Mostrar mensagens com a etiqueta George Orwell. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta George Orwell. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Para os Jovens Chineses Tiananmen Nunca Existiu

"Winston carregou na tecla "números antigos" do telecrã e pediu os Times indicados, que saíra do tubo pneumático após a espera de apenas alguns minutos. As mensagens que recebera referiam-se a artigos ou notícias que por um ou outro motivo se considerava necessário alterar ou, na expressão oficialmente utilizada, retificar.
(...)

Assim que fossem reunidas e conferidas todas as correções necessárias, a introduzir num determinado número do Times, este seria reimpresso, o exemplar original destruído, e o exemplar corrigido arquivado no seu lugar. Este processo de alteração contínua não se aplicava só aos jornais, mas também a livros, revistas panfletos, cartazes, folhetos, filmes, fitas gravadas, bandas desenhadas, fotografias - todo  tipo de literatura ou documentação que pudesse concebivelmente ter qualquer espécie de relevância política ou ideológica. Dia a dia, e quase minuto a minuto, o passado ia sendo atualizado. Deste modo tornava-se possível demonstrar, com provas documentais, que todas as previsões do Partido haviam sido corretas; e nunca se permitia a permanência da mínima notícia ou artigo de opinião nos arquivos, que entrasse em conflito com as necessidades do momento.

Toda a História era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas as necessárias. Em nenhum caso seria possível, uma vez terminado o tratamento do texto, provar que ocorrera qualquer falsificação. A secção mais importante do Departamento de Arquivos, muito maior do que aquela em que Winston trabalhava, compunha-se de pessoas tendo por única missão procurar e recolher todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos desatualizados, que deviam necessariamente ser destruídos.
(...)
E o próprio Departamento de Arquivos era afinal apenas um dos ramos do Ministério da Verdade, cuja função primordial não consistia em reconstruir o passado, mas em fornecer aos cidadãos da Oceânia jornais, filmes, livros de estudo, programas de telecrã, peças de teatro, romances  - todos os tipos de informação, instrução ou divertimento, da estatuária à palavra-de-ordem, do poeta lírico ao tratado de biologia, da cartilha infantil ao Dicionário de Novilíngua. E o Ministério não só tinha que satisfazer as múltiplas necessidades do Partido, como devia repetir toda a operação a níveis inferiores para uso do proletariado. Existia toda uma série de departamentos independentes dedicados à literatura, à música, ao teatro e, de um modo geral, às diversões proletárias. Aí se produziam pasquins onde quase só se falava de desporto, crimes e astrologia; romances de cordel a cinco cêntimos cada; filmes a transbordar de sexo; e canções sentimentais inteiramente compostas por processos mecânicos numa espécie de caleidoscópio conhecido pelo nome de versificador. Havia mesmo uma subsecção inteira - encarregada de produzir pornografia da mais reles, que era mandada para o exterior em embalagens seladas e que nenhum membro do Partido, além dos que lá trabalhavam, estava autorizado a ver...


terça-feira, 19 de junho de 2018

Por Que é Que os Pobres Nunca deixarão de Ser Pobres

"Ignorância é Força"

Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direção. 

Os objetivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objetivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objetivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objetivo da classe Baixa, quando algum objetivo tem - pois a caraterística persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções criando uma sociedade onde todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da Historia, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas, sempre a mesma. Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objetivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, a nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça. Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objetivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido um certo progresso material. Mesmo hoje em dia, no atual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza , nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer na desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças históricas pouco mais representaram do que a mudança de nome dos chefes.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro / George Orwell / 1949


domingo, 13 de maio de 2018

A Polícia do Pensamento

"Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Também aí, em pequenas letras nítidas, estavam inscritas as mesmas palavras de ordem e, na outra face, a efígie do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam uma pessoa. Nas moeda, nos selos, nas capas dos livros, no invólucro dos maços de cigarros - em toda a parte. Sempre aqueles olhos a fitar-nos e aquela voz a envolver-nos. Na vigília ou no sono , a trabalhar ou a comer, em casa ou na rua, no banho ou na cama - não havia fuga possível. Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos da nossa cabeça. 

O sol avançara no céu, e as inúmeras janelas do Ministério da Verdade, já sem luz a fazê-las brilhar, surgiam soturnas como as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, não podia ser abalada. Nem mil misseis a deitariam ao chão. De novo perguntou-se a si mesmo para quem estava a escrever no seu diário. Para o futuro, para o passado - para uma era provavelmente imaginária. E diante dele erguia-se, não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio a vapor. Só a Polícia do Pensamento leria aquilo que ele escrevera, antes de o varrer da existência e da memória. Como podia apelar-se ao futuro quando nem o menor vestígio de nós próprios, nem mesmo uma palavra anónima rabiscada num bocado de papel, tinha hipótese de sobreviver fisicamente?

O telecrã deu duas horas. Tinha de sair dentro de dez minutos. Deverias estar de volta ao emprego às duas e meia. Curiosamente dir-se-ia que o sinal horário lhe dera novo alento. Era um fantasma solitário dizendo uma verdade que nunca ninguém viria a ouvir. Mas enquanto a dissesse, a continuidade, de forma obscura, não seria quebrada. Não fazendo-se ouvir, mas mantendo-se mentalmente são, ele prolongava a herança humana. Voltou a sentar-se à mesa, molhou a caneta no tinteiro e escreveu:

Ao futuro ou ao passado,  um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e não vivam sozinhos - a um tempo em que a verdade exista e o que for feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplopnesar - eu vos saúdo!

Era um homem morto, pensou. Só agora, que conseguira formular os seus pensamentos, lhe parecia ter dado o passo decisivo. As consequências de cada ato estão contidas no próprio ato. Escreveu:

O pensarcrime não provoca a morte: o pensarcrime é a morte.

Agora que se reconhecera como um homem morto, tornava-se-lhe importante continuar vivo tanto quanto possível. Tinha dois dedos da mão direita sujos de tinta. Isso constituía exatamente o tipo de pormenor suscetível de o trair. Algum fanático intrometido, do Ministério (provavelmente uma mulher: alguém como a mulherzinha do cabelo cor de palha ou a rapariga morena do Departamento de Ficção), podia começar a perguntar-se por que teria ele estado a escrever no intervalo do almoço, por que teria usado uma caneta antiga, o que teria estado a escrever  - e depois chamar a atenção das entidades competentes. Foi à casa-de-banho e esfregou cuidadosamente a tinta com áspero sabão castanho escuro que arranhava a pele como lixa; por conseguinte, perfeitamente indicado para o fim. 

Arrumou o diário na gaveta. Nem valia a pena pensar em escondê-lo, mas podia ao menos arranjar forma de saber se a sua existência fora ou não descoberta. Um cabelo a passar pela extremidade das folhas seria demasiado óbvio. Com a ponta do dedo, apanhou um grão visível de poeira branca e depositou-o no canto da capa, de onde cairia fatalmente se alguém mexesse no livro.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro / George Orwell / 1949