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sábado, 27 de abril de 2024

Quantas Mais Opções de Escolha Temos, Mais Infelizes Somos

 "Antes era um viajante, daqueles que pegam na mochila e dedicam-se a explorar o mundo. Depois tornou-se conferencista e participante em seminários e simpósios. “Até que um dia deixei de ver sentido em ter de atravessar continentes para partilhar ideias com os meus colegas”, reflete via Zoom Svend Brinkmann, psicólogo, filósofo e professor na Universidade de Aalborg, que se tornou num guru do JOMO, a alegria de perder coisas (por oposição ao FOMO, o medo de perder coisas). Precisamente "A alegria de perder coisas (Koan)", um exercício intelectual que fala da arte do autocontrolo numa época sem limites, é o título do novo livro do escritor dinamarquês, que se inspira na Grécia Antiga para abordar os problemas da vida moderna.


Devemos repensar a forma como vivemos?

Sim. Porque no século XX desenvolveu-se a sociedade de consumo e ficámos com a ideia de que uma boa vida consiste em consumir, experimentar e viajar o máximo possível, uma sociedade de excessos. O sociólogo Zygmunt Baugman costumava chamá-la a sociedade do cartão de crédito, a do excesso, da abundância, de forma que podes consumir e comprar coisas mesmo antes de poderes pagar por elas.

E o que propõe?

Creio que é óbvio que precisamos de mudar, mas isso é extremamente difícil. Por isso, penso que é necessário explorar uma felicidade mais profunda numa vida em que deixas de perseguir mais e mais o tempo todo.

E isso é possível a nível individual? Parece difícil...

Muito difícil. E essa é a fraqueza da minha abordagem, já que formulo isto um pouco como um livro de autoajuda e posso dar essa impressão de que cada indivíduo tem de mudar. E na realidade, parece-me um problema coletivo, que exige uma ação política. Mas, mesmo assim, precisamos de articular uma visão positiva sobre uma boa vida com menos, para que faça parte da grande conversa que uma sociedade democrática deve abordar sobre como devemos viver juntos. Claro que, como indivíduo, sempre podes fazer algo.

E enquanto promovemos essa conversa, o que sugere?

Posso falar sobre mim, sobre qual foi o meu ponto de viragem, quando comecei a estudar e a ler sobre estudos que me diziam que se ganhasse mais dinheiro não seria mais feliz porque já era suficientemente rico. A minha vida mudou.

E vi que, na realidade, ter mais opções não nos torna mais felizes. Apenas provocará que tenhamos mais dúvidas sobre o que escolher. O psicólogo Barry Schwartz já dizia que, pelo menos nos países democráticos ricos do mundo, quando ampliamos as opções materiais, as pessoas tornam-se menos felizes. Ensinam-nos que somos felizes se temos algo que é exclusivamente nosso, mas acontece que isso não é verdade. É muito melhor escolher entre três coisas boas do que entre trinta.

O que é uma boa vida?

Não consigo encontrar uma definição melhor do que a eudaimonia de Aristóteles, uma atividade da alma de acordo com as virtudes, e isso significa uma vida ativa, de fazer, de explorar, de adquirir conhecimento, de amar, de contribuir para as comunidades das quais fazes parte. Portanto, não podes ser feliz se fores uma má pessoa. Temos de agir de forma ética, com moderação, coragem e sentido de justiça.

É muito crítico em relação ao movimento de simplificar a vida.

O que acontece é que essa filosofia acabou por se tornar uma tendência e um grande negócio. E acho que isso é sintomático do que acontece na sociedade atual, que mesmo tentando ir contra os problemas acabas por te tornar parte dessa sociedade que criticas. Não tenho nada contra esse movimento em particular. Apenas acho que é um sintoma do que acontece e do que pode acontecer com o meu próprio livro, inclusive. Se a alegria de perder coisas se tornar numa nova tendência, terei perdido, de certa forma.

Espera que o JOMO se torne numa tendência?

Não sei. De repente, existe a possibilidade de que exploda e se torne algo grande, uma grande tendência. Não sei, talvez depois da sua entrevista comigo, as pessoas me convidem para Espanha para falar sobre a alegria de perder algo e me tornem milionário ensinando a viver uma vida de perder algo. Esse é a paradoxo.

Como explicaria a alegria de perder coisas?

Seria uma vida centrada no que é realmente importante, e só podes fazer isso se aprenderes a habilidade de perder coisas, de dizer não, de não sobrecarregar o teu calendário com projetos e coisas para fazer. Se viveres assim, talvez não desesperes quando vires que outras pessoas fazem mais do que tu no trabalho ou em qualquer área. O medo de perder coisas é essa ideia de que me comparo com os outros e vejo que fazem mais do que eu, que experimentam mais do que eu, que têm mais sucesso do que eu. E isso leva-me à frustração. Porque então penso que tenho de mudar de trabalho, de parceiro, de cidade, etc. E a alegria de perder algo é saber que talvez o que precisas para viver uma boa vida já está aqui. É muito provável que já tenhas o necessário se te concentrares no que já é importante.

O smartphone é o melhor instrumento para o FOMO.

Sim, sim. É uma tecnologia que nos convida a temer que estamos a perder algo. Ensina-nos a nunca estarmos satisfeitos com o que temos porque nos bombardeia com imagens de outras pessoas que são mais bonitas, mais ricas, que fazem mais coisas do que nós. É uma máquina de comparação.

Acha que já está a viver uma vida de JOMO?

Dá-se a paradoxal situação de que, graças aos livros e às coisas que faço, agora sou convidado para dar entrevistas e palestras, para escrever artigos, e assim torna-se muito difícil para mim desfrutar da alegria de perder coisas. Escrevi sobre isso e criei um problema para mim mesmo. Por isso não posso dizer que a minha vida tenha mudado para uma forma de vida mais calma e comprometida. Portanto, ainda tenho de ler o meu próprio livro para me lembrar do que é verdadeiramente importante.

Uma vida mais lenta?

Poderia dizer que sim. Muitos sociólogos têm analisado o que chamam de grande aceleração social dos nossos tempos: consumimos comida rápida, fazemos sestas energéticas, temos encontros rápidos... Realmente é difícil encontrar um aspeto da vida que não tenha acelerado o seu ritmo. Tudo está mais rápido. E temos a tentação de perguntar por que nos contentar com menos se podemos experimentar mais. Como posso saber se tenho o que me convém se ainda não experimentei tudo? Bem, nunca podes experimentar tudo. Por isso, tens de te comprometer com algo. Como sei que é o certo? Não sei, mas assim é a vida.

Defende no final do livro encontrar a beleza no simples. 

Creio que temos de desenvolver uma ecologia da ação. Sou muito cético em relação à possibilidade de resistir às tentações. A única solução passa por construir uma ecologia da tua vida na qual não sejas tentado. Por isso, em vez de te ensinares a resistir à tentação de verificar as tuas redes sociais, tenta não estar nas redes sociais. Se não conseguires resistir à tentação de olhar para o telemóvel, tira-o. Precisamos de lugares públicos, parques, bibliotecas, lugares para nos encontrarmos, para estarmos juntos, para estudarmos, para trabalharmos, para pensarmos...

“Tener muchas opciones nos hace infelices” | David Dusster | La Vanguardia (26 de Abril 2024)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Felicidade e a Solidão

Diz-se e lê-se por aí, que o amor, aquele amor que sentimos por outra pessoa, é partilhar a nossa felicidade. Que quem não está feliz sozinho, nunca o será a dois. Eu tendo a concordar, porque a nossa felicidade deveria ser um estado de alma interior, e não deveria depender de fatores como ter ou não companheiro(a), ter muito ou pouco dinheiro, ter muitos ou poucos amigos, etc. Mas por outro lado, nós também não somos felizes ou infelizes a tempo inteiro. Não é assim que a coisa funciona. Ao longo do dia é normal termos momentos mais felizes que outros, além de que todos vivermos fases mais felizes e outras de grande infelicidade, que por norma, estão quase sempre associadas ao amor, ironicamente, aquilo que se diz que nos completaria e nos faria felizes.

Por outro lado, isso do estado de alma interior também é muito bonito, mas a verdade é que, por exemplo, quando após um longo período de desemprego encontramos um trabalho na nossa área em que somos valorizados, ou graças a um novo tratamento passamos a ter uma outra qualidade de vida, ou ainda quando nos apaixonamos e somos correspondidos, a verdade é passamos a sentir-nos muito mais felizes do que antes. Nós não somos uma máquina, estanque, em que se carrega num botão e pronto, agora já estou estupidamente feliz! Ou como dizia o Barney: “When I'm sad, I stop being sad and be awesome instead”. Não, as coisas não funcionam assim, pelo menos comigo não! Nós somos humanos e tudo o que nos rodeia é capaz de interferir, negativamente ou positivamente connosco, ainda que, mais numas pessoas que noutras.



E ultimamente, e não é de agora, que tenho vindo a sentir-me só...

No fundo eu sei que não precisaria de um batalhão de gente por perto para deixar de me sentir só. Até porque eu nunca gostei de grandes ajuntamentos, de muito barulho, de muita confusão. E nem sempre ter muitas pessoas por perto adianta de muito, pois pessoas há, que se sentem sós estando sempre rodeadas de gente. Talvez essa ainda seja uma solidão pior. No meu caso, talvez uma só pessoa chegasse para acabar com a minha solidão: mas teria de ser aquela pessoa.

Ainda por cima nunca tive muitos amigos, e muitas vezes o pior é não os poder ter por perto.

"O teu dedo é como o meu. Aponta sempre para longe", disse-me certa vez uma amiga que, lá está, só vejo uma ou duas vezes por ano.

Mas eu sou feliz nas minhas pequenas coisas... A meter as mãos na terra e a observar todos os dias as minhas plantas. A sentir o cheiro da relva acabada de cortar ou a ver as gotas de orvalho nas teias de aranha. Sou feliz a observar as pequenas coisas da natureza. Acho que nunca precisei de muito para me sentir feliz. Sei que cometo as minhas futilidades, é verdade, mas nunca foi a falta do material que me deixou triste, aliás, muito do que me deixa triste e revoltado, sempre foi, desde cedo, o que me rodeia, como a falsidade, a injustiça ou a hipocrisia.

Mas às vezes olho para o jardim, que não é nada de especial, mas é o meu cantinho que eu criei, e estou ali, sozinho. Acho um desperdício não o partilhar com ninguém. Talvez o remédio para a minha solidão fosse partilhá-lo com outra pessoa. Talvez a solidão seja isso, falta de ter com quem partilhar as nossas coisas. Os nossos pensamentos, as nossas ideias, a nossa companhia... o nosso corpo. Ironicamente, é provável que ande por aí outra pessoa que se sinta só, e se calhar a nossa companhia seria o remédio para a solidão de outra pessoa.

O ser humano é um ser social, não é um lobo ou uma coruja solitária. E não me venham cá com essa tanga da felicidade interior, porque o que eu acho é que, ninguém consegue ser totalmente feliz sentindo-se só. E no meu caso, às vezes acho que não precisaria de muito. Bastaria a companhia de uma borboletinha em volta de mim, enquanto cuido do jardim.

sábado, 27 de maio de 2017

Como é que se pode dizer a uma pessoa que é demasiado feliz?

Quase todos os dias, de manhã, na viagem de casa para o trabalho, ouço o programa da Antena 1 "Portugueses no Mundo", em que ouvimos as experiências de diferentes portugueses que decidiram emigrar para estudar ou trabalhar noutros países do mundo. Aprende-se muito sobre as diferentes culturas, e muitas vezes retenho algumas coisas, como neste episódio:


- Como é que foi quando chegou a Colónia?

Cheguei à Alemanha em Janeiro, estava frio, frio, frio. E além do tempo frio, as pessoas também são frias e Portugal era uma coisa praticamente desconhecida. Portanto nós eramos uma província de Espanha, nós falávamos todos espanhol, com jeitinho também falávamos francês, e foi todo um processo de explicar que isso não é verdade. Nós somos um país, e somos um grande país, apesar de estarmos na pontinha da Europa... E uma das coisas que me disseram e que me deixou profundamente chocada foi que eu sorria muito e que eu não podia ser tão feliz. Quando eu ouvi isto eu fiquei como assim? Como é que se pode dizer a uma pessoa que é demasiado feliz? Eles são pessoas muito frias, os alemães em geral, mas depois de um processo de adaptação corre bem, só que temos de nos adaptar.

Mafalda Pereira, 24 anos,  há um ano e meio na Alemanha

O programa pode ser ouvido aqui.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Essa T-shirt é muito fixe!

Há uns meses atrás visitei pela primeira o Palácio do Freixo no Porto. Há sítios especiais, que passamos por eles todos os dias, mas que curiosamente, e vá lá saber-se porquê, acabamos por nunca entrar para fazer uma visita. Talvez estivesse escrito que teria de ser naquele dia cinzento e de alguma chuva miudinha intermitente.  

Entrei e dirigi-me à receção para perguntar se poderia visitar o palácio e se o poderia fotografar, ainda que num outro dia, pois a luz daquele dia não estava muito propícia a grandes fotografias. Muito simpaticamente disseram-me que sim, que poderia estar totalmente à vontade. 

Já depois de visitar e admirar o restauro das divisões interiores, interpelo um outro funcionário, creio que para saber como fazer para visitar o jardim, e ele acolhe-me de imediato com um: "Essa T-shirt é muito fixe"! e simpaticamente se mostrou extremamente solícito. Eu simplesmente sorri, totalmente desarmado por aquele comentário inesperado. Confesso que gosto mesmo de pessoas simpáticas, mas nem preciso que me elogiem a indumentária, basta só serem simpáticas!

Entretanto esta semana fui escolher um novo CD para meter no leitor do carro, pois já lá andava há muito tempo com o Velvet Darkness They Fear e então escolhi o Gothic Kabbalah da banda sueca Therion. E sim, estamos precisamente a falar do álbum que estava estampado na camisola aquando da visita ao palácio.




"She's the wisdom, she's the truth: The Eternal Sophia
Perennial, beyond the time, she is the one
You're the river, you're the womb
The perennial
(The) Sophia...
Sophia..."




"Sophia, I believe in you, your light...
Shine inside my soul, I feel the sun from above
Sophia, I believe in you, your light is so bright
Shine inside my soul, I feel the sun from above"


E hoje (ontem) por momentos, ao ouvir algumas músicas daquele álbum, fui invadido por um daqueles momentos de extrema felicidade, em que dou por mim ora a tocar bateria ora a tocar guitarra - no ar pois claro! - e a atuar, como se eu mesmo,  fosse uma verdadeira vedeta em cima do palco! (Não, não creio que alguém tenha tido oportunidade de presenciar tal momento insólito!)

E a felicidade para mim é isto: são breves momentos. Tirando situações especiais, ninguém é estupidamente feliz o tempo todo, nem triste o tempo todo. "Olá, 'tá tudo bem"? Não, nunca está tudo bem, mas também não pode estar tudo mal. A felicidade não se atinge só com o abraço mágico de duas almas que se reencontram, não há nada comparável, mas esses momentos são únicos na vida e dificilmente se repetem. Nem têm de ser grandes conquistas ou o atingir de grandes objetivos, porque mal são atingidos já são passado e a vida tem de continuar e precisa de novas motivações. 
Para mim momentos de felicidade podem ser pequenos nadas. Por vezes bastam só coisas insignificantes, como umas linhas dum livro que se está a ler, ou pode até ser uma coisa tão simples como ver como uma árvore quase morta nos recompensa com a sua beleza, só por a termos salvo de uma morte certa junto ao caixote do lixo. Como pode ser o regresso da ave que todos os anos vem passar o inverno connosco. Pode ser qualquer coisa insignificante, como uma simples música que subitamente tem o condão de mudar o nosso humor... Por vezes esses pequenos nadas são o suficiente para me deixar feliz, ainda que só por alguns momentos.. E às vezes até pode nem acontecer nada. Podemos não ter um único motivo para sorrir, mas de repente somos invadidos por uma imensa felicidade. Claro que depois voltamos ao estado normal, mas já valeu a pena, pois pode estar tudo errado, mas por breves momentos fomos felizes sem qualquer motivo. 
Suponho que não é só a mim que isso acontece... a não ser que eu seja um caso de psiquiatria. E a avaliar pelas figurinhas que fiz, se alguém visse, acharia certamente que sim!

Mas o funcionário tinha razão. A camisola é realmente muito fixe - por isso é que a comprei certo?! - mas a música é ainda melhor. Se calhar ele até conhecia, mas acho que não, porque nem comentou nada sobre a banda. Se calhar só achou  mesmo que a T-shirt é muito fixe!