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terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Sabedoria da Experiência

https://pixabay.com

Na juventude, e depois de um ou outro namorico pouco mais que inocente, lá chega o dia (até porque agora sim as coisas começam a tomar contornos sérios) em que pela primeira vez lá temos que ir a casa dela para sermos apresentados aos pais, para que eles conheçam, finalmente, o malandro que chegou ao coração da filha.

Se é verdade que não são os pais que vão namorar connosco, e ainda por cima também já não estamos no tempo de pedir permissão para sequer poder falar com a filha, por outro lado há sempre uma avaliação que é feita a nosso respeito no exato momento em que nos damos a conhecer. Não estivéssemos nós sempre a ser avaliados onde quer que vamos, mais não seja pela imagem que passamos, se somos mais ou menos atraentes, mais ou menos simpáticos, mais ou menos inteligentes e/ou cultos ou mais ou menos broncos e/ou idiotas.

E eu acho que não é preciso ser pai para perceber que, e sem querer generalizar, que os pais querem sempre o melhor para os filhos. É normal que assim seja, muito estranho é quando isso não acontece. Os pais querem que os filhos tenham um bom futuro profissional e que arranjem o melhor partido possível, de preferência daqueles que elegem deputados suficientes para poderem governar sozinhos.
Ou então, que pelo menos, que sejam felizes.

E causa sempre alguma ansiedade quando sabemos que vamos ser avaliados. Pelo menos a mim causa. Ao longo da vida muitas são as situações em que somos avaliados, seja no teste lá da escola, no exame de condução, na entrevista de emprego, e, logicamente, também quando vamos conhecer pela primeira vez os pais da namorada. E esta avaliação, muitas vezes acaba por ser contínua, dia após dia, em que não conta só o exame da apresentação. Houve um primeiro impacto, as primeiras impressões que contam sempre muito e, claro, vale sempre mais cair em graça que ser engraçado, ainda que, a longo prazo, estas depois possam ser confirmadas ou não.

Entretanto os anos vão passando e perdemos as ilusão que o primeiro amor será para sempre. Também um dia nos tocará a nós e todo aquele amor que se jurou ser eterno irá implodir  Novos amores, mais ou menos platónicos, novos enamoramentos, vividos ou por viver se seguirão e, um dia damo-nos conta que, aquele miúdo que sempre fomos e que brincava lá na rua, é o único que entretanto chegou aos quarenta solteiro e sem filhos.

Sim, é quase como se nos tivéssemos tornado numa espécie quase em vias de extinção. Mas está tudo bem, sem pressão nenhuma, nem medo de ficarmos para tio, ainda por cima quando até somos filhos únicos que nunca serão verdadeiros tios! E depois, como não casamos, até temos  vantagem de não termos uma proeminente barriga de grávida com, pelo menos, uns seis meses!

Mas aos poucos começamos a notar que há algo que se passa com a nossa vista. Será que devemos marcar consulta no oftalmologista? Do nada começamos a olhar para mulheres com mais de trinta anos, mulheres até mais velhas que nós. Talvez não seja nos olhos, quem sabe o problema esteja mesmo no nosso cérebro. Ou então, se calhar está tudo bem e estamos só a ficar mais velhos.

Certo dia saímos achamos imensa graça quando, pela primeira vez saímos com uma mulher cinco anos mais velha, e continuamos fascinados mesmo depois dela ter feito quase um escândalo com um empregado que, delicadamente só nos queria colocar numa mesa para duas pessoa para não ocuparmos o espaço de seis. E é por isso que cada vez mais tenho a certeza que a visão só atrapalha. Não tivéssemos nós olhos e certamente que as nossas escolhas seriam outras. (mas isso se calhar será tema para uma próxima publicação)

Até que acabamos por sair pela primeira com uma mulher divorciada, e só esse nome quase nos faz pensar que a pessoa tem uma espécie de doença venérea. Mas não tem. É só uma mulher, como tantas outras, mas que não admitiu que certas situações se continuassem a repetir. E até acabamos por lhe conhecer a filha, uma criança encantadora, com imenso jeito para jogar à bola!

Até que, pela primeira vez (até morrermos há sempre muitas coisas que vamos fazendo pela primeira vez) experimentamos, por sugestão alheia, entreter os filhos da nossa colega de trabalho (aquela que até namoraria connosco se não tivéssemos o cabelo quase até ao cu!), com o ténis-de-mesa e percebemos de imediato que educar duas crianças de idades muito próximas não será certamente  da tarefas mais fáceis, e mais  ainda quando o tivemos que fazer sem nenhuma ajuda do outro progenitor.

Quando somos jovens, mais ou menos adolescentes, começamos inicialmente por recear ser apresentados e avaliados pelos pais. Ironicamente, quer-me parecer que, se calhar, também um dia seremos nós a ser avaliados por outros filhos que, tal como nós, certo dia tivemos que ser apresentados aquele que veio a ser o companheiro da nossa mãe até durante mais tempo que do aquele que foi o nosso pai.

Não sei se ultimamente tenho envelhecido muito ou não. Sei apenas que as minhas telhas têm voado mais depressa do que aquilo que eu gostaria. No entanto, uma coisa mais importante eu sei de certeza, que ultimamente a vida tem-me colocado em perspectivas bem diferentes das que tinha vivido no passado. Se numa determinada altura da minha vida estou num determinado vértice, mais à frente a vida faz questão de me colocar num outro, com vista privilegiada para o vértice onde estive outrora, para que possa assim perceber da melhor forma como é estar numa situação e noutra, estar no nosso lugar e sentir na pele o que é estar do outro lado. Por alguma coisa se diz que apenas podemos transmitir o conhecimento, não a sabedoria. Porque a sabedoria, essa só a encontramos quando somos nós mesmos a trilhar o caminho do conhecimento. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Queres Saber Por Que é Que Eu Estou Solteiro?

Imagem emprestada da net


"Não me perguntes porque estou solteiro. 

Cada vez mais as pessoas perguntam-se por que é que as pessoas solteiras estão solteiras. É uma pergunta estranha que parece um elogio. Mas é basicamente perguntar a alguém o que há de errado com essa pessoa. 

Mas não há nada de errado comigo. Eu sou só um bocado estranho e simplesmente ainda não encontrei alguém tão estranho e que seja compatível com a minha estranheza e que queira estar comigo durante algum tempo."

Excerto em tradução livre retirado daqui.
 

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Começamos Só por Ver as Semelhanças - Acabamos só a Ver as Diferenças

Seja lá de que forma for, pessoalmente ou, como agora se diz, de forma virtual, e por que motivo for, de repente tropeçamos em alguém que nos começa a deixar interessados. Interessados em descobrir mais daquela pessoa. O que pensa sobre isto e aquilo, o que gosta de fazer, qual a sua história de vida, o que gosta de fazer, que tipo de música gosta de ouvir, etc, etc. Quanto mais vamos desvendando, mais nos interessamos e mais semelhanças encontramos. É um jogo que se poderia chamar: "descubra as semelhanças". São tantas as coisas que temos em comum que podemos achar que somos almas gémeas. Tínhamos mesmo que nos ter conhecido e encontrado, porque em todo o mundo não há duas pessoas tão parecidas quanto nós os dois. 

Mas tudo que é bom um dia terá que ter um fim. Foi bom enquanto durou. E um dia, seja lá por que motivo for, um de nós quererá partir e nada do que o outro possa dizer fará diferença. Nada mais importa porque a decisão já está tomada. Mas se calhar é preciso que nos convençamos a nós mesmos que estamos certos. Precisamos de argumentos que sustentem de forma sólida as nossas decisões. E quando esse dia chegar as semelhanças já não mais importarão. Já só teremos olhos para as diferenças. Queremos convencer o outro, ou se calhar convencer-nos a nós mesmos que, afinal, não éramos assim tão parecidos como pensávamos ao início. E para todo o lado que olhemos já só veremos diferenças. Diferenças e mais diferenças é o que veremos. Talvez a culpa tenha sido da ilusão. Estávamos afinal tão iludidos, tão toldados pelo encantamento que não conseguimos ver o que nos separava. 

Talvez em todas as relações isto aconteça. Começamos só por ver as semelhanças; e no fim, infelizmente, acabamos só a ver as diferenças. 


domingo, 1 de setembro de 2019

Interessa Mesmo Que Eu Esteja a Namorar?

Via Pinterest

Há muito tempo que me demonstravas receio que eu voltasse a namorar. Se por um lado querias muito que eu encontrasse alguém especial, que aos teus olhos me merecesse, e com quem eu pudesse ser feliz, por outro lado isso deixava-te desconfortável, porque sentias que isso nos iria afastar ainda mais.

Eu sei que é um paradoxo fodido. Querer a felicidade de alguém, nós mesmos querermos que pudéssemos ser nós a fazer o outro feliz, mas não o podermos fazer. E como é que se pode querer a felicidade do outro, se ver o outro feliz implica vê-lo sem nós. Fodido, hein?

Mas muito sinceramente, interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Afinal, de que é que adiantou eu não estar a namorar durante os últimos novecentos dias se nem por uma só vez nos pudemos ver? Se deixámos de falar ao telefone, e se passam meses sem nos correspondermos?

Interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Pois eu acho que não interessa nada. Tal como não interessa que tenhas ainda, ou não, marido. O que interessa é o que nós sentimos um pelo outro, e que eu, sinceramente, acho que não vai mudar tanto assim com o tempo, mesmo que um de nós se mude para um planeta distante. Diferentes são as nossas vidas que têm se seguir, como as de toda a gente, dia após dia, após dia, até ao dia final.

E na vida não dá para fazer Pausa. Os dias correm. Novecentos dias passam a correr. Quando mal dermos conta estamos velhinhos e desperdiçamos toda uma vida sem nos falamos. E isso sim é um bocado triste. Eu sei, gostar de alguém com quem não se pode estar também é muito triste.

Mas, se não nos pudemos ter, ou se não nos quisemos ter porque não nos podíamos ter, interessa mesmo que outras pessoas entrem (e saiam) das nossas vidas? Tu sabes que não podemos fazer Pausa nas nossas vidas. A vida é uma correria. Cruzamo-nos com tanta gente que um dia esbarramos em alguém...

Tu andas por aí sabe-se lá por onde e eu estou aqui a escrever-te porque, para mim, verdadeiramente importante é não esquecer quem foi importante para nós. Por isso, diz-me, interessa mesmo que eu esteja a namorar?


sábado, 29 de junho de 2019

Conversas Improváveis (40) - Honestidade Extrema

Imagem Emprestada da Net

"Ainda antes de lhe dizer que sim ou não, disse-lhe quais seriam as minhas condições:
Não quero ter filhos. Não me quero anular por causa duma relação nem por causa dele. Não quero deixar de fazer o que faço nem deixar de ter amigos. Se quero ir ter com a minha amiga de Coimbra e estar com ela uns dias, ou se quero estar contigo (que ainda fica mais longe) vou e não tenho que andar com ele sempre atrás.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Estar Atento

"Uma vez, durante as férias grandes do meu primeiro ano da universidade, fui até ao Norte do Japão, e no comboio conheci uma mulher oito anos mais velha do que eu, também ela a viajar sozinha, com quem passei uma noite. Na altura, lembro-me de ter pensado que tudo aquilo parecia tirado das primeiras páginas do Sanshiro.

Ela trabalhava na secção de operações cambiais num banco de Tóquio. Sempre que tinha uns dias de férias, agarrava num punhado de livros e metia-se à estrada por sua conta e risco. - Viajar sozinha é muito menos cansativo - confidenciou-me. 

Tinha o seu encanto e ainda hoje estou para perceber como se foi logo interessar por um estudante universitário de dezoito anos, magro e taciturno como eu. E, contudo, parecia sentir-se nas suas sete quintas, ali sentada à minha frente naquela carruagem de comboio, a falar de tudo e mais alguma coisa. Fartava-se de rir à gargalhada. Por uma vez, até eu dei por mim a falar pelos cotovelos. Por mero acaso, saímos ambos na estação de Kanazawa.

- Tens onde ficar? - perguntou-me ela. 
- Não - respondi eu, que nunca na vida fizera uma reserva de hotel. 
- Tenho um quarto disse-me. - Se quiseres, podes ficar comigo. Não te preocupes - acrescentou -, o preço é exatamente o mesmo quer esteja ocupado por uma ou duas pessoas. 

Estava nervoso na primeira vez que fizemos amor, o que fez com que o meu desempenho deixasse algo a desejar. Apresentei-lhe as minhas desculpas. 
- Mas que bem educado me saíste! - exclamou ela. - Não precisas de pedir desculpa por tudo e por nada. 

(...)

Pronto, imagina o seguinte. Supõe que vais fazer uma longa viagem de carro com outra pessoa qualquer, e que vão conduzir por turnos. Nesse caso que tipo de pessoas escolhias? Uma que guiasse bem, mas que fosse imprudente, ou uma que não guiasse tão bem, mas que fosse prudente?
- A segunda, provavelmente - respondi eu.
- Também eu - retorquiu ela. - Temos aqui uma situação muito parecida. Ser bom ou mau, ser despachado ou desajeitado, isso são coisas de somenos. Na minha opinião, o que é importante é estar atento. Ficar calmo, estar atento ao que se passa à nossa volta. 
- Atento? repeti eu.

Ela não respondeu e limitou-se a sorrir. Mais tarde quando fizemos amor pela segunda vez, tudo correu na perfeição. Tive a sensação de começar a perceber o significado de "estar atento". Foi também a primeira vez que vi como reage uma mulher quando se abandona a um prazer intenso. 

No dia seguinte, depois de tomarmos o pequeno-almoço juntos, foi cada um para seu lado. Ela seguiu o seu caminho, e eu o meu. À despedida, contou-me que se ia casar daí a dois meses com um colega de trabalho. 
É ótima pessoa - acrescentou - toda sorridente. - Já andamos juntos há cinco anos, e agora vamos finalmente oficializar a situação, o que significa que, uma vez casada, vou deixar de poder andar a viajar por aí sozinha. Talvez seja esta a última vez. 

Eu era ainda muito jovem e pensava que histórias como excitantes destas aconteciam com frequência. Mais tarde, acabei por compreender, e de que maneira, que as coisas não eram bem assim. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Não Há Desgosto de Amor Como o Primeiro


Imagem emprestada da net

Frases feitas. "Não há amor como o primeiro".
Mas será mesmo assim? Afinal isso significa concretamente o quê? Que nunca iremos viver um amor tão intenso como com aquela primeira pessoa que, muitas vezes, o único mérito que teve foi, simplesmente, no nosso pequeno universo, ter sido a primeira a aparecer? E, se tantos anos depois, pudéssemos voltar atrás, e fizéssemos uma troca temporal na nossa vida? E essa pessoa, que teve a sorte de ter sido a primeira, aparecesse mais para a frente no tempo, e outra pessoa, de quem também gostamos muito, passasse a ter sido a primeira pessoa que amamos? Como é que seria? A importância das pessoas seria a mesma? Qual seria agora o amor mais importante? Seria a mesma pessoa, independente do lugar em que aparecesse, ou já seria a primeira? Mas então a relevância do amor mede-se só pelo acaso de termos esbarrado em determinada pessoa em primeiro lugar?

Para mim, o encanto do primeiro amor tem unicamente que ver com uma coisa: a descoberta das novas sensações. Foi com aquela determinada pessoa que descobrimos aquele sentimento forte, o amor, sentimento esse que, todos aqueles que o sentiram, acreditaram e quiseram que tivesse sido para todo sempre. Tal como foi com essa pessoa que, muitas vezes, se descobriram tantas outras coisas em conjunto. Mas, por este ou por aquele motivo, as pessoas afastaram-se, e, como que traíram esse sentimento. E o tempo há-de passar, e muitas vezes um novo amor há-de aparecer e as pessoas voltarão a estar sozinhas, e em vários momentos das suas vidas voltarão de novo a olhar o passado com nostalgia.

A nostalgia dos tempos passados. A mesma nostalgia que invade as pessoas quando se lembram de coisas que faziam na sua infância, quando se lembram dos colegas de escola ou amigos de longa data que não vêem há anos. Lembrar o primeiro amor é mergulhar na nostalgia do primeiro encantamento, no tempo em que ainda se pensava que o primeiro amor seria para sempre. Mas afinal não foi. E não raras vezes o segundo e o terceiro também não. E, se calhar, o melhor seria voltar ao passado, ao tempo do primeiro amor, e fazer tudo de novo, para que o primeiro amor pudesse dar certo e não tivesse sido preciso falhar tantas vezes de novo. Certo? Não, errado.

Eu, sarcasticamente, costumo dizer que não há amor como o segundo. Mas, em boa verdade, acho que não deveria haver amor como o último que vivemos. Porque é sempre desse que temos que nos curar. Não é do primeiro. O primeiro já lá vai, longe, distante, tantas vezes já lembrado e esquecido. Mas, quando o primeiro amor não resulta, as pessoas descobrem uma outra coisa, por vezes tão intensa e trágica: o primeiro desgosto de amor. E, por mais amores que voltem a ter, não mais voltarão a ter outro primeiro desgosto de amor, será, tão simplesmente, só mais um.

Então, se voltamos a amar alguém, que não se comparem amores, independente do lugar espaço-temporal que tenham ocorrido. Contudo, por mais amores que possamos viver, só por uma vez perdemos a ilusão que o primeiro amor seria para sempre. Daí que, se calhar, não se deveria dizer que não há amor como o primeiro, mas sim, que não há desgosto de amor como o primeiro.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Entrevista: Casal a Trabalhar Junto é Bom ou Mau para a Relação?

Depois de me ter divertido bastante a fazer uma primeira entrevista aqui para o blogue, resolvi voltar à carga, mas desta feita, como convinha, com um tema que completamente diferente. Contudo, de novo com uma perspetiva diferente e a tentar fugir às ideias pré-concebidas e às generalizações. E, de novo, acho que esta entrevista pode surpreender muita gente. 

Durante os últimos três anos (quase até ao fim de 2018) trabalhei diretamente com um casal.  Eram os meus únicos colegas ou, pelo menos, aqueles com quem trabalhava todos os dias, no mesmo departamento, oito horas por dia. Trabalhei inicialmente só com o colega, e pude assim acompanhar bem de perto todo o processo até ao dia em que o casal começou a trabalhar junto. A doença da esposa; o desemprego (porque há patrões que não percebem que mesmo a pessoa mais saudável num dado momento da sua vida pode adoecer); a possibilidade do recrutamento para a nossa empresa (que desde o primeiro momento incentivei); as conversas informais em que surgiam as dúvidas e as motivações. Acho até que tudo isto foi uma riquíssima experiência sociológica. Quem saiba talvez dê  até uma equivalência a um doutoramento numa qualquer universidade privada!

Foi ouvindo o colega que me falava dos contornos sua vida, dos amigos e dos problemas familiares, da esposa que eu não conhecia (tal como eu lhe falava da minha vida);  e anos mais tarde trabalhar com o casal e perceber como funcionam: a cumplicidade; os maus humores dos pequenos conflitos; as diferentes perspectivas perante os problemas que surgem nas suas vidas e as diferentes perspetivas duma mesma história. Cada casal vive uma história, mas há sempre duas visões do mesmo caminho percorrido.

A entrevista surgiu assim na minha cabeça de forma muito natural, e há muito que estava prometida porque, além destas duas pessoas terem marcado um período da minha vida, achei também que poderia ser interessante para as outras pessoas lerem e, acaba por sair agora, um mês depois deles terem deixado de trabalhar juntos, e uma nova fase das suas vidas se ter iniciado.

Para contextualizar dizer que se trata de um casal na casa dos trinta anos (ela vai já reclamar e afirmar que ainda está nos vinte!), a relação deles já dura há cerca de dez anos (casados há oito anos)  e, já agora, para quem tem curiosidade (como eu) com as coisas da astrologia, dizer que ela é de signo Sagitário (Fogo) e ele Balança (Ar), uma conjugação astrológica que até me parece que tem boa compatibilidade. Mas vamos lá mas é às perguntas!




Para início de conversa, digam-me lá como é que surgiu a oportunidade de trabalharem juntos?

Cristina: Na altura estava desempregada há quase um ano, não estava a conseguir arranjar emprego, surgiu a oportunidade de trabalhar nesta empresa uma vez que eles iam admitir algum pessoal.

Filipe: Falei com o meu responsável e visto a minha esposa estar na situação de desemprego, sugeri que fosse lá para uma entrevista uma vez que iam precisar de alguém


Quais as expectativas que tinham de como é que seria trabalharem juntos na mesma empresa, e ainda por cima directamente e um ao lado do outro?

Cristina: Bem eu confesso que na altura eu estava com algum receio, visto que se ouve falar tanto no desgaste que isso causa nas relações.

Filipe: Por um lado tinha a sensação que ia ser algo bom, por outro lado sempre um pouco de receio, por não ter a certeza como ia correr.

Tinham alguns receios que isso pudesse interferir com a vossa relação?

Cristina: Sim tinha. Nós por vezes tínhamos alguma chatices um com o outro e nem sequer trabalhávamos juntos. O meu maior receio era que trouxessemos alguns problemas do trabalho para casa. Tinha medo também que o facto de trabalharmos os dois juntos acabasse por afectar a relação que iríamos manter com os nossos colegas de trabalho.

Filipe: Inicialmente existem sempre medos e receios. Muitas vezes pela forma como se lidam com os outros no trabalho, que possam trazer alguns problemas, bem como também o desgaste da relação.

O que é que vos diziam as pessoas mais próximas sobre isso? Metiam-vos medo ou incentivavam-vos? Contaram-me, por exemplo, que a colega dos Recursos Humanos vos perguntou se estavam preparados para o fim do vosso casamento....!

Cristina: Bem, a família mais próxima incentivava, o importante era eu ter arranjado trabalho. Às vezes os amigos vinham com aqueles comentários que se fosse com eles talvez não iriam querer trabalhar juntos, e perguntavam se não tínhamos medo do tal desgaste na relação.

Filipe: A esmagadora maioria desde amigos a família, tinham quase todos a mesma frase: " Isso vai ser bom para o vosso relacionamento"? Acho que poucas pessoas apoiavam.

Como é que foi a experiência de, de um dia para o outro passarem o dia todo juntos?

Cristina: Ao inicio foi um pouco estranha. Não sei se talvez um pouco influenciada pelo que os nossos amigos as vezes diziam, de que poderia não ser bom para nossa relação. Surpreendentemente com o passar do tempo passei a gostar de trabalhar com ele.

Filipe: Costuma-se dizer primeiro estranha-se mas depois entranha-se. Com o passar do tempo foi fácil estar habituado a essa ideia.

E que diferenças (positivas ou negativas) notaram na vossa vida pessoal?

Cristina: As diferenças positivas são que a nossa cumplicidade aumentou com o facto de trabalharmos juntos. Nós antes de trabalharmos juntos, só nos víamos ao final do dia, e depois cada um tinha um seu hobbie, os seus afazeres quando chegava a casa. Praticamente só tínhamos mesmo mais tempo um para o outro aos fins de semana.
Ao trabalhar juntos começamos a passar mais tempo um com o outro, a conversar mais e acho que foi uma experiência que nos permitiu conhecermo-nos melhor um ao outro, apesar de já estarmos casados na altura há uns 5 anos. Por vezes quando um de nós ficava de férias ou então ia para fora em trabalho, chegávamos mesmo a sentir saudades um do outro.
Tenho um colega de trabalho que diz muitas vezes que o melhor sítio para conhecermos a essência das pessoas é no local de trabalho. E acho que tem razão!! ( risos)
A parte negativa é que quando alguma coisa corre mal com a empresa o prejuízo connosco é sempre a dobrar.

Filipe: Foi positivo conhecer em outro contexto além daquele em que estávamos habituados, para além de depois, em casa, naquilo que gostávamos de fazer não termos tanta necessidade de atenção pelo facto de passarmos já muito tempo juntos. Para além de conhecermos bem melhor a forma como se lida com determinadas situações em contexto de trabalho.
Aspectos negativos, o facto de o salário em casa estar dependente da mesma fonte.

Foi fácil separar o que era a vida pessoal da vida laboral?

Cristina: Sim foi. Uma coisa era o trabalho, e por lá pela empresa não gostávamos de dar muito a conhecer sobre a nossa vida pessoal, por muito que às vezes quisessem saber não dávamos confiança para isso. Quando saíamos da empresa era normal por vezes conversarmos um pouco sobre certos assuntos, mas não fazíamos daquilo o nosso tema de conversa.

Filipe: Sim, para mim muito fácil. Sou uma pessoa que por natureza não fala muito, por isso se na empresa não gostava muito de falar sobre a minha vida pessoal, também em casa não tinha muito o hábito de falar sobre o que se passava no trabalho.

E pelo facto de serem um casal de que forma isso afetou a relação com colegas e patrões?

Cristina: Ao inicio, tanto com os patrões como com os colegas, eu senti que era um apêndice do meu marido. Não me viam como uma profissional individual mas como a mulher do Filipe. Com o passar do tempo isso foi mudando. Quanto ao relacionamento interpessoal com os nossos colegas, nunca houve qualquer tipo de problema.

Filipe: Foi engraçado porque um dos patrões perguntou : " tens mesmo a certeza disto?", mas ao longo do tempo, nunca existiu qualquer tipo de problema, seja com a entidade patronal, seja com os colegas de trabalho, tirando aqueles que gostam sempre de espetar a faca e se meter em assuntos que não dizem respeito, mas tirando isso, sempre foi boa.

E o facto de estarem sempre juntos e se relacionam com outros homens e mulheres e eventuais questões de ciúme, como é que foi?

Cristina: Quanto a esse aspecto sempre pudemos brincar e conversar com todos, desde que existisse respeito. Nunca senti ciumes das minhas colegas, nem ele dos meus colegas. Talvez porque conhecíamos ambos as pessoas e também estávamos sempre por ali a controlar a situação. (risos!)

Filipe: Penso que nunca se pôs em causa esse tipo de situação.

Tanta gente diz cobras e lagartos sobre um casal que trabalhe junto. Vocês encontram vantagens em terem trabalho juntos? 

Cristina: Sim, primeiro quando vamos os dois para o mesmo local de trabalho as despesas são menores uma vez que podemos partilhar carro. Parecendo que não é algo que nos permite poupar algum dinheiro.

Filipe: Sim conheces melhor a pessoa que está ao teu lado, acho que o segredo é separar sempre a vida pessoal e a vida no trabalho. Acabas por estar atento a certos detalhes na outra pessoa.

E que aspetos menos positivos é que pode haver? Já falaram por exemplo da questão dos salários...

Cristina: Isso depende muito de casal para casal. Muitos o que vão falar é do desgaste. Mas para mim talvez seja as fases más pelas quais por vezes as empresas passam. Se, por azar, houverem salários em atraso, no caso de um casal, será sempre pior.

Filipe: Pode ser o desgaste, o facto de alguém ter dito ou feito algo no trabalho que a outra pessoa possa não ter gostado, mas nada que depois não se fale e resolva.

O facto de terem trabalhado juntos certamente fez com que se conhecessem ainda melhor. Houve algumas coisa que vos surpreendeu no outro e que ainda não conhecessem?

Cristina: Sim no local de trabalho dá para ver muita coisa e conhecer bem as pessoas. Percebi, não que já não o soubesse, que ele é bom profissional, e muito metido no canto dele também.

Filipe: Sabia que quando falei não me ia arrepender, porque estava convicto de que ia desempenhar bem o seu papel, pela forma de estar que tinha. Acho que a forma como começou a lidar com outras pessoas no trabalho, mudou um pouco, porque sempre lhe dizia que o trabalho ás vezes é como na selva, temos que ser fortes e astutos para não sermos engolidos

Estar juntos no trabalho originou mais discussões e atritos, ou pelo contrário foi igual ou até reduziu as discussões em casa?

Cristina: Muito pelo contrario, passamos a discutir muito menos. Ao inicio acho que começamos a evitar discutir porque como iríamos passar mais tempo juntos se discutíssemos iríamos tornar esse processo mais difícil. Então começamos a evitar certos assuntos que já sabíamos que poderiam acabar em discussões. Mas com o tempo acho que começamos a ficar muito mais ligados um ao outro que discutíamos muito pouco mesmo. Acabamos por nos tornarmos mais flexíveis um com o outro.

Filipe: Acho que foi uma mudança para melhor, acabamos por discutir menos, pelos simples facto de depois não ir no dia seguintes chateados para o trabalho, ou pelo menos evitávamos que isso acontecesse.

Então se calhar, pode-se dizer que em nenhum momento dos três anos equacionaram passar a trabalhar em sítios diferentes porque estarem sempre juntos estava a desgastar a vossa relação?

Cristina: Não nunca aconteceu, porque eu acho que estávamos mesmo a gostar da experiência de trabalhar um com o outro.

Filipe: Da minha parte como sou uma pessoa que gosta sempre de procurar vôos, mas nunca equacionei sair do trabalho por causa da relação, isso para mim nunca foi problema.

E que conselhos é que davam a um casal que vá começar a trabalhar juntos na mesma empresa?

Cristina: Acima de tudo que tentem separar bem as coisas e que olhem para o seu cônjuge no local de trabalho como mais um colega. Que se tratem sempre com respeito quando estão na empresa e que não dêem a conhecer a ninguém mais do que é necessário saberem da sua vida pessoal.

Filipe: Divertir com a situação. Não pensar que isso irá ser só coisas más, saber o lugar que cada um ocupa, e aproveitar essa experiência.

Que avaliação é que fazem? Valeu certamente a pena...

Cristina: Na minha opinião acho que valeu a pena. Acho que fez crescer mais o carinho que temos um pelo o outro e acima de tudo o respeito também.

Filipe: Sim valeu, se fosse hoje tornava a fazer a mesma coisa, tomava a mesma decisão.

Repetiam a experiência no futuro?

Cristina: Sim. Porque não?

Filipe: Sim, sem dúvida.

E acham que mais à frente no futuro, ainda vão ter saudades dos tempos em que trabalharam juntos?

Cristina: Talvez. Foi uma boa experiência, e assim sendo não tem porque não a querermos repetir.

Filipe: Eu sou uma pessoa mais pragmática neste tipo de situações, mas claro que no inicio estamos habituados a uma coisa e de repente as coisas alteram, cria sempre uma saudade, porque a experiência correu bem, que sabe no futuro não façamos uma sociedade.

Eu queria desde já agradecer a ambos a disponibilidade para terem alinhado nesta brincadeira e deixo votos para que, a trabalhar juntos ou como agora, cada um na sua empresa, saibam sempre levar a relação pelos melhores caminhos possíveis.

E em jeito de conclusão eu gostaria de dizer que, na minha opinião, não há uma resposta certa à pergunta que deixei no título. Trabalhar junto não é, obrigatoriamente, bom ou mau. Pode ser muito positivo para uns casais como vimos neste caso, tal como pode ser mau para outros casais, porque terá muito a ver com a personalidade de cada elemento do casal e até como o casal funciona em conjunto a trabalhar um com o outro. Contudo, sem experimentarem primeiro, nunca poderão ter certezas de como seria. Num determinado momento da vida deste casal, o mais importante era a falta que um salário fazia no orçamento familiar. Isso era a prioridade. Nesse momento a eventual rotina e desgaste na relação era o menor dos seus problemas. E vejam só, trabalharam juntos durante três anos e, no fim de contas, acabaram por se conhecer ainda melhor e  ficaram ainda mais cúmplices. Portanto cuidado com as ideias pré-concebidas, porque podem-se surpreender.

sábado, 5 de janeiro de 2019

As Últimas Palavras Que me Escreveste

Imagem emprestada da net
"Sinto falta das nossas conversas e das pequenas coisas também! Sabes que durante tanto tempo fomos companheiros de vida... Não é de um dia para o outro que passa tudo... Fazes-me falta em muita coisa! O teu apoio, a tua amizade... Eu sei que perdi tudo...
Com a decisão que tomei perdi o amor e o amigo. Tenho que viver com isso. Por mais que custe e que magoe... Faz de conta que não recebeste esta sms. Foi um desabafo... Um beijo.

Fiquei com lágrimas nos olhos... Sei que me conheces melhor do que ninguém... E tenho as minhas dúvidas se algum dia alguém conhecerá tão bem... Mas tenho de ser forte... A fragilidade fica mais para a noite, quando estou só serenidade da minha cama... Nunca duvides da tua importância na minha vida! Só peço isso. Beijo

És tão duro nas tuas palavras, mas eu perdoo e aceito. Não mereço outra coisa mesmo. Só o teu desdém. Meu amor, meu amigo, encontrar-nos-emos um dia! Acredita!"

Sinais dos tempos. Começamos por nos corresponder no milénio passado com esferográfica e papel. Já as últimas palavras que me escreveste vieram pelo ar, do teu telemóvel para o meu. E há muitos anos que tinha estas tuas mensagens guardadas num telemóvel. Na altura transferia-as de um outro telemóvel para este, e depois apaguei o teu número. E por estes dias voltei a pegar nesse mesmo telemóvel antigo (porque num qualquer dado momento volto sempre a pegar num qualquer telemóvel antigo) e ao remexer-lhe nas gavetas, voltei a dar de caras com as mensagens (como com outras mensagens guardadas de outras pessoas que foram também importantes em determinada altura da minha vida). Mas não penses que foi uma enorme surpresa o que ali encontrei escrito por ti. E não foi porque eu sempre retive essas palavras no disco rígido mais importante: o meu cérebro.

No entanto acho que o mais interessante para mim, foi depois fazerem-me saber que, meses depois destas tuas palavras que me escreveste tinhas casado. Estavas mesmo aflitinha, pá! Está bem, eu retiro o "pá" porque acabei de me lembrar que detestavas que eu te chamasse "pá"! 

Eu sei que em momentos como aqueles, de tão grande intensidade emocional, acho que é normal dizerem-se coisas que não se sentem. E eu sei que me foste dizendo umas quantas que não sentias. Não podias sentir. Eu sei que era só para me magoar (ainda mais). 
Acho que foi mesmo por eu te ter dito isso, que escreves ali a determinada altura que não conseguiste segurar as lágrimas. Talvez porque, como também disseste, afinal, eu era aquela pessoa que, eventualmente, nunca nenhuma outra te iria conhecer melhor que eu, não é? 
E também eu te disse umas quantas coisas das quais não me orgulho. Mas sabes que quando se deita álcool diretamente numa ferida aberta arde. Tu sabias que me iria arder muito, mas talvez só te tenhas querido iludir a ti mesma que não, que eu iria ser uma espécie de Rambo que deita pólvora numa ferida aberta e lhe chega fogo como se nada fosse!

Mas ardeu e tu não estavas muito preparada para as dores que isso me ia causar. Acho que no fundo, já antevendo isso, tu foste um bocadinho cobarde e não tiveste coragem de o fazer por ti mesma, de forma frontal, preferindo fazer as coisas de modo a que, tivesse que ser eu mesmo que, de uma vez por todas tomasse uma decisão. Então, tirei-te o frasco das mãos e despejei eu a merda do álcool todo sobre mim mesmo. E ardeu. Mesmo muito. 

Eu não vou negar que às vezes, e passados todos estes anos - fazem vinte este ano, não é? (eu a fazer de conta que não sei as datas todas de cor!) ainda dou por mim a pensar se ainda te lembras de mim. 

(Não, minha querida e linda e muito inteligente e culta futura namorada: não é porque eu ainda acalente o sonho de um dia voltar  a reencontrá-la e fodermos como martas (como nós dizíamos) e, mais importante, de retomarmos o ponto de separação para então sim sermos finalmente felizes para todo o sempre! Não! É mesmo só uma mera pergunta retórica sem segredos escondidos. A minha querida e linda futura namorada deveria sim preocupar-se quando as pessoas não falam de determinados assuntos, e não quando os outros têm as situações bem resolvidas na sua cabeça)

Sinceramente? Acho mesmo que não, que não te lembrarás mais de mim. Admito que possa estar enganado, mas... acho mesmo que não. Ainda por cima acho que isto de relembrar as relações passadas é muito mais coisa de gajo. Nós homens é que nos pomos a falar de antigos amores. Acho que nisso as mulheres - sem querer generalizar! - são muito mais pragmáticas. Acabou? Siga para Vigo. Ou é para Bingo? Nunca sei!

Mas não vou negar que acharia muito curioso e interessante ter hoje uma conversa contigo. Passaram-se muitos anos. Estamos mais velhos, passamos por diferentes experiências na vida. Tu casaste, até ouvi dizer recentemente que tens uma menina, e tudo isso mudará necessariamente a vida de uma pessoa; ao passo que eu continuo solteiro e fiel ao que era há vinte anos. 
Não sei, e se calhar até talvez achasses curiosas algumas particularidades da minha vida, como as pessoas que conheci, de quem me tornei amigo, das coisas que gosto de fazer... 

Tal como eu também eu em relação a ti. Não faço a mais pequena ideia do que farás hoje profissionalmente, ainda que, não seja a profissão que nos defina, que diga alguma coisa sobre o que nós somos. Não sei que filmes é que gostaste; nem das músicas que ouves nos dias de hoje; ou dos livros que entretanto leste e gostaste ou se deixaste de ler; dos sítios que visitaste e mais gostaste; das coisas em que te envolveste e que te orgulhas... No fundo saber que escolhas fizeste e saber da pessoa em que te tornaste. 

E logicamente que, se, como eu acredito, que já nem te lembrarás de mim, há muito tempo que não pensas que "nos encontrarnos-emos um dia". São são coisas que se dizem num determinado momento tal como quando eu e a Tina fizemos um pacto de quando um de nós morresse fosse ter com o outro para contar como é! A Tina lembrar-se-à agora de mim! E eu sei lá bem por onde é que ela andará agora para, quando eu morrer ir ter com ela! E depois e se eu lhe aparecesse ela ainda morria de susto!

São coisas que se dizem num determinado momento mas lembras-te de uma coisa que eu te dizia muito frequentemente nos tempos em que começamos a namorar e éramos estupidamente felizes?
"- Vamo-nos acertar definitivamente neste vida?, ou ainda vamos precisar de mais umas quantas encarnações"? Se calhar tens razão, como dizias, ainda teremos mesmo de nos encontrar um dia. Mas  certamente não será nesta, terá mesmo que ser noutra encarnação para nos pacificarmos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

EU e a Empresa - Como Se Fosse Uma Relação

Na entrevista acho que foi amor à primeira vista. Ela podia ter escolhido qualquer um. Diz-se que houve centenas ou milhares de candidatos já nem sei. Mas escolheu-me a mim. Afinal são sempre elas que escolhem, não é? Desta última vez eu lancei a corte a várias, rejeitei uma ou outra antes, mas esta foi realmente a que me deu o melhor dote para casar com ela. Enamorei-me e já estamos casados vai fazer cinco anos. Mas aconteceu o que acontece mais ou menos com todas as relações. 

A paixão foi fulminante. Desmesurada. E já se sabe como é na paixão. Fode-se a toda a hora em tudo que era sítio. Era no Escritório; no laboratório de Investigação & Desenvolvimento; na Produção; na Cave; nas casas de banho dos homens e das mulheres; experimentamos no banco do empilhador enquanto eu conduzia em marcha-atrás; era em todo o lado. Claro, menos em cima da mesa de ping pong que é sagrada! E assim continuou por muitos meses. Éramos felizes. Fazíamos planos a dois para o futuro. Íamos para todo o lado juntos, davamo-nos muito bem e a palavra discussão não fazia parte do nosso léxico. Éramos o casal modelo de toda a gente. 


Sempre vivemos um para o outro e as coisas iam rolado bem, mas aos poucos o cenário começou a mudar. No último ano comecei a aperceber-me que ela me esconde coisas. Percebi que se me aproximo do telemóvel dela ela fica perturbada. Algo se passa. Cá para mim anda passarinho novo a voar no meu jardim. Comecei a ficar de sobreaviso. Na cama começou-se a escudar em relação ao sexo. Passei a ser sempre eu a abordá-la. E se ao início parece que ainda ia fazendo o frete, aos poucos começaram a aparecer as estratégicas dores de cabeça. Grande coincidência! Sempre que eu lhe começava a passar as mãos pelos sítios recônditos lá vinham a desculpa "hoje não estou com cabeça para isso". Mas é preciso cabeça para foder? É preciso é ter vontade!  E depois ainda dizem que as mulheres são multifacetadas e que fazem várias coisas ao mesmo tempo!  Mas afinal nem ter uma dor de cabeça e foder conseguem fazer ao mesmo tempo! Fartei-me quando comecei a ouvir os "só pensas nisso". Deixei de me importar e de a procurar para esses assuntos. Quando lhe passarem as dores de cabeça que me procure, se quiser. Talvez nessa altura seja eu que queira brincar de achacado às enxaquecas. 

A relação degradou-se. Vamos estando juntos por estar. Talvez seja mais por estarmos habituados um ao outro que por outra coisa. Nem sei se ainda somos amigos sequer, talvez sejamos uns meros amigos-sósia. Os amigos desabafam e apoiam-se mutuamente. A frustração acumulada é muita. A motivação nenhuma. Ambos sabemos que não temos futuro juntos. Só o lado prático de manter as mesmas rotinas e de viver na mesma casa. Talvez a maior motivação para ficarmos juntos seja a vergonha que iríamos sentir ao admitir a derrota da separação. 

Isto assim não pode continuar. Ando a pensar pôr termo a esta situação. Mas sinto-me dividido. E eu não sou homem de várias mulheres, se uma já dá tanto trabalho, sinceramente não sei como há homens que conseguem andar com duas ao mesmo tempo. Mas o fim está próximo. Sente-se. Acho que não há salvação possível. Nem com terapia para casais. Mas como eu também já sei, nem sempre tem que ser um drama. E quem sabe até podemos ficar bons amigos... 

... e há uma grande diferença nisto tudo. Um emprego e a mulher que amamos, não é bem a mesma coisa.  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Traição e Quebra de Confiança nos Tempos Modernos

... "E agora aqui, lá vem outra vez a velha história Inês: o que é trair?
Cobiçar uma terceira pessoa é já trair ou não?
Bom, repare como todo esse conceito da traição também mudou com as redes sociais. 
Nem mais.
Repare, se nós passamos várias horas da noite a trocar mensagens com alguém, enquanto o nosso marido (ou mulher) está a dormir, isso não é já traição?
- Que é que acha?
Até pode ser o início duma bela amizade, se for ainda bem. Mas, quando os nossos estão na nossa cama, e nós estamos entretidos com alguém novo a conversar, eu diria que já há aí um....fosso, não é?
Tiremos a palavra traição, porque na minha opinião a traição é uma palavra que continua muito agarrada à carne...
- Sim, ao sexo. Quando nós demonstramos interesse por outra pessoa... vamos pensar no interesse não é?...
E digamos assim. Será ou não consensual dizer que há quebra de confiança? Eu acho que há. 
O outro não sabe Inês. Ou você conta-lhe? Se você lhe conta não há problema nenhum. 
Pois....julgo que não.
Não contam. Se não contam é por alguma razão. Porque uma pessoa pode dizer "oh pá tu não imaginas o fulano interessante da Nova Zelândia com quem eu estive a conversar ontem à noite. Ponto final parágrafo. Disse tudo. Agora, quando isso é escondido...
Quando ainda é Nova Zelândia é um sossego porque está muito longe!
Cuidado! Aí há efeito de género. É um sossego sobretudo para os homens. Porque os homens continuam muito agarrado ao físico. Ao que acontece no concreto. 
No imediato também...
Nas mulheres não há assim tanto sossego. As mulheres podem ficar irritadíssimas, mesmo sendo na Nova Zelândia e não havendo nenhuma passagem de avião marcada. E outra coisa, em que hoje em dia você encontra, entre aspas, um comportamento masculino é, mulheres que têm relações extra-conjugais a dizer "mas o meu casamento é muito feliz". Isto era paleio de homem....

As mulheres são mesmo emocionalmente diferentes dos homens? O Amor é / Antena 1



domingo, 23 de setembro de 2018

Que Tipo de Casamento Vai Escolher Hoje?

"Os Últimos Dias da Monogamia" 
Laslo Havas - Louis Pauwels 
(1969)
A liberdade para um casal viver a sua vida à sua maneira está, de facto, conquistada, com a condição de respeitar a regra do jogo. Consiste em poucas palavras: fingir.
Largo uso tem sido feito desta liberdade. É provável que restem por inventar formas inéditas da vida a dois. Mas já se oferece uma bela gama de possibilidades (...) Nas sociedades avançadas da segunda metade do século XX, um homem e uma mulher casados (só falamos aqui destes) podem escolher as seguintes soluções:

1. Castidade Absoluta

Os cônjuges não têm relações sexuais nem entre si, nem com terceiros.
Os motivos são diversos. O mais respeitável, senão o mais difundido, é a fé (...)
Estes abstinentes permanecem agarrados a uma conceção antiga. Obedecem a S. Jerónimo para quem "a virgindade é o estado natural". Receiam as ameaças de S. João Crisóstomo "O casamento é o fruto da desobediência do primeiro casal, da maldição e da morte". Seguem o exemplo de S. Aleixo que, contraindo o matrimónio, não tinha a intenção de o consumar. E, acima de todos, veneram S. José, cuja união com a Virgem mostra,  segundo S. Agostinho, "magnificamente que o casamento pode subsistir sem as relações conjugais e até com o consentimento a uma continência recíproca" (...) 

2. Castidade Conjugal com adultério

O casamento não está consumado, mas um dos cônjuges, ou ambos têm relações com terceiros (...)

3. Alibigamiade

A união legal dos homossexuais com pessoas do sexo oposto, destinada a afastar suspeitas (...)



4. Monogamia para toda a vida

Os cônjuges casam virgens e mantêm-se fieis um ao outro.
Esta fidelidade não termina antes da morte de uns dos cônjuges. Para maior segurança, nas Índias, até 1829, a mulher era queimada com os despojos do seu marido. Devemos todavia fazer notar que que os padres, herdando todos os bens da viúva sacrificada, por alguma razão forçavam o respeito deste costume (...)

5. Monogamia Temporária

Fidelidade absoluta dos dois cônjuges limitada à duração do casamento (..)

6. Monogamias Sucessivas

Diz-se igualmente monogamias seriais ou poligamia serial. Pode-se igualmente falar de fidelidade intercambiável: é mesmo disto que se trata (...)

7. Adultério sem Consentimento

O homem ou a mulher, ou os dois, têm relações extra-conjugais que o outro ignora e tudo é feito para que assim aconteça (...)

8. Adultério com Consentimento Tácito

O outro sabe-o, mas não se fala disso (...)

9. Adultério com Consentimento

Ambos o sabem e disso falam (...)

10. Lar a três

Coabitação do casal com o ou a amante (...)

11. Spouse trading 

Troca dos cônjuges entre dois ou mais casais, para uma noite ou um fim-de-semana (...)

12. Casamento Intermutável

Troca de cônjuges de duração prolongada (...)

13. Sexo Coletivo 

O casal conduz-se quotidianamente como qualquer outro casal, mas participa em orgias programadas. Para que esta fórmula se torne uma forma de vida, é preciso que a participação seja regular e as reuniões organizadas, isto é premeditadas (...)

14. Omnigamia

Promiscuidade absoluta, liberdade sexual total, sem restrição alguma. Os adeptos do sexo coletivo formam uma sociedade, com as suas regras os seus usos, a sua sabedoria de vida. Os adeptos da omnisexualidade são os fora-da-lei daquela sociedade. Eles trocam de mulheres mas também as roubam. Tanto os companheiros do mesmo sexo como os do sexo oposto são bem-vindos. O incesto é quotidiano e as menores não são banidas. As orgias de massa alternam com noites íntimas e mesmo uma conversa a dois é tolerável (...)

15. Grande Família

Comunidade de vários casais que dividem a sua mesa e a sua cama frequentemente, mas não necessariamente, os seus bens. Esta grande família, também chamada "kolkose amoroso" ou "kibutze sexual" começa com quatro pessoas, não havendo limite para o máximo 
(...)

Os julgamentos, autoritários ou sumários, não faltam. Pseudo-científicos, moralistas, imoralistas, avançam a sua formula e afirmam-na universalmente boa. Esse não é o nosso caso. Nós recenseamos. A variedade da escolha é, de facto, desconcertante. Mas cada um que decida, no conhecimento da sua própria causa. Basta saber por que e como viver a dois, o que é o casamento e o que dele se espera. Mas sabêmo-lo?

sábado, 15 de setembro de 2018

Uma Namorada é Como uma Peça de Roupa?

Saía do hospital e ia tranquilamente pela rua Dom Manuel II abaixo em direção ao Palácio de Cristal. A passos apressados aproximava-se uma mulher alta e magra, com os cabelos compridos a abanar junto com o movimento do corpo. Olhava para ela, sem nada dela saber!, e punha-me a pensar como ela era capaz de me assentar bem ao meu lado. Não tive dúvidas que aquela mulher me ficaria bem! O resto não interessa nada, o importante é nos assente bem! Continuei a descer a rua já com o meu cérebro a sorrir, pensando que, se calhar este pensamento não foi assim tão descabido de todo!

É que se calhar, no fundo, as pessoas procuram alguém tal como se fosse uma peça de vestuário que tiram dos cabides de uma loja de roupa para levar para os provadores e para depois ver se lhes assenta bem. Claro que se ficar largo ou apertado já não serve, mas mais importante ainda, temos de gostar quando nos vemos ao espelho. Às vezes até se leva uma amiga, "então que achas, achas deste gajo  top? Achas que me assenta bem e realça as minhas curvas?" (logicamente que se ficar mesmo muito bem, a amiga vai dizer que não, que não lhe fica nada bem!)

Há peças de roupa que mal olhamos, adoramos logo. É o tão falado amor à primeira vista! Ainda nem vimos como nos assenta e como nos fica mas já estamos apaixonados por aquela peça de roupa e temos mesmo de a ter! Depois claro, a paixão por vezes só dura o tempo de chegar aos provadores e experimentar. E rapidamente a paixão cai por terra quando percebem que afinal nem fica tão bem assim. Daí a regra de ouro das compras (e do casamento!): nunca trazer uma peça de roupa para casa sem experimentar primeiro!

Mas depois também é preciso que a peça de roupa goste de nós! Pois é, não basta ficar logo com o pito aos saltos, se depois vamos a ver o preço e a nossa carteira não gosta mesmo nada! É uma pena mas é mesmo assim. Noutros casos até ficamos um pouco na dúvida, um pouco confusos se calhar, e só depois das primeiras saídas é que vamos começar a ter certezas se vamos gostar ou não! Noutros casos, por via das dúvidas leva-se tudo para casa, só por levar, até porque está em saldo, e mais tarde percebe-se que nunca acabou sequer por sair do armário e ainda tem as etiquetas e tudo!

E depois claro. As rotinas. Usa-se a peça de roupa, põe-se a peça para lavar. Volta-se a vestir e a usar e a rotina repete-se. E claro, tudo isto causa um imenso desgaste na roupa. E aos poucos, aquela peça que as pessoas tanto adoravam acaba por começar a ficar posta de lado, deixa-se de sair com ela, passa a ser roupa de trazer por casa e depois, acaba no lixo a poluir os mares.

Tu queres ver que uma namorada é mesmo como uma peça de roupa?

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Lado B: Está bonita a dona Irene

Quase dez anos depois encontrei a Dona Irene...  


Foi mais ou menos dez anos antes que, precisamente entre Setembro e Outubro, eu haveria de ficar bastante doente, acamado e de baixa. Foi também por essa altura que a filha haveria de me escrever por mensagens enviadas para o telemóvel que eu era mesmo o companheiro de vida que ela precisava e que só mesmo eu é que a compreendia. Mais ninguém. Mas isto no fundo - ficaria eu a perceber meses depois - foi mais ou menos aquela conversa de presidente de clube de futebol que quando as coisas começam a correr mal, além de culparem os árbitros pela incompetência própria, vêm também logo afirmar convictamente que mantêm toda a confiança no seu treinador. Mas já se sabe, semanas depois despedem-no após novo mau resultado.

O treinador tem sempre as costas muito largas e é sempre o culpado de tudo (ainda que às vezes até seja mesmo). Mas às vezes as costas do treinador são tão largas que ele até é culpado dos remates que os avançados falham com a baliza escancarada; culpado das bolas que batem no poste mas não entram; culpado dos penaltis ou fora-de-jogo que os árbitros não marcam ou culpado até dos frangos que o guarda-redes-maravilha deixa entrar. E claro, no meu caso, semanas depois eu deixaria de ser o "Paulo-Bento-Forever" e seria substituído por um novo treinador, certamente tão cheio de melhores qualidades, ambição desmedida e de novos conhecimentos e táticas prontas a ser postas em prática num novo projeto que durante tantos anos foi o meu projeto de vida.  

Ser trocado não é lá muito bom. Nem nos faz lá muito bem à auto-estima. Ninguém nos troca e acha que vai de cavalo para burro não é? As pessoas mudam (seja lá no que for) porque acham sempre que vão para melhor, ou pelo menos quando o fazem têm essa convicção. E afinal que é que esta nova pessoa tem assim de tão espetacular, tão melhor que nós que justifique mandar às malvas uma amizade e uma relação de tantos anos? E depois a constatação. Afinal não era "para sempre"? E então não ia ser eu que, por ser quase uma espécie de Deus Grego (pelo menos aos vinte anos era o que ela achava) e que eu é que a ia deixar por outra mulher qualquer, lá está, sempre mais qualquer coisa que ela?

Foi num certo domingo de manhã, cedo, que percebendo que se estavam a arranjar desculpas só para discutir, porque mais parecia que de repente somos culpados por todos os males do mundo, do cancro, das guerras e da corrupção, em que parece que tudo está errado só por nossa causa (cá entre nós porque se calhar não se tem coragem de colocar as cartas na mesa e dizer a verdade), que então eu decidi premir o botão da bomba atómica fazendo a pergunta sacramental que nunca havia pensado fazer:

- "Existe outra pessoa"?
"Sim".
E o meu mundo, tal como eu o conhecia, acabava de ruir nesse momento. 

No pior momento possível, (claro que nunca há bons momentos para sermos preteridos) uma nova realidade paralela estava a acontecer-me. Só depois percebi como afinal tudo se encaixa na perfeição. O porquê disto, o porquê daquilo. Tudo ficava claro. Depois percebi também o porquê de tanto cansaço...
Percebi então o porquê de, num certo dia me ter vindo ver quando eu estava doente e mal me ter falado, de ter quase acabado a dormir do meu lado esquerdo, virada para a janela de costas para mim, como que não me querendo olhar, ou enfrentar os seus demónios. Percebi também o porquê de me dizer que me vinha ver no dia seguinte, mas afinal depois não apareceu. E de dia seguinte em dia seguinte, o cansaço acumulado já era tanto que  acabou mesmo por passar toda a semana sem me  vir ver.   

Há formas diferentes de encarar as situações. Claro que sendo multi-resistente não faltei um só dia ao trabalho. Ela acabou por ficar toda uma semana inteira de baixa e andou a tomar uns compridos quaisquer. Eu não tomei nada mas deixei de dormir. Bem que tomei infusões mas nada fez efeito. E haveria de estar mais de um mês sem pregar olho e sempre a trabalhar em modo automático no momento em que, ainda por cima, acabava, finalmente, de ser promovido. Cheguei ao cúmulo de chegar ao trabalho às seis da manhã porque já não aguentava mais estar na cama. E durante alguns anos, sempre que chegavam os primeiros dias mais frios de inverno e saía cedo de manhã para ir para o trabalho, ainda sentia as lágrimas gélidas a escorrer-me pela cara abaixo tal como em todos aqueles primeiros dias de Dezembro daquele ano.

Mas claro que nunca ninguém me haveria de ver chorar. Um homem é forte, aguenta tudo e não chora. Chorar é coisa do sexo fraco, coisa de mulher. Os homens são frios e não têm sentimentos. Não foi assim que a sociedade nos ensinou? E só muitas semanas depois, quando estava a almoçar no restaurante do costume e um colega me pergunta por ela, é que, pela primeira vez, tive que pronunciar a muito custo, tive que me ouvir a mim mesmo dizer, com voz de derrota, que não fazia ideia pois já não estávamos juntos. E para mim era o assumir, pela primeira vez, da vergonha da derrota pessoal. Porque para mim sim, foi uma derrota pessoal. Afinal nós não éramos o casal perfeito apontado como exemplo. Afinal éramos como todos os outros, pois também a nossa relação tinha ido pelo esgoto abaixo depois de uma descarga de água em cima.

E claro que quando duas pessoas gostam mesmo uma da outra, uma relação não acaba assim, do nada, só porque alguém decide olhar para o lado. Como é lógico já existiam problemas que iam fragilizando e criando fissuras na fuselagem da relação. Claro que só se dá espaço para que alguém ronde as nossas janelas quando as coisas não estão bem. E logo eu, que sempre fui muito atento aos gatos vadios que gostavam de rondar. E eu nunca menosprezei nenhum gato vadio, precisamente por ter a humildade suficiente para não me achar melhor do que ninguém, ainda que, como é lógico, também soubesse reconhecer o meu valor.

Pensei em suicidar-me até porque como Nietzsche disse: "a ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más". Porque quando a dor é insuportável e queremos que ela cesse, sabemos sempre que temos uma forma de o conseguir. Debati-me até, muitas vezes, a pensar sobre se ao não fazê-lo se tratava de ser corajoso ou um cobarde. Acho que até hoje nunca encontrei a resposta. Certo dia até me contaram a história verdadeira que determinada mulher também deixou um homem. Este, certo dia, ligou-lhe, ela atendeu o telefone, e do outro lado do telefone só ouviu o som de um tiro. Poético.

Durante todo este tempo, e apesar de, ao que parece, até termos vivido sempre tão perto, nunca nos cruzamos. E foi muito melhor assim. Passei sim inúmeras vezes pelos pais, maioritariamente de carro, nunca tendo no entanto passado ao lado deles na rua e sido obrigado a cumprimentá-los. Mas dela nem sinal. Mas lá haveria de chegar o dia em que me haveria de cruzar cara-a-cara com a mãe.

Esse foi um dia foi cheio de imprevistos, de coisas que queria fazer mas em que outras ficaram por fazer. E vá lá saber-se porquê, haveria de andar às voltas, ali pela sede do município, sem me lembrar que era a festa do santinho padroeiro da terra, e que as ruas já estavam cheias de comes e bebes. E acabei por dar umas quantas voltas até conseguir estacionar o carro, mas ainda assim cismei que haveria de passar na biblioteca. E quando dobrei a rua dou de caras com ela. 

E claro que eu sou (por norma) um cavalheiro. Logo me dirigi a ela e, genuinamente sorri e cumprimentei-a com dois beijos. Estes encontros imediatos, mesmo tantos anos depois, nem sempre são fáceis. Perguntou-me se estava tudo bem comigo e começamos a falar normalmente. Segundos depois do desconforto inicial já estávamos a falar das nossas maleitas. Entretanto pouco tempo depois o seu telemóvel tocou. Apressei-me a despedir-me, de novo com dois beijos, e a desejar-lhe tudo de bom para ela e para a família.

Virei costas a sorrir e a pensar: "Está bonita a Dona Irene".

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Lado B: Textos que por vezes ficam anos  nos rascunhos do blogue mas que um dia vêem a luz do dia.
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sábado, 14 de julho de 2018

Quando Ele Deixou de Lhe Saltar Para Cima

É sabido que as relações dos casais podem ter problemas de vária ordem. Só assim de repente estou a pensar nos ciúmes doentios, muitas vezes da vida do outro em que o casal ainda nem sequer se conhecia ("antes de mim o dilúvio"); as diferenças comportamentais em casa; personalidades incompatíveis; a gestão do dinheiro; e por fim, e não menos importante, claro, o sexo.

Quando nos interessamos por alguém (por norma) não sabemos como o outro é do ponto de vista sexual. A pessoa pode ser mais ou menos culta, mais ou menos bonita, mais ou menos qualquer outra coisa qualquer, mas não sabemos como ela é do ponto de vista sexual. Digo por norma, porque eu ainda sou do tempo em que primeiro conhecíamos a pessoa, sabíamos o seu nome e a sua maneira de ser e só depois, mais à frente, se entrava noutras aventuras, ao passo que hoje em dia nem sempre é bem assim. Hoje em dias, muitas vezes as pessoas encontram-se, dão umas traulitadas com perfeitos desconhecidos, e de quem nada sabem, e isso não invalida que depois de umas ramboiadas, as pessoas até se queiram conhecer e entrem numa relação afetiva. Mas "por norma", o percurso natural nos humanos não é esse. Conhece-se a pessoa e então só mais à frente desvendamos alguém que só quer fazer sexo com a luz apagada, ou alguém verdadeiramente ninfomaníaca que não descansa enquanto não nos esvaziar o saco escrotal!

As pessoas conhecem-se, apaixonam-se, entram numa relação e têm sexo (não necessariamente por esta ordem, pois como disse anteriormente podem ter sexo, conhecer-se, apaixonar-se e só depois entrar numa relação ou nunca sequer se apaixonarem). E "por norma" as pessoas vão-se ajustar em tudo. Nos interesses, na divisão do tempo, nas escolhas para sair, e também poderão ter necessidade de se ajustar no sexo, pois quem vê caras não vê libidos. Tentarão ajustar o número de vezes, a variedade, a duração, tudo na tentativa de manter ambos os elementos mais ou menos satisfeitos.

A relação segue o seu percurso, mais ou menos feliz, e sempre numa base de fidelidade, com mais ou menos sexo, que "por norma" irá acentuadamente decrescer ao longo do tempo, mas o casal vai vivendo bem com isso. Mas o que acontece se, de repente, um dos elementos do casal não mais quer ter sexo? Como é que ficamos?

E eu estou em crer que, numa relação nenhuma pessoa chega ao pé do outro e diz "olha, ando sem vontadinha nenhuma. Por favor deixa-me estar no meu canto. Não me apetece. Agora se te apetecer usa as mãozinhas, ou compra uns brinquedos porque eu não estou para aí virado(a) e não sei quando ou se voltarei a estar".

Não, "por norma" imagino que os problemas simplesmente se vão empurrando para a frente como a dívida portuguesa. Quem não tem vontade não procura o outro. Se o outro não procura ótimo, problema resolvido. Mas se procura então vai ter de arranjar desculpas. É o cansaço; são as dores de cabeça; é o sono; é o ter de levantar cedo de manhã; é a desculpa de andar deprimido; porque afinal o Benfica não foi penta; porque a seleção foi eliminada no mundial e não há clima; qualquer desculpa servirá. E não se faz hoje; não se faz amanhã; não se faz para a semana; não se faz daqui por um mês. Quando se dá conta não se faz há anos.

Foi ao ler este artigo em que uma mulher se queixa que só tem uma vez sexo por ano com o marido, que relembrei um caso que fui acompanhando de perto, e em que se passaram vários anos até que a mulher tivesse decido pôr ponto final na relação.

"Ainda sou muito nova para passar o resto da vida sem sexo", disse-me.



E o que é que se faz numa situação destas? Quem não quer sexo sente-se incomodado com as pressões do outro para o fazer. Quem quer fazer sente-se completamente frustrado e diminuído na sua auto-estima. Começa-se a ficar farto de ouvir "só pensas nisso" como se desejar a pessoa que se ama fosse uma doença, como se quem tem vontade de está ali pronto para a ação é que estivesse errado. É a frustração e a culpa de, por exemplo ter de meter mãos à obra para acalmar o problema quando, supostamente, um companheiro(a) serve também para não ter que se usar as mãos sozinho.
As dúvidas começam a assaltar-nos a mente. "Ele(a) ainda gosta de mim"? "Será que já não me deseja?" "Será que tem outro(a)"? "Será que afinal descobriu que é gay"? Isto não é minimamente saudável, mas quando se gosta deixa-se a situação ir-se arrastando, mantendo a secreta esperança que aquilo seja só "uma fase". O problema é quando a fase passa a ser o estado habitual e até nós já nos cansamos de tentar.

E se até aqui só ouvíamos os homens queixarem-se das eternas dores de cabeça das mulheres que não queriam nada "ir ao castigo", agora, fruto no meu entender da sua emancipação, são também as mulheres que reivindicam a sua sexualidade e saem porta fora se os companheiros ficam eternamente com enxaquecas e sem vontade nenhuma de lhes saltarem para cima.

Lembro-me de ouvir, nos tempos em que ainda via televisão, a ginecologista Maria do Céu dizer que aconselhava sempre as suas pacientes a fazer sexo com os maridos quando eles queriam. Não estão com vontade? Deixem-se levar na mesma. Depois de começarem começam a lubrificar, ficam excitadas e até vão gostar. Aliviam a pressão dos os companheiros e no fim ficam todos satisfeitos.

Outra coisa que acho é que, excluindo situações de doença, ou de tomas de medicamentos que tenham implicações na libido, a ausência de sexo, ou a falta de intimidade no casal, seja por ambos ou por parte só de uma das pessoas, "por norma" significará que algo não vai bem no reino de suas majestades. Acho que o sexo poderá ser um bom barómetro da relação, mas, logicamente, tendo em conta que, nada será igual aos primeiros tempos, porque aos poucos tudo está desvendado. Mas quando, sem nada que o fizesse esperar, as coisas mudam radicalmente, então é porque algo se passa. E se, como eu costumo dizer, não vai ser o sexo que vai manter uma relação insuportável, pode muito bem ser o sexo um motivo que, aos poucos, possa começar a minar uma excelente relação.

E como é que se resolve então uma situação em que, numa relação baseada na fidelidade, um deixa de querer sexo?
- Deve a pessoa sujeitar-se a estar toda a vida sem sexo, porque afinal é "na saúde e na doença" e se for preciso toda a vida sem sexo só porque o outro não quer?
- Tentar falar, expor o que se sente e se as coisas não melhorarem termina-se a relação?
- E se a pessoa que não quer sexo se virasse para a pessoa que e lhe desse um livre trânsito para ela, só durante o tempo que durasse o retiro sabático, pudesse fornicar com quem quisesse? Não seria isso aceitável? Mas também ninguém disse que a outra pessoa aceitaria não é?

Não será nada fácil. E foi por isso que na situação que fui acompanhando ela acabou mesmo por ter de terminar com a relação que era vista por todos como a relação perfeita. Ela passou a ser a má da fita, a cabra (ou outro animal se preferirem), porque abandonou o lar e deixou um excelente marido. Na volta tem algum amante a puta. Só que nunca ninguém soube que as coisas acabaram tão simplesmente porque ele deixou de lhe saltar para cima. Pois é...

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Coisas que me Lembram de Ti

Foto emprestada da net
Bem sei que já te diziam que eras muito parecida com a Cristina. Até eu mesmo te surpreendi quando viste que eu tinha um poster da Cristina na garagem e te disse que também já tinha pensado nisso. Mas olha que, e não é de agora, que eu acho que és muito mais Ana que Cristina. Sim, a sério! Ou então, isto foi só desde o dia em que apanhei um valente susto, em que estava na bicha de um posto de combustível e olho para a minha direita e vejo-te na capa de uma revista! "Ui, que é que ela está a fazer numa capa de revista? Estarei a ver bem?" 

Acho que isto faz parte do processo, ou pelo menos do meu processo. Já tenho obrigação de o conhecer bem. É uma espécie de stress pós-traumático depois do fim de uma relação e em que se continua a gostar muito da outra pessoa. E agora que penso até nem é uma coisa que se fale muito, ou eu pelo menos nunca ouvi falar. Mas existe e pode ser muito complicado para ultrapassar. Afinal, não são só os ex-combatentes de guerra que ficam com traumas. E eu até estou em crer que a maioria dos traumas e os mais complicados que as pessoas carregam ao longo da vida, foram vividos na infância. E certamente que depois dum evento emocional fortemente traumático podem ficam sequelas para o resto da vida. (Coitadas daquelas crianças que o cabrão daquele filho-da-puta do Trump está a separar dos pais). E como é que não podiam ficar traumas, se uma das coisas mais fortes que emocionalmente experienciamos na vida é o amor? 

Ainda que, no meu caso e em boa verdade, esse stress pós-traumático se tenha transformado noutra coisa qualquer, uma vez que, ver-te nos mais variados sítios é sempre motivo de sorriso e de quase galhofa. Sim, também se pode ter transformado em loucura, é bem verdade!

Mas é claro que eu sei perfeitamente que, por exemplo, continuar a ver o teu carro em todo o lado não é nenhum sinal do Universo... Para ser honesto, e aqui que ninguém nos lê, se calhar acho que é... Se calhar também pode ser sinal que têm de existir muitos carros iguais ao teu, mas significa também que os meus olhos ignoram a maioria dos carros e só reparam em alguns. E os nossos cérebros fazem isso inúmeras vezes, mesmo que seja sem nos apercebermos, E não raras as vezes só vemos o que queremos ver. E três anos depois, ainda ver ainda o teu carro em todo o lado, significa só que, mesmo passado todo este tempo, e mesmo depois de me ter voltado a deixar encantar de novo por outra pessoa, tu continuas muito presente nas minhas memórias. Porque há coisas que não se esquecem, e mesmo que eu conseguisse, na verdade também não me quereria esquecer de ti.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pessoa Interessante este Carlos

Acabava de desligar o telemóvel e perguntava-me que tipo de pessoa seria este homem, que falava de uma maneira muito meiga, sensível até, atrapalhado com o gato, e que se iria encontrar comigo dentro de cinco ou dez minutos.

O Carlos é um homem bem parecido e arranjado, de barba de três dias, cabelo grisalho, e que, tal como eu, gosta bastante de conversar. Rapidamente fiquei a saber que é divorciado e está a está a mudar de casa, porque a namorada não quer ir viver para o T3 dele. Então vai ele morar para casa dela, que fica num local que tem uma praia que me é muito conhecida - se calhar este até podia ser o novo namorado dela! - e vai vender a sua casa.

Percebe-se que está apaixonado por ela, que, segundo ele, é bem mais nova que ele. Sente-se pela forma entusiasmada como falava deles. "Temos tanto em comum, gostamos das mesmas coisas, até das mesmas cores". E estão em sintonia também em relação aos filhos. E gostam de deixar a relação respirar. Cada um tem as suas coisas que gosta de fazer e os seus amigos, e tem a sua liberdade, e que desde que haja confiança e respeito não há problema.

Sobre a questão dos filhos confidenciou-me uma coisa interessante. Que saiu e foi para a cama com algumas mulheres divorciadas com filhos, mas que rapidamente estas lhe diziam que "os filhos estão sempre em primeiro lugar", e que então "fugia logo delas a sete pés"! 
Disse-lhe precisamente que isso sempre me incomodou. Que o casal deve vir sempre em primeiro lugar, e que, infelizmente, vejo o inverso em muitos casais. Parece que a partir do momento que a cria nasce que as prioridades se invertem e que há quase uma espécie de competição entre todos. 

E depois disse uma coisa muito interessante sobre as comparações. Sobre os outros acharem que nós, livres e desimpedidos, que nós é que temos uma vida boa por podermos sair e ir para a cama com quem nos apetecer. 

"Mas queres trocar?" disse ao amigo que acabava de lhe dizer que ele é que tinha sorte.
"É que se queres trocar eu troco. Eu hoje durmo sozinho e amanhã e depois de amanhã também. Às vezes só me apetecia um abraço e não tenho. Nem tenho um filho que venha ter comigo ao fim do dia e me chame de papá... Queres trocar? Olha que eu troco já."

Antes de cada um ir à sua vida, desejei-lhe boa sorte. Disse-lhe que gostei muito daquele bocadinho. E dirigi~me para as escadas rolantes, sorrindo, e pensando... "pessoa interessante este Carlos". 

domingo, 7 de janeiro de 2018

E Não deveria o Amor ser Sempre o mais Importante?

Estávamos junto ao Cais de Gaia a conversar dentro do carro. De repente a conversa derivou para a temática dos filhos. E talvez essa conversa não tivesse aparecido por acaso. Quando estamos apaixonados por alguém, especialmente há pouco tempo, e já não somos umas crianças, vamos analisando o outro, tentando perceber que terreno pisamos, com o que podemos contar. Creio que ela estava a ser mais analítica que eu, apesar de, como é lógico, também eu, ainda que de uma forma mais distraída fosse apreendendo que mulher era aquela que me abalou as estruturas. 

"Eu vou ter dois filhos", disse-me. Eu ouvi isto, não como um desejo muito grande da parte dela, mas como um facto. Eu sabia que ela só me estava a informar. Nesse momento uma grande tristeza abateu-se sobre mim e ela percebeu-o. Porque eu nunca quis ter filhos. E a determinada altura, ainda dentro do carro, abraçamo-nos. 

Lembro-me perfeitamente de conversarmos sempre de forma tranquila, e de lhe ter perguntado se ela afinal procurava um homem que a amasse ou se buscava um pai para os filhos dela. Claro que a resposta era óbvia: ela queria os dois. Mas para mim, não ter filhos é um duplo sentimento de amor, ainda que, se calhar, poucos o entendam. Antes de mais, e por maior ordem de importância, para mim, não querer ter filhos é um ato de amor pela mulher que amo. Depois, e só depois, porque a minha mulher teria de vir sempre em primeiro lugar, não colocar filhos neste mundo e nesta sociedade apocalíptica, seria um ato de amor por eles.

Mas é sempre tudo tão irónico... É tão irónico porque eu não deveria estar aqui a escrever. Muita coisa não era suposto ter acontecido, porque se tudo tivesse decorrido normalmente, eu hoje não estaria aqui neste mundo. Talvez não esteja mesmo. Talvez isto seja só uma realidade alternativa, de como seria o mundo destas pessoas a quem me dei, e como é que seria se eu tivesse nascido e vivido no meio delas. Se calhar só mesmo eu é que vejo esta realidade alternativa. Porque muitas vezes bem tento, mas parece que as pessoas me olham mas na realidade  não me vêem. É como se eu estivesse noutra dimensão, os visse e ouvisse mas não me vissem a mim, nem lhes pudesse tocar. 

Eu fui transplantado no tempo e fiquei a reviver estes momentos, ainda tão presentes, quando esta semana estive com um casal a degladiar-se, porque um dos dois quer ter muito pelo menos um filho, mesmo que não seja para já, mas o outro parece-me que, por sua vontade, nunca iria querer ter nenhum.
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E o que é que se faz quando num casal um quer ter filhos e o outro não quer? Cedências? Consensos? Mas como é que se cede ou se chega a um consenso nesta matéria? Ter filhos contra a vontade, ou ficar toda a vida frustrado sem filhos (quando se tem companheiro para os fazer) não é bem o mesmo que ir ver um filme que à partida se sabe que não se vai gostar, mas a que se vai só para fazer fazer a vontade do outro. Ter ou não ter um filho não é bem o mesmo que chegar a um acordo sobre se compramos um monovolume ou uma carrinha, se passamos a comprar açúcar amarelo em detrimento do branco. Esta questão dos filhos é um bocadinho mais complexa que isso.  

E sem dúvida que ninguém deveria ficar frustrado e triste por passar uma vida sem ter filhos. Tal como ninguém deveria sentir-se obrigado a ter filhos contra a sua própria vontade. E acho que ninguém pode dizer que uma posição é mais ou menos importante que a outra e acho que é sempre preciso respeitar-se a vontade do outro, ainda que se possa conversar muito a esse respeito e quem sabe, eventualmente, as pessoas possam chegar a um entendimento.

Na verdade eu não sei como é que um casal resolve essa questão sobre os filhos, quando um tem um desejo oposto ao outro. Mas o que eu sei, de certeza, é que o Amor vem sempre muito antes dos filhos. E não deveria o Amor ser sempre o mais importante?