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terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Fogo em Lume Brando

Dois desconhecidos, de cavernas distantes cruzaram-se na internet.
Sem nada saberem, sequer como o outro era ou como se chamava.  



Ela tinha 22 anos e ele tinha 32. 
Começaram a conversar e a querer saber do outro. 
Ela era muito misteriosa, defensiva mas também muito protetora e amiga. 
Ele achou-a muito madura para a idade que ela tinha. 
Ela falava-lhe do mundo dos ponteiros dela e ele falava-lhe do mundo das conexões do trabalho dele.
Ele falava dela para os amigos próximos e todos queriam saber daquela figura misteriosa que ninguém sabia quem era. Eles queriam-se muito sem querer mais nada, e isso bastava.

Ela tinha 22 anos e ele tinha 32. 
Tinham passado dois anos do maior desgosto de amor da vida dele...
Passado pouco tempo começaram a falar ao telefone.
E aos poucos passou a ser todos os dias da semana.
Todos os dias, e, enquanto ela apanhava os diversos transportes, ele fazia-lhe companhia. 
Ele era muito tranquilo, nunca a pressionava mas, aos poucos, parecia-lhe que algo não estava bem.
No fundo talvez já soubesse, mas não queria acreditar. 
Ela tinha 22 anos e ele tinha 32.
Ela tinha namorado e não lhe disse.

Ela agora tem 39 anos e ele tem 49. 
Ninguém sabe, mas foi ela que, há muitos anos, o incentivou a começar um blog. 
E anos depois de tantos anos de silêncio ela vasculhou no blog dele.
Como que à procura de um sinal. 
E algures viu que, recentemente, ele tinha falado dela. 
Significava que ele não a havia esquecido. 
Mas sentia-se culpada e com medo.
Entretanto, pé ante pé, voltaram a corresponder-se e a falar.
Mas, agora, como que por magia, até podiam ver-se. 
Afinal, ele agora até tem um smartphone e tudo. 
Estão mais velhos. 
E em momentos diferentes das suas vidas. 
Ela está a solidificar-se; ele ficou destruído. 

Ela agora tem 39 anos e ele tem 49. 
Ela tem namorado e disse-lhe.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

"Não tinha a intenção de encontrar esta missiva que desencadeou tantas memórias do meu passado. Estava à procura de outra coisa, remexendo numa antiga caixa na minha cave, quando encontrei uma carta de amor com décadas, escondida entre postais, artigos e fotografias.



Tinha o carimbo de setembro de 1991 e estava endereçada paraa mim através de entrega geral nos correios de Block Island. É um milagre que a tenha recebido. Era longa: cinco páginas de prosa manuscrita com espaçamento simples, desvendando a alma de um homem por quem me tinha apaixonado profundamente.

Ele escreveu: 

“Parte de mim odeia a arte, a literatura e a busca pelo eterno. Parte de mim não poderia viver sem isso. Estou dividido, esmagado e confuso.”

Ele continuou, mergulhando mais fundo na nossa crescente paixão. 

“Tu trazes o melhor de mim, mas não o consomes; brincas com isso, atacas, dás vida, mas não o consomes. Depois de estar contigo, sinto-me revigorado. Respeito-te pelo teu amor, pela tua força e pela tua franqueza. Nunca encontrei uma mulher tão segura do seu corpo.”

O sentimento era mútuo. Este homem era meu igual em todos os sentidos - intelectual, sexual. Era deslumbrantemente bonito, de ascendência alemã, tal como eu. Talvez os nossos antepassados se tivessem amado numa era distante?

Não éramos desconhecidos quando as nossas vidas colidiram - conhecíamo-nos na faculdade - mas qualquer atração na altura era atenuada pelo facto de estarmos em relacionamentos amorosos com outras pessoas.

Alguns anos depois, ele estava de férias com a família em Block Island, ao largo da costa de Rhode Island, onde eu trabalhava como empregada de mesa no Hotel Manisses. Ele viu-me a conduzir pela cidade e, mais tarde, andou de bicicleta por toda a ilha à procura do meu carro distintivo, com o vidro traseiro cheio de autocolantes da nossa alma mater. Foi uma grande surpresa quando ele chegou à casa que eu alugava com amigos e me encontrou sentada na varanda. Conectámo-nos instantaneamente e planeámos um encontro. E isso, como se costuma dizer, foi história. Uma explosão de mentes, espíritos e destino sexual.

Ele recordou esse tempo na sua carta, descrevendo as mulheres com quem tinha saído: 

“Todas pareciam tão desamparadas, tão dispostas a entregar-se; não falo dos seus corpos, mas da sua dignidade. Submetiam-se a mim. Tu, por outro lado, enfrentaste-me. Levaste-me até uma rocha num lago infestado de tartarugas mordedoras e seduziste-me. Mataste-me - de uma maneira boa, claro. Admiro mulheres fortes.”

Sorri ao recordar esta memória, recordando a nossa excursão noturna de mergulho nu em Sachem Pond e o amor que fizemos nessa rocha. Tão intenso que perdi uma coisa valiosa, uma pulseira de jade e prata feita pela tribo Shoshone no Wyoming. Uma relíquia esquecida, há muito enterrada sob a lama salobra.

Encontrámo-nos num momento terrível, ambos nos nossos vinte e poucos anos, tateando o caminho, tentando descobrir para onde apontavam as nossas bússolas. Eu tinha acabado de voltar da Europa; ele estava prestes a embarcar numa viagem de bicicleta de vários meses pelos Estados Unidos.

Ele escreveu: 

“Estou imprudente por ti. Não consigo acreditar que vou estar longe de ti tanto tempo. Como será? Por outro lado, achas que poderíamos passar longos períodos juntos? Não tenho a certeza. O sexo pode matar-nos. Mas estou disposto a tentar - alguma ideia? Áustria? Alemanha? Londres? Califórnia? Canadá? Isto pode ser pesado demais.”

Na altura, o meu coração explodia de alegria com as suas palavras, vendo as nossas conversas íntimas traduzidas em papel, referenciando lugares que eram importantes para ambos. Tudo o que eu queria era abraçá-lo, beijá-lo e gritar, “Sim!” Mas nem sequer tinha uma forma de o contactar na estrada, isto sendo antes dos telemóveis e da internet. Teria sido loucura reorganizar as nossas vidas um em torno do outro após tão pouco tempo? Sim. Mas eu teria ido até ao limite da insanidade por este homem, e não creio que ele soubesse disso.

Nunca tivemos a oportunidade de explorar essas opções tentadoras. O nosso pouco tempo juntos, mais tarde naquele outono, foi demasiado confuso com encontros estranhos, em parte porque nenhum de nós tinha vidas estáveis ou uma ideia clara de onde estavam os nossos futuros. Pelo menos, eu não tinha. Além disso, não consegui dar-lhe o que ele precisava, em termos de palavras. Tinha sido condicionada por um amor anterior a nunca revelar demasiado.

Havia um milhão de coisas que eu queria dizer a este homem. Concordava com tudo o que ele escreveu e mais ainda. Mas não consegui, ou não escrevi. Já passou tanto tempo que não me lembro. De qualquer forma, o que quer que tenha produzido não foi suficiente, e o meu coração partiu-se naquele Natal quando ele partilhou a sua decepção com a minha incapacidade de expressar os meus sentimentos como ele.

Nessa altura, eu tinha mudado para a Califórnia, e ele estava a fazer as malas para a Europa. Passámos o nosso último dia juntos numa praia em Santa Monica, sabendo que as coisas tinham corrido mal.

Acredito verdadeiramente que se tivéssemos arriscado e nos mudado para algum lugar juntos, poderíamos ter partilhado um amor e uma vida incríveis. Mas era demasiado para contemplar na altura, e não conseguimos superar as barreiras estruturais e emocionais.

Agora, quase 35 anos depois, acredito que ele foi um parceiro perfeito para mim de mais maneiras do que uma, confirmando aquele instinto primitivo que tive quando jovem. As coisas poderiam ter funcionado. Mas não funcionaram.

Ele escreveu: 

Não quero uma jovem frágil e delicada ao meu lado; quero uma mulher que se possa cuidar, uma mulher que possa temer, amar, respeitar e brincar.

Essas palavras ainda doem agora, quase tanto como quando o encontrei alguns anos depois com a sua esposa ao lado, uma mulher que conheceu logo depois de namorar comigo. Ele fez uma piada desculpando-se sobre a sua conexão, parecia, e tentei não mostrar o quanto isso me magoava.

Segui caminhos diferentes, amei homens diferentes, e estou grata por essas experiências. Especialmente pelo homem com quem casei e os filhos que partilhamos. Mas, quanto mais envelheço, mais confortável estou com a ambiguidade e dualidade coexistindo dentro do meu coração. Amo desesperadamente o meu marido e lamento que esta outra relação não tenha funcionado.

Já fazia muito tempo que não estávamos em contacto, então fiz uma pesquisa rápida na internet. Para meu choque, descobri que, após anos a viver milhares de quilómetros de distância, ele e a sua esposa agora vivem muito perto de mim. Perigosamente perto. Considerei ligar-lhe, mas não o fiz. Adoraria vê-lo, mas não tenho pressa.

Ele tinha escrito, depois de descrever o que queria numa mulher: 

“És tu essa mulher? Às vezes, parece que sim. Somos jovens, no entanto. Não quero manchar o que temos prevendo um futuro sério/delicioso. Por agora, quero-te tal como és, e em poucas semanas, sentirei a tua falta e desejarei-te.”

Enterrei a cabeça nas mãos depois de ler essas palavras, sentindo a falta deste homem poético e bonito e da paixão que partilhámos. Mas agora somos mais velhos, com famílias. Fizemos as nossas escolhas, seguimos caminhos diferentes. O que poderíamos partilhar agora quando esse tipo de amor ou futuro já não está em cima da mesa?

De qualquer forma, as coisas mais importantes que quero dizer-lhe são as palavras que escrevi aqui: amei-te profundamente uma vez, e lamento tanto que não tenha funcionado entre nós.

Talvez ele leia este ensaio numa manhã de domingo, bebendo café à mesa da cozinha. Reconhecer-se-á ou às suas palavras? Sente o mesmo? De certa forma, isso não importa. Sempre poderei saborear as nossas memórias. Mais um capítulo numa vida rica pela qual estou muito agradecida.

Provavelmente farei outra coisa também. No último ano, passei por uma grande evolução na minha vida e comecei a escrever livros, quase três até agora, todos tratando de amor e relacionamentos. É a maior diversão que já tive, e para o bem ou para o mal, sou mais capaz de expressar os meus sentimentos por este homem agora.

E isso, sinto, é provavelmente a melhor e mais segura maneira de lidar com algumas das emoções que revi quando li a sua carta. Escrever uma história de amantes amaldiçoados pelas circunstâncias e pelo mau timing. Consigo vê-la agora no olho da minha mente, numa noite de verão quente em Block Island.

A Life Shaken by an Old Love Letter / The New York Times (28 / 7 / 2024)

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Adeus ao Mito do Amor Romântico - Há Outras Formas de Amar

Há duas ou três semanas apanhei um casal na Prova Oral da Antena 3 a falar de poliamor. E ao que parece até têm um espetáculo a falar da coisa. Eu tenho todo o respeito por outras conceções e formas de amar e fiquei a ouvir porque o tema das relações e do amor sempre me interessou mas a forma como ouvi ali retratado por aquele casal é uma enorme complicação! Eu não quereria aquilo, assim, daquela forma, para mim. Uma pessoa pensa em poliamor e pensa em amor livre, não naquela coisa tão complexa e cheia de regras e nomes complexos. 

E, por coincidência, dias depois mostraram-me a sátira que a Joana Marques fez e eu acabei a concordar com a maioria das críticas. Aquilo que aquele casal descreveu não são relações humanas mas sim uma tese de doutoramento, ainda que envolvido por verdades. 

E a verdade é que, por muito que custe a muita gente, não há relações monogâmicas. Eu pelo menos não conheço nenhum casal monogâmico. Vocês conhecem? Monogamia é um parceiro para a vida. Não é ser fiel numa relação e passado um tempo ter outra relação fiel. Depois, a monogamia é uma construção cultural e social, e não sou eu que digo, diz quem sabe do assunto como o Júlio Machado Vaz ou o Daniel Sampaio. Mesmo na natureza, quase não há espécies monogâmicas. 

E eu não sei como deveria ser para funcionar melhor, e as pessoas que vivam como acharem que é melhor para si. Mas, uma coisa é certa, setenta divórcios por cada cem casamentos é um ato de fé. Algo está muito errado. Ou é a sociedade pós-moderna ou é o tipo de relações que as pessoas vivem nesta sociedade, cada vez mais acelerada e sem tempo. Relações fugazes, pessoas egoístas e narcisistas, cada vez mais menos importadas com o outro e só interessadas o seu umbigo. Pessoas que cada vez menos sabem aquilo o que querem e andam no mundo por ver andar os outros.

Mas, para repensar o tema "outras formas de amar", aqui deixo um artigo publicado no El País a 16 de Abril de 2023:




"Há outras formas de amar. A busca pelo sonho romântico pode ser contraproducente e tornar as pessoas infelizes. Precisamos de uma nova teoria do amor que considere, entre outros modelos, o poliamor.

A história de amor romântico que todos aprendemos começa com um rapaz e uma rapariga. Conhecem-se, cortejam-se e apaixonam-se. Enfrentam contratempos e dificuldades que devem superar, mas, contra toda a lógica, acabam juntos "e viveram felizes para sempre".

Isso significa que a maior parte do relacionamento — a maior parte do amor — desenrola-se depois de terminar o conto. Como se supõe que o amor deve ser uma vez que atingimos esse "viveram felizes para sempre"? Devemos acordar todas as manhãs com o coração alegre, cantando canções da Disney para os pássaros e as criaturas da floresta?

Claro, sabemos que esse é um objetivo pouco realista para a nossa vida. Assim como sabemos que os padrões de beleza criados pelos publicitários e influenciadores são um objetivo pouco realista para o nosso corpo. Mas há um inconveniente: saber isso não nos impede de nos compararmos com essas referências pouco razoáveis. Continuamos a sentir-nos insuficientes quando vemos esses corpos "ideais" e percebemos a distância que os separa do nosso.

O mesmo acontece quando pensamos que a vida "ideal" é o "viveram felizes para sempre" no final de uma história de amor: a distância entre essa fantasia e a nossa realidade torna-se clara. Na vida real, podemos estar sozinhos, talvez por escolha própria ou talvez não. Ou, se tivermos um relacionamento, pode ser complicado ou turbulento. Ou, mesmo que tenhamos um relacionamento pacífico e estável, a nossa vida pode ter dificuldades e obstáculos de outro tipo, tornando esse "viveram felizes" tão realista quanto viver em Marte.

No entanto, poderíamos pensar: Não é bom ter um objetivo a que aspirar? Dessa forma, esforçamo-nos para alcançar um objetivo, embora na verdade seja inatingível, e esse esforço, sem dúvida, melhorará a nossa vida. Mas aqui está a questão: neste caso, não acredito que seja assim. Tentar tornar realidade a ideia romântica de um amor "viveram felizes para sempre" é um plano errado.

Porquê? O que há de errado em tentar ser feliz? Acaso "a busca da felicidade" não é um dos nossos direitos inalienáveis, tão crucial que é mencionado junto com "a vida" e "a liberdade" na Declaração de Independência dos Estados Unidos?

Como costuma dizer-se, é preciso ter em conta a fonte. A busca da felicidade faz parte da conceção americana de uma boa vida. Mas, em geral, até que ponto os Estados Unidos estão a melhorar a vida dos seus habitantes? Segundo o Centro de Controlo de Doenças de Atlanta, a esperança de vida nos Estados Unidos está a diminuir; e o censo de 2021 revelou que 11,6% — 37,9 milhões de pessoas — vivem na pobreza. De acordo com o relatório do índice de progresso social de 2022, "nos Estados Unidos, o progresso social permanece estagnado desde 2011 e está em declínio desde 2017". Existem múltiplos fatores que explicam essa situação lamentável, mas, de qualquer forma, o país não é propriamente um grande exemplo para "a busca da felicidade".

Os filósofos e outros teóricos têm vindo a afirmar há muito tempo que a busca da felicidade não te torna feliz. Pelo contrário, considera-se contraproducente. Isso é conhecido como o paradoxo da felicidade. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl escreveu em 1946 que "uma característica da cultura americana é que, uma e outra vez, somos instruídos a 'ser felizes'. Mas a felicidade não pode ser perseguida; deve acontecer." O filósofo inglês John Stuart Mill escreveu em 1873: "São apenas felizes... aqueles que têm a mente focada em algum objeto que não seja a sua própria felicidade: na felicidade dos outros, na melhoria da humanidade, até mesmo numa arte ou passatempo, que perseguem não como um meio, mas como um fim ideal em si mesmos. Assim, quando tentam alcançar outra coisa, encontram a felicidade no caminho."

Para pensadores como Mill e Frankl, a felicidade não é um objetivo, mas um efeito derivado de uma vida que tem significado para a pessoa que a vive.

E isso leva-me a suspeitar que devemos aplicar a mesma sabedoria quando pensamos em procurar o "viveram felizes para sempre" romântico como objetivo na vida. Talvez, em última instância, essa busca também seja contraproducente; e quando penso em quantas pessoas perseguem o sonho romântico apenas para acabarem infelizes, não posso deixar de sentir que há algo nisso.

Desde que Frankl escreveu nos anos 40 sobre "a ordem de ser feliz", tem havido uma tendência crescente, especialmente na cultura dominante americana, de "centrar-se no positivo" e enfrentar "apenas com boas vibrações" qualquer situação. O resultado pode ser que as pessoas que se queixam e outros considerados "negativos" sejam envergonhados ou ignorados. Isso é chamado de "positividade tóxica". Um elemento importante desta mensagem é que, se não somos felizes, é nossa culpa porque não nos fazemos felizes a nós mesmos. (Não são consideradas questões estruturais como o racismo, o colonialismo, a misoginia, o capacitismo ou a pobreza. Apenas o individual importa).

Neste contexto, o "viveram felizes" romântico tornou-se o modelo de uma vida amorosa bem-sucedida, e o correspondente "romantismo tóxico" diz-nos que, se não alcançamos esse estado ideal, é nossa culpa ou um fracasso pessoal.

Então, o que se pode fazer? Muitas coisas podem ser ditas a respeito, mas acredito que uma das decisões mais importantes que podemos tomar é deixar de nos obsessar com a felicidade — seja na vida ou no amor — como ideal ou como objetivo. Em vez disso, precisamos valorizar mais a enorme variedade de experiências emocionais humanas, incluindo as chamadas emoções "negativas", como tristeza e raiva. Todas as emoções desempenham um papel importante nas nossas vidas e, na minha opinião, todas podem fazer parte do amor.

Quando decidi intitular o meu novo livro "Amor Triste", foi porque me fascinou a suposição de que o amor sempre tem que ver com a felicidade. Quando perguntamos a um amigo se o relacionamento está indo bem, perguntamos se ele está "feliz com" o parceiro. Se estão "felizes juntos". Tendemos a assumir que estão em busca do "viveram felizes" romântico com essa pessoa. Em contraste, quando pensamos num amor triste, geralmente imaginamos algo devastador. Desde a cultura clássica, com histórias como "Cumbres Borrascosas" e "Romeu e Julieta", até as nossas listas de reprodução favoritas e catárticas para as separações, na nossa cultura, o amor triste é representado como uma situação de fracasso total: atroz, devastador e explosivo. Parece que só conhecemos duas histórias de amor: o conto de fadas e a tragédia.

Esses dois relatos tão polarizados deixam de lado o imenso espectro de experiências complicadas e cheias de nuances que compõem a nossa vida e os nossos amores na realidade. Por exemplo, quando lutamos com a escala de cinzas de uma depressão de longa duração, não estamos felizes, mas também não estamos melodramaticamente tristes. No entanto, podemos estar apaixonados. Devemos entender o amor como algo que abraça todas as nossas emoções, até as mais monótonas.

Uma vez que esquecemos a história do "viveram felizes para sempre" como o único modelo de uma boa vida, abre-se todo um leque de possibilidades sobre como viver uma vida cheia de amor. Novas histórias surgem como possíveis modelos amorosos: o poliamor, por exemplo, onde é aceitável ter mais de um parceiro romântico ao mesmo tempo, com o conhecimento e o consentimento de todos. A ideologia romântica dos contos de fadas diz-nos que esta é uma forma de amar de segunda categoria ou depravada. No entanto, a realidade é que, quando todos os envolvidos se sentem mais confortáveis e completos numa dinâmica de relacionamento não monogâmico, envergonhá-los ou estigmatizá-los por seguir o seu modelo de boa vida está fora de contexto e é injusto.

Se deixarmos para trás a ideia de "viveram felizes para sempre" e a conceção romântica do amor, com o que substituímos? Se dermos ouvidos a Frankl e Mill e pensarmos que a felicidade não é um objetivo a aspirar, mas algo que deve ocorrer, então também podemos considerar que a felicidade numa relação não é um ideal ou um objetivo pelo qual lutar, mas sim um possível efeito derivado de um amor que possui outras qualidades.

Quais seriam essas qualidades? Na sua obra, Frankl baseia-se nas suas experiências com outros prisioneiros num campo de concentração nazi para tentar compreender o que diferencia uma vida que vale a pena viver de outra que não vale. O que importa, diz ele, não é a felicidade, mas ter um sentido, um propósito. E em tempos mais recentes, aumentaram os dados empíricos que apoiam a afirmação de que a felicidade deriva de encontrar significado na nossa vida, muitas vezes (como também propuseram Frankl e Mill) através da conexão e colaboração social. Suponhamos, portanto, que o objetivo supremo de uma relação amorosa não é a felicidade, mas sim ter um significado. Em que consistiria esse amor carregado de significado?

Quando os filósofos analisam a ideia de uma boa vida, costumam falar de eudaimonia, uma antiga palavra grega usada por Aristóteles para expressar as suas ideias sobre o "florescimento". Não sou muito adepta das ideias de Aristóteles sobre a eudaimonia (entre outras coisas, ele afirmava que o florescimento consiste em ser racional e virtuoso, e que só as pessoas belas podem alcançá-lo completamente). Em vez disso, prefiro focar-me nas raízes etimológicas ainda mais antigas de eudaimonia. É uma palavra construída a partir do prefixo eu-, que significa bom (como em euforia), e daimon, que significa espírito ou entidade sobrenatural. Portanto, uma vida eudaimónica é uma vida com bom espírito.

Não é necessário interpretar literalmente esse daimon ou espírito como uma entidade sobrenatural. Podem ser simplesmente outras pessoas: não é nada de novo que as relações prosperem quando contam com o apoio de amigos e familiares, e se ressintam quando estão sujeitas ao estigma social. Mas os daimon que influenciam as nossas vidas também podem ser mais abstratos: a "atmosfera" de uma reunião, um zeitgeist cultural ou até mesmo grandes conceitos amorfos como o capitalismo ou o patriarcado.

O que tento fazer no meu trabalho é desenvolver uma teoria do amor eudaimónico, um amor "com bom espírito", que leve em consideração as profundas e dramáticas repercussões da nossa capacidade de nos conectar. A nossa vida amorosa não se desenrola no vazio ou "em privado": mesmo quando nos isolamos na nossa vida convencional ou fechamos a porta do quarto, levamos connosco a nossa história social e a nossa bagagem cultural.

Amor eudaimónico significa amor colaborativo, dentro e fora da relação. É um tipo de amor cujo objetivo não é a felicidade individual das pessoas naquela relação, mas os projetos criativos e as relações sociais que dão sentido à nossa vida, as coisas que fazem com que valha a pena viver, segundo pensadores como Frankl. É o amor que conta com o apoio de amigos, família, comunidade e sociedade (por isso é tão importante deixarmos de estigmatizar todas as formas de amor que se afastam do que consideramos "normal"). O amor eudaimónico não é definido por nenhuma emoção em particular, mas está aberto a toda a gama de experiências emocionais, positivas e negativas. Não precisa ser um amor romântico, embora possa ser: o amor a um amigo ou o amor à família também podem ser amor eudaimónico.

E não é necessariamente feliz. Mas talvez seja a nossa melhor oportunidade de sermos felizes.

Sempre que não o procuremos por esse motivo.

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Carrie Jenkins é professora de Filosofia na Universidade de British Columbia, Canadá. O seu livro "Amor Triste. As relações amorosas e a busca de sentido"

El País | 16 de Abril | 2023

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Se Me Traíste Não Precisas de Me Contar Pormenores

" São cada vez mais raros estes amores.


O que eu acho é que agora as pessoas confundem paixão com amor. E depois quando a paixão acaba - que é por natureza uma coisa efémera, muito intensa, avassaladora e felizmente as pessoas unem-se pela paixão e fazem um projeto de vida - mas depois a paixão tem as suas vicissitudes e acaba. E o que eu digo a muitos casais jovens que me procuram numa situação de rotura ou mesmo depois de separados e me dizem "o amor acabou", eu costumo dizer "não, o amor não começou", porque o amor é uma construção e essa construção demora tempo e, no meu entender, é preciso ultrapassar as crises. 

Eu não sou nada contra as relações curtas e casuais, não tenho nenhuma posição moralista sobre isso, o que eu acho é que uma relação amorosa longa é uma relação que confere estabilidade emocional e confere segurança psicológica. E essa é uma dimensão importante da nossa vida. Nós temos a sobrevivência biológica (comer e beber) mas depois há outra parte muito importante que é a sobrevivência psicológica e, no meu entender isso deriva muito das relações que nós tivemos com os nossos pais na infância (que são importantes emborra não totalmente determinantes) e depois as nossas relações com o par romântico. São relações muito importantes e estruturantes da nossa maneira de estar no mundo. 

O casamento como instituição eu acho que está em crise e teve um peso muito grande na vida das pessoas. É como se as pessoas tivessem que ser como as princesas e os príncipes, tivessem que casar e ser felizes para sempre. O livro abre com uma citação de um mestre americano que diz que "o casamento é um estado horrível, a coisa pior é ser solteiro". Eu concordo muito com isso. É muito difícil ter uma relação ao longo do tempo com uma pessoa, mas, como eu lhe dizia é estruturante, transmite serenidade e é um antídoto para a ansiedade das nossas vidas. Sobretudo se formos capazes de partilhar a vulnerabilidade que todos nós temos com a pessoa que está ao nosso lado. Há vários ingredientes dessa relação estável. Um deles é a delicadeza no trato. É muito interessante porque nós verificamos que muitos casais não se tratam bem. Não têm gentileza, amabilidade. Isso é fundamental numa relação a dois. Pensarmos o que é que as nossas palavras vão provocar no outro. E depois há outra coisa também que é muito característica da sociedade atual, que é a pessoa estar muito auto centrada. Ser muitas vezes narcísica, cultivar o seu bem estar pessoal, o bem estar do seu corpo e do seu espírito. Isso também é um ingrediente contra a relação a dois porque temos que pensar no outro. 

Mas também defende que há coisas que não devemos dizer...

Sim, isso é também outro mito, que se deve dizer tudo ao parceiro(a) com quem estamos. Eu acho que há coisas que são do nosso íntimo, por exemplo fantasias que nós temos a meio da noite, pensamentos estranhos que nos aparecem... Não temos que partilhar tudo. E, muitas vezes, essa partilha vai ferir o outro. Na história desse livro "Para tão curtos amores tão longa vida" entre o João e a Luísa, eu fiz de propósito e os dois foram infiéis, porque a infidelidade é um tema muito importante na relação prolongada e então pus um a contar e o outro a não contar. Isso foi propositado para suscitar a discussão sobre um tema que me interessa muito que é, justamente, revelação, o que é que nós devemos contar. E quem ler o livro fica com essa dúvida. O que é que é certo contar ou não contar. Não tenho uma resposta para isso, o que eu acho é que, em cada situação cada pessoa deve refletir sobre o que deve contar e não deve ter o mito de contar tudo o que se passa à pessoa com quem vive. 

É muito difícil superar de uma traição?

O caso do João e da Luísa do meu livro ilustra isso. Ele soube da infidelidade da mulher e muitos anos depois continua a falar sobre isso. Eu acho que nós temos que desdramatizar um pouco a monogamia e a infidelidade e não temos que dar um cunho tão crítico a certas situações de infidelidade porque elas são muito diversas. Por exemplo, eu digo no livro que há casais felizes onde aparecem traições. E as pessoas não sabem porquê. Foi uma situação que ocorreu, não sabem explicar porquê. Por exemplo, o caso da Luísa que foi um caso que durou um ano, não é tão pouco quanto isso, ela, de facto nunca quis pôr em jogo o seu casamento. Foi uma coisa que aconteceu, que foi seguramente importante para ela, não foi uma relação de curta duração, para uma relação extra conjugal uma relação de um ano é significativo, mas nós podemos pensar que a ligação com o João era a relação mais importante para ela. Ela nunca quis pôr isso em causa. O problema é que ele pôs em causa quando se sentiu traído. Esse casal tem que fazer um movimento que é um movimento de reparação no caso de quererem continuar juntos e esse movimento de reparação é difícil de fazer porque as pessoas ficam muito magoadas. 

O ciúme do homem é diferente do ciúme da mulher. O homem tem muito ciúme ligado à sexualidade. Portanto ele fez muitas perguntas "quantas vezes fizeste amor com ele"? "como é que foi"?, e ela nunca respondeu. E fez muito bem em não responder. Porque não se pode alimentar essa situação porque a pessoa que está a fazer perguntas é insaciável e, se faz dez a seguir faz trinta. Portanto, é preciso dizer "isto aconteceu, vamos agora projetar-nos no futuro". Não esquecer porque isso não é possível, mas vamos avançar no sentido da reparação do nosso sofrimento. Agora, se a pessoa está permanentemente a atualizar o que se passou nessa altura não é possível continuar. 

Acredita na monogamia ou é uma construção cultural e social?

É uma construção social e cultural. O que eu diria sobre isso é que a monogamia é desejável mas é difícil. 

Entrevista de Inês Menezes a Daniel Sampaio no programa Fala com Ela a propósito deste seu último livro. 

domingo, 17 de setembro de 2023

A Vida Secreta das Palavras

Há filmes que tenho de voltar a rever e, um deles, é este "A vida secreta das palavras". 

"Eles fecharam a plataforma. 
E para onde é que irão todos?
Ofereceram-nos trabalho no Chile. O Simon vai voltar e tentar o negócio do restaurante.

Chile...
Eu ainda não decidi o que fazer.
Ando a pensar nisso.
Que bom.

Eu pensei que... tu e eu...
Talvez pudéssemos ir para algum lugar juntos.
Um destes dias. Hoje.
Agora mesmo.
Anda comigo, Hanna.

Não, eu...
Não creio que isso seja possível.
- Por que não?

Porque acho que se formos embora,
para algum lugar juntos...
Tenho medo de que um dia...
Talvez não hoje...
Talvez amanhã também não,
mas um dia, de repente...
posso começar a chorar e chorar muito
que nada nem ninguém pode me impedir.
E as lágrimas encherão a sala,
Eu não vou conseguir respirar,
e eu vou levar-te comigo para o fundo comigo,
e os dois nos afogaremos.

Mas vou aprender a nadar.
Juro.

domingo, 20 de agosto de 2023

Intimidade Artificial - A Calamidade do Século

Nunca estamos 100% presentes com os nossos amigos, amantes ou familiares.


Este artigo foi publicado no jornal Folha de São de Paulo a 20 de Março de 2023.

"Esther Perel é psicoterapeuta. Nasceu na Bélgica, filha de sobreviventes do holocausto. Hoje é professora da universidade de Nova York e especialista em temas como solidão e relacionamentos contemporâneos, incluindo relações amorosas. 

Quando nos relacionamos com nossos amigos, amantes ou familiares nunca estamos 100% presentes. Nossa atenção está sempre dividida entre as pessoas e o nosso telemóvel, redes sociais, notificações e assim por diante. Neste contexto não é possível ter intimidade real.


As redes sociais e o telemóvel funcionam como anestesia seletiva para as relações humanas. Queremos as partes boas do convívio, que são do nosso interesse, mas evitamos ao máximo atritos, conversas desconfortáveis, o tédio etc. Sempre que algo desconfortável começa a materializar-se, partimos para o mundo confortável e controlado do telemóvel, que nos distrai do que é verdadeiramente humano.


Esta é a intimidade artificial. Estamos todos a viver coletivamente a experiência do rosto parado que o psicólogo Edward Tronick realizou nos anos 1970. Nele, uma mãe primeiro é gravada relacionando-se normalmente com seu bebé de 6 meses. Ela sorri, o bebé sorri de volta. Ela fala qualquer coisa e o bebé dá uma gargalhada. No segundo momento a mãe paralisa seu rosto. Olha fixamente para o bebé, sem expressar reação. O bebê então gargalha. A mãe permanece impassível. O bebé começa então a gritar. Nenhuma reação da mãe. O bebé então chora e grita desesperadamente, até que a mãe retoma suas reações normais e acolhe a criança.


No mundo atual somos todos simultaneamente a mãe e bebé. Como somos incapazes de dar atenção integral ao outro, estamos sempre em dívida emocional com os que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, somos o bebé, sedentos por atenção. Nunca houve uma carência tão grande por escuta e acolhimento como a que viver coletivamente no mundo de hoje.


Esther nos conclama a nos rebelarmos contra a intimidade artificial. A exigir e a dar atenção total para aqueles com quem nos relacionamos. A darmos o difícil passo de aceitarmos o conflito e o atrito, parando assim de nos anestesiarmos parcialmente o tempo todo. Sem isso seremos obrigados a conviver com relações que julgamos “defeituosas” o tempo todo.


Uma investigação realizada nos EUA em 2019 apontou que 22% dos “millenials” têm hoje zero amigos; 25% dizem não ter conhecidos. Muitos têm um número de seguidores gigantesco, mas amigos mesmo, nenhum. Nas gerações anteriores só 9% afirmavam não ter amigos. E não é por acaso que ansiedade e depressão são um dos assuntos que hoje mais circulam nas redes sociais entre adolescentes e crianças. 


Na era da intimidade artificial, não são só as amizades que estão em risco, mas também as relações amorosas e familiares. Apertem os cintos para a sociedade da solidão, com consequências nefastas para todos os campos da vida humana.




sábado, 15 de julho de 2023

E falar... Porque eu acho que as pessoas não falam

 "E falar... Porque eu acho que as pessoas não falam. E eu tenho sentido isso. Não é só nos casamentos. É nas amizades, com os filhos... Não há essa disponibilidade para escuta. Tudo muito acelerado à procura de não sei quê. Esse lado de cuidar, de regar o casamento vem muito do exemplo que eu tive dos meus pais que eram grandes companheiros e acho que é isso que nos une. Nós somos bons companheiros, cumplices, apaixonados, porque há momentos maus. Qual é o casamento que não tem problemas? Estaria a mentir e quem disser isso está a mentir de certeza absoluta. Todos temos maus momentos, bons momentos, mas há que estar atento a esses maus momentos. "Ui! Isto está aqui qualquer coisa que está diferente. Olha, vamos jantar"? Está tudo bem. Ou da parte de um ou da parte do outro. E eu sou uma pessoa que escuto muito - e eu sei e o Gonçalo muitas vezes diz: "o nosso casamento dura porque tu és uma pessoa muito atenta" - e não há mal nenhum de um lado ser mais atento que o outro. O Gonçalo é extremamente esforçado, mudou muitas coisas na nossa relação e isso também é importante. Nós evoluirmos e crescermos juntos porque eu conheci o Gonçalo e ele tinha vinte e tal anos. Eu casei com 27 e ele com 23. Foi pai com 25, foi pai muito cedo, não é? E eu sempre quis ter uma família. E, de alguma forma, eu também o arranquei para este lado, família, unidos... Eu tenho muito esse lado, se calhar norte de que levo tudo à frente. Ele teve uma educação diferente da minha e eu levei um bocadinho para isso e esta atenção é muito importante nas relações. 

E não é só no casamento. É nos amigos Está tudo muito virado para o ego e isto chateia-me, fico desiludida porque eu sou uma pessoa que dou mas que não estou à espera. O problema é que as pessoas depois só vêem aquilo. Estão à espera que a gente alimente os egos e não podemos fazer isso. Um bom casamento é tu dizeres ao teu marido que fizeste porcaria e que isto não é bom, eu não gosto. Ah, mas não gostas porquê? Então eu vou-te explicar. Vamos conversar. Porque agora gosta-se de tudo. Porque se a gente disser que não gosta ou é porque temos inveja ou é porque somos uns ressabiados. E não, não há espírito crítico, não há espírito de reflexão. E isso num casamento tem que existir, sobretudo para nós os dois que somos atores, criadores, trabalhamos os dois juntos... Quem nos conhece nós estamos sempre a discutir mas as discussões são de evolução, construção. O Gonçalo muitas vezes escreve qualquer coisa, mostra-me e eu: "queres a minha opinião sincera"? Sempre. Eu sempre fui verdadeira e sempre fui sincera com ele, com os meus amigos, com os meus filhos. Eu não consigo ser de outra forma. E muitas vezes vezes até sinto que isso vai contra mim. 

Hoje em dia não encontras muitas pessoas que sejam realmente e efetivamente sinceras. Isto é muito importante nas relações, a frontalidade e a sinceridade. Porque já se deixou de discutir. Antigamente - pareço uma velha a falar não é? - mas no Porto havia muitos cafés depois do espetáculo em que íamos beber uma cerveja e as pessoas que nos iam ver e falava-se sobre os espetáculos, sobre o que tinham gostado, o que tinham achado, o que tinham sentido. Hoje já não se fala de nada, vai tudo para as redes sociais falar e escrever. E acabou o confronto, os olhos-nos-olhos, que isso é muito importante na vida. 

Carla Maciel / Fala com Ela / Antena 1 (a propósito do filme Légua)

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Amor Contactless


Uma das notícias desta semana é que o nosso cartão de cidadão vai passar a ser contactless, sem contacto, basta aproximar e já está, tal e qual os cartões multibanco (e nunca foi tão fácil comprar, pagar e ficar sem dinheiro na conta!) 

Tudo está cada vez mais rápido, mais fácil, mais descartável. Tudo está cada vez mais contactess.

A sociedade humana evoluiu tanto e estamos tão modernos que também as relações humanas, quer sejam de amizade ou amor, também elas passaram a ser contactless. Sem contacto, sem afeto, sem toque, sem conversa, sem presença. Contactless.

Bem vejo à minha volta. Não se conversa, mete-se os fones nos ouvidos e está cada um no seu mundo virtual a ser escravo do divertimento muitas vezes idiota.

Ainda por estes dias o Júlio Machado Vaz dizia que as queixas dos casais no que se refere à intimidade evoluíram do "ela fica a ler na cama" para "ele fica a ver televisão" para "fica cada um na cama a olhar para o telemóvel. 

A ditadura do divertimento matou as relações humanas. E o amor passou a ser contactless. 

domingo, 25 de junho de 2023

O Triângulo das Infidelidades


 Num dos últimos "O Amor é" discutiu-se um artigo publicado na revista Visão intitulado "Porque se escolhe certas pessoas e não outras na hora de ter um ‘caso’ e apeteceu-me tirar algumas notas com a minha parca experiência dessa figura geométrica que é o triângulo amoroso mas baseado também em em tudo que se vai passando à minha volta e nas minhas perceções. 

A pergunta para um milhão de euros é: afinal, porque é que as pessoas traem? Dá-se voltas e mais voltas e os especialistas tentam explicar porque é que, a partir de determinado momento as pessoas deixam de comer o feijão com arroz que tanto adoravam para, não raras vezes e a percentagem é muito alta, de irem petiscando outras coisas. Se calhar o problema é as pessoas serem omnívoras, não sei!

E este é um ponto básico para mim. O ser humano não é naturalmente monogâmico! As pessoas forçam-se a uma monogamia voluntária, tal como os padres forçam-se à abstinência sexual, com os resultados que conhecemos. A verdade é que a ciência descobriu que já nem arganazes são fieis! A ideia de um homem para uma mulher, a invenção do casamento, a monogamia, tudo isso são para mim evidentes construções sociais. 

E o mais curioso é que nem sequer conseguimos concordar inequivocamente sobre o que é traição. Se para uns (mais os homens) a coisa é muito simples e trair implica sempre envolvimento físico. Para outros (mais para as mulheres) o simples facto de desabafar mais com a colega do trabalho ou andar a conversar com alguém na net já é traição.

Em que ficamos então? De repente lembro-me do pecado e do que aprendi na catequese que, segundo a visão cristã podemos pecar por pensamentos, palavras, atos e omissões! Se pudermos trair por pensamentos, palavras, atos e omissões, então desculpem lá, mas andamos todos as trair permanentemente! Também o pecado foi uma construção social. Uma mulher bonita era pecado; um ruivo ou um esquerdino (como eu) era obra de Satanás. Tudo era pecado e tudo é pecado para a Igreja. A única coisa que certamente não é pecado é violar crianças, isso não, pois se fosse pecado, os padres que conhecem como ninguém os desígnios do Senhor não o fariam. 

Se calhar convém então cada casal definir o que é traição e escrever uma espécie de Constituição com as regras fundamentais da relação. E então se ambos concordarem assina-se o compromisso!

Volto à monogamia. Se o ser humano fosse realmente monogâmico não precisaria de ir jurar (falso) ao altar ou assinar um papel em como ficará com aquela pessoa para o resto da vida, na sua e na doença. Se o ser humano fosse realmente monogâmico teria um parceiro para o resto da vida e nunca o trairia. 

A Inês Menezes perguntou ao Júlio Machado Vaz porque procuramos uma pessoa para ter um caso. E eu acho que muitas vezes nem sequer se procura. Muitas vezes simplesmente acontece.

Já agora fazer uma declaração de interesses: eu nunca traí. Pelo menos fisicamente não! Ou pelo menos com outro ser humano não! Sim, porque ainda me lembro de ouvir um "as tuas árvores deveriam morrer". Talvez ela se sentisse traída por causa da atenção que eu dava às minhas árvores. 

Não sei se é a sua comédia romântica preferida mas o Júlio Machado Vaz menciona muitas vezes Nothing Hill, tal como menciona Meg Ryan. Já eu menciono muitas vezes Before Sunrise que não é propriamente uma comédia romântica. (e talvez devesse também mencionar mais vezes Eternal Sunshine of the Spotless Mind que de facto é um tremendo filme).

Jason e Celine, protagonistas de Before Sunrise (Antes do Amanhecer) são dois desconhecidos em viagem que se encontram num comboio e creio que eram os dois comprometidos, e se não neste primeiro, mais à frente eram seguramente. E passam o primeiro dia e noite juntos, até ele apanhar o avião para os Estados Unidos...

Eu acho é que há pessoas que intrinsecamente não podem ver um rabo de saia ou um chumaço nas calças. Está-lhes no sangue e podem gostar muito da pessoa com quem estão mas vão andar sempre a pular a cerca. Terão sempre esse comportamento. Tal como há pessoas violentas e agressivas. E quem chega de novo ilude-se e acha que consigo será diferente. Mas não. Será sempre igual. E as traições suceder-se-ão.

E depois há quem, quer esteja numa relação mais ou menos estável ou numa relação mais conturbada e as coisas simplesmente propiciam-se. Muitas vezes nem é preciso andar à procura de nada para as coisas acontecerem. Porque não vivemos isolados do mundo. Não é preciso decidir registar-se no Tinder ou noutra coisa qualquer de engates para as coisas acontecerem. Nós não vivemos isolados. 

E, se é verdade que a tecnologia pode facilitar (ainda que as redes agora se tenham tornado verdadeiramente antissociais) há sempre o emprego, e todas as outras coisas que se fazem e onde se podem conhecer outras pessoas. E as coisas do nada podem acontecer. Empatia com alguém no trabalho, e refiro trabalho porque sempre achei que é um terreno fértil, mais até que a internet, para as facadinhas aconteçam. Porque as pessoas estão mesmo lá, não estão noutra cidade e a trocar mensagens pela internet. Por alguma coisa os moteis à hora de almoço estão cheios. Por alguma coisa eu mesmo fui substituído por um colega de trabalho.  

No "O Amor é" o professor lembra a vida dos médicos (ele é médico) e até dos enfermeiros. Mas ò professor, não são só os médicos que fazem noite! ou que se sentem próximo do colega de trabalho! Isso é geral! Eu nem imagino o que se passa nas fábricas! Tenho um colega de trabalho que já trabalhou numa e diz-me que aquilo era um grande regabofe!

“É duro de dizer e duro de ouvir, mas os terceiros são muitas vezes usados com muito pouca consideração genuína.”

Mas se é verdade que foi o vértice dum triângulo que rompeu a relação mais longa que tive, é bom não esquecer que eu já tinha sido sido o vértice do triângulo que a tinha levado a terminar a relação que tinha para depois começar comigo. E entre nós nunca se passou nada de íntimo. Bom, excetuando um abraço... Vários abraços marcaram a minha vida. Uns mais suaves, mais intensos ou de partir duas costelas!

Mas no fundo ela replicou o mesmo comportamento oito anos depois. O karma é fodido ou então não, é só, como dizia acima, as pessoas a replicarem quase sempre os mesmos comportamentos. E ela terminou uma relação para começar outra, e isso também demostra integridade (ainda que eu tenha outro tipo de sentimento, bem mais negativo, em relação ao que se passou). 

Depois disso, e por mais do que uma vez, acabei sendo ombro amigo, umas vezes mais virtual outras mais próximo de alguém que tinha uma relação. Aconteceu das mais variadas formas mas sempre pela internet, "porque a tecnologia o permite" mas nunca porque, voluntariamente, me quis envolver, fosse lá da maneira que fosse, com alguém que estava numa relação. 

Simplesmente aconteceu. De uma vez deixaram-me aproximar demasiado, ocultando a informação que havia outra pessoa lá em casa. Por outra vez eu fui o confidente, o conselheiro... houve um afastamento para coisa de um ano depois, voltarmos a falar e, de repente, estávamos a passar horas ao telefone (a telefonar! e convém esclarecer porque agora para esta malta mais nova falar ao telefone parece que é um bicho de sete cabeças!)... E por último simplesmente aconteceu e saímos um pouco chamuscados emocionalmente e decidimos, ou ela decidiu e eu aceitei, que o melhor seria um afastamento...

Nenhum dos dois se quis envolver. "Sabe, queria esclarecer, eu tenho namorado e amo-o muito". Ela foi extremamente correta e nunca escondeu nada. E eu acho que também fui... "Ainda bem que tem namorado, porque eu também não me sinto nada disponível..." porque vinha eu de um curto mas intenso enamoramento... Se no fundo se calhar talvez nos estivéssemos a querer enganar, não sei. 

Há o vício da descoberta do outro. Mais ainda quando nem sequer se conhece fisicamente o outro. Presta-se atenção a outros detalhes... A empatia vai crescendo e ela vai tornando-se parte das nossas rotinas, das nossas preocupações. E, pé ante pé, as coisas vão evoluindo, tomam proporções desmedidas e um dia damos por nós deitados numa mesma mantinha de um parque público, tão próximos que os lábios estão quase a tocar-se E eles querem tanto tocar-se mas não podem...  

Que cada casal faça as suas regras e que saiba aquilo que quer. E que tente ser feliz à sua maneira. Porque se não é fácil encontrar e gostar de alguém que também goste igualmente de nós, pode também não ser fácil estar com aquela pessoa de quem se gosta. Por vezes "não basta gostar". As diferenças, os ajustes e as cedências, as rotinas. E o sentimento de posse, o medo de perder, o ciúme... e também porque os casais não vivem numa bolha, isolados do mundo e, quando menos se espera, pode-se entrar num perigoso triângulo das infidelidades. 

sábado, 4 de junho de 2022

Conversas Improváveis (68): do Ombro Amigo à Mama Amiga


 Conversa no trabalho. Relações e infidelidades. 

Fazendo só um parêntesis para contextualizar os seguidores-fantasma do blogue que teimosamente ainda resistam em ler o que se passa por aqui, dizer que, depois de sete anos a trabalhar numa empresa que se chama "Terra-Mãe", acabei por não sobreviver à crise dos sete anos e ter mesmo que sair, eu e toda a gente (menos a colega mais velha na empresa) e então, desde o início do ano, estou a trabalhar num outro lugar que se chama "Voz-Calma". Obviamente que sim, só aceito trabalhar em empresas que considere que tenham um nome sonante, que se enquadre no meu perfil, caso contrário rejeito de imediato!

Um dos colegas é da minha opinião. Não há lugar mais propício às infidelidades que o local de trabalho. Eu sempre o disse e por aqui também terei escrito. Esqueçam as redes sociais. É no campo fértil do trabalho, muitas vezes com largas dezenas ou até centenas de trabalhadores, mas também até só com meia dúzia de colegas, como no meu anterior emprego, as coisas dão-se. 

Deu-se com pessoas que conheço e deu-se comigo mesmo por isso sei do que falo por experiência própria. Onde houve pessoas a conviver dia após dia após dia é muito mais fácil passar-se do trabalho para o quarto do Hotel ou para a minha casa ou, se quiseres, na tua. Não dizem que os Moteis estão cheios à hora de almoço? Certamente para a sobremesa ou para melhor fazer a digestão!

Quando trabalhei na Nokia, que é uma cidade viking da Finlândia, eu bem ia vendo namoros acontecer e acabarem. A colega do atendimento numa semana chegar ao trabalho com um colega, na semana seguinte chegar com outro. Infelizmente nesse mapa de turnos rotativos não fui incluído, mas alguma coisa de especial aquela colega deveria ter tal era a atração que provocava, mesmo nos colegas casados. 

E depois, como disse à minha nova colega que assinou contrato no mesmo dia que eu e que tem idade para ser minha filha (e eu ainda não percebi como de repente sou a pessoa mais velha numa empresa!) tudo é muito lindo aqui entre nós. Damo-nos bem, rimos, dizemos piadas, encomendamos comida, é fixe criar uma boa empatia entre todos. Contudo, com o teu namorado, e por mais que gostes dele, tens que lidar com todas as coisas menos boas. Mas se um dia o deixares por aquele colega de trabalho que está sempre ali, que é simpático e te trata bem, mais à frente perceberás que tudo voltará ao que era com o teu ex-namorado. (De repente já nem sei se estava a falar com a minha colega de trabalho ou se viajei no tempo para falar com a minha primeira ex-namorada que me trocou por um colega de trabalho...)

Entretanto e porque reforcei que o importante é cada casal ter as suas regras e ver o que funciona para si, lembrei uma conversa que tive com uma pintora que conheci no Tinder e que me disse que não levaria nada a mal se o companheiro, e só porque teve uma vontade momentânea, decidiu ir com alguém dar uma valente trancada. Porque são instintos e foi uma coisa do momento e isso é perfeitamente aceitável. Agora registar-se numa cena qualquer e andar à procura de alguém, isso seria traição e seria impensável. Interessante como diferentes pessoas têm diferentes pontos de vista sobre as relações. 

Mas mais importante, foi a frase que ficou, rematada pelo meu colega sobre as relações de amizade no local de trabalho. Tomem nota:

"Do ombro amigo à mama amiga é um pequeno passo".

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Nada Disto Tem Importância

Mark Thompson

 Na sequências das arrumações que andei a fazer e em que enchi o Ecoponto azul, tropecei em alguns papeis que talvez devessem estar todos guardados no mesmo sítio, ou talvez até já tenha passado mais do que tempo suficiente para que pudessem estar incinerados. Bom, para já continuarão a existir, depois, bom, depois logo se vê. 

Numa folha solta, que foi arrancada de um dos meus cadernos, datada de 21 de Julho de 2000, que manuscreveste a tinta preta, escrevias algo que poderia ser uma folha do teu diário, ou até um post num blogue: 

"Estou completamente desolada.

Desolada

Desolada

Desolada

Apetece-me fugir para longe, tão longe onde eles não me encontrarem. Eu e o Königvs, os dois por esse mundo fora, fazendo da vida uma eterna felicidade. 

Muitas coisas vão mudar, a minha relação com os meus pais, com o meu irmão. Só há uma coisa que não vai mudar: a minha maneira de pensar, de existir.  Às vezes mais vale calar do que dizer as coisas que pensamos, porque as pessoas não compreendem. Não tem importância. Nada tem importância".

Depois deste desabafo a nossa vida juntos não haveria de ser propriamente uma eternidade. Foram mais seis anos e meio. E não foram sempre  uma constante felicidade. Porque, se cada um de nós, individualmente, muitas vezes não sentia feliz, mesmo que isso nada tivesse que ver com o outro, então a soma não podia ser feliz. Tal como a vida das pessoas também não é uma constante, muito menos de constante felicidade. Mas fomo-nos tendo sempre um ao outro e isso foi muito importante, porque antes de tudo, cada casal deve ser amigo e cuidar um do outro. E cuidávamos. 

Este teu desabafo tem vinte anos. Não precisaria de te dizer algo que certamente, também tu já o aprendeste por tua conta. Todos os dias nós acumulamos experiência e todos os dias somos um bocadinho diferentes do dia anterior. Mas nada disto tem importância. 

terça-feira, 20 de julho de 2021

As Mulheres no Tinder e um Site Que Não é Para Mim

Há coincidências curiosas, ou, então, só reparamos nelas quando estamos sugestionados. Tinha acabado de comprar o telecrã (televisão de mão com internet que fica no saco porque continuo a usar como telemóvel um antigo Nokia) e, ao mesmo tempo, ouvi vários programas a falar do Tinder, nomeadamente na Prova Oral da Antena 3. E também a minha colega de trabalho disse-me na altura: "Pronto, agora também podes instalar o Tinder"! 

Mas a verdade é que, se quisesse, já o poderia ter feito no computador como aliás acabou por acontecer ainda que, posteriormente comecei a usar na empresa, motivo pelo qual comprei o telecrã: entreter-me numa empresa onde passava oito horas por dia sem fazer nada e onde até li o Ana Karenina em pouco mais de um mês.

E poderia instalar uma aplicação de engate ou todas as outras que quisesse porque, afinal, estava de novo solto para fazer o que quisesse, mas, sempre à distância, pois estávamos (e ainda estaremos mais uns tempos) a viver uma pandemia e atravessamos não sei quantos Estados de Emergência e, com proibições, por exemplo, de passar concelhos diferentes. 

Não era a primeira vez que me registava num site de encontros, mas foi a primeira vez num site que, de facto, tinha muitas mulheres registadas. O meu melhor amigo até já me tinha dado um conselho de me registar num outro site - "foi nele que nos conhecemos" - mas confesso que achei a ideia de pagar 25€ por mês desinteressante. Ora se eu nunca fui às putas, ia agora pagar para ter só a oportunidade de poder eventualmente falar com mulheres na net? Era o que haveria de faltar!

Depois do registo feito lá comecei a deslizar para a direita e para a esquerda, e, depois de ter mandado umas largas dezenas de mulheres para o lado errado e gastado os "super likes" todos por engano, lá comecei a atinar mais com aquilo e as correspondências começaram a aparecer. 

As primeiras impressões foi que aquilo causa extrema ansiedade mas algum vício também, como se fosse uma espécie de jogo em que se quer chegar ao fim num instante. A pressão de decidir em segundos se aprovamos ou desaprovamos alguém, até porque o algoritmo já tem outras largas de dezenas de perfis mulheres em espera. E como é que se aprova ou desaprova alguém só por uma foto, muitas vezes cheia de filtros, e mais importante, tantas vezes sem ter nada descrito, nem sequer os interesses? Então comecei a usar a regra, se não tem nada escrito, nem sequer os interesses se deu ao trabalho de colocar, então, dessas, escolho só as bonitas! Das que têm um perfil mais descritivo escolho as que tenho interesses comuns. E assim fui fazendo e lá comecei a conversar com algumas mulheres em que a maioria não tinha fotografia, tal como eu deixei de ter, porque me parecia que poderia causar algum ruído desnecessário.

O estereótipo da mulher que me aparecia era sempre o mesmo: entre os 40-50 anos, licenciada e que não está ali para "ONS" e com pouca disposição para comunicação. E perfil após perfil lá aparecia aparecia: "não interessada em ONS". Mas que caralho de merda é essa da ONS? E lá tive mesmo que pesquisar para ficar a saber que significava one night stand, porque na primeira vez até pensei que OMS estava mal escrito! 

Mulheres que parece que é preciso comprar-lhes a vontade para comunicar. Acho que por uma questão de cordialidade, quem dá "match" deveria ser a pessoa a interpelar o outro primeiro. Mas nem assim, eu se quisesse que falasse porque a senhora dá-se ares de muita importância para meter conversa com a ralé. 

Mas mesmo quando a conversa fluía tinha sempre que ser eu a voltar a interpelar a senhora nos dias seguintes. Sempre foi assim e era se quisesse, porque se há muita mulher no Tinder, por certo haverá muitos mais homens e o mulherio tem muita solicitação a quem atender. Mas esse é, precisamente, o problema. Demasiadas atenções, demasiadas conversas com pessoas atrás de pessoas e chegou uma altura em que eu tinha mesmo de tirar notas sobre as utilizadoras para depois não me baralhar todo para saber quem era e gostava do quê. Aliás, antes mesmo de começar a utilizar li os conselhos da própria aplicação, que diz, que não devemos interagir com mais de nove pessoas, e faz todo o sentido, precisamente porque, como referi, a pessoa começa a baralhar-se e acabamos por não conhecer ninguém, fica tudo no ar e é uma puta duma confusão.

E o meu problema, quem sabe, talvez agudizado pela idade, é que eu cada vez menos sou dado à persistência de andar sempre a reclamar atenção a quem se dá ares de importância. Não, minha cara, se não há reciprocidade desinteresso-me, corre tu atrás de mim se quiseres. Não queres conversar? Boa sorte então. E é por todos estes fatores: por causar ansiedade, vício em estar sempre a escolher os menus do dia, por saturar, pela forma como as mulheres se comportam, e, por ser verdadeiramente inútil naquilo que se propõe que abandonei o Tinder. 

# 400 Match no Tinder