Ontem, segunda-feira, ao sair para o trabalho ligo o rádio do carro para ficar a saber das notícias e ouço que a "extrema-esquerda" venceu as eleições regionais em Berlim. É pá, que entusiasmante. Quero saber mais sobre isso! E fui ler o que se dizia nos jornais de Berlim.
E a que conclusão a que chego é: em lado nenhum se fala de "extrema-esquerda", então, porque raio os jornalistas portugueses abram a boca para assustar os portugueses com a extrema-esquerda, como quer querendo legitimar o ódio da extrema-direita, como se fosse tudo igual? Porquê?
Vamos ler o artigo do jornal Tagesspiegel de hoje:
Com uma vantagem clara, a Esquerda venceu as eleições em Berlim, e a candidata principal, Elif Eralp, abriu de par em par à sua formação a porta da Câmara Municipal. Mas quem é esta mulher de quem, dentro do partido, dizem que foi melhorando a cada semana de campanha e que conseguiu surpreender positivamente até os mais céticos dentro das próprias fileiras?
Eralp nasceu em 1981, em Munique, durante a fuga dos seus pais da Turquia. A família abandonou o país na sequência de um golpe militar e por receio de perseguição política. Depois de concluído o processo de asilo, a família mudou-se para Dortmund, onde o pai de Eralp trabalha como médico.
Mais tarde, cresceu em Hamburgo. Aí concluiu o curso de Direito com o primeiro exame de Estado. Posteriormente, Eralp trabalhou para a bancada da Esquerda no Bundestag. Inicialmente, porém, não era militante do partido.
Só em 2017 aderiu à Esquerda. Mais tarde, diria que foi uma espécie de reação à entrada da AfD no Bundestag. Apenas um ano depois, Eralp foi eleita pela primeira vez para a direção regional da Esquerda em Berlim. Desde 2021 é deputada na Assembleia de Representantes de Berlim e, desde 2024, vice-presidente da bancada.
Quando a Esquerda procurou uma candidata principal para as eleições atuais, a antiga líder do partido, Katja Kipping, muito mais conhecida, foi durante bastante tempo considerada a candidata preferida da direção regional. Mas Kipping não se deixou convencer. Foi então que a ambiciosa Eralp ocupou o lugar que ficara vago.
Na apresentação da candidatura, os dois presidentes regionais, Kerstin Wolter e Maximilian Schirmer, elogiaram Eralp como uma mulher de «palavras sempre claras», uma lutadora que também enfrenta os poderosos dirigentes do setor imobiliário. Em suma: seria «a melhor candidata para Berlim».
Na altura, estas palavras exprimiam sobretudo esperança. Ainda no ano passado, Eralp parecia muitas vezes sobrecarregada — por exemplo, quando tinha de presidir à comissão de Obras da Assembleia de Representantes. Nessas reuniões, voltava repetidamente para os funcionários da secretaria da comissão em busca de ajuda. Nos seus discursos, mostrava-se insegura. Em contrapartida, por vezes destacava-se pelos seus irados apartes durante os debates na Assembleia.
Isso mudou há muito. Durante a campanha eleitoral, apresentou os seus argumentos com segurança e não se deixou desconcertar nem mesmo pelas perguntas mais críticas sobre a política radical de habitação ou sobre o antissemitismo dentro do próprio partido. Eralp cresceu no seu novo papel. Mais do que isso: superou as expectativas de muitos dentro do próprio partido.
Na vida privada, Eralp parece a berlinense simples e terra a terra que o seu partido apresenta. Vive com o marido e os dois filhos numa casa arrendada que, como faz questão de salientar repetidamente, é demasiado pequena. Há anos que não consegue encontrar uma maior - tal como acontece com tantos outros berlinenses.
Eralp, considerada extremamente, e por vezes até excessivamente, trabalhadora, percorreu o seu caminho profissional de forma linear. Depois de concluir o ensino secundário, estudou Direito na Universidade de Hamburgo entre 2001 e 2007, terminando com o Primeiro Exame de Estado em Direito. Em 2009 concluiu a sua formação jurídica com o Segundo Exame de Estado em Hamburgo.
Uma das suas imagens de marca durante a campanha eleitoral: as suas raízes. «Pessoas como eu, na realidade, não deveriam chegar a presidente da Câmara neste país», afirma no início do seu primeiro grande vídeo de campanha, divulgado por ocasião do anúncio da sua candidatura. Ela quer ser a Elif que vive na casa ao lado - sobretudo para os 40% dos berlinenses com história de migração.
É, portanto, perfeitamente coerente que tenha voltado repetidamente às origens dos seus pais durante a campanha. Vídeos profissionais publicados no Instagram mostram-na a conversar com pessoas de origem turca da cidade, tendo sido também produzidos alguns vídeos em turco. Eralp quer representar aqueles que, nos últimos tempos, não se sentiram nem ouvidos nem vistos.
Ouvir, ver e, sobretudo, negociar: é isso que Eralp fará nas próximas semanas. O ponto mais delicado das conversações com os Verdes e o SPD será, muito provavelmente, o debate sobre a expropriação das grandes empresas imobiliárias. Seria uma intervenção sem precedentes no mercado habitacional.
Os bancos de Berlim alertam que as consequências poderiam abalar toda a economia da cidade. Por isso, ultimamente, Eralp preferiu colocar outras medidas em primeiro plano. Em pleno vazio político do verão, e de forma algo involuntária, o tema voltou subitamente à ordem do dia devido a uma frase da presidente federal da Esquerda, Ines Schwerdtner.
O candidato principal do SPD, Steffen Krach, declarou então que a expropriação seria, para ele, uma linha vermelha no que diz respeito à participação numa coligação. «Uma Esquerda no governo vai proceder à socialização», respondeu Eralp mais tarde, numa entrevista ao Tagesspiegel. No entanto, não estabeleceu a expropriação como uma linha vermelha para a assinatura de um acordo de coligação.
É precisamente isso, porém, que o seu partido exige. A Esquerda está em ascensão, também graças à entrada de milhares de novos militantes. Em caso de vitória eleitoral, estes esperam uma implementação incondicional dos objetivos do partido. As desilusões parecem quase inevitáveis. Durante a campanha, a organização juvenil «Solid» e alguns membros da nova bancada da Esquerda na Assembleia de Representantes de Berlim já deram abertamente a entender que poderiam rejeitar uma participação no governo.
Cabe agora a Eralp gerir estas correntes dentro do partido e transformar o sucesso eleitoral numa verdadeira participação no governo. As portas da Câmara Municipal Vermelha abriram-se de par em par na noite de domingo. Elif Eralp está determinada a atravessá-las.