sábado, 13 de junho de 2026

Colecionador de Citações (7) - A Grande Referência dos Jovens


 Dia de torneio de ténis de mesa. Saí com o Starlet que, diga-se, depois de três tentativas para ser pintado, tem agora agendada uma pintura para Junho. Só não sei para que ano será. Eu tinha expectativas que fosse para este. Veremos!

Atravessava o rio Douro numa das autoestradas mais caras da Europa - temos salários de merda mas ao menos pagamos as autoestradas como verdadeiros ricos - e ouvia na Antena 1 o diretor do Espaço Miguel Torga discorrer sobre a escola e do professor...

O programa pode ser ouvido aqui:

Sou Pessoa Para Isso - Antena 1

sábado, 6 de junho de 2026

Colecionador de Citações (5) - A Ideia de Explorar os Pobres é Muito Antiga

Retirado do texto "Assim como assim, damos-lhes ração e transporte" da Susana Peralta, publicado no jornal Público.

AS MIL E UMA VIDAS DE MARJANE SATRAPI

Reportagem do jornal francês Libération que fez toda a primeira página com a notícia da morte de Marjane Satrapi e recorda a sua vida e obra:

 "A desenhadora e realizadora, símbolo da resistência iraniana, morreu aos 56 anos. Depois do enorme sucesso de Persepolis, soube diversificar-se e traçar o seu próprio caminho, reivindicando sempre uma grande independência de espírito e nunca deixando de apoiar os movimentos de revolta no seu país de origem.

Marjane Satrapi era, antes de mais, um perfil. Um rosto cujos traços nos são quase mais familiares quando desenhados pela sua linha negra e intensa. A sobrancelha arqueada, o olho amendoadado, aquele sinal no alto do nariz, enquadrado por uma espessa cabeleira negra como azeviche... E, na vida real, uma presença poderosa, sempre vestida de preto, empoleirada nas suas botas de plataforma, com um verdadeiro lado «punk», expressão frequentemente usada por quem a conheceu de perto ou de longe. Quase sempre com um cigarro na boca, fazia rir com facilidade, disparando observações mordazes numa linguagem direta e sem rodeios, assumindo um humor sem filtros e por vezes escatológico, numa tradição persa assumida. Todos falam da sua generosidade «incandescente».

Esse perfil tornou-se um ícone, ícone de um povo, e para além disso um símbolo da luta contra as ditaduras. «Quer seja exercida no Chile, na China, no Irão ou noutro lugar, uma ditadura assenta no mesmo processo», costumava dizer.

FRANQUEZA E ESPÍRITO LIVRE

«Não há nada mais universal do que as histórias pessoais», dizia também, citando Alexander Pushkin: «Se queres falar ao mundo, fala da tua pequena aldeia.»

E foi isso que fez. Contou a sua própria história, a do seu país, o Irão, onde nasceu em 1969. A Revolução Islâmica Iraniana abalou a sua infância. Dessa experiência nasceu Persepolis, narrado à altura da criança e da adolescente que foi.

Sabia ela até que ponto a obra iria marcar uma viragem? Mais tarde diria que pensava estar a fazer «algo importante», sem imaginar que aquela história pudesse tocar de forma tão universal: dois milhões de exemplares vendidos da banda desenhada, publicada em quatro volumes entre 2000 e 2004, e depois um filme, lançado em 2007, distinguido com o Prémio do Júri em Festival de Cannes, vencedor de um César e nomeado para os Óscares.

Transmitiu-nos o seu mundo a preto e branco. Um traço simples e direto que revolucionou o universo da banda desenhada e alterou profundamente a forma como o mundo olhava para os iranianos.

Quem era ela para além da obra?

«A obra e Marjane são a mesma coisa», assegura India Mahdavi. «Era bruta, selvagem, divertida, mostrava-se sem máscaras, indiferente aos partidos e às opiniões divergentes, com uma força de caráter imensa», acrescenta Mina Kavani.

Uma «ferida viva», resume a jornalista Mariam Pirzadeh, recordando as suas frases pontuadas por «azizam» («minha querida») e uma personalidade humilde apesar do sucesso.

«Fala-se pouco disso, mas Marjane era também extremamente discreta, apesar do seu temperamento extrovertido», observa Catherine Deneuve, que deu voz à mãe da autora no filme Persepolis. «Discreta também quanto à enorme quantidade de trabalho que fazia para concretizar um projeto, fosse um filme ou um livro.»


UMA TRABALHADORA INCANSÁVEL

Era uma trabalhadora obsessiva, qualidade transmitida pela mãe, que acreditava que, para triunfar, a filha precisava de desenvolver o máximo de competências possível.

Antes da revolução de 1979, a jovem Marji, filha única - algo relativamente raro na época -, cresceu num ambiente de grande liberdade, criada por um pai engenheiro e uma mãe estilista.

A história familiar já estava marcada pelos acontecimentos que abalaram o Irão: um dos seus bisavôs fora o último rei da dinastia Qajar, deposto em 1925; outro, diplomata, foi assassinado no início do século XX; um dos avôs dizia-se comunista.

E havia muitas mulheres livres na família, como a avó, por quem tinha enorme admiração e que lhe transmitiu o amor pelo cinema.

Na infância era fã de Bruce Lee e praticava karaté. Descobriu a ação política através de Z.

Dos pais dizia, numa entrevista ao Libération em 2002, que eram «muito corajosos, muito progressistas num país que não o era».

Queriam para ela um futuro fora da república islâmica, onde as perspetivas eram limitadas e onde a sua frontalidade e independência de espírito a colocavam em perigo constante.

O destino foi a Áustria. Obteve o diploma secundário no liceu francês de Viena, regressou depois ao Irão para estudar Belas-Artes e, em 1994, partiu de novo, desta vez definitivamente, a pedido dos pais.

Seguiu para Estrasburgo, onde estudou nas Artes Decorativas, antes de se instalar em Paris.

Foi aí que nasceu Persepolis.

ANTES E DEPOIS DE PERSEPOLIS

Na oficina da Associação, na Place des Vosges, partilhava espaço com autores como Joann Sfar, Christophe Blain, Emile Bravo e Emmanuel Guibert.

«Cansados de me ouvir falar do Irão, sugeriram-me que fizesse uma banda desenhada sobre isso», recordava.

O impacto foi enorme.

«Entrou nas nossas vidas como uma bala de canhão», descreve o desenhador Luz. «Com aquele preto tão denso e aquele traço tão decidido... Uma bala de canhão com batom vermelho vivo.»


UMA CARREIRA RICA E PROLÍFICA

Em Poulet aux prunes, um dos seus livros mais íntimos, conta a história de um tio-avô músico que morre de amor.

Quinze anos depois, é impossível não encontrar aí um eco da sua própria vida.

A 8 de abril de 2025 perdeu o amor da sua vida, Mattias Ripa. Pouco mais de um ano depois, a 4 de junho de 2026, foi anunciada a sua própria morte.

O último ano da sua vida ficou marcado por uma tristeza profunda e por uma incapacidade de recuperar da perda. Aos amigos que se preocupavam com ela, respondia sem rodeios que nada podia tirá-la daquele desespero.

Segundo o comunicado que anunciou o falecimento, Marjane Satrapi morreu «de tristeza».

O IRÃO NUNCA DEIXOU DE A CHAMAR

Apesar de ter procurado diversificar a sua carreira durante a década de 2010, realizando projetos sem ligação direta ao Irão, o país voltou inevitavelmente ao centro das suas preocupações.

Em setembro de 2022, a morte de Mahsa Amini desencadeou o movimento «Mulher, Vida, Liberdade».

Marjane Satrapi mobilizou-se intensamente para divulgar a revolta iraniana e chamar a atenção para a situação da laureada com o Nobel da Paz Narges Mohammadi.

Conseguiu reunir artistas, intelectuais e militantes de sensibilidades muito diferentes. Muitos membros da diáspora iraniana em França destacam a sua rara capacidade de unir pessoas para além das divisões políticas.

UMA VOZ SEM CONCESSÕES

O seu compromisso político não admitia compromissos. Apesar do amor profundo que sentia pela França e de se considerar profundamente francesa, recusou em janeiro de 2025 a Légion d'honneur, denunciando a «atitude hipócrita da França em relação ao Irão».

Para a realizadora Sepideh Farsi, o seu grande feito foi ter dado rostos às histórias iranianas.

«Foi a primeira voz iraniana a falar do Irão de forma íntima.»

Mina Kavani acrescenta:

«Foi a primeira mulher iraniana desde a revolução a ousar contar a sua própria história sem qualquer censura.»

No Irão, onde as bandas desenhadas eram proibidas quando Persepolis surgiu, cópias clandestinas circularam amplamente. Mais tarde, os DVDs do filme, legendados artesanalmente em persa, fizeram a obra chegar a milhares de pessoas.

Em Poulet aux prunes, escreveu:

«A vida é um suspiro, um suspiro de que tens de te apropriar.»

Marjane Satrapi apropriou-se dessa vida com toda a sua força. Partiu, mas permanece para sempre aquela pequena rapariga insolente de Persepolis: "Punk is not de (a ) d."

(Libération, 5 de Junho de 2026, por Hamdam Mostafavi)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Colecionador de Citações (4) - Comprar Inteligência

"Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.


 Excerto da excelente crónica da Margarida Davim na VISÃO desta semana, intitulada "A estupidez artificial". 

O Talento e Coragem de Marjane Satrapi

Marjiane Satrapi, autora de Persépolis morreu hoje aos 56 anos, noticiou logo pela manhã o jornal francês Le Monde. Segundo a família, morreu "de tristeza", na sequência da morte do marido ocorrida há um ano.

E esta reportagem do El País que aqui vou deixar, a propósito de ter vencido o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades estava aqui nos rascunhos desde abril de 2024. Fica agora  disponível para todos lerem para a para lembrar este triste dia, porque, ainda por cima, por estes dias tinha tirado o livro e o filme da estante e pensei que tinha de rever...


"Uma menina iraniana olha para a frente, com os braços cruzados. Usa o véu, e tem uma certa firmeza nos olhos. Apenas duas vinhetas depois, vêem-se homens e mulheres exaltados, protestando com o punho erguido: começa a Revolução Islâmica. Esses desenhos, que deram início no ano 2000 a Persépolis, mudaram a história dessa menina, da novela gráfica e, talvez, até do Irão. Tanto que durante anos Marjane Satrapi (Rasth, 54 anos) foi solicitada a retratar aquela jovem, ao que ela respondia: "Cresceu". Tornou-se mulher. Lenda da banda desenhada. Cineasta. Franco-iraniana. Feroz opositora do regime do seu país. E agora, Prémio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades, como anunciou ontem a fundação que entrega os prémios.

O júri definiu Satrapi, residente em Paris, como "um símbolo do compromisso cívico liderado pelas mulheres", qualificando-a como "uma das pessoas mais influentes no diálogo entre culturas e gerações" e recordou que em "Persépolis plasma exemplarmente a busca de um mundo mais justo e integrador". E ela, numa conferência de imprensa por videoconferência, dedicou ontem o prémio à luta pela liberdade no seu país e ao rapper Toomaj Salehi, condenado à morte há alguns dias: "É a voz de todo o país".

Aproveitou até para mandar um recado a Josep Borrell, alto representante da UE para Assuntos Exteriores e Política de Segurança: "Se o tivesse à minha frente, dava-lhe uma bofetada. O Irão está a travar cinco guerras neste momento. O que mais tem a Guarda Revolucionária de fazer para ser declarada grupo terrorista? Quando se falava muito do Irão no Ocidente, não matavam ninguém. Quando se deixou de falar, começaram as execuções. E o que faz a Europa em vez de os condenar? Torna o Irão presidente do fórum social de direitos humanos na ONU. Ninguém do Irão pediria ao Ocidente para fazer a revolução, mas pelo menos que reconheça que 85% da população não quer essa ditadura religiosa. A opinião pública conta e para isso importam estes prémios".


Assim, este Princesa de Astúrias reconhece muitas coisas ao mesmo tempo, exatamente o que representam as obras de Satrapi. Acima de tudo, o talento de uma narradora capaz de aprender e dominar novos formatos. Mal tinha experiência, além de frequentar há pouco tempo a Escola de Artes Decorativas de Estrasburgo, quando construiu a sua obra-prima. Ela acreditava que nunca encontraria um editor, que tudo acabaria em fotocópias para os seus amigos, mas tornou-se um marco na banda desenhada.

Persépolis, desenha a sua infância em Teerão durante a Revolução Islâmica que, em 1979, derrubou o xá da Pérsia e elevou ao poder o aiatola Khomeini, até à sua chegada à Europa, para onde os seus pais a enviaram e onde reside desde então. A família de Satrapi, acomodada e progressista, simpatizava inicialmente com a revolução, mas quando esta foi dominada pelos setores islamistas derivou num regime teocrático que restringiu as liberdades individuais e se lançou numa guerra com o Iraque em 1980, sob a vigilância dos Guardiães da Revolução. Tudo isto é narrado em Persépolis.

Entre as suas novelas gráficas, estão também Bordados, que narra a vida das mulheres iranianas, e Frango com Ameixas, sobre os últimos oito dias de vida de um parente de Satrapi chamado Nasser Ali, um conhecido intérprete de tar, o alaúde tradicional iraniano. Mas Satrapi também não sabia muito sobre cinema quando se deixou convencer a adaptar Persépolis para cinema, em colaboração com Vincent Paronnaud. Recebeu ex aequo o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2007 e, depois, a primeira nomeação de uma criadora para o melhor filme de animação na história dos Óscares.

Mas o Princesa de Astúrias também elogia a coragem de uma voz sempre pronta a dizer o que pensa. A detestar o uso do véu, como símbolo de submissão, e a defender, ao mesmo tempo, que as mulheres que queiram possam usá-lo. A definir-se "muito feminista" e a rejeitar categoricamente o patriarcado, bem como a luta concebida como mulheres contra homens: "Ninguém tem o direito de dominar ninguém. Somos todos iguais. Não há raças, somos todos da raça humana". "Há muito poucas diferenças entre um judeu, muçulmano ou católico fanático. O problema da religião é que impede as pessoas de falar e de refletir, pretende dar respostas em vez de suscitar perguntas", acrescentou ontem.

Embora os seus gritos por justiça e contra o poder opressor, tanto nas suas entrevistas como na sua arte, se dirijam sobretudo para o seu país. Recentemente, Satrapi voltou à banda desenhada para coordenar Mulher. Vida. Liberdade, antologia onde reuniu estrelas como Paco Roca e Joan Sfarr com autoras iranianas como ela própria ou Shabnam Adiban, para apoiar os protestos que agitam o seu país.

"Vendi milhões e não sei quantas centenas de conferências dei. Mudei alguma coisa? Que sei eu. Despertei a curiosidade das pessoas? Sim. Contribuí um bocadinho. Só um bocadinho, mas só assim se muda o mundo", refletia em novembro com o EL PAÍS. Embora, ainda hoje, não tenha claro o impacto real da obra: "Funcionou porque foi um bom livro, honesto. Mas muitas vezes tenho a impressão de que estou a convencer pessoas já convencidas. Se alguém como eu recebe este prémio, o mundo deve estar muito mal. Não sou super simpática nem super tolerante".

A Ditadura da Desatenção

Cedo o ecrã torce a concentração do pequenino.


 "Quando a criança está exposta ao ecrã ela está numa atitude passiva. O ecrã não lhe vai responder. O ecrã não vai motivar a comunicação. Não há tomada de vez no ecrã. A criança não fala e o ecrã responde. Não há esta reciprocidade e, mesmo que ela fale, é numa repetição eventual daquilo que está a ver e portanto deixa de ser num contexto comunicativo. 

Por outro lado, em relação à qualidade daquela exposição, aquilo que nós estamos a fazer quando as crianças estão em frente ao ecrã, e na maior parte dos conteúdos nós temos passagens muito rápidas, de flash de imagem para flash de imagem, o que é que nós estamos a treinar o cérebro da criança a fazer? É a ter tempos de atenção curtíssimos. E, às vezes, nós temos pais que nos dizem; "ah, mas ele até tem um tempo de atenção grande porque consegue estar uma hora em frente ao ecrã". Aquela hora que ele está em frente ao ecrã, ele viu um número infindável de flashes e a atenção daquela criança não é de uma hora, é daqueles flahses todos pequeninos. 

Portanto, quando ela passa para uma atividade de mesa, por exemplo, fazer um puzle, fazer plasticina, para brincar até com umas bonecas no chão, rapidamente se aborrece porque ela não está habituada a que sejam atividades mais longas. E isto depois tem um impacto muito grande, neste tempo de permanência na tarefa, que depois vai também consequentemente impactar a capacidade que essa criança tem de aprendizagem quando for para a escola, e isso é um problema que se vai adensar quanto maior a criança for.

Duas de Prosa (Podcast) Episódio 89 - de 12 mai 2026 - RTP Play

Eles Também Vão Lá para Dentro e Saem Logo

Ultimamente fala-se muito de "perceções", daquilo que se acha que é a verdade, mas que muitas vezes está nos antípodas da realidade. E, muitas vezes, mente-se e afirma-se coisas que se sabe muito bem serem mentira, mas diz-se na mesma porque se sabe que isso trás votos porque as pessoas gostam de ouvir.

O exemplo mais flagrante foi ouvir determinados políticos mentirosos afirmar que o aumento da imigração aumentou a insegurança, o que não poderia ser mais falso. Toda a gente que lê os dados oficiais sabe que é mentira, mas isso não interessa nada, porque o que importa é o que diz o político mentiroso que "diz as verdades" e os memes da rede social. Isso sim é verdadeiramente importante e não os dados oficiais da polícia que nos querem "enganar"!

Por isso também se diz que é preciso aumentar as penas. Que deveria haver prisão perpétua ou, melhor ainda, que deveria voltar a pena de morte! (e isto dito por um fervoroso católico até tem a sua ironia) 

Porque "em Portugal eles também vão lá para dentro mas depois saem logo". 

Mas a verdade é outra. Não saem não. Lamento, mas é mais uma mentira.  

Portugal é o país europeu onde os presos passam mais tempo nas cadeias e é o segundo país onde os presos mais morrem por falta de condições. 

No fundo a pena de morte já existe em Portugal. Os reclusos morrem ao desmazelo por falta de condições mínimas de dignidade. É uma forma mais cínica de matar. 

sábado, 30 de maio de 2026

Conversas Improváveis (90) - Deus Existe Mesmo


A minha melhor amiga está há umas semanas em Paris: 

"Está um calor estúpido e nenhum comboio funciona a horas depois do meio dia. Nunca mais na vida volto a dizer mal da CP. 

Ah e fora de Paris nada tem ar condicionado (restaurantes, hotéis, transportes, cafés)"

Entretanto descobri que Deus existe mesmo. O único sítio fresco são as igrejas".

Voltar a Pegar na Bicicleta

 


O colega de trabalho de 18 anos não sabe andar de bicicleta e eu já tinha comentado que poderia levar uma das minhas bicicletas para o tentar ensinar. No dia anterior, ele e o outro colega de 22 anos, tinham ido até ao meu clube experimentar ténis-de-mesa e, no fim da noite, perguntou-me se eu ia levar a bicicleta no dia seguinte.

Já bem depois das 23h, cheguei a casa e coloquei o suporte no jipe e fixei a bicicleta. No dia seguinte chego ao trabalho com a bicicleta e, à hora de almoço, baixei a altura do selim, e tentei ajudar o colega a equilibrar-se, a andar simplesmente sem pedais e não é propriamente fácil. E esta não foi a primeira vez que tentei ajudar um adulto a andar de bicicleta. 

Ao fim da tarde, eles tinham combinado ir dar um mergulho no Areinho de Avintes. Apesar de cansado depois de uma semana de trabalho acabei por alinhar, não propriamente para mergulhar no rio Douro, mas para dar um passeio de bicicleta de pouco mais de dez quilómetros ali pela beira rio.

Certamente que passaram mais de dois anos desde a última vez que tinha pegado na bicicleta. Os pneus estavam vazios, a bicicleta suja e a precisar de alguma manutenção. Vamos ver se tato disso brevemente, para voltar aos meus passeios, quem sabe com companhia. 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Nossa Senhora da Spinunviva

 O Luís aproveitou o 13 de Maio e foi rezar à Nossa Senhora da Spinunviva que apareceu no Monte Solverde, por cima do Casino de Espinho. 


Oração:

Santísima Senhora da Spinunviva,
que no monte Solverde de Espinho vos dignastes a revelar os tesouros da Nossa Santa Avença, ajudai-nos a apreciar sempre esta santa oração, a fim de que, meditando os mistérios da nossa redenção, alcancemos as graças que insistentemente vos pedimos: o eterno tacho para nós e os nossos filhos e que os pacóvios e trochas continuem a acreditar nas patranhas do nosso governo. 

Ó meu bom Cavaco Silva, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do comunismo, levai as almas todas para o Hotel 5 Estrelas e socorrei principalmente as que mais precisarem. Nossa Senhora de Spinunviva, rogai por nós.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Tudo o Que Leio é Sobre a Minha Mãe (2)

 Comigo em modo sobrevivência, tudo se passou incrivelmente tão rápido, que já está quase a fazer um ano que a minha mãe partiu. Tenho várias coisas escritas, incluindo um extenso texto aqui nos rascunhos do blog que depois queria partilhar, mas por culpa própria isso ainda não aconteceu.

Ver a pessoa que nos é mais importante ficar doente, perceber que as hipóteses de sobreviver serão muito poucas e, rapidamente, vê-la internada nos cuidados paliativos, sabendo que já não há mais nada a fazer não foi propriamente fácil...

Encontrei esta entrevista da Margarida Davim na Visão, com uma enfermeira especialista em cuidados paliativos. Deixo aqui alguns excertos. Leiam que certamente vos será útil. E apoiem a revista comprando-a nas bancas. 


"Leonor Pacheco tem 30 anos, é enfermeira especialista em cuidados paliativos e criou no Instagram a @ todoschegamosaofim, uma página para falar da morte. Com uma imagem luminosa e uma voz serena, faz pequenos vídeos onde conta histórias sobre quem esperou por alguém para morrer, a importância de falar sobre a forma como se quer partir desta vida ou como lidar com situações práticas, como a falta de apetite de doentes terminais ou as chamadas melhoras da morte. Prima do linguista Marco Neves, uma estrela das redes sociais, foi depois de gravarem juntos um vídeo no jardim de casa da mãe dela que a página ganhou milhares de seguidores, numa altura em que Leonor, que ainda estava em recuperação de um burnout, quase tinha desistido do projeto. Hoje, a página recebe centenas de comentários e mensagens de pessoas que querem partilhar as suas experiências e dúvidas. E Leonor Pacheco sente que, num país em que há “muita iliteracia” sobre o fim da vida, o seu papel como comunicadora é importante. É nele e na formação de mais profissionais de cuidados paliativos que quer concentrar-se, agora que voltou a Portugal depois de quase sete anos a trabalhar no Reino Unido.


O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte?

Primeiro, que acontece a todos. Porque, até nos confrontarmos de frente com ela, achamos sempre que somos imortais. Há uma taxa de 100% de mortalidade na vida. Depois, não deixar que isso seja indutor de ansiedade ou de stresse. Saber que vamos morrer pode ajudar-nos a viver de outra maneira, mas também a ficarmos mais ansiosos porque a nossa vida vai acabar e não sabemos o que vem a seguir.


O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte? Não se levam as crianças aos funerais. A morte é escondida. 

Porque associamos a morte ao medo, aos filmes de terror. 

E nos filmes e nas séries, a morte é sempre de repente. Morrem de olhos abertos. Têm as últimas palavras… Tudo muito ensanguentado… Na realidade, as mortes não são assim. As que não são esperadas, sim, são mais traumáticas. Mas as mortes esperadas não são assim. São com os sintomas bem gravados. E por isso é que é tão importante a formação e me custam muito as histórias que vou ouvindo sobre a realidade em Portugal… Mas, a serem bem cuidadas as pessoas no fim de vida, pode ser muito pacífico. Porque a morte em si não é dolorosa. O que é doloroso são

os sintomas que poderão estar associados à doença.


A morte não é dolorosa fisicamente, mas uma pessoa que está muito agarrada à vida, a morte pode ser um momento muito traumático. Há alguma maneira de tentar contrariar isso?

Fazer terapia, se for esse o caso. Mas é preciso pensar sobre o assunto. Se a morte me causa ansiedade, devese a quê? Será que estou a viver da maneira que quero? Ou estou a fazer alguma coisa que não vai ao encontro daquilo que valorizo mais?


Não pode ser só porque se gosta muito de estar vivo?

Também pode ser. Mas as pessoas podem amar viver e saber na mesma que vai chegar o fim. E não vivem menos ou pior porque sabem que isto vai chegar ao fim. Aquela positividade tóxica... “Não, não penses nisso, ainda falta muito tempo para acontecer”… Às vezes, é o que causa ansiedade na pessoa que está doente. A pessoa está a tentar ajudar e a ser positiva, mas o não pensar nisso não ajuda ninguém. Porque quem está doente pensa e acabou. Mesmo que as pessoas à volta não queiram pensar, a pessoa já está a pensar nisso. Portanto, vamos tentar, enquanto sociedade, não isolar as pessoas nesta preocupação que têm.


Há pessoas que deixam de visitar, de telefonar, de falar com a pessoa que está a morrer, porque não querem confrontar-se com isso. 

Sim, porque é desconfortável para elas. Cada pessoa tem de fazer aquilo que é certo para ela. Mas é doloroso para quem está a morrer, porque se sente abandonado. Porque nesta fase que é a final delas e que pode ser tão importante e tão boa, não veem as pessoas que amam.


Pode ser uma fase boa?

Pode ser muito boa.


O que pode ser bom em estar a morrer?

Aproveitarem o tempo que têm, não estarem apenas preocupadas com o “vou curar-me, vou fazer este tratamento superintenso”… Porque, às vezes, os tratamentos levam a que as pessoas vivam menos ainda. Podem aproveitar esse tempo de forma confortável, a criar memórias, para as pessoas de quem gostam. As memórias são muito importantes para as pessoas que ficam. É uma maneira de honrar a pessoa que está a morrer. Porque estamos ali, estamos presentes e estamos a dar o último amor que é possível enquanto eles estão vivos. A nossa relação continua, mas vai mudando de forma. Enquanto a pessoa está viva, devemos dizer-lhe o que sentimos, não deixar para o funeral os discursos que importam. É bom para a pessoa que vai morrer sentir-se acompanhada, sentir que as pessoas ainda se riem à volta dela e que há normalidade. Isso é bom. Porque, de repente, toda a conversa é só sobre morte. Morte e sintomas, e “como é que estás”. E é importante manter a naturalidade e a normalidade da vida. Continuar, por exemplo, a ir ter com aquela pessoa que está muito doente, contar os seus problemas amorosos, porque sempre foi a ela a quem se recorreu. Porque uma das coisas que quem está a morrer tem de enlutar é a mudança de papéis sociais dentro da família, no trabalho, no círculo de amigos. À medida que ficam menos capazes e menos independentes, elas já sabem que isso vai acontecer. Mas quando é confirmado por toda a gente à volta, é mais doloroso ainda. As pessoas querem sentir-se elas próprias até o fim. E eu acho que nos compete a nós, enquanto amigos, familiares, conhecidos e profissionais, cuidadores, manter a identidade da pessoa.


Respeito é uma palavra-chave, não é? Fez um vídeo sobre as questões de alimentação em fim de vida em que explica que há situações em que o corpo já não está a absorver nutrientes, que há situações em que não estamos a matar à fome aquela pessoa se deixarmos de insistir...

Aliás, podemos estar a causar mais desconforto ao tentar alimentar. Mas isso é porque é uma questão cultural. Fazemos tudo à volta da mesa. Alimentar e cozinhar é cuidar, é amar. E quando nos impossibilitam de o fazer, sentimonos muito inúteis. Isso tem de ser desmistificado. E isto acontece também, infelizmente, muito com os profissionais, que põem sondas e continuam a alimentar, quando o corpo já está noutra. As pessoas podem continuar elas próprias, mas sem comer. Então, se apetece um gelado? Ah, mas o gelado não dá nutrientes. E então? Quem é que precisa de nutrientes? Precisa é de se sentir feliz. E isto acontece mesmo nos lares. Quando as pessoas são institucionalizadas são despidas de tudo o que é a identidade delas. A roupa, os produtos de higiene, o cabelo, que fica só apanhado, a barba que é feita a homens que gostam de ter barba. Os quartos todos brancos…


Pensa-se pouco nisso...

Mas é preciso que alguém com autoridade, alguém de confiança, que são os profissionais, consiga explicar isso a quem está a morrer. E eu tenho ouvido histórias más, mas também tenho ouvido histórias muito boas. Pessoas que dizem que, de facto, os profissionais explicaram tudo isso e que lhes custou muito, mas que perceberam que era o que fazia sentido. Há pessoas que me enviam mensagens e comentam a dizer que estiveram anos a preocuparem-se por terem alimentado ou não terem alimentado, que agora perceberam que ou fizeram muito bem ou fizeram mal. E o que eu tento passar é que não se sintam culpadas, porque na altura era aquilo que sabiam fazer. Para a próxima vez será melhor.


Há um vídeo em que fala sobre pessoas que ficam à espera para morrer, que estão com todos os sinais de que o corpo vai desligar-se, mas há qualquer coisa que as prende e, assim que sentem que o problmea está resolvido ou que a pessoa de que queriam despedir-se apareceu, morrem. 

Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer-lhe

Ou que ficaram sozinhas. Há pessoas que gostam de morrer sozinhas. Ou porque não querem que os familiares presenciem aquele momento porque sabem que vai ser de muito sofrimento ou porque não querem aquela pessoa ali. Ou porque querem que seja um momento só delas. Porque é uma coisa tão íntima! Mas há muitas pessoas que querem gente à volta. Tenho histórias de várias pessoas que morreram connosco no St. Christopher’s Hospice, com famílias que enchiam o quarto de quem estava a morrer… E às vezes nós chegávamos lá, a pessoa já tinha morrido, mas ninguém tinha reparado. Porque estavam tão bem, a conversar, a ouvir música, a rezar, a cantar. E ela estava tão tranquila que não perceberam o momento exato. E depois diziam: “Só queria ter estado mais presente.” Mas foi exatamente isso que estiveram a fazer. Outra coisa que eu notei muito é que há familiares que estão lá 24 horas e saem num dia em que precisam mesmo de ir a casa e naquela meia hora é quando a pessoa morre. E ficam mesmo amargurados. O que nós explicamos é que é muito comum isto acontecer. Se calhar, a pessoa estava exatamente à espera que o outro saísse...


Também há aquela ideia das melhoras da morte, para a qual não há propriamente uma explicação científica, mas que é muito comum observar-se, que dá quase a ideia que há um nível de consciência que controla a morte. Isso é assim?

Sim, é assim. Já há alguns estudos sobre isso e muito sobre as experiências de quase morte na neuropsicologia. Cada vez se sabe mais. Talvez 99% das pessoas que lidam com a morte diariamente têm a certeza de que há esse controlo. A mente muitas vezes é mais poderosa do que o corpo. Não tem que ver com crenças religiosas nem culturais. Eu já vi tantas vezes, que é impossível ignorar que existe este padrão.


Vê nisso alguma transcendência?

Claro. Somos mais do que o corpo. Tenho vários exemplos de pessoas que estiveram presentes na morte de alguém que amavam e diziam: “Ainda bem que eu consegui ver, porque acho que consigo aceitar melhor, porque vejo que, de facto, este corpo já não é da pessoa.” É só uma casca.


Acredita na vida depois da morte?

A quantidade de pessoas que estão a morrer, mas ainda estão a comunicar e que veem alguma coisa e tentam agarrar... Veem pessoas que já morreram e dizem: “Está à minha espera.”

Isto acontece tantas vezes. Como é que eu vou ignorar? Por isso, fico com muita curiosidade para descobrir eu própria. Perguntaram uma vez à Lady Gaga o que faria se pudesse fazer alguma coisa sem consequências. E ela disse: “Morrer.” Achei impressionante.

Sei que há pessoas que passam por experiências de quase morte e umas têm experiências incríveis e outras não tão positivas. Mas todas chegam ao mesmo tipo de padrão. A experiência é muito parecida.


Há dois temas de que fala que me parece que estão ligados. Um é a questão clássica dos arrependimentos no momento da morte e outro aquele ritual havaiano Ho'oponopono, que consiste em dizer "sinto muito", "perdoe-me", "obrigada, e "amo-te".

Diz-se que são as cinco tarefas do final da vida, que se calhar derivam dessa prática, que são o “perdoame, eu perdoo-te, obrigado, eu amo-te, adeus”. Muitas vezes, na intervenção que temos com a família, a parte mais importante é dizer-lhes que se despeçam. Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer

lhe. Mesmo que não haja reação de volta. Dizer: “Nós vamos ficar bem, vamos ter muitas saudades, marcaste a nossa vida, gostamos muito de ti.” Às vezes, é isso de que a pessoa precisa para morrer. Esta permissão. Tenho a história de uma senhora que não morria nem por nada, porque estava preocupada por achar que o filho não ia ter dinheiro, não ia ter trabalho... Então, ele esteve lá a explicar como tinha corrido bem uma entrevista de emprego e, passado um bocadinho, ela morreu. Porque percebeu que o filho estava encaminhado. Estava tranquila. Às vezes, subestimamos este tipo de conversas.


O arrependimento na morte é muito comum, não é?

Também existem pessoas que não se arrependem. São pessoas que fizeram o que queriam ter feito. Não se submeteram às expectativas das outras pessoas.


Esse é o maior arrependimento de todos?

Não ser verdadeiro consigo próprio? Sim. E eu acho que isso vai acontecer cada vez mais. Porque estamos mais expostos à vida das outras pessoas através das redes sociais. Há uma maior comparação, uma maior expectativa sobre como devo parecer. Acho que isso acontece muito com as pessoas mais jovens.


Há alguma idade em que deveríamos começar a preparar-nos para a nossa própria morte?

A partir do momento em que ficamos curiosos em relação à nossa própria morte, acho que é um bom momento. Nunca é cedo demais porque é bom termos essa missão. Ter uma preocupação desmedida com isso é que não.


Preparar no sentido de evitar arrependimentos?

Sim. Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito. Para depois não causar tanto stresse a quem tem de tomar essas decisões.


Como alguém que trabalha numa instituição de topo dos cuidados paliativos, se pudesse com quem governa quais seriam as coisas mais importantes para pedir na área dos cuidados paliativos?

Precisamos que haja mais formação, que haja mais incentivos para que os profissionais que não trabalham em paliativos tenham formação sobre fim de vida. Um dos cursos que eu estou a liderar em Inglaterra é para formar enfermeiros que estão na comunidade, nos cuidados intensivos, nas urgências de especialidades médicas, a cuidar melhor de quem morre. A morte acontece em todo o lado. Muito poucas pessoas morrem com cuidados paliativos. É preciso saber quando parar, quando não pôr sondas, quando dar medicação. Ou seja, perceber como é que o corpo morre, porque isto não é assim muito ensinado nas escolas. Mesmo com os psicólogos o luto não faz parte da formação básica. Quando toda a gente passa por luto. Portanto, formação seria uma prioridade. Formação, acesso, resposta em tempo útil, mas acho que também não haverá isso se não houver profissionais para dar resposta.

Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito.


A entrevista pode ler sida na íntegra aqui.

domingo, 3 de maio de 2026

O Verdeiro Zandinga

 Há mais de dez anos que deixei de acompanhar futebol e desporto em geral (excetuando o ténis-de-mesa), contudo, lá vou fazendo as minhas previsões, mormente com os colegas de trabalho. 

Há dois anos fiz a seguinte previsão: "quem vencer a supertaça perderá o campeonato", e acertei. 

No ano passado, no início de mais um campeonato e contra todas as probabilidades e opiniões dos colegas disse e ficou escrito: "O Jorge Costa morreu, então, o Futebol Clube do Porto será campeão".


Se calhar ando-me a perder e deveria virar-me para a adivinhação. Se houver clubes interessados, já sabem, acerto mais do que o Zandinga!







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"O Ministério Público não se conformou com as explicações de Vítor Escária face à origem dos 75 mil euros encontrados no seu gabinete em São Bento - de que os tinha ganho num trabalho de consultadoria em Angola -, e ordenou a recolha de impressões digitais aos envelopes e a uma caixa de champanhe que escondiam as 1994 notas. O resultado foi no mínimo insólito – porque, além do então chefe de gabinete do primeiro-ministro, o ‘CSI’ da Polícia Judiciária (PJ) identificou quatro agentes da PSP que realizaram a busca e manusearam todos aqueles objetos sem luvas.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres

Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.

"Johann Chapoutot, historiador da Sorbonne, vendeu 70.000 exemplares em França de Irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?, sobre os agitados anos que antecederam a nomeação do líder nazi como chanceler do Reich, em janeiro de 1933. 

A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.

Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.

Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?


Os nazis obtiveram 44%, mas em condições não democráticas. A verdadeira evolução interrompeu-se a 6 de novembro de 1932 (33%), as últimas eleições livres, e aí os nazis estavam em queda livre, como noutros escrutínios locais.

E à beira da cisão.

Sim, porque uma grande parte do aparelho, como o número dois, Gregor Strasser, e o presidente do grupo parlamentar, Wilhelm Frick, estavam prestes a sair. Além disso, a hierarquia em torno de Hitler, sobretudo Goebbels, constata um fracasso. Recordo isso e exploro as motivações e comportamentos dos atores sociais que colocaram os nazis no poder precisamente quando atravessavam grandes dificuldades e não havia qualquer lógica democrática.

Menciona o mundo empresarial, os latifundiários, os militares, mas quase não refere o meio cultural, a intelectualidade.

Porque não tem peso. Falo de quem, nesse período, tinha o poder. Recordo que desde março de 1930 não havia democracia parlamentar na Alemanha porque o círculo próximo do presidente Von Hindenburg decidiu abusar da Constituição para confiscar o poder. Esse círculo era composto por militares, pelo seu filho Oskar, também latifundiário, financeiros, seguradoras, banqueiros, industriais e altos funcionários. Foram decisivos na pressão sobre o presidente. Os últimos a alinhar com a solução Hitler foram os grandes exportadores do Ruhr, porque os nazis tinham projetos autárquicos que os inquietavam.

Diz que a missão histórica do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) era captar eleitores tentados pelo marxismo e levá-los para o nacionalismo.

Essa era a missão explícita em 1919, daí o nome absurdo, puro marketing. Havia indicadores de direita (nacional e alemão) e supostos indicadores de esquerda (socialista e trabalhadores). Pura fachada e propaganda, porque a linha nazi era de extrema-direita desde o início. Mas existia essa ideia de evitar que a massa flutuante fosse para a solução comunista e internacionalista. Estamos em pleno contexto revolucionário nessa época. Na realidade, fracassaram. O eleitorado nazi era de direita. O grosso era a pequena classe média, aterrorizada pela ideia comunista e pelo medo de cair na proletarização. Todos os estudos mostram que o voto operário e dos desempregados foi, na sua esmagadora maioria, para social-democratas e comunistas. Os ganhos dos nazis até julho de 1932 vieram dos abstencionistas e do eleitorado de direita.

Compara Macron com Von Papen (vice-chanceler de Hitler, que o promoveu). Porquê? Também dará o poder à extrema-direita?

A estatística fala por si. Havia dois deputados do Reagrupamento Nacional (RN, o partido de Le Pen) em 2017 e agora há 139. Macron deu entrevistas a meios como Valeurs Actuelles, condenado por incitação ao ódio racial. Este homem foi eleito duas vezes contra a extrema-direita. Esse era o seu mandato, o único. Não era destruir o serviço público, nem dar dinheiro ao senhor Arnault (dono do grupo Louis Vuitton). O seu mandato era travar a extrema-direita e fez exatamente o contrário. Efetivamente, tem o mesmo papel que Von Papen na história. Era um liberal autoritário que fez uma política de oferta, a favor do patronato, de destruição do Estado social e desregulação do mercado de trabalho. Essa é a parte liberal. A parte autocrática é quando, em França, não se respeita o resultado das eleições legislativas.

Nos anos trinta havia porosidade entre a direita e a extrema-direita. Vê um paralelismo?

Falo mais do centro extremo. Em França, Os Republicanos não contam para nada e estão condenados a desaparecer. A verdadeira nova direita é o centro extremo macronista. A extrema-direita e o extremo-centro têm o mesmo inimigo: a esquerda - e não apenas a extrema-esquerda, mas também os social-democratas e os sindicalistas cristãos. Têm a mesma base eleitoral, a pequena burguesia, e os mesmos mecenas.

Extremo-Centro?

Como historiador, levo as palavras a sério. As pessoas em torno de Von Papen apresentavam-se como centristas e moderadas. O mesmo acontece hoje em torno de Macron. Tomo esse conceito e acrescento-lhe “extremo” porque esses supostos centristas são, na realidade, extremistas, como estudou o professor Pierre Serna. Quando se trata de defender os seus interesses e o seu poder, vão até ao fim. Não respeitam os resultados eleitorais, disparam balas de borracha sobre a multidão. Ideologicamente, a extrema-direita e o extremo-centro têm a mesma cultura política. São darwinistas sociais, nacionalistas, conservadores. Em suma, têm tudo para se entender e, de facto, entendem-se e aliam-se. Mas há sempre essa ambiguidade e hipocrisia de fazer concessões constantes à direita e à extrema-direita e, quando há eleições, dizer que são o “muro”. É uma perversidade monstruosa.

La Vanguardia / 26 de Abril 2026

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Colecionador de Citações II - As Maias e os Cravos

 


Frase proferida pelo meu colega de trabalho, que tem 22 anos e a quem emprestei o livro "Quando Portugal Ardeu" e que apesar de não ter hábitos de leitura, leu o livro em dois ou três meses. 

sábado, 18 de abril de 2026

Um Terço é Para Morrer - O Sonho de Passos Coelho

Encontrei este texto de José Vítor Malheiros publicado no Público em 2012 nos rascunhos do e-mail.  E ali esteve estes últimos 13 anos, para o decidir partilhar agora mesmo por ser tão atual:


"Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. 

Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventadas quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.


Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto, são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca-vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar -, mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazerem algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto), votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portarmo-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite."»

José Vítor Malheiros / Público