domingo, 26 de março de 2023

Reerguer das Cinzas


"From the Ashes" - Crypta (2021)

Vossos Lucros = Nossa Morte



É notícia do Jornal de Notícias deste domingo e informa que Ativistas do movimento Parar o Gás invadiram ontem a Central da Tapada de Outeiro, em Medas (Gondomar) para colocar faixas de protesto, numa das torres, contra o consumo de gás fóssil. “Parar o gás” e “Vossos lucros = Nossa pobreza”.

Eu substituía "nossa pobreza" por "nossa morte", mas os ativistas, provavelmente, não vivem em Medas.

(Há muito que estou para contar a história da construção desta central e fui inclusive à biblioteca pesquisar em jornais e tenho alguns documentos, mas ficará para outra altura. Contudo posso dizer que todos podemos agradecer esta prenda de morte ao senhor Valentim Loureiro)

sábado, 25 de março de 2023

Conversas Improváveis (75) - Namorado Não Praticante

A propósito da religião e de muita gente dizer que é não praticante (seja isso lá o que for) sai-se o meu colega de trabalho com esta:

"Eu não sou ex-namorado, sou namorado não praticante"!




Três Anos de Pandemia

Fez neste mês de março três anos desde que foi sinalizado o primeiro caso de coronavírus e que foi, dias depois, declarada pandemia de COVID-19. Passaram três anos, ainda é obrigatório o uso de máscara nos locais de saúde e eu ainda nem sequer comprei uma máscara personalizada. 




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sexta-feira, 24 de março de 2023

Ou Te Portas Bem ou Ponho-te a Estudar na Universidade!



Há umas décadas, quando eu andava na escola, muitos pais avisavam os filhos que, ou estudavam e passavam de ano ou metiam-nos a trolha. 

Hoje em dia, em que se paga tão maus salários a quem andou a fazer o sacrifício de ter passado tantos anos a estudar, que a coisa mudou.

Agora os pais advertem os filhos:

"Ou te portas bem ou meto-te a estudar numa universidade e irás viver miseravelmente, sem dinheiro sequer para comprar uma casa".

E agora mais a sério, é por isto que os jovens emigram, por cada vez mais no nosso país - como eu próprio já aqui tinha abordado o assunto - muitas vezes não compensa fazer um curso superior e a dificuldade dos jovens em fazer face do aumento do custo de vida, nomeadamente, em sair de casa dos pais, conseguir casa e ter uma vida mais ou menos condizente com todos os anos que se passou a estudar na esperança de ter um futuro mais risonho.

É por isto que os jovens emigram e não por causa da cassete neoliberal dos impostos. 

quinta-feira, 23 de março de 2023

Ela é um Salmo Ardente

"Red hot is her inclination
I beg incineration
She came dancing from the flame
Burning with dark inspiration
She is a fire"


"She is a Fire" - Cradle of Filth (2023)

domingo, 19 de março de 2023

"Posso Parecer Rude e Asqueroso Mas Sou Central"

 


Ouço dizer que os jovens têm hoje uma linguagem diferente e isso nem tem que ser necessariamente mau. Diferente é usar outras palavras, diferentes das que eu usava quando era jovem. 

Mas hoje deparei-me com este insólito na capa da Notícias Magazine: "Posso parecer querida e fofinha, mas sou periférica". 

Eu não faço ideia quem é a Bárbara Tinoco e talvez por isso não li a entrevista. Mas aqui não há qualquer contexto. A frase é o que é. 

Até me dei ao trabalho de ir ao dicionário para perceber se me estava a escapar algum sinónimo. Mas não. Periférico é o oposto de central. Uns privilegiados vivem no centro das cidades, outros na periferia. 

E, a seguir a um "mas" tem que vir uma ideia contrária. "Eu não sou racista mas (e depois lá vem a explicação para mostrar que afinal até é!). 

Afirmar: "Posso parecer querida e fofinha mas sou periférica", seria o mesmo que eu dizer "Posso parecer rude e asqueroso mas sou central". Que na verdade não quer dizer nada! 


Só os Mais Conceituados Gestores Podem Levar um Banco à Falência

* Artigo publicado hoje na Folha de São de Paulo por Ricardo Araújo Pereira

"E cá estamos novamente. O sistema financeiro opera sem freio nem regulação, dois ou três bancos vão à falência, o Estado intervêm para evitar o efeito de contágio, os bancos falidos prometem se comportar e, uns anos depois, começa tudo outra vez.

E cá estamos novamente. O Silicon Valley Bank, o Signature Bank e o Credit Suisse estão em dificuldades. O mais fascinante, para mim, é a frequência com que bancos caem. O negócio dos bancos é infalível. Trata-se de comprar dinheiro barato e vendê-lo mais caro. Eles comercializam um produto de que todo o mundo gosta e que não estraga. Nunca ninguém foi ao banco dizer: “Desculpem, estas notas são da semana passada. Este dinheiro não está fresco”. Nunca.


Os bancos são administrados por pessoas que estudaram nas melhores universidades e usam as melhores gravatas. É gente inteligentíssima a gerir um negócio seguríssimo. Ainda assim, os bancos vão à falência constantemente.


No entanto, há bastantes sinais de que os bancos são administrados por gente superior ao mortal comum. Quando o mortal comum vai à falência, ele vai à falência. O banco é recapitalizado.

Não é uma ajuda: é uma recapitalização. Ajudas são para pobres, que não conseguem se governar. Esses devolvem a ajuda com juros dolorosos, para não se esquecerem do que fizeram. Mesmo que alguém quisesse, não poderia recapitalizar um pobre, porque ele nunca teve capital para começar.


O ramo mais atraente para quem quer construir uma carreira de sucesso é ser proprietário de um banco falido. Enquanto o banco não vai à falência, os acionistas retiram todos os benefícios que ser banqueiro oferece; quando vai à falência, não suportam nenhuma das desvantagens de falir - o Estado toma conta de tudo.


Quem deve R$ 5.000 pode ter problemas: intimações, tribunais, penhoras. Quem deve R$ 5 milhões, em princípio, está mais à vontade. Se você contrair empréstimos, já sabe: o segredo é apontar para cima.

Para os devedores, aplica-se o mesmo princípio de mérito que rege o resto da sociedade: os maiores e mais talentosos têm mais dinheiro e prestígio.


Eu teria todo o gosto em fundar um banco falido. Desgraçadamente, não tenho curso de economia ou gestão e temo que a minha falta de preparação técnica me levasse a criar um banco bem-sucedido e próspero. Só os mais conceituados e bem pagos gestores parecem ter a capacidade para conduzir um banco estrondosamente à bancarrota.


Os Marxistas Ignorantes do PSD

"Às vezes eu tenho a sensação que as pessoas têm pouca memória. Os próprios partidos não lhes convém lembrar certas coisas. Só quero dizer uma coisa muito simples: o arrendamento forçado está na legislação portuguesa desde 2014 pela mão do PSD. E ninguém nessa altura invocou a constitucionalidade dessa norma".

É muito divertido ver os partidos que defendem os mais ricos, berrar e espumar pela boca e chamar os outros de Bolcheviques, ironicamente, leis que foram eles mesmos (PSD) que as aprovaram. Aconteceu quando falaram contra o IMI que agravava casas com exposição solar (esquecendo-se que essa lei tinha sido aprovada por Durão Barroso) ou quando berraram contra o "imposto Mortágua" (apesar da senhora nunca ter sido governante) e que pretendeu taxar os mais ricos, quando Passos Coelho em campanha eleitoral defendia precisamente o mesmo. Há uma clara falta de vergonha na cara de muito político. 



domingo, 12 de março de 2023

Como é Lindo Portugal com 75% de Analfabetos

Escrevia ontem Hélder Pacheco no JN:

"Em 5 de Fevereiro de 1927, no jornal "O Século", D. Virgínia de Castro e Almeida, autora de obras de literatura infantil e juvenil, escreveu: "(...) Aprenderam a ler! Que lêem? Relações de crimes; noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda subversiva. Largam a enxada, desinteressam-se da terra e só têm uma ambição: serem empregados públicos. Que vantagens foram buscar à escoºla? Nenhuma. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos".



1927 foi o ano da graça do nascimento do meu avô materno e um ano antes, a 26 de Maio o golpe de Estado que manteve o país sob o jugo de cinquenta anos de ditatura fascista católica. 

É curioso que, tantos anos se passaram, mas ainda hoje, em pleno século XXI, muitos ainda acham que a escola é uma perda de tempo. Passos Coelho reintroduziu o exame da 4a classe, porque o que é preciso é fazer a instrução primária e depois ir trabalhar, porque o trabalho dignifica, mas dignifica especialmente os pobres (de quem dizem que será o reino dos céus, melhor ainda se forem abusados pelos padres). Já as crianças filhas de papás ricos, essas não! Deus nosso senhor nos livre e guarde que se misturem com os pobrezinhos! Assunção Cristas, ministra e ex-líder do defunto CDS que "tem horrô à pobre", até dizia que vestia calças de ganga e botas só para ir visitar os bairros sociais porque uma pessoa quando se mistura com pobres ainda apanha uma doença venérea!

Cavaco Silva, introduziu as propinas na universidade e e criou a PGA, uma espécie de exame para limitar o acesso ao ensino superior (mais ou menos como ainda hoje as Ordem profissionais fazem para travar quem termina a universidade formado) e o CDS defende o recuso do ensino obrigatório para o 9ºano de escolaridade ao mesmo tempo que, sem se rir, defendeu que quem pode pagar deve poder meter os seus filhos na universidade. 

Vivemos tempos em que os responsáveis políticos de direita espumam pela boca com as aulas de cidadania como continuam a espumar contra tudo que seja aulas de educação sexual. 

No fundo, para uma certa elite burguesa portuguesa, no passado como ainda hoje em dia, lindo é um país analfabeto onde só os privilegiados tenham acesso a oportunidades. 

quinta-feira, 9 de março de 2023

A Americanização dos Serviços de Saúde Europeus em Curso II


 "As salas de espera de um hospital público são lugares capazes de esboçar o mundo, de como se organiza um mundo, uma comunidade, de como se cuida, quais vidas adoecem e esperam e quais não transitam porque não podem ou simplesmente têm saúde de ferro , boa genética, alimentação saudável, vida tranquila e provavelmente assistência paga.

Quando neles esperas e observas, pode acontecer que de repente o que é habitual te apareça com outra face, como se o que contraditoriamente visível a todos nem sempre se visse e precisasse de uma pausa, de uma respiração lenta. Então a revelação pode vir como um som violento. É assim que o filósofo Gilles Deleuze se refere à passagem de uma percepção sensório-motora para uma percepção óptico-sonora. Dizia-o aludindo ao filme Europa 51 de Roberto Rossellini quando o protagonista, ao olhar (como noutras ocasiões) para as condições de trabalho numa fábrica, sentiu-se atravessado por "um som excessivamente violento", como "um raio visual que muito forte", algo que estava ali sem ela ter visto antes e de repente ficou "o intolerável, o insuportável".

Nesse caso, o som veio de uma enfermeira sussurrando para o médico estagiário: "Não podemos gastar mais de cinco minutos com cada paciente ou vamos colapsar". Foi um raio muito forte. Eu havia saído da enfermaria lotada e estava ao lado do médico. Ele sentia que queria me ajudar, mas a pressão de fora dificultava a troca de conselhos comigo, uma empatia ampliada em um “estou a ouvir, diga-me você como está e como está progredindo”. Não podia. Ela estava tão estressada quanto eu e o maquinário nos tornava engrenagens. A angústia continuou na volta como quem recebe o veredicto de um diagnóstico do que não pode ser tratado ou discutido. “- Mas… - Tem que passar ao próximo. -Mas... - “Tem que passar ao próximo”. E foi feito um loop sentindo o risco de ser dado por perdido. A eles médicos que procurarão outros destinos, a nós como doentes que estão levando a um desligamento programado.

Ultimamente passo muito tempo nestas salas de espera em Madrid. Eu tenho várias doenças e uma dessas chamadas "órfãs" que te tratam diferentes partes do corpo (...)

No entanto, devo dizer que minha experiência anterior é diferente. Passei grande parte da minha vida nas salas de espera do sistema público de saúde da Andaluzia, não para tratar as minhas doenças recentes, mas para acompanhar outras pessoas. Tenho imensas dívidas de gratidão com as pessoas que cuidaram de nós lá. Nos últimos 30 anos, esta saúde pública salvou o meu pai de três cancros, operou a minha mãe várias vezes e acompanhou-nos na doença e morte da minha irmã, dando tudo. 

Quando cheguei a Madrid, há alguns anos, fiquei surpreso ao ver que a maioria tinha seguro de saúde, embora achasse uma opção positiva poder escolher. Não demorou muito para que essa percepção mudasse ao constatar que não és tu quem escolhe, que pode ou não ser escolhido, aceite ou não pela seguradora. Para quem pode, começa como opcional e termina como obrigatório. Asim também se normaliza e cultiva a desigualdade. Enquanto a saúde pública cai no poço, primeiro por abandono, depois por saturação.

Começamos com seguros privados para complementar alguns serviços médicos que não são rapidamente cobertos pelo público, como ginecologia ou oftalmologia. A utilização aumenta paralelamente às listas de espera do público. As taxas aumentam à medida que a idade avança e as doenças aparecem ou pioram. Mas chega um momento em que uma taxa tão alta não pode ser paga ou a seguradora não renova diretamente o contrato porque considera que tens mais doenças do que o lucro que dás. Não te esqueças que para eles tu és um doente, mas acima de tudo és um negócio, e se tens cancro, diabetes, uma deficiência, uma doença crônica ou simplesmente estás velho, és despejado desse sistema privado, a menos que pagues as altas contas dos exames e tratamentos como uma pessoa rica. 

Tu lembras-te daqueles filmes americanos em que obter um plano de saúde é a chave para uma vida tranquila ou para uma escolha profissional? Ninguém nos disse que era o nosso futuro e em muitos lugares da Espanha é o nosso presente. Alguns acreditam que poderão ter esses seguros pelo resto de suas vidas, mas não. Por isso, a revelação tem uma segunda parte, na qual tu e eu nos encontraremos nas salas de espera. Quando o seu cancro ou aquela outra doença não for rentável para a seguradora e eles te encaminharem para a saúde pública. Não te surpreendas se os médicos deixaram a cidade ou o país porque não eram bem pagos, discordavam das intermináveis listas de espera ou a exceção para nos atender em cinco minutos que se tornou regra.

Para que essa revelação de um futuro possível não aconteça, a mobilização social que nasce de parar para pensar nesse risco e agir solidariamente é a nossa esperança. Proteger e curar a saúde pública é cuidar de ti e de mim. E não me estou a referir a soluções temporárias ou sensacionalismo eleitoral. Precisamos mudar de rumo, cuidar desse tesouro como solo social que garante nossa saúde, ouvida, atendida com um tempo humano, financiada.

Madrid são muitas Madrids, mas para viver naquela que aparece nos anúncios é preciso ter um andar garantido onde se cuide do corpo doente. Essa intra-história não centrada nas belas esplanadas e festas que aqui podemos desfrutar precisa de nós vivos; e aos políticos que descem dessa arrogância que os obscurece em não perceberem o recado enquanto passam os serviços públicos às empresas de quem lucra com a saúde, que não deveria ser um negócio.

Assumimos que a saúde pública estará sempre presente, mas a sua deterioração tem sido tão progressiva, tão silenciosa, que nos põe em causa quando é o pulmão do nosso país, o tesouro que nos tornou mais iguais do que tudo o que este setor público tem propósito. "Tu não podes gastar mais de cinco minutos ou vamos colapsar." E esta frase torna-se o futuro para o resto do país se esta inércia não for alterada.

A demografia e os dados indicam que sim. Em breve seremos tantos doentes e idosos que precisamos de uma saúde pública forte. Não se trata de uma medida específica, trata-se de construir uma política que cuide dos cuidados e da saúde, que nos permita viver e ser, trata-se de parar de normalizar o intolerável: a saúde como negócio.

A saúde pública é posta em causa quando é o pulmão do país, o tesouro que nos tornou mais iguais.

Remedios Zafra / El País / 6 de Março 2023

domingo, 5 de março de 2023

As Fotografias que me Pediste para Apagar


 Não é assim que se começa, mas, sinceramente, acho mesmo que nem sei por onde começar. Faz tanto tempo.... E logo eu que escrevo (e falo) como um soldado com uma metralhadora descontrolada. Mas tenho andado tão desgastado, físico e mentalmente, que pouco ou nada tenho escrito nos blogues que até estão todos de parabéns porque este ano fazem dez anos. 

O título já tinha há várias semanas guardado no rascunhos: "As fotografias que me pediste para apagar". Depois, quando chegar ao fim, logo vejo se o mantenho o título ou se crio outro qualquer. Sempre que escrevo não tenho uma regra, na maior parte dos casos escrevo o texto e só depois no fim dou o título, mas noutros casos, como creio que será este o caso, já tenho o título na cabeça e depois desenvolvo o texto por forma a ser coerente com o título. Eu sei, e não é falsa modéstia, que não sei escrever - e olha que até num curso de escrita criativa já estive - mas ao menos acho que consigo sempre uns títulos bastante criativos!

Já por várias vezes me apeteceu escrever-te. E ei sei perfeitamente que só poderia ser por aqui. Corro até o risco da mensagem não te chegar, que será o mais provável, mas será assim mesmo. Acho que não tenho o direito de te enviar um e-mail. Fico-me aqui pelo meu diário que ninguém lê. 

Concordei que nos afastássemos. Foste pedindo, primeiro com jeitinho, depois com alguma insistência e, após muita resistência da minha parte, porque não desisto sem dar luta, lá acedi (não sei se a deixar de ser egoísta) e a deixar-te ir...

Um dia destes reli a tua carta (que está aqui na mesinha de cabeceira) e esse talvez tivesse sido um dia bom para te escrever pois estava com as emoções à flor da pele. E que carta tão bonita que me escreveste... Tu escreves muito bem, ter-te-ei dito isso na altura, e se assim foi volto agora a repetir-me. 

Se a memória não me atraiçoa, neste momento em que escrevo estamos a dias fazer seis anos. Seis anos que fui operado e seis anos que nos afastamos. Afastamo-nos porque tu gostavas demais de mim. Mas também porque, aos poucos, comecei a aperceber-me que, sempre que nos encontrávamos, as minhas mãos só sabiam procurar as tuas. Acho que esse foi o sinal por demais evidente para mim, que também eu, aos poucos, comecei a gostar demais de ti. 

(dias depois...)

E seis anos é tanto tempo... 

Foste a única pessoa que me veio ver. Creio que já tinha tirado os pontos ou agrafos ou lá o que era. E vieste tu, lá do teu reino, de tão longe, só para estar dez ou quinze minutos comigo, só para te certificares que eu estava bem. E, partindo-me quase dois costelas, abraçaste-me e voaste para longe de mim...

Por estes dias meti-me na carroça e rumei a sul e, por mera obra do acaso, passei no exato local onde nos encontramos pela primeira vez e, apesar do tempo ir apagando algumas coisas, de imediato aquele local fez-me viajar para ti e para esse primeiro dia que nos encontramos. 

No dia seguinte estive naquele parque daquela cidade que adotamos para os nossos encontros. O parque foi renovado, está mais cuidado, e a estufa, junto à qual te roubei aquelas duas fotografias - desculpa!, mas não podes dizer que roubei porque foram de comum acordo! essas mesmas que depois tantas vezes me imploraste para eu apagar, e essa mesma estufa está hoje ainda mais branca do que na altura.

Estou a pensar lá voltar este ano, no mesmo feriado do dia em que nos encontramos pela primeira vez. Quem sabe talvez revisite todos os sítios onde estivemos juntos. Quem sabe até não leve duas bicicletas. Ou uma mantinha. Não vá por artes mágicas tu leres esta mensagem e quereres também aparecer...

quinta-feira, 2 de março de 2023

A Cultura da Pressa e a Desumanização das Relações

Imagem roubada da net

"
A conexão perpétua condenou-nos à disponibilidade eterna nas redes sociais. A necessidade de resposta imediata e a demora quando o retorno do outro lado não vem geram uma série de angústias. O resultado é uma sociedade stressada e mentalmente doente.

A iniciativa Desacelera SP existe desde 2015 como uma “desaceleradora de pessoas e negócios”. A sua fundadora Michelle Prazeres passou a questionar a cultura da pressa após o nascimento de seu primeiro filho. “Nem todo mundo tem 24 horas iguais”, defende.

Desde então, ela já lançou uma série de iniciativas ligadas ao movimento slow, como o Guia Desacelera SP, com lugares para aproveitar a cidade com calma e o Dia Sem Pressa, com atividades que estimulam a desaceleração.

Prazertes pesquisa as relações entre a comunicação, as tecnologias e a aceleração social do tempo, e questiona avanços como o controle de velocidade de áudios de WhatsApp e de streamings.

“Empresas de tecnologia geram necessidade. O acelerador de áudio é um exemplo. De escolha passa a ser hábito e de hábito, regra.”

A pandemia teve um grande papel ao naturalizar a cultura da atenção, afirma. “Vivemos situações em que estávamos mediados pela tela, com nossa atenção muito dividida. Saímos da pandemia pior do que entramos, com dificuldade de fixação, apressados.”

Por que não conseguimos nos desconectar? 

Existe uma engrenagem que exige a gente conectado o tempo todo. Não interessa ao mundo do consumo o tempo que a gente não gasta consumindo. Pensar não dá dinheiro, dormir não dá dinheiro. Estamos vivendo algo bastante sofisticado. É ainda mais difícil para a nova geração, que não sabe virar a chave, eles não sabem o que é desconexão, ter direito a ficar alguns dias sem responder uma mensagem.


De quem é a culpa? 

Silicon Valey convenceu a gente de que agilidade é bom, de que tecnologia é progresso. E toda vez que alguém tenta falar qualquer coisa mais ponderada é tachado de nostálgico, dinossáurico, “lá vem os chatos da tecnologia”. Eu estou olhando para os aspectos humanos disso. As pessoas estão adoecendo por causa da velocidade. Não é nostalgia, não é querer acabar com a cibercultura, com a tecnologia, mas a gente olha para a desumanização das relações, as pessoas estão exaustas, aceleradas, desinteressadas pelas outras.

Há a expulsão do outro.

Como isso está comprometendo as relações sociais? Sem se interessar pelo outro, a gente não se conecta, não acha sentido comum. As trocas e os processos humanos ficam comprometidos. Esses dias eu estava numa entrevista e a pessoa do outro lado atualizava o feed. É a desumanização das relações sociais. Esse fenómeno tem a ver com o fato de as tecnologias estarem completamente imbricadas em nossa vida, de não existir mais o conceito de “entrar na internet”.

Como tornar as relações pessoais mais humanas? 

Dá para construir alguns combinados. Se é um círculo de intimidade, estipule contratos de tempo de permanência no telemóvel. Diga coisas como “olha, estou falando com você, pode terminar de responder o celular”. A pessoa fica constrangida e para. Se você está num ambiente de trabalho, proponha um pacto de concentração, de não usar o celular, de guardar num potinho. Diga que a reunião vai ser rápida, mas nesse tempo todo mundo tem que prestar atenção.

Se perceber que alguém está usando, repita o “quando terminar eu continuo”. Também rola o constrangimento. Não podemos naturalizar essa divisão da atenção.

E o que é preciso para sairmos disso? A desconexão é uma das saídas para combater a exaustão extrema. As buscas desse livramento são individualizadas, nosso regime sociopolítico empurra a gente a acreditar que as soluções têm que ser individuais. Eu sei que o que serve para mim pode não servir para os outros. Tem casos que a urgência não é individual. A gente precisa de uma transformação cultural.

Como você lida com a urgência? 

Eu estou atenta ao WhatsApp, mas tem horário que não respondo. Tenho a sensação de que quando você tem as rédeas, essa relação fica menos angustiada. Não é o caso do meu filho de 11 anos. Ele não tem maturidade para lidar. Quando ouve o celular apitar, ele quer pegar na hora, é uma angústia. Eu combinei com ele que tem horário específico para isso.

O que cada um pode fazer?

Tirar notificações, estabelecer horários, tomar medidas no âmbito do direito à desconexão. Não precisa ficar três dias ausente, mas ter pequenos momentos de desconexão já dão um respiro. Eu percebo que os dias que estou mais ativa no WhatsApp por causa do trabalho ou dos filhos, fico mais ansiosa. Eu recomendo também o “não, pera, isso é necessário?”. Não aderir a uma tecnologia só porque é moda e todo mundo entrou. Usar a tecnologia de acordo com a necessidade. Não precisa responder na hora ou estar sempre online.

Em termos de sociedade, o que pode ser feito? 

O Brasil faz uma sinalização de que haverá políticas públicas nesse sentido quando uma secretaria [Secretaria de Políticas Digitais, dentro da Secom] se propõe a pensar letramentos digitais e regulação das plataformas. Temos um longo e desafiador caminho pela frente. Temos gestos, sinais e gente construindo. Essas mudanças nunca são imediatas. Eu tenho esperança".

*Entrevista de Mateus Camillo a Michele Prazeres publicada no jornal Folha de São Paulo a 28 de Fevereiro de 2023