domingo, 3 de maio de 2026

O Verdeiro Zandinga

 Há mais de dez anos que deixei de acompanhar futebol e desporto em geral (excetuando o ténis-de-mesa), contudo, lá vou fazendo as minhas previsões, mormente com os colegas de trabalho. 

Há dois anos fiz a seguinte previsão: "quem vencer a supertaça perderá o campeonato", e acertei. 

No ano passado, no início de mais um campeonato e contra todas as probabilidades e opiniões dos colegas disse e ficou escrito: "O Jorge Costa morreu, então, o Futebol Clube do Porto será campeão".


Se calhar ando-me a perder e deveria virar-me para a adivinhação. Se houver clubes interessados, já sabem, acerto mais do que o Zandinga!







Publicidade da IKEA à Kallax Revista e Atualizada


"O Ministério Público não se conformou com as explicações de Vítor Escária face à origem dos 75 mil euros encontrados no seu gabinete em São Bento - de que os tinha ganho num trabalho de consultadoria em Angola -, e ordenou a recolha de impressões digitais aos envelopes e a uma caixa de champanhe que escondiam as 1994 notas. O resultado foi no mínimo insólito – porque, além do então chefe de gabinete do primeiro-ministro, o ‘CSI’ da Polícia Judiciária (PJ) identificou quatro agentes da PSP que realizaram a busca e manusearam todos aqueles objetos sem luvas.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres

Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.

"Johann Chapoutot, historiador da Sorbonne, vendeu 70.000 exemplares em França de Irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?, sobre os agitados anos que antecederam a nomeação do líder nazi como chanceler do Reich, em janeiro de 1933. 

A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.

Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.

Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?


Os nazis obtiveram 44%, mas em condições não democráticas. A verdadeira evolução interrompeu-se a 6 de novembro de 1932 (33%), as últimas eleições livres, e aí os nazis estavam em queda livre, como noutros escrutínios locais.

E à beira da cisão.

Sim, porque uma grande parte do aparelho, como o número dois, Gregor Strasser, e o presidente do grupo parlamentar, Wilhelm Frick, estavam prestes a sair. Além disso, a hierarquia em torno de Hitler, sobretudo Goebbels, constata um fracasso. Recordo isso e exploro as motivações e comportamentos dos atores sociais que colocaram os nazis no poder precisamente quando atravessavam grandes dificuldades e não havia qualquer lógica democrática.

Menciona o mundo empresarial, os latifundiários, os militares, mas quase não refere o meio cultural, a intelectualidade.

Porque não tem peso. Falo de quem, nesse período, tinha o poder. Recordo que desde março de 1930 não havia democracia parlamentar na Alemanha porque o círculo próximo do presidente Von Hindenburg decidiu abusar da Constituição para confiscar o poder. Esse círculo era composto por militares, pelo seu filho Oskar, também latifundiário, financeiros, seguradoras, banqueiros, industriais e altos funcionários. Foram decisivos na pressão sobre o presidente. Os últimos a alinhar com a solução Hitler foram os grandes exportadores do Ruhr, porque os nazis tinham projetos autárquicos que os inquietavam.

Diz que a missão histórica do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) era captar eleitores tentados pelo marxismo e levá-los para o nacionalismo.

Essa era a missão explícita em 1919, daí o nome absurdo, puro marketing. Havia indicadores de direita (nacional e alemão) e supostos indicadores de esquerda (socialista e trabalhadores). Pura fachada e propaganda, porque a linha nazi era de extrema-direita desde o início. Mas existia essa ideia de evitar que a massa flutuante fosse para a solução comunista e internacionalista. Estamos em pleno contexto revolucionário nessa época. Na realidade, fracassaram. O eleitorado nazi era de direita. O grosso era a pequena classe média, aterrorizada pela ideia comunista e pelo medo de cair na proletarização. Todos os estudos mostram que o voto operário e dos desempregados foi, na sua esmagadora maioria, para social-democratas e comunistas. Os ganhos dos nazis até julho de 1932 vieram dos abstencionistas e do eleitorado de direita.

Compara Macron com Von Papen (vice-chanceler de Hitler, que o promoveu). Porquê? Também dará o poder à extrema-direita?

A estatística fala por si. Havia dois deputados do Reagrupamento Nacional (RN, o partido de Le Pen) em 2017 e agora há 139. Macron deu entrevistas a meios como Valeurs Actuelles, condenado por incitação ao ódio racial. Este homem foi eleito duas vezes contra a extrema-direita. Esse era o seu mandato, o único. Não era destruir o serviço público, nem dar dinheiro ao senhor Arnault (dono do grupo Louis Vuitton). O seu mandato era travar a extrema-direita e fez exatamente o contrário. Efetivamente, tem o mesmo papel que Von Papen na história. Era um liberal autoritário que fez uma política de oferta, a favor do patronato, de destruição do Estado social e desregulação do mercado de trabalho. Essa é a parte liberal. A parte autocrática é quando, em França, não se respeita o resultado das eleições legislativas.

Nos anos trinta havia porosidade entre a direita e a extrema-direita. Vê um paralelismo?

Falo mais do centro extremo. Em França, Os Republicanos não contam para nada e estão condenados a desaparecer. A verdadeira nova direita é o centro extremo macronista. A extrema-direita e o extremo-centro têm o mesmo inimigo: a esquerda - e não apenas a extrema-esquerda, mas também os social-democratas e os sindicalistas cristãos. Têm a mesma base eleitoral, a pequena burguesia, e os mesmos mecenas.

Extremo-Centro?

Como historiador, levo as palavras a sério. As pessoas em torno de Von Papen apresentavam-se como centristas e moderadas. O mesmo acontece hoje em torno de Macron. Tomo esse conceito e acrescento-lhe “extremo” porque esses supostos centristas são, na realidade, extremistas, como estudou o professor Pierre Serna. Quando se trata de defender os seus interesses e o seu poder, vão até ao fim. Não respeitam os resultados eleitorais, disparam balas de borracha sobre a multidão. Ideologicamente, a extrema-direita e o extremo-centro têm a mesma cultura política. São darwinistas sociais, nacionalistas, conservadores. Em suma, têm tudo para se entender e, de facto, entendem-se e aliam-se. Mas há sempre essa ambiguidade e hipocrisia de fazer concessões constantes à direita e à extrema-direita e, quando há eleições, dizer que são o “muro”. É uma perversidade monstruosa.

La Vanguardia / 26 de Abril 2026

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Colecionador de Citações II - As Maias e os Cravos

 


Frase proferida pelo meu colega de trabalho, que tem 22 anos e a quem emprestei o livro "Quando Portugal Ardeu" e que apesar de não ter hábitos de leitura, leu o livro em dois ou três meses. 

sábado, 18 de abril de 2026

Um Terço é Para Morrer - O Sonho de Passos Coelho

Encontrei este texto de José Vítor Malheiros publicado no Público em 2012 nos rascunhos do e-mail.  E ali esteve estes últimos 13 anos, para o decidir partilhar agora mesmo por ser tão atual:


"Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. 

Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventadas quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.


Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto, são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca-vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar -, mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazerem algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto), votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portarmo-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite."»

José Vítor Malheiros / Público

Irão Ganhou a Guerra do Humor

 


"Poder falso, músculos falsos, dentes falsos, latido falso, o melhor que já fez foram duas pontes e um parque na cidade. Agora senta-te no teu trono dourado e sente vergonha, brincaste com o fogo, agora observa a tua própria chama”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (2)


Ao menos CH fazem. Além de violarem crianças, roubam o Estado. 

# Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (1)

Colecionador de Citações - As Crianças e a Morte

"A morte é o fim da vida e as crianças não devem estar sujeitas a mentiras quanto a isso. Aquela coisa "foi fazer uma viagem e tal". Não, as pessoas morreram no sentido em que desapareceram e não vão voltar".

Se nós mentimos à criança e ela apercebe-se disso, é muito difícil depois esperarmos que, quando adolescente, ela tenha confiança em nós. Porque ela já sabe que nós somos capazes de mentir.

 (Júlio Machado Vaz)


terça-feira, 7 de abril de 2026

Inteligência Artificial: Um Futuro que Já Aconteceu

A propósito do livro "O deserto de nós mesmos", o El País falou com o autor, Éric Sadin, um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia e ele pinta-nos o cenário de como será o mundo com a "inteligência artificial".


 Éric Sadin é um dos 10 principais pensadores tecnológicos do mundo. A sua obra mais recente é O Deserto de Nós Mesmos, uma análise sombria do futuro que estamos a construir. Um lugar que já existiu previamente em dados e no esquema de probabilidades que o desenhou. Um lugar que cheira a morte e a passado. E tudo começou a 30 de novembro de 2022, com o advento do ChatGPT. “Nesse dia não dormi a noite inteira. E eu costumo dormir como um bebé”, explica Sadin, enquanto coloca o croissant sobre a mesa. O livro, um best-seller em França, começa com uma citação de Louis-Ferdinand Céline: “Posso dizer que vi a catástrofe a chegar”.

Então o apocalipse começou a 30 de novembro de 2022?

Normalmente durmo como um bebé, mas nesse dia não preguei olho. Os dias que se seguiram foram piores. Toda aquela gente a dizer que era fantástico. Eu não percebia como ninguém via a catástrofe civilizacional que aí vinha. É estranho observar um fenómeno como o da IA generativa revestido dessa pátina de modernidade e praticidade sem que se analisem as consequências imediatas, de extrema gravidade. E quanto mais tempo passar, mais grave será.

 Sustenta que devia ter sido proibida.

Desde o início. Mas aconteceu exatamente o contrário. Sam Altman, cofundador da OpenAI, fez uma digressão de conferências e foi recebido pelos chefes de Estado com passadeira vermelha. A resposta, também a de França com a Mistral, foi inscrevermo-nos nesta corrida rumo ao deserto de nós mesmos. Há muitas palavras vazias e absurdas que se dizem sobre a IA: “Vamos viver num mundo melhor”. “Tudo será mais fácil…”. Com base em quê? Eu analiso a partir de princípios como a sociabilidade, a dignidade, a integridade humana, a liberdade, a expressão das nossas faculdades… e tudo isso será destruído. Se tivermos em conta as consequências atuais e as que se anunciam, trata-se de algo de extrema gravidade.

O Governo francês debate esta semana a proibição das redes sociais a menores de 15 anos. Dá a sensação de que chegamos sempre tarde a tudo.

Macron quer regulá-las agora, mas até este momento deu a estas plataformas todas as facilidades. Começaram em 2010 e, 15 anos depois, admitimos a catástrofe. A sociedade, em questões digitais, acorda sempre demasiado tarde.

Já perdemos algumas gerações de jovens?

Também muitos adultos. Psiquiatrizaram a sociedade. E com a IA generativa acontecerá o mesmo. Já estamos a ver as consequências. A perda de empregos, o isolamento social, a imagem. Mas também a dependência emocional dos adolescentes que falam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, transformada em coach psicológico. E isto é só o princípio.

Falamos com a IA, pedimos conselhos, conversa emocional. Mas a linguagem, embora pareça a mesma, é outra.

São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de bibliotecas, artigos de jornais e dados da internet para revelar leis semânticas. São percursos formais feitos de estatística, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque funciona sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que, depois de determinadas palavras, vêm outras. Na IA acontece sempre tudo o que já aconteceu. Responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu agora não sei que palavra vou usar a seguir à que estou a dizer neste momento, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento, é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.

Isso poderia definir a liberdade humana.

Sem dúvida. Por um lado, há a linguagem morta, necrosada, matematizada e nascida do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E esta mudança que estamos a viver modificará também as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema omnisciente e sabichão. Nestas últimas eleições autárquicas em França, descobriram que havia candidatos e autarcas que escreviam os seus discursos com o ChatGPT. Tem noção da gravidade disso?

A sensação é de que a cultura que a IA vai gerar será como a comida de plástico, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para classes desfavorecidas que não podem pagar o autêntico, o verdadeiro. Uma distinção social e económica. A realidade, com os seus erros, para os ricos; a IA, para os pobres.

Tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e os que têm vontade de usar as suas faculdades. Essas pessoas também podem existir nas classes menos favorecidas. E haverá ricos que optarão por isso por preguiça, desleixo. Mas não será fácil distinguir os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmática. Cada um produzirá imagens que corresponderão ao seu ponto de vista sobre as coisas.


O impacto será enorme no mundo audiovisual e na cultura.

Sem dúvida. Vai arrasar as séries e os filmes. Haverá atores feitos por IA, cenários, luzes, maquilhagem, guarda-roupa… Vamos para uma enorme desaparecimento de profissões: montador, maquilhador, diretor de produção. Dirigimo-nos para a autocriação. Produtos que nos contêm a nós mesmos. A selfmusic, ou o selfbook. Em vez de descobrirmos, construiremos a nossa pequena ficção. E isso é um furacão que vai embater no mundo da cultura.

Vão destruir-se empregos, mas talvez se crie uma nova indústria. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.

A sociedade foi fundada sobre o conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem emprego, mas a médio ou longo prazo conduzem a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o nascimento do setor terciário nos anos 70 e 80. Trabalhos muito duros passaram a ser feitos pelas máquinas. Hoje, quase 80% do emprego vem do setor terciário, que se caracteriza por mobilizar faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que o senhor ama e que lhe dá reconhecimento social.

Acho que está a confundir a época. Ou a profissão.

Vá lá, o senhor assina, faz coisas pessoais.

Se há uma tecnologia que faz muito melhor trabalhos mecânicos ou rotineiros do que os humanos, porque haveríamos de nos opor?

Não podemos nem proibir nem regular. Mas podemos defender a grandeza dos nossos trabalhos. Eu sei que conta apenas um único critério: o ser humano como variável contabilística. Os sistemas farão o trabalho de forma mais fiável, mais rápida e mais barata. Mas há saberes insubstituíveis. O problema é que caminhamos para um mundo em que os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano depois de lançar o ChatGPT, disse diante daqueles imbecis felizes que o aplaudiam: “Calma, isto não é nada comparado com o que aí vem”. Ou seja, os superassistentes. E isto deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos da sua própria organização.

Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Acha que se vão salvar deste furacão? O que podem fazer?

O futuro devia ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se quer ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas deprimem-se, enlouquecem. Nunca houve uma sensação coletiva de saturação tão generalizada. E tanta vontade de fazer algo diferente. Depois da covid, 20 milhões de norte-americanos deixaram o emprego. Mas é difícil fazer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas estas start-ups inúteis que toda a gente quer mercantilizar, devia apoiar coletivos ou estruturas que não estejam submetidos à automatização. O futuro devia ser feito de pequenos coletivos.

O que deveriam aprender os nossos filhos para escapar a essa morte em vida?

Artesanato. Veja: na Revolução Industrial já existia essa dicotomia. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação do aparelho de produção, mas isso aumentava os desastres ecológicos, o trabalho em cadeia. Morris, pelo contrário, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso podia fazer-se no artesanato, na excelência, na obra assinada, única.


Não parece haver muita esperança.

A esperança são as crianças da idade das suas filhas, que quando crescerem escolherão outra opção, como acontecia em Matrix. Esse momento chegará. Chegará em algumas crianças puras. Mas já perdemos muitas. Miúdos que passam o dia inteiro no TikTok e já nem sabem escrever. São robôs que apenas respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.

Esta criatura pode tornar-se independente e submeter-nos, como o Skynet em Terminator?

Isso é uma parvoíce. Um delírio de ficção científica infantil. Uma visão antropomórfica de adolescente. Mas aquilo que lhe estou a contar é muito pior. A renúncia às nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados a todas as escalas, e todas fazem recuar o ser humano no exercício daquilo que o engrandece. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que está a extinguir-se. E garanto-lhe que isso é muito pior do que o Skynet. Mas sabe quem pode evitá-lo?

Pelo seu olhar, começo a imaginá-lo.

O senhor. Ou seja, os pais! O senhor não pode usar o ChatGPT para mandar e-mails nem nada parecido. Como é que depois vai pedir aos seus filhos que aprendam a escrever? Salvar o mundo hoje depende da consciência dos pais.

O senhor não usa nenhuma IA generativa?

Essas máquinas de morte? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que felicidade. E vejo gente jovem que começa a distinguir-se, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis quotidianos e escravos da sua própria preguiça. E esses verão a sua singularidade destruída em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou a falar muito. Quanto espaço é que lhe vão dar?

Não se preocupe, resumimos tudo com o ChatGPT.

(Entrevista de Daniel Verdú / El País)

Idade de Cristo Depois


A última vez que tinha cortado o cabelo numa cadeira de barbeiro tinha sido há trinta e três anos, precisamente, a idade atribuída a Jesus Cristo. 

De repente, e num leve abrir e fechar de olhos, saio do antigo barbeiro na rua do Heroísmo da cidade do Porto com o cabelo rapado a pente 2 dos lados e mais volumoso em cima, e entro de cabelos grisalhos, bastante compridos mas finos num cabeleireiro feminino da Boavista.

Uma senhora de cabelos loiros, curtos aplicava o que parecia ser uma pasta numas pratas nos cabelos volumosos de uma mulher brasileira e passado uns minutos chama-me. "Respira fundo, é como se estivesses na cadeira do dentista, custa o bocado, mas depois passa", pensei. 

Ela molha-me o cabelo, passa os dedos pelos cabelos rarefeitos que evidenciam a moleirinha e massaja. E depois penteia. E pergunta quanto é para cortar. 

E está feito. E paguei o mesmo conto de reis de há trinta e três anos para ficar com muito mais volume e uma sensação de que me foi amputada parte de mim. 

Assim o Teerão - Provavelmente o Meu Melhor Trocadilho de Sempre (2)

Na Praça Engelab, enquanto os iranianos fazem a sua vida normal, lê-se num gigante cartaz: 

"Assim o quiseram, assim o Teerão"! 


Na verdade está escrito: "O Estreito de Ormuz permanecerá fechado; todo o Golfo Pérsico é nosso campo de caça", mas não tem a mesma graça!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Conversas Improváveis (89) - O Sítio Mais Perigoso


Por deformação profissional ela fala-me muitas vezes de coisas da justiça. 
E, nem de propósito, perguntava-me por estes dias:
- "Sabes qual é o sítio em Portugal mais perigoso?
.
.
.
É a casa onde vivemos".

terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

segunda-feira, 30 de março de 2026

Ser Português - Coisas que Escrevia no 12º nos Anos Noventa

Continuando a arrumar tralhas e a separar montes de coisas para o ecoponto azul, deparo-me com este texto, talvez, digo eu, um teste qualquer do 12ºano. Não tenho o enunciado, não faço ideia do que se pretendia, mas o texto tem o título "Ser português" e foi classificado como 50/60 (numa escala de 20 daria 17 valores)

A trinta anos de distância, noto no jovem Königvs, sem grande surpresa, uma grande revolta e crítica social muito acirrada. Vamos ao texto, tal como o escrevi na altura:


Ser Português 

Estando a Europa a atravessar um período em transformação, visando interesses comuns, quer de ordem económica, militar e cultural, interessa saber até que ponto este tal federalismo irá modificar a nossa cultura, porque quer se queira ou não, ser europeu na Inglaterra não é o mesmo que ser português na Europa. Qual será então a cultura dos europeus que vivem em Portugal denominados por portugueses?

Bom, sem querer generalizar, até porque nada é generalizável, o português tem um metro e setenta, cabelo preto, olhos castanhos, e é macho ou não fosse latino e a prova disso é o seu bigode assovelado.

A mulher do português, a portuguesa, com menos de dez centímetros, é simpática e formosuras e gosta de ver telenovelas brasileiras na televisão. O português acompanha a telenovela com a esposa mas perante os amigos diz que não vê, porque não é dado a costumes efeminados, prefere, sem dúvida, o futebol. Por vezes desloca-se aos estádios para acompanhar o seu clube, não para o incentivar como se faz no resto da Europa, mas para elogiar a mãe do árbitro e lançar gritos e apupos à equipa adversária.

O português é radical, gosta de fazer rali nas estradas com o seu carrinho de choque. E tão bom condutor que ele é, a culpa é dos outros porque em Portugal é assim, os outros é que são maus condutores.

E por falar nos outros, o português não se preocupa muito com os outros, pensa mas mais em si, já que em greve e manifestações os outros que as façam que ele depois lá está a usufruir os dividendos sem ter feito nada para o merecer.

Enquanto em Espanha e França camionistas conseguem reivindicar os seus direitos, paralisando países enormes comparativamente com o nosso. Enquanto cá milhares de utentes de uma ponte pagam cobardemente uma portagem. contra o esforço de muito poucos que legitimamente mostram o seu direito à indignação.

Cá a população manifesta-se a favor de um polícia quando este mata um jovem presumível assaltante a três metros de distância. Mas nestes casos é normal, porque sempre que polícia adverte alguém disparando para o ar, acaba sempre por matar algum ser vivo.

Portugal é um dos países da Europa em que os ordenados são mais baixos, contudo o nosso país tem maior número de telemóveis per capita. Isto mostra bem a filosofia do português: o supérfluo é importante, o necessário fica para depois, ou ainda "passo fome mas não perco a pose".

Em termos de cultura o português é um expert, é mais ou menos assim pró big popular pimba. Os Lusíadas têm quatro cantos e o Che Guevara deve ser o próximo reforço do Benfica.

Gosta de ler, como lê o português, lê “A Bola” e a "Caras", tudo o que tenha a ver com futebol ou com intrigas de figuras públicas e políticas. Política, ora aí está uma coisa de que gosta o português, hoje vota num, amanhã vota noutro, ou então como a minha vizinha que votava no Cavaco porque ele é um homem muito bonito. Agora deve votar nos sinais do Guterres, nos olhos do Marcelo ou nos cabelos grisalhos do Carvalhas.

O que o português não entende muito bem, é isso da esquerda e da direita, já que, como é ambidextro chuta com o pé que está mais à mão.

Anda uma geração a educar outra para depois a apelidar de “rasca”. É muito fácil falar do passado, pois não é preciso alterá-lo. E que seja esta nova geração a dar esperança para que, de futuro um jovem tenha orgulho na sua pátria, no fundo em ser português.

sábado, 28 de março de 2026

Em 1977 1 Litro de Gasolina Custava 12 Cêntimos - Hoje é Mais Caro ou Mais Barato?

 O meu pai morreu há 33 anos e, como seu único herdeiro, ainda guardo todos os seus pertences. E acho que dou mais valor a peças que foram feitas pelas suas mãos, apontamentos feitos com a sua caligrafia e até ferramenta que usou, do que outras coisas. 

Num pequeno caderninho, estilo bloco de notas, com uma mulher com um ramos de rosas vermelhas nos braços e em que está escrito "Casa 1976", e, no verso "Livro de Apontamentos da Construção da Casa - Início 1977", tem toda uma série de apontamentos de gastos e dá para saber quanto custavam as coisas na altura. 

Estávamos nos anos setenta, bem longe da vertigem dos empréstimos bancários, e, tal como os meus pais, a maioria dos portugueses era aforradora e poupada e para isso convinha perceber para onde estava a ir o dinheiro. 

Hoje em dia fazem-se cursos on-line com especialistas em finanças pessoais, influencers que falam de 'literacia financeira' e explicam onde melhor aplicar o dinheiro, e o atual governo que nos governa até retirou a educação sexual das aulas de cidadania (porque no entender deles é muito melhor aprender na pornografia), e meteram no currículo uma forte componente económica para aprender de pequenino a ser bom contribuinte. 

Contudo, nos anos setenta, qualquer pessoa, mesmo sem saber ler nem escrever, sabia empiricamente mais de finanças pessoais do que hoje em dia os jovens que saem da universidade. Porque onde há muito pouco é preciso arte e engenho para saber poupar muito.

Mas vamos ver alguns preços de diferentes produtos anotados no bloco de notas do meu pai: 

Então, em 1977:

- Um saco de cimento custava 65 cêntimos

- Um garrafão de vinho = 49 cêntimos

- Uma carga de areia = 3€

- 1Kg de bacalhau = 47 cêntimos

- 1Kg feijão = 15 cêntimos

E 1 Litro de gasolina custava 12 cêntimos

Ena!, naquela altura 1L de gasolina só custava 12 cêntimos! Mas isso é mais barato ou mais caro do que agora, visto que, com as sucessivas guerras os combustíveis estão pela hora da morte?

Contas simples de merceeiro:

1977: 

1L gasolina 0,12€ 
Salário mínimo 22,45€ 

É preciso trabalhar 55 minutos para comprar 1L de gasolina 

2026: 

1L gasolina custa 1,95€ 
Salário mínimo 920€ 

É preciso trabalhar 22 minutos para comprar 1L de gasolina 

Conclusão: em 1977 a taxa de esforço era mais do dobro do que agora para comprar 1L de gasolina

"No Final do Dia" Morre a Língua Portuguesa

O rádio estava ligado e o programa era o Entre Políticos da Antena 1, que debatia com diferentes pessoas, de vários partidos os nomes dos juízes para o Tribunal Constitucional. De repente, algo começa-me a causar comichão. A deputada do PSD, Inês Ramalho, começa a repetir constantemente a expressão "no final do dia".


Fui contar e, em três minutos, a senhora conseguiu repetir oito vezes "no final do dia". Acho que todos nos lembramos, eu pelo menos ainda me lembro, quando os professores de português referiam que deveríamos evitar as "muletas linguísticas", de estar sempre a repetir as mesmas palavras, porque denotava um vocabulário fraquinho. De igual forma, quando escrevemos um texto, deveremos evitar estar sempre a repetir a mesma palavra.

"No final do dia", vem do anglicismo "at the end of the day", que é um jargão para parecer modernaço, típico dos tecnocratas liberais, e de quem diz "colaborador" e "resiliência" e que depois de acabado de dizer não acrescenta absolutamente nada à linha de argumentação.

Exemplo dito por Inês Ramalho: "...porque no final do dia os portugueses querer é que lhe resolvam os problemas". A sério? Uau, que conclusão brilhante para constatar o óbvio! 

Exemplo máximo de muleta linguística: "Eu, honestamente, no final do dia, a preocupação que me trás sistematicamente quando vejo estas discussões é que parece que o PS só está com este grau de irritação...". Afinal o que é que a senhora quis dizer? Nada, andou para ali às voltas a engonhar sem dizer nada de concreto.

Que palavras em português se poderiam usar:

- Em última análise

- No fundo

- No fim de contas

- Na prática

Assim, infelizmente, "no final do dia", e com tanto uso dos anglicismo, a língua portuguesa vai morrendo.  

quinta-feira, 26 de março de 2026

A Minha Frase do Dia (4) - Pedófilos

Todos os dias descobre-se um novo abusador ou pedófilo no Chega. O que me levou a escrever esta frase inspiradora:

"O CH anda a competir com a Igreja Católica para ver quem tem mais pedófilos"!




Editado: no dia seguinte a esta publicação, Ana Sá Lopes escreveu no Público:




"Caro leitor, cara leitora:
"O Chega é o partido dos pedófilos"
A avaliar pelo número de abusadores de menores que são encontrados nas fileiras do partido Chega, se um líder de um qualquer outro partido quisesse utilizar os métodos de André Ventura, podia desatar a dizer na praça pública isto: "O Chega é o partido dos pedófilos".

O artigo completo está aqui (só para assinantes).

Não Metas as Nudes no Marketplace

 Primeiro achei estranho. Um carro de 2007, que deve valer uns 2 mil euros, à venda por 28 003€? Coisa mais estranha e tanto preciosismo no preço!

Vai daí resolvi abrir o anúncio e fui passando as fotos do referido carro, um Honda Jazz 1.2 de 2007. E eis senão quando aparece lá pelo meio uma fotografia de pessoas a cavar a terra e a preparar-se para aquilo que parece ser uma horta. 

Cuidado com as fotografias na net. Um dia destes, sem querer, ainda metem as nudes no marketplace !

A Pipoca Mais Amarga


Ontem apanhei a "Pipoca", autora do blog "A Pipoca Mais Doce" no programa "Prova Oral" da Antena 3 apresentado pelo Fernando Alvim. Dizia ela a certa altura que fica triste porque no Instagram já ninguém lê três linhas e que, quando lhe dizem para voltar para o blog, responde que não, porque ninguém vai ler.

Há aqui vários contrassensos. Desde logo porque o Intagram não é um equivalente do blog, é uma coisa bem diferente. Aliás, o Instagram começou por ser uma espécie de fotolog, em que as pessoas partilhavam unicamente fotografias. O Instagram não foi feito para escrever, e, se hoje em dia alguém quer passar uma mensagem, tem que escrever a mensagem em letras bem garrafais nas imagens porque as descrições quase ninguém vai ler, e toda a gente sabe disso. As descrições das imagens do Instagram tem uma letrinha muito pequenina e os links nem sequer funcionam. 

OInstagram quis ser várias coisas. Quis ser microblog como o Twitter, quis ter vídeos curtos (tantas vezes ridículos) e quis ter stories, no fundo quis ser Twitter e Tik Tok e perdeu-se o seu intuito inicial. Acabou por se tornar uma salganhada e já se nota uma perda de publicações por parte das pessoas, nas redes sociais, simplesmente porque cansadas de ver milhares de coisas sobre tudo e mais alguma coisa e não reterem absolutamente nada. 

A Pipoca diz que está triste, que não gosta do Instagram, mas continua lá! Continua lá, e não critico, porque é lá que recebe dinheirinho e o dinheiro não cai de céu. 

Mas sobre visualizações. Por curiosidade até fui ver como andam as visualizações dos meus blogs, Multi-Resistente e Bucólico-Anónimo e a verdade é que, apesar de eu andar a publicar menos, as visualizações continuam a aumentar. Então em que ficamos? Diz-se que os blogs morreram e ninguém os lê mas há quem tenha cada vez mais visualizações? É estranho, não?

terça-feira, 24 de março de 2026

A Ciência de Lavar a Roupa

https://www.thesun.co.uk/

 Percebo hoje - simplesmente porque nunca tinha sequer parado para pensar nisso - que a minha vida amorosa poderia ter sido, muito diferente, se a partir do momento que a primeira relação ruiu, e com trinta anos, tivesse ido viver sozinho, ainda que sempre tivesse tido a minha casa à disposição. Mas percebo agora, que parece que um homem a viver sozinho é para as mulheres muito mais apelativo. Mas não é sobre essas reflexões que me apetece escrever. 

Estou a viver sozinho há cerca de meio ano e a verdade é que não estava bem preparado para os desafios de dona de casa. Ao menos engordei dois kg, o que significa que fome não tenho passado e não tenho ido assim tantas vezes como isso ao restaurante. Cozinho para comer em casa e para levar para o trabalho. 

Comecei inicialmente, ainda antes de me ter mudado, por ter de comprar um esquentador porque o que tinha já tinha entregado a alma ao criador, e o passo seguinte seria, obrigatoriamente, comprar uma máquina de lavar. 

Mas que tipo de máquina comprar? Falasse eu com dez pessoas e as pessoas dir-me-iam dez coisas diferentes. Que para mim sozinho uma máquina de 5-6Kg chegava perfeitamente porque com mais seria para gastar energia desnecessariamente; que não, que o melhor seria de 9Kg se depois quisesse lavar edredons e cobertores; que o ideal seria mesmo comprar uma máquina de lavar e de secar; nada disso, o melhor mesmo seria uma máquina de lavar e outra máquina de secar...

Fiquei tão indeciso que acabei adiando tempo demais a compra e acabei a comprar a máquina de lavar que uma vendedora do comércio tradicional me sugeriu e que, ainda por cima, mesmo eu morando relativamente longe, que ma traria a casa sem qualquer custo. Ela tinha lá todos os tipos de máquinas, baratas, mais caras, de marcas de televisões e de telemóveis, até às marcas mais caras alemãs. 

Disse-me que "avariar todas avariam, mas se avariar uma Bosch de 650€ você ficará mais chateado". E deu-me a sua sugestão pessoal, de dona de casa com roupa de quatro pessoas, que era a máquina que tinha em casa, uma máquina Beku de 8Kg, que custou cerca de 350€.

Depois há toda uma ciência para meter a roupa a lavar. Disse-me um colega: "Olha, a primeira máquina de roupa que fiz estraguei a roupa toda!" Tudo isto porque é quase preciso fazer um doutoramento sobre a lavagem da roupa: as rotações, as temperaturas, as cores, os detergentes, a lavagem da máquina...

Há coisas que, desde cedo, todos nós, mulheres e homens, deveríamos aprender. E ao contrário de outros assuntos, não creio que deveriam ser as aulas de cidadania a ensinar.

Há não muitos anos os homens iam trabalhar e trazer dinheiro para casa, e às mulheres competia trabalhar na lida doméstica e ir para o lavadouro público lavar a roupa à mão e deixá-la a corar. Rapidamente tudo mudou. Hoje são as mulheres que mais enchem as universidade e porque ambos trabalham fora de casa para ganhar dinheiro, convém que as tarefas domésticas sejam divididas por ambos. 

As mulheres continuam a ser mais sobrecarregadas, no entanto, parece-me que essa desigualdade é muitas perpetuada pelas mães, e parece-me que se continua a diferenciar a educação dos rapazes e das raparigas. E se há casos em que os pais ensinam os filhos e filhas sobre as mais variadas tarefas, parece-me que também há casos em que já não se ensina nada por igual, e quer rapazes e raparigas nem um ovo sabem estrelar, porque passam o dia todo com os auscultadores metidos nos ouvidos e a jogar o dia todo. 

Quanto a mim, vamos ver. Não sei se fiz a escolha acertada ou não, no entanto já fiquei a saber que há toda uma ciência para comprar uma simples máquina de lavar e lavar a roupa. Tarefas que há muito deveria ter aprendido e, por experiência, formado a minha opinião.

sexta-feira, 20 de março de 2026

A Justiça Tem os Olhos Bem Abertos III

 Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Gaia, foi acusado de peculato e perdeu o mandato porque emprestou o carro da câmara à mulher. 

Mas esta semana ficamos a saber que, Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, usou os advogados do Estado em proveito próprio por causa do caso Spinumviva, e a notícia apareceu no jornal Público, mas, de resto, não houve qualquer polémica e parece que está tudo bem. 

Talvez por já ser normal o Luís não declarar casas ao Tribunal Constitucional, andar a viajar com cheques martelados da Olivedesportos ou ser avançado por debaixo da mesa enquanto que, ao mesmo tempo, é primeiro-ministro. 

Parece que está tudo bem, só que não está. No entanto a Justiça tem os olhos bem abertos e faz de conta que nada vê.


Motorista TVDE Gravemente Infetado com Mentiras do CH


Vamos fazer de conta que a culpa é do Mercúrio Retrógrado - "não podes tomar grandes decisões até dia 20", já me disseram duas pessoas - e vamos fazer de conta que não é distração minha.

O que aconteceu foi que voltei a trancar o carro com a chave lá dentro e o facto de me ter habituado a trancá-lo por dentro também não deve ajudar e, vai daí, pela primeira vez, andei de TVDE, ou melhor, chamaram-me um carro para eu me deslocar para o trabalho. De manhã foi um brasileiro, ao fim da tarde um português.

Eu decidi adotar o perfil de passageiro conversador e, ao fim da tarde, o motorista português, admitindo que até está a atravessar um período psicológico complicado, disse o seguinte:

"Tenho 4 filhas, não posso estar doente, tenho de meter comida na mesa. Tenho de trabalhar 12h para ganhar o salário mínimo disto (TVDE) e tenho outro emprego numa empresa de transportes urgentes. Por isso sou contra os imigrantes virem para cá ganhar subsídios..."


Vamos tentar seguir o raciocínio. 

Portanto, este homem, que está na segunda família, "eu tenho duas filhas, mais as duas filhas da minha mulher que são como minhas", trabalha por conta de outrem e ainda trabalha mais uma série de horas como motorista TVDE. Trabalha muito e ganha pouco. Não pode ficar doente senão não há comida na mesa. E de quem é a culpa? Claro! Dos imigrantes! 

A culpa não é dos baixos salários, das rendas e dos preços altíssimos das casas, nem do aumento exponencial do custo de vida e da inflação. 

A culpa é de algo muito mais complexo que só pessoas iluminadas conseguem ver! A culpa é dos pobres coitados, mais pobres ainda do que ele, que vêm muitas vezes lá do outro lado do mundo trabalhar para Portugal, fazer aquilo que nós já não queremos - porque já não há mão de obra, como bem se viu nas recentes tempestades que dizimaram a zona centro do país - para muitas vezes ganhar uma miséria, sendo muitas vezes escravizados como aconteceu nas explorações agrícolas do Alentejo - e vivendo ao monte em arrendamentos ilegais. 

Mas a culpa das dificuldades dos portugueses é dos imigrantes pobres que vêm para cá ganhar subsídios!

E lembrar que um em cada três portugueses votou no líder do partido fascista que propala estas mentiras todos os dias.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Uma Gota de Bem Neste Oceano Escuro

Provavelmente, a melhor coisa que li esta semana. Uma entrevista do El País a esta senhora húngara (escritora e jornalista) que, em criança, foi deportada e sobreviveu ao campo de extermínio de Auschwitz. Continua a ir às escolas falar do que viveu e analisa nesta entrevista os tempos atuais, com esta nova vaga fascista que se está a espalhar pelo mundo como um vírus. 

 

Edith Bruck, de 94 anos, nasceu numa pequena aldeia da Hungria, numa família judia muito pobre, num ambiente hostil. Aos 13 anos foi deportada para Auschwitz com a família e apenas ela e uma das irmãs sobreviveram. Participou na terrível marcha da morte durante a evacuação do campo, até ser libertada em 1945. Tem um poema que diz: “Nascer por acaso / nascer mulher / nascer pobre / nascer judia / é demasiado / numa só vida”. Mas é uma vida que Bruck viveu intensamente - ainda fuma - e recorda-a conversando com o EL PAÍS na sua casa, no centro de Roma.

Depois de andar de um lado para o outro pela Europa e por Israel, acabou em Itália em 1954, onde começou uma nova vida como escritora, jornalista, argumentista e realizadora de cinema. Em 1959 publicou o seu primeiro romance, Quem assim te ama (editora Ardicia), onde narrava as suas vivências no campo de concentração, pano de fundo de muitos dos seus livros, pouco traduzidos em Espanha. Para além da sua primeira obra, em 2021 foi publicado O pão perdido. Em Itália é uma instituição; até o Papa Francisco foi visitá-la a casa em 2021. Não se cansa de recordar - encara a memória como uma missão.

Porque continua a dar entrevistas? Não é doloroso? Não se cansa de contar a sua história?

Não, posso cansar-me, mas é útil. Também vou às escolas. Às vezes choram e eu choro com eles. Quando me perguntam pela separação da minha mãe, vou-me sempre abaixo. Mas a atenção dos jovens compensa o esforço. Depois da guerra ninguém ouvia, nem sequer nas famílias. “Não tragas Auschwitz para casa”, diziam. Eu comecei logo a contar.

Como vê o mundo hoje?

Muito mal. Este mundo não melhora, nem a humanidade aprende nada com o passado.

Hoje fazem-se comparações com os anos trinta. O que acha?

Não, ainda estamos longe. Não sou tão pessimista. Mas os países não enfrentam a sua própria história. Há 60 anos que vou às escolas e os miúdos estudam as guerras napoleónicas, mas não sabem nada do século XX. Os países tentam apagar o seu passado, mistificá-lo, negá-lo. Tenho medo de que tudo possa começar de novo. Não da mesma forma, nem pela mesma razão. O único país que, até certo ponto, enfrentou o seu passado foi a Alemanha. Itália, nada. Hungria, nada. Hoje temos Orbán, outro reaccionário. Nas escolas ensinam que foram os alemães que deportaram os judeus. Foram os fascistas húngaros. Assim nada mudará.

O que pensa desta vaga de extrema-direita?

O mundo nunca foi muito para a esquerda, por isso não me surpreende. Com a imigração, o racismo aumentou por todo o lado. Vêm para aqui e são desprezados. Gostariam que todos morressem no mar. Mas emigram por desespero, não é que queiram vir para a Europa dançar. Um país católico deveria receber todo o ser humano de braços abertos. O antissemitismo está a crescer, também porque identificam todos os judeus com Netanyahu. Não entendem que eu não tenho de pensar como pensa outro judeu. Em todo o lado dizem: “Vocês, os judeus”. Ouço isto desde que era assim (indica a altura que tinha em criança).


Quando saiu dos campos de concentração estava sozinha no mundo. Alguma vez voltou a sentir-se em casa.

Não. Já não havia casa, já não havia pais, não havia nada. Voltei à minha aldeia na Hungria e expulsaram-nos à machadada. Continuavam a ser fascistas, temiam que denunciássemos alguém. Não é o meu estilo, não sou justiceira. Eu apenas tento fazer algo de útil, uma gota de bem neste mar escuro.

Há anos estava numa loja, aqui perto, e alguém a chamou.

Sim, atrás de mim alguém disse: “Tu és a Edith de Auschwitz”. Era uma mulher, uma kapo (prisioneiros que ajudavam a gerir os campos de concentração). Abalou a minha vida durante algum tempo, esperava-me à porta de casa. Depois desapareceu, tinha medo que eu a denunciasse. Chamava-se Lola Heller, uma carniça, como todos aqueles judeus polacos que sobreviveram e se tornaram nossos chefes. Mas é preciso ter em conta que foram deportados em 1942. Quem sabe quanto sofreram antes. 

Quando cheguei a Auschwitz com 13 anos ofereceram-me ser mensageira entre blocos, um posto que garantia a vida, porque podias levar mensagens em troca de um pedaço de pão. Tinha de anunciar a chamada, que vinha Mengele fazer a selecção. Tinha 13 anos e disse que não. Podia dizer-se não. Mas os seres humanos são frágeis. Por isso digo que não julgo. Discutia isto com Primo Levi; ele dizia que o mal vinha de fora e criava as circunstâncias. Eu dizia que não, que o mal está dentro de nós. Muitos dos que foram deportados connosco tornaram-se imediatamente malvados. O que digo aos jovens nas escolas é que alimentem o pouco de bem que trazemos dentro de nós. Todos podem fazer alguma coisa. Educar os filhos na democracia, no respeito pelo próximo.

Porque acha que Primo Levi se suicidou?

Falei com ele quatro dias antes e estava transtornado com o negacionismo. Telefonou-me e disse: “Percebes que, connosco ainda vivos, já estão a negar o Holocausto?”. Estava desesperado. E disse-me: “Era melhor Auschwitz”.

O que queria ele dizer?

Não sei. Que era melhor Auschwitz, morrer. Quando vinha a Roma passeávamos e ele andava encostado à parede. Eu dizia-lhe: “Vem para o passeio. Está um sol lindo”. Ele não apreciava a luz. Nunca se libertou totalmente do que viveu. Passei anos com ele e não conseguia abraçá-lo. Era rígido. Precisava de muito amor. Dizia que a sua maior dor era que os filhos não lessem os seus livros. É muito difícil ser filho de um sobrevivente.

Mencionou Mengele. Via-o todos os dias.

Quando chegava para fazer a selecção usávamos água e pó para ganhar cor, beliscávamo-nos nas faces. Tínhamos mais resistência do que os homens, que eram como crianças indefesas. Pagaram caro a cultura masculina - mimados, cuidados pelas mães e irmãs, não tinham autonomia.

Também os pobres sobreviviam melhor.

Totalmente. Os burgueses morriam primeiro; dos ricos nem se fala. Os judeus pobres como eu tinham mil vezes mais resistência. Cresci a ouvir “não” a tudo; a pobreza salvou-me a vida.

Mais tarde foi para Israel.

Em 1948 a propaganda dizia que era um lugar maravilhoso. Quando era criança não havia jantar e a minha mãe adormecia-nos dizendo que um dia iríamos para o nosso país, de leite e mel. Mas no barco subiu um homem e, com a sua primeira frase, o mundo caiu-me aos pés: “O que trazem de valor?”. O que podia eu ter? Sabiam que éramos sobreviventes. No barco conheci um rapaz, casei-me e depois divorciei-me. Assim que me divorciei, chamaram-me para o exército e saí do país. Não queria fazer o serviço militar. Não quero fardas na minha vida. Em 1954 acabei em Nápoles e, só de ver o sorriso das pessoas, disse para mim: “Neste país posso viver”. Para mim, a língua foi uma bênção. Era o muro que me protegia da minha língua materna. Aprendi italiano, comecei a escrever e nunca mais parei.

Uma língua estrangeira permitiu-lhe pensar de outra maneira?

Foi uma salvação, uma liberdade total. Nunca escreveria em húngaro. É uma língua que me dói. A palavra “pão” destrói-me. Em italiano não significa nada. Em húngaro, vejo a minha mãe. É uma bela via de fuga.

Íñigo Domínguez / El País