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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Melhor Reflexão em Véspera da 2a Volta das Presidenciais

A melhor reflexão que eu poderia ter tido na véspera de umas eleições em que se escolhe entre um democrata e um fascista foi ter ido ver o filme Orwell 2+2=5. Numa sala pequenina do Arrábida que, num sábado à noite, teria, infelizmente, umas míseras dez pessoas.

 

sábado, 10 de maio de 2025

Esperávamos o Apocalipse Mas Foi Apenas a Luz que Foi Abaixo

 Mais um texto excelente sobre a nossa sociedade atual publicado no El País no fim de semana passado e que aqui vou deixar.

"Vivíamos como se fosse realmente o fim da história. Como se a prosperidade e a abundância fossem um facto viral incontestável, capaz de garantir o fim dos grandes conflitos, da luta pela sobrevivência. Íamos acabar com a fome, com o cancro e com a pobreza. A guerra e os regimes autoritários eram apenas uma espécie em vias de extinção. Era o ponto final da nossa evolução ideológica. A democracia liberal ocidental era a forma definitiva de governo. Depois vieram os atentados, a crise financeira e os furacões; a pandemia, os genocídios, a crise energética e os vulcões em erupção. Vimos o assalto ao Capitólio em tempo real pela CNN e pelas stories que os próprios assaltantes publicaram no Twitter, Instagram e TikTok. O fim da história tinha-se transformado no fim do mundo — em modo paródia. Parafraseando o verso mais famoso de T. S. Eliot: É assim que o mundo acaba. / É assim que o mundo acaba. / É assim que o mundo acaba. / Não com uma explosão, mas com um meme.

Começámos a fantasiar com um final abrupto. A comprar latas de conserva e comprimidos purificadores de água, ligaduras com antibiótico, canivetes suíços e lanternas LED. Queríamos aprender a fazer coisas com as mãos, sem usar a internet. Se tudo corresse mal, iríamos para a casa da aldeia cultivar uma horta com um cão, três galinhas e uma vaca. Os preppers (preparacionistas) recomendavam comprar uma espingarda, uma antena e um gerador. O apagão apanhou-nos todos desprevenidos, a escrever e-mails, comprar fraldas, esperar aviões e reciclar garrafas de plástico. Acabámos a ouvir o rádio a pilhas com os vizinhos numa praça ou varanda do bairro. Nas horas seguintes, a incerteza dissolveu-se no puro prazer de estarmos juntos, desligados do telefone, suspensos num estado colectivo de alegria e desamparo. Os sinais do apocalipse raramente são tão confusos. Esperávamos o apocalipse, mas apenas foi abaixo a luz.

Os sistemas que nos permitem aceder a água potável, eliminar águas residuais, comunicar instantaneamente com qualquer pessoa ou deslocar-nos rapidamente para qualquer lugar são invisíveis — até falharem. Quando falham, a crise deixa de ter ambiguidades. Quando se corta a eletricidade, deixamos de funcionar. A distopia é mais intuitiva e, durante muito tempo, manifesta-se sobretudo nas contradições. Por exemplo: a economia e a população crescem, mas o planeta está a desaparecer. As empresas mais lucrativas e com mais futuro são as que menos pessoas empregam. Porque é que a Apple tem menos de 200.000 trabalhadores, quando o El Corte Inglés emprega mais de 80.000, e paga menos impostos do que uma padaria de bairro? Vivemos saturados de notícias, mas cada vez é mais difícil saber o que está a acontecer. Os líderes políticos são as principais fontes de desinformação. Conseguimos editar ADN e prever a estrutura das proteínas, mas em países como os Estados Unidos, a esperança média de vida está a diminuir.

Geram-se mais dados do que nunca, mas o poder tornou-se completamente opaco. A inteligência artificial é intangível e infinita, mas trouxe-nos de volta formas de exploração vitorianas. Vivemos sob um regime de controlo e vigilância imposto pelos mesmos sistemas que prometiam salvar-nos. Entre os mais pobres, muitos votam em candidatos que prometeram acabar com o contrato social. Vamos conquistar Marte num futuro que fantasia com o passado mais retrógrado e imperial. É a vida de sempre, mas nada parece como antes. A resistência soa exagerada. Somos infinitamente adaptáveis — sabemos viver com a inquietação.

O apocalipse é um acontecimento revolucionário que muda tudo num instante. A vida que sobrevive tem de se reinventar do zero. Um regresso às origens, onde já não existe contrato social. A distopia é um processo muito mais subtil. É uma utopia que se torce até se tornar no oposto daquilo que afirma representar. O apocalipse é um acidente, um castigo divino, ou pelo menos a consequência lógica de um deteriorar irresponsável no qual todos participámos. A distopia é um exercício de destruição deliberada que se faz passar por degradação natural — e que pode passar despercebida se não estivermos atentos. 

A literatura distópica oferece-nos ferramentas para interpretar os sinais, e anticorpos para resistir à lógica implacável das suas engrenagens. Graças a George Orwell e Aldous Huxley, Philip K. Dick, Franz Kafka e Margaret Atwood, reconhecemos os ingredientes com que se constrói uma nova era de opressão.

Os sinais são inequívocos, uma vez identificado o padrão. Reconhecemos em 1984 as formas de controlo dos corpos através da vigilância permanente. A eficácia política do panóptico, cuja genialidade é fazer com que o povo vigie o próprio povo, interiorizando a sua própria repressão codificada como educação, ambição e outras expressões de estatuto numa hierarquia que todos querem escalar. Mas também as formas mais subtis de controlo do pensamento — através da manipulação da linguagem, da reescrita constante da história, do uso oportunista da nostalgia para justificar a violência. Quem controla o passado, controla o futuro. Entendemos a importância dos nomes e o ato de nomear como forma de resistência íntima. Como disse Ursula K. Le Guin ao receber a Medalha de Contribuição Distinta às Letras Americanas: “Precisamos de escritores que se lembrem da liberdade.”

Admirável Mundo Novo identifica o entretenimento, o consumo e outras iterações compulsivas típicas do nosso tempo como partes de um sistema de automedicação. Para quê amedrontar a população, se é tão fácil distraí-la com séries da Netflix, jogos de futebol e debates televisivos sobre género e transversalidade? Reconhecemo-nos nessas fórmulas massivas mas subtis de consolo — através do prazer imediato, do debate inconsequente, do sexo desligado e da prática de rituais sem comunidade. Nesse sentido, não há mundo mais feliz do que o estado de confinamento, quando as plataformas digitais expandiram os seus domínios sobre os escombros do colapso, estabelecendo os limites literais do possível em todos os aspectos da nossa vida: social, laboral, emocional, intelectual. Como explica Hannah Arendt em A Condição Humana, o espaço público é o espaço da aparição.

Apóstolo da paranoia, Philip K. Dick antecipou a pós-verdade em todos os seus contos, descrevendo a tecnologia e os meios de comunicação como veículos para impor realidades paralelas sobre a percepção humana. Propôs a depressão e a loucura como os nossos únicos anticorpos num mundo interpretado e corporativo de consciências artificiais, antes de Mark Fisher as classificar como sintomas estruturais do capitalismo tardio. The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), de Margaret Atwood, identifica o ataque aos direitos reprodutivos e sexuais como o canário na mina de uma regressão iminente. Também nos lembra que até as redes mais pequenas são actos políticos capazes de projectar a liberdade para lá dos seus limites. O oposto do totalitarismo não é a sobrevivência, mas a solidariedade.

Todos os relatos distópicos alertam para a sua temporalidade enganadora. “Disseram que seria temporário, mas nada muda de repente”, diz Offred, a protagonista do romance de Atwood, para explicar como deixaram que a democracia colapsasse sem oferecer resistência. É o mesmo processo de adaptação que descreve Hannah Arendt — uma mistura de indiferença calculada, baseada em princípios de cortesia e conforto. Tudo parece avançar gradualmente, num processo de mudanças tão incrementais que se infiltram silenciosamente no quotidiano, reconfigurando a realidade enquanto fazemos maratonas de Netflix e debatemos sobre nadadoras trans ou a saudação nazi de Elon Musk. A continuidade e acessibilidade das rotinas superficiais tranquilizam-nos até que, subitamente, há uma aceleração vertiginosa e tudo parece desencadear-se de uma vez. Parece um acontecimento, mas é a conclusão lógica de um processo muito anterior.

Os grandes apagões funcionam como elemento simbólico, mas também nos ajudam a diagnosticar — porque revelam algo sobre as ordens sociais. Dizem que o famoso apagão de Nova Iorque, no verão de 1977, originou saques generalizados que expuseram as tensões sociais de uma cidade marcada pelo desemprego e pela crise económica. Como muitos notaram esta semana, não foi isso que aconteceu aqui. Seguindo a linha mediática das semanas anteriores, pareceria que ficámos sem luz nas piores circunstâncias: ausência de futuro, de valores, de sentido; num estado de incerteza e desamparo. Um mundo onde a tecnologia nos ultrapassa, a política nos satura, a comunidade nos enfurece. Quando mais ansiávamos por uma explosão. E, no entanto, Espanha conseguiu ultrapassar o apocalipse sem lutas, pilhagens ou acidentes de viação — sentados à volta de um rádio que nunca parou de emitir. Nas suas Teses sobre a Filosofia da História, Walter Benjamin diz que cada segundo é “a pequena porta no tempo por onde pode entrar o Messias”. Há muita luz nesta escuridão.

"Luzes para entender as nossas fanasias distópicas" | Marta Peirano | 4 de Maio 2024 | El País

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Para os Jovens Chineses Tiananmen Nunca Existiu

"Winston carregou na tecla "números antigos" do telecrã e pediu os Times indicados, que saíra do tubo pneumático após a espera de apenas alguns minutos. As mensagens que recebera referiam-se a artigos ou notícias que por um ou outro motivo se considerava necessário alterar ou, na expressão oficialmente utilizada, retificar.
(...)

Assim que fossem reunidas e conferidas todas as correções necessárias, a introduzir num determinado número do Times, este seria reimpresso, o exemplar original destruído, e o exemplar corrigido arquivado no seu lugar. Este processo de alteração contínua não se aplicava só aos jornais, mas também a livros, revistas panfletos, cartazes, folhetos, filmes, fitas gravadas, bandas desenhadas, fotografias - todo  tipo de literatura ou documentação que pudesse concebivelmente ter qualquer espécie de relevância política ou ideológica. Dia a dia, e quase minuto a minuto, o passado ia sendo atualizado. Deste modo tornava-se possível demonstrar, com provas documentais, que todas as previsões do Partido haviam sido corretas; e nunca se permitia a permanência da mínima notícia ou artigo de opinião nos arquivos, que entrasse em conflito com as necessidades do momento.

Toda a História era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas as necessárias. Em nenhum caso seria possível, uma vez terminado o tratamento do texto, provar que ocorrera qualquer falsificação. A secção mais importante do Departamento de Arquivos, muito maior do que aquela em que Winston trabalhava, compunha-se de pessoas tendo por única missão procurar e recolher todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos desatualizados, que deviam necessariamente ser destruídos.
(...)
E o próprio Departamento de Arquivos era afinal apenas um dos ramos do Ministério da Verdade, cuja função primordial não consistia em reconstruir o passado, mas em fornecer aos cidadãos da Oceânia jornais, filmes, livros de estudo, programas de telecrã, peças de teatro, romances  - todos os tipos de informação, instrução ou divertimento, da estatuária à palavra-de-ordem, do poeta lírico ao tratado de biologia, da cartilha infantil ao Dicionário de Novilíngua. E o Ministério não só tinha que satisfazer as múltiplas necessidades do Partido, como devia repetir toda a operação a níveis inferiores para uso do proletariado. Existia toda uma série de departamentos independentes dedicados à literatura, à música, ao teatro e, de um modo geral, às diversões proletárias. Aí se produziam pasquins onde quase só se falava de desporto, crimes e astrologia; romances de cordel a cinco cêntimos cada; filmes a transbordar de sexo; e canções sentimentais inteiramente compostas por processos mecânicos numa espécie de caleidoscópio conhecido pelo nome de versificador. Havia mesmo uma subsecção inteira - encarregada de produzir pornografia da mais reles, que era mandada para o exterior em embalagens seladas e que nenhum membro do Partido, além dos que lá trabalhavam, estava autorizado a ver...


terça-feira, 19 de junho de 2018

Por Que é Que os Pobres Nunca deixarão de Ser Pobres

"Ignorância é Força"

Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direção. 

Os objetivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objetivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objetivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objetivo da classe Baixa, quando algum objetivo tem - pois a caraterística persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções criando uma sociedade onde todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da Historia, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas, sempre a mesma. Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objetivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, a nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça. Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objetivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido um certo progresso material. Mesmo hoje em dia, no atual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza , nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer na desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças históricas pouco mais representaram do que a mudança de nome dos chefes.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro / George Orwell / 1949


domingo, 13 de maio de 2018

A Polícia do Pensamento

"Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Também aí, em pequenas letras nítidas, estavam inscritas as mesmas palavras de ordem e, na outra face, a efígie do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam uma pessoa. Nas moeda, nos selos, nas capas dos livros, no invólucro dos maços de cigarros - em toda a parte. Sempre aqueles olhos a fitar-nos e aquela voz a envolver-nos. Na vigília ou no sono , a trabalhar ou a comer, em casa ou na rua, no banho ou na cama - não havia fuga possível. Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos da nossa cabeça. 

O sol avançara no céu, e as inúmeras janelas do Ministério da Verdade, já sem luz a fazê-las brilhar, surgiam soturnas como as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, não podia ser abalada. Nem mil misseis a deitariam ao chão. De novo perguntou-se a si mesmo para quem estava a escrever no seu diário. Para o futuro, para o passado - para uma era provavelmente imaginária. E diante dele erguia-se, não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio a vapor. Só a Polícia do Pensamento leria aquilo que ele escrevera, antes de o varrer da existência e da memória. Como podia apelar-se ao futuro quando nem o menor vestígio de nós próprios, nem mesmo uma palavra anónima rabiscada num bocado de papel, tinha hipótese de sobreviver fisicamente?

O telecrã deu duas horas. Tinha de sair dentro de dez minutos. Deverias estar de volta ao emprego às duas e meia. Curiosamente dir-se-ia que o sinal horário lhe dera novo alento. Era um fantasma solitário dizendo uma verdade que nunca ninguém viria a ouvir. Mas enquanto a dissesse, a continuidade, de forma obscura, não seria quebrada. Não fazendo-se ouvir, mas mantendo-se mentalmente são, ele prolongava a herança humana. Voltou a sentar-se à mesa, molhou a caneta no tinteiro e escreveu:

Ao futuro ou ao passado,  um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e não vivam sozinhos - a um tempo em que a verdade exista e o que for feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplopnesar - eu vos saúdo!

Era um homem morto, pensou. Só agora, que conseguira formular os seus pensamentos, lhe parecia ter dado o passo decisivo. As consequências de cada ato estão contidas no próprio ato. Escreveu:

O pensarcrime não provoca a morte: o pensarcrime é a morte.

Agora que se reconhecera como um homem morto, tornava-se-lhe importante continuar vivo tanto quanto possível. Tinha dois dedos da mão direita sujos de tinta. Isso constituía exatamente o tipo de pormenor suscetível de o trair. Algum fanático intrometido, do Ministério (provavelmente uma mulher: alguém como a mulherzinha do cabelo cor de palha ou a rapariga morena do Departamento de Ficção), podia começar a perguntar-se por que teria ele estado a escrever no intervalo do almoço, por que teria usado uma caneta antiga, o que teria estado a escrever  - e depois chamar a atenção das entidades competentes. Foi à casa-de-banho e esfregou cuidadosamente a tinta com áspero sabão castanho escuro que arranhava a pele como lixa; por conseguinte, perfeitamente indicado para o fim. 

Arrumou o diário na gaveta. Nem valia a pena pensar em escondê-lo, mas podia ao menos arranjar forma de saber se a sua existência fora ou não descoberta. Um cabelo a passar pela extremidade das folhas seria demasiado óbvio. Com a ponta do dedo, apanhou um grão visível de poeira branca e depositou-o no canto da capa, de onde cairia fatalmente se alguém mexesse no livro.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro / George Orwell / 1949

domingo, 5 de novembro de 2017

Telecrã

Saí do centro comercial em frente do Estádio do Dragão e, já depois de me terem perguntado se eu queria "Tickets?", dirigi-me para o carro que tinha ficado estacionado no exterior. Já dentro do carro e com os vidros fechados, um sujeito aparentando ser de etnia cigana, aproxima-se e começa-me a chatear, mostrando-me um telemóvel (ou telecrã como diz agora uma amiga minha que acabou de ler o 1984 do Orwell) e onde eu só reconheci a marca a prateado Samsung (lá está, uma marca que reconheço dos televisores), enquanto que o vou ignorando. 

Até que, perante tanta insistência, tenho mesmo de lhe dizer:
"Ó amigo, isso não vale nada. Eu tenho um telemóvel muito melhor que esse. Não quero isso para nada". E enquanto isso, vou ao bolso e mostro-lhe o meu Nokia 6630 de 2004 e digo-lhe: "Isto é que é que uma máquina!"

Ele riu-se e eu arranquei e fui-me embora. 

domingo, 12 de março de 2017

Medo: Há uma televisão inteligente atrás de mim


David Foldvari

São 17h45 e eu estou num quarto de Hotel em Guildford. Estou cheio de medo. Há uma televisão inteligente montada na parede atrás de mim. 

Eu só tenho um aparelho de televisão inteligente há 18 meses, então eu já evitei anos de vigilância secreta pela CIA, FBI, MI5, CI5 e NWA. Ninguém está a salvo da Samsung-Olho-de-Sauron-que-tudo-vê. Aparentemente um programa profundamente incorporado permite atualmente que as agências de inteligência observem e façam a monitorização de qualquer pessoa que esteja a ver o The Nightly Show da ITV, na crença que eles devem ser um estranho solitário-desajustado inexplicavelmente fascinado pelo sofrimento humano, uma bomba-relógio que está prestes a explodir. 

Eu ainda tenho um telemóvel velho da Nokia, tão básico que nem sequer tem o Snake nem câmara integrada.

Eu soube que a Nokia vai relançar um telemóvel como que a relembrar um artigo antigo fixe. E isto só mostra que se tu ficares parado muito tempo no mesmo sítio acabarás por te tornares um ícone da moda. Ou então és atropelado por um autocarro!

O meu sobrinho acha que é engraçado que eu não saiba o que é Candy Crush. Eu acho engraçado que ele nunca vá ser capaz de ser dono da sua própria casa. 

Mas talvez essa ignorância me tenha dado segurança. Será que eles nos estão a espiar através das nossas televisões assim como no Big Brother fez a Winston Smith em 1984 do Orwell? Tornou-se um chiche invocar a natureza profética da ficção distópica de Orwell, mas só porque fazer isso é um chiche, não faz as profecias de Orwell menos proféticas.

Stweart Lee 
(ler texto original aquiThe Guardian)