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terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

terça-feira, 30 de julho de 2024

Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

"Não tinha a intenção de encontrar esta missiva que desencadeou tantas memórias do meu passado. Estava à procura de outra coisa, remexendo numa antiga caixa na minha cave, quando encontrei uma carta de amor com décadas, escondida entre postais, artigos e fotografias.



Tinha o carimbo de setembro de 1991 e estava endereçada paraa mim através de entrega geral nos correios de Block Island. É um milagre que a tenha recebido. Era longa: cinco páginas de prosa manuscrita com espaçamento simples, desvendando a alma de um homem por quem me tinha apaixonado profundamente.

Ele escreveu: 

“Parte de mim odeia a arte, a literatura e a busca pelo eterno. Parte de mim não poderia viver sem isso. Estou dividido, esmagado e confuso.”

Ele continuou, mergulhando mais fundo na nossa crescente paixão. 

“Tu trazes o melhor de mim, mas não o consomes; brincas com isso, atacas, dás vida, mas não o consomes. Depois de estar contigo, sinto-me revigorado. Respeito-te pelo teu amor, pela tua força e pela tua franqueza. Nunca encontrei uma mulher tão segura do seu corpo.”

O sentimento era mútuo. Este homem era meu igual em todos os sentidos - intelectual, sexual. Era deslumbrantemente bonito, de ascendência alemã, tal como eu. Talvez os nossos antepassados se tivessem amado numa era distante?

Não éramos desconhecidos quando as nossas vidas colidiram - conhecíamo-nos na faculdade - mas qualquer atração na altura era atenuada pelo facto de estarmos em relacionamentos amorosos com outras pessoas.

Alguns anos depois, ele estava de férias com a família em Block Island, ao largo da costa de Rhode Island, onde eu trabalhava como empregada de mesa no Hotel Manisses. Ele viu-me a conduzir pela cidade e, mais tarde, andou de bicicleta por toda a ilha à procura do meu carro distintivo, com o vidro traseiro cheio de autocolantes da nossa alma mater. Foi uma grande surpresa quando ele chegou à casa que eu alugava com amigos e me encontrou sentada na varanda. Conectámo-nos instantaneamente e planeámos um encontro. E isso, como se costuma dizer, foi história. Uma explosão de mentes, espíritos e destino sexual.

Ele recordou esse tempo na sua carta, descrevendo as mulheres com quem tinha saído: 

“Todas pareciam tão desamparadas, tão dispostas a entregar-se; não falo dos seus corpos, mas da sua dignidade. Submetiam-se a mim. Tu, por outro lado, enfrentaste-me. Levaste-me até uma rocha num lago infestado de tartarugas mordedoras e seduziste-me. Mataste-me - de uma maneira boa, claro. Admiro mulheres fortes.”

Sorri ao recordar esta memória, recordando a nossa excursão noturna de mergulho nu em Sachem Pond e o amor que fizemos nessa rocha. Tão intenso que perdi uma coisa valiosa, uma pulseira de jade e prata feita pela tribo Shoshone no Wyoming. Uma relíquia esquecida, há muito enterrada sob a lama salobra.

Encontrámo-nos num momento terrível, ambos nos nossos vinte e poucos anos, tateando o caminho, tentando descobrir para onde apontavam as nossas bússolas. Eu tinha acabado de voltar da Europa; ele estava prestes a embarcar numa viagem de bicicleta de vários meses pelos Estados Unidos.

Ele escreveu: 

“Estou imprudente por ti. Não consigo acreditar que vou estar longe de ti tanto tempo. Como será? Por outro lado, achas que poderíamos passar longos períodos juntos? Não tenho a certeza. O sexo pode matar-nos. Mas estou disposto a tentar - alguma ideia? Áustria? Alemanha? Londres? Califórnia? Canadá? Isto pode ser pesado demais.”

Na altura, o meu coração explodia de alegria com as suas palavras, vendo as nossas conversas íntimas traduzidas em papel, referenciando lugares que eram importantes para ambos. Tudo o que eu queria era abraçá-lo, beijá-lo e gritar, “Sim!” Mas nem sequer tinha uma forma de o contactar na estrada, isto sendo antes dos telemóveis e da internet. Teria sido loucura reorganizar as nossas vidas um em torno do outro após tão pouco tempo? Sim. Mas eu teria ido até ao limite da insanidade por este homem, e não creio que ele soubesse disso.

Nunca tivemos a oportunidade de explorar essas opções tentadoras. O nosso pouco tempo juntos, mais tarde naquele outono, foi demasiado confuso com encontros estranhos, em parte porque nenhum de nós tinha vidas estáveis ou uma ideia clara de onde estavam os nossos futuros. Pelo menos, eu não tinha. Além disso, não consegui dar-lhe o que ele precisava, em termos de palavras. Tinha sido condicionada por um amor anterior a nunca revelar demasiado.

Havia um milhão de coisas que eu queria dizer a este homem. Concordava com tudo o que ele escreveu e mais ainda. Mas não consegui, ou não escrevi. Já passou tanto tempo que não me lembro. De qualquer forma, o que quer que tenha produzido não foi suficiente, e o meu coração partiu-se naquele Natal quando ele partilhou a sua decepção com a minha incapacidade de expressar os meus sentimentos como ele.

Nessa altura, eu tinha mudado para a Califórnia, e ele estava a fazer as malas para a Europa. Passámos o nosso último dia juntos numa praia em Santa Monica, sabendo que as coisas tinham corrido mal.

Acredito verdadeiramente que se tivéssemos arriscado e nos mudado para algum lugar juntos, poderíamos ter partilhado um amor e uma vida incríveis. Mas era demasiado para contemplar na altura, e não conseguimos superar as barreiras estruturais e emocionais.

Agora, quase 35 anos depois, acredito que ele foi um parceiro perfeito para mim de mais maneiras do que uma, confirmando aquele instinto primitivo que tive quando jovem. As coisas poderiam ter funcionado. Mas não funcionaram.

Ele escreveu: 

“Não quero uma jovem frágil e delicada ao meu lado; quero uma mulher que se possa cuidar, uma mulher que possa temer, amar, respeitar e brincar.”

Essas palavras ainda doem agora, quase tanto como quando o encontrei alguns anos depois com a sua esposa ao lado, uma mulher que conheceu logo depois de namorar comigo. Ele fez uma piada desculpando-se sobre a sua conexão, parecia, e tentei não mostrar o quanto isso me magoava.

Segui caminhos diferentes, amei homens diferentes, e estou grata por essas experiências. Especialmente pelo homem com quem casei e os filhos que partilhamos. Mas, quanto mais envelheço, mais confortável estou com a ambiguidade e dualidade coexistindo dentro do meu coração. Amo desesperadamente o meu marido e lamento que esta outra relação não tenha funcionado.

Já fazia muito tempo que não estávamos em contacto, então fiz uma pesquisa rápida na internet. Para meu choque, descobri que, após anos a viver milhares de quilómetros de distância, ele e a sua esposa agora vivem muito perto de mim. Perigosamente perto. Considerei ligar-lhe, mas não o fiz. Adoraria vê-lo, mas não tenho pressa.

Ele tinha escrito, depois de descrever o que queria numa mulher: 

“És tu essa mulher? Às vezes, parece que sim. Somos jovens, no entanto. Não quero manchar o que temos prevendo um futuro sério/delicioso. Por agora, quero-te tal como és, e em poucas semanas, sentirei a tua falta e desejarei-te.”

Enterrei a cabeça nas mãos depois de ler essas palavras, sentindo a falta deste homem poético e bonito e da paixão que partilhámos. Mas agora somos mais velhos, com famílias. Fizemos as nossas escolhas, seguimos caminhos diferentes. O que poderíamos partilhar agora quando esse tipo de amor ou futuro já não está em cima da mesa?

De qualquer forma, as coisas mais importantes que quero dizer-lhe são as palavras que escrevi aqui: amei-te profundamente uma vez, e lamento tanto que não tenha funcionado entre nós.

Talvez ele leia este ensaio numa manhã de domingo, bebendo café à mesa da cozinha. Reconhecer-se-á ou às suas palavras? Sente o mesmo? De certa forma, isso não importa. Sempre poderei saborear as nossas memórias. Mais um capítulo numa vida rica pela qual estou muito agradecida.

Provavelmente farei outra coisa também. No último ano, passei por uma grande evolução na minha vida e comecei a escrever livros, quase três até agora, todos tratando de amor e relacionamentos. É a maior diversão que já tive, e para o bem ou para o mal, sou mais capaz de expressar os meus sentimentos por este homem agora.

E isso, sinto, é provavelmente a melhor e mais segura maneira de lidar com algumas das emoções que revi quando li a sua carta. Escrever uma história de amantes amaldiçoados pelas circunstâncias e pelo mau timing. Consigo vê-la agora no olho da minha mente, numa noite de verão quente em Block Island.

A Life Shaken by an Old Love Letter / The New York Times (28 / 7 / 2024)