos. Ou seja, desde Outubro de 2012 que não mais vi um jogo do campeonato português.

Houve uma única vez que fui a um estádio de futebol. Foi no ano de 1993 no estádio do Bessa na cidade do Porto. Eu estudava na escola secundária em frente e durante a semana comprei os bilhetes (para mim e para o meu tio que me acompanhou) e que custaram dois contos para a banca central. Foi um dia de Primavera de muito temporal, muita chuva. O relvado estava inundado de água e a expressão "atirou-se para a piscina" nesse jogo fazia  todo o sentido! Na equipa do Benfica pontificavam jogadores como Rui Costa, Futre, Isaías, Paulo Sousa ou Yuran. Tive a sorte de ter estado num jogo épico pois quando o Benfica ganhava por 1-3 o guarda-redes Neno é expulso e provoca grande penalidade e, além da equipa ter ficado a jogar com nove jogadores, ainda teve colocar um jogador de campo na baliza. Mas  a verdade é que, apesar de ainda faltar mais de quinze minutos para o fim do jogo, e apesar das várias tentativas, Paulo Sousa que substituiu Neno envergando uma camisola de guarda-redes às avessas defendeu tudo.


Depois de duas décadas para esquecer o Benfica o clube começa a ganhar mais a partir de 2010, época que coincidiu, coincidência ou não, com a chegada de Jorge Jesus. Na verdade eu nunca consegui entender o seu endeusamento visto que, a cada dois anos só ganhou um campeonato (exatamente o mesmo que Rui Vitória ou Bruno Lage) e ainda por cima não aposta na formação e exige gastos astronómicos. Jorge Jesus e o presidente Vieira nunca me agradaram. Eu não gosto de fanfarrões como Jesus, que se acha o melhor do mundo e arredores. Não gosto de pessoas com falta de humildade e com um ego tão inchado que depois acabam prostrados de joelhos perguntando-se como é possível que tenham perdido. Do presidente Vieira revolta-me que, depois de ter assistido a décadas de máfia azul e branca, veja agora que o amigo pessoal de Pinto da Costa fez exatamente igual ao que antes criticava e que os processos em tribunal por corrupção sejam mais do que muitos ainda que, à semelhança do seu amigo Pinto da Costa também coincidentemente nunca nada se tenha provado.

Desde que o futebol saiu da RTP, há oito anos, que cada vez mais me desinteressei pela bola. A bola é um fenómeno que só atrai o que de pior existe na sociedade. Sejam os empresários falidos e corruptos, seja gente violenta que mais parecem uns animais selvagens e que precisam que a polícia os leve aos estádios para não se matarem uns aos outros. Os empresários mais ou menos falidos aproximam-se do futebol porque é uma forma fácil de enriquecer, de delapidar o clube em benefício próprio, à custa do adepto-sócio, que assina o canal de futebol pago a peso de ouro, que compra o jornal todos os dias e que vai todas as semanas ver os jogos.

E, se depois de Vieira não ter renovado contrato com Jesus e ter afirmado que se este treinador não fazia parte do futuro do clube vermelho e branco, e depois da forma como enxovalhou e insultou as pessoas que lá trabalharam, eu afirmei que deixaria de ser benfiquista se ele um dia regressasse. Felizmente desinteressei-me do futebol muito antes desse regresso para não ter que passar pela vergonha de cumprir o que disse mas de qualquer forma há muito que o Benfica deixou de ter seis milhões de adeptos.

sábado, 6 de junho de 2020

Quando os Aviões Bombardeiam Nós Jogamos Futebol?

Disseram-nos que isto da pandemia era uma guerra, não foi? 

Muito bem. Então quando os canhões inimigos disparam incessantemente e as anti-aéreas ainda não conseguem abater todos os aviões que não param de nos bombardear,  nós dizemos "que se lixe" e vamos mas é jogar futebol?



Depois de três meses que foi um descanso sem futebol, eis que os responsáveis do futebol, com o total apoio dos responsáveis políticos e governo - que eu saiba nenhum partido se manifestou contra o regresso do futebol - aprovaram o regresso do futebol, esquecendo-se que, apesar de terem proibido os santos populares e os festivais de verão, passado umas semanas, no fim do campeonato os adeptos irão para as ruas festejar o título como se não houvesse amanhã.

Sim, é verdade. Os responsáveis disseram que contam com a responsabilidade dos adeptos. Obviamente, até porque, como todos nós sabemos, os adeptos de futebol são das pessoas mais responsáveis e cumpridoras da lei que conhecemos na sociedade! Não há quaisquer motivos para preocupações. Os adeptos de futebol vão ficar todos em casa vendo pela televisão estas dez jornadas que faltam, não se irão misturar, e quando houver campeão ficarão todos, cada um na sua casa. 

As pessoas insurgiram-se contra cem pessoas no parlamento aquando do 25 de Abril; insurgiram-se aquando da manifestação do 1º de Maio da CGTP e, que se saiba não infetou centenas de sindicalistas; as pessoas vão para as praias fotografar os outros e depois meter nas redes sociais: "vejam como vem toda a gente para a praia em tempo de pandemia". Mas, estranhamente, não vejo manifestações violentas de nenhum partido, nem de milhares de indignados nas redes sociais por causa do futebol. Devo ser só eu que considero isto um perfeito absurdo e que não está tudo bem.   

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Marega é a Rosa Parks do Futebol Português

Wikipedia

No dia 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks entrou num autocarro, no centro da cidade de Montgomery. Pagou o bilhete e sento-se na primeira fila de assentos reservados a negros. O motorista seguiu viagem e o autocarro foi enchendo até que na terceira paragem, vários passageiros entraram e dois ou três brancos ficaram de pé. Para resolver o "problema" o motorista mudou o sinal de "colored" (negros) e exigiu que os passageiros negros sentados se levantassem para que os passageiros brancos se sentassem. Enquanto os outros três negros se levantaram, Rosa recusou-se. Foi chamada a polícia e ela foi detida, acusada de violar a lei da segregação, apesar de tecnicamente ela não ter sentado em nenhum assento reservado a brancos. 

Excerto adaptado daqui.


domingo, 3 de novembro de 2019

Em Quantos Tipos se Divide a Humanidade?

Dostoievsky, através da sua personagem Raskólnikov dividiu a humanidade entre os ordinários e os extra-ordinários... 

Já Gabriel Garcia Márquez preferiu dividir, na sua personagem Florentino Ariza, a humanidade entre os que cagam bem e os que cagam mal...




Eu acrescentaria ainda um terceiro grupo: aqueles que se estão a cagar para tudo:




quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Conversas Improváveis (47) - Empresa 1 - Sporting 0

5 de Agosto de 2019:

- O que é que achas que acontecerá primeiro? O despedimento do treinador do Sporting ou o encerramento da empresa?! 

Dia 3 de Setembro: