quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Misantropo e a Vagabunda

"Não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém"

- E o teu irmão?
- Compreendo o que queres dizer. Como é que, tendo o mesmo sangue, em vez de ser vagabundo como eu, é um misantropo, imobilizado como um cristal no meio do gelo? Explico-te: sou mulher: forte, como mulher, forte para reagir, forte para me defender; mas fraca para reagir contra mim mesma, fraca para me defender da minha melancolia.

"Meu irmão é forte: não tem necessidade de ver os aspetos caleidoscópicos da vida das cidades e de mergulhar na multidão para dominar a própria dor. Ele pensa, como Nietzsche, que a filosofia é via livre no meio dos gelos, no alto da montanha; é a procura de tudo que há de estranho e de enigmático na existência; de tudo que é vedado pela moral. 

Meu irmão segue um regime de solidão para higiene do espírito: impelido pela necessidade de conhecer todos os homens, afastou-se de todos e observa-os de longe; eu, para não conhecer nenhum, para não me afeiçoar a nenhum, procuro aproximar-me de todos. E, desse modo, o solitário misantropo e a irrequieta vagabunda acharam-se de acordo sobre o mesmo ponto, chegando a duas conclusões simétricas e equivalentes; não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém". 


Procuro Cara Metade... ou O Azar de Ficar com a Metade Errada



O Banco de Portugal substitui as notas de euro mutiladas ou danificadas por uma nota de igual valor apta a circular se:
- A autenticidade da nota for confirmada; 
- No caso de nota mutilada, a fração da nota apresentada for superior a 50% ou, não o sendo, for produzida prova bastante da destruição da parte em falta.


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Poses de Estado (3)


Todos Somos Escravos

"Não há razão, caro Lucílio, para só buscares amigos no foro ou no senado: se olhares com atenção encontrá-los-ás em tua casa. Muitas vezes um bom material permanece inutilizado por falta de quem o trabalhe. Tenta, pois, e vê o resultado. Tal como é estupidez comprar um cavalo inspecionando, não o animal, mas sim a sela e o freio, assim é o cúmulo da estupidez julgar um homem pela roupa ou pela condição social, que, de resto, é tão exterior a nós como a roupa. "É um escravo". Mas pode ter alma de homem livre. "É um escravo". Mas em que é que isso o diminui? Aponta-me alguém que o não seja: este é escravo da sensualidade, aquele da avareza, aquele outro da ambição, todos são escravos da esperança, todos o são do medo.

Posso mostrar-te um antigo cônsul sujeito ao mando de uma velhota, um ricalhaço submetido a uma criadita, posso apontar-te jovens filhos de nobilíssimas famílias que se fazem escravos de bailarinos: nenhuma servidão é mais degradante do que a voluntariamente assumida. Aí tens a razão por que não deves deixar que os nossos tolos te impeçam de seres agradável para com os teus escravos, em vez de os tratares com altiva superioridade. É preferível inspirar respeito do que medo. (...) Quem é respeitado é também amado, ao passo que o amor nunca pode ir de par com o medo.

"Cartas a Lúcio" / Séneca



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Segurança do Lidl de Dark

Os meus colegas de trabalho já me tinham avisado: "se viste alguma coisa interessante do folheto do Lidl vai já lá, porque o pessoal limpa tudo. Às vezes até vão para a porta à espera que abra". E eu fui. Comprei uma das coisas, a outra deixou-me a pensar se se valeria a pena e não trouxe... mas depois achei que, se calhar, até poderia ser uma compra aceitável e até me iria dar jeito naquele mesmo dia. 

Já tinha ido ao Lidl de Viana do Castelo mas já lá não tinha nada. Até que deixei a cidade e rumei a sul. Deixei o rio Lima para trás, e resolvi ir ao Lidl ali de uma terra que se chama Dark! Haverá nome mais fixe? De onde é que tu és? Sou de Dark! 
Estacionei, entrei na grande superfície, dirigi-me ao local onde por lá deveria encontrar a dita coisa, mas também nada. Bom, toca a ir embora e sair sem compras. Olho para o segurança e faço-lhe sinal se poderia sair por ali. Este diz-me que sim, mas aproveita para fazer um comentário sobre a t-shirt que eu envergava. 

E este foi o pequeno sinal, como se na verdade pertencêssemos a uma sociedade secreta - à espera da contra-senha  - para confirmarmos que pertencíamos à mesma tribo. Bom, na verdade, como lhe disse, já não sei se ainda pertenço a alguma tribo, sou mais uma alma negra perdida por sua conta e risco. 

Este segurança - que tem o mesmo nome que eu! - tem postura. Durante o tempo que por ali estivemos a conversar, bem sei, no seu posto de trabalho, estava sempre atento. Enquanto eu ia debitando conversa, ele observava atentamente as movimentações das pessoas, e dizia-lhes se podiam entrar com sacos, verificava o porquê de ao entrarem accionarem o alarme, e fazia recomendações para a próxima vez que ali vierem. Uma postura educada, disponível, tranquilo, não demasiado simpático (porque não tem de o ser), mas extremamente profissional.  

Falamos de bandas que ouvimos, de antigos festivais, das bandas portuguesas, do STOP, do Metal Point, do Festival de Barroselas. Dos vocalistas que se cortam em palco. Falamos das nossas vidas. Ele que está com a mesma mulher (que é do meio) há doze anos; eu que, depois de muitos anos a calcorrear esses caminhos metálicos na companhia da mesma pessoa, caminho agora sozinho há muitos mais anos ainda. 



Das pessoas que não interessam nem ao Diabo, o querido amigo 666. Os falsos satânicos. Os fariseus. Os vendidos. Os outros tempos. Os novos tempos. Como quando as coisas não são tão fáceis nós lhe damos tanto mais valor, e como quando temos a papinha, como agora, toda feita já não sabemos aproveitar. 

Se calhar passei ali demasiado tempo a falar com ele, que estava no seu local de trabalho. "Já estão a olhar para mim, a controlar-me". Percebi a mensagem. Era a senha para eu me despedir. Cumprimentei-o efusivamente, desejei-lhe tudo de bom, tal como me despeço de todas as pessoas: como se nunca mais as fosse ver, e voltei para o carro para continuar a seguir viagem. 

O dia estava muito agradável, vinte e pouco graus. No rádio tocava, baixinho, o "Romantic Tragedy's Crescendo" de 1998. A minha cabeça pensava naquele encontro imediato e nas vicissitudes da vida. E de repente, já estava na Maia, e numa rotunda vi mais uma seta a anunciar outro Lidl à esquerda. Bom, deixa-me ir lá ver se este ainda tem alguma coisa. Fui novamente ao sítio onde aquilo deveria estar e, o desânimo: tudo vazio. A barriga já dava horas. Bem, deixa-me mas é ir comprar qualquer coisa para comer. E, de repente: "Que é que estás aqui a fazer"? Eu olho e era o Torrejõn!, acompanhado da sua cria mais pequena de quatro anos! Este foi outro encontro imediato que fica, quem sabe, para contar depois...

... mas o mais fantástico disto tudo é pensar que, se na quinta-feira eu tivesse comprado aquela simples tesoura de poda por 9€, nada disto me tinha acontecido.

Conversas Improváveis (30) - A Amizade Não Deveria Ser Incondicional?

O Nuno quer namorar comigo. 
Mas já sei que se lhe disser que não, ele vai desaparecer, nunca mais o vejo e vou perder um amigo.

Depois é a Marta. Ela é lésbica mas também já percebi que está interessada em mim pela forma como se comporta comigo. Mas também já sei que se lhe disser que não quero namorar com ela, e que só quero ser amiga dela, que também ela vai desaparecer. 

Eu sou teu amigo. Por mim tanto podes namorar com o Nuno como com a Marta como podes não namorar com ninguém. Se eu sou teu amigo não vou desaparecer porque então não seria teu amigo. E faz-me um bocadinho de confusão essas amizades com um interesse associado. Eu sou teu amigo, ou faço-me passar por teu amigo, se puder obter algo de ti em troca. A partir do momento em que percebo que já não tens nada para me dar eu vou pregar para outra freguesia. 

Mas a amizade não deveria ser desinteressada e incondicional?