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sábado, 15 de novembro de 2025

Tudo o que Leio é Sobre a Minha Mãe


Quando estamos preocupados com algo, ou algo nos ocupa a mente, de repente, parece que só vemos isso à frente. Como se as coisas nos aparecessem propositadamente, mas não, como estamos muito preocupados ou focados em determinada coisa, reparamos nessas coisas que normalmente não darímaos tanto valor. E foi o que me aconteceu com a doença da minha mãe. 

Há seis meses, quando partilhei no Bluesky excertos do texto "Cuidar dos pais nos faz pensar sobre finitude" de Cláudia Colluccino (Folha de São Paulo), legendei com "Tudo o que leio é sobre a minha mãe" e aqui deixo um excerto, mas acrescento também um artigo sobre o tabu da morte de Régis Debray publicado na mesma altura no jornal espanhol El País. 

Como os textos estavam aqui nos rascunhos do blog e demorei tanto a decidir-me deixá-los aqui, vou agora acrescentar também mais dois artigos. Um sobre como é viver sabendo que se tem uma doença terminal, publicado em junho no jornal espanhol La Vanguardia, e, mais recentemente, um artigo sobre a felicidade tóxica e as "patrulhas do luto", publicado, tal como o primeiro, no Folha de São Paulo.

"Foi na primeira vez que tive que dar um banho na minha mãe que a ficha caiu. Naquele instante, os papéis de cuidados haviam se invertido e eu nunca havia me preparado para isso. Três semanas antes, ela havia tido um diagnóstico de um silencioso câncer avançado.


Cinco semanas antes, ela tinha me recebido com meu prato favorito. Sete semanas antes, ela se divertia comigo, brindando a vida em uma cantina italiana. E agora lá estava eu diante daquele corpo frágil, que sempre foi meu colo, o meu remanso, precisando de ajuda para as necessidades mais básicas.

Eu que sempre valorizei o conhecimento, com mais de 20 anos de estudo, entre graduação e pós-graduações, não me atentei para o fato de que, sim, cuidar dos nossos pais exige aprendizado. Às vezes, de forma rápida e sem manual de instruções.

(..) Acompanhar de perto o envelhecimento dos meus pais (e envelhecer junto com eles) me fez enxergar como é importante o planejamento para tornar esse período da vida mais suave.

Desde o ponto de vista emocional, para encarar a fragilidade daqueles que, para nós, sempre foram sinónimos de fortaleza, até para decisões financeiras, já que os custos serão altos, e escolhas de fim de vida
.

Mas nem tudo é dificuldade. Há muita beleza e benefícios em acompanhar o envelhecimento dos pais. Cuidar deles permite que a gente reveja laços, acerte pendências, e aprenda muito sobre empatia e compaixão.


Encarar o declínio de alguém que a gente ama também nos faz refletir sobre a nossa própria vida, finitude, valores e sobre como queremos ser cuidados na nossa velhice".



“O tabu que era o sexo agora é a morte”

Ele encarou a morte de frente uma vez. Foi em 1967, quando, após combater ao lado do Che Guevara, foi capturado e torturado. Passou quatro anos numa prisão na Bolívia e foi condenado à pena máxima. Relata esses momentos, quando pensava que seriam os últimos: “É curioso, porque primeiro entra-se em pânico, mas no fim, quando se acredita que chegou o momento, torna-se quase um espectador. Estava perante o pelotão e, na verdade, era uma simulação, mas eu não sabia. Há um momento em que tudo se torna leve. Resignamo-nos”, explica Régis Debray.

O filósofo (Paris, 84 anos) publicou há dois anos O Último Suspiro, uma obra a duas vozes em que, juntamente com Claude Grange, chefe de unidade de cuidados paliativos, aborda a importância do acompanhamento nos últimos momentos de vida. Foi nessa experiência que se inspirou o cineasta franco-grego Constantin Costa-Gavras, de 92 anos, para o seu último filme, com o mesmo título, estreado hoje em Espanha.

Um “trabalho corajoso” que aborda “o tabu deste século”, explica Debray na sua casa em Houdan, uma vila a 70 quilómetros de Paris, um templo cheio de livros classificados por género, rodeado de prados verdes e amarelos. “Não podemos aprender a morrer, claro que não. Podemos aprender a ver morrer, mas aprender a morrer é absurdo, quase cómico”, analisa.

Aos 84 anos, Debray refugia-se neste espaço após uma vida cheia de risco e épico: foi amigo de Fidel Castro e depois juntou-se ao Che Guevara para tentar expandir a revolução até à Bolívia. Embora não queira aprofundar muito esse episódio: “Na verdade, só estive prestes a morrer aquela vez.” “Temos de aceitar a ideia de que o homem é mortal. Por isso, no contexto dos cuidados paliativos, o problema é ver morrer”, aprofunda.

Contudo, nas visitas que fez a esses centros, para escrever O Último Suspiro, apercebeu-se de uma realidade: “Os médicos que lá trabalham não estão tristes. Não há nada de fúnebre nos centros paliativos, os profissionais de saúde estão bem-dispostos, isso surpreendeu-me”, salienta. Em França morrem por ano 600.000 pessoas e “existem apenas 200 centros paliativos. Fala-se em multiplicá-los, sim, mas há poucos voluntários”. As mulheres, diz, “são mais corajosas perante a morte, talvez por terem dado à luz e terem mais resistência à dor; creio que têm menos medo da morte”.

Em O Último Suspiro, a vida e a morte - ou a sua aproximação - reconciliam-se através de uma conversa: a que mantêm um médico responsável por um hospital de cuidados paliativos e um escritor, interpretados pelos atores Denis Podalydès e Kad Merad (Debray e Grange). No elenco participam também as atrizes Ángela Molina e Charlotte Rampling.

“Queria fazer um filme mais divertido”, reconhece Debray, mas Costa-Gavras “preferiu fazer um filme não sobre a morte, mas sobre a prevenção, uma ode à vida. É muito corajoso num momento em que fazemos de tudo para apagar a morte, porque ele propõe o debate, não o evita, e faz um filme sobre um tema tabu”.

A morte é rejeitada, ocultada, negada e transformada em algo “quase clandestino”, assegura. “Durante o século XX o tabu era o sexo; no século XXI já não é tabu, e nisso Freud teve grande influência. Hoje é a morte, um tabu mais difícil de ultrapassar do que o do sexo.”

Embora tenha sido um firme defensor da laicidade em França - a separação entre Igreja e Estado (foi um dos primeiros membros do comité pela laicidade da República Francesa) - Debray analisou o papel da religião e da fé nos grupos sociais. Considera que o declínio do cristianismo influenciou muito este repúdio à ideia de morrer. “Antes era apenas uma etapa, não uma partida definitiva, mas o desaparecimento relativo da fé e da crença no paraíso, e sem a ideia de ressurreição, transformou-a cada vez mais num tabu.

EUFEMISMOS

A prova disso, defende, é a forma como a cobrimos de eufemismos: hoje não se fala em morte, mas em fim de vida; o cancro é “uma longa doença”; um “velho” é um sénior; e a eutanásia é “uma ajuda para morrer”. “Tudo muito politicamente correto. Fazemos de tudo para evitar a morte física e moral, e há pudor em falar sobre ela”, denuncia.

Também perdeu o seu lugar nos rituais, fruto dessa decadência da fé e, nessa tentativa de a apagar do mapa, “já não há cortejos fúnebres, como os que antes atravessavam as aldeias para que as pessoas se despedissem do falecido; o luto desapareceu, o espetáculo da morte está proibido, tornou-se algo clandestino e faz-se de tudo para que não se torne um problema. Tornou-se uma obscenidade”. Quase, denuncia, está a desaparecer o velório: antes velava-se os mortos em casa, e “hoje tornou-se algo incómodo”.

Nos dias que se seguiram à entrevista, Régis Debray teria de se submeter a uma intervenção, o que não o impede de pedir um cigarro à esposa. Passeia-se pela sala rodeado de livros enquanto reflete. A morte é um tabu, mas teremos menos medo da morte dos outros do que da nossa? “Também aí, cada vez a aceitamos menos. Antes podia tirar-se uma fotografia de alguém que tivesse falecido, agora está proibido.

Recorda que uma das últimas fotos de falecidos célebres publicadas na imprensa foi a da cantora francesa Edith Piaf, que morreu a 10 de outubro de 1963. Foi no mesmo dia que o poeta Jean Cocteau, mas “ela ocupou as capas da imprensa e ele, as páginas interiores”. Este último “teve o azar de morrer no mesmo dia que uma figura tão popular como ela. Até para morrer é preciso escolher bem o dia”, reflete com ironia.



"Em novembro de 2023, Sílvia Socias (Barcelona, 1975) começou a perceber que algo não estava bem. Sentia dores numa perna e começou a andar mais devagar do que era habitual. Decidiu consultar um neurologista. Este foi o início de uma longa peregrinação por várias consultas médicas que terminou no início de 2024. O resultado? Esclerose lateral amiotrófica (ELA). Confessa que o diagnóstico provocou-lhe “um colapso brutal”. Mas com o tempo, conseguiu encarar a situação de outra forma. E tudo graças ao seu esforço, ao apoio da família e dos amigos, e ao acompanhamento da Fundació Catalana d’ELA Miquel Valls, cujo departamento de psicologia integra o programa de atenção integral a pessoas com doenças avançadas, promovido pela Fundação La Caixa.

Embora o diagnóstico só tenha sido confirmado no início de 2024, ela já suspeitava há bastante tempo que se tratava de algo grave. Ainda assim, mantinha a esperança de que pudesse haver alguma solução médica para o seu caso. “Mas quando pronunciaram a palavra ELA, foi um colapso total”, conta ao La Vanguardia. Nesse momento, diz, sabemos que temos um prazo de validade: “Dizem-te que estás a morrer”.

Todos sabemos que um dia chegará a nossa hora - argumenta -, mas acreditamos que ainda falta muito. Tenho dois filhos, uma rapariga de 13 anos e um rapaz de 7. A primeira coisa em que se pensa é que não os veremos crescer, que também não poderemos envelhecer ao lado do nosso marido. Nesse momento, vivemos um luto muito grande”.

Com o passar do tempo, no entanto, conseguiu ultrapassar essa fase. “Percebemos que é preciso seguir em frente, que os meus filhos ainda têm a mãe, e que é preciso viver o momento, porque é um presente. É verdade, estou doente e a piorar progressivamente, mas tento ser positiva e fazer as coisas de que gosto”.

Admite que explicar a situação aos filhos foi muito difícil. À filha, a mais velha, conseguiu contar com mais detalhe. Já ao mais novo, não. “Só lhe disse que estou doente. Ele pergunta-me se vou morrer um dia. Digo que sim, mas que não será hoje nem amanhã”.

Eles - relata - foram testemunhas do seu agravamento. De caminhar, passou a usar muletas. Pouco tempo depois, cadeira de rodas. “No meu caso, a doença avança muito rapidamente”, lamenta. No entanto, ainda conserva algumas capacidades: “Ainda consigo mexer um pouco os braços, falo bem, consigo escrever alguma coisa, ler, embora esteja totalmente dependente”.

Afirma que a Fundació Catalana d’ELA Miquel Valls tem sido uma grande ajuda, tanto com a terapia individual como com o grupo de apoio, onde pessoas afetadas pela doença – que ontem teve o seu dia mundial – partilham as suas experiências. No início, estava relutante – “pensava que seria lembrar constantemente que estou doente”, diz – mas acabou por se revelar muito benéfico. “No grupo há pessoas muito positivas e com muita vontade de viver, e isso ajudou-me muito”.

A fundação procura incentivar e promover estes grupos. “Criar espaços onde possam interagir entre si é muitas vezes mais poderoso do que qualquer intervenção individual”, afirma Maria Dalmau, psicóloga da instituição.

“São pessoas que estão a viver a mesma situação e podem partilhar conselhos e experiências. Encontram conforto ao falar entre elas. Alguns doentes pensam: ‘Se alguém como eu consegue encontrar sentido na vida, eu também posso’”.

A entidade oferece apoio em todas as áreas: física, psicológica e social. “Ajudam-nos em cada fase da doença, que vai evoluindo. Ajudam com a tecnologia. Por exemplo, se precisares de um guindaste porque o teu marido já não te consegue levantar”, explica Sílvia. A fundação conta também com uma terapeuta ocupacional e ajuda a agilizar a documentação necessária.

Para os seus profissionais, como Maria Dalmau, não é fácil lidar com pessoas que sofrem de uma patologia sem cura. “Ver que o nosso trabalho pode melhorar a qualidade de vida delas é reconfortante”, aponta. “Vivemos situações difíceis, mas sentimo-nos gratificados com o cuidado que damos. Vemos que o nosso trabalho tem sentido”, acrescenta.

Sílvia lamenta não ter sentido qualquer melhoria após a entrada em vigor da lei contra a ELA, em 1 de novembro de 2024. “É contraditório: a doença evolui muito depressa, mas os processos são muito lentos. Desespera-te. Tens consciência de que os trâmites não acompanham a rápida progressão da patologia”, conclui.



ClaudiaQuando minha mãe morreu, aos 62 anos, após dois anos e meio de sofrimento com o câncer, algumas amigas ficaram preocupadas comigo: “Mirian, você tem que sair, se divertir, seguim frente. Tem que pensar positivamente, ir dançar, fazer algo diferente, arranjar um novo amor”
"As patrulhas do luto e adeptas da felicidade tóxica enxergavam a minha tristeza como doença. Elas acreditavam que a minha tristeza era contagiosa.

Quando acompanhei meu pai, desde o primeiro minuto em que ele descobriu o câncer até o dia em que ele partiu, aos 68 anos, perdi dez quilos. No enterro, uma tia disse: “Mirian, você está um cadáver, parece que saiu de um campo de concentração”.

Assim que voltei a dar aulas, uma colega da UFRJ me elogiou: “Nossa, como você emagreceu, está linda. O que posso fazer para ficar com esse corpinho? Estou morrendo de inveja. Veja o lado bom da perda”.

No dia 17 de abril de 2022, quando perdi o amigo que mais amei em toda a minha vida, achei que iria morrer de tanta tristeza. Minhas amigas insistiram: “Mirian, você tem que sair da toca, não pode ficar tão enclausurada, vai viajar, toma antidepressivo, tem que curar essa tristeza”. Fiquei na minha toca e escrevi “Memórias de uma Antropóloga Malcomportada” em homenagem ao meu melhor amigo.

Meu maior arrependimento é não ter escutado as histórias dos meus pais. Não conheço as suas histórias e, portanto, não conheço a minha própria história. Por isso, quando a Unicef me convidou para participar de um projeto sobre legados que transformam, tenho pensado muito no meu legado para as novas gerações.

No vídeo que gravei para a Unicef, falei que tenho um sonho: construir A Casa da Bela Velhice. Brinquei com a palavra “casa”: C de coragem, A de autonomia, S de significado e A de amizade.

A Casa da Bela Velhice será um espaço acolhedor para ensinar jovens e crianças a “a arte de escutar bonito” os velhos de hoje e os velhos de amanhã. A Casa da Bela Velhice será um lugar para ensinar a enxergar a beleza da velhice, um espaço em que os mais velhos se sentirão amados, cuidados, protegidos, respeitados e valorizados.

A Casa da Bela Velhice será o melhor lugar do mundo para brincar com a criança que nunca deixamos de ser. Uma casa em que os velhos de hoje e os velhos de amanhã, juntos, irão descobrir que nunca é tarde para amar, brincar e sonhar com um mundo em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele e sim pela beleza do seu caráter. Livres, somos livres enfim...

A partir do seu sofrimento nos campos de concentração, de 1942 a 1945, após perder a esposa grávida, o pai, a mãe e o irmão assassinados pelos nazistas, Viktor Frankl, no livro “Em busca de sentido”, escreveu que acreditava na capacidade humana de transformar criativamente os aspectos negativos da vida em algo positivo ou construtivo. Ele chamou de “vazio existencial” a sensação de falta de sentido da própria vida.

Depois de perder as pessoas que eu mais amei na vida, descobri o significado da minha vida no amor incondicional, no trabalho, na criação e nos meus projetos de vida. Em tempos em que existe uma felicidade tóxica, sei que tenho a liberdade de escolher a melhor atitude para transformar a realidade perversa e cruel que os mais velhos sofrem dentro das próprias casas e famílias.

Aprendi com o meu melhor amigo, de 98 anos: “Tem que ter coragem, Mirian. Coragem, você vai sim!”.

Miriam Goldberg | Folha de São Paulo

domingo, 28 de setembro de 2025

Porque é que Eu Odeio a Classe Média?


"Por quê que eu odeio a classe média? A sociedade capitalista tem duas classes fundamentais: a classe trabalhadora, que produz a mais-valia, e a burguesia. O trabalho da burguesia é explorar o trabalhador, porque uma parte do trabalho dele não é paga e vira capital.

O lugar, o papel, o significado, a relação dessas duas classes são claríssimos. Entre elas, tem uma terceira, que não tem lugar econômico porque não está nem na classe trabalhadora nem na classe burguesa. E a função da classe média é ideológica: espalhar as ideias da burguesia, da classe dominante.

Como a classe média não sabe muito bem onde está, ela fica insegura. Ela tem um sonho e um pesadelo. O sonho é se tornar burguesa. Pensa que se tiver um apartamento com suítes, churrasqueira na varanda, não sei o que mais, está já próxima disso. Mas ela não está.

Enquanto não receber a mais-valia, ela não entra na burguesia. Ela pode ficar rica, mas burguesa ela não é. E por isso ela tem um pesadelo, que é cair na classe dominada, na classe trabalhadora.

Então, a classe média funciona oprimindo os dominados e festejando e bajulando os dominantes. Por isso ela é odiosa. Ela é o cimento ideológico que garante que essa sociedade fique como está. É isso que acho odioso nela: não perceber que essa sociedade como está não pode ser.

Marilena Chaui | Folha de São de Paulo

domingo, 25 de agosto de 2024

Fora da Caixa e Zona de Conforto


"Antigamente era imperioso pensar fora da caixa, agora é preciso estar fora da zona de conforto. Há uma obsessão filosófica com estar fora seja do que for. Ao que parece, enquanto sociedade temos verificado que estar dentro não é bom".

Não sei se isso é novidade, mas mais da metade do mundo daria tudo por um pouco de conforto. Atingir conforto é uma ambição de bilhões de pessoas. Mas um grupo de diletantes está tão confortável que se deixou tomar pelo enfado de primeiro mundo que só se apazigua saindo da zona de conforto".

Excertos da crónica de hoje de Ricardo Araújo Pereira na Folha de São Paulo. 



terça-feira, 13 de agosto de 2024

Indignações Religiosas Seletivas


 "A reconstituição de um quadro, na abertura dos Jogos Olímpicos, indignou espectadores de todo o mundo. A certa altura da cerimônia, um grupo de drag queens posou de modo a, ao que parecia, reproduzir o célebre quadro “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci, o que naturalmente melindrou um grande número de pessoas.

A este tipo de pessoa costuma chamar-se “floco de neve”, para indicar uma espécie de hipersensibilidade, mas é uma alcunha enganadora, porque estes flocos de neve não costumam ter sensibilidade nenhuma. Se tivessem, não teriam se indignado desta forma. Como é evidente, teriam se indignado muito mais.

O quadro de Da Vinci representa Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo que constitui uma flagrante violação do segundo mandamento: “Não faças para ti ídolos, nenhuma representação daquilo que existe no Céu ou na Terra.” Ou seja, a paródia das drag queens é uma blasfêmia sobre outra blasfêmia, e não se percebe porque é que o senhor Da Vinci - que, além do mais, partilhava com as drag queens algumas inclinações - ficou isento de críticas.

(...)

Em última análise, o lamento significa que aquela mensagem de dar a outra face e de perdoar a quem nos ofende é deplorável. Não sei quem teve essa ideia mas, ao que tudo indica, no entender de quem se ofendeu com a cerimônia é uma pessoa que merecia ser parodiada"

Ricardo Araújo Pereira | Folha de São Paulo

domingo, 12 de novembro de 2023

Meritocracia é Saber Nascer com a Cor Certa e com a Carteira Certa dos Pais

Regresso, de novo, à mentira da meritocracia. 

Já aqui tinha lembrado que a palavra meritocracia aparece pela primeira vez no livro satírico e distópico "The Rise of Meritocracy", e lembrei que OCDE afirmou que uma família portuguesa pobre precisa de cinco gerações até os descendentes terem um salário médio.

Desta vez uma notícias sobre a forma como são tratadas as minorias no que à Saúde diz respeito. Em dois dias, duas notícias. Uma no reino de sua majestade e a outra, hoje, no Brasil. 

Ficamos a saber pelo Guardian que na Inglaterra, os bebés negros têm três vezes mais possibilidades de morrer do que os bebés brancos. Percebem? Os bebés brancos tiveram o "mérito" de ter estudado para nascer brancos, e isso fez toda a diferença no seu futuro!

Lê-se na notícia que: "Desde 2020 a taxa de mortalidade de crianças brancas manteve-se estável em cerca de três por 1.000 nascidos vivos, mas para os bebés negros aumentou de seis para quase nove, de acordo com dados do National Child Mortality Database, que reúne dados sobre as circunstâncias das mortes de crianças.


As taxas de mortalidade infantil nos bairros mais pobres da Inglaterra aumentaram para o dobro das áreas mais ricas, onde as taxas de mortalidade caíram. A taxa de mortalidade para os bebés asiáticos também aumentou 17%. A mortalidade infantil geral voltou a aumentar entre 2022 e 2023, com o aumento das desigualdades entre zonas ricas e pobres e comunidades brancas e negras.


Já hoje, no jornal Folha de São Paulo:



"A discriminação racial leva homens e mulheres negros a deixar de cuidar de doenças crônicas, que em diversos casos poderiam ser tratadas antes de evoluírem para um problema maior.

“Não houve nenhum momento na minha formação em que a diversidade foi abordada. Muitas patologias e questões que deviam ter sido estudadas [porque acometem mais determinada parcela da população] nunca foram vistas”, disse Larissa Cassiano, ginecologista e obstetra.

Para a médica, que na graduação foi a única aluna negra entre cem estudantes, o modelo baseado em metas de atendimento não permite que profissionais realizem consultas direcionadas às necessidades do paciente.

“Quando falamos de mulheres negras, estamos falando de uma população que, muitas vezes, não é vista. Eu faço parte dessa parcela, e consigo olhar para essas mulheres de forma diferente.”

“Quando uma pessoa entra no escritório, está lá o médico carrancudo que supõe que ela é cisgênero e heterossexual. Ele não cogita que seja uma mulher que gosta de outras mulheres ou um homem que gosta de outros homens, e se, em algum momento da consulta, o paciente deixa isso claro, tem uma grande chance de ser maltratado.”

De acordo com ele, o preconceito e a heteronormatividade —na qual orientações sexuais diferentes da heterossexual são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas— excluem gays, lésbicas, trans e não binários do sistema de saúde”.


Concluindo, a mentira da "meritocracia" tão propalada por estes dias pelo neoliberais e direita em geral, mais não é do que ter o "mérito" de nascer com a cor certa, com a sexualidade certa, numa zona do território certo e com a carteira certa dos pais!

A propósito, se quiserem comprar o livro "The Rise of Meritocracy", aproveitem! Está com 10% de desconto e portes grátis! Só custa 167€! É que é preciso mesmo muito mérito para poder ler um livro destes!


domingo, 15 de outubro de 2023

Boa Parte das Pessoas que Amam Deus Odeiam Humanos


 

Em junho de 1973, em um jantar de Estado feito na visita de Willy Brandt a Jerusalém, a primeira-ministra de Israel, Golda Meir, fez esse discurso:

“Deixe-me dizer uma coisa que nós, israelitas, temos contra Moisés. Ele vagueou conosco pelo deserto durante 40 anos apenas para nos trazer para o único lugar do Oriente Médio que não tem petróleo.”


De fato, aquela região não tem petróleo, o que é um azar e uma bênção. Um azar porque o petróleo vale dinheiro, e uma bênção porque o petróleo está na origem de várias guerras. Não tantas, no entanto, como o produto em que aquela região é rica: o amor a Deus.


Tenho visto que boa parte das pessoas que amam Deus odeiam os seres humanos. Tendo em conta que foi Deus que criou os seres humanos, isso é como ser devoto do Mcdonald’s e odiar hambúrgueres.


Jerusalém é território sagrado de judeus, cristãos e muçulmanos. Amam a terra, odeiam-se mutuamente. Adoram pedras, abominam pessoas.


Às vezes, mesmo as pessoas que amam o mesmo Deus não se entendem. Ou seja, uns odeiam por acharem que os outros amam o deus errado, mas também há quem odeie por acreditar que os outros amam o deus certo da forma errada. Entre os que acreditam em Alá, os sunitas não se entendem com os xiitas. Há vários tipos de cristãos, todos convencidos de que a sua é a única fé.


A divergência não precisa ser grande. O grande cisma se deu porque a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa discordam em uma palavra a menos no credo e um ingrediente a mais no pão. Uns rezam que o Espírito Santo procede do Pai, os outros rezam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Uns acham que a hóstia deve levar fermento, os outros acham isso impensável. Foi esse o motivo do divórcio, em 1054. Passaram quase mil anos, mas eles continuam sem chegar a um consenso. E o horror em nome de Deus vai prosseguindo, como voltou a acontecer nestas semanas.


Imagino que Deus, existindo, esteja muito orgulhoso de tudo isso. Que pai não gostaria que os seus filhos se chacinassem mutuamente para decidir quem o ama mais e melhor?


Confesso que, quando observo o fanatismo desses crentes, me sinto satisfeito de ser ateu. Até porque, de certo modo, contribuo com a paz. Uma das poucas coisas que todos os fanáticos concordam é: eles, sem exceção, me odeiam também.


Texto de Ricardo Araújo Pereira, publicado na Folha de São em 15 de Outubro de 2023

domingo, 20 de agosto de 2023

Intimidade Artificial - A Calamidade do Século

Nunca estamos 100% presentes com os nossos amigos, amantes ou familiares.


Este artigo foi publicado no jornal Folha de São de Paulo a 20 de Março de 2023.

"Esther Perel é psicoterapeuta. Nasceu na Bélgica, filha de sobreviventes do holocausto. Hoje é professora da universidade de Nova York e especialista em temas como solidão e relacionamentos contemporâneos, incluindo relações amorosas. 

Quando nos relacionamos com nossos amigos, amantes ou familiares nunca estamos 100% presentes. Nossa atenção está sempre dividida entre as pessoas e o nosso telemóvel, redes sociais, notificações e assim por diante. Neste contexto não é possível ter intimidade real.


As redes sociais e o telemóvel funcionam como anestesia seletiva para as relações humanas. Queremos as partes boas do convívio, que são do nosso interesse, mas evitamos ao máximo atritos, conversas desconfortáveis, o tédio etc. Sempre que algo desconfortável começa a materializar-se, partimos para o mundo confortável e controlado do telemóvel, que nos distrai do que é verdadeiramente humano.


Esta é a intimidade artificial. Estamos todos a viver coletivamente a experiência do rosto parado que o psicólogo Edward Tronick realizou nos anos 1970. Nele, uma mãe primeiro é gravada relacionando-se normalmente com seu bebé de 6 meses. Ela sorri, o bebé sorri de volta. Ela fala qualquer coisa e o bebé dá uma gargalhada. No segundo momento a mãe paralisa seu rosto. Olha fixamente para o bebé, sem expressar reação. O bebê então gargalha. A mãe permanece impassível. O bebé começa então a gritar. Nenhuma reação da mãe. O bebé então chora e grita desesperadamente, até que a mãe retoma suas reações normais e acolhe a criança.


No mundo atual somos todos simultaneamente a mãe e bebé. Como somos incapazes de dar atenção integral ao outro, estamos sempre em dívida emocional com os que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, somos o bebé, sedentos por atenção. Nunca houve uma carência tão grande por escuta e acolhimento como a que viver coletivamente no mundo de hoje.


Esther nos conclama a nos rebelarmos contra a intimidade artificial. A exigir e a dar atenção total para aqueles com quem nos relacionamos. A darmos o difícil passo de aceitarmos o conflito e o atrito, parando assim de nos anestesiarmos parcialmente o tempo todo. Sem isso seremos obrigados a conviver com relações que julgamos “defeituosas” o tempo todo.


Uma investigação realizada nos EUA em 2019 apontou que 22% dos “millenials” têm hoje zero amigos; 25% dizem não ter conhecidos. Muitos têm um número de seguidores gigantesco, mas amigos mesmo, nenhum. Nas gerações anteriores só 9% afirmavam não ter amigos. E não é por acaso que ansiedade e depressão são um dos assuntos que hoje mais circulam nas redes sociais entre adolescentes e crianças. 


Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana.




domingo, 19 de março de 2023

Só os Mais Conceituados Gestores Podem Levar um Banco à Falência

* Artigo publicado hoje na Folha de São de Paulo por Ricardo Araújo Pereira

"E cá estamos novamente. O sistema financeiro opera sem freio nem regulação, dois ou três bancos vão à falência, o Estado intervêm para evitar o efeito de contágio, os bancos falidos prometem se comportar e, uns anos depois, começa tudo outra vez.

E cá estamos novamente. O Silicon Valley Bank, o Signature Bank e o Credit Suisse estão em dificuldades. O mais fascinante, para mim, é a frequência com que bancos caem. O negócio dos bancos é infalível. Trata-se de comprar dinheiro barato e vendê-lo mais caro. Eles comercializam um produto de que todo o mundo gosta e que não estraga. Nunca ninguém foi ao banco dizer: “Desculpem, estas notas são da semana passada. Este dinheiro não está fresco”. Nunca.


Os bancos são administrados por pessoas que estudaram nas melhores universidades e usam as melhores gravatas. É gente inteligentíssima a gerir um negócio seguríssimo. Ainda assim, os bancos vão à falência constantemente.


No entanto, há bastantes sinais de que os bancos são administrados por gente superior ao mortal comum. Quando o mortal comum vai à falência, ele vai à falência. O banco é recapitalizado.

Não é uma ajuda: é uma recapitalização. Ajudas são para pobres, que não conseguem se governar. Esses devolvem a ajuda com juros dolorosos, para não se esquecerem do que fizeram. Mesmo que alguém quisesse, não poderia recapitalizar um pobre, porque ele nunca teve capital para começar.


O ramo mais atraente para quem quer construir uma carreira de sucesso é ser proprietário de um banco falido. Enquanto o banco não vai à falência, os acionistas retiram todos os benefícios que ser banqueiro oferece; quando vai à falência, não suportam nenhuma das desvantagens de falir - o Estado toma conta de tudo.


Quem deve R$ 5.000 pode ter problemas: intimações, tribunais, penhoras. Quem deve R$ 5 milhões, em princípio, está mais à vontade. Se você contrair empréstimos, já sabe: o segredo é apontar para cima.

Para os devedores, aplica-se o mesmo princípio de mérito que rege o resto da sociedade: os maiores e mais talentosos têm mais dinheiro e prestígio.


Eu teria todo o gosto em fundar um banco falido. Desgraçadamente, não tenho curso de economia ou gestão e temo que a minha falta de preparação técnica me levasse a criar um banco bem-sucedido e próspero. Só os mais conceituados e bem pagos gestores parecem ter a capacidade para conduzir um banco estrondosamente à bancarrota.


quinta-feira, 2 de março de 2023

A Cultura da Pressa e a Desumanização das Relações

Imagem roubada da net

"
A conexão perpétua condenou-nos à disponibilidade eterna nas redes sociais. A necessidade de resposta imediata e a demora quando o retorno do outro lado não vem geram uma série de angústias. O resultado é uma sociedade stressada e mentalmente doente.

A iniciativa Desacelera SP existe desde 2015 como uma “desaceleradora de pessoas e negócios”. A sua fundadora Michelle Prazeres passou a questionar a cultura da pressa após o nascimento de seu primeiro filho. “Nem todo mundo tem 24 horas iguais”, defende.

Desde então, ela já lançou uma série de iniciativas ligadas ao movimento slow, como o Guia Desacelera SP, com lugares para aproveitar a cidade com calma e o Dia Sem Pressa, com atividades que estimulam a desaceleração.

Prazertes pesquisa as relações entre a comunicação, as tecnologias e a aceleração social do tempo, e questiona avanços como o controle de velocidade de áudios de WhatsApp e de streamings.

“Empresas de tecnologia geram necessidade. O acelerador de áudio é um exemplo. De escolha passa a ser hábito e de hábito, regra.”

A pandemia teve um grande papel ao naturalizar a cultura da atenção, afirma. “Vivemos situações em que estávamos mediados pela tela, com nossa atenção muito dividida. Saímos da pandemia pior do que entramos, com dificuldade de fixação, apressados.”

Por que não conseguimos nos desconectar? 

Existe uma engrenagem que exige a gente conectado o tempo todo. Não interessa ao mundo do consumo o tempo que a gente não gasta consumindo. Pensar não dá dinheiro, dormir não dá dinheiro. Estamos vivendo algo bastante sofisticado. É ainda mais difícil para a nova geração, que não sabe virar a chave, eles não sabem o que é desconexão, ter direito a ficar alguns dias sem responder uma mensagem.


De quem é a culpa? 

Silicon Valey convenceu a gente de que agilidade é bom, de que tecnologia é progresso. E toda vez que alguém tenta falar qualquer coisa mais ponderada é tachado de nostálgico, dinossáurico, “lá vem os chatos da tecnologia”. Eu estou olhando para os aspectos humanos disso. As pessoas estão adoecendo por causa da velocidade. Não é nostalgia, não é querer acabar com a cibercultura, com a tecnologia, mas a gente olha para a desumanização das relações, as pessoas estão exaustas, aceleradas, desinteressadas pelas outras.

Há a expulsão do outro.

Como isso está comprometendo as relações sociais? Sem se interessar pelo outro, a gente não se conecta, não acha sentido comum. As trocas e os processos humanos ficam comprometidos. Esses dias eu estava numa entrevista e a pessoa do outro lado atualizava o feed. É a desumanização das relações sociais. Esse fenómeno tem a ver com o fato de as tecnologias estarem completamente imbricadas em nossa vida, de não existir mais o conceito de “entrar na internet”.

Como tornar as relações pessoais mais humanas? 

Dá para construir alguns combinados. Se é um círculo de intimidade, estipule contratos de tempo de permanência no telemóvel. Diga coisas como “olha, estou falando com você, pode terminar de responder o celular”. A pessoa fica constrangida e para. Se você está num ambiente de trabalho, proponha um pacto de concentração, de não usar o celular, de guardar num potinho. Diga que a reunião vai ser rápida, mas nesse tempo todo mundo tem que prestar atenção.

Se perceber que alguém está usando, repita o “quando terminar eu continuo”. Também rola o constrangimento. Não podemos naturalizar essa divisão da atenção.

E o que é preciso para sairmos disso? A desconexão é uma das saídas para combater a exaustão extrema. As buscas desse livramento são individualizadas, nosso regime sociopolítico empurra a gente a acreditar que as soluções têm que ser individuais. Eu sei que o que serve para mim pode não servir para os outros. Tem casos que a urgência não é individual. A gente precisa de uma transformação cultural.

Como você lida com a urgência? 

Eu estou atenta ao WhatsApp, mas tem horário que não respondo. Tenho a sensação de que quando você tem as rédeas, essa relação fica menos angustiada. Não é o caso do meu filho de 11 anos. Ele não tem maturidade para lidar. Quando ouve o celular apitar, ele quer pegar na hora, é uma angústia. Eu combinei com ele que tem horário específico para isso.

O que cada um pode fazer?

Tirar notificações, estabelecer horários, tomar medidas no âmbito do direito à desconexão. Não precisa ficar três dias ausente, mas ter pequenos momentos de desconexão já dão um respiro. Eu percebo que os dias que estou mais ativa no WhatsApp por causa do trabalho ou dos filhos, fico mais ansiosa. Eu recomendo também o “não, pera, isso é necessário?”. Não aderir a uma tecnologia só porque é moda e todo mundo entrou. Usar a tecnologia de acordo com a necessidade. Não precisa responder na hora ou estar sempre online.

Em termos de sociedade, o que pode ser feito? 

O Brasil faz uma sinalização de que haverá políticas públicas nesse sentido quando uma secretaria [Secretaria de Políticas Digitais, dentro da Secom] se propõe a pensar letramentos digitais e regulação das plataformas. Temos um longo e desafiador caminho pela frente. Temos gestos, sinais e gente construindo. Essas mudanças nunca são imediatas. Eu tenho esperança".

*Entrevista de Mateus Camillo a Michele Prazeres publicada no jornal Folha de São Paulo a 28 de Fevereiro de 2023

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

A Imprensa Portuguesa A Fazer-se Sonsa


 A notícia desta quarta-feira, 18 de Janeiro de 2023 que fez primeiras páginas dos jornais um pouco por todo o mundo foi a retirada de Greta Thunberg que se manifestava à entrada de uma mina de carvão na Alemanha. Mas nenhum jornal português fez eco da notícia. Porquê?

sábado, 22 de outubro de 2022

Explicar o Delírio Coletivo



"Um espectro ronda o mundo - o espectro da dissonância cognitiva coletiva. Espectro materializado em um movimento transnacional, favorecido pela onipresença do universo digital e das redes sociais no dia a dia planetário.

Crimes e irresponsabilidades

Nas (não) comemorações do 7 de Setembro, Jair Messias Bolsonaro se superou: presenciamos um festival de mentiras, dados falsos, declarações preconceituosas e crimes de responsabilidade, em uma rapidez surpreendente mesmo para os padrões hiperbólicos do mito. Os quatro eternos anos da Presidência resumidos em 24 intermináveis horas. Síntese, aliás, desafiadora.

Ultrapassamos 680 mil mortes em função da pandemia de Covid, número que poderia ser muito menor se o governo não tivesse flertado coma criminosa noção de imunidade de rebanho por contágio direto.

Assistimos, consternados, ao retorno do Brasil ao mapa da fome. Indefesos, somos assaltados pelo dragão da maldade da inflação toda vez que vamos ao supermercado para comprar uma quantidade sempre menor de produtos.

Muito pouco surpresos, soubemos das “comissões” que seriam cobradas por intermediários improváveis de vacinas que não existiam no balcão de negócios escusos que se tentou montar no Ministério da Saúde, eque só não prosperou pelas denúncias da CPI.

Nada pasmos, fomos informados de que, agora sim com êxito, converteu-se o Ministério da Educação em um armazém de secos e molhados, cujas improvisadas gôndolas traficavam barras de ouro e bíblias superfaturadas, além de profanadas com fotografias do pastor ex-ministro e de dois pastores velozes e furiosos, indicados para tenebrosas transações pelo Messias Bolsonaro, responsável pelo apocalipse da educação pública.

Pela primeira vez na história da Nova República, um presidente em exercício acrescentou à sua já rica ficha corrida todos os crimes eleitorais possíveis e imagináveis, usando com o despudor que melhor define o personagem recursos da máquina pública em proveito próprio, em uma rachadinha eleitoral de proporções épicas.

A enumeração do caos da administração do governo enquanto arquitetura da destruição poderia seguir indefinidamente. Contudo, Bolsonaro mantém uma base sólida do eleitorado, tendo chegado a 51 milhões de votos no primeiro turno.

(Mas devagar com o andor que Bolsonaro é feito de barro. Em uma inegável derrota pessoal, também pela primeira vez na história da Nova República, o presidente ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições. Um fracasso que ameaça reduzir o mito à impotência política.)

Passemos a palavra à Esfinge: “Qual o ser que, em todas as idades, troca verdades por óbvias mentiras e, confrontado com a falsidade, desafia o mais elementar princípio de realidade? Em que teia foi enredado?”.

Vamos passo a passo - o caminho é longo e árduo.

Dissonância Cognitiva Coletiva

O bolsonarismo, como fenômeno de massa, enraizado em diversos setores da sociedade, como a eleição comprovou, é a expressão brasileira de uma onda transnacional que levou a extrema direita ao poder por meio do voto, ou seja, conquistando corações e mentes. É preciso reconhecê-lo para clarear o horizonte plúmbeo que nos ameaça.

Trata-se de constelação inédita, favorecida pela onipresença das redes sociais. A fim de enfrentar esse desafio, proponho dois conceitos: dissonância cognitiva coletiva e midiosfera extremista.

Dissonância cognitiva é um desconforto subjetivo causado pela consciência da distância entre crenças e comportamentos. Em 1957, o psicólogo social norte-americano Leon Festinger lançou o livro “Uma Teoria da Dissonância Cognitiva”, sistematizando uma experiência que viveu como pesquisador, relatada em uma obra anterior, “Quando a Profecia Falha” (1956).

Festinger tomou como base de sua teoria a Fraternidade dos 7 Raios, desenvolvida ao redor de Dorothy Martin, uma moradora de Chicago que dizia receber mensagens de seres extraterrestres de um planeta distante, Clarion.

O conteúdo era perturbador: em 21 de dezembro de 1954, um dilúvio de proporções bíblicas destruiria boa parte da Terra. Contudo, seus seguidores sentiam-se confiantes, pois no dia D, na hora H, um disco voador pousaria no quintal da senhora Martin e resgataria os que atendessem a seu chamado.

O dia azado chegou, mas também duas decepções amargas se apresentaram, embora a segunda tenha representado um alívio. O disco voador não apareceu, mas pelo menos o dilúvio também faltou ao encontro marcado.

Leon Festinger e alguns colegas conseguiram infiltrar-se na seita. Puderam, assim, responder à pergunta-chave: o que ocorre na dinâmica de um grupo de fanáticos quando a profecia falha?

Ora, como reagiram os bolsonaristas após o 7 de Setembro de 2021? Vale dizer, quando, após incitar sua base a violentas ações golpistas, o mito recuou e, dócil, demasiadamente dócil, assinou uma cartinha contrita que, emasculação máxima, foi redigida por Michel Temer. E, ao que consta, em ligação para o ministro do STF Alexandre de Moraes, não se esqueceu das lágrimas, muitas e nada caladas.

Festinger e seus colegas fizeram duas descobertas de grande relevância. De um lado, os adeptos da Fraternidade não abandonaram suas convicções. Pelo contrário, racionalizaram o fracasso da profecia dobrando a aposta: o anúncio do dilúvio teria prevenido sua ocorrência! A energia mental empregada na advertência da catástrofe foi razão suficiente para alterar os desígnios dos habitantes de Clarion.

De outro, a última frase do livro inaugura uma radicalidade para a qual o próprio Festinger não estava preparado, mas que explodiu no século 21: “Eventos conspiraram para oferecer aos membros da seita uma oportunidade verdadeiramente magnífica para que crescessem em números. Tivessem sido mais efetivos, a fracassada profecia poderia ter sido o começo, não o fim”.

A publicidade vertiginosa, gerada pelo espetacular malogro da predição, permitiria converter o insucesso em fator de crescimento, em uma fase inédita de expansão da fraternidade, em lugar de seu desaparecimento. Soa familiar?

A suprema humilhação de Bolsonaro diante do ministro Alexandre de Moraes não esmoreceu o ânimo de seus seguidores para novas escaladas golpistas, combas e em ridículas teorias conspiratórias a respeito das urnas eletrônicas. Como explicar esse comportamento de povo marcado, ê, povo feliz?

Midiosfera Extremista

A abertura de “Quando a Profecia Falha” ata as pontas do argumento que fez Festinger hesitar: “Um homem convicto é resistente à mudança. Discorde dele, e ele se afastará. Mostre fatos e estatísticas, e suas fontes serão questionadas. Recorra à lógica, e ele não entenderá sua perspectiva”.

Retrato acabado do tipo ideal do bolsonarista? Acrescente a essa certeza paranoica o caráter coletivo de um poderoso circuito comunicativo e o caldo entorna, ou seja, o caos cognitivo torna-se realidade alternativa. Como lidar com o Brasil paralelo de dezenas de milhões de pessoas?

Festinger escreveu “Uma Teoria da Dissonância Cognitiva” para responder à perplexidade causada pela história interna da fraternidade. A petição de princípio é inequívoca: “A presença de dissonância gera pressões para reduzir a dissonância. [...] A presença de dissonância estimula ações para sua redução; de igual modo, a presença de fome leva a ações para reduzir a fome”.

Os itálicos são do autor, assim como o estilo tautológico. A reiteração angustiada retorna no último parágrafo do ensaio: “É também evidentemente necessário ser capaz de especificar quais são as mudanças específicas na cognição, ou quais os novos elementos cognitivos, que reduziriam a magnitude da dissonância assim determinada”. A redundância, deselegante, e a expressão, convoluta, sugerem o desconforto do autor.

Na verdade, o desconforto tornou-se parte do mundo contemporâneo na figura do que sugiro chamar dissonância cognitiva coletiva, circunstância tornada possível pelo contágio favorecido pela mais poderosa máquina de desinformação da história: midiosfera extremista.

Trata-se de uma poderosa máquina de produção de narrativas polarizadoras, com base em fake news e teorias conspiratórias. Combustível da retórica do ódio, compõe-se de cinco elementos, quatro internos e um externo. Complexo sistema integrado que gera conteúdo radicalizador ininterruptamente.

Nele se encontram as malfadadas correntes de Whatsapp, as indefectíveis redes sociais, uma rede altamente tóxica de canais de Youtube e, por fim, aplicativos como TV Bolsonaro e Mano.

No interior dessa teia, circula sem cessar produção audiovisual que difunde o sistema de crenças bolsolavista, com exortação incessante a golpes de Estado e à eliminação física de adversários. Ainda mais importante: os membros da seita firmaram um pacto que atemorizaria o próprio Mefistófeles —ignorar toda informação que não provenha da midiosfera extremista.

O elemento externo é muito grave: a “mídia amiga” dos donos do poder, que, ao dar voz para fantasias as mais lunáticas, desestabiliza seriamente a democracia e estimula, no limite do crime, o projeto autoritário do bolsonarismo.

Na iminência do segundo turno das eleições, a midiosfera extremista transformou-se em uma usina sórdida de desinformação e seus artífices incorrem nos mais variados tipos criminais como se não houvesse amanhã. Todavia, se eles pararem para pensar, na verdade, descobrirão que o amanhã sempre vem.

O propósito da midiosfera extremista é a criação de dissonância cognitiva coletiva: temível máquina eleitoral pela transferência para a política da alta intensidade de engajamento das redes sociais. A fim de despolitizar a pólis, esteio de seu projeto político autoritário, o bolsolavismo tornou o Brasil um laboratório mundial de criação metódica de realidade paralela.

Eis a Esfinge que desafia a pólis brasileira. Sem decifrar sua dinâmica, não saberemos como superar o desafio maior da história republicana: a barbárie-bolsonaro.

Artigo de João Cezar Rocha publicado no jornal Folha de São Paulo a 9 de Outubro

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Quanto Mais Burro, Melhor!

Não sei se já tinha contado aqui que foi por causa do Nonio (que me impedia de ler digitalmente os jornais nacionais) que passei a ler o The Guardian. Entretanto motivado pela vontade de ler os textos da Carmo Afonso no Público, registei-me numa plataforma que me permite ler cerca de sete mil jornais e revistas de todo o mundo. Infelizmente o Público não é um desses jornais, mas comecei a ler outras coisas muito interessantes como o jornal Folha de São Paulo, jornal de grande qualidade, onde escreve, ao domingo, o nosso Ricardo Araújo Pereira.

Um texto de Lúcia Guimarães, hoje, sobre a recente edição de um livro nos Estados Unidos chamou-me a atenção e resolvi partilhar aqui: 


"Quem pensava que América do Sul era o nome de um país?
Quem descreveu o continente africano como uma nação?
Quem disse que o aquecimento global era uma invenção da China para destruir a competitividade da indústria americana?

Foram três republicanos que tiveram o dedo no botão nuclear -pela ordem de asneira, Ronald Reagan, George W. Bush e Donald Trump.

Todos os países têm sua história de políticos palermas que divertem. Mas chega um momento em que a gargalhada é interrompida pelo medo do estrago que os poderosos e estúpidos são capazes de fazer. Um livro lançado nesta semana nos EUA examina a evolução da atual safra de governantes asininos. O humorista Andy Borowitz é o autor de “Profiles in Ignorance, How America’s Politicians Got Dumb and Dumber” (perfis em ignorância, como os políticos americanos se tornaram mais e mais estúpidos). O livro é um exame forense e 100% factual da versão recente da tradição antiintelectual, um aspecto conhecido da história americana.

Borowitz acha que o pioneiro moderno do boçal estelar, há 50 anos, foi Reagan, o ator de filmes B cuja ignorância era tão gritante que sua campanha para governador da Califórnia, em 1966, contratou psicólogos de uma universidade para treiná-lo como um animal de laboratório. Acostumado a decorar falas em filmes, Reagan aprendeu a repetir o que seus instrutores escreviam em fichas e venceu a eleição com uma vantagem de mais de 1 milhão de votos.

O assessor de campanha responsável pelo banho de fatos em Reagan fracassou quando foi convocado a fazer o mesmo pelo então senador Dan Quayle, em 1984. A colunista texana Molly Ivins acompanhou Quayle em campanha e concluiu que o vice escolhido para a chapa de George Bush pai era mais estúpido do que parecia. “Se você implantar o cérebro de Dan Quayle numa abelha, ela começa a voar em marcha à ré,” declarou.


Reagan e Quayle, escreve Borowitz, representam o primeiro de três estágios da incultura na política: o ridículo, um saudoso período em que líderes podiam ficar envergonhados por dizer besteira.

O segundo estágio —a aceitação— tem como patrono George W. Bush. Ele achava que sua idiotice era benigna e o aproximava do povão. Bush se orgulhava de revelar que não abrira um livro quando estudava na Universidade Yale.

Em 2000, a campanha do republicano espalhou um slogan —“George Bush está concorrendo à Presidência, não a uma vaga em quiz show” — sugerindo que seu adversário, o relativamente pomposo ambientalista democrata Al Gore era quem ficava em desvantagem por ser culto.

Bush mostrou o poder do despreparo intelectual de provocar morte em massa. Dias depois de invadir o Iraque, ele recebeu uma delegação de iraquianos no Salão Oval e, pela primeira vez, ouviu falar que havia xiitas e sunitas no país. Perplexo, exclamou: “E eu pensava que os iraquianos eram muçulmanos!”.

O terceiro estágio da ignorância é a celebração, que assola tanto Washington quanto Brasília. Trump, conclui Borowitz, é profundamente ignorante, mas exibe, como o parvo capitão do Planalto, o que psicólogos chamam de “ilha de competência”: a capacidade de atrair a atenção proferindo estrumes verbais.

No atual estágio, um doutorado em Harvard, como o exibido por trumpistas republicanos, não é impedimento para tentarem convencer eleitores a tomar remédio de cavalo para combater a Covid.

O único antídoto para a nossa era de obscurantismo é votar.