quinta-feira, 31 de maio de 2018

Portugal Tem os Salários Mais Baixos Mas o Custo de Vida é Muito Mais Baixo que no resto da Europa

Adoro este tipo de propaganda. Adoro especialmente quando é proferida por outros escravos como eu, que defendem com unhas e dentes os baixos salários, afinal, temos muita sorte, porque nos países em que os trabalhadores têm salários decentes (e trabalham muito menos horas que nós) coitados, lá os preços são muito mais caros. E não é que as pessoas acreditam piamente nas barbaridades que dizem?

Diário de Notícias





Epitáfio aos 115 deputados que votaram contra a Eutanásia


Um dia a Eutanásia será legal em Portugal. Tal como o aborto que demorou dez anos a sê-lo. Tal como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tal como a mudança de sexo. Tal como o voto da mulher. Tal como a liberdade dos pretos e de todas as cores que eram escravos. Porque o mundo tem de avançar, não pode continuar eternamente imóvel  ao sabor das ideias dos tradicionais conservadores, velhos do Restelo e pitas e betas que têm muito medo que as coisas mudem. 

Um dia a Eutanásia será legal em Portugal. Mas um dia também serão lembrados todos aqueles que, podendo, votaram contra a liberdade de cada um que, estando num grande sofrimento decide pedir ajuda e terminar com o suplício. É imperdoável, é absurdo. É desumano. 

Na Natureza, até os animais são mais misericordiosos que as pessoas que, agarrados aos seus pensamentos dogmáticos, querem obrigar todos os outros a pensar como elas, como se estivessem imbuídos da verdade suprema. 

Até um grande felino que caça uma gazela mata o mais depressa possível, para que a presa sofra o menos possível. Mas estes 115 deputados da Assembleia da República querem que, contra a vontade da própria pessoa, esta sofra e sofra horrores até, ao fim de sabe-se lá quantos anos possa sucumbir finalmente.

Isto faz-me lembrar da "santa" Madre Teresa de Calcutá, essa sádica fascista, que recebia milhões de euros para as suas obras e que depois nem analgésicos dava aos seus doentes que estavam a morrer, porque pregava o culto do sofrimento. Mas depois quando foi ela mesma que ficou doente, já não aplicou para si mesma o tratamento que dava aos outros. Não, a puta foi-se tratar numa clínica privada, com tudo, rodeada do bom e do melhor.

É absurdo. É revoltante. 

Um dia a Eutanásia será legal em Portugal.  Já o é para os animais. E Portugal é este país que ironicamente defende mais os direitos dos animais em detrimento dos direitos do animal homem. Qualquer pessoa pode eutanasiar o seu animal - como se fosse dono de outra vida de outra ser, algo que não é! - mas que depois não pode decidir o mesmo para si mesmo!

E um dia a Eutanásia será legal em Portugal e estes 115 deputados serão lembrados, como tendo contribuído para o sofrimento de todos aqueles que gostariam de ter tido a oportunidade de ser ajudados no momento que mais precisaram e sofreram por culpa desta gentalha, que foi eleita por nós para, supostamente nos representar.

Borrai a vossa cara com merda para vos cobrir a vergonha. Os vossos nomes estão todos aqui, na capa do I para que no futuro ninguém se esqueça de vós:


sábado, 26 de maio de 2018

O Pragmatismo Chegou ao Amor

Agora que já fiz a digestão do meu próprio livro, eu acho que o meu livro e os últimos livros que eu tenho escrito, são sobre a nossa incapacidade de amar. Não é só azar não é só incompatibilidade de feitios... Não. É que acabaram algumas coisas que antes eram sagradas. E ainda bem que já não são como a renúncia, a entrega, a dádiva o amor incondicional, o amor unilateral que acontecia muito no caso das mulheres, etc. O próprio sentido de sacrifício. Isso tudo está completamente arredado da nossa vida do quotidiano... O pragmatismo chegou ao amor.

No caso deste livro ele vive no Porto ela vive em Lisboa já não dá muito jeito. E dantes tinha de haver diligências que levavam uma carta ao fim de seis meses, de um amante que estava embarcadiço ou não sei quê. Pronto. Hoje em dia há todas as facilidades. Podemos falar ao minuto com quem estiver na Austrália mesmo assim o amor não se aguenta com muitas dificuldades. 

Isto é a minha última descoberta, que parece uma paliçada, e que eu não acho que seja. Eu tenho três casamentos falhados, e tenho uma tendência universal de dizer: "foi azar". Não foi azar porquê? Primeiro porque isto é um bocadinho a história da Cinderela ao contrário. Tens um sapato que servia e é aquela a amada. E aqui é: "nós temos que ter o mesmo sapato". O sapato está um bocadinho apertado já não andamos bem;  se está largo já andamos como umas patas. Portanto, a chinela para o nosso pé é das coisas mais raras e difíceis de conseguir. É como acertar no Euromilhões. Ou desromantizamos  a hipótese de termos ao virar da esquina uma pessoa que seja a chinela do nosso pé, e percebemos que quando isso acontece, é aí sim, uma bênção extraordinária que temos que honrar, ou não nos vamos sentir frustrados quando cada vez que um sapato começar a apertar ou a alargar. Basicamente é a nossa incapacidade de amar. 


Rita Ferro, a propósito do seu último livro "Um amante no Porto" no programa "À volta dos livros". 

No Dia em que Te Foste Embora...



The day you went away
You had to screw me over
I guess you didn't know
All the stuff you left me with
Is way too much to handle...



"Saturnine" /  The Gathering (2004)

Conversas Improváveis (27) - CouchPinanço

Olha, que é que achas de CouchSurfing?

Não sei... ficas a dormir no sofá de alguém que não conheces...
O Çan fazia isso, couchsurfing.
Mas era mais CouchPinanço.


Imagem emprestada da net

Coisas que Não me Perguntariam se Eu fosse Chinês

Tu és filho único?


Imagem emprestada da net

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Comprar um Livro só pela Primeira Frase


- O nosso amor durará um ano. 
- Ainda?
Um ano, contando tudo que já nos aturamos.



Há quem compre um livro pela capa... Pode-se dizer que eu comprei pela primeira frase. Mas também não é tanto assim. Sim, nunca li nada de Pitigrilli, mas conheço-lhe ao menos uma das frases mais conhecidas:

"Estatística: a ciência que diz que se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um."

Daqui por uns tempos talvez lhe conheça a escrita. 


"A Virgem de 18 Quilates" - Pitigrilli (1924)

terça-feira, 22 de maio de 2018

A Casa dos Ladrões

De mapa na mão acabava de chegar à praça do Jardim do Príncipe Real. Olho para um lado, olho para o outro, e resolvo interpelar duas senhoras que estavam a conversar, sentadas num banco do jardim: 
- "Peço desculpa, é por esta rua que vou para o Jardim da Estrela"? 
Muito simpaticamente de imediato sorriram para mim e disseram que sim, que só tinha de seguir em frente, até ao Rato e depois virar para baixo. 
- E posso ir a pé ou é melhor apanhar um autocarro ou Metro?
Ah não, faz-se muito bem a pé, até nós (da nossa idade) fazemos!

Então lá fui eu, mas sempre a botar o olho no mapa. E comecei a pensar, por que é que precisaria ir até ao Rato (se ainda fosse até à Rata!) se podia já cortar caminho pela rua da Imprensa Nacional? Realmente cortei caminho, só que, depois acabei por seguir em frente pela mesma rua quando já deveria virado noutra, e acabei depois por ter de andar a subir, quando pelo caminho que as senhoras me indicaram era sempre a descer. Mas foi assim, meio sem querer, que de repente, e pela primeira vez, me deparei com a Casa dos Ladrões...

Palácio de São Bento - Assembleia da República

Pergunta Pertinente sobre os Incentivos às Empresas que vão para o Interior


domingo, 20 de maio de 2018

Todos te Dizem que tens o Cabelo Tão Comprido

Falamos tão pouco, cada vez menos, e é algo que não me deixa propriamente feliz. E eu sei que a ti, se calhar, ainda menos.

Mas ainda assim lá vamos orbitando, ainda que, sempre a boa distância de segurança, um em volta do outro. Ao menos isso... Mas agora é assim mais ou menos como aquelas setas nas autoestradas. Duas marcas é sinónimo de segurança, só uma é um perigo. Então, vamos sempre viajando, com pelo menos duas marcas, sempre bem visíveis, não vá ocorrer um qualquer acidente... Mas o que eu temo, e sei que tu também, é que a segurança nos vá afastando cada vez mais e mais, e aos poucos as duas marcas passem a três e depois a quatro, e de repente outros carros metem-se no meio de nós, e quando dermos conta perdemos o outro de vista...

(É muito curioso porque nem de propósito, reparei agora  nos versos de uma música da Céu que passava aqui no computador em modo automático:
"Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais")

Mas deixa-me confessar-te que achei enternecedor que me tivesse querido dizer, especificamente, que ias cortar o cabelo. E que todos te dizem que tens o cabelo tão comprido... E podias nem ter dito nada, afinal, eu não sabia se o tens espontado a cada dois meses, ou se nunca mais tinhas cortado desde a última vez que estivemos juntos. Mas fizeste questão de me dizer, que está comprido como nunca.

Mais do que me dares a informação, acho que na verdade quiseste mostrar-me que gostavas que eu o tivesse visto assim, tão comprido e volumoso como eu antes nunca tinha visto. Acho que ficarias orgulhosa de ti. E acho que deverias ficar! E tu sabes que eu iria gostar de o ver assim, ainda mais comprido, por isso me contaste.

Eu acho que tu sabes que eu não iria gostar menos de ti se decidisses cortá-lo curto... Eu também não gostaria que as pessoas (que contam) passassem a gostar mais de mim só porque cortei o meu cabelo,  só porque estou mais condizente a pseudo-norma-social-vigente. Mas todos nós temos gostos pessoais e a verdade é que, e eu nunca escondi, que gosto muito de ver as senhoras com o cabelo comprido.

E eu agora já sei que todos te dizem que tens o cabelo tão comprido. Eu, mais do que medir o comprimento do teu cabelo com os olhos gostaria era de te ver a ti. E de te dar um abraço apertado (mesmo correndo o risco de me partires duas costelas!). E de te passar a mão pela cabeça e pelos cabelos. E de te dizer que tinha tantas saudades tuas...

Metaleiros às Compras na Primark


Acho que para se comprar coisas básicas baratas em preto/cinzento/verde ou azul escuro (cores que mais uso)  qualquer sítio deve dar. Mas a Primark ainda é um admirável mundo novo que desconheço. Bom, na verdade já lá levei duas amigas, de outras cidades, onde não existe esta loja. E, enquanto elas se passeavam pela feira (foi isso que retive dessa loja: aquilo parecia uma feira com toneladas de roupa por todo o lado, e bichas que não terminavam mais para os provadores e para as caixas de pagamento) eu então resolvi ir dar uma volta, até porque tinha outras coisas para fazer. "Liguem-me quando saírem da loja" disse!

Se Voltarmos a Ter uma Tragédia nos Incêndios, Os Diretores das Televisões Vão-se Demitir?

Ainda me lembro bem. Estávamos em Agosto de 2005. 

(Sim, grandes incêndios não é de agora. Tem décadas. Os eucaliptos também.) 



Francisco Louça insurge-se na Assembleia da República contra a cobertura televisiva dos incêndios em Portugal. E lembrou o antigo líder do Bloco de Esquerda que, em muitos outros países, as televisões não mostram as imagens das chamas. Fazem as suas reportagens, e cumprem o seu dever de informar, mas nunca mostram as imagens, pois, como se sabe, as imagens dos incêndios são um incentivo para os pirómanos. Como em tudo, é o efeito imitação.

Mas curiosamente, na altura, António Costa (atual primeiro-ministro) e ministro da administração Interna da altura, disse que era "errado os agentes políticos pronunciarem-se sobre este assunto". No entanto lembrou que, por exemplo, em Espanha, "há um acordo estabelecido segundo o qual não há exibição de chamas. Muito menos existe um pivot de telejornal com chamas em fundo".

Na sequência destas declarações, o diretor de informação da RTP, Luís Marinho afirmou que "temos de ver refletir e ver o que fazer". Ainda assim, e apesar do serviço público a que está obrigado o canal do Estado, lembrou que a fazer-se algo teria que ser a três, entre a RTP, SIC e TVI. 

Só que os canais privados não quiseram fazer este pacto para ajudar a travar este flagelo. E se um ou dois pirómanos não se sentissem motivados a provocar incêndios, estou em crer que já seria uma vitória para todos. 

Mas esta gente, que não faz a mínima ideia do que seja jornalismo, e que se limita a cumprir uma determinada ideologia e determinada linha editorial, vive e respira para as audiências e dá às pessoas o que de pior pode haver, e relatar os dramas individuais, de quem tudo perdeu, na sequência de um incêndio, é um prato cheio. 

O senhor Presidente da República, figura decorativa da democracia portuguesa, veio dizer - de forma despropositada - dizer que não se recandidataria a um segundo mandato caso voltássemos a ter uma tragédia este ano com os incêndios.

Então e os diretores das Televisões? Lavam as mãos? 
Pois é...

domingo, 13 de maio de 2018

A Polícia do Pensamento

"Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Também aí, em pequenas letras nítidas, estavam inscritas as mesmas palavras de ordem e, na outra face, a efígie do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam uma pessoa. Nas moeda, nos selos, nas capas dos livros, no invólucro dos maços de cigarros - em toda a parte. Sempre aqueles olhos a fitar-nos e aquela voz a envolver-nos. Na vigília ou no sono , a trabalhar ou a comer, em casa ou na rua, no banho ou na cama - não havia fuga possível. Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos da nossa cabeça. 

O sol avançara no céu, e as inúmeras janelas do Ministério da Verdade, já sem luz a fazê-las brilhar, surgiam soturnas como as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, não podia ser abalada. Nem mil misseis a deitariam ao chão. De novo perguntou-se a si mesmo para quem estava a escrever no seu diário. Para o futuro, para o passado - para uma era provavelmente imaginária. E diante dele erguia-se, não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio a vapor. Só a Polícia do Pensamento leria aquilo que ele escrevera, antes de o varrer da existência e da memória. Como podia apelar-se ao futuro quando nem o menor vestígio de nós próprios, nem mesmo uma palavra anónima rabiscada num bocado de papel, tinha hipótese de sobreviver fisicamente?

O telecrã deu duas horas. Tinha de sair dentro de dez minutos. Deverias estar de volta ao emprego às duas e meia. Curiosamente dir-se-ia que o sinal horário lhe dera novo alento. Era um fantasma solitário dizendo uma verdade que nunca ninguém viria a ouvir. Mas enquanto a dissesse, a continuidade, de forma obscura, não seria quebrada. Não fazendo-se ouvir, mas mantendo-se mentalmente são, ele prolongava a herança humana. Voltou a sentar-se à mesa, molhou a caneta no tinteiro e escreveu:

Ao futuro ou ao passado,  um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e não vivam sozinhos - a um tempo em que a verdade exista e o que for feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplopnesar - eu vos saúdo!

Era um homem morto, pensou. Só agora, que conseguira formular os seus pensamentos, lhe parecia ter dado o passo decisivo. As consequências de cada ato estão contidas no próprio ato. Escreveu:

O pensarcrime não provoca a morte: o pensarcrime é a morte.

Agora que se reconhecera como um homem morto, tornava-se-lhe importante continuar vivo tanto quanto possível. Tinha dois dedos da mão direita sujos de tinta. Isso constituía exatamente o tipo de pormenor suscetível de o trair. Algum fanático intrometido, do Ministério (provavelmente uma mulher: alguém como a mulherzinha do cabelo cor de palha ou a rapariga morena do Departamento de Ficção), podia começar a perguntar-se por que teria ele estado a escrever no intervalo do almoço, por que teria usado uma caneta antiga, o que teria estado a escrever  - e depois chamar a atenção das entidades competentes. Foi à casa-de-banho e esfregou cuidadosamente a tinta com áspero sabão castanho escuro que arranhava a pele como lixa; por conseguinte, perfeitamente indicado para o fim. 

Arrumou o diário na gaveta. Nem valia a pena pensar em escondê-lo, mas podia ao menos arranjar forma de saber se a sua existência fora ou não descoberta. Um cabelo a passar pela extremidade das folhas seria demasiado óbvio. Com a ponta do dedo, apanhou um grão visível de poeira branca e depositou-o no canto da capa, de onde cairia fatalmente se alguém mexesse no livro.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro / George Orwell / 1949

Descubra as Diferenças

Netta Israel Eurovisão 2018 - Björk Homogenic 1997

Quem Não Quer Ser Lobo Não lhe Veste a Pele



"Existe uma guerra dos nutricionistas contra os alimentos processados, foi, aliás, aplicada uma taxa ao açúcar, e, ao mesmo tempo, estabelecem-se parcerias com marcas que produzem alimentos prejudiciais à população, dando-lhes palco para que propagandeiam os seus produtos que são responsáveis por muitas doenças crónicas?" (nutricionista sob anonimato ao Público)

sábado, 12 de maio de 2018

Afinal ir ao Cinema Sozinho não Dói

Já tinha feito muita coisa sozinho. Já tinha ido a festivais de música e a concertos, e a inúmeros de outros eventos sozinho, mas curiosamente, e vá lá saber-se porquê, nunca tinha ido ao cinema sozinho. Talvez porque cedo associamos o ato de ir ao cinema, naquela grande e escura sala, na maior parte das vezes muito barulhenta, a algo que se faça, pelo menos a dois, e quantas vezes associado às primeiras descobertas de mãozinhas a desvendar a anatomia desconhecida. E talvez tenhamos metido na cabeça que, sem companhia, não faça sentido ir ao cinema. O que não deixa de ser parvo, até porque ver um filme acaba por ser um ato solitário, pois enquanto estamos a ver um filme não estamos (ou ninguém deveria) estar a conversar sobre o desenrolar da ação do filme. Quanto muito conversa-se depois no final, quando as luzes se acendem.

Talvez a dificuldade em ir sozinho ao cinema, precisamente por na nossa memória coletiva associarmos a um evento a que não se vai sozinho, resida no facto de não querermos assumir publicamente que, em determinado momento das nossas vidas, não tínhamos ninguém que pudesse ir connosco. Mas não deixa de ser estúpido visto que nós podemos ir ao cinema sozinhos pelos mais variados motivos, e nenhuma daquelas centenas de pessoas anónimas sabe nem está minimamente interessada em saber porquê.

Le retour du héros
Eu tinha um convite para duas pessoas para uma antestreia e até fazia mais sentido que aproveitasse para levar mais alguém mas levei-me só a mim mesmo. Não gastei dinheiro no bilhete, gastei mais no jantar. Escolhi o sítio naquela praça de alimentação de centro comercial e sentei-me tranquilamente a comer enquanto ia observando outras pessoas em volta. Os casais, as mulheres bonitas, na mulher da limpeza que passava com o carrinho, as pessoas que se sentaram depois ao meu lado a comer mac-merda enquanto eu já estava a fazer tempo lendo o último livro que comecei a ler. Entretanto a hora aproximava-se e lá fui fazer o xixinho dirigi-me para a sala.

Entrei, olhei em volta, e já estava muita gente sentada. Sentei-me ali perto da entrada, mais ou menos ao mesmo nível e a meio do ecrã e fiquei à espera de ser surpreendido. E gostei. Ri-me até por diversas vezes com esta comédia romântica de época francesa. Saí a sorrir, agradado com o espetáculo, e a pensar que, afinal, ir ao cinema sozinho não dói.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pessoa Interessante este Carlos

Acabava de desligar o telemóvel e perguntava-me que tipo de pessoa seria este homem, que falava de uma maneira muito meiga, sensível até, atrapalhado com o gato, e que se iria encontrar comigo dentro de cinco ou dez minutos.

O Carlos é um homem bem parecido e arranjado, de barba de três dias, cabelo grisalho, e que, tal como eu, gosta bastante de conversar. Rapidamente fiquei a saber que é divorciado e está a está a mudar de casa, porque a namorada não quer ir viver para o T3 dele. Então vai ele morar para casa dela, que fica num local que tem uma praia que me é muito conhecida - se calhar este até podia ser o novo namorado dela! - e vai vender a sua casa.

Percebe-se que está apaixonado por ela, que, segundo ele, é bem mais nova que ele. Sente-se pela forma entusiasmada como falava deles. "Temos tanto em comum, gostamos das mesmas coisas, até das mesmas cores". E estão em sintonia também em relação aos filhos. E gostam de deixar a relação respirar. Cada um tem as suas coisas que gosta de fazer e os seus amigos, e tem a sua liberdade, e que desde que haja confiança e respeito não há problema.

Sobre a questão dos filhos confidenciou-me uma coisa interessante. Que saiu e foi para a cama com algumas mulheres divorciadas com filhos, mas que rapidamente estas lhe diziam que "os filhos estão sempre em primeiro lugar", e que então "fugia logo delas a sete pés"! 
Disse-lhe precisamente que isso sempre me incomodou. Que o casal deve vir sempre em primeiro lugar, e que, infelizmente, vejo o inverso em muitos casais. Parece que a partir do momento que a cria nasce que as prioridades se invertem e que há quase uma espécie de competição entre todos. 

E depois disse uma coisa muito interessante sobre as comparações. Sobre os outros acharem que nós, livres e desimpedidos, que nós é que temos uma vida boa por podermos sair e ir para a cama com quem nos apetecer. 

"Mas queres trocar?" disse ao amigo que acabava de lhe dizer que ele é que tinha sorte.
"É que se queres trocar eu troco. Eu hoje durmo sozinho e amanhã e depois de amanhã também. Às vezes só me apetecia um abraço e não tenho. Nem tenho um filho que venha ter comigo ao fim do dia e me chame de papá... Queres trocar? Olha que eu troco já."

Antes de cada um ir à sua vida, desejei-lhe boa sorte. Disse-lhe que gostei muito daquele bocadinho. E dirigi~me para as escadas rolantes, sorrindo, e pensando... "pessoa interessante este Carlos". 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Não Era Suposto Ter Nascido


Não era suposto que o meu pai tivesse sobrevivido aquele acidente brutal que o deixou queimado, quase morto, e numa cama de hospital durante anos. Tal como seria pouco previsível que a minha mãe, uma jovem e bonita mulher, a quem nunca faltaram pretendentes, e que contra todas as expectativas, continuasse sempre a correr para aquele hospital durante tanto tempo. Muitos, incluindo um médico disseram-lhe que se calhar o "melhor seria..." Sim, claro que eu sei que já não há muitas mulheres como a minha mãe.

Mas o meu pai não queria ter filhos.
Já a minha mãe queria ter ao menos um que fosse.
O meu pai não morreu naquele acidente brutal.
A minha mãe não abandonou o meu pai.
E a minha mãe contrariou o meu pai e cá estou eu.

E ninguém escolhe nascer. 
Somos sempre, quando não fruto do acaso, a escolha dos outros. E nasce-se e pronto.
Ninguém escolheu os pais que teve, tal como ninguém escolhe os filhos que hão-de vir.
Simplesmente põem-nos no mundo e depois temos de nos desenrascar e sobreviver.

Não sei se as pessoas se costumam perguntar,  mas eu acho que é normal que eu às vezes me pergunte como foi possível que eu tenha existido. Por que raio o universo conspirou para que eu nascesse? Ter-se dado a tanto trabalho, a contornar um imenso conjunto de grandes improbabilidades. Era preciso isso tudo? Para quê? Que diferença faria se eu não tivesse nascido? Eu fiz alguma diferença? Não creio. Eu não descobri nada nem fiz nada em prol da sociedade. Nem me tornei alguém influente que influenciasse positivamente as pessoas. Não sou especial, não sou melhor que ninguém. Sou só mais um ser humano que veio ao mundo para poluir e consumir recursos. 

E as pessoas que acabaram por ser cruzar comigo?
Afinal, que diferença é que eu fiz nas suas vidas?
Também não acho que tenha feito muita sinceramente. 
Acho que a ausência de amigos por perto revela o meu insucesso.  
Não sei..., mas talvez eu não me tenha esforçado suficiente. 

Ou, sei lá. Talvez nunca sequer tenha nascido.. Talvez seja só uma espécie de fantasma errante, afinal, quantas vejas as pessoas me olham mas não me vêem? Quem sabe já tenha morrido há uma data de tempo e ainda ande por aqui a vaguear porque ainda não passei para o " lado de lá". Não sei...  Mas uma coisa sei: não era suposto eu ter nascido.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Oh Humanidade, Eu Não Estou Nada Contente...


"...Oh, humanidade, eu não estou nada contente.
É assim que era suposto seres?
Estás em decadência.
Ninguém se importa mais?
Matas o teu próprio mundo
Ninguém te consegue parar.
Não consegues ver o que estás a fazer?
Isto tem de acabar.
Ou não restará nada.
O Planeta está a morrer.
A Mãe Natureza sangra,
Ela vai morrer.
O Planeta está em chamas.
Queimando vidas.
O banquete vai começar...
(tradução livre / Letra original aqui)

"Fractured Millennium" / Hypocrisy / 1999