Esta citação foi retirada da entrevista a Violante Saramago Matos no programa da Antena 1 Vencidos.
"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
domingo, 17 de maio de 2026
Colecionador de Citações (3) - Acho Muito Mais Difícil Não Ter Fé
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Nossa Senhora da Spinunviva
O Luís aproveitou o 13 de Maio e foi rezar à Nossa Senhora da Spinunviva que apareceu no Monte Solverde, por cima do Casino de Espinho.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Tudo o Que Leio é Sobre a Minha Mãe (2)
Comigo em modo sobrevivência, tudo se passou incrivelmente tão rápido, que já está quase a fazer um ano que a minha mãe partiu. Tenho várias coisas escritas, incluindo um extenso texto aqui nos rascunhos do blog que depois queria partilhar, mas por culpa própria isso ainda não aconteceu.
Ver a pessoa que nos é mais importante ficar doente, perceber que as hipóteses de sobreviver serão muito poucas e, rapidamente, vê-la internada nos cuidados paliativos, sabendo que já não há mais nada a fazer não foi propriamente fácil...
Encontrei esta entrevista da Margarida Davim na Visão, com uma enfermeira especialista em cuidados paliativos. Deixo aqui alguns excertos. Leiam que certamente vos será útil. E apoiem a revista comprando-a nas bancas.
"Leonor Pacheco tem 30 anos, é enfermeira especialista em cuidados paliativos e criou no Instagram a @ todoschegamosaofim, uma página para falar da morte. Com uma imagem luminosa e uma voz serena, faz pequenos vídeos onde conta histórias sobre quem esperou por alguém para morrer, a importância de falar sobre a forma como se quer partir desta vida ou como lidar com situações práticas, como a falta de apetite de doentes terminais ou as chamadas melhoras da morte. Prima do linguista Marco Neves, uma estrela das redes sociais, foi depois de gravarem juntos um vídeo no jardim de casa da mãe dela que a página ganhou milhares de seguidores, numa altura em que Leonor, que ainda estava em recuperação de um burnout, quase tinha desistido do projeto. Hoje, a página recebe centenas de comentários e mensagens de pessoas que querem partilhar as suas experiências e dúvidas. E Leonor Pacheco sente que, num país em que há “muita iliteracia” sobre o fim da vida, o seu papel como comunicadora é importante. É nele e na formação de mais profissionais de cuidados paliativos que quer concentrar-se, agora que voltou a Portugal depois de quase sete anos a trabalhar no Reino Unido.
O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte?
Primeiro, que acontece a todos. Porque, até nos confrontarmos de frente com ela, achamos sempre que somos imortais. Há uma taxa de 100% de mortalidade na vida. Depois, não deixar que isso seja indutor de ansiedade ou de stresse. Saber que vamos morrer pode ajudar-nos a viver de outra maneira, mas também a ficarmos mais ansiosos porque a nossa vida vai acabar e não sabemos o que vem a seguir.
O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte? Não se levam as crianças aos funerais. A morte é escondida.
Porque associamos a morte ao medo, aos filmes de terror.
E nos filmes e nas séries, a morte é sempre de repente. Morrem de olhos abertos. Têm as últimas palavras… Tudo muito ensanguentado… Na realidade, as mortes não são assim. As que não são esperadas, sim, são mais traumáticas. Mas as mortes esperadas não são assim. São com os sintomas bem gravados. E por isso é que é tão importante a formação e me custam muito as histórias que vou ouvindo sobre a realidade em Portugal… Mas, a serem bem cuidadas as pessoas no fim de vida, pode ser muito pacífico. Porque a morte em si não é dolorosa. O que é doloroso são
os sintomas que poderão estar associados à doença.
A morte não é dolorosa fisicamente, mas uma pessoa que está muito agarrada à vida, a morte pode ser um momento muito traumático. Há alguma maneira de tentar contrariar isso?
Fazer terapia, se for esse o caso. Mas é preciso pensar sobre o assunto. Se a morte me causa ansiedade, devese a quê? Será que estou a viver da maneira que quero? Ou estou a fazer alguma coisa que não vai ao encontro daquilo que valorizo mais?
Não pode ser só porque se gosta muito de estar vivo?
Também pode ser. Mas as pessoas podem amar viver e saber na mesma que vai chegar o fim. E não vivem menos ou pior porque sabem que isto vai chegar ao fim. Aquela positividade tóxica... “Não, não penses nisso, ainda falta muito tempo para acontecer”… Às vezes, é o que causa ansiedade na pessoa que está doente. A pessoa está a tentar ajudar e a ser positiva, mas o não pensar nisso não ajuda ninguém. Porque quem está doente pensa e acabou. Mesmo que as pessoas à volta não queiram pensar, a pessoa já está a pensar nisso. Portanto, vamos tentar, enquanto sociedade, não isolar as pessoas nesta preocupação que têm.
Há pessoas que deixam de visitar, de telefonar, de falar com a pessoa que está a morrer, porque não querem confrontar-se com isso.
Sim, porque é desconfortável para elas. Cada pessoa tem de fazer aquilo que é certo para ela. Mas é doloroso para quem está a morrer, porque se sente abandonado. Porque nesta fase que é a final delas e que pode ser tão importante e tão boa, não veem as pessoas que amam.
Pode ser uma fase boa?
Pode ser muito boa.
O que pode ser bom em estar a morrer?
Aproveitarem o tempo que têm, não estarem apenas preocupadas com o “vou curar-me, vou fazer este tratamento superintenso”… Porque, às vezes, os tratamentos levam a que as pessoas vivam menos ainda. Podem aproveitar esse tempo de forma confortável, a criar memórias, para as pessoas de quem gostam. As memórias são muito importantes para as pessoas que ficam. É uma maneira de honrar a pessoa que está a morrer. Porque estamos ali, estamos presentes e estamos a dar o último amor que é possível enquanto eles estão vivos. A nossa relação continua, mas vai mudando de forma. Enquanto a pessoa está viva, devemos dizer-lhe o que sentimos, não deixar para o funeral os discursos que importam. É bom para a pessoa que vai morrer sentir-se acompanhada, sentir que as pessoas ainda se riem à volta dela e que há normalidade. Isso é bom. Porque, de repente, toda a conversa é só sobre morte. Morte e sintomas, e “como é que estás”. E é importante manter a naturalidade e a normalidade da vida. Continuar, por exemplo, a ir ter com aquela pessoa que está muito doente, contar os seus problemas amorosos, porque sempre foi a ela a quem se recorreu. Porque uma das coisas que quem está a morrer tem de enlutar é a mudança de papéis sociais dentro da família, no trabalho, no círculo de amigos. À medida que ficam menos capazes e menos independentes, elas já sabem que isso vai acontecer. Mas quando é confirmado por toda a gente à volta, é mais doloroso ainda. As pessoas querem sentir-se elas próprias até o fim. E eu acho que nos compete a nós, enquanto amigos, familiares, conhecidos e profissionais, cuidadores, manter a identidade da pessoa.
Respeito é uma palavra-chave, não é? Fez um vídeo sobre as questões de alimentação em fim de vida em que explica que há situações em que o corpo já não está a absorver nutrientes, que há situações em que não estamos a matar à fome aquela pessoa se deixarmos de insistir...
Aliás, podemos estar a causar mais desconforto ao tentar alimentar. Mas isso é porque é uma questão cultural. Fazemos tudo à volta da mesa. Alimentar e cozinhar é cuidar, é amar. E quando nos impossibilitam de o fazer, sentimonos muito inúteis. Isso tem de ser desmistificado. E isto acontece também, infelizmente, muito com os profissionais, que põem sondas e continuam a alimentar, quando o corpo já está noutra. As pessoas podem continuar elas próprias, mas sem comer. Então, se apetece um gelado? Ah, mas o gelado não dá nutrientes. E então? Quem é que precisa de nutrientes? Precisa é de se sentir feliz. E isto acontece mesmo nos lares. Quando as pessoas são institucionalizadas são despidas de tudo o que é a identidade delas. A roupa, os produtos de higiene, o cabelo, que fica só apanhado, a barba que é feita a homens que gostam de ter barba. Os quartos todos brancos…
Pensa-se pouco nisso...
Mas é preciso que alguém com autoridade, alguém de confiança, que são os profissionais, consiga explicar isso a quem está a morrer. E eu tenho ouvido histórias más, mas também tenho ouvido histórias muito boas. Pessoas que dizem que, de facto, os profissionais explicaram tudo isso e que lhes custou muito, mas que perceberam que era o que fazia sentido. Há pessoas que me enviam mensagens e comentam a dizer que estiveram anos a preocuparem-se por terem alimentado ou não terem alimentado, que agora perceberam que ou fizeram muito bem ou fizeram mal. E o que eu tento passar é que não se sintam culpadas, porque na altura era aquilo que sabiam fazer. Para a próxima vez será melhor.
Há um vídeo em que fala sobre pessoas que ficam à espera para morrer, que estão com todos os sinais de que o corpo vai desligar-se, mas há qualquer coisa que as prende e, assim que sentem que o problmea está resolvido ou que a pessoa de que queriam despedir-se apareceu, morrem.
Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer-lhe
Ou que ficaram sozinhas. Há pessoas que gostam de morrer sozinhas. Ou porque não querem que os familiares presenciem aquele momento porque sabem que vai ser de muito sofrimento ou porque não querem aquela pessoa ali. Ou porque querem que seja um momento só delas. Porque é uma coisa tão íntima! Mas há muitas pessoas que querem gente à volta. Tenho histórias de várias pessoas que morreram connosco no St. Christopher’s Hospice, com famílias que enchiam o quarto de quem estava a morrer… E às vezes nós chegávamos lá, a pessoa já tinha morrido, mas ninguém tinha reparado. Porque estavam tão bem, a conversar, a ouvir música, a rezar, a cantar. E ela estava tão tranquila que não perceberam o momento exato. E depois diziam: “Só queria ter estado mais presente.” Mas foi exatamente isso que estiveram a fazer. Outra coisa que eu notei muito é que há familiares que estão lá 24 horas e saem num dia em que precisam mesmo de ir a casa e naquela meia hora é quando a pessoa morre. E ficam mesmo amargurados. O que nós explicamos é que é muito comum isto acontecer. Se calhar, a pessoa estava exatamente à espera que o outro saísse...
Também há aquela ideia das melhoras da morte, para a qual não há propriamente uma explicação científica, mas que é muito comum observar-se, que dá quase a ideia que há um nível de consciência que controla a morte. Isso é assim?
Sim, é assim. Já há alguns estudos sobre isso e muito sobre as experiências de quase morte na neuropsicologia. Cada vez se sabe mais. Talvez 99% das pessoas que lidam com a morte diariamente têm a certeza de que há esse controlo. A mente muitas vezes é mais poderosa do que o corpo. Não tem que ver com crenças religiosas nem culturais. Eu já vi tantas vezes, que é impossível ignorar que existe este padrão.
Vê nisso alguma transcendência?
Claro. Somos mais do que o corpo. Tenho vários exemplos de pessoas que estiveram presentes na morte de alguém que amavam e diziam: “Ainda bem que eu consegui ver, porque acho que consigo aceitar melhor, porque vejo que, de facto, este corpo já não é da pessoa.” É só uma casca.
Acredita na vida depois da morte?
A quantidade de pessoas que estão a morrer, mas ainda estão a comunicar e que veem alguma coisa e tentam agarrar... Veem pessoas que já morreram e dizem: “Está à minha espera.”
Isto acontece tantas vezes. Como é que eu vou ignorar? Por isso, fico com muita curiosidade para descobrir eu própria. Perguntaram uma vez à Lady Gaga o que faria se pudesse fazer alguma coisa sem consequências. E ela disse: “Morrer.” Achei impressionante.
Sei que há pessoas que passam por experiências de quase morte e umas têm experiências incríveis e outras não tão positivas. Mas todas chegam ao mesmo tipo de padrão. A experiência é muito parecida.
Há dois temas de que fala que me parece que estão ligados. Um é a questão clássica dos arrependimentos no momento da morte e outro aquele ritual havaiano Ho'oponopono, que consiste em dizer "sinto muito", "perdoe-me", "obrigada, e "amo-te".
Diz-se que são as cinco tarefas do final da vida, que se calhar derivam dessa prática, que são o “perdoame, eu perdoo-te, obrigado, eu amo-te, adeus”. Muitas vezes, na intervenção que temos com a família, a parte mais importante é dizer-lhes que se despeçam. Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer
lhe. Mesmo que não haja reação de volta. Dizer: “Nós vamos ficar bem, vamos ter muitas saudades, marcaste a nossa vida, gostamos muito de ti.” Às vezes, é isso de que a pessoa precisa para morrer. Esta permissão. Tenho a história de uma senhora que não morria nem por nada, porque estava preocupada por achar que o filho não ia ter dinheiro, não ia ter trabalho... Então, ele esteve lá a explicar como tinha corrido bem uma entrevista de emprego e, passado um bocadinho, ela morreu. Porque percebeu que o filho estava encaminhado. Estava tranquila. Às vezes, subestimamos este tipo de conversas.
O arrependimento na morte é muito comum, não é?
Também existem pessoas que não se arrependem. São pessoas que fizeram o que queriam ter feito. Não se submeteram às expectativas das outras pessoas.
Esse é o maior arrependimento de todos?
Não ser verdadeiro consigo próprio? Sim. E eu acho que isso vai acontecer cada vez mais. Porque estamos mais expostos à vida das outras pessoas através das redes sociais. Há uma maior comparação, uma maior expectativa sobre como devo parecer. Acho que isso acontece muito com as pessoas mais jovens.
Há alguma idade em que deveríamos começar a preparar-nos para a nossa própria morte?
A partir do momento em que ficamos curiosos em relação à nossa própria morte, acho que é um bom momento. Nunca é cedo demais porque é bom termos essa missão. Ter uma preocupação desmedida com isso é que não.
Preparar no sentido de evitar arrependimentos?
Sim. Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito. Para depois não causar tanto stresse a quem tem de tomar essas decisões.
Como alguém que trabalha numa instituição de topo dos cuidados paliativos, se pudesse com quem governa quais seriam as coisas mais importantes para pedir na área dos cuidados paliativos?
Precisamos que haja mais formação, que haja mais incentivos para que os profissionais que não trabalham em paliativos tenham formação sobre fim de vida. Um dos cursos que eu estou a liderar em Inglaterra é para formar enfermeiros que estão na comunidade, nos cuidados intensivos, nas urgências de especialidades médicas, a cuidar melhor de quem morre. A morte acontece em todo o lado. Muito poucas pessoas morrem com cuidados paliativos. É preciso saber quando parar, quando não pôr sondas, quando dar medicação. Ou seja, perceber como é que o corpo morre, porque isto não é assim muito ensinado nas escolas. Mesmo com os psicólogos o luto não faz parte da formação básica. Quando toda a gente passa por luto. Portanto, formação seria uma prioridade. Formação, acesso, resposta em tempo útil, mas acho que também não haverá isso se não houver profissionais para dar resposta.
Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito.
A entrevista pode ler sida na íntegra aqui.
domingo, 3 de maio de 2026
O Verdeiro Zandinga
Publicidade da IKEA à Kallax Revista e Atualizada
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres
Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.
A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.
Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.
Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?segunda-feira, 27 de abril de 2026
Colecionador de Citações II - As Maias e os Cravos
Frase proferida pelo meu colega de trabalho, que tem 22 anos e a quem emprestei o livro "Quando Portugal Ardeu" e que apesar de não ter hábitos de leitura, leu o livro em dois ou três meses.
sábado, 18 de abril de 2026
Um Terço é Para Morrer - O Sonho de Passos Coelho
Encontrei este texto de José Vítor Malheiros publicado no Público em 2012 nos rascunhos do e-mail. E ali esteve estes últimos 13 anos, para o decidir partilhar agora mesmo por ser tão atual:
Irão Ganhou a Guerra do Humor
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (2)
Ao menos CH fazem. Além de violarem crianças, roubam o Estado.
Colecionador de Citações - As Crianças e a Morte
(Júlio Machado Vaz)
terça-feira, 7 de abril de 2026
Inteligência Artificial: Um Futuro que Já Aconteceu
Éric Sadin é um dos 10 principais pensadores tecnológicos do mundo. A sua obra mais recente é O Deserto de Nós Mesmos, uma análise sombria do futuro que estamos a construir. Um lugar que já existiu previamente em dados e no esquema de probabilidades que o desenhou. Um lugar que cheira a morte e a passado. E tudo começou a 30 de novembro de 2022, com o advento do ChatGPT. “Nesse dia não dormi a noite inteira. E eu costumo dormir como um bebé”, explica Sadin, enquanto coloca o croissant sobre a mesa. O livro, um best-seller em França, começa com uma citação de Louis-Ferdinand Céline: “Posso dizer que vi a catástrofe a chegar”.
Então o apocalipse começou a 30 de novembro de 2022?
Macron quer regulá-las agora, mas até este momento deu a estas plataformas todas as facilidades. Começaram em 2010 e, 15 anos depois, admitimos a catástrofe. A sociedade, em questões digitais, acorda sempre demasiado tarde.
Já perdemos algumas gerações de jovens?
Também muitos adultos. Psiquiatrizaram a sociedade. E com a IA generativa acontecerá o mesmo. Já estamos a ver as consequências. A perda de empregos, o isolamento social, a imagem. Mas também a dependência emocional dos adolescentes que falam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, transformada em coach psicológico. E isto é só o princípio.
Falamos com a IA, pedimos conselhos, conversa emocional. Mas a linguagem, embora pareça a mesma, é outra.
São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de bibliotecas, artigos de jornais e dados da internet para revelar leis semânticas. São percursos formais feitos de estatística, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque funciona sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que, depois de determinadas palavras, vêm outras. Na IA acontece sempre tudo o que já aconteceu. Responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu agora não sei que palavra vou usar a seguir à que estou a dizer neste momento, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento, é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.
Isso poderia definir a liberdade humana.
Sem dúvida. Por um lado, há a linguagem morta, necrosada, matematizada e nascida do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E esta mudança que estamos a viver modificará também as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema omnisciente e sabichão. Nestas últimas eleições autárquicas em França, descobriram que havia candidatos e autarcas que escreviam os seus discursos com o ChatGPT. Tem noção da gravidade disso?
A sensação é de que a cultura que a IA vai gerar será como a comida de plástico, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para classes desfavorecidas que não podem pagar o autêntico, o verdadeiro. Uma distinção social e económica. A realidade, com os seus erros, para os ricos; a IA, para os pobres.
Tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e os que têm vontade de usar as suas faculdades. Essas pessoas também podem existir nas classes menos favorecidas. E haverá ricos que optarão por isso por preguiça, desleixo. Mas não será fácil distinguir os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmática. Cada um produzirá imagens que corresponderão ao seu ponto de vista sobre as coisas.
O impacto será enorme no mundo audiovisual e na cultura.
Sem dúvida. Vai arrasar as séries e os filmes. Haverá atores feitos por IA, cenários, luzes, maquilhagem, guarda-roupa… Vamos para uma enorme desaparecimento de profissões: montador, maquilhador, diretor de produção. Dirigimo-nos para a autocriação. Produtos que nos contêm a nós mesmos. A selfmusic, ou o selfbook. Em vez de descobrirmos, construiremos a nossa pequena ficção. E isso é um furacão que vai embater no mundo da cultura.
Vão destruir-se empregos, mas talvez se crie uma nova indústria. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.
A sociedade foi fundada sobre o conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem emprego, mas a médio ou longo prazo conduzem a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o nascimento do setor terciário nos anos 70 e 80. Trabalhos muito duros passaram a ser feitos pelas máquinas. Hoje, quase 80% do emprego vem do setor terciário, que se caracteriza por mobilizar faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que o senhor ama e que lhe dá reconhecimento social.
Acho que está a confundir a época. Ou a profissão.
Vá lá, o senhor assina, faz coisas pessoais.
Se há uma tecnologia que faz muito melhor trabalhos mecânicos ou rotineiros do que os humanos, porque haveríamos de nos opor?
Não podemos nem proibir nem regular. Mas podemos defender a grandeza dos nossos trabalhos. Eu sei que conta apenas um único critério: o ser humano como variável contabilística. Os sistemas farão o trabalho de forma mais fiável, mais rápida e mais barata. Mas há saberes insubstituíveis. O problema é que caminhamos para um mundo em que os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano depois de lançar o ChatGPT, disse diante daqueles imbecis felizes que o aplaudiam: “Calma, isto não é nada comparado com o que aí vem”. Ou seja, os superassistentes. E isto deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos da sua própria organização.
Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Acha que se vão salvar deste furacão? O que podem fazer?
O futuro devia ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se quer ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas deprimem-se, enlouquecem. Nunca houve uma sensação coletiva de saturação tão generalizada. E tanta vontade de fazer algo diferente. Depois da covid, 20 milhões de norte-americanos deixaram o emprego. Mas é difícil fazer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas estas start-ups inúteis que toda a gente quer mercantilizar, devia apoiar coletivos ou estruturas que não estejam submetidos à automatização. O futuro devia ser feito de pequenos coletivos.
O que deveriam aprender os nossos filhos para escapar a essa morte em vida?
Artesanato. Veja: na Revolução Industrial já existia essa dicotomia. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação do aparelho de produção, mas isso aumentava os desastres ecológicos, o trabalho em cadeia. Morris, pelo contrário, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso podia fazer-se no artesanato, na excelência, na obra assinada, única.
Não parece haver muita esperança.
A esperança são as crianças da idade das suas filhas, que quando crescerem escolherão outra opção, como acontecia em Matrix. Esse momento chegará. Chegará em algumas crianças puras. Mas já perdemos muitas. Miúdos que passam o dia inteiro no TikTok e já nem sabem escrever. São robôs que apenas respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.
Esta criatura pode tornar-se independente e submeter-nos, como o Skynet em Terminator?
Isso é uma parvoíce. Um delírio de ficção científica infantil. Uma visão antropomórfica de adolescente. Mas aquilo que lhe estou a contar é muito pior. A renúncia às nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados a todas as escalas, e todas fazem recuar o ser humano no exercício daquilo que o engrandece. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que está a extinguir-se. E garanto-lhe que isso é muito pior do que o Skynet. Mas sabe quem pode evitá-lo?
Pelo seu olhar, começo a imaginá-lo.
O senhor. Ou seja, os pais! O senhor não pode usar o ChatGPT para mandar e-mails nem nada parecido. Como é que depois vai pedir aos seus filhos que aprendam a escrever? Salvar o mundo hoje depende da consciência dos pais.
O senhor não usa nenhuma IA generativa?
Essas máquinas de morte? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que felicidade. E vejo gente jovem que começa a distinguir-se, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis quotidianos e escravos da sua própria preguiça. E esses verão a sua singularidade destruída em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou a falar muito. Quanto espaço é que lhe vão dar?
Não se preocupe, resumimos tudo com o ChatGPT.
(Entrevista de Daniel Verdú / El País)
Idade de Cristo Depois
A última vez que tinha cortado o cabelo numa cadeira de barbeiro tinha sido há trinta e três anos, precisamente, a idade atribuída a Jesus Cristo.
De repente, e num leve abrir e fechar de olhos, saio do antigo barbeiro na rua do Heroísmo da cidade do Porto com o cabelo rapado a pente 2 dos lados e mais volumoso em cima, e entro de cabelos grisalhos, bastante compridos mas finos num cabeleireiro feminino da Boavista.
Uma senhora de cabelos loiros, curtos aplicava o que parecia ser uma pasta numas pratas nos cabelos volumosos de uma mulher brasileira e passado uns minutos chama-me. "Respira fundo, é como se estivesses na cadeira do dentista, custa o bocado, mas depois passa", pensei.
Ela molha-me o cabelo, passa os dedos pelos cabelos rarefeitos que evidenciam a moleirinha e massaja. E depois penteia. E pergunta quanto é para cortar.
E está feito. E paguei o mesmo conto de reis de há trinta e três anos para ficar com muito mais volume e uma sensação de que me foi amputada parte de mim.
Assim o Teerão - Provavelmente o Meu Melhor Trocadilho de Sempre (2)
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Conversas Improváveis (89) - O Sítio Mais Perigoso
terça-feira, 31 de março de 2026
Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?
“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”
- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.
Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.
Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.
Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.
Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.
Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.
E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.
Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.
Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.
Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.
Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.
Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.
Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.
Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.
Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.
Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.
Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.
Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.
- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.
A resposta dele foi simples, leve:
— OK.
E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.
Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.
Ele riu-se.
- Fiz essa numa festa - disse. Todos tirámos desenhos de um chapéu.
Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.
A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.
Ele reparou e cruzou o olhar comigo.
- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?
Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.
Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.
Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.
Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?
Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.
As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.
Afinal, essa é a verdadeira história de amor.
Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?
(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)
Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor










