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É muito interessante analisar que, muitas datas, sem sequer estarem no calendário, nem se fazer publicidade delas dois meses antes, as pessoas lembram-se sempre delas, ainda que não saibam porque se celebram.
A meio da manhã, dois senhores, com idade para serem meus pais, vinham a conversar, num caminho pelo monte, que passa atrás de minha casa. Conversa vai, conversa vem: "a minha mulher mandou-me às maias, e nem sei onde as vou arranjar" dizia um deles.
Refletindo um pouco, esta tradição é fácil de se lembrar, no fundo, basta um qualquer inocente lembrar-se, trazer um braçado de giestas na mão e meter em tudo que é sítio, para que no burgo todos fiquem a saber que "têm de ir às maias!
Esta tradição das "maias" é mais um fenómeno do paganismo que a igreja católico-hipócrita-romana açambarcou como sendo sua, tal como fez com o Natal e com a Páscoa por exemplo, e que nada têm a ver com o cristianismo. E de um ritual pagão, passa-se rapidamente ao dogma religioso. E eu nem quero imaginar, o que me irá acontecer hoje - sabe-se lá que coisa ruim me irá empecer! - por não ter, ao contrário de todos os meus vizinhos, enfiado um bocado de giesta no buraco. Em todos os buracos diga-se! Se antigamente só se viam nos buracos das janelas, hoje em dia é mesmo em tudo que é sítio! É nas janelas das casas, é nas caixas do correio, nos portões... A paranóia pelas maias é tanta, que é ver os parolos, parados em plena auto-estrada, subir o monte, para ir cortar um bocado de giesta! E mal pára um parolo, param logo meia dúzia deles, todos contentes!
Mas o sítio onde acho mais piada a meterem as maias é nos carros! Muito eu gostava de saber o que aquela gente pensa! O carro vai quê? Ficar abençoado? Eu nem quero imaginar, sabe-se lá, onde esta gente enfiará enfiará o ramo da giesta! Com bom lubrificante não sei não!
A ignorância é de facto uma bênção! Anda-se no mundo por ver andar ou outros. Ninguém se questiona, nem se pergunta, fazem-se as coisas simplesmente por se ver os outros fazerem. E eu como tenho o péssimo defeito de pensar pela minha cabeça, e a trinta de abril, prefiro deixar as flores amarelas onde estas devem estar: nas giestas e no monte.