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sábado, 6 de junho de 2026

AS MIL E UMA VIDAS DE MARJANE SATRAPI

Reportagem do jornal francês Libération que fez toda a primeira página com a notícia da morte de Marjane Satrapi e recorda a sua vida e obra:

 "A desenhadora e realizadora, símbolo da resistência iraniana, morreu aos 56 anos. Depois do enorme sucesso de Persepolis, soube diversificar-se e traçar o seu próprio caminho, reivindicando sempre uma grande independência de espírito e nunca deixando de apoiar os movimentos de revolta no seu país de origem.

Marjane Satrapi era, antes de mais, um perfil. Um rosto cujos traços nos são quase mais familiares quando desenhados pela sua linha negra e intensa. A sobrancelha arqueada, o olho amendoadado, aquele sinal no alto do nariz, enquadrado por uma espessa cabeleira negra como azeviche... E, na vida real, uma presença poderosa, sempre vestida de preto, empoleirada nas suas botas de plataforma, com um verdadeiro lado «punk», expressão frequentemente usada por quem a conheceu de perto ou de longe. Quase sempre com um cigarro na boca, fazia rir com facilidade, disparando observações mordazes numa linguagem direta e sem rodeios, assumindo um humor sem filtros e por vezes escatológico, numa tradição persa assumida. Todos falam da sua generosidade «incandescente».

Esse perfil tornou-se um ícone, ícone de um povo, e para além disso um símbolo da luta contra as ditaduras. «Quer seja exercida no Chile, na China, no Irão ou noutro lugar, uma ditadura assenta no mesmo processo», costumava dizer.

FRANQUEZA E ESPÍRITO LIVRE

«Não há nada mais universal do que as histórias pessoais», dizia também, citando Alexander Pushkin: «Se queres falar ao mundo, fala da tua pequena aldeia.»

E foi isso que fez. Contou a sua própria história, a do seu país, o Irão, onde nasceu em 1969. A Revolução Islâmica Iraniana abalou a sua infância. Dessa experiência nasceu Persepolis, narrado à altura da criança e da adolescente que foi.

Sabia ela até que ponto a obra iria marcar uma viragem? Mais tarde diria que pensava estar a fazer «algo importante», sem imaginar que aquela história pudesse tocar de forma tão universal: dois milhões de exemplares vendidos da banda desenhada, publicada em quatro volumes entre 2000 e 2004, e depois um filme, lançado em 2007, distinguido com o Prémio do Júri em Festival de Cannes, vencedor de um César e nomeado para os Óscares.

Transmitiu-nos o seu mundo a preto e branco. Um traço simples e direto que revolucionou o universo da banda desenhada e alterou profundamente a forma como o mundo olhava para os iranianos.

Quem era ela para além da obra?

«A obra e Marjane são a mesma coisa», assegura India Mahdavi. «Era bruta, selvagem, divertida, mostrava-se sem máscaras, indiferente aos partidos e às opiniões divergentes, com uma força de caráter imensa», acrescenta Mina Kavani.

Uma «ferida viva», resume a jornalista Mariam Pirzadeh, recordando as suas frases pontuadas por «azizam» («minha querida») e uma personalidade humilde apesar do sucesso.

«Fala-se pouco disso, mas Marjane era também extremamente discreta, apesar do seu temperamento extrovertido», observa Catherine Deneuve, que deu voz à mãe da autora no filme Persepolis. «Discreta também quanto à enorme quantidade de trabalho que fazia para concretizar um projeto, fosse um filme ou um livro.»


UMA TRABALHADORA INCANSÁVEL

Era uma trabalhadora obsessiva, qualidade transmitida pela mãe, que acreditava que, para triunfar, a filha precisava de desenvolver o máximo de competências possível.

Antes da revolução de 1979, a jovem Marji, filha única - algo relativamente raro na época -, cresceu num ambiente de grande liberdade, criada por um pai engenheiro e uma mãe estilista.

A história familiar já estava marcada pelos acontecimentos que abalaram o Irão: um dos seus bisavôs fora o último rei da dinastia Qajar, deposto em 1925; outro, diplomata, foi assassinado no início do século XX; um dos avôs dizia-se comunista.

E havia muitas mulheres livres na família, como a avó, por quem tinha enorme admiração e que lhe transmitiu o amor pelo cinema.

Na infância era fã de Bruce Lee e praticava karaté. Descobriu a ação política através de Z.

Dos pais dizia, numa entrevista ao Libération em 2002, que eram «muito corajosos, muito progressistas num país que não o era».

Queriam para ela um futuro fora da república islâmica, onde as perspetivas eram limitadas e onde a sua frontalidade e independência de espírito a colocavam em perigo constante.

O destino foi a Áustria. Obteve o diploma secundário no liceu francês de Viena, regressou depois ao Irão para estudar Belas-Artes e, em 1994, partiu de novo, desta vez definitivamente, a pedido dos pais.

Seguiu para Estrasburgo, onde estudou nas Artes Decorativas, antes de se instalar em Paris.

Foi aí que nasceu Persepolis.

ANTES E DEPOIS DE PERSEPOLIS

Na oficina da Associação, na Place des Vosges, partilhava espaço com autores como Joann Sfar, Christophe Blain, Emile Bravo e Emmanuel Guibert.

«Cansados de me ouvir falar do Irão, sugeriram-me que fizesse uma banda desenhada sobre isso», recordava.

O impacto foi enorme.

«Entrou nas nossas vidas como uma bala de canhão», descreve o desenhador Luz. «Com aquele preto tão denso e aquele traço tão decidido... Uma bala de canhão com batom vermelho vivo.»


UMA CARREIRA RICA E PROLÍFICA

Em Poulet aux prunes, um dos seus livros mais íntimos, conta a história de um tio-avô músico que morre de amor.

Quinze anos depois, é impossível não encontrar aí um eco da sua própria vida.

A 8 de abril de 2025 perdeu o amor da sua vida, Mattias Ripa. Pouco mais de um ano depois, a 4 de junho de 2026, foi anunciada a sua própria morte.

O último ano da sua vida ficou marcado por uma tristeza profunda e por uma incapacidade de recuperar da perda. Aos amigos que se preocupavam com ela, respondia sem rodeios que nada podia tirá-la daquele desespero.

Segundo o comunicado que anunciou o falecimento, Marjane Satrapi morreu «de tristeza».

O IRÃO NUNCA DEIXOU DE A CHAMAR

Apesar de ter procurado diversificar a sua carreira durante a década de 2010, realizando projetos sem ligação direta ao Irão, o país voltou inevitavelmente ao centro das suas preocupações.

Em setembro de 2022, a morte de Mahsa Amini desencadeou o movimento «Mulher, Vida, Liberdade».

Marjane Satrapi mobilizou-se intensamente para divulgar a revolta iraniana e chamar a atenção para a situação da laureada com o Nobel da Paz Narges Mohammadi.

Conseguiu reunir artistas, intelectuais e militantes de sensibilidades muito diferentes. Muitos membros da diáspora iraniana em França destacam a sua rara capacidade de unir pessoas para além das divisões políticas.

UMA VOZ SEM CONCESSÕES

O seu compromisso político não admitia compromissos. Apesar do amor profundo que sentia pela França e de se considerar profundamente francesa, recusou em janeiro de 2025 a Légion d'honneur, denunciando a «atitude hipócrita da França em relação ao Irão».

Para a realizadora Sepideh Farsi, o seu grande feito foi ter dado rostos às histórias iranianas.

«Foi a primeira voz iraniana a falar do Irão de forma íntima.»

Mina Kavani acrescenta:

«Foi a primeira mulher iraniana desde a revolução a ousar contar a sua própria história sem qualquer censura.»

No Irão, onde as bandas desenhadas eram proibidas quando Persepolis surgiu, cópias clandestinas circularam amplamente. Mais tarde, os DVDs do filme, legendados artesanalmente em persa, fizeram a obra chegar a milhares de pessoas.

Em Poulet aux prunes, escreveu:

«A vida é um suspiro, um suspiro de que tens de te apropriar.»

Marjane Satrapi apropriou-se dessa vida com toda a sua força. Partiu, mas permanece para sempre aquela pequena rapariga insolente de Persepolis: "Punk is not de (a ) d."

(Libération, 5 de Junho de 2026, por Hamdam Mostafavi)

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Fildel Castro e Che: Raízes de uma Revolução

Camaradas:


"Nos anos 50, o ideólogo argentino percorre a América Latina. Numa noite de verão, no México, encontra-se com o carismático revolucionário cubano. Das discussões apaixonadas nasce uma amizade imediata entre os dois homens que derrubarão a ditadura em Havana.

Esta é a história de um advogado que convence um médico na humidade pegajosa de uma noite mexicana. Em plena estação das chuvas, numa sala enevoada, envolta no cheiro dos charutos. O advogado é alto, com um bigode ainda tímido. Tem um rosto duro de homem determinado, olhos ligeiramente semicerrados que raramente encontram o seu sorriso. O médico é mais baixo. Ainda imberbe, mas não por muito tempo. Tem um riso fácil, mas quando escuta, franze as sobrancelhas. Os seus olhos de sonhador ficam encobertos. 

"Demasiado bonito para ser inteligente", pensou aquela que se tornou sua companheira, Hilda, ao vê-lo pela primeira vez. Os dois homens estão a aproximar-se dos trinta. O primeiro tem quase 29 anos, o segundo acaba de fazer 27. Em 1940, o México tinha visto morrer Trotsky e, com ele, uma certa esquerda. Quinze anos depois, a capital vê desfilar todos os revolucionários da América Latina. A Revolución, a verdadeira, está prestes a nascer. Nessa noite de verão de 1955, Fidel Castro e Che Guevara encontram-se pela primeira vez.

Fidel acabou de chegar ao México. Dois meses antes, as autoridades cubanas tinham-no amnistiado após quase dois anos de prisão. Devia cumprir quinze anos pela tentativa de golpe contra o regime de Fulgencio Batista. O jovem não suportou o golpe de Estado do coronel. Isso levou-o a atacar o quartel de Moncada, a 26 de julho de 1953, na esperança de provocar uma insurreição generalizada. O ataque foi um desastre combinado com um massacre. Mas Castro, poupado por um triz, entrou na lenda ao escrever a sua própria defesa. 

"A história absolver-me-á", declarou com uma veemência que nunca mais o abandonaria. Agora quer vingar-se e prepara uma expedição para libertar a sua ilha. Ernesto, por sua vez, está no México há mais tempo. Já há dez meses fugiu de outro golpe de Estado, na Guatemala. O argentino está na sua segunda viagem pela América Latina. Na primeira, de moto, deparou-se de frente com as desigualdades do continente, sem perceber realmente de onde vinham. No final da segunda, está convencido de que são resultado do braço do imperialismo americano. O mesmo que acabou de derrubar o presidente socialista Jacobo Arbenz, considerado culpado pela CIA e pela United Fruit Company de ir longe demais na sua reforma agrária. Já tinha lido Marx e Engels, mas foi uma economista peruana, Hilda Gadea Acosta, que completou a sua adesão ao comunismo, por amor tanto quanto por convicção.

"NÃO TE ABANDONAREI"

Na Guatemala, um cubano deu-lhe o apelido de "Che", pois usava esta interjeição tipicamente argentina a toda a hora. Esse amigo, Antonio Nico López, o apresentará aos Castro quando eles chegarem ao México. Primeiro apresenta-lhe Raúl, marxista como ele, depois os outros membros do Movimento 26 de Julho, criado por Fidel, um homem cujo carisma o argentino começa a perceber. Ernesto ainda navega entre as lutas de cada um para encontrar a que lhe permitirá salvar o mundo. Quer libertar a América Latina das garras do capitalismo. Sonha em construir um homem novo. Mas ainda não sabe como. Até aquela noite de 9 de julho de 1955.

Bastou uma noite. Dez horas, segundo a lenda, de discussões apaixonadas. Frente a frente. Olhos nos olhos. Che conta sobre a Guatemala e as suas indignações fundamentais; Fidel apresenta-lhe Cuba e a sua luta final. O argentino fica imediatamente impressionado por esse "homem excepcional". Castro vê um ideólogo convicto, radical, sem limites, de uma integridade fora do comum, quase cruel. Che quer mudar o mundo, Fidel propõe começar pelo seu país. É um amor à primeira vista revolucionário. Cada um encontra o que procura. O primeiro paira num romantismo desmedido que sonha em aterrar. O segundo tem os pés bem assentes num pragmatismo astuto, e sonha com inspiração para finalmente se erguer. 

Ao amanhecer, Fidel junta-se aos seus: "Camaradas, está feito: encontrei um médico para a nossa expedição." A guerrilha começa ali, no dia seguinte a essa noite febril, nas campanhas mexicanas até ao final de 1956. O Movimento 26 de Julho treina no manejo de armas. A travessia está a ser preparada. Fidel faz viagens de ida e volta aos Estados Unidos para angariar fundos, preparar o Granma, o barco que comprou e que deve navegar até Cuba. De volta ao acampamento, é um irmão mais velho impressionado pela abnegação e resistência do seu recruta argentino. O médico já é um soldado exemplar, tão determinado quanto as suas ideias são firmes. O seu movimento preocupa a polícia mexicana que os prende. 

Fidel e Che encontram-se na mesma cela, condenados a ruminar os seus planos para derrubar Batista, libertar a ilha das Caraíbas, talvez até salvar o mundo. As suas ideias escapam-se entre as paredes sujas de uma sala ladrilhada, sentados em simples camas de ferro. O cubano é libertado primeiro, considerado menos perigoso ideologicamente. Quando veste o casaco do seu fato demasiado largo, Guevara, de tronco nu e cinto desapertado, diz-lhe para não o esperar para zarpar. O outro vira-se: "Não te abandonarei."

PRIMEIRAS DESAVENÇAS DISCRETAS

O resto é mais conhecido, todo de fardas caqui e rostos barbudos. Primeiro há o naufrágio, no sul de Cuba, numa noite de dezembro de 1956. A lenta progressão nos pântanos onde assobiam as balas dos homens de Batista. Ali, Che teria finalizado a sua vocação de guerreiro. Perdendo um camarada, forçado a escolher entre uma caixa de medicamentos e outra de munições. O juramento de Hipócrates ficou preso na lama. Depois começa a lenda da Sierra Maestra: a de um grupo dizimado de uma dezena de homens que vai, em breve, reunir todos os oprimidos pelo capitalismo selvagem imposto por um ditador militar. 

A aparência atraente desses revolucionários hirsutos fará o resto. Fidel e Che acima de todos os outros. Um, tribuno e carismático, transpira autoridade. O outro, impávido e exemplar, impressiona pela sua intransigência. Ernesto Guevara está em todas as ações, em todas as operações. Inflige ao exército de Batista operações cirúrgicas, dolorosas, eficazes. Também cuida dos camponeses, instrui os novos recrutas. Castro nomeia-o segundo: Che torna-se comandante. Enquanto isso, Fidel ocupa a frente mediática, multiplica as entrevistas clandestinas na Sierra, atraindo novos guerrilheiros. É também aí que surgem as primeiras dúvidas, as primeiras desavenças discretas. Para tranquilizar os liberais, e sobretudo os americanos, o chefe da guerrilha jura em plena Guerra Fria não ter nada a ver com o comunismo. A Che, que fica indignado, promete o contrário. A dúvida persiste, mas Ernesto Guevara permanece fiel.

É mesmo ele quem vai ganhar a batalha decisiva de Santa Clara, no final de dezembro de 1958. O último golpe no regime que vê o seu ditador fugir, deixando os casinos de Havana e os turistas americanos assustados. A rota para a capital está aberta, os barbudos entram lá a 1 de janeiro, mas Che fica para trás para não roubar o protagonismo ao grande Fidel: este acaba de proclamar o triunfo da revolução num discurso em Santiago, que designa como nova capital. Só entra em Havana a 8 de janeiro com o nativo de Rosario. O desafio do poder vai abalar a amizade entre os dois homens. Primeiro ministro da Defesa, Fidel torna-se rapidamente primeiro-ministro e envia Che ao cadafalso, como carrasco. Será encarregado de julgar, rapidamente, os traidores de Batista que são executados em série. O argentino detém o apelido de "pequeno açougueiro de La Cabaña" porque não treme, tal como na floresta quando era necessário punir desertores reais ou supostos. Nada pode impedir a causa. E esta impõe, por vezes, decisões "difíceis". Ou melhor, desumanas.

MÁRTIR NA SUA PRÓPRIA CAUSA

É também uma forma de não expor demasiado o marxismo-leninismo reivindicado pelo Comandante. Porque, entretanto, Fidel navega entre as duas superpotências da época. Tenta apaziguar Washington – onde faz uma breve estadia multiplicando declarações tranquilizadoras –, enquanto se apoia no Partido Comunista Cubano – a formação mais sólida em 1959 na ilha –, mesmo que isso faça fugir os mais liberais que retomam o caminho das armas. Ernesto Guevara e Raúl Castro são da opinião de virar claramente para leste, longe do inimigo imperialista. A crescente tensão com os Estados Unidos acabará por convencer o Líder Máximo. E impõe ainda mais Guevara como uma figura central da revolução. 

Primeiro com a reforma agrária, poucos meses após modificar a Constituição para permitir "a um estrangeiro que se tenha particularmente destacado durante a guerrilha e recebido o grau de comandante" entrar no governo: só há um único interessado. Depois, multiplicando os cargos. No final de novembro de 1959, numa reunião com os líderes do movimento, Fidel pergunta: "Quem aqui é economista?" No fundo da sala, Ernesto levanta a mão. Surpresa geral. "Disseste comunista?" Não importa, Che Guevara, o homem que quer abolir o dinheiro, torna-se chefe do Banco Central. Assina até notas de 3 pesos, que hoje são peças de coleção.

Mas surgem nuvens entre Fidel e o seu soldado preferido. Após o episódio da Baía dos Porcos e o embargo americano, vem a crise dos mísseis, em 1962. Uma das piores da Guerra Fria, que deveria ver a URSS de Nikita Khrushchev, após uma negociação conduzida pelo Comandante, instalar lançadores a 200 km do território americano, antes de finalmente recuar, para grande desagrado do principal interessado. Fidel, bom tacticista político, e consciente da dependência do seu regime em relação a Moscovo, alinha-se com as escolhas do seu melhor aliado. 

O idealista Guevara não aceita. Tornado "embaixador da revolução", critica abertamente os líderes soviéticos, multiplica discursos virulentos, nomeadamente em Argel, em 1965, sobre a suposta complacência de Moscovo em relação ao seu rival americano. Aposta nos não-alinhados, única salvação possível para acabar com o capitalismo. De volta a Cuba, Fidel dá-lhe um sermão, e Ernesto decide, desautorizado e envergonhado, ir embora para exportar a revolução. O advogado cubano anuncia a partida do médico argentino lendo a sua carta de despedida perante a Assembleia Nacional em março de 1965: "Outras terras do mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços" – o texto inspirará a famosa canção Hasta Siempre de Carlos Puebla. Primeiro no Congo, numa revolta condenada contra Mobutu. Depois na Bolívia, com um pequeno grupo de cubanos que se enterra na selva. Esta última missão parece um plano bem preparado. O país não está pronto para a revolução. E o grupo revolucionário acaba por ser descoberto. Che será executado, enfraquecido por meses de privações, mártir da sua própria causa, morto pelo seu extremismo.

Não há dúvida de que Fidel sabia que o seu amigo nunca voltaria. Deixou-o partir com o coração pesado ou aliviado? A questão permanece em aberto. Mas, mesmo morto, Che serve para fazer sobreviver a sua revolução. Celebrado como herói e exemplo a seguir. Até o matar uma enésima vez, erigindo a sua silhueta de Rimbaud das Américas num símbolo que hoje é vendido em t-shirts por dólares".

Fidel Castro et Che Guevara, au clair de la lutte / Benjamin Delille / Libération 

(Fidel Castro nasceu no dia de hoje, 13 de Agosto de 1926)

sábado, 3 de agosto de 2024

História: Como o Vermelho Passou de Cor Pacifista a Cor Política?

"O vermelho domina o cortejo do 1º de Maio, aparece nos logótipos de muitos partidos de esquerda, está presente nas grandes manifestações dos sindicatos... No entanto, durante muito tempo o vermelho não teve nenhuma conotação política ou ideológica. Na Europa, essa cor vibrante, durante muito tempo um símbolo de poder e riqueza, foi usada inicialmente para alertar sobre o perigo. Um legado que ainda encontramos nos nossos semáforos e sinais de proibição. Sob o Antigo Regime, durante grandes movimentos de multidões, as autoridades públicas agitavam uma bandeira ou um pano vermelho para convidar a multidão a se dispersar.

O dia 17 de julho de 1791 marca uma viragem na percepção dessa cor. "Havia muita gente no Campo de Marte que veio exigir a destituição de Luís XVI, após a fuga para Varennes. A bandeira vermelha foi exibida para convidar a multidão a se dispersar; era uma bandeira pacífica, e, sem se saber por quê, a guarda nacional atirou na multidão", relata o historiador especializado em cores Michel Pastoureau. Os disparos causaram cerca de uma centena de mortos, que foram elevados à condição de mártires da Revolução em curso. "A partir desse momento, o vermelho adquiriu uma significação política. De neutra, até pacifista, tornou-se insurrecional, o emblema da multidão que veio exigir a destituição de Luís XVI. Esse é o ponto de partida de tudo o que sabemos sobre o vermelho da esquerda, da extrema esquerda."

DISCURSOS

A bandeira vermelha estará presente em todas as revoltas populares, da Revolução Francesa ao século XIX. Após a abdicação de Luís Filipe, durante a revolução de 1848, o povo até pediu que ela fosse substituída pela bandeira tricolor. Alphonse de Lamartine, ministro das Relações Exteriores do governo provisório, opôs-se a isso num discurso histórico pronunciado diante do Hôtel de Ville de Paris: "A bandeira tricolor deu a volta ao mundo com a República e o Império, com as vossas liberdades e glórias, e a bandeira vermelha apenas deu a volta ao Campo de Marte, manchada com o sangue do povo." Estandarte dos insurgentes da Comuna de 1871, o vermelho transfere-se pouco a pouco ao socialismo. 

Os movimentos operários organizam-se e fazem dele o seu símbolo em toda a Europa. "A bandeira vermelha já estava bem estabelecida antes da revolução soviética de 1917 a 1922. Ela torna-se o emblema da URSS, do comunismo e, por extensão, dos países afiliados", observa o historiador. Mas cuidado para não se deixar levar por uma leitura anacrônica. A Praça Vermelha em Moscovo não recebe esse nome nem dos tijolos ao redor, nem de uma associação tardia com o comunismo. Em russo antigo, "krasny" tanto significa "belo" como "vermelho". A Praça Vermelha deve, portanto, ser compreendida no sentido de praça "bela".

"FORTE" 

Se hoje o vermelho pode parecer indissociável da esquerda e, em particular, do comunismo, essa norma cromática, muito difundida na Europa e na Ásia, não é universal. Um sinal da ambivalência social e cultural das cores: nos Estados Unidos e no Canadá, o vermelho é republicano, ou seja, conservador. "Para um olhar ocidental, nenhuma cor jamais encarnou tanto um movimento ideológico porque é a cor mais forte. É a primeira cor no plano simbólico", destaca Michel Pastoureau. Essa primazia não é por acaso. O vermelho é a primeira cor dominada pelo ser humano para pintar e tingir: "Na alta Antiguidade, um tecido tingido é mais frequentemente vermelho porque não se sabia fazer em outras cores." Longe de ser a cor favorita dos franceses, o vermelho mantém sua aura de primeira cor simbólica.

"Quand la gauche s’est mise à voir rouge" / Marlène Thomas / Libération (3 de Agosto de 2024)