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sábado, 21 de dezembro de 2024

Divagações sobre o Solstício de Inverno

Hoje é dia do Solstício de Inverno e o El País tem este belo texto sobre o tema:



 "Hoje, sábado, 21 de dezembro de 2024, às três da madrugada no hemisfério norte, ocorreu o solstício de inverno. A luz do Sol começou a crescer e assim continuará até ao verão. Os antigos romanos celebravam este acontecimento com as Saturnais, festividades pagãs em honra de Saturno, o deus da agricultura e da colheita, que originalmente se realizavam entre 17 e 23 de dezembro. Na essência, nada mudou na nossa cultura desde então. Os romanos também montavam mercados no fórum, onde Horácio, Ovídio e Virgílio poderiam ser vistos a comprar presentes, velas, estatuetas de barro e doces tradicionais para amigos e familiares. Por uma vez, os escravos sentavam-se à mesa e eram servidos pelos seus senhores, como na cena do filme Plácido, de Berlanga. As festas eram marcadas pela alegria das crianças e pela nostalgia dos mais velhos. Tal como acontecia com a luz no solstício, uns chegavam à vida e outros dela se despediam.


Os cristãos transformaram o sol nascente no Menino Deus, que nasceu num estábulo. Roma era um centro de todas as religiões possíveis. Escolhia-se, sem dificuldade, aquela que mais agradava. Naquela época, um deus solar importado da Pérsia, chamado Mitra, era particularmente popular. Ele nascera de uma virgem e morria e ressuscitava todos os anos, tal como as sementes que se deterioram na terra para depois germinarem, florescerem e frutificarem. Nos seus primórdios, o cristianismo, fundado pelo génio de Paulo de Tarso, retirou deste deus persa grande parte da substância para a sua nova religião, que começou por se expandir entre os judeus da diáspora e depois entre os gentios, nas periferias das cidades. A nova seita dos cristãos foi perseguida e lançada aos leões no circo, não por adorar um deus estranho, mas por tentar derrubar o poder de Roma numa luta contra o sistema — algo que conseguiu quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e promulgou o Édito de Milão em 313.

No Direito Romano, dívidas não pagas podiam transformar o devedor em escravo do credor. Durante as perseguições, os cristãos rezavam o Pai Nosso nas catacumbas, uma oração revolucionária e contra a escravatura, pois pedia o perdão das dívidas. Por outro lado, o cristianismo foi concebido para acalmar os pobres deste mundo, assegurando-lhes que seriam os primeiros a sentar-se no céu, à direita de Deus Pai, devendo, por isso, adiar qualquer rebelião terrestre. Entretanto, o Sol continuará, sem falhar, a ganhar tempo ao amanhecer e ao entardecer.

Epifania significa manifestação da luz. A partir do Dia de Reis, notaremos que o sol se demora mais, desenhando grafitis de luz nos muros. Este Deus, que uns acreditam ter nascido no estábulo de Belém e outros consideram apenas uma data no calendário, despertará a seiva nas árvores quando chegar a Candelária. Mais tarde, obrigará as ramas nuas a fazer brotar gemas que explodirão em flores. Cairá chuva e ouvir-se-á o som das caleiras; nevará, e o sol de março provocará o degelo. Pode até repetir-se o milagre que testemunhei há anos: um colibri verde-esmeralda, vermelho e azul, pairava no ar, batendo as asas, para caçar uma gota brilhante de prata que escorria de um ramo de carvalho coberto de neve.

O sol amadurecerá nas costas hieroglíficas dos lagartos, e abril adoçará o néctar que os insetos bebem no coração das flores. Talvez em maio se inicie a rebelião solar, com a primeira onda de calor sufocante. Uns culparão as alterações climáticas; outros, tempestades solares - fenómenos que sempre existiram. Contudo, na humanidade persistirá um sentimento de culpa pelo que fazemos ao planeta, especialmente com cataclismos, incêndios, inundações, terramotos e furacões cada vez mais frequentes e destrutivos. Apesar disso, os mercados continuarão a oferecer frutas de todas as espécies, cerejas e morangos em junho, e acreditar-se-á que a felicidade se alcança ao estender o corpo na areia da praia e esperar que o sol decida entre um bronzeado magnífico ou um cancro de pele.

Afinal, para ser feliz basta comprar uma camisa com palmeiras e botas de montanha para escalar ruínas, sem saber que escalamos as nossas próprias. A certa altura, a luz do sol começará a apagar-se. Quando chegar a noite de São João, com o solstício de verão, todos os nossos sonhos de luz terão recomeçado ou terminado. Estas são divagações diante de uma travessa de torrões de Natal.

Manuel Vicent | El País | 2024

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A minha mulher mandou-me às maias!

Via Pinterest
É muito interessante analisar que, muitas datas, sem sequer estarem no calendário, nem se fazer publicidade delas dois meses antes, as pessoas lembram-se sempre delas, ainda que não saibam porque se celebram.

A meio da manhã, dois senhores, com idade para serem meus pais, vinham a conversar, num caminho pelo monte, que passa atrás de minha casa. Conversa vai, conversa vem: "a minha mulher mandou-me às maias, e nem sei onde as vou arranjar" dizia um deles. 

Refletindo um pouco, esta tradição é fácil de se lembrar, no fundo, basta um qualquer inocente lembrar-se, trazer um braçado de giestas na mão e meter em tudo que é sítio, para que no burgo todos fiquem a saber que "têm de ir às maias!

Esta tradição das "maias" é mais um fenómeno do paganismo que a igreja católico-hipócrita-romana açambarcou como sendo sua, tal como fez com o Natal e com a Páscoa por exemplo, e que nada têm a ver com o cristianismo. E de um ritual pagão, passa-se rapidamente ao dogma religioso. E eu nem quero imaginar, o que me irá acontecer hoje - sabe-se lá que coisa ruim me irá empecer! - por não ter, ao contrário de todos os meus vizinhos, enfiado um bocado de giesta no buraco. Em todos os buracos diga-se! Se antigamente só se viam nos buracos das janelas, hoje em dia é mesmo em tudo que é sítio! É nas janelas das casas, é nas caixas do correio, nos portões... A paranóia pelas maias é tanta, que é ver os parolos, parados em plena auto-estrada, subir o monte, para ir cortar um bocado de giesta! E mal pára um parolo, param logo meia dúzia deles, todos contentes! 

Mas o sítio onde acho mais piada a meterem as maias é nos carros! Muito eu gostava de saber o que aquela gente pensa! O carro vai quê? Ficar abençoado? Eu nem quero imaginar, sabe-se lá, onde esta gente enfiará enfiará o ramo da giesta! Com bom lubrificante não sei não!

A ignorância é de facto uma bênção! Anda-se no mundo por ver andar ou outros. Ninguém se questiona, nem se pergunta, fazem-se as coisas simplesmente por se ver os outros fazerem. E eu como tenho o péssimo defeito de pensar pela minha cabeça, e a trinta de abril, prefiro deixar as flores amarelas onde estas devem estar: nas giestas e no monte.