"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Andamos a Sustentar Quem Não Quer Fazer Nada? (2)
Ao menos CH fazem. Além de violarem crianças, roubam o Estado.
Colecionador de Citações - As Crianças e a Morte
(Júlio Machado Vaz)
terça-feira, 7 de abril de 2026
Inteligência Artificial: Um Futuro que Já Aconteceu
Éric Sadin é um dos 10 principais pensadores tecnológicos do mundo. A sua obra mais recente é O Deserto de Nós Mesmos, uma análise sombria do futuro que estamos a construir. Um lugar que já existiu previamente em dados e no esquema de probabilidades que o desenhou. Um lugar que cheira a morte e a passado. E tudo começou a 30 de novembro de 2022, com o advento do ChatGPT. “Nesse dia não dormi a noite inteira. E eu costumo dormir como um bebé”, explica Sadin, enquanto coloca o croissant sobre a mesa. O livro, um best-seller em França, começa com uma citação de Louis-Ferdinand Céline: “Posso dizer que vi a catástrofe a chegar”.
Então o apocalipse começou a 30 de novembro de 2022?
Macron quer regulá-las agora, mas até este momento deu a estas plataformas todas as facilidades. Começaram em 2010 e, 15 anos depois, admitimos a catástrofe. A sociedade, em questões digitais, acorda sempre demasiado tarde.
Já perdemos algumas gerações de jovens?
Também muitos adultos. Psiquiatrizaram a sociedade. E com a IA generativa acontecerá o mesmo. Já estamos a ver as consequências. A perda de empregos, o isolamento social, a imagem. Mas também a dependência emocional dos adolescentes que falam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, transformada em coach psicológico. E isto é só o princípio.
Falamos com a IA, pedimos conselhos, conversa emocional. Mas a linguagem, embora pareça a mesma, é outra.
São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de bibliotecas, artigos de jornais e dados da internet para revelar leis semânticas. São percursos formais feitos de estatística, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque funciona sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que, depois de determinadas palavras, vêm outras. Na IA acontece sempre tudo o que já aconteceu. Responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu agora não sei que palavra vou usar a seguir à que estou a dizer neste momento, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento, é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.
Isso poderia definir a liberdade humana.
Sem dúvida. Por um lado, há a linguagem morta, necrosada, matematizada e nascida do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E esta mudança que estamos a viver modificará também as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema omnisciente e sabichão. Nestas últimas eleições autárquicas em França, descobriram que havia candidatos e autarcas que escreviam os seus discursos com o ChatGPT. Tem noção da gravidade disso?
A sensação é de que a cultura que a IA vai gerar será como a comida de plástico, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para classes desfavorecidas que não podem pagar o autêntico, o verdadeiro. Uma distinção social e económica. A realidade, com os seus erros, para os ricos; a IA, para os pobres.
Tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e os que têm vontade de usar as suas faculdades. Essas pessoas também podem existir nas classes menos favorecidas. E haverá ricos que optarão por isso por preguiça, desleixo. Mas não será fácil distinguir os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmática. Cada um produzirá imagens que corresponderão ao seu ponto de vista sobre as coisas.
O impacto será enorme no mundo audiovisual e na cultura.
Sem dúvida. Vai arrasar as séries e os filmes. Haverá atores feitos por IA, cenários, luzes, maquilhagem, guarda-roupa… Vamos para uma enorme desaparecimento de profissões: montador, maquilhador, diretor de produção. Dirigimo-nos para a autocriação. Produtos que nos contêm a nós mesmos. A selfmusic, ou o selfbook. Em vez de descobrirmos, construiremos a nossa pequena ficção. E isso é um furacão que vai embater no mundo da cultura.
Vão destruir-se empregos, mas talvez se crie uma nova indústria. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.
A sociedade foi fundada sobre o conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem emprego, mas a médio ou longo prazo conduzem a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o nascimento do setor terciário nos anos 70 e 80. Trabalhos muito duros passaram a ser feitos pelas máquinas. Hoje, quase 80% do emprego vem do setor terciário, que se caracteriza por mobilizar faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que o senhor ama e que lhe dá reconhecimento social.
Acho que está a confundir a época. Ou a profissão.
Vá lá, o senhor assina, faz coisas pessoais.
Se há uma tecnologia que faz muito melhor trabalhos mecânicos ou rotineiros do que os humanos, porque haveríamos de nos opor?
Não podemos nem proibir nem regular. Mas podemos defender a grandeza dos nossos trabalhos. Eu sei que conta apenas um único critério: o ser humano como variável contabilística. Os sistemas farão o trabalho de forma mais fiável, mais rápida e mais barata. Mas há saberes insubstituíveis. O problema é que caminhamos para um mundo em que os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano depois de lançar o ChatGPT, disse diante daqueles imbecis felizes que o aplaudiam: “Calma, isto não é nada comparado com o que aí vem”. Ou seja, os superassistentes. E isto deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos da sua própria organização.
Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Acha que se vão salvar deste furacão? O que podem fazer?
O futuro devia ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se quer ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas deprimem-se, enlouquecem. Nunca houve uma sensação coletiva de saturação tão generalizada. E tanta vontade de fazer algo diferente. Depois da covid, 20 milhões de norte-americanos deixaram o emprego. Mas é difícil fazer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas estas start-ups inúteis que toda a gente quer mercantilizar, devia apoiar coletivos ou estruturas que não estejam submetidos à automatização. O futuro devia ser feito de pequenos coletivos.
O que deveriam aprender os nossos filhos para escapar a essa morte em vida?
Artesanato. Veja: na Revolução Industrial já existia essa dicotomia. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação do aparelho de produção, mas isso aumentava os desastres ecológicos, o trabalho em cadeia. Morris, pelo contrário, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso podia fazer-se no artesanato, na excelência, na obra assinada, única.
Não parece haver muita esperança.
A esperança são as crianças da idade das suas filhas, que quando crescerem escolherão outra opção, como acontecia em Matrix. Esse momento chegará. Chegará em algumas crianças puras. Mas já perdemos muitas. Miúdos que passam o dia inteiro no TikTok e já nem sabem escrever. São robôs que apenas respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.
Esta criatura pode tornar-se independente e submeter-nos, como o Skynet em Terminator?
Isso é uma parvoíce. Um delírio de ficção científica infantil. Uma visão antropomórfica de adolescente. Mas aquilo que lhe estou a contar é muito pior. A renúncia às nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados a todas as escalas, e todas fazem recuar o ser humano no exercício daquilo que o engrandece. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que está a extinguir-se. E garanto-lhe que isso é muito pior do que o Skynet. Mas sabe quem pode evitá-lo?
Pelo seu olhar, começo a imaginá-lo.
O senhor. Ou seja, os pais! O senhor não pode usar o ChatGPT para mandar e-mails nem nada parecido. Como é que depois vai pedir aos seus filhos que aprendam a escrever? Salvar o mundo hoje depende da consciência dos pais.
O senhor não usa nenhuma IA generativa?
Essas máquinas de morte? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que felicidade. E vejo gente jovem que começa a distinguir-se, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis quotidianos e escravos da sua própria preguiça. E esses verão a sua singularidade destruída em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou a falar muito. Quanto espaço é que lhe vão dar?
Não se preocupe, resumimos tudo com o ChatGPT.
(Entrevista de Daniel Verdú / El País)
Idade de Cristo Depois
A última vez que tinha cortado o cabelo numa cadeira de barbeiro tinha sido há trinta e três anos, precisamente, a idade atribuída a Jesus Cristo.
De repente, e num leve abrir e fechar de olhos, saio do antigo barbeiro na rua do Heroísmo da cidade do Porto com o cabelo rapado a pente 2 dos lados e mais volumoso em cima, e entro de cabelos grisalhos, bastante compridos mas finos num cabeleireiro feminino da Boavista.
Uma senhora de cabelos loiros, curtos aplicava o que parecia ser uma pasta numas pratas nos cabelos volumosos de uma mulher brasileira e passado uns minutos chama-me. "Respira fundo, é como se estivesses na cadeira do dentista, custa o bocado, mas depois passa", pensei.
Ela molha-me o cabelo, passa os dedos pelos cabelos rarefeitos que evidenciam a moleirinha e massaja. E depois penteia. E pergunta quanto é para cortar.
E está feito. E paguei o mesmo conto de reis de há trinta e três anos para ficar com muito mais volume e uma sensação de que me foi amputada parte de mim.
Assim o Teerão - Provavelmente o Meu Melhor Trocadilho de Sempre (2)
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Conversas Improváveis (89) - O Sítio Mais Perigoso
terça-feira, 31 de março de 2026
Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?
“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”
- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.
Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.
Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.
Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.
Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.
Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.
E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.
Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.
Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.
Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.
Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.
Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.
Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.
Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.
Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.
Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.
Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.
Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.
- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.
A resposta dele foi simples, leve:
— OK.
E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.
Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.
Ele riu-se.
- Fiz essa numa festa - disse. Todos tirámos desenhos de um chapéu.
Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.
A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.
Ele reparou e cruzou o olhar comigo.
- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?
Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.
Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.
Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.
Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?
Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.
As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.
Afinal, essa é a verdadeira história de amor.
Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?
(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)
Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor
segunda-feira, 30 de março de 2026
Ser Português - Coisas que Escrevia no 12º nos Anos Noventa
Continuando a arrumar tralhas e a separar montes de coisas para o ecoponto azul, deparo-me com este texto, talvez, digo eu, um teste qualquer do 12ºano. Não tenho o enunciado, não faço ideia do que se pretendia, mas o texto tem o título "Ser português" e foi classificado como 50/60 (numa escala de 20 daria 17 valores)
A trinta anos de distância, noto no jovem Königvs, sem grande surpresa, uma grande revolta e crítica social muito acirrada. Vamos ao texto, tal como o escrevi na altura:
Ser Português
sábado, 28 de março de 2026
Em 1977 1 Litro de Gasolina Custava 12 Cêntimos - Hoje é Mais Caro ou Mais Barato?
O meu pai morreu há 33 anos e, como seu único herdeiro, ainda guardo todos os seus pertences. E acho que dou mais valor a peças que foram feitas pelas suas mãos, apontamentos feitos com a sua caligrafia e até ferramenta que usou, do que outras coisas.
Num pequeno caderninho, estilo bloco de notas, com uma mulher com um ramos de rosas vermelhas nos braços e em que está escrito "Casa 1976", e, no verso "Livro de Apontamentos da Construção da Casa - Início 1977", tem toda uma série de apontamentos de gastos e dá para saber quanto custavam as coisas na altura.
Estávamos nos anos setenta, bem longe da vertigem dos empréstimos bancários, e, tal como os meus pais, a maioria dos portugueses era aforradora e poupada e para isso convinha perceber para onde estava a ir o dinheiro.
Hoje em dia fazem-se cursos on-line com especialistas em finanças pessoais, influencers que falam de 'literacia financeira' e explicam onde melhor aplicar o dinheiro, e o atual governo que nos governa até retirou a educação sexual das aulas de cidadania (porque no entender deles é muito melhor aprender na pornografia), e meteram no currículo uma forte componente económica para aprender de pequenino a ser bom contribuinte.
Contudo, nos anos setenta, qualquer pessoa, mesmo sem saber ler nem escrever, sabia empiricamente mais de finanças pessoais do que hoje em dia os jovens que saem da universidade. Porque onde há muito pouco é preciso arte e engenho para saber poupar muito.
Mas vamos ver alguns preços de diferentes produtos anotados no bloco de notas do meu pai:
Então, em 1977:
- Um saco de cimento custava 65 cêntimos
- Um garrafão de vinho = 49 cêntimos
- Uma carga de areia = 3€
- 1Kg de bacalhau = 47 cêntimos
- 1Kg feijão = 15 cêntimos
E 1 Litro de gasolina custava 12 cêntimos
Ena!, naquela altura 1L de gasolina só custava 12 cêntimos! Mas isso é mais barato ou mais caro do que agora, visto que, com as sucessivas guerras os combustíveis estão pela hora da morte?
Contas simples de merceeiro:
1977:
"No Final do Dia" Morre a Língua Portuguesa
O rádio estava ligado e o programa era o Entre Políticos da Antena 1, que debatia com diferentes pessoas, de vários partidos os nomes dos juízes para o Tribunal Constitucional. De repente, algo começa-me a causar comichão. A deputada do PSD, Inês Ramalho, começa a repetir constantemente a expressão "no final do dia".
Fui contar e, em três minutos, a senhora conseguiu repetir oito vezes "no final do dia". Acho que todos nos lembramos, eu pelo menos ainda me lembro, quando os professores de português referiam que deveríamos evitar as "muletas linguísticas", de estar sempre a repetir as mesmas palavras, porque denotava um vocabulário fraquinho. De igual forma, quando escrevemos um texto, deveremos evitar estar sempre a repetir a mesma palavra.
"No final do dia", vem do anglicismo "at the end of the day", que é um jargão para parecer modernaço, típico dos tecnocratas liberais, e de quem diz "colaborador" e "resiliência" e que depois de acabado de dizer não acrescenta absolutamente nada à linha de argumentação.
Exemplo dito por Inês Ramalho: "...porque no final do dia os portugueses querer é que lhe resolvam os problemas". A sério? Uau, que conclusão brilhante para constatar o óbvio!
Exemplo máximo de muleta linguística: "Eu, honestamente, no final do dia, a preocupação que me trás sistematicamente quando vejo estas discussões é que parece que o PS só está com este grau de irritação...". Afinal o que é que a senhora quis dizer? Nada, andou para ali às voltas a engonhar sem dizer nada de concreto.
Que palavras em português se poderiam usar:
- Em última análise
- No fundo
- No fim de contas
- Na prática
Assim, infelizmente, "no final do dia", e com tanto uso dos anglicismo, a língua portuguesa vai morrendo.
quinta-feira, 26 de março de 2026
A Minha Frase do Dia (4) - Pedófilos
Todos os dias descobre-se um novo abusador ou pedófilo no Chega. O que me levou a escrever esta frase inspiradora:
"O CH anda a competir com a Igreja Católica para ver quem tem mais pedófilos"!
Não Metas as Nudes no Marketplace
Primeiro achei estranho. Um carro de 2007, que deve valer uns 2 mil euros, à venda por 28 003€? Coisa mais estranha e tanto preciosismo no preço!
Vai daí resolvi abrir o anúncio e fui passando as fotos do referido carro, um Honda Jazz 1.2 de 2007. E eis senão quando aparece lá pelo meio uma fotografia de pessoas a cavar a terra e a preparar-se para aquilo que parece ser uma horta.
Cuidado com as fotografias na net. Um dia destes, sem querer, ainda metem as nudes no marketplace !
A Pipoca Mais Amarga
Ontem apanhei a "Pipoca", autora do blog "A Pipoca Mais Doce" no programa "Prova Oral" da Antena 3 apresentado pelo Fernando Alvim. Dizia ela a certa altura que fica triste porque no Instagram já ninguém lê três linhas e que, quando lhe dizem para voltar para o blog, responde que não, porque ninguém vai ler.
Há aqui vários contrassensos. Desde logo porque o Intagram não é um equivalente do blog, é uma coisa bem diferente. Aliás, o Instagram começou por ser uma espécie de fotolog, em que as pessoas partilhavam unicamente fotografias. O Instagram não foi feito para escrever, e, se hoje em dia alguém quer passar uma mensagem, tem que escrever a mensagem em letras bem garrafais nas imagens porque as descrições quase ninguém vai ler, e toda a gente sabe disso. As descrições das imagens do Instagram tem uma letrinha muito pequenina e os links nem sequer funcionam.
OInstagram quis ser várias coisas. Quis ser microblog como o Twitter, quis ter vídeos curtos (tantas vezes ridículos) e quis ter stories, no fundo quis ser Twitter e Tik Tok e perdeu-se o seu intuito inicial. Acabou por se tornar uma salganhada e já se nota uma perda de publicações por parte das pessoas, nas redes sociais, simplesmente porque cansadas de ver milhares de coisas sobre tudo e mais alguma coisa e não reterem absolutamente nada.
A Pipoca diz que está triste, que não gosta do Instagram, mas continua lá! Continua lá, e não critico, porque é lá que recebe dinheirinho e o dinheiro não cai de céu.
Mas sobre visualizações. Por curiosidade até fui ver como andam as visualizações dos meus blogs, Multi-Resistente e Bucólico-Anónimo e a verdade é que, apesar de eu andar a publicar menos, as visualizações continuam a aumentar. Então em que ficamos? Diz-se que os blogs morreram e ninguém os lê mas há quem tenha cada vez mais visualizações? É estranho, não?
terça-feira, 24 de março de 2026
A Ciência de Lavar a Roupa
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| https://www.thesun.co.uk/ |
Percebo hoje - simplesmente porque nunca tinha sequer parado para pensar nisso - que a minha vida amorosa poderia ter sido, muito diferente, se a partir do momento que a primeira relação ruiu, e com trinta anos, tivesse ido viver sozinho, ainda que sempre tivesse tido a minha casa à disposição. Mas percebo agora, que parece que um homem a viver sozinho é para as mulheres muito mais apelativo. Mas não é sobre essas reflexões que me apetece escrever.
Estou a viver sozinho há cerca de meio ano e a verdade é que não estava bem preparado para os desafios de dona de casa. Ao menos engordei dois kg, o que significa que fome não tenho passado e não tenho ido assim tantas vezes como isso ao restaurante. Cozinho para comer em casa e para levar para o trabalho.
Comecei inicialmente, ainda antes de me ter mudado, por ter de comprar um esquentador porque o que tinha já tinha entregado a alma ao criador, e o passo seguinte seria, obrigatoriamente, comprar uma máquina de lavar.
Mas que tipo de máquina comprar? Falasse eu com dez pessoas e as pessoas dir-me-iam dez coisas diferentes. Que para mim sozinho uma máquina de 5-6Kg chegava perfeitamente porque com mais seria para gastar energia desnecessariamente; que não, que o melhor seria de 9Kg se depois quisesse lavar edredons e cobertores; que o ideal seria mesmo comprar uma máquina de lavar e de secar; nada disso, o melhor mesmo seria uma máquina de lavar e outra máquina de secar...
Fiquei tão indeciso que acabei adiando tempo demais a compra e acabei a comprar a máquina de lavar que uma vendedora do comércio tradicional me sugeriu e que, ainda por cima, mesmo eu morando relativamente longe, que ma traria a casa sem qualquer custo. Ela tinha lá todos os tipos de máquinas, baratas, mais caras, de marcas de televisões e de telemóveis, até às marcas mais caras alemãs.
Disse-me que "avariar todas avariam, mas se avariar uma Bosch de 650€ você ficará mais chateado". E deu-me a sua sugestão pessoal, de dona de casa com roupa de quatro pessoas, que era a máquina que tinha em casa, uma máquina Beku de 8Kg, que custou cerca de 350€.
Depois há toda uma ciência para meter a roupa a lavar. Disse-me um colega: "Olha, a primeira máquina de roupa que fiz estraguei a roupa toda!" Tudo isto porque é quase preciso fazer um doutoramento sobre a lavagem da roupa: as rotações, as temperaturas, as cores, os detergentes, a lavagem da máquina...
Há coisas que, desde cedo, todos nós, mulheres e homens, deveríamos aprender. E ao contrário de outros assuntos, não creio que deveriam ser as aulas de cidadania a ensinar.
Há não muitos anos os homens iam trabalhar e trazer dinheiro para casa, e às mulheres competia trabalhar na lida doméstica e ir para o lavadouro público lavar a roupa à mão e deixá-la a corar. Rapidamente tudo mudou. Hoje são as mulheres que mais enchem as universidade e porque ambos trabalham fora de casa para ganhar dinheiro, convém que as tarefas domésticas sejam divididas por ambos.
As mulheres continuam a ser mais sobrecarregadas, no entanto, parece-me que essa desigualdade é muitas perpetuada pelas mães, e parece-me que se continua a diferenciar a educação dos rapazes e das raparigas. E se há casos em que os pais ensinam os filhos e filhas sobre as mais variadas tarefas, parece-me que também há casos em que já não se ensina nada por igual, e quer rapazes e raparigas nem um ovo sabem estrelar, porque passam o dia todo com os auscultadores metidos nos ouvidos e a jogar o dia todo.
Quanto a mim, vamos ver. Não sei se fiz a escolha acertada ou não, no entanto já fiquei a saber que há toda uma ciência para comprar uma simples máquina de lavar e lavar a roupa. Tarefas que há muito deveria ter aprendido e, por experiência, formado a minha opinião.
sexta-feira, 20 de março de 2026
A Justiça Tem os Olhos Bem Abertos III
Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Gaia, foi acusado de peculato e perdeu o mandato porque emprestou o carro da câmara à mulher.
Mas esta semana ficamos a saber que, Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, usou os advogados do Estado em proveito próprio por causa do caso Spinumviva, e a notícia apareceu no jornal Público, mas, de resto, não houve qualquer polémica e parece que está tudo bem.
Talvez por já ser normal o Luís não declarar casas ao Tribunal Constitucional, andar a viajar com cheques martelados da Olivedesportos ou ser avançado por debaixo da mesa enquanto que, ao mesmo tempo, é primeiro-ministro.
Parece que está tudo bem, só que não está. No entanto a Justiça tem os olhos bem abertos e faz de conta que nada vê.
Motorista TVDE Gravemente Infetado com Mentiras do CH
Vamos fazer de conta que a culpa é do Mercúrio Retrógrado - "não podes tomar grandes decisões até dia 20", já me disseram duas pessoas - e vamos fazer de conta que não é distração minha.
O que aconteceu foi que voltei a trancar o carro com a chave lá dentro e o facto de me ter habituado a trancá-lo por dentro também não deve ajudar e, vai daí, pela primeira vez, andei de TVDE, ou melhor, chamaram-me um carro para eu me deslocar para o trabalho. De manhã foi um brasileiro, ao fim da tarde um português.
Eu decidi adotar o perfil de passageiro conversador e, ao fim da tarde, o motorista português, admitindo que até está a atravessar um período psicológico complicado, disse o seguinte:
"Tenho 4 filhas, não posso estar doente, tenho de meter comida na mesa. Tenho de trabalhar 12h para ganhar o salário mínimo disto (TVDE) e tenho outro emprego numa empresa de transportes urgentes. Por isso sou contra os imigrantes virem para cá ganhar subsídios..."
Vamos tentar seguir o raciocínio.
Portanto, este homem, que está na segunda família, "eu tenho duas filhas, mais as duas filhas da minha mulher que são como minhas", trabalha por conta de outrem e ainda trabalha mais uma série de horas como motorista TVDE. Trabalha muito e ganha pouco. Não pode ficar doente senão não há comida na mesa. E de quem é a culpa? Claro! Dos imigrantes!
A culpa não é dos baixos salários, das rendas e dos preços altíssimos das casas, nem do aumento exponencial do custo de vida e da inflação.
A culpa é de algo muito mais complexo que só pessoas iluminadas conseguem ver! A culpa é dos pobres coitados, mais pobres ainda do que ele, que vêm muitas vezes lá do outro lado do mundo trabalhar para Portugal, fazer aquilo que nós já não queremos - porque já não há mão de obra, como bem se viu nas recentes tempestades que dizimaram a zona centro do país - para muitas vezes ganhar uma miséria, sendo muitas vezes escravizados como aconteceu nas explorações agrícolas do Alentejo - e vivendo ao monte em arrendamentos ilegais.
Mas a culpa das dificuldades dos portugueses é dos imigrantes pobres que vêm para cá ganhar subsídios!
E lembrar que um em cada três portugueses votou no líder do partido fascista que propala estas mentiras todos os dias.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Uma Gota de Bem Neste Oceano Escuro
Edith Bruck, de 94 anos, nasceu numa pequena aldeia da Hungria, numa família judia muito pobre, num ambiente hostil. Aos 13 anos foi deportada para Auschwitz com a família e apenas ela e uma das irmãs sobreviveram. Participou na terrível marcha da morte durante a evacuação do campo, até ser libertada em 1945. Tem um poema que diz: “Nascer por acaso / nascer mulher / nascer pobre / nascer judia / é demasiado / numa só vida”. Mas é uma vida que Bruck viveu intensamente - ainda fuma - e recorda-a conversando com o EL PAÍS na sua casa, no centro de Roma.
Depois de andar de um lado para o outro pela Europa e por Israel, acabou em Itália em 1954, onde começou uma nova vida como escritora, jornalista, argumentista e realizadora de cinema. Em 1959 publicou o seu primeiro romance, Quem assim te ama (editora Ardicia), onde narrava as suas vivências no campo de concentração, pano de fundo de muitos dos seus livros, pouco traduzidos em Espanha. Para além da sua primeira obra, em 2021 foi publicado O pão perdido. Em Itália é uma instituição; até o Papa Francisco foi visitá-la a casa em 2021. Não se cansa de recordar - encara a memória como uma missão.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Os Cabelos do Luís
Caso para dizer que, apesar da vida das pessoas estar cada vez pior desde que Montenegro tomou posse do país com a sua agência imobiliária. os cabelos do Luís estão cada vez melhores!
domingo, 22 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
O Jovem Formado Que Vota na Iniciativa Liberal
...e que acha que sozinho vai ficar rico, bastando para isso ter fé e foco. E se não conseguir é porque não teve a força mental suficiente, porque sozinhos, acham que chegam lá... E tão enganadinhos que eles estão.
"A escravidão também é liberal"?
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Solteiros de Todo o Mundo Uni-vos!
O celibato em terra hostil
Em Os Esquecidos do Dia de São Valentim, Romain Huret estuda a discriminação sofrida por homens e mulheres não casados nos Estados Unidos, desde o final do século XIX até aos anos 80.
"É difícil não começar pelo Dia de São Valentim. Aproxima-se a passos largos e Romain Huret, presidente e diretor de estudos na EHESS, não corre o risco de nos deixar esquecê-lo. O título do seu mais recente ensaio dá a impressão de que está a aproveitar a vaga crescente. No entanto, este trabalho minucioso exigiu cerca de dez anos. Especialista nos Estados Unidos, convida-nos a olhar para o que acontece por detrás das efusões sentimentais deste dia que se tornou uma festa comercial já no século XIX. Centenas de mulheres americanas serviram-se dele nos anos 60, desviando esta sacrossanta festa dos namorados para enviar postais de São Valentim “não aos homens dos seus sonhos, mas aos membros do Congresso”, escreve Romain Huret logo no prólogo. Expressavam a sua incompreensão por terem de pagar mais impostos do que os casais casados. Os Esquecidos do Dia de São Valentim não fala, portanto, de amor, mas de atribuição social e de discriminação profissional. Não se trata de casais, mas de solteiros que nunca foram casados e cuja idade é superior a 35 anos.
Segregação. A old maid (“solteirona”) é frequentemente retratada sozinha, de aspeto austero, na companhia de um gato; o bachelor (“solteirão”) é “muitas vezes figurado com traços efeminados, confrontado com a angústia de jantar sozinho”. Esta é a representação folclórica predominante no final do século XIX. Ilustra-se através de um jogo popular cujo princípio consiste em livrar-se da carta daquela ou daquele que não é casado.Mais seriamente, os solteiros são considerados depravados, inúteis, “anormais” que, ao recusarem casar e procriar, contribuem para o “suicídio da raça branca e protestante”, segundo o presidente da Universidade da Califórnia, Benjamin Ide Wheeler, em 1905. A pressão migratória aumenta o medo do desequilíbrio. O demógrafo Jacques Bertillon aponta uma mortalidade mais elevada entre as solteironas, enquanto o psicólogo Henry Herbert Goddard sublinha a degenerescência das linhagens de solteiros nas genealogias. Vários Estados chegam mesmo a aprovar impostos anuais sobre os solteiros.
A “segregação” acentua-se nos anos 20. Em certas regiões, criam-se zonas reservadas às famílias e outras aos solteiros. Chegam mesmo a ser aprovadas leis que proíbem indivíduos não casados de viverem juntos, algo anteriormente tolerado, ao mesmo tempo que se intensificam as discriminações na contratação, obrigando os solteiros a envelhecer na frugalidade. A sua situação agrava-se com a Grande Depressão, sendo o Estado a relegá-los ainda mais para segundo plano no sistema de proteção. Depois da guerra, na qual participaram em larga escala, continuam a ser estigmatizados.
Para além do olhar mordaz da sociedade sobre eles, Romain Huret realiza uma análise fina da sua condição, simultaneamente estatística, sociológica e humana. Examinou arquivos públicos e privados, coleções de fotografias (entre as quais as de Frances Benjamin Johnston, ela própria solteira, que fez do celibato um dos seus temas) e diários pessoais. Numerosas personagens e nomes atravessam Os Esquecidos do Dia de São Valentim, como Azubah e Harriet, de Topeka (Kansas), que tiveram de criar os irmãos após a morte da mãe, em 1928.
“Centenas de milhares de mulheres tornam-se assim, sucessivamente ou de forma específica, mães de substituição, preceptoras, auxiliares domésticas e cuidadoras de pais idosos ou de irmãos com saúde frágil ou deficiência.” No trabalho, são enfermeiras, professoras ou atuam no ensino superior feminino, então em plena expansão. Os homens trabalham na agricultura, na indústria florestal, nos campos petrolíferos e nas cidades mineiras da viragem do século, em particular em Bachelor City, assim batizada devido ao elevado número de solteiros. Entre 1890 e 1920, nota o historiador, o seu número duplica, passando de menos de um milhão para mais de dois. Charlot, célebre figura solteira, descreve a violência do capitalismo moderno, do qual são “as mãos invisíveis”, vivendo de itinerância, empregos precários e sob pressão.
“Condição do ativismo”. Se são esquecidos em favor dos casados, os solteiros irão progressivamente lutar, ao longo das décadas e até aos anos 60, para existir e fazer valer os seus direitos. “Em surdina, os solteiros nos Estados Unidos anunciam a revolução antropológica em curso nas sociedades ocidentais.” Multiplicam-se nas cidades clubes que lhes são reservados, como o de Madame Young, em Aspen (Colorado), cuja regra estipula que quem casar terá de pagar uma multa antes de abandonar o clube. Cada vez mais solteiros assumem permanecer sozinhos, como a poeta Marianne Moore, ou estabelecer “casamentos à Boston”, como Martha Van Rensselaer e Flora Rose, que desenvolveram o seu laboratório de investigação em alimentação na Universidade de Cornell e viviam juntas.
Quer seja pelo direito de voto, por um hospital para mulheres e crianças em Nova Iorque, pela fundação da primeira American Red Cross em 1881, ou ainda para combater o álcool, a droga, a vivissecção ou os chapéus com penas, as fileiras do ativismo são maioritariamente compostas por mulheres solteiras. “Mesmo que as suas lutas nem sempre sejam vitoriosas, estas mulheres, cujo celibato é muitas vezes uma das condições do ativismo, contribuem para numerosos avanços no domínio da proteção ambiental e em muitos outros. À sua maneira, participam na humanização do mundo.” Nos anos 60, o espartilho dos preconceitos começa a afrouxar. Mas, como também sublinha Romain Huret - e isso é hoje bem audível -, a ordem matrimonial ainda não disse a última palavra.
Frédérique Roussel / Libération














