quinta-feira, 14 de maio de 2026

Nossa Senhora da Spinunviva

 O Luís aproveitou o 13 de Maio e foi rezar à Nossa Senhora da Spinunviva que apareceu no Monte Solverde, por cima do Casino de Espinho. 


Oração:

Santísima Senhora da Spinunviva,
que no monte Solverde de Espinho vos dignastes a revelar os tesouros da Nossa Santa Avença, ajudai-nos a apreciar sempre esta santa oração, a fim de que, meditando os mistérios da nossa redenção, alcancemos as graças que insistentemente vos pedimos: o eterno tacho para nós e os nossos filhos e que os pacóvios e trochas continuem a acreditar nas patranhas do nosso governo. 

Ó meu bom Cavaco Silva, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do comunismo, levai as almas todas para o Hotel 5 Estrelas e socorrei principalmente as que mais precisarem. Nossa Senhora de Spinunviva, rogai por nós.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Tudo o Que Leio é Sobre a Minha Mãe (2)

 Comigo em modo sobrevivência, tudo se passou incrivelmente tão rápido, que já está quase a fazer um ano que a minha mãe partiu. Tenho várias coisas escritas, incluindo um extenso texto aqui nos rascunhos do blog que depois queria partilhar, mas por culpa própria isso ainda não aconteceu.

Ver a pessoa que nos é mais importante ficar doente, perceber que as hipóteses de sobreviver serão muito poucas e, rapidamente, vê-la internada nos cuidados paliativos, sabendo que já não há mais nada a fazer não foi propriamente fácil...

Encontrei esta entrevista da Margarida Davim na Visão, com uma enfermeira especialista em cuidados paliativos. Deixo aqui alguns excertos. Leiam que certamente vos será útil. E apoiem a revista comprando-a nas bancas. 


"Leonor Pacheco tem 30 anos, é enfermeira especialista em cuidados paliativos e criou no Instagram a @ todoschegamosaofim, uma página para falar da morte. Com uma imagem luminosa e uma voz serena, faz pequenos vídeos onde conta histórias sobre quem esperou por alguém para morrer, a importância de falar sobre a forma como se quer partir desta vida ou como lidar com situações práticas, como a falta de apetite de doentes terminais ou as chamadas melhoras da morte. Prima do linguista Marco Neves, uma estrela das redes sociais, foi depois de gravarem juntos um vídeo no jardim de casa da mãe dela que a página ganhou milhares de seguidores, numa altura em que Leonor, que ainda estava em recuperação de um burnout, quase tinha desistido do projeto. Hoje, a página recebe centenas de comentários e mensagens de pessoas que querem partilhar as suas experiências e dúvidas. E Leonor Pacheco sente que, num país em que há “muita iliteracia” sobre o fim da vida, o seu papel como comunicadora é importante. É nele e na formação de mais profissionais de cuidados paliativos que quer concentrar-se, agora que voltou a Portugal depois de quase sete anos a trabalhar no Reino Unido.


O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte?

Primeiro, que acontece a todos. Porque, até nos confrontarmos de frente com ela, achamos sempre que somos imortais. Há uma taxa de 100% de mortalidade na vida. Depois, não deixar que isso seja indutor de ansiedade ou de stresse. Saber que vamos morrer pode ajudar-nos a viver de outra maneira, mas também a ficarmos mais ansiosos porque a nossa vida vai acabar e não sabemos o que vem a seguir.


O que é que as pessoas deveriam saber sobre a morte? Não se levam as crianças aos funerais. A morte é escondida. 

Porque associamos a morte ao medo, aos filmes de terror. 

E nos filmes e nas séries, a morte é sempre de repente. Morrem de olhos abertos. Têm as últimas palavras… Tudo muito ensanguentado… Na realidade, as mortes não são assim. As que não são esperadas, sim, são mais traumáticas. Mas as mortes esperadas não são assim. São com os sintomas bem gravados. E por isso é que é tão importante a formação e me custam muito as histórias que vou ouvindo sobre a realidade em Portugal… Mas, a serem bem cuidadas as pessoas no fim de vida, pode ser muito pacífico. Porque a morte em si não é dolorosa. O que é doloroso são

os sintomas que poderão estar associados à doença.


A morte não é dolorosa fisicamente, mas uma pessoa que está muito agarrada à vida, a morte pode ser um momento muito traumático. Há alguma maneira de tentar contrariar isso?

Fazer terapia, se for esse o caso. Mas é preciso pensar sobre o assunto. Se a morte me causa ansiedade, devese a quê? Será que estou a viver da maneira que quero? Ou estou a fazer alguma coisa que não vai ao encontro daquilo que valorizo mais?


Não pode ser só porque se gosta muito de estar vivo?

Também pode ser. Mas as pessoas podem amar viver e saber na mesma que vai chegar o fim. E não vivem menos ou pior porque sabem que isto vai chegar ao fim. Aquela positividade tóxica... “Não, não penses nisso, ainda falta muito tempo para acontecer”… Às vezes, é o que causa ansiedade na pessoa que está doente. A pessoa está a tentar ajudar e a ser positiva, mas o não pensar nisso não ajuda ninguém. Porque quem está doente pensa e acabou. Mesmo que as pessoas à volta não queiram pensar, a pessoa já está a pensar nisso. Portanto, vamos tentar, enquanto sociedade, não isolar as pessoas nesta preocupação que têm.


Há pessoas que deixam de visitar, de telefonar, de falar com a pessoa que está a morrer, porque não querem confrontar-se com isso. 

Sim, porque é desconfortável para elas. Cada pessoa tem de fazer aquilo que é certo para ela. Mas é doloroso para quem está a morrer, porque se sente abandonado. Porque nesta fase que é a final delas e que pode ser tão importante e tão boa, não veem as pessoas que amam.


Pode ser uma fase boa?

Pode ser muito boa.


O que pode ser bom em estar a morrer?

Aproveitarem o tempo que têm, não estarem apenas preocupadas com o “vou curar-me, vou fazer este tratamento superintenso”… Porque, às vezes, os tratamentos levam a que as pessoas vivam menos ainda. Podem aproveitar esse tempo de forma confortável, a criar memórias, para as pessoas de quem gostam. As memórias são muito importantes para as pessoas que ficam. É uma maneira de honrar a pessoa que está a morrer. Porque estamos ali, estamos presentes e estamos a dar o último amor que é possível enquanto eles estão vivos. A nossa relação continua, mas vai mudando de forma. Enquanto a pessoa está viva, devemos dizer-lhe o que sentimos, não deixar para o funeral os discursos que importam. É bom para a pessoa que vai morrer sentir-se acompanhada, sentir que as pessoas ainda se riem à volta dela e que há normalidade. Isso é bom. Porque, de repente, toda a conversa é só sobre morte. Morte e sintomas, e “como é que estás”. E é importante manter a naturalidade e a normalidade da vida. Continuar, por exemplo, a ir ter com aquela pessoa que está muito doente, contar os seus problemas amorosos, porque sempre foi a ela a quem se recorreu. Porque uma das coisas que quem está a morrer tem de enlutar é a mudança de papéis sociais dentro da família, no trabalho, no círculo de amigos. À medida que ficam menos capazes e menos independentes, elas já sabem que isso vai acontecer. Mas quando é confirmado por toda a gente à volta, é mais doloroso ainda. As pessoas querem sentir-se elas próprias até o fim. E eu acho que nos compete a nós, enquanto amigos, familiares, conhecidos e profissionais, cuidadores, manter a identidade da pessoa.


Respeito é uma palavra-chave, não é? Fez um vídeo sobre as questões de alimentação em fim de vida em que explica que há situações em que o corpo já não está a absorver nutrientes, que há situações em que não estamos a matar à fome aquela pessoa se deixarmos de insistir...

Aliás, podemos estar a causar mais desconforto ao tentar alimentar. Mas isso é porque é uma questão cultural. Fazemos tudo à volta da mesa. Alimentar e cozinhar é cuidar, é amar. E quando nos impossibilitam de o fazer, sentimonos muito inúteis. Isso tem de ser desmistificado. E isto acontece também, infelizmente, muito com os profissionais, que põem sondas e continuam a alimentar, quando o corpo já está noutra. As pessoas podem continuar elas próprias, mas sem comer. Então, se apetece um gelado? Ah, mas o gelado não dá nutrientes. E então? Quem é que precisa de nutrientes? Precisa é de se sentir feliz. E isto acontece mesmo nos lares. Quando as pessoas são institucionalizadas são despidas de tudo o que é a identidade delas. A roupa, os produtos de higiene, o cabelo, que fica só apanhado, a barba que é feita a homens que gostam de ter barba. Os quartos todos brancos…


Pensa-se pouco nisso...

Mas é preciso que alguém com autoridade, alguém de confiança, que são os profissionais, consiga explicar isso a quem está a morrer. E eu tenho ouvido histórias más, mas também tenho ouvido histórias muito boas. Pessoas que dizem que, de facto, os profissionais explicaram tudo isso e que lhes custou muito, mas que perceberam que era o que fazia sentido. Há pessoas que me enviam mensagens e comentam a dizer que estiveram anos a preocuparem-se por terem alimentado ou não terem alimentado, que agora perceberam que ou fizeram muito bem ou fizeram mal. E o que eu tento passar é que não se sintam culpadas, porque na altura era aquilo que sabiam fazer. Para a próxima vez será melhor.


Há um vídeo em que fala sobre pessoas que ficam à espera para morrer, que estão com todos os sinais de que o corpo vai desligar-se, mas há qualquer coisa que as prende e, assim que sentem que o problmea está resolvido ou que a pessoa de que queriam despedir-se apareceu, morrem. 

Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer-lhe

Ou que ficaram sozinhas. Há pessoas que gostam de morrer sozinhas. Ou porque não querem que os familiares presenciem aquele momento porque sabem que vai ser de muito sofrimento ou porque não querem aquela pessoa ali. Ou porque querem que seja um momento só delas. Porque é uma coisa tão íntima! Mas há muitas pessoas que querem gente à volta. Tenho histórias de várias pessoas que morreram connosco no St. Christopher’s Hospice, com famílias que enchiam o quarto de quem estava a morrer… E às vezes nós chegávamos lá, a pessoa já tinha morrido, mas ninguém tinha reparado. Porque estavam tão bem, a conversar, a ouvir música, a rezar, a cantar. E ela estava tão tranquila que não perceberam o momento exato. E depois diziam: “Só queria ter estado mais presente.” Mas foi exatamente isso que estiveram a fazer. Outra coisa que eu notei muito é que há familiares que estão lá 24 horas e saem num dia em que precisam mesmo de ir a casa e naquela meia hora é quando a pessoa morre. E ficam mesmo amargurados. O que nós explicamos é que é muito comum isto acontecer. Se calhar, a pessoa estava exatamente à espera que o outro saísse...


Também há aquela ideia das melhoras da morte, para a qual não há propriamente uma explicação científica, mas que é muito comum observar-se, que dá quase a ideia que há um nível de consciência que controla a morte. Isso é assim?

Sim, é assim. Já há alguns estudos sobre isso e muito sobre as experiências de quase morte na neuropsicologia. Cada vez se sabe mais. Talvez 99% das pessoas que lidam com a morte diariamente têm a certeza de que há esse controlo. A mente muitas vezes é mais poderosa do que o corpo. Não tem que ver com crenças religiosas nem culturais. Eu já vi tantas vezes, que é impossível ignorar que existe este padrão.


Vê nisso alguma transcendência?

Claro. Somos mais do que o corpo. Tenho vários exemplos de pessoas que estiveram presentes na morte de alguém que amavam e diziam: “Ainda bem que eu consegui ver, porque acho que consigo aceitar melhor, porque vejo que, de facto, este corpo já não é da pessoa.” É só uma casca.


Acredita na vida depois da morte?

A quantidade de pessoas que estão a morrer, mas ainda estão a comunicar e que veem alguma coisa e tentam agarrar... Veem pessoas que já morreram e dizem: “Está à minha espera.”

Isto acontece tantas vezes. Como é que eu vou ignorar? Por isso, fico com muita curiosidade para descobrir eu própria. Perguntaram uma vez à Lady Gaga o que faria se pudesse fazer alguma coisa sem consequências. E ela disse: “Morrer.” Achei impressionante.

Sei que há pessoas que passam por experiências de quase morte e umas têm experiências incríveis e outras não tão positivas. Mas todas chegam ao mesmo tipo de padrão. A experiência é muito parecida.


Há dois temas de que fala que me parece que estão ligados. Um é a questão clássica dos arrependimentos no momento da morte e outro aquele ritual havaiano Ho'oponopono, que consiste em dizer "sinto muito", "perdoe-me", "obrigada, e "amo-te".

Diz-se que são as cinco tarefas do final da vida, que se calhar derivam dessa prática, que são o “perdoame, eu perdoo-te, obrigado, eu amo-te, adeus”. Muitas vezes, na intervenção que temos com a família, a parte mais importante é dizer-lhes que se despeçam. Nós achamos, às vezes, que quem está a morrer já não está a ouvir, mas sabe-se que a audição é a última a ir. Então, vamos aproveitar isso e dizer aquilo que queríamos dizer

lhe. Mesmo que não haja reação de volta. Dizer: “Nós vamos ficar bem, vamos ter muitas saudades, marcaste a nossa vida, gostamos muito de ti.” Às vezes, é isso de que a pessoa precisa para morrer. Esta permissão. Tenho a história de uma senhora que não morria nem por nada, porque estava preocupada por achar que o filho não ia ter dinheiro, não ia ter trabalho... Então, ele esteve lá a explicar como tinha corrido bem uma entrevista de emprego e, passado um bocadinho, ela morreu. Porque percebeu que o filho estava encaminhado. Estava tranquila. Às vezes, subestimamos este tipo de conversas.


O arrependimento na morte é muito comum, não é?

Também existem pessoas que não se arrependem. São pessoas que fizeram o que queriam ter feito. Não se submeteram às expectativas das outras pessoas.


Esse é o maior arrependimento de todos?

Não ser verdadeiro consigo próprio? Sim. E eu acho que isso vai acontecer cada vez mais. Porque estamos mais expostos à vida das outras pessoas através das redes sociais. Há uma maior comparação, uma maior expectativa sobre como devo parecer. Acho que isso acontece muito com as pessoas mais jovens.


Há alguma idade em que deveríamos começar a preparar-nos para a nossa própria morte?

A partir do momento em que ficamos curiosos em relação à nossa própria morte, acho que é um bom momento. Nunca é cedo demais porque é bom termos essa missão. Ter uma preocupação desmedida com isso é que não.


Preparar no sentido de evitar arrependimentos?

Sim. Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito. Para depois não causar tanto stresse a quem tem de tomar essas decisões.


Como alguém que trabalha numa instituição de topo dos cuidados paliativos, se pudesse com quem governa quais seriam as coisas mais importantes para pedir na área dos cuidados paliativos?

Precisamos que haja mais formação, que haja mais incentivos para que os profissionais que não trabalham em paliativos tenham formação sobre fim de vida. Um dos cursos que eu estou a liderar em Inglaterra é para formar enfermeiros que estão na comunidade, nos cuidados intensivos, nas urgências de especialidades médicas, a cuidar melhor de quem morre. A morte acontece em todo o lado. Muito poucas pessoas morrem com cuidados paliativos. É preciso saber quando parar, quando não pôr sondas, quando dar medicação. Ou seja, perceber como é que o corpo morre, porque isto não é assim muito ensinado nas escolas. Mesmo com os psicólogos o luto não faz parte da formação básica. Quando toda a gente passa por luto. Portanto, formação seria uma prioridade. Formação, acesso, resposta em tempo útil, mas acho que também não haverá isso se não houver profissionais para dar resposta.

Devemos viver a vida de uma maneira que depois não nos cause arrependimentos. Mas também ter as coisas em ordem: o testamento vital, as conversas sobre como gostaríamos que fosse o funeral, o que é que gostaríamos de levar vestido... Ter essas conversas com pessoas de confiança. Deixar isso escrito.


A entrevista pode ler sida na íntegra aqui.

domingo, 3 de maio de 2026

O Verdeiro Zandinga

 Há mais de dez anos que deixei de acompanhar futebol e desporto em geral (excetuando o ténis-de-mesa), contudo, lá vou fazendo as minhas previsões, mormente com os colegas de trabalho. 

Há dois anos fiz a seguinte previsão: "quem vencer a supertaça perderá o campeonato", e acertei. 

No ano passado, no início de mais um campeonato e contra todas as probabilidades e opiniões dos colegas disse e ficou escrito: "O Jorge Costa morreu, então, o Futebol Clube do Porto será campeão".


Se calhar ando-me a perder e deveria virar-me para a adivinhação. Se houver clubes interessados, já sabem, acerto mais do que o Zandinga!







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"O Ministério Público não se conformou com as explicações de Vítor Escária face à origem dos 75 mil euros encontrados no seu gabinete em São Bento - de que os tinha ganho num trabalho de consultadoria em Angola -, e ordenou a recolha de impressões digitais aos envelopes e a uma caixa de champanhe que escondiam as 1994 notas. O resultado foi no mínimo insólito – porque, além do então chefe de gabinete do primeiro-ministro, o ‘CSI’ da Polícia Judiciária (PJ) identificou quatro agentes da PSP que realizaram a busca e manusearam todos aqueles objetos sem luvas.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres

Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.

"Johann Chapoutot, historiador da Sorbonne, vendeu 70.000 exemplares em França de Irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?, sobre os agitados anos que antecederam a nomeação do líder nazi como chanceler do Reich, em janeiro de 1933. 

A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.

Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.

Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?


Os nazis obtiveram 44%, mas em condições não democráticas. A verdadeira evolução interrompeu-se a 6 de novembro de 1932 (33%), as últimas eleições livres, e aí os nazis estavam em queda livre, como noutros escrutínios locais.

E à beira da cisão.

Sim, porque uma grande parte do aparelho, como o número dois, Gregor Strasser, e o presidente do grupo parlamentar, Wilhelm Frick, estavam prestes a sair. Além disso, a hierarquia em torno de Hitler, sobretudo Goebbels, constata um fracasso. Recordo isso e exploro as motivações e comportamentos dos atores sociais que colocaram os nazis no poder precisamente quando atravessavam grandes dificuldades e não havia qualquer lógica democrática.

Menciona o mundo empresarial, os latifundiários, os militares, mas quase não refere o meio cultural, a intelectualidade.

Porque não tem peso. Falo de quem, nesse período, tinha o poder. Recordo que desde março de 1930 não havia democracia parlamentar na Alemanha porque o círculo próximo do presidente Von Hindenburg decidiu abusar da Constituição para confiscar o poder. Esse círculo era composto por militares, pelo seu filho Oskar, também latifundiário, financeiros, seguradoras, banqueiros, industriais e altos funcionários. Foram decisivos na pressão sobre o presidente. Os últimos a alinhar com a solução Hitler foram os grandes exportadores do Ruhr, porque os nazis tinham projetos autárquicos que os inquietavam.

Diz que a missão histórica do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) era captar eleitores tentados pelo marxismo e levá-los para o nacionalismo.

Essa era a missão explícita em 1919, daí o nome absurdo, puro marketing. Havia indicadores de direita (nacional e alemão) e supostos indicadores de esquerda (socialista e trabalhadores). Pura fachada e propaganda, porque a linha nazi era de extrema-direita desde o início. Mas existia essa ideia de evitar que a massa flutuante fosse para a solução comunista e internacionalista. Estamos em pleno contexto revolucionário nessa época. Na realidade, fracassaram. O eleitorado nazi era de direita. O grosso era a pequena classe média, aterrorizada pela ideia comunista e pelo medo de cair na proletarização. Todos os estudos mostram que o voto operário e dos desempregados foi, na sua esmagadora maioria, para social-democratas e comunistas. Os ganhos dos nazis até julho de 1932 vieram dos abstencionistas e do eleitorado de direita.

Compara Macron com Von Papen (vice-chanceler de Hitler, que o promoveu). Porquê? Também dará o poder à extrema-direita?

A estatística fala por si. Havia dois deputados do Reagrupamento Nacional (RN, o partido de Le Pen) em 2017 e agora há 139. Macron deu entrevistas a meios como Valeurs Actuelles, condenado por incitação ao ódio racial. Este homem foi eleito duas vezes contra a extrema-direita. Esse era o seu mandato, o único. Não era destruir o serviço público, nem dar dinheiro ao senhor Arnault (dono do grupo Louis Vuitton). O seu mandato era travar a extrema-direita e fez exatamente o contrário. Efetivamente, tem o mesmo papel que Von Papen na história. Era um liberal autoritário que fez uma política de oferta, a favor do patronato, de destruição do Estado social e desregulação do mercado de trabalho. Essa é a parte liberal. A parte autocrática é quando, em França, não se respeita o resultado das eleições legislativas.

Nos anos trinta havia porosidade entre a direita e a extrema-direita. Vê um paralelismo?

Falo mais do centro extremo. Em França, Os Republicanos não contam para nada e estão condenados a desaparecer. A verdadeira nova direita é o centro extremo macronista. A extrema-direita e o extremo-centro têm o mesmo inimigo: a esquerda - e não apenas a extrema-esquerda, mas também os social-democratas e os sindicalistas cristãos. Têm a mesma base eleitoral, a pequena burguesia, e os mesmos mecenas.

Extremo-Centro?

Como historiador, levo as palavras a sério. As pessoas em torno de Von Papen apresentavam-se como centristas e moderadas. O mesmo acontece hoje em torno de Macron. Tomo esse conceito e acrescento-lhe “extremo” porque esses supostos centristas são, na realidade, extremistas, como estudou o professor Pierre Serna. Quando se trata de defender os seus interesses e o seu poder, vão até ao fim. Não respeitam os resultados eleitorais, disparam balas de borracha sobre a multidão. Ideologicamente, a extrema-direita e o extremo-centro têm a mesma cultura política. São darwinistas sociais, nacionalistas, conservadores. Em suma, têm tudo para se entender e, de facto, entendem-se e aliam-se. Mas há sempre essa ambiguidade e hipocrisia de fazer concessões constantes à direita e à extrema-direita e, quando há eleições, dizer que são o “muro”. É uma perversidade monstruosa.

La Vanguardia / 26 de Abril 2026

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Colecionador de Citações II - As Maias e os Cravos

 


Frase proferida pelo meu colega de trabalho, que tem 22 anos e a quem emprestei o livro "Quando Portugal Ardeu" e que apesar de não ter hábitos de leitura, leu o livro em dois ou três meses. 

sábado, 18 de abril de 2026

Um Terço é Para Morrer - O Sonho de Passos Coelho

Encontrei este texto de José Vítor Malheiros publicado no Público em 2012 nos rascunhos do e-mail.  E ali esteve estes últimos 13 anos, para o decidir partilhar agora mesmo por ser tão atual:


"Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. 

Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventadas quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.


Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto, são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca-vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar -, mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazerem algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto), votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portarmo-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite."»

José Vítor Malheiros / Público

Irão Ganhou a Guerra do Humor

 


"Poder falso, músculos falsos, dentes falsos, latido falso, o melhor que já fez foram duas pontes e um parque na cidade. Agora senta-te no teu trono dourado e sente vergonha, brincaste com o fogo, agora observa a tua própria chama”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (2)


Ao menos CH fazem. Além de violarem crianças, roubam o Estado. 

# Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (1)

Colecionador de Citações - As Crianças e a Morte

"A morte é o fim da vida e as crianças não devem estar sujeitas a mentiras quanto a isso. Aquela coisa "foi fazer uma viagem e tal". Não, as pessoas morreram no sentido em que desapareceram e não vão voltar".

Se nós mentimos à criança e ela apercebe-se disso, é muito difícil depois esperarmos que, quando adolescente, ela tenha confiança em nós. Porque ela já sabe que nós somos capazes de mentir.

 (Júlio Machado Vaz)


terça-feira, 7 de abril de 2026

Inteligência Artificial: Um Futuro que Já Aconteceu

A propósito do livro "O deserto de nós mesmos", o El País falou com o autor, Éric Sadin, um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia e ele pinta-nos o cenário de como será o mundo com a "inteligência artificial".


 Éric Sadin é um dos 10 principais pensadores tecnológicos do mundo. A sua obra mais recente é O Deserto de Nós Mesmos, uma análise sombria do futuro que estamos a construir. Um lugar que já existiu previamente em dados e no esquema de probabilidades que o desenhou. Um lugar que cheira a morte e a passado. E tudo começou a 30 de novembro de 2022, com o advento do ChatGPT. “Nesse dia não dormi a noite inteira. E eu costumo dormir como um bebé”, explica Sadin, enquanto coloca o croissant sobre a mesa. O livro, um best-seller em França, começa com uma citação de Louis-Ferdinand Céline: “Posso dizer que vi a catástrofe a chegar”.

Então o apocalipse começou a 30 de novembro de 2022?

Normalmente durmo como um bebé, mas nesse dia não preguei olho. Os dias que se seguiram foram piores. Toda aquela gente a dizer que era fantástico. Eu não percebia como ninguém via a catástrofe civilizacional que aí vinha. É estranho observar um fenómeno como o da IA generativa revestido dessa pátina de modernidade e praticidade sem que se analisem as consequências imediatas, de extrema gravidade. E quanto mais tempo passar, mais grave será.

 Sustenta que devia ter sido proibida.

Desde o início. Mas aconteceu exatamente o contrário. Sam Altman, cofundador da OpenAI, fez uma digressão de conferências e foi recebido pelos chefes de Estado com passadeira vermelha. A resposta, também a de França com a Mistral, foi inscrevermo-nos nesta corrida rumo ao deserto de nós mesmos. Há muitas palavras vazias e absurdas que se dizem sobre a IA: “Vamos viver num mundo melhor”. “Tudo será mais fácil…”. Com base em quê? Eu analiso a partir de princípios como a sociabilidade, a dignidade, a integridade humana, a liberdade, a expressão das nossas faculdades… e tudo isso será destruído. Se tivermos em conta as consequências atuais e as que se anunciam, trata-se de algo de extrema gravidade.

O Governo francês debate esta semana a proibição das redes sociais a menores de 15 anos. Dá a sensação de que chegamos sempre tarde a tudo.

Macron quer regulá-las agora, mas até este momento deu a estas plataformas todas as facilidades. Começaram em 2010 e, 15 anos depois, admitimos a catástrofe. A sociedade, em questões digitais, acorda sempre demasiado tarde.

Já perdemos algumas gerações de jovens?

Também muitos adultos. Psiquiatrizaram a sociedade. E com a IA generativa acontecerá o mesmo. Já estamos a ver as consequências. A perda de empregos, o isolamento social, a imagem. Mas também a dependência emocional dos adolescentes que falam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, transformada em coach psicológico. E isto é só o princípio.

Falamos com a IA, pedimos conselhos, conversa emocional. Mas a linguagem, embora pareça a mesma, é outra.

São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de bibliotecas, artigos de jornais e dados da internet para revelar leis semânticas. São percursos formais feitos de estatística, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque funciona sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que, depois de determinadas palavras, vêm outras. Na IA acontece sempre tudo o que já aconteceu. Responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu agora não sei que palavra vou usar a seguir à que estou a dizer neste momento, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento, é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.

Isso poderia definir a liberdade humana.

Sem dúvida. Por um lado, há a linguagem morta, necrosada, matematizada e nascida do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E esta mudança que estamos a viver modificará também as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema omnisciente e sabichão. Nestas últimas eleições autárquicas em França, descobriram que havia candidatos e autarcas que escreviam os seus discursos com o ChatGPT. Tem noção da gravidade disso?

A sensação é de que a cultura que a IA vai gerar será como a comida de plástico, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para classes desfavorecidas que não podem pagar o autêntico, o verdadeiro. Uma distinção social e económica. A realidade, com os seus erros, para os ricos; a IA, para os pobres.

Tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e os que têm vontade de usar as suas faculdades. Essas pessoas também podem existir nas classes menos favorecidas. E haverá ricos que optarão por isso por preguiça, desleixo. Mas não será fácil distinguir os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmática. Cada um produzirá imagens que corresponderão ao seu ponto de vista sobre as coisas.


O impacto será enorme no mundo audiovisual e na cultura.

Sem dúvida. Vai arrasar as séries e os filmes. Haverá atores feitos por IA, cenários, luzes, maquilhagem, guarda-roupa… Vamos para uma enorme desaparecimento de profissões: montador, maquilhador, diretor de produção. Dirigimo-nos para a autocriação. Produtos que nos contêm a nós mesmos. A selfmusic, ou o selfbook. Em vez de descobrirmos, construiremos a nossa pequena ficção. E isso é um furacão que vai embater no mundo da cultura.

Vão destruir-se empregos, mas talvez se crie uma nova indústria. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.

A sociedade foi fundada sobre o conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem emprego, mas a médio ou longo prazo conduzem a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o nascimento do setor terciário nos anos 70 e 80. Trabalhos muito duros passaram a ser feitos pelas máquinas. Hoje, quase 80% do emprego vem do setor terciário, que se caracteriza por mobilizar faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que o senhor ama e que lhe dá reconhecimento social.

Acho que está a confundir a época. Ou a profissão.

Vá lá, o senhor assina, faz coisas pessoais.

Se há uma tecnologia que faz muito melhor trabalhos mecânicos ou rotineiros do que os humanos, porque haveríamos de nos opor?

Não podemos nem proibir nem regular. Mas podemos defender a grandeza dos nossos trabalhos. Eu sei que conta apenas um único critério: o ser humano como variável contabilística. Os sistemas farão o trabalho de forma mais fiável, mais rápida e mais barata. Mas há saberes insubstituíveis. O problema é que caminhamos para um mundo em que os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano depois de lançar o ChatGPT, disse diante daqueles imbecis felizes que o aplaudiam: “Calma, isto não é nada comparado com o que aí vem”. Ou seja, os superassistentes. E isto deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos da sua própria organização.

Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Acha que se vão salvar deste furacão? O que podem fazer?

O futuro devia ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se quer ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas deprimem-se, enlouquecem. Nunca houve uma sensação coletiva de saturação tão generalizada. E tanta vontade de fazer algo diferente. Depois da covid, 20 milhões de norte-americanos deixaram o emprego. Mas é difícil fazer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas estas start-ups inúteis que toda a gente quer mercantilizar, devia apoiar coletivos ou estruturas que não estejam submetidos à automatização. O futuro devia ser feito de pequenos coletivos.

O que deveriam aprender os nossos filhos para escapar a essa morte em vida?

Artesanato. Veja: na Revolução Industrial já existia essa dicotomia. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação do aparelho de produção, mas isso aumentava os desastres ecológicos, o trabalho em cadeia. Morris, pelo contrário, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso podia fazer-se no artesanato, na excelência, na obra assinada, única.


Não parece haver muita esperança.

A esperança são as crianças da idade das suas filhas, que quando crescerem escolherão outra opção, como acontecia em Matrix. Esse momento chegará. Chegará em algumas crianças puras. Mas já perdemos muitas. Miúdos que passam o dia inteiro no TikTok e já nem sabem escrever. São robôs que apenas respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.

Esta criatura pode tornar-se independente e submeter-nos, como o Skynet em Terminator?

Isso é uma parvoíce. Um delírio de ficção científica infantil. Uma visão antropomórfica de adolescente. Mas aquilo que lhe estou a contar é muito pior. A renúncia às nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados a todas as escalas, e todas fazem recuar o ser humano no exercício daquilo que o engrandece. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que está a extinguir-se. E garanto-lhe que isso é muito pior do que o Skynet. Mas sabe quem pode evitá-lo?

Pelo seu olhar, começo a imaginá-lo.

O senhor. Ou seja, os pais! O senhor não pode usar o ChatGPT para mandar e-mails nem nada parecido. Como é que depois vai pedir aos seus filhos que aprendam a escrever? Salvar o mundo hoje depende da consciência dos pais.

O senhor não usa nenhuma IA generativa?

Essas máquinas de morte? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que felicidade. E vejo gente jovem que começa a distinguir-se, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis quotidianos e escravos da sua própria preguiça. E esses verão a sua singularidade destruída em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou a falar muito. Quanto espaço é que lhe vão dar?

Não se preocupe, resumimos tudo com o ChatGPT.

(Entrevista de Daniel Verdú / El País)

Idade de Cristo Depois


A última vez que tinha cortado o cabelo numa cadeira de barbeiro tinha sido há trinta e três anos, precisamente, a idade atribuída a Jesus Cristo. 

De repente, e num leve abrir e fechar de olhos, saio do antigo barbeiro na rua do Heroísmo da cidade do Porto com o cabelo rapado a pente 2 dos lados e mais volumoso em cima, e entro de cabelos grisalhos, bastante compridos mas finos num cabeleireiro feminino da Boavista.

Uma senhora de cabelos loiros, curtos aplicava o que parecia ser uma pasta numas pratas nos cabelos volumosos de uma mulher brasileira e passado uns minutos chama-me. "Respira fundo, é como se estivesses na cadeira do dentista, custa o bocado, mas depois passa", pensei. 

Ela molha-me o cabelo, passa os dedos pelos cabelos rarefeitos que evidenciam a moleirinha e massaja. E depois penteia. E pergunta quanto é para cortar. 

E está feito. E paguei o mesmo conto de reis de há trinta e três anos para ficar com muito mais volume e uma sensação de que me foi amputada parte de mim. 

Assim o Teerão - Provavelmente o Meu Melhor Trocadilho de Sempre (2)

Na Praça Engelab, enquanto os iranianos fazem a sua vida normal, lê-se num gigante cartaz: 

"Assim o quiseram, assim o Teerão"! 


Na verdade está escrito: "O Estreito de Ormuz permanecerá fechado; todo o Golfo Pérsico é nosso campo de caça", mas não tem a mesma graça!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Conversas Improváveis (89) - O Sítio Mais Perigoso


Por deformação profissional ela fala-me muitas vezes de coisas da justiça. 
E, nem de propósito, perguntava-me por estes dias:
- "Sabes qual é o sítio em Portugal mais perigoso?
.
.
.
É a casa onde vivemos".

terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor