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domingo, 26 de julho de 2026

O Dinheiro de Salazar

Há uma certa classe política e muitos saudosistas do tempo da sardinha-para-três, que defende que o Salazar nasceu e morreu pobre, mas será mesmo assim? 

Ciclicamente, a revista Sábado regressa ao tema de Salazar, e desta vez o tema é o património do ditador. 


Basta só pensar um bocadinho. Se Salazar tivesse, de facto, nascido pobre teria podia ir estudar?, ainda para mais para a universidade de Coimbra? Obviamente que não. No início do século XX Portugal era um país muito pobre, a maior parte das pessoas não sabia sequer ler e escrever, e os filhos serviam para ajudar os pais na agricultura. 

E, ao contrário do que muitos querem romantizar, Salazar, não nasceu pobre - comparado com a média das famílias daquele tempo - muito menos morreu pobre.

De forma muito sintética:

- Salazar recebia naquele tempo o mesmo que recebe hoje o primeiro-ministro português
- Comprou terrenos e outros bens e deixou mais de 100 mil € no banco
- De 1939 até 1970 viveu sem pagar qualquer renda
- Usava os serviços do Estado em benefício próprio
- Teve direito a uma subvençãozinha vitalícia
- Não menos importante, num tempo em que a população bem sequer tinha direito a um Serviço Nacional de Saúde, universal e gratuito, a doença de Salazar custou aos cofres do Estado cerca de dois milhões de euros.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres

Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.

"Johann Chapoutot, historiador da Sorbonne, vendeu 70.000 exemplares em França de Irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?, sobre os agitados anos que antecederam a nomeação do líder nazi como chanceler do Reich, em janeiro de 1933. 

A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.

Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.

Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?


Os nazis obtiveram 44%, mas em condições não democráticas. A verdadeira evolução interrompeu-se a 6 de novembro de 1932 (33%), as últimas eleições livres, e aí os nazis estavam em queda livre, como noutros escrutínios locais.

E à beira da cisão.

Sim, porque uma grande parte do aparelho, como o número dois, Gregor Strasser, e o presidente do grupo parlamentar, Wilhelm Frick, estavam prestes a sair. Além disso, a hierarquia em torno de Hitler, sobretudo Goebbels, constata um fracasso. Recordo isso e exploro as motivações e comportamentos dos atores sociais que colocaram os nazis no poder precisamente quando atravessavam grandes dificuldades e não havia qualquer lógica democrática.

Menciona o mundo empresarial, os latifundiários, os militares, mas quase não refere o meio cultural, a intelectualidade.

Porque não tem peso. Falo de quem, nesse período, tinha o poder. Recordo que desde março de 1930 não havia democracia parlamentar na Alemanha porque o círculo próximo do presidente Von Hindenburg decidiu abusar da Constituição para confiscar o poder. Esse círculo era composto por militares, pelo seu filho Oskar, também latifundiário, financeiros, seguradoras, banqueiros, industriais e altos funcionários. Foram decisivos na pressão sobre o presidente. Os últimos a alinhar com a solução Hitler foram os grandes exportadores do Ruhr, porque os nazis tinham projetos autárquicos que os inquietavam.

Diz que a missão histórica do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) era captar eleitores tentados pelo marxismo e levá-los para o nacionalismo.

Essa era a missão explícita em 1919, daí o nome absurdo, puro marketing. Havia indicadores de direita (nacional e alemão) e supostos indicadores de esquerda (socialista e trabalhadores). Pura fachada e propaganda, porque a linha nazi era de extrema-direita desde o início. Mas existia essa ideia de evitar que a massa flutuante fosse para a solução comunista e internacionalista. Estamos em pleno contexto revolucionário nessa época. Na realidade, fracassaram. O eleitorado nazi era de direita. O grosso era a pequena classe média, aterrorizada pela ideia comunista e pelo medo de cair na proletarização. Todos os estudos mostram que o voto operário e dos desempregados foi, na sua esmagadora maioria, para social-democratas e comunistas. Os ganhos dos nazis até julho de 1932 vieram dos abstencionistas e do eleitorado de direita.

Compara Macron com Von Papen (vice-chanceler de Hitler, que o promoveu). Porquê? Também dará o poder à extrema-direita?

A estatística fala por si. Havia dois deputados do Reagrupamento Nacional (RN, o partido de Le Pen) em 2017 e agora há 139. Macron deu entrevistas a meios como Valeurs Actuelles, condenado por incitação ao ódio racial. Este homem foi eleito duas vezes contra a extrema-direita. Esse era o seu mandato, o único. Não era destruir o serviço público, nem dar dinheiro ao senhor Arnault (dono do grupo Louis Vuitton). O seu mandato era travar a extrema-direita e fez exatamente o contrário. Efetivamente, tem o mesmo papel que Von Papen na história. Era um liberal autoritário que fez uma política de oferta, a favor do patronato, de destruição do Estado social e desregulação do mercado de trabalho. Essa é a parte liberal. A parte autocrática é quando, em França, não se respeita o resultado das eleições legislativas.

Nos anos trinta havia porosidade entre a direita e a extrema-direita. Vê um paralelismo?

Falo mais do centro extremo. Em França, Os Republicanos não contam para nada e estão condenados a desaparecer. A verdadeira nova direita é o centro extremo macronista. A extrema-direita e o extremo-centro têm o mesmo inimigo: a esquerda - e não apenas a extrema-esquerda, mas também os social-democratas e os sindicalistas cristãos. Têm a mesma base eleitoral, a pequena burguesia, e os mesmos mecenas.

Extremo-Centro?

Como historiador, levo as palavras a sério. As pessoas em torno de Von Papen apresentavam-se como centristas e moderadas. O mesmo acontece hoje em torno de Macron. Tomo esse conceito e acrescento-lhe “extremo” porque esses supostos centristas são, na realidade, extremistas, como estudou o professor Pierre Serna. Quando se trata de defender os seus interesses e o seu poder, vão até ao fim. Não respeitam os resultados eleitorais, disparam balas de borracha sobre a multidão. Ideologicamente, a extrema-direita e o extremo-centro têm a mesma cultura política. São darwinistas sociais, nacionalistas, conservadores. Em suma, têm tudo para se entender e, de facto, entendem-se e aliam-se. Mas há sempre essa ambiguidade e hipocrisia de fazer concessões constantes à direita e à extrema-direita e, quando há eleições, dizer que são o “muro”. É uma perversidade monstruosa.

La Vanguardia / 26 de Abril 2026

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O Fascismo Germina na Ignorância do Passado

"Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo" (George Santayana)

"A única coisa que aprendemos com a História é que não aprendemos nada com a História." (Hegel)

"Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado." (George Orwell)





"Contam-se agora cerca de dezassete milhões de jovens, entre 18 e 21 anos, nos Estados Unidos. Ou sejam, 11% do novo corpo eleitoral. Ora, para 92% deles, a Primeira Guerra mundial é desconhecida. A crise económica de 1929 não desperta qualquer eco em 82% deles. E 62% não podem dizer o que se passou em Pearl Harbour em 1941; 56% nada sabem da guerra da Coreia, 40% ignoram tudo sobre o assassínio de John Kennedy. Em cada dez, três já se esqueceram de que em Julho de 1969 um americano, Neil Armstrong, se tornou o primeiro homem a pisar o solo lunar. Esta sondagem data de Maio de 1976. Compreende-se que nos seus discursos os políticos americanos avisados limitem as suas referências ao passado. Para muitos eleitores, falariam patagão ou swahili, uma língua desconhecida.

Do livro "Estes doentes que nos governam" de Pierre Accoce e Pierre Rentchnick

domingo, 5 de janeiro de 2025

O Pavão Voa Para Sudeste


 Há dias partilhava aqui um texto do Miguel Esteves Cardoso no Público em que ele dizia: "A verdade é que tem de ser cada um a procurar o que gosta. Só procurando se encontra o que nos faz felizes".

Onde é que eu descobri o poema que dá título ao nome desta publicação? Ninguém me disse para ler ou li num livro ou sequer na net, descobri, por mero acaso, no último dia de 2024, num jornal chinês, em que o tema era o pavão-verde, que está em risco de extinção mas que, nos últimos dez anos recuperou graças aos esforços do país. Mas no mesmo artigo do jornal mencionava também: 

"Imagens de pavões-verdes podem ser encontradas em muitas obras literárias e artísticas", disse Yang, que se reformou do Instituto de Zoologia de Kunming, em Yunnan, uma instituição pertencente à Academia Chinesa de Ciências. Por exemplo, "O Pavão Voa para Sudeste" é um famoso poema narrativo longo da Dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.).

E de imediato perguntei-me: que poema será esse? 

Na Wikipedia, podemos ler: "Em mais de trezentos versos, conta a história de um jovem que deve abandonar a esposa porque sua mãe (não?) gosta dela. A esposa divorciada é forçada a aceitar um novo casamento por parte de sua família. Ela então comete suicídio. Pouco depois, seu ex-marido fez o mesmo, enforcando-se numa árvore".


 


O ChatGPT (que deverá ser lido com muitas reservas) referiu o seguinte:

"O poema narrativo "O Pavão Voa para Sudeste" (孔雀东南飞, Kǒngquè Dōngnán Fēi), que é uma das obras mais emblemáticas da literatura clássica chinesa, datada do final da Dinastia Han Oriental (25–220 d.C.). Esse poema é considerado o mais antigo poema narrativo extenso preservado na literatura chinesa, marcando um ponto alto na poesia da época.

Resumo da História

O poema narra a trágica história de amor entre Liu Lanzhi, uma mulher virtuosa, e seu marido, Jiao Zhongqing. Devido à pressão da mãe de Jiao, que desaprova Liu Lanzhi, o casal é forçado a se separar. Liu Lanzhi retorna à casa da sua família, enquanto Jiao, incapaz de suportar a perda, tira a própria vida. Ao saber da morte de Jiao, Liu também comete suicídio, reafirmando seu amor eterno.

O título, "O Pavão Voa para Sudeste", simboliza a separação e a tristeza do casal, com o pavão representando a busca de um lar ou união perdida.

Estrutura e Estilo

O poema possui mais de 350 versos e está escrito em uma forma poética que mistura narração com diálogos e reflete a sociedade patriarcal da época, o peso das normas familiares e a luta por amor e independência. Também ilustra o papel das mulheres na sociedade Han e a rigidez das obrigações familiares.

Relevância Cultural

"O Pavão Voa para Sudeste" é considerado uma das duas grandes baladas do período Han, junto com "A Canção de Mulan" (木兰辞, Mùláncí). A obra é muito estudada como um exemplo da fusão entre lirismo poético e narrativa, além de oferecer insights sobre os valores e conflitos da sociedade da época".

Não encontrei nada em português, encontrei em inglês e fiz uma tradução automática que, logicamente não será a mais fiel nem poética mas, de qualquer forma, aqui fica:


"O Pavão voa para sudeste, parando a cada cinco milhas

Aos treze anos sabia tecer seda simples,
aos catorze aprendi a cortar roupas;
aos quinze tocava o alaúde de muitas cordas,
aos dezasseis recitava os Cânticos e a História.
Aos dezassete tornei-me tua esposa,
mas no meu coração havia sempre tristeza e dor.
Eras um funcionário na repartição pública,
guardei a minha virtude e nunca te fui infiel.
Ao cantar do galo começava o meu trabalho no tear,
noites e noites sem descansar.
Em três dias produzia cinco medidas de tecido,
mas o Grande Senhor (mãe?) queixava-se da minha lentidão.
Não é que eu seja tão lenta a tecer,
mas é difícil ser noiva na tua casa.
O trabalho é mais do que consigo suportar -
de que serve ficar aqui por mais tempo?
Por isso peço à tua nobre mãe,
que me deixe partir imediatamente!"

Quando o funcionário ouviu isto,
subiu ao salão e dirigiu-se à mãe:
"Teu filho tem pouca sorte,
mas felizmente encontrei esta esposa.
Desde que prendemos os cabelos, partilhámos o leito e o tapete,
e juntos iremos até às Fontes Amarelas.
Mas mal passaram dois ou três anos,
quase nenhum tempo desde que nos casámos.
Não há nada de errado na conduta desta mulher -
porque a tratas tão severamente?"

A mãe disse ao funcionário,
"Como podes ser tão tolo e indulgente?
Esta esposa não conhece as regras da decência,
as suas ações são egoístas e obstinadas.
Há muito tempo que ela me irrita -
como ousas tentar impor a tua vontade!
A família a leste de nós tem uma filha virtuosa -
Qin Luofu é o seu nome,
linda na forma, sem igual em beleza -
a tua mãe tratará de organizar tudo para ti.
Esta outra deve ser mandada embora imediatamente,
manda-a embora e não te atrevas a detê-la!"

O funcionário, humildemente ajoelhado, respondeu,
"Imploro para dizer isto à minha mãe:
se esta minha esposa for mandada embora,
até à morte nunca terei outra!"
A mãe, ao ouvir isto,
bateu com força na cadeira num ataque de fúria.
"Insensato, não tens juízo?
Como ousas falar a favor da tua esposa!
Já desperdicei gentileza suficiente com ela -
nunca darei permissão para isso!"
O funcionário ficou em silêncio, sem falar;
inclinou-se uma vez mais, depois voltou para o quarto,
começou a contar à esposa o que tinha acontecido,
mas os soluços impediram-no de falar.
"Não sou eu quem te manda embora -
a minha mãe força-me a isso.
Vai apenas para casa por algum tempo,
devo ir para a repartição pública,
mas em breve voltarei
e então certamente virei buscar-te.
Que estas minhas palavras acalmem os teus medos,
cuida-te e não as desobedeças!"

A jovem esposa disse ao funcionário,
"Chega de palavras confusas!
Certa vez, no início da primavera,
deixei a minha família e vim à tua nobre porta,
fiz tudo o que podia para servir a tua nobre mãe -
quando fui eu alguma vez obstinada nos meus modos?
Dia e noite mantive-me nas minhas tarefas,
embora dores e exaustão me consumissem.
Não sei de nenhuma falha ou erro meu -
esforcei-me apenas para pagar a grande dívida que lhe devo.
E agora estou a ser expulsa —
como podes falar do meu regresso?
Tenho um colete bordado
tão belo que brilha com a sua própria luz.
Tenho cortinas de cama duplas de gaze escarlate
com bolsas perfumadas penduradas nos quatro cantos.
Tenho caixas e cestos, sessenta ou setenta,
amarrados com cordões verdes, turquesa e azuis.
Cada um é um pouco diferente do outro,
e dentro deles há artigos de todos os tipos.
Mas se uma pessoa é humilde, as suas coisas também devem ser inúteis -
não serviriam para quem vier depois.
Deixo-as para que possam ser usadas como presentes.
De agora em diante não nos veremos mais -
olha para elas às vezes, se isso te agradar,
e ao longo dos anos, não te esqueças de mim!"

Os galos cantaram, o amanhecer despontava lá fora;
a esposa levantou-se, vestiu-se com cuidado,
colocou a sua saia bordada forrada,
repetindo cada movimento quatro ou cinco vezes.
Nos pés usava sapatos de seda,
na cabeça brilhava um pente de tartaruga;
à cintura enrolou uma gaze branca fluida,
nas orelhas prendeu pérolas brilhantes como a lua.
Os dedos eram finos como raízes de cebolinha,
a boca parecia forrada de vermelhão ou cinábrio.
Andava graciosamente, com passos delicados,
em beleza inigualável em todo o mundo.

Ela subiu ao salão, ajoelhou-se perante a mãe;
a mãe concordou em deixá-la partir, não fez nada para a impedir.
"No passado, quando era uma criança,
nascida e criada no campo,
não tive formação nem instrução adequada,
e acrescentei à minha desgraça ao entrar na vossa nobre família.
Recebi de vós inúmeras moedas e peças de tecido,
mas nunca consegui servir-vos devidamente.
Hoje volto para a minha antiga casa,
embora tema que a minha partida possa deixar a vossa casa desfalcada."

Depois foi despedir-se da sua pequena cunhada,
com lágrimas a cair como fios de pérolas.
"Quando cheguei aqui como noiva,
mal conseguia levantar-me segurando na cama,
Hoje, ao ser expulsa,
tu já tens a mesma altura que eu!
Peço-te que cuides bem da tua mãe,
e cuides também de ti própria.
Quando chegarem o sétimo e o vigésimo nono dias,
lembra-te dos jogos e bons momentos que tivemos juntas."

Depois saiu pelo portão, subiu para a carruagem e partiu,
as lágrimas a cair em rios intermináveis.

O funcionário tinha partido a cavalo,
a esposa partiu mais tarde na carruagem;
tum-tum, rumble-rumble iam as rodas,
quando os dois se encontraram à entrada da estrada principal.
O funcionário desmontou, subiu para a carruagem,
abaixou a cabeça e falou-lhe ao ouvido:
"Juro que nunca te deixarei -
apenas volta para casa por algum tempo.
Devo ir para a repartição pública,
mas em breve estarei de volta.
Juro ao Céu que não te serei infiel!"

A jovem esposa disse ao funcionário,
"Estou grata pela tua gentil preocupação.
Se realmente pensas tanto em mim,
posso esperar que voltes em breve.
Deves ser como a rocha sólida,
eu como o junco ou a cana.
Os juncos e as canas podem ser fortes, assim como flexíveis,
desde que a rocha não se mova.
Mas tenho um pai e um irmão mais velho
com temperamentos tão violentos quanto trovões.
Duvido que me deixem seguir a minha vontade -
só de pensar nisso, o meu coração empalidece!"

Ergueram as mãos em despedidas intermináveis,
duas almas ligadas por um único anseio.

Pelo portão, para dentro de casa entrou a jovem esposa,
sem saber como enfrentar a família.
A mãe bateu as palmas:
"Eu nunca esperei que esta filha voltasse!
Aos treze anos ensinei-te a tecer,
aos catorze já sabias cortar roupas;
aos quinze tocavas o alaúde de muitas cordas,
aos dezasseis entendias as regras de decoro.
Aos dezassete enviei-te para seres noiva,
pensando que nunca trairias os teus votos.
Mas agora, se não cometeste algum erro,
porque voltaste para casa sem ser chamada?"

Lanzhi ficou envergonhada perante a mãe:
"Juro que não fiz nada de errado!"
e a mãe sentiu grande pena por ela.

Quando estava em casa há dez dias ou mais,
o magistrado enviou o seu casamenteiro:
"É sobre o terceiro filho do magistrado,
um jovem mais belo não há no mundo,
acabado de fazer dezoito ou dezanove anos,
eloquente e cheio de talentos —"

A mãe disse à filha,
"Aqui está uma proposta digna de resposta!"
Mas a filha, sufocada por lágrimas, respondeu,
"Quando voltei para casa desta vez,
o funcionário implorou-me vezes sem conta,
e fizemos um juramento de que nunca nos separaríamos.
Hoje, se eu fosse contra esses sentimentos,
temo que nada de bom poderia advir disso!
Deixemos estas negociações de lado,
ou digamos que precisamos de tempo para pensar."

A mãe informou o casamenteiro,
"Esta filha da nossa pobre e humilde casa
acabou de ser devolvida do seu primeiro casamento.
Se ela não serviu para ser esposa de um funcionário,
como poderia ser adequada para o filho de um magistrado?
Imploro que procureis noutras paragens -
nunca poderíamos dar o nosso consentimento.

Alguns dias após o casamenteiro ter partido,
um assistente veio da parte do governador com um pedido semelhante,
dizendo que a família de Lanzhi
servira como oficiais por gerações,
que o quinto filho do governador,
um filho muito estimado, ainda não estava casado,
e que o assistente tinha sido enviado como mediador,
acompanhado de um secretário para abrir as negociações.
“Na família do governador,” relatou,
“há um jovem cavalheiro distinto -
eles desejam concluir uma aliança matrimonial
e, por isso, enviaram-me à vossa nobre casa.”
A mãe desculpou-se com o casamenteiro:
“A minha filha já deu a sua palavra a outro lugar -
o que pode uma velha como eu dizer?”

Quando o irmão mais velho de Lanzhi soube disto,
ficou perturbado e zangado no coração.
Foi falar com a sua irmã mais nova,
“Que forma imprudente de planear as coisas!
Antes estavas casada com um funcionário,
agora podes casar com este cavalheiro.
O teu destino seria tão diferente quanto o céu da terra -
poderias assegurar um futuro brilhante!
Se não casares com este distinto cavalheiro,
como planeias seguir em frente?”

Lanzhi ergueu a cabeça e respondeu,
“O que dizes é bastante razoável, irmão.
Deixei a minha família, fui servir um marido,
mas, a meio caminho, voltei para a casa do meu irmão.
Os teus desejos devem governar esta questão -
como poderia eu esperar ter a minha vontade?
Embora o funcionário e eu tenhamos feito promessas,
parece que o destino não nos permitirá voltar a encontrar-nos.
Deixemos o nosso consentimento dado de imediato
e avancemos com os preparativos para o casamento.”

O casamenteiro desceu do seu lugar,
dizendo “Sim, sim,” e depois “Ótimo, ótimo!”
Voltou e relatou ao governador,
“O vosso servo cumpriu a tarefa—
as conversações terminaram num acordo esplêndido.”
Quando o governador ouviu isto,
o seu coração encheu-se de alegria.
Consultou o calendário, verificou os livros,
decidiu que este mês era perfeito.
“Os seis acordos agora estão em harmonia,
o trigésimo é um dia auspicioso.
Hoje já é o vigésimo sétimo—
voltem e arranjem o casamento!”

As conversações foram realizadas, os preparativos apressados,
uma agitação incessante como nuvens flutuantes.
Barcos de pardais verdes e gansos brancos,
bandeiras de dragão nos quatro cantos
esvoaçando graciosamente ao vento,
carros dourados com rodas adornadas de jade,
cavalos malhados cinzentos marchando lentamente,
selas bordadas a ouro com pompons coloridos,
um presente de casamento de três milhões em dinheiro,
todas as moedas atadas com cordas verdes,
trezentas peças de tecido em tons variados,
mariscos raros comprados em Jiao e Guang,
acompanhantes, quatro ou quinhentos,
todos saindo em multidão pelos portões do governador.

A mãe disse à filha,
“Recebeste a carta do governador.
Amanhã virão buscar-te -
porque não estás a fazer as roupas que precisarás?
Não vás estragar tudo agora!”
A filha ficou em silêncio, sem dizer uma palavra,
com o lenço abafando os seus soluços,
as lágrimas a caírem em cascatas.
Moveu o sofá cravejado de cristais,
colocou-o em frente à janela,
na mão esquerda pegou na faca e na régua,
na mão direita segurou os cetins e gazes.
De manhã, terminou a saia bordada forrada,
à noite, terminou a jaqueta de gaze sem forro,
e à medida que o dia se desvanecia e a escuridão caía,
com pensamentos sombrios saiu pelo portão a chorar.

Quando o funcionário soube desta mudança de situação,
pediu licença para ir a casa por um tempo,
e quando estava a dois ou três milhas de distância,
o seu cavalo cansado começou a relinchar tristemente.
A jovem esposa reconheceu o relinchar do cavalo,
calçou os sapatos e foi ao encontro,
espreitando ansiosa ao longe,
e então soube que o seu marido tinha vindo.
Erguendo a mão, bateu na sela,
com soluços que rasgavam o coração.
“Desde que me despedi de ti,
aconteceram coisas inimagináveis!
Já não posso ser fiel à promessa que fiz antes,
embora duvide que compreendas porquê.
Tenho os meus pais a considerar,
e o meu irmão também me pressionou,
fazendo-me prometer a mim mesma a outro homem -
como poderia ter certeza de que voltarias?”

O funcionário disse à sua esposa,
“Parabéns pela tua ascensão no mundo!
A rocha é quadrada e sólida—
pode durar mil anos.
Mas o junco ou a cana - o seu momento de força
dura apenas do amanhecer ao anoitecer!
Tornar-te-ás mais poderosa, mais exaltada a cada dia -
eu irei sozinho para as Fontes Amarelas.”

A jovem esposa disse ao funcionário,
“O que queres dizer com tais palavras?
Ambos fomos forçados contra a nossa vontade,
tu foste, e eu também!
Nas Fontes Amarelas encontraremos-nos novamente -
não traias as palavras que digo hoje!”
Deram-se as mãos, depois separaram-se,
cada um voltando para a sua família.
Ainda vivos, foram separados como se pela morte,
com um pesar e arrependimento indescritíveis,
pensando agora em despedir-se do mundo,
sabendo que as suas vidas não podiam durar mais.

O funcionário voltou para casa,
subiu ao salão, curvou-se perante a sua mãe:
“Hoje os ventos sopram ferozes e frios,
os ventos frios quebram os galhos das árvores,
e uma geada dura acumula-se nas orquídeas do jardim.
O vosso filho hoje entrará na escuridão,
deixando-vos sozinha.
Faço esta coisa má por minha própria vontade -
não culpem os deuses ou os espíritos.
Que os vossos anos sejam como a rocha na montanha do sul,
e os vossos quatro membros firmes e direitos.”

Quando a mãe ouviu isso,
as suas lágrimas caíram acompanhando as suas palavras:
“Tu és filho de uma grande família
que serviu em altos cargos governamentais.
Não sejas tolo a ponto de morrer por esta mulher,
que está tão abaixo de ti!
A família a leste tem uma filha virtuosa,
a sua beleza é motivo de orgulho em toda a cidade.
A tua mãe arranjará para que te cases com ela,
e isso será feito no espaço de um dia!”

O funcionário curvou-se novamente e retirou-se,
no seu quarto vazio suspirou incessantemente,
depois fez o seu plano, determinado a segui-lo,
virou a cabeça, olhou para a porta,
a dor apertando-o mais cruelmente do que nunca.

Naquele dia, os bois mugiram, os cavalos relincharam,
quando a noiva entrou no recinto verde.
E após a escuridão da noite ter chegado,
quando tudo estava quieto e as pessoas tinham-se recolhido,
ela disse: “A minha vida terminará hoje,
a minha alma partirá, deixando apenas o meu corpo.
Levantou a saia, tirou os sapatos de seda,
e atirou-se ao lago claro.

Quando o funcionário soube disso,
ele soube no coração que deviam separar-se para sempre.
Ele deu voltas ao redor da árvore no jardim,
depois enforcou-se no ramo sudeste.

As duas famílias concordaram em enterrá-los juntos,
enterraram-nos ao lado da Montanha das Flores.
A leste e a oeste plantaram pinheiros e ciprestes,
à esquerda e à direita colocaram árvores de guarda-sol.
Os ramos juntaram-se para formar um dossel,
folhas entrelaçadas umas nas outras.
E no meio delas, um par de pássaros voadores,
do tipo chamado patos-mandarins,
levantaram as cabeças e chamaram-se mutuamente,
noite após noite até ao romper do dia.

Os viajantes paravam para ouvir,
as viúvas levantavam-se e caminhavam inquietas pelo quarto.
E isto eu vos digo, homens de gerações futuras:
tomem cuidado e nunca se esqueçam desta história!

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Verde - Como a Cor do Diabo se Tornou a Cor dos Ambientalistas

O jornal francês Libération está a publicar diariamente uma série de reportagens bem interessantes sobre a história das cores nas lutas políticas e sociais. Depois de ter partilhado o nº1 que foi sobre o vermelho, o nº2 é sobre o verde:


"As cores impregnaram as lutas políticas e sociais. Hoje, o verde, cujo nome e tonalidade cativaram partidos e movimentos de defesa do ambiente.

Traçar a união entre o verde e a luta ecologista seria como contar a história de um velho casal, daqueles que já não se questionam e cuja solidez dos laços se materializa até no nome. E, no entanto, esta associação nem sempre foi evidente. "O verde ecologista é recente, surgido nos anos 60-70. Como o que parecia mais ameaçado era o mundo vegetal durante essa tomada de consciência, o verde tornou-se a cor dos movimentos ecologistas", observa o historiador especialista em cores Michel Pastoureau.

DESTINO

Sob o impulso do partido alemão Die Grünen, a cor tornou-se política, iniciando o começo de uma quase unidade internacional. Embora alguns prefiram optar pelo termo "ecologista", pelo menos quarenta partidos utilizam o denominativo "verde", começando por Europe Ecologie-les Verts (mas que passou a chamar-se les Ecologistes em outubro de 2023) ou The Green Party em vários países anglófonos. "No Reino Unido, o nome 'Ecology Party' estava associado a uma ciência com a qual o cidadão comum não se identificava necessariamente. A substituição por The Green Party correspondia, provavelmente, a uma vontade de tornar o partido mais popular", analisa a linguista Camille Biros no seu estudo sobre "As cores do discurso ambiental".

A tonalidade clorofila, antes de ser a da natureza, era a da mudança, do destino. Na Europa Ocidental, existe a ideia de que traz má sorte. "A razão principal é que era uma cor instável. Sabia-se como fabricá-la, tanto em pintura como em tintura, mas não se conseguia fixá-la. Havia, portanto, a ideia de que seria instável", explica o historiador, acrescentando que está associada a tudo o que não dura: "A juventude, a sorte, a felicidade." Na Idade Média, o verde também era a cor do diabo, dos demónios, dos feiticeiros. Desde o ano 1000, o Islão fez também do verde a sua cor.

CÓDIGO

Foi apenas "a partir da época romântica que a ideia de natureza começou a ser associada ao mundo vegetal e, portanto, ao verde", recorda Michel Pastoureau. Antes disso, a natureza era percepcionada como a soma dos quatro elementos fundamentais: a água, a terra, o ar e o fogo. Quatro cores deveriam, portanto, representá-la logicamente. Como recorda o jornal suíço Le Temps, o código de cores do primeiro Dia da Terra, que mobilizou milhões de americanos a 22 de abril de 1970, inclinava-se mais para o azul. Uma passagem breve.

Hoje, o verde quase rivaliza com o vermelho como a cor ideológica mais associada a um movimento. "Se alguém diz 'o verde é a minha cor preferida', pensa-se logo que é um ecologista. Isso não acontece com outras cores", observa Michel Pastoureau. Algo que alimenta sem esforço o tão falado greenwashing. "Nos últimos cinquenta anos, há cada vez mais logótipos verdes, uma boa maneira de se associar vagamente à defesa do planeta, sem ter de pôr a mão no bolso", acrescenta.

Mas estará o vibrante verde esmeralda, recuperado a todo o custo, a esmorecer? "A pertinência do verde para representar a causa ambiental é por vezes posta em causa […]. Perdeu o seu significado", escreve Camille Biros. Nos últimos anos, o azul tem-se imposto, o da água, do céu, uma referência a esta "planeta azul" tal como é vista da estratosfera. Um sinal de uma evolução na luta ecologista, em que "os problemas ambientais são menos pensados numa escala local" e onde "a preservação de todo o ecossistema da Terra" é central, acrescenta a linguista. A poluição do ar e a questão da água ocupam um lugar cada vez mais importante. Se o verde ainda predomina, as empresas já estão preparadas para recuperar a sua simbologia, como ilustra a gama Bluemotion da Volkswagen, promovida pelo fabricante automóvel como menos emissora de CO2. Um prenúncio de bluewashing?

Marlène Thomas | Libération 5 de agosto de 2024

sábado, 3 de agosto de 2024

História: Como o Vermelho Passou de Cor Pacifista a Cor Política?

"O vermelho domina o cortejo do 1º de Maio, aparece nos logótipos de muitos partidos de esquerda, está presente nas grandes manifestações dos sindicatos... No entanto, durante muito tempo o vermelho não teve nenhuma conotação política ou ideológica. Na Europa, essa cor vibrante, durante muito tempo um símbolo de poder e riqueza, foi usada inicialmente para alertar sobre o perigo. Um legado que ainda encontramos nos nossos semáforos e sinais de proibição. Sob o Antigo Regime, durante grandes movimentos de multidões, as autoridades públicas agitavam uma bandeira ou um pano vermelho para convidar a multidão a se dispersar.

O dia 17 de julho de 1791 marca uma viragem na percepção dessa cor. "Havia muita gente no Campo de Marte que veio exigir a destituição de Luís XVI, após a fuga para Varennes. A bandeira vermelha foi exibida para convidar a multidão a se dispersar; era uma bandeira pacífica, e, sem se saber por quê, a guarda nacional atirou na multidão", relata o historiador especializado em cores Michel Pastoureau. Os disparos causaram cerca de uma centena de mortos, que foram elevados à condição de mártires da Revolução em curso. "A partir desse momento, o vermelho adquiriu uma significação política. De neutra, até pacifista, tornou-se insurrecional, o emblema da multidão que veio exigir a destituição de Luís XVI. Esse é o ponto de partida de tudo o que sabemos sobre o vermelho da esquerda, da extrema esquerda."

DISCURSOS

A bandeira vermelha estará presente em todas as revoltas populares, da Revolução Francesa ao século XIX. Após a abdicação de Luís Filipe, durante a revolução de 1848, o povo até pediu que ela fosse substituída pela bandeira tricolor. Alphonse de Lamartine, ministro das Relações Exteriores do governo provisório, opôs-se a isso num discurso histórico pronunciado diante do Hôtel de Ville de Paris: "A bandeira tricolor deu a volta ao mundo com a República e o Império, com as vossas liberdades e glórias, e a bandeira vermelha apenas deu a volta ao Campo de Marte, manchada com o sangue do povo." Estandarte dos insurgentes da Comuna de 1871, o vermelho transfere-se pouco a pouco ao socialismo. 

Os movimentos operários organizam-se e fazem dele o seu símbolo em toda a Europa. "A bandeira vermelha já estava bem estabelecida antes da revolução soviética de 1917 a 1922. Ela torna-se o emblema da URSS, do comunismo e, por extensão, dos países afiliados", observa o historiador. Mas cuidado para não se deixar levar por uma leitura anacrônica. A Praça Vermelha em Moscovo não recebe esse nome nem dos tijolos ao redor, nem de uma associação tardia com o comunismo. Em russo antigo, "krasny" tanto significa "belo" como "vermelho". A Praça Vermelha deve, portanto, ser compreendida no sentido de praça "bela".

"FORTE" 

Se hoje o vermelho pode parecer indissociável da esquerda e, em particular, do comunismo, essa norma cromática, muito difundida na Europa e na Ásia, não é universal. Um sinal da ambivalência social e cultural das cores: nos Estados Unidos e no Canadá, o vermelho é republicano, ou seja, conservador. "Para um olhar ocidental, nenhuma cor jamais encarnou tanto um movimento ideológico porque é a cor mais forte. É a primeira cor no plano simbólico", destaca Michel Pastoureau. Essa primazia não é por acaso. O vermelho é a primeira cor dominada pelo ser humano para pintar e tingir: "Na alta Antiguidade, um tecido tingido é mais frequentemente vermelho porque não se sabia fazer em outras cores." Longe de ser a cor favorita dos franceses, o vermelho mantém sua aura de primeira cor simbólica.

"Quand la gauche s’est mise à voir rouge" / Marlène Thomas / Libération (3 de Agosto de 2024)

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Efeméride do Dia: Salazar, a Maçã Podre

A 22 de Julho de 1946, passam hoje 78 anos, a revista Time colocou na primeira página o ditador português, Salazar, apresentado-o ao lado de uma bonita maçã por fora mas, podre por dentro. Como é lógico, a revista foi proibida de circular em Portugal. 


Podia ler-se ler-se na revista:

"A poucos quarteirões do grandioso e imaculado Rossio, o equivalente lisboeta da Times Square, os bairros de lata da Cidade Velha não têm eletricidade, água canalizada ou esgotos".

"Depois de 20 anos de Salazar, o decano dos ditadores da Europa, Portugal era uma terra melancólica de pessoas empobrecidas, confusas e assustadas"

"As vitrinas de Portugal estavam cheias de bens de luxo inacessíveis na maior parte da Europa. A sua unidade monetária, o escudo, manteve-se estável em quatro cêntimos. Por trás deste exterior brilhante de sucesso, a decadência corrói Portugal. O Mago Financeiro Salazar não equilibrou os orçamentos das famílias portuguesas. Os preços dos alimentos quase duplicaram desde 1939."

domingo, 23 de junho de 2024

O Futebol Durante o Nazismo

Junho de 2024. Joga-se o Europeu de futebol na Alemanha. Europeu que eu vi talvez uma horita, somando os dois jogos da seleção e já não conheço metade dos jogadores. E é em Belim, na Alemanha, que está patente uma exposição sobre o futebol no tempo do nazismo, que veio descrita nos dois diários espanhóis, o El País e o La Vanguadia e que achei muito interessante: 

"Os grandes eventos desportivos, como os Jogos Olímpicos de 1936, serviram ao Reich como altifalantes do nazismo. Uma exposição no Olímpico de Berlim mostra isso.Adolf Hitler elogiava as virtudes do desporto, especialmente o seu efeito entre os jovens. “Que corpos tão maravilhosos podem ser vistos hoje!”, comentou certa vez, após contemplar a foto de uma nadadora. Mas, no que toca ao exercício físico, não se pode dizer que pregasse pelo exemplo. “Recusava praticar qualquer desporto”, escreve nas suas memórias Albert Speer, o arquitecto favorito do Führer, confidente e ministro do Armamento do Reich: “Tampouco mencionou alguma vez tê-lo feito na sua juventude”.

Aos nazis, contudo, o que lhes interessava no desporto era a sua capacidade como arma de manipulação em massa. Os grandes acontecimentos desportivos, como os jogos de futebol, cenário de paixões arrebatadas, eram a ocasião ideal para inocular a ideologia fascista entre as multidões

Um bom exemplo disso é a exposição "Sport. Masse. Macht. Fußball im Nationalsozialismus" (Desporto. Massas. Poder. O futebol durante o nazismo), que se encontra no Museu do Desporto de Berlim, num edifício construído pelos nazis dentro do complexo olímpico, cujo estádio acolherá a final do Euro 2024, num momento em que a ascensão da extrema-direita - AfD foi a segunda força mais votada nas eleições europeias do passado dia 9 - preocupa o continente.

“O futebol já era um desporto de massas nos anos 20. Todos os fins de semana, milhares de pessoas de diferentes idades e classes sociais juntavam-se nos estádios. Para os nazis, esses espetáculos eram uma forma ideal de procurar o apoio de uma maioria que ainda não tinham”, explica Julian Rieck, historiador e curador da exposição. “No futebol, criava-se uma atmosfera de unidade que permitia praticar em massa gestos e rituais como a saudação nazi”.

A exposição mostra como o desporto foi utilizado para criar uma identidade comum e como ferramenta de propaganda no estrangeiro. A partir de abundante documentação, fotografias históricas e recortes de jornais, a mostra percorre o destino de dezenas de clubes judaicos de futebol durante a ascensão do nazismo e revela um aspeto pouco conhecido dos campos de concentração nazis: como também lá se jogou futebol. E como alguns dos seus prisioneiros salvaram a vida graças a isso.

A incrível história do burgalês Saturnino Navazo destaca-se entre os muitos exemplos de vidas de desportistas truncadas pelo nazismo. Navazo tinha sido jogador de segunda divisão antes de se alistar no exército republicano durante a guerra civil espanhola. Em 1939, escapou pelos Pirenéus para França: ficou internado no campo de Argelès-sur-Mer até que o governo francês enviou os republicanos espanhóis para trabalhar na indústria de armamento nazi.

Em Mauthausen, acabou por ser capitão da equipa de futebol espanhola e provavelmente graças a isso salvou-se a si mesmo e a um órfão judeu de oito anos, Siegfred Meir, que fez passar por seu filho quando o campo foi libertado. “Biografias como a de um espanhol que chega a um campo de concentração alemão e salva um menino judeu de Frankfurt evidenciam que o nazismo nasceu na Alemanha mas afetou toda a Europa”, assegura Rieck.

Um dos casos notórios de propaganda através do desporto é o jogo entre as selecções de futebol de Inglaterra e Alemanha, realizado a 4 de dezembro de 1935 em Londres, precisamente em White Hart Lane, o estádio do Tottenham Hotspur, equipa com uma notável afición judaica. Para essa ocasião, o governo nazi organizou a deslocação de 10.000 adeptos que fariam a saudação nazi durante o encontro.

O jornal Jewish Chronicle analisou assim a intenção do evento: “Há poucas dúvidas de que o propósito ulterior é apresentar ao mundo o espectáculo de uma confraternização anglo-nazi, para silenciar os protestos contra a tirania nazi [...] e para dar a impressão de que este país se reconciliou com o nazismo e tudo o que isso implica”. Assim que se soube da convocatória, o jogo desatou uma onda de protestos. Organizaram-se concentrações e difundiram-se cartazes. Um pode ser visto na exposição: “Propaganda para a guerra, propaganda para o ódio racial e o selvajismo é o propósito que Hitler vê cumprido com esta visita”.

Em 1938, proibiu-se por lei aos judeus participar em atividades desportivas. Com a invasão da Polónia pelo Terceiro Reich e o avanço da Segunda Guerra Mundial, os nazis destruíram clubes de futebol judaicos em toda a Europa ocupada. A exposição exibe reproduções das camisolas de 11 clubes destruídos pelos nazis e permite ler exemplos dos chamados parágrafos arianos, textos acrescentados aos estatutos dos clubes que vetavam sócios “não arianos”.

Durante a guerra, os atletas também viveram histórias de heroísmo e de miséria, que a exposição resgata brevemente. Como a de Otto Harder (1892-1956), bicampeão da Liga alemã com o Hamburgo e internacional pela selecção alemã, reconvertido em comandante de um campo de concentração onde morreram centenas de pessoas. Os visitantes também podem ver cinco atletas atuais apresentar em vídeo as biografias de outros tantos desportistas de elite (Lili Henoch, Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch) cujas carreiras e vidas foram destruídas pelos nazis. As suas histórias representam milhões de vítimas em toda a Europa.

El País, 16 de junho de 2024, ELENA SEVILLANO

"Em alguns campos nazis de tortura e morte, jogava-se futebol. Era um futebol precário como as vidas dos prisioneiros, que, no entanto, tinham mais hipóteses de sobrevivência se chutassem uma bola. Uma exposição no recinto do estádio Olímpico de Berlim, intitulada Desporto. Massas. Poder. Futebol sob os nazis, explora a utilização do futebol pela Alemanha de Adolf Hitler e, entre outros aspetos, detalha a paradoxal situação nos campos de concentração. A exposição, situada no Museu do Desporto, um edifício construído pelos nazis perto do estádio onde Hitler inaugurou os Jogos Olímpicos de 1936 e onde no próximo dia 14 de julho se disputará a final do Campeonato Europeu, pretende ir além da história.

“Aqui mostramos como os nazis pensavam que deviam ser os atletas e que tipo de pessoas podiam ser alemães; e se queríamos mostrar como o nacional-socialismo praticava a exclusão de determinadas pessoas, também devíamos refletir que a sua forma de excluir ainda tem continuidades pessoais e ideológicas em certa gente do desporto, embora, claro, não seja igual ao que era durante o nazismo”, explica o politólogo e historiador Julian Rieck, comissário da exposição, coorganizada pela Câmara Municipal de Berlim e pela entidade What Matters, dedicada a projetos contra o antissemitismo, racismo e outros tipos de discriminação.

Com copiosa documentação, reproduções de fotografias históricas e recortes de imprensa, réplicas de troféus realizadas com impressora 3D e camisolas de clubes judeus proibidos, a exposição percorre um tempo em que o futebol funcionou como uma peça mais do mecanismo nazi, e explora também reminiscências que afloram por vezes no desporto atual.

A imagética nazi desenvolveu-se como propaganda, e o desporto, que já nos anos vinte apresentava características de fenómeno de massas, foi sempre importante para o Terceiro Reich. “O desporto era central na ideologia nazi. Comunicava o ideal de masculinidade marcial. A ideia de uma comunidade nacional ariana ou Volksgemeinschaft podia ser gravada na psique alemã através do desporto. Além disso, os eventos desportivos, tal como outras reuniões de massas, proporcionavam um lugar para praticar rituais simbólicos como a saudação nazi”, relata um dos painéis da exposição. Mais ainda, o desporto deveria preparar a população, física e psicologicamente, para a guerra.

Tal como outras atividades da sociedade, o desporto serviu ao regime nazi para decidir quem pertencia à Volksgemeinschaft e quem não. Onze camisolas feitas para a exposição – não existem originais – lembram os onze clubes de futebol judeus proibidos a partir de 1933, como o Bar Kochba de Frankfurt ou o Hakoah de Essen. Também estrelas do desporto foram perseguidas ou assassinadas ou viram as suas carreiras truncadas, como a atleta Lilli Henoch ou os futebolistas Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch, cujas vidas são relatadas na exposição. Todos eram judeus, exceto Kerz, que foi perseguido por ser negro. Kerz e Guttmann sobreviveram.

Nos campos de concentração onde os nazis internaram milhões de pessoas em condições desumanas que levaram tantas à morte, algumas puderam jogar futebol. “As histórias de prisioneiros a jogar contra guardas são material de Hollywood, não se encontrou nenhuma evidência histórica disso; e não eram onze contra onze, os jogos faziam-se com o que estivesse disponível: bolas de trapos, os das cozinhas contra os carpinteiros, ou por nacionalidades… e fazê-lo dependia de se o comandante do campo gostava de futebol – explica Rieck. Também influía uma lógica cruel nazi: a partir de 1942 o exército precisava cada vez mais de munições, muitas eram fabricadas por trabalhadores forçados dos campos de concentração, e para que pudessem trabalhar ainda mais começaram a maltratá-los um pouco menos e a deixar-lhes o domingo livre para descansar.

Na exposição, uma grande foto panorâmica mostra os barracões do campo de Sachsenhausen com uma baliza de futebol na esplanada, em algum momento de maio ou junho de 1945, após a libertação. Também podemos conhecer a história de dois republicanos espanhóis, prisioneiros em Mauthausen (Áustria), que deixaram marca a jogar futebol. 

O socialista Saturnino Navazo (Hinojar del Rey, Burgos, 1914-Haute Garonne, França, 1986) ia ser contratado pelo Betis quando estalou a Guerra Civil. Lutou na contenda e, após a vitória franquista, fugiu para a França, onde se alistou sob bandeira francesa, foi capturado pelos alemães e enviado para Mauthausen. Lá, graças ao futebol, foi transferido da pedreira para a cozinha e organizou ligas para entretenimento dos guardas, uma oportunidade de salvação e acesso a mais alimentos para os que jogavam. Protegeu um menino judeu de Frankfurt, Siegfried Meier, que após a guerra adotou como filho –o menino passou a chamar-se Luis Navazo para que os aliados não o enviassem para um orfanato.

Também em Mauthausen e no campo anexo de Gusen jogou futebol o republicano Manuel García Barrado (La Calzada de Oropesa, Toledo, 1918-Mauthausen, 2006), que lutou na Guerra Civil, fugiu para a França e no campo nazi foi enviado para escritórios como desenhador. Treinou-se nos juvenis do Real Madrid e continuou a jogar no cativeiro, desenhando ainda cenas desportivas. Após a libertação, escolheu ficar a viver na Áustria, onde trabalhou como guia do campo de Mauthausen para visitantes espanhóis.

O pós-guerra na Alemanha não implicou desnazificação, tampouco no futebol. Um caso flagrante é o de Josef Sepp Herberger, treinador nacional durante o nazismo (numa fotografia de 1938 vê-se com suástica na camisola), que em 1950 foi nomeado selecionador da Alemanha Ocidental. Na RDA comunista, Heinz Krügel, ex-membro das SS nazis, fez carreira como treinador. “Nos anos oitenta e noventa havia muito racismo e antissemitismo nos estádios alemães, e ainda hoje se produzem incidentes – recorda o historiador Rieck. Mas hoje há muitos adeptos e futebolistas que lutam contra a discriminação; é uma tarefa de todos no futebol.

Fútbol en los campos nazis |Maria-Paz López | La Vanguardia

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O Comunismo é um Sonho e Talvez uma Utupia

Talvez possa parecer estranho a alguns, ou talvez não. Parecerá estranho eu disser que não votarei no PCP nas legislativas mas afirmar que é o partido que mais respeito na democracia portuguesa? Acho que uma coisa não invalida a outra. Nem sempre concordo com as ideias do PCP, tal como nem sempre concordo com coisas nos outros partidos de esquerda, que são os que defendem os meus interesses de trabalhador. Contudo e, apesar disso, tenho um enorme respeito por um partido que tem mais de cem anos, que atravessou e sobreviveu à repressão dos 48 anos de ditadura fascista e que lutou, ao lado de muitos outros, anarquistas, sindicalistas, socialistas etc, para que pudéssemos almejar a liberdade. Muitos dos seus militantes entraram, como se sabe, na clandestinidade e muitos pagaram com a própria vida esse atrevimento de espalhar a mensagem dessa luta. 

O PCP é o partido da defesa dos trabalhadores, o partido dos sindicatos, é um partido fundamental da nossa democracia que tem vindo a ser tão atacada. E, aproveitando aqui uma crónica na revista espanhola Muy Historia de 2022, aqui deixo um pouco da história do comunismo:




"Originado das entranhas da pobreza, desespero e fome, o sonho do comunismo tem sido ao longo da sua história uma quimera utópica e uma ciência histórica, transformando-se, por vezes, em pesadelo. O incessante aumento da desigualdade pode ser crucial para o ressurgimento deste sistema político.

O comunismo não é socialismo. Pode-se dizer que este último foi concebido como uma fase preliminar do primeiro.

«O comunismo é um sonho. Um sonho que anteriormente foi utopia; depois, por vezes, pesadelo; e, agora, uma ilusão para uns e uma obscuridade para outros. E uma ameaça existencial para os Estados Unidos - China, com a sua versão peculiar -, tal como sempre foi. Um sonho, em todo o caso, que Karl Marx e Frederic Engels transformaram em ciência após as quimeras utópicas de escritores como Saint-Simon, Owen ou Fourier. Um sonho vívido em lugares tão diversos como a União Soviética, Coreia do Norte, Congo ou Baviera. Um sonho que, talvez, nunca teve a mais ínfima oportunidade  - o potencial norte-americano após a Segunda Guerra Mundial colocou-o talvez numa posição tão dominante que impediu qualquer desenvolvimento económico, político ou social alternativo -, e ainda não sabemos com certeza porquê - natureza humana, condições adversas, implementação defeituosa. Mas um sonho que, finalmente, convém recordar. Mesmo que seja apenas porque continua atual e porque aspira liderar uma nova ordem internacional - a China, como já referi, com um socialismo muito à sua maneira.

O sonho emergiu das entranhas da pobreza, desespero e fome; da exploração e da miséria mais absoluta; da submissão levada ao extremo e à obscenidade. Porque apenas sonham com a liberdade aqueles que não a possuem. Os Romanov e o povo russo são, sem dúvida, um exemplo disso. Em geral, podemos afirmar que o motor dos movimentos socialistas ou comunistas surgiu da desigualdade e do classismo: sociedades profundamente desiguais e classes sociais rigidamente compartimentadas. Os pobres sabiam que eram pobres, que as suas possibilidades de deixar de ser pobres eram quase inexistentes e que os seus filhos seriam igualmente pobres. E o pior, no entanto, nem sequer era a sua pobreza. Pobres, de qualquer forma, que, até à industrialização, estavam suficientemente isolados para não representar um problema, mas que, de repente, começaram a concentrar-se em fábricas e em bairros insalubres. Sujeitos do submundo que, de repente, se encontraram uns aos outros. Encontraram a consciência de classe.



O COMUNISMO NÃO É SOCIALISMO, MESMO QUE PAREÇA

O comunismo é, portanto, muitas coisas, mas, na verdade, pelo menos teoricamente, não é socialismo, pois este é apenas uma fase preliminar de preparação social para a chegada do comunismo.

E talvez seja aqui que reside o defeito da questão, na aplicação teórica equivocada deste sonho, que exigia uma etapa de preparação que nunca foi implementada. Ou talvez não, talvez seja simplesmente impossível. Em qualquer caso, o socialismo prático, o do dia a dia, parece estar muito longe de ser uma etapa de preparação para a chegada do comunismo. Basta pensar na Espanha e se, de fato, além de gostos pessoais, o PSOE é um partido cujo objetivo é a preparação para a chegada de um estágio comunista superior. Não parece ser o caso. E não é por causa dos anos no poder, mais de um quarto de século desde a chegada às urnas. Não, obviamente não: a socialdemocracia europeia moderna não parece ser um estágio e, em si mesma, possui muitos elementos que a diferenciam não apenas do comunismo, mas também do próprio socialismo.

O AUMENTO DA DESIGUALDADE, CHAVE NUM POSSÍVEL RESSURGIMENTO

É amplamente aceite que quanto maior a desigualdade, maior é a polarização e mais fácil se torna a propagação das ideias necessárias para transformar o mundo, seguindo a teoria inicial do sonho, numa sociedade mundial dirigida por cientistas e economistas que organizem uma federação de comunidades com governo próprio, onde o trabalho seja uma atividade voluntária e os produtos se distribuam de acordo com as necessidades individuais. Por outras palavras, um mundo mais justo e melhor para todos.

No entanto, o principal receptor atual da crescente desigualdade nas sociedades capitalistas, especialmente no ocidente, não se encontra na extrema esquerda da moderação, mas nas antípodas. A extrema-direita, como se evidenciou recentemente em França - e como se pode observar no Parlamento Europeu -, está a capitalizar cada vez mais o voto do desencanto. Os pobres parecem já não sonhar com a redistribuição da riqueza, mas sim em acumulá-la. Mas, sem dúvida, isso pode mudar, especialmente nessa maioria planetária não alinhada pela qual Estados Unidos e China competirão — se já não estiverem a competir -, e que constitui muito mais do mundo do que muitos pensam que existe.

O CAPITALISMO, UM SISTEMA FALHADO?

Isso leva-nos a uma questão intrinsecamente relacionada ao capitalismo: é um sistema falhado? As crescentes diferenças na própria Europa, entre o norte e o sul e o leste e oeste, assim como a situação na América Latina, não são muito encorajadoras. É evidente que Cuba e Venezuela, dois experimentos diferentes de socialismo, não se destacam no panorama latino-americano, mas é que seu entorno, que deveria ser um paraíso capitalista, não oferece uma imagem melhor. Alguém poderia argumentar que Haiti está em melhores condições que Cuba? E não é um caso isolado; na América Latina, até mesmo o milagre chileno já não o é tanto, em grande parte devido à distribuição desigual da riqueza - o que nos remete à contradição original do capitalismo. No entanto, o quintal norte-americano constitui a região mais violenta e desigual do mundo, o que, parafraseando Karl Marx, deve-se ao fato de o capitalismo "produzir seus próprios coveiros". Coveiros de uma região que, por isso, constitui um excelente campo de testes para a nova ordem internacional, na qual, aliás, a China se mostra cada vez mais poderosa.

Aqui, na China, sem dúvida alguma, está uma das chaves para um possível desenvolvimento mundial do comunismo, ou, melhor dizendo, de um socialismo "made in China", porque o socialismo chinês é uma versão um tanto capitalista do que se supõe ser o socialismo.

E, NO ENTANTO, A HISTÓRIA...

A história - que poderão ler nesta edição - passa, antes de tudo, pela União Soviética, desde Estaline até Gorbachev e de Khrushchov até Brezhnev. Mas seria injusto, incorreto e impreciso ficar apenas pela experiência soviética, apesar da abundância de relatos académicos, literários e cinematográficos que o sugerem. Houve múltiplos ensaios socialistas para além da União Soviética e da Europa Oriental -Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia ou o caso especial da Jugoslávia.

Naturalmente, a China, à qual já nos referimos. Um país com um potencial enorme que, desde o seu nascimento, durante a Guerra Fria, se tornou rapidamente um concorrente da Rússia e, por isso, um jogador geopolítico ambíguo. Uma ambiguidade que pode ter sido crucial para a sua sobrevivência e também para o seu sucesso. Uma ambiguidade manifestada também na lógica interna. Além disso, Mongólia, Laos, Camboja, Coreia do Norte, Nepal, Afeganistão e, sobretudo, Vietname, constituem exemplos asiáticos do desenvolvimento de modelos socialistas associados à descolonização ou às derivações adotadas por estados não apenas imaturos, mas até famintos - devido ao intenso saque a que foram sujeitos.

Em África, também ocorreram diversos ensaios, desde a Somália até à Etiópia, passando pelo Congo, Iémen do Sul ou Angola. Este último país, independente graças à ajuda militar de Cuba - Operação Carlota, 1975, após a Revolução dos Cravos -, é hoje o segundo maior produtor de petróleo da África Subsaariana. Até hoje, Angola mantém excelentes relações com o regime castrista. Um regime, o cubano, que, de acordo com as palavras do próprio Fidel Castro, não tinha muitas intenções comunistas -"O povo de Cuba sabe que o governo revolucionário não é comunista"-. Às vezes, a necessidade geopolítica obriga.

Por último, é importante destacar ensaios socialistas não muito conhecidos, como os casos da Índia —estados de Bengala Ocidental, Tripura e Kerala -, Alemanha - Saxónia, Bremen e Baviera -, Irlanda -Limerick -, França - Alsácia -, Pérsia ou Irão.

... AINDA NÃO ESTÁ ESCRITA

Porque o futuro é imprevisível até mesmo para os mais ilustrados e eruditos. Marx e Engels, por exemplo, indicaram que "o modo capitalista de produção, ao transformar cada vez mais a imensa maioria dos indivíduos de cada país em proletários, cria ele próprio a força que, para se libertar da exploração, está obrigada a fazer a revolução". O que não parece ter sido cumprido exatamente. Outro exemplo é Vladimir Lenin que, como muitos outros revolucionários, estava longe de antecipar a queda dos Romanov, tendo esta acontecido fora da Rússia e obrigando-o a realizar uma verdadeira odisseia para regressar a tempo.

E é que sabemos o que aconteceu, mesmo que se discuta sobre isso, mas é impossível prever o futuro, especialmente se os Estados continuarem a servir, como quando Karl Marx e Friedrich Engels começaram a teorizar sobre o comunismo, aqueles que detêm o poder económico, os sistemas judiciais continuarem a beneficiar as elites e a desigualdade não parar de aumentar. Poderíamos finalmente alcançar o sonho... ou acordar abruptamente novamente.

"Comunismo, auge, caída y pervivencias" | revista Muy Historia | 22 de Junho de 2022

domingo, 17 de dezembro de 2023

Manual do Ditador Moderno



 "Os segui­do­res do Duce tinham foto­gra­fias per­so­na­li­za­das. Os de Hitler ouviam sua voz e viam sua ima­gem a toda hora. Esta­line era o Par­tido, mas tam­bém o avô Frost, o Pai Natal russo. Mao, o grande Timo­neiro, o rei filó­sofo do Ori­ente, e Duva­lier, Papa Doc, o pri­meiro pro­te­tor vodu do Haiti. Todos  apre­sen­ta­ram-se como homens que vinham do povo, poten­ci­a­li­za­ram uma nova forma de fazer polí­tica: a glo­ri­fi­ca­ção do indi­ví­duo perante as mas­sas. Sabiam, como Maqui­a­vel, que é mais seguro ser temido do que amado, mas que­riam per­du­rar, pre­ci­sa­vam ser acla­ma­dos; eram obri­ga­dos a criar um apa­rato repres­sivo tanto a ponto de man­ter a ilu­são de seu apoio popu­lar. Este é o para­doxo do dita­dor moderno que ana­lisa o livro dita­do­res. O culto da per­so­na­li­dade no século XX, do his­to­ri­a­dor holan­dês Frank Dikötter (Cliff, 2023).

Ao longo do século pas­sado, milhões de pes­soas acla­ma­ram os seus dita­do­res, ape­sar da bru­ta­li­dade dos seus regi­mes. Os ros­tos des­ses man­da­tá­rios apa­re­ciam em muros, facha­das de edi­fí­cios e até em pro­du­tos de con­sumo diá­rio. Após um con­trole fer­re­nho da imprensa e da edu­ca­ção, eles tor­na­ram-se oni­pre­sen­tes gra­ças à rádio e à tele­vi­são. Dita­do­res de lati­tu­des muito dís­pa­res viram como a popu­la­ção des­fi­lava durante dias em frente a seus palá­cios pre­si­den­ci­ais, car­re­gando obje­tos sim­ples, meda­lhas ou insíg­nias, para mos­trar sua ade­são. O essen­cial era apa­ren­tar que a von­tade bro­tava do cora­ção das pes­soas. O culto à per­so­na­li­dade não pro­cu­rava con­ven­cer nem per­su­a­dir, mas con­se­guir a obe­di­ên­cia atra­vés do iso­la­mento, da sub­mis­são do indi­ví­duo na massa. Impreg­nado de supers­ti­ção e de magia, con­sa­grou-se como uma forma de reli­gi­o­si­dade popu­lar cul­ti­vada desde cima. Hitler apre­sen­tava -se como um Mes­sias unido ao povo ale­mão por um vín­culo mís­tico. Duva­lier enco­ra­jou rumo­res sobre seus pode­res sobre­na­tu­rais. E os paí­ses comu­nis­tas logo adver­ti­ram que as invo­ca­ções ao líder como figura sagrada davam melho­res resul­ta­dos do que o mate­ri­a­lismo dia­lé­tico, estra­nho à maior parte da popu­la­ção.

A leal­dade a uma única pes­soa era a coisa mais impor­tante nes­sas dita­du­ras. Seguir um credo pode criar divi­sões e fac­ções. Mus­so­lini menos­pre­zava a ide­o­lo­gia e orgu­lhava-se publi­ca­mente de seguir ape­nas seus ins­tin­tos. Hitler, além dos ape­los ao naci­o­na­lismo e ao anti-semi­tismo, não pre­ci­sou de muito mais. Quem real­mente atraía Men­gistu, na Eti­ó­pia, não era Marx, mas Lenine, que havia cri­ado a van­guarda revo­lu­ci­o­ná­ria. Esta­lin e Mao mor­re­ram de cau­sas natu­rais depois de terem sido objeto de ado­ra­ção durante déca­das. Duva­lier dei­xou o poder para seu filho, que pro­lon­gou o culto à sua per­so­na­li­dade. E o clã Kim, Na Coreia do Norte, con­se­guiu che­gar à ter­ceira gera­ção de culto ao líder supremo. Mas cui­dado, por­que no mesmo momento em que o medo desa­pa­rece, a fic­ção do amor popu­lar des­mo­rona: o poder do casa­mento Ceau­cescu desa­pa­re­ceu ao vivo. O tra­di­ci­o­nal dis­curso tele­vi­si­o­nado em frente ao Palá­cio do Povo de 1989 não mos­trou as "espon­tâ­neas demons­tra­ções de apoio incon­di­ci­o­nal", mas milha­res de mani­fes­tan­tes cer­cando o maior edi­fí­cio admi­nis­tra­tivo do mundo.

Os dita­do­res que per­du­ram con­ju­gam na per­fei­ção o culto à per­so­na­li­dade e o ter­ror. Numa pri­meira fase, o líder tem que con­tar com a influ­ên­cia neces­sá­ria para aba­ter seus opo­nen­tes e obrigá-los a que o acla­mem em público. O culto rebaixa ali­a­dos e rivais, obriga-os a cola­bo­rar em comum sub­mis­são. Mas, à medida que atinge a matu­ri­dade, o líder não pode ter cer­teza de quem está apoi­ando e quem real­mente se opõe à sua figura. Pre­cisas ini­ciar a purga, a lim­peza interna. Os diri­gen­tes que sobre­vi­vem, as outras faces visí­veis do regime tam­bém são cúm­pli­ces dos seus cri­mes, pelo que os seus suces­so­res man­te­rão o culto à sua per­so­na­li­dade. Desen­ca­de­ado o ter­ror, o mais impor­tante é man­ter a ilu­são de que o poder con­ti­nua des­can­sando num vín­culo pes­soal com o povo.

Hitler, que logo des­co­briu sua capa­ci­dade de falar para as mas­sas, cal­cu­lou minu­ci­o­sa­mente suas apre­sen­ta­ções em público até o fim. A sua pri­meira cam­pa­nha de ima­gem foi pro­je­tada por Alfred Rosen­berg ao com­ple­tar 34 anos. Naquele dia, ele apa­re­ceu retra­tado sob um fundo preto em toda a imprensa. Mein Kampf foi sua bio­gra­fia polí­tica, mas tam­bém sua lenda: cri­ança e artista pre­coce, lei­tor voraz, ora­dor nato, Mes­sias do povo ale­mão. Como líder do futuro, ele não incen­ti­vou as está­tuas, elas eram do pas­sado. Pelo contrário, o seu rosto e sua voz, che­ga­ram a toda parte. Mes­tre do dis­farce, absor­veu as emo­ções da mul­ti­dão para fundi-las numa core­o­gra­fia per­feita ensai­ada em milha­res de comí­cios e des­fi­les. Ao saber da sua morte, uma onda de sui­cí­dios per­cor­reu a Ale­ma­nha.

Lenin tam­bém foi glo­ri­fi­cado em vida. Desde o momento da sua morte, em 1924, Sta­lin fez-se pas­sar pela sua ala mais fiel. Qua­tro anos depois, enquanto a mul­ti­dão se aglo­me­rava no des­file do pri­meiro de Maio, desen­ca­deou o pri­meiro grande expurgo do Par­tido. A sua devo­ção não se ves­tiu de culto ao líder, mas de revo­lu­ção pro­le­tá­ria. Sta­lin encar­nava o melhor da classe ope­rá­ria, mas tam­bém diri­gia todas as van­guar­das artís­ti­cas. Sua ima­gem muito cui­dada de espon­ta­nei­dade foi con­sa­grada na Grande Guerra Patri­ó­tica. Alcan­çada a vitó­ria, rele­gou todos os seus artí­fi­ces mili­ta­res que lhe dis­pu­ta­vam a gló­ria. Pouco antes de mor­rer, enco­men­dou uma grande está­tua sua no local onde con­fluem o Volga e o Don.

Mao Zedon, que conhe­ceu Sta­lin no seu ani­ver­sá­rio de 70 anos no Tea­tro Bolshoi, encon­trou a sua mis­são na mobi­li­za­ção dos cam­po­ne­ses da China. Depois de ficar sem rivais, sem con­cor­ren­tes, deci­diu for­jar a sua ima­gem de teó­rico. Ofi­ci­al­mente, ele con­cen­trou-se na revo­lu­ção cul­tu­ral, mas, como Sta­lin, diri­gia pra­ti­ca­mente todos os assun­tos de governo pes­so­al­mente. Aca­bou sepa­rado, como uma figura remota, divina, que nunca saía da Cidade Proi­bida dos impe­ra­do­res.

Todos os dita­do­res, por fim, quei­ma­ram livros, pro­fa­na­ram túmu­los, des­tru­í­ram tem­plos e igre­jas, apa­ga­ram os nomes das ruas e até os rótu­los das lojas. Eles rees­cre­ve­ram o pas­sado para for­jar seu relato. Esta ana­to­mia do auto­ri­ta­rismo, de suas dife­ren­tes ori­gens e uti­li­za­ções, mos­tra alguns aspec­tos inquie­tan­tes que che­ga­ram até aos nos­sos dias. Em tem­pos de incer­teza, de vola­ti­li­dade e de revi­si­o­nismo, rea­pa­re­cem algu­mas das pio­res figu­ras do século XX, sob o culto à ima­gem que eles mes­mos cri­a­ram como subs­ti­tuto da polí­tica.

Gut­maro Gómez Bravo (Historiador) | El País (12 de Dezembro de 2023)