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terça-feira, 7 de abril de 2026

Inteligência Artificial: Um Futuro que Já Aconteceu

A propósito do livro "O deserto de nós mesmos", o El País falou com o autor, Éric Sadin, um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia e ele pinta-nos o cenário de como será o mundo com a "inteligência artificial".


 Éric Sadin é um dos 10 principais pensadores tecnológicos do mundo. A sua obra mais recente é O Deserto de Nós Mesmos, uma análise sombria do futuro que estamos a construir. Um lugar que já existiu previamente em dados e no esquema de probabilidades que o desenhou. Um lugar que cheira a morte e a passado. E tudo começou a 30 de novembro de 2022, com o advento do ChatGPT. “Nesse dia não dormi a noite inteira. E eu costumo dormir como um bebé”, explica Sadin, enquanto coloca o croissant sobre a mesa. O livro, um best-seller em França, começa com uma citação de Louis-Ferdinand Céline: “Posso dizer que vi a catástrofe a chegar”.

Então o apocalipse começou a 30 de novembro de 2022?

Normalmente durmo como um bebé, mas nesse dia não preguei olho. Os dias que se seguiram foram piores. Toda aquela gente a dizer que era fantástico. Eu não percebia como ninguém via a catástrofe civilizacional que aí vinha. É estranho observar um fenómeno como o da IA generativa revestido dessa pátina de modernidade e praticidade sem que se analisem as consequências imediatas, de extrema gravidade. E quanto mais tempo passar, mais grave será.

 Sustenta que devia ter sido proibida.

Desde o início. Mas aconteceu exatamente o contrário. Sam Altman, cofundador da OpenAI, fez uma digressão de conferências e foi recebido pelos chefes de Estado com passadeira vermelha. A resposta, também a de França com a Mistral, foi inscrevermo-nos nesta corrida rumo ao deserto de nós mesmos. Há muitas palavras vazias e absurdas que se dizem sobre a IA: “Vamos viver num mundo melhor”. “Tudo será mais fácil…”. Com base em quê? Eu analiso a partir de princípios como a sociabilidade, a dignidade, a integridade humana, a liberdade, a expressão das nossas faculdades… e tudo isso será destruído. Se tivermos em conta as consequências atuais e as que se anunciam, trata-se de algo de extrema gravidade.

O Governo francês debate esta semana a proibição das redes sociais a menores de 15 anos. Dá a sensação de que chegamos sempre tarde a tudo.

Macron quer regulá-las agora, mas até este momento deu a estas plataformas todas as facilidades. Começaram em 2010 e, 15 anos depois, admitimos a catástrofe. A sociedade, em questões digitais, acorda sempre demasiado tarde.

Já perdemos algumas gerações de jovens?

Também muitos adultos. Psiquiatrizaram a sociedade. E com a IA generativa acontecerá o mesmo. Já estamos a ver as consequências. A perda de empregos, o isolamento social, a imagem. Mas também a dependência emocional dos adolescentes que falam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, transformada em coach psicológico. E isto é só o princípio.

Falamos com a IA, pedimos conselhos, conversa emocional. Mas a linguagem, embora pareça a mesma, é outra.

São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de bibliotecas, artigos de jornais e dados da internet para revelar leis semânticas. São percursos formais feitos de estatística, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque funciona sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que, depois de determinadas palavras, vêm outras. Na IA acontece sempre tudo o que já aconteceu. Responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu agora não sei que palavra vou usar a seguir à que estou a dizer neste momento, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento, é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.

Isso poderia definir a liberdade humana.

Sem dúvida. Por um lado, há a linguagem morta, necrosada, matematizada e nascida do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E esta mudança que estamos a viver modificará também as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema omnisciente e sabichão. Nestas últimas eleições autárquicas em França, descobriram que havia candidatos e autarcas que escreviam os seus discursos com o ChatGPT. Tem noção da gravidade disso?

A sensação é de que a cultura que a IA vai gerar será como a comida de plástico, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para classes desfavorecidas que não podem pagar o autêntico, o verdadeiro. Uma distinção social e económica. A realidade, com os seus erros, para os ricos; a IA, para os pobres.

Tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e os que têm vontade de usar as suas faculdades. Essas pessoas também podem existir nas classes menos favorecidas. E haverá ricos que optarão por isso por preguiça, desleixo. Mas não será fácil distinguir os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmática. Cada um produzirá imagens que corresponderão ao seu ponto de vista sobre as coisas.


O impacto será enorme no mundo audiovisual e na cultura.

Sem dúvida. Vai arrasar as séries e os filmes. Haverá atores feitos por IA, cenários, luzes, maquilhagem, guarda-roupa… Vamos para uma enorme desaparecimento de profissões: montador, maquilhador, diretor de produção. Dirigimo-nos para a autocriação. Produtos que nos contêm a nós mesmos. A selfmusic, ou o selfbook. Em vez de descobrirmos, construiremos a nossa pequena ficção. E isso é um furacão que vai embater no mundo da cultura.

Vão destruir-se empregos, mas talvez se crie uma nova indústria. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.

A sociedade foi fundada sobre o conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem emprego, mas a médio ou longo prazo conduzem a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o nascimento do setor terciário nos anos 70 e 80. Trabalhos muito duros passaram a ser feitos pelas máquinas. Hoje, quase 80% do emprego vem do setor terciário, que se caracteriza por mobilizar faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que o senhor ama e que lhe dá reconhecimento social.

Acho que está a confundir a época. Ou a profissão.

Vá lá, o senhor assina, faz coisas pessoais.

Se há uma tecnologia que faz muito melhor trabalhos mecânicos ou rotineiros do que os humanos, porque haveríamos de nos opor?

Não podemos nem proibir nem regular. Mas podemos defender a grandeza dos nossos trabalhos. Eu sei que conta apenas um único critério: o ser humano como variável contabilística. Os sistemas farão o trabalho de forma mais fiável, mais rápida e mais barata. Mas há saberes insubstituíveis. O problema é que caminhamos para um mundo em que os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano depois de lançar o ChatGPT, disse diante daqueles imbecis felizes que o aplaudiam: “Calma, isto não é nada comparado com o que aí vem”. Ou seja, os superassistentes. E isto deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos da sua própria organização.

Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Acha que se vão salvar deste furacão? O que podem fazer?

O futuro devia ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se quer ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas deprimem-se, enlouquecem. Nunca houve uma sensação coletiva de saturação tão generalizada. E tanta vontade de fazer algo diferente. Depois da covid, 20 milhões de norte-americanos deixaram o emprego. Mas é difícil fazer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas estas start-ups inúteis que toda a gente quer mercantilizar, devia apoiar coletivos ou estruturas que não estejam submetidos à automatização. O futuro devia ser feito de pequenos coletivos.

O que deveriam aprender os nossos filhos para escapar a essa morte em vida?

Artesanato. Veja: na Revolução Industrial já existia essa dicotomia. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação do aparelho de produção, mas isso aumentava os desastres ecológicos, o trabalho em cadeia. Morris, pelo contrário, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso podia fazer-se no artesanato, na excelência, na obra assinada, única.


Não parece haver muita esperança.

A esperança são as crianças da idade das suas filhas, que quando crescerem escolherão outra opção, como acontecia em Matrix. Esse momento chegará. Chegará em algumas crianças puras. Mas já perdemos muitas. Miúdos que passam o dia inteiro no TikTok e já nem sabem escrever. São robôs que apenas respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.

Esta criatura pode tornar-se independente e submeter-nos, como o Skynet em Terminator?

Isso é uma parvoíce. Um delírio de ficção científica infantil. Uma visão antropomórfica de adolescente. Mas aquilo que lhe estou a contar é muito pior. A renúncia às nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados a todas as escalas, e todas fazem recuar o ser humano no exercício daquilo que o engrandece. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que está a extinguir-se. E garanto-lhe que isso é muito pior do que o Skynet. Mas sabe quem pode evitá-lo?

Pelo seu olhar, começo a imaginá-lo.

O senhor. Ou seja, os pais! O senhor não pode usar o ChatGPT para mandar e-mails nem nada parecido. Como é que depois vai pedir aos seus filhos que aprendam a escrever? Salvar o mundo hoje depende da consciência dos pais.

O senhor não usa nenhuma IA generativa?

Essas máquinas de morte? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que felicidade. E vejo gente jovem que começa a distinguir-se, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis quotidianos e escravos da sua própria preguiça. E esses verão a sua singularidade destruída em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou a falar muito. Quanto espaço é que lhe vão dar?

Não se preocupe, resumimos tudo com o ChatGPT.

(Entrevista de Daniel Verdú / El País)

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Solteiros de Todo o Mundo Uni-vos!

Em dia de São Valentim, deixo aqui um artigo publicado há dois dias no jornal francês Libération, a propósito de um livro sobre a luta dos solteiros nos Estados Unidos, desde o final do século XIX até aos anos 80 do século XX.



O celibato em terra hostil

Em Os Esquecidos do Dia de São Valentim, Romain Huret estuda a discriminação sofrida por homens e mulheres não casados nos Estados Unidos, desde o final do século XIX até aos anos 80.

"É difícil não começar pelo Dia de São Valentim. Aproxima-se a passos largos e Romain Huret, presidente e diretor de estudos na EHESS, não corre o risco de nos deixar esquecê-lo. O título do seu mais recente ensaio dá a impressão de que está a aproveitar a vaga crescente. No entanto, este trabalho minucioso exigiu cerca de dez anos. Especialista nos Estados Unidos, convida-nos a olhar para o que acontece por detrás das efusões sentimentais deste dia que se tornou uma festa comercial já no século XIX. Centenas de mulheres americanas serviram-se dele nos anos 60, desviando esta sacrossanta festa dos namorados para enviar postais de São Valentim “não aos homens dos seus sonhos, mas aos membros do Congresso”, escreve Romain Huret logo no prólogo. Expressavam a sua incompreensão por terem de pagar mais impostos do que os casais casados. Os Esquecidos do Dia de São Valentim não fala, portanto, de amor, mas de atribuição social e de discriminação profissional. Não se trata de casais, mas de solteiros que nunca foram casados e cuja idade é superior a 35 anos.

Segregação. A old maid (“solteirona”) é frequentemente retratada sozinha, de aspeto austero, na companhia de um gato; o bachelor (“solteirão”) é “muitas vezes figurado com traços efeminados, confrontado com a angústia de jantar sozinho”. Esta é a representação folclórica predominante no final do século XIX. Ilustra-se através de um jogo popular cujo princípio consiste em livrar-se da carta daquela ou daquele que não é casado. 

Mais seriamente, os solteiros são considerados depravados, inúteis, “anormais” que, ao recusarem casar e procriar, contribuem para o “suicídio da raça branca e protestante”, segundo o presidente da Universidade da Califórnia, Benjamin Ide Wheeler, em 1905. A pressão migratória aumenta o medo do desequilíbrio. O demógrafo Jacques Bertillon aponta uma mortalidade mais elevada entre as solteironas, enquanto o psicólogo Henry Herbert Goddard sublinha a degenerescência das linhagens de solteiros nas genealogias. Vários Estados chegam mesmo a aprovar impostos anuais sobre os solteiros.

A “segregação” acentua-se nos anos 20. Em certas regiões, criam-se zonas reservadas às famílias e outras aos solteiros. Chegam mesmo a ser aprovadas leis que proíbem indivíduos não casados de viverem juntos, algo anteriormente tolerado, ao mesmo tempo que se intensificam as discriminações na contratação, obrigando os solteiros a envelhecer na frugalidade. A sua situação agrava-se com a Grande Depressão, sendo o Estado a relegá-los ainda mais para segundo plano no sistema de proteção. Depois da guerra, na qual participaram em larga escala, continuam a ser estigmatizados.

Para além do olhar mordaz da sociedade sobre eles, Romain Huret realiza uma análise fina da sua condição, simultaneamente estatística, sociológica e humana. Examinou arquivos públicos e privados, coleções de fotografias (entre as quais as de Frances Benjamin Johnston, ela própria solteira, que fez do celibato um dos seus temas) e diários pessoais. Numerosas personagens e nomes atravessam Os Esquecidos do Dia de São Valentim, como Azubah e Harriet, de Topeka (Kansas), que tiveram de criar os irmãos após a morte da mãe, em 1928. 

“Centenas de milhares de mulheres tornam-se assim, sucessivamente ou de forma específica, mães de substituição, preceptoras, auxiliares domésticas e cuidadoras de pais idosos ou de irmãos com saúde frágil ou deficiência.” No trabalho, são enfermeiras, professoras ou atuam no ensino superior feminino, então em plena expansão. Os homens trabalham na agricultura, na indústria florestal, nos campos petrolíferos e nas cidades mineiras da viragem do século, em particular em Bachelor City, assim batizada devido ao elevado número de solteiros. Entre 1890 e 1920, nota o historiador, o seu número duplica, passando de menos de um milhão para mais de dois. Charlot, célebre figura solteira, descreve a violência do capitalismo moderno, do qual são “as mãos invisíveis”, vivendo de itinerância, empregos precários e sob pressão.

“Condição do ativismo”. Se são esquecidos em favor dos casados, os solteiros irão progressivamente lutar, ao longo das décadas e até aos anos 60, para existir e fazer valer os seus direitos. “Em surdina, os solteiros nos Estados Unidos anunciam a revolução antropológica em curso nas sociedades ocidentais.” Multiplicam-se nas cidades clubes que lhes são reservados, como o de Madame Young, em Aspen (Colorado), cuja regra estipula que quem casar terá de pagar uma multa antes de abandonar o clube. Cada vez mais solteiros assumem permanecer sozinhos, como a poeta Marianne Moore, ou estabelecer “casamentos à Boston”, como Martha Van Rensselaer e Flora Rose, que desenvolveram o seu laboratório de investigação em alimentação na Universidade de Cornell e viviam juntas.

Quer seja pelo direito de voto, por um hospital para mulheres e crianças em Nova Iorque, pela fundação da primeira American Red Cross em 1881, ou ainda para combater o álcool, a droga, a vivissecção ou os chapéus com penas, as fileiras do ativismo são maioritariamente compostas por mulheres solteiras. “Mesmo que as suas lutas nem sempre sejam vitoriosas, estas mulheres, cujo celibato é muitas vezes uma das condições do ativismo, contribuem para numerosos avanços no domínio da proteção ambiental e em muitos outros. À sua maneira, participam na humanização do mundo.” Nos anos 60, o espartilho dos preconceitos começa a afrouxar. Mas, como também sublinha Romain Huret - e isso é hoje bem audível -, a ordem matrimonial ainda não disse a última palavra.

Frédérique Roussel / Libération

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Mito das Gerações

Uma coisa que ouço frequentemente no trabalho é "porque a tua geração isto" ou "a tua geração aquilo". entre pessoas que distam dez anos de diferença! Mas faz algum sentido segmentar as pessoas desta forma? Isto tem algum fundo de verdade científica - os baby boomers são assim e a geração Z é assado - ou é uma coisa tão rigorosa quanto o horóscopo astrológico da revista sobre o que nos irá acontecer na próxima semana?

No fim de semana passado o jornal espanhol El País trazia uma reportagem muito interessante sobre o tema e aqui deixo o artigo traduzido para melhor elucidar quem por aqui passar:


"Todos começámos a pesquisar no Google a palavra millennial por volta de 2012 para descobrir se fazíamos parte do grupo. A designação surgiu pela primeira vez em 1991 no livro Generations, dos escritores e consultores norte-americanos Neil Howe e William Strauss, mas na altura não teve grande repercussão. Segundo o Google Trends, as pesquisas do termo começaram timidamente em 2005 e atingiram o pico máximo em 2013. Hoje os millennials são alvo de paródias na internet, mas na altura eram sociologicamente muito atraentes. Em menos de uma década foram destronados pelos zetas, que já são seguidos de perto pelos alfas, e que dentro de alguns anos serão substituídos pelos betas, bebés nascidos a partir de janeiro de 2025.

Antes dos millennials vieram os X e, muito antes, os boomers e a geração silenciosa. Fora do mundo académico, pouco se prestava atenção a estas classificações, mas desde que o tema entrou na cultura pop, sociólogos e demógrafos receiam que se esgotem todas as letras do alfabeto se continuar a moda de rotular uma nova coorte geracional aproximadamente a cada dez anos.

Em 2021, Philip Cohen, sociólogo da Universidade de Maryland, pediu numa carta aberta ao Pew Research Center, um centro de investigação norte-americano, que “fizesse as coisas bem” e deixasse de usar etiquetas “arbitrárias e contraproducentes” como geração Z e baby boomers, por “não estarem sustentadas por qualquer evidência científica”. Com exceção dos baby boomers, que correspondem de facto a um marco demográfico, as restantes gerações tinham sido declaradas e nomeadas “sem qualquer justificação empírica ou teórica”, dizia a carta, concluindo: “Rotular gerações e fixar as suas datas promove a pseudociência, mina a compreensão pública e prejudica a investigação.” Cohen foi apoiado por 170 investigadores. O poderoso think tank norte-americano anunciou então que entrava numa fase de reflexão sobre o assunto.

“O primeiro erro é acreditar que o X da geração X se refere à letra do alfabeto”, explica Oriol Bartomeus, politólogo e diretor do Institut de Ciències Polítiques i Socials (ICPS), ligado à Universidade Autónoma de Barcelona, acrescentando: “Na verdade, esse X representa uma incógnita. No seu livro Generation X (1991), Douglas Coupland descrevia uma geração sobre a qual se sabia pouco ou nada. A partir daí, continuar a nomear as gerações com as letras consecutivas do alfabeto foi uma tolice monumental”, diz o professor, que, em conversa telefónica, se confessa “muito anti-segmentação geracional”. Na sua carta, Cohen também ridicularizava o uso das letras e denunciava que o esquema geracional se tinha tornado “uma paródia”. “Aparentemente, com a geração Z chegámos ao fim do alfabeto — isto vai continuar eternamente?”, questionava.

Em 2023, o prestigiado centro de investigação concluiu a sua reflexão. O seu presidente, Michael Dimock, publicou “as cinco coisas a ter em mente quando se ouve falar de geração Z, millennials, boomers e outras gerações”. São elas: “As categorias geracionais não têm definição científica”; “induzem a estereótipos e simplificações excessivas”; “as discussões sobre gerações tendem a acentuar as diferenças e não as semelhanças”; “as visões convencionais sobre gerações podem criar um viés a favor das classes altas”; e, finalmente, “as pessoas mudam com o tempo”.



Philip Cohen concordou, por correio eletrónico, com estas conclusões e com a promessa do Pew Research Center de que “o público não deve esperar que as novas investigações usem a lente geracional. Só falaremos de gerações quando isso acrescentar valor aos debates e dar significado às tendências sociais.” Para o professor da Universidade de Maryland, o debate está ultrapassado: “Já não é relevante; simplesmente não devemos usar essas estratificações porque não fazem sentido”, afirma de forma categórica.

Bartomeus admite que não há “unanimidade académica” quanto à definição das gerações e explica que há duas escolas principais: a que defende que há uma geração por década e a mais clássica, representada por Ortega y Gasset, que considera que há um salto geracional a cada 30 anos. Um modelo menos rígido define as gerações de acordo com os acontecimentos históricos e sociais que cada uma viveu. Como explica Bartomeus, autor de El peso del tiempo: relato del relevo generacional en España, “em Espanha haveria uma divisão natural em 1975 entre a geração pré e pós-democracia; na Europa de Leste, em 1989, com a geração pós-Muro de Berlim; e em quase todo o mundo ocidental, em 2008, com os nascidos após a crise financeira que destruiu o pacto social e fez ruir a armadilha da meritocracia”.

Entretanto, os zetas ganham força na internet, parodiam a “pausa millennial” (aqueles segundos de hesitação antes de gravar um vídeo, que denunciam quem não nasceu com uma câmara na mão) e popularizam o “ok boomer”. Agora, vivemos um amargo confronto de acusações: os zetas culpam os boomers pela sua precariedade económica. “É verdade que é a primeira geração do declínio, que está a assistir ao desmantelamento da classe média e sente que lhe roubaram a carteira - mas é enganador dizer que a responsabilidade é geracional”, contrapõe Bartomeus. Para os especialistas, o pior da hiperfragmentação etária é que alimenta uma guerra entre gerações e desvia a atenção de problemas estruturais como o preço da habitação ou os baixos salários, que afetam diretamente o nível de vida.

A teoria de Cohen é que as etiquetas cristalizam a experiência de milhões de pessoas muito diferentes. Haverá quem resista ao estereótipo, mas outros esforçar-se-ão por se encaixar nele e reforçar o sentimento de pertença a um grupo. Como explica por telefone Almudena Moreno, socióloga da Universidade de Valladolid, a internet é replicante e muita gente acaba por acreditar que, se pertence à geração X, é apática; se é millennial, é narcisista e adora tostas de abacate; e se é zeta, deve pagar com gosto seis euros por um café de especialidade. “Estas etiquetas não nascem da sociologia, mas sim das necessidades do marketing de fragmentar o mercado e levar as pessoas a consumir produtos conforme a idade”, reflete.

No seu livro de 2021 The Generation Myth, o politólogo Bobby Duffy sustenta que o mercado tem interesse em exagerar as diferenças geracionais para poder oferecer uma solução. Duffy, professor no King’s College de Londres, escreve por correio eletrónico que existem mais desigualdades dentro de uma mesma geração do que entre duas gerações distintas. O exemplo são os millennials que herdam e os que não herdam. Segundo um artigo da revista The Atlantic, quando a esperança de vida era mais curta, a divergência entre quem herdava e quem não herdava ocorria muito cedo e determinava o rumo de toda a vida — uns e outros raramente se cruzavam. Hoje, um fenómeno típico do século XXI é que dois amigos vivem de forma idêntica até à meia-idade; depois, um deles herda, os planos divergem e as vidas afastam-se. Ambos continuam a ser millennials, fãs de tostas de abacate, mas agora um é rico e o outro não. E essa distância, que não é geracional, parece intransponível.

PARA SABER MAIS:

O Mito das Gerações - Super Interessante

domingo, 19 de outubro de 2025

Avisos do Nazismo para os Dias de Hoje



Enquanto a grande generalidade da população não vê o inevitável, ao menos hoje os alunos não precisam de uma visita de estudo, podem assistir à repetição do que foi a subida do fascismo ao poder nos mais diversos países. A propósito do livro "A mentalidade nazi", o jornal espanhol La Vanguardia entrevistou o escritor Laurence Rees e aqui fica essa entrevista:

"No seu livro, Rees narra como os alemães “votaram para nunca mais votar: a democracia tinha-os traído”.

As teorias da conspiração, cada vez mais frequentes, costumam provocar hilaridade, mas muitas delas não são inocentes e algumas podem até tornar-se criminosas em larga escala. O historiador britânico Laurence Rees aponta as teses conspiracionistas como um dos veículos utilizados pelo nazismo na Alemanha para consolidar o seu poder; a pior delas deu origem à perseguição contra os judeus, que resultou em seis milhões de mortos. Rees acaba de publicar Na Mente Nazi (Crítica), um ensaio estruturado em torno de doze recursos utilizados pelo nacional-socialismo e que são perturbadoramente reconhecíveis na sociedade atual. Na realidade, trata-se, como indica o subtítulo do livro, de doze avisos.

A investigação de Rees é uma análise psicológica da mentalidade do movimento que levou o mundo ao desastre da Segunda Guerra Mundial, mas sobretudo da dos seus seguidores. “Durante 35 anos – explica a La Vanguardia – estive interessado nas mentalidades que levaram as pessoas que apoiaram o nazismo a cometer atos tão terríveis, e em saber porque é que tantos, ao falar deles, não expressavam qualquer remorso.” O resultado é um volume que reúne métodos utilizados pelos nazis para manipular mentalmente a população, bem como dinâmicas psicológicas das quais se aproveitaram.

A difusão de teorias da conspiração é uma das mais marcantes, pois o paralelismo com o que acontece hoje é, no mínimo, inquietante. A mais importante dessas teorias forneceu a base da narrativa sobre a qual se construiu o Holocausto. É certo que a ascensão nazi não se pode explicar sem a Grande Guerra, mas, no entender de Rees, não pelo Tratado de Versalhes, como se assume habitualmente, e sim pelas manobras dos generais alemães para ocultar a sua incompetência.

“Quando começou a guerra – explica o historiador – os militares estavam convencidos de que obteriam uma vitória rápida, e estiveram prestes a consegui-lo, mas o conflito ficou estagnado nas trincheiras.” Abriu-se assim a porta a uma derrota que acabaria por se concretizar quatro anos mais tarde. “Assumiram os militares a responsabilidade pela derrota e admitiram o erro? Não. Em vez disso, culparam os judeus e as forças de esquerda.” Nascia o mito da “punhalada pelas costas”, em que Hitler acreditou firmemente e que lhe permitiu apresentar-se, mais tarde, como uma vítima do establishment. Pouco depois, os judeus tornar-se-iam o alvo do nacional-socialismo.




Esse mito, por sua vez, servia para unir os alemães e reforçar a ideia do “nós e eles” – outra das técnicas nazis. Esse outro grupo, “eles”, identificado como o inimigo da Alemanha, seria depois facilmente desumanizado pela propaganda oficial. “Hoje essa ideia do ‘nós e eles’ está em todo o lado”, argumenta Rees, que aponta como exemplo as claques radicais do futebol, mas que também se pode ver nos discursos xenófobos contra a imigração ou no “América primeiro” de Trump.

O historiador dedica um dos capítulos ao que chama “corrupção da juventude”. Segundo explica, os jovens foram um alvo primordial dos fascismos, tal como o são hoje para os movimentos de extrema-direita. A razão é explicada pelas neurociências: o córtex pré-frontal é a parte do cérebro que regula o comportamento social e modera os impulsos. “Mas esta parte não se desenvolve totalmente antes dos 25 anos. Por isso, certos discursos baseados na força tiveram tanto impacto nos jovens.” “Não é por acaso também que os exércitos se alimentam de jovens como força de choque”, acrescenta.

A antipolítica é outro dos ingredientes fundamentais. Hoje, como naqueles tempos, ascendem os partidos que propõem uma rejeição total do sistema político vigente. Naquela época, os nazis usaram esse recurso, que levou, nas eleições de 1932 – as que deixaram Hitler a um passo do poder – a que a maioria dos alemães votasse no NSDAP ou nos comunistas. “Ou seja, a maioria dos alemães votou para nunca mais votar, o que não tem precedentes na história. Por que o fizeram? A democracia tinha-os traído.”

O catálogo nazi que o autor expõe completa-se com apresentar o líder como herói; atuar em conivência com as elites; perseguir e atacar os direitos humanos; explorar a fé (se os teus seguidores têm fé absoluta em ti, de nada serve argumentar com eles); intensificar o racismo; esmagar a resistência; matar à distância (as câmaras de gás representavam a execução em escala industrial, mas também protegiam psicologicamente os carrascos) e, sobretudo, fomentar o medo.

Rees insiste que o que aconteceu com o nazismo não pode ser aplicado como modelo ao presente, mas sublinha que os paralelismos são evidentes. “É muito importante compreender que as pessoas são moldadas pelo tempo em que vivem. Por isso, é impossível que o nazismo volte, porque o partido nazi, felizmente, já não existe. Mas, em contrapartida, muitos dos seus valores fundamentais – como o antissemitismo, o racismo ou o nacionalismo violento – continuam entre nós.”

sábado, 4 de outubro de 2025

Nascia Assim a Era da Pós Verdade

"Na cronologia da pós-verdade costuma repetir-se como episódio inaugural a célebre conferência de imprensa de 22 de janeiro de 2017. Kellyanne Conway, porta-voz do presidente Trump - encurralada perante uma mentira flagrante - respondeu que não mentia, mas que oferecia “factos alternativos” (alternative facts). Não se tratava de um lapsus linguae

Umas horas antes, quando começou a chover durante a cerimónia de tomada de posse, o próprio Trump tinha respondido com simplicidade: “Não está a chover”. O homem mais poderoso do mundo dizia que não chovia debaixo da chuva, e milhares de pessoas que se tinham abrigado debaixo dos guarda-chuvas começaram a fechá-los - o que revelou uma lealdade que já não vinha da convicção, mas de algo mais sinistro: a rendição. 

Nascia a era da pós-verdade.


Máriam Martínez-Bascuñán explica como, em menos de uma década, esse mundo que então nos pareceu delirante se tornou familiar. “Já não pensamos; alinhamo-nos. Já não argumentamos; partilhamos. Já não duvidamos; confirmamos. Mentir de forma indiscriminada já não tem como objetivo fazer com que as pessoas acreditem numa mentira específica, mas sim fazer com que ninguém acredite em nada.” A disputa sobre a verdade tornou-se uma batalha simbólica e emocional, e “nessa colisão entre um povo que já não acredita e umas elites que já não ouvem, a própria verdade tornou-se irrelevante”.

Excertos do artigo de Andrés Barba, hoje no El País a propósito do livro "O fim do mundo comum. Hannah Arendt e a pós-verdade de Máriam Martínez-Bascuñán

domingo, 21 de setembro de 2025

Deus, Pátria, Trafulhice


Do jornalista Miguel Carvalho li o livro Quando Portugal Ardeu sobre o pós 25 de Abril, e das organizações de extrema-direita que andavam a colocar bombas nas sedes do partido comunista, que mataram, por exemplo, o padre Max da UDP. Entretanto publicou outros livros e regressa agora com um livro com mais de setecentas páginas sobre os bastidores do CH. 

"Esta é a investigação que revela a face oculta do Chega.

Com recurso a milhares de páginas de documentos inéditos e largas dezenas de entrevistas exclusivas com fundadores, financiadores, atuais e antigos dirigentes e militantes, Por dentro do Chega é, sobretudo, um retrato do partido por aqueles que o criaram e o fizeram. Sem filtros."

Na promoção ao livro pude ler duas reportagens, uma na Visão e outra no Jornal de Notícias e são alguns desses excertos que aqui deixo, para abrir o apetite para quem quiser comprar o livro ou, em alternativa, a revista Visão ou o Jornal de Notícias de hoje. Comecemos pelo Jornal de Notícias:


BORRADINHOS DE MEDO

"Dos financiamentos escondidos às gravações telefónicas secretas para entalar rivais internos, esta investigação mostra como André Ventura patrocinou exércitos de perfis falsos e purgas internas para criar um Chega unipessoal que sustenta as ambições desmedidas, as vidas abastadas e as madrugadas de copos dos seus mais reputados dirigentes. Pelo meio há guerras religiosas, filiações de imigrantes brasileiros em massa e a tentativa de corrupção de um ministro de Cabo Verde.

"André Ventura e a mulher, Dina, mais um punhado de dirigentes de topo do Chega, numa lancha rápida de Lagos até à cidade marroquina de Tânger, que seria a ponte até ao exílio na Costa do Marfim. O objetivo era Ventura fugir à prisão e contornar, na clandestinidade, a já sentenciada ilegalização do partido em plena pandemia. É com esta insanidade coletiva que começa o livro “Por Dentro do Chega”.

A fuga para Tânger nunca chegou a acontecer, mas o plano existiu e André e Dina chegaram mesmo a refugiar-se “borradinhos de medo” na quinta de luxo de Arlindo Fernandes em Lagos, segundo contou este empresário admirador de Salazar. Arlindo Fernandes subiu a pulso no Chega, mas, como muitos, desencantou-se quando viu um partido podre (...)


O Chega foi fundado em 2019 para “limpar Portugal” e adotou, em 2021, no Congresso de Viseu, o lema de Salazar “Deus, Pátria e Família”, ao qual acrescentou “Trabalho”. A fuga para Tânger é exemplo de como os primeiros três anos seriam encharcados de boatos que eram gasolina para a guerra civil interna. Os telemóveis eram a principal arma e Ventura acabou com a rédea solta. Decretou que quem dissesse mal dele ou do partido, em público ou privado, seria suspenso.


ESFARRAPAR A OPOSIÇÃO INTERNA


"Para agilizar as expulsões sem contraditório, Ventura criou a Comissão de Ética liderada pelo deputado Rui Paulo Sousa que suspendeu ou expulsou mais de 100 militantes, quase todos opositores internos. “Havia decisões tomadas antes de as analisarmos”, revela Carlos Monteiro. Ao fim de dois anos, o Tribunal Constitucional declarou a Comissão de Ética ilegal. Mas o objetivo de esfarrapar a oposição interna já estava alcançado.

Miguel Carvalho não tem “qualquer dúvida” que esse será o trato a dar às oposições se Ventura chegar ao poder. “No Congresso de Coimbra, uma das declarações que ele faz, naquela estratégia de namoro/arrufo com o PSD, é que queria ter quatro pastas e uma delas era o Ministério da Administração Interna. Um partido com estas práticas que tome conta do MAI, ainda que seja só essa pasta, é absolutamente assustador. Nós estaríamos perante a concretização de um Ministério do ‘Big Brother’”

CASOS E CASINHOS

"Muitos dos que se envolveram no Chega, financiadores ou não, desencantaram-se com o partido. Mais de metade dos vereadores eleitos deixaram de se rever na estratégia. Entre os vários entrevistados há sempre um aspeto comum: o Chega pratica dentro de portas aquilo que promete combater fora delas.

Um vasto rol de “casos e casinhos”

Aos vários “casos e casinhos” já conhecidos, Miguel Carvalho junta-lhe outros como o da fatura que Pedro Pinto deixou por pagar nos Bombeiros Voluntários de Beja, a da pensão de alimentos que Rui Paulo Sousa prometeu pagar quando fosse eleito deputado, a das dívidas que Diogo Pacheco de Amorim tinha quando entrou no Parlamento. Vários dos 60 atuais deputados do Chega estavam na lista negra do Fisco poucos dias antes de serem eleitos e outros refizeram a vida com a entrada para o partido.


Entre os mais próximos de Ventura não faltam cadastros iguais aos bandidos que o líder garante combater, sem que os expulse, como promete. Hélio Filipe, que é militante do Chega, guarda-costas de André Ventura e namorado de Rita Matias, foi condenado a dois anos de pena suspensa por espancar e roubar um homem. No mesmo processo, não foi provada a acusação de sequestro e extorsão. Na semana passada, foi o segurança pessoal de Ventura na incursão pela manifestação de imigrantes.


Enquanto controlou as despesas do cartão de crédito do partido, Nuno Afonso contabilizou abastadas refeições para Ventura e os seus mais próximos, com digestivos “à la carte” e estadias em hotéis, além de um carro topo de gama para uso do presidente. As noites de copos em casas de meninas eram conhecidas. Na sede, as noitadas eram umas atrás das outras. “Era um cenário típico de final de noite num bar de terceira categoria”, descreveu Nuno Afonso, também ele autor de um livro sobre os bastidores do Chega (“Ontem éramos o futuro”, 2025).


À “Notícias Magazine”, Miguel Carvalho distingue o eleitor do Chega dos seus dirigentes, pois o partido cresceu à custa de quem se desacreditou ou se sente abandonado pelo sistema político-social e pelos serviços públicos básicos como os CTT, a escola ou o centro de saúde: “Se houver um político que não se cinja às redes sociais e for por esse país fora, de porta a porta, fazer um esforço descomunal, para ouvir e tentar perceber, e que seja absolutamente fiel à palavra dada, aí o Chega não terá grandes hipóteses, nem com redes sociais”.


Até lá, Ventura será o que as massas quiserem que ele seja, como demonstra Miguel Carvalho. Qual camaleão que sempre aparece para salvar as almas do caos das circunstâncias, algumas de fabrico próprio. Ele é, se for preciso, o seminarista mais promissor que deixou de ser padre porque encontrou o amor; o dedicado académico progressista, preocupado com os direitos humanos, que se distingue na sala de aula para agradar aos professores; o mais zeloso inspetor do Fisco e combatente dos paraísos fiscais que mais tarde lhe vão pagar a campanha; o humanitário cronista de jornal que apela a que se acolha “o maior número possível de migrantes” (2015); o enraivecido megafone dos benfiquistas em horário nobre na CMTV; o messias dos crentes, católicos ou evangélicos; o farol dos desencontrados".


REVISTA VISÃO:


"Finalmente, o Chega contrata o alugar de um Renault Talisman 1.5 dCi Zen por 36 meses, para o serviço do líder, a 400 euros mensais. Fernanda Marques Lopes, primeira presidente do Conselho de Jurisdição do partido, viu-o chegar com Luc Mombito (funcionário do Chega) ao volante. “Olha lá, André, compraste um carro para o partido?” O líder explicou: “É renting.” Mas a advogada insistiu: “E o conselho de auditoria não tem de saber?” O líder, sempre, ao longo do livro, e em diversos episódios, com pouca tolerância ao escrutínio interno, começou a impacientar-se: “Sou presidente, posso comprar o que me apetecer, não vou pedir autorização para comprar uma mesa ou um carro!”


SEMPRE A MENTIR


A fuga para a frente, sempre que Ventura é questionado, reflete-se também nos grandes temas. Ainda na semana passada, depois de ser desmascarado na “gaffe dos hambúrgueres”, contra-atacou, falando – mais uma vez, falsamente, como ficou demonstrado – de mais de 1500 viagens do Presidente Marcelo ao estrangeiro. Condenado por difamação no caso da família Coxi (do Bairro da Jamaica, a quem chamou “bandidos”) com sentença confirmada nas instâncias superiores, já após recurso, disse, na AR, em outubro de 2024: “Fui a tribunal sempre que me acusaram de difamação, racismo, discriminação. Venci em todos os processos.” Como sempre, estava a mentir.


Jornal PÚBLICO:


Chega: sexo, mentiras e Deus




Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo (...)

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.


Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho detalha as relações de Ventura com magnatas dos media (Marco Galinha e Mário Ferreira), com vendedores de armas, industriais e donos das maiores herdades do país. E, ainda assim, é visto como o político que quer acabar com o “sistema”. Nas páginas de Miguel Carvalho, constatamos que grande parte dos dirigentes, deputados e financiadores do Chega são investidores e negociantes de imobiliário. O preço das casas bate recordes e cria uma crise social profunda, mas o Chega é o partido que mais sobe nas eleições. O próprio André Ventura, imediatamente antes de se dedicar à política, aconselhava candidatos a vistos gold em negócios de compra de prédios. “Ventura provou que não é anti-sistema, é o próprio sistema”, critica uma antiga candidata do Chega em Braga.

(...)

Miguel Carvalho recolheu depoimentos que ilustram este fervor escatológico em Lisboa. A senhora que limpava a sede do partido revela que “por vezes a sede parecia uma taberna! Rasca! Enfrascavam-se de uma maneira… Se esta gente governasse o país, eu emigrava…

CORREIO DA MANHÃ

“Ventura parece ter um beliche nos estúdios de TV”



O Chega esteve envolvido em polémica desde a fundação. O livro explica, com testemunhos em ‘on’, o caso das assinaturas falsas para a constituição do partido. Face às evidências, porque é que este processo foi arquivado?

Não sou eu que devo explicar isso. O Ministério Público fez as suas diligências. E o processo acabaria arquivado, não como o Chega diz, mas apenas porque não se conseguiu identificar a pessoa que decidiu isto tudo, o autor dos crimes. Mas as assinaturas falsas existiram. Estranho, diria até escandaloso, é que André Ventura foi identificado como a pessoa que recolheu grande parte das assinaturas, que pagou a recolha das assinaturas, mas nunca foi ouvido no inquérito.

Há mais casos polémicos no livro...

Sim, e alguns, na minha opinião, têm relevância criminal. Como o das gravações ilegais no partido, por exemplo. Ou como foi feito o financiamento do partido, descrito por pessoas que estavam no centro da ação política do Chega. Mas, lá está, não sou eu que devo fazer essa avaliação. O livro está à venda ao público (...)

A questão das gravações só agora foi conhecida...
É, para mim, a questão mais grave. As gravações ilegais no partido terão surgido para afastar opositores internos. Não sei se as práticas continuam, mas, até 2021, foram feitas, colocando militantes contra militantes, dirigentes contra dirigentes, com a cumplicidade dos dirigentes nacionais. Perante estas práticas, pergunto: como será, amanhã, se o Chega for governo, se tomar conta do Ministério da Administração Interna?

Em 2020, muitos achavam que as minhas preocupações eram distopia. Agora, acho que isso é verosímil. Para mais, quem governa adotou, em parte, a agenda do Chega em vários temas. A AD quase se tornou o braço político do Chega. E o Chega quase se transformou no “braço armado” da AD. O partido de André Ventura anda a promover políticas que, a seguir, a AD vai aplicar. É um sucesso para o Chega.

No livro, critica a forma como a comunicação social levou Ventura ao colo...

Quase parece que Ventura tem beliche nas redações e estúdios das TV. Há uma espécie de “SOS: Chama o Ventura!” quando as audiências estão em baixo.

Hoje há grupos (como o 1143 de Mário Machado) que se sentem legitimados pelo discurso do Chega

E, para mais, isso é masoquista. O Ventura, várias vezes, faz ‘bullying’ aos jornalistas e à própria estação, transformando esses momentos em clips para as redes sociais. É algo que só se explica com o esboroar dos critérios editoriais dos media portugueses.


Acha que o Chega contribuiu para normalizar o discurso de ódio em Portugal?

Claramente. As pessoas começaram a perceber que este discurso de ódio era ‘mainstream’. Dizem: “Se há mais 10, 100, mil pessoas a dizê-lo, então, eu também posso dizer, não devo estar errado.”


No último capítulo do livro, descreve como o Chega é o partido mais popular entre os jovens. É preocupante?

Sim, mas, há uns anos, muitos jovens também achavam que era ‘cool’ ser do BE - que, atenção, tem um projeto político muito diferente do Chega, progressista e humanista –, também por razões disruptivas. No caso do Chega, importa destacar o papel da Rita Matias, que deu muitos seguidores e eleito- res jovens ao Chega. O Ventura e a Rita Matias fazem uma dupla que funciona bem, com aqueles vídeos nas redes sociais, fanaticamente consumidos pelos miúdos. E sempre que a Rita Matias visita uma escola, os alunos entram em ebulição – atrai os filhos das elites, mas também jovens de origens humildes, com um discurso simples, básico, por vezes mentiroso, mas que “entra” muito facilmente (...)


Também há sinais positivos. O que se tem revelado nas escolas é que as miúdas, de forma geral, são menos permeáveis às narrativas do Chega. Regra geral, conseguem refletir mais sobre certos temas – como a sexualidade, feminismo, violência, etc... –, são mais maduras, agem menos em grupo, têm capacidade para pensar pela própria cabeça. Muitas pessoas que trabalham nas escolas acham que este é o caminho para combater o extremismo: o futuro pode começar pelas mulheres.


NOTÍCIAS AO MINUTO



"Um grupo de dirigentes reuniu-se numa casa, em Setúbal, elaborou um documento com imensas perguntas – creio que até ultrapassava a centena – enviadas à direção, em que se questionava o financiamento, o que é que o partido fazia ao dinheiro, porque andavam sempre em jantares e em viagens. Aliás, as pessoas que se reuniram ameaçaram enviar aquilo para o Ministério Público (MP). A ideia de que o partido podia ser investigado e ilegalizado a qualquer momento, ou por supostos financiamentos externos, ou por ter no seu seio várias pessoas que eram oriundas de movimentos neonazis e mais violentos, criou um clima de absoluta paranoia que o Chega vai explorando até aos dias de hoje. O próprio Ventura várias vezes aludiu a situações ou episódios em que achava que o objetivo dos poderes, sejam eles quais forem, era miná-lo, porque ele luta contra o sistema. A ideia de que o partido está permanentemente sob vigilância do regime, à espera de um pretexto para o eliminar, também ajudou a unir internamente, com o tempo.

É a receita de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, e viu-se agora também na questão dos hambúrgueres… Onde é que isto nos deixa enquanto jornalistas?

É uma resposta para uma tarde. Achámos, de uma forma geral, que isto nunca nos aconteceria. O próprio António Guterres tinha dito, uns anos antes da eleição de André Ventura, que o populismo nunca venceria em Portugal, porque tínhamos uma tradição imune a isso. Cá estamos. A própria fragilidade da generalidade dos órgãos de informação em termos de recursos humanos, técnicos e financeiros – para mim o pior período do jornalismo em democracia, e já passámos por muitos – não permite ter jornalistas disponíveis, como era normal na fase pré-Internet, a acompanhar quotidianamente um determinado partido, criando fontes, com tempo, confiança. É verdade que não tínhamos um partido como este. Tivemos o Partido Renovador Democrático (PRD). No início, em 1985, também veio com um discurso muito moralista, a falar de cima da burra, como se costuma dizer, em relação ao regime, mas o PRD era profundamente democrático nas suas práticas, e até na sua postura na Assembleia da República. Portanto, achámos que não nos aconteceria, estamos frágeis para acompanhar, estávamos já na altura bastante permeáveis a tudo o que gerasse fogo nas redes sociais e fosse disruptivo. Não parámos para pensar e foi lenha que juntámos.

Quando comecei a acompanhar o Chega, já tinha feito uma reportagem, que também está no livro, por alturas do fracasso do Basta, com jovens de alguns movimentos de extrema-direita, nacionalistas, identitários, a quem Ventura não dizia grande coisa. Eram jovens, dentro daquela área ideológica, bem estruturados, com ideias muito firmes em relação a determinados temas, e isso despertou-me para o Chega. Quando Ventura é eleito, aí sim, dedico-me [ao Chega], mas eu era um privilegiado. Estava numa revista [a Visão] que, apesar de já estar na sua fase descendente, dava-me três meses para andar entretido com aquilo, sem pensar em mais nada. Fazia algumas coisas pelo meio, mais urgentes, mas, quando acabava esse trabalho para a edição X, voltava ao Chega. Quando me perguntaram se queria ficar com isso, eu disse, 'ok, mas preciso de três meses; quero almoçar com eles, quero jantar com eles, quero conhecer isto'. Comecei a ir a tudo o que era eventos. Depois, veio a pandemia. Mantive os contactos telefónicos, mas já com alguma dificuldade, porque alguns não queriam falar ao telefone; estavam paranoicos que o Governo podia ouvir, coisas assim. Retomei quanto a pandemia abrandou pela primeira vez e isso foi absolutamente essencial para chegar a este livro. Na altura, sobretudo a partir da eleição de Ventura, já o Chega começava a contaminar os jantares de família e de amigos, e toda a gente falava disso. Levei muito nas orelhas, não só de colegas, mas de pessoas que acompanham a realidade política, que diziam, 'estás tolo, daqui a uns meses a malta vai perceber que isto não faz sentido nenhum e acaba já ao virar da esquina'. Viu-se.


LA VANGUARDIA:

"Como se fosse um estagiário de si próprio, Miguel Carvalho (Porto, 1970), um dos mais reconhecidos jornalistas portugueses, passou cinco anos a acompanhar o dia a dia do partido do xenófobo André Ventura. Nesta conversa, feita por escrito e por telefone - fruto também de 17 anos de relação pessoal -, enquanto percorre o país, explica que as apresentações do seu livro "Por Dentro de Chega – a face oculta da extrema-direita em Portugal" têm um caráter de terapia coletiva. Em menos de dois meses vendeu 16.000 exemplares de um livro de política com 700 páginas, num país em que o limite do sucesso editorial ronda os 6.000. Será pela magia da Galiza, que tanto adora?

Parece-me tudo um pouco irreal. Creio que a obra interessa porque aborda o fenómeno Chega, e não tanto a figura do seu líder. Há quem o veja como uma espécie de livro de autoajuda, um guia para lidar com familiares ou amigos que votam na extrema-direita.

O que responde a quem lhe pergunta “o que faço, a minha parceira tornou-se chegana”?

Digo que no livro há ferramentas para tentar compreender e semear dúvidas. Dá pistas, mas não é uma solução. Só a estabilidade política - que não existiu, com três eleições legislativas neste quinquénio - e a resolução de problemas estruturais deixarão o Chega sem oxigénio. O partido nasce do descrédito das instituições e dos políticos. Foram eles que criaram esse território de esquecimento e ressentimento, ao encontro do qual Ventura soube ir.

O jornalismo político de Lisboa é de melhor qualidade e menos sectário do que o de Madrid, mas fez de Ventura um gigante quando ainda era um pigmeu.

Assim é. Mas o jornalismo português atravessa a pior crise da democracia, com redações minúsculas e precárias. Sucumbiu à espuma do espetáculo de um líder habituado ao sensacionalismo, fruto da sua experiência televisiva no futebol - como comentador do Benfica - e nos programas de crime. Fizemos de idiotas úteis ao serviço de um discurso que não devia ser notícia, por ultrapassar todos os limites legais.

Não é algo que aconteça só em Portugal.

É verdade, mas nós - uns de forma inconsciente, outros de propósito - quando ele tinha apenas um deputado, demos-lhe um protagonismo muito superior ao que lhe correspondia. Ele sabia como gerir o ruído e contava com o apoio de poderosos interesses económicos. A imprensa enfrenta o Ferrari da extrema-direita com uma bicicleta.

A “futebolização” da sociedade é um terreno fértil para a extrema-direita?

Claro. Em Portugal vê-se com nitidez. Quando a típica discussão tribal do futebol tomou conta das redes sociais, Ventura já a dominava como ninguém.

Um dos seus interlocutores do universo Chega chama Ventura de “Hitlerzinho”, e o livro começa com uma citação do líder nazi. Há um risco totalitário em Portugal?

O Chega é um perigo evidente para a convivência e para os pilares da democracia. O seu líder viola a Constituição todos os dias, com um discurso de ódio, racista e xenófobo. No partido, por exemplo, existem práticas criminosas, como o uso de gravações ilegais como instrumento de coerção interna.

O que sentiu quando o ouviu proclamar em Madrid o seu orgulho pela caçada de Torre Pacheco?

Nada de novo. Apela constantemente à violência simbólica, que por vezes se traduz em ameaças reais e violência física.

Como explica que Ventura tenha transformado ele próprio a sua subida nas autárquicas num fracasso?

Foi devorado pelo seu maior trunfo - a sua condição de catarata mediática -, que o levou a precipitar-se ao anunciar que conquistaria 30 câmaras. Obteve apenas três, mas expandiu-se por todo o território com um bom resultado, que lhe dá a chave da governabilidade em muitos locais. No entanto, arrisca-se também a confirmar e amplificar a perceção de que o Chega não serve sequer para gerir municípios.

Pode chegar a primeiro-ministro, ou o balão está a esvaziar-se?

Já não é uma distopia, como parecia há cinco anos, mas não me parece provável. Se a legislatura fosse interrompida após uma eventual queda do atual governante, Luís Montenegro, teria alguma hipótese.

Porque é que Ventura se candidata às presidenciais de janeiro?

Procura chegar à segunda volta para acumular mais força - graças à sua habilidade mediática - com vista a chegar a primeiro-ministro.

O que representou para si estar cinco anos embutido na extrema-direita?

Contaminou toda a minha vida, para o bem e para o mal. Não me arrependo. Desde o início quis ouvir e tentar compreender, seguindo o caminho que Hannah Arendt nos traçou.