"A desenhadora e realizadora, símbolo da resistência iraniana, morreu aos 56 anos. Depois do enorme sucesso de Persepolis, soube diversificar-se e traçar o seu próprio caminho, reivindicando sempre uma grande independência de espírito e nunca deixando de apoiar os movimentos de revolta no seu país de origem.
Marjane Satrapi era, antes de mais, um perfil. Um rosto cujos traços nos são quase mais familiares quando desenhados pela sua linha negra e intensa. A sobrancelha arqueada, o olho amendoadado, aquele sinal no alto do nariz, enquadrado por uma espessa cabeleira negra como azeviche... E, na vida real, uma presença poderosa, sempre vestida de preto, empoleirada nas suas botas de plataforma, com um verdadeiro lado «punk», expressão frequentemente usada por quem a conheceu de perto ou de longe. Quase sempre com um cigarro na boca, fazia rir com facilidade, disparando observações mordazes numa linguagem direta e sem rodeios, assumindo um humor sem filtros e por vezes escatológico, numa tradição persa assumida. Todos falam da sua generosidade «incandescente».
Esse perfil tornou-se um ícone, ícone de um povo, e para além disso um símbolo da luta contra as ditaduras. «Quer seja exercida no Chile, na China, no Irão ou noutro lugar, uma ditadura assenta no mesmo processo», costumava dizer.
FRANQUEZA E ESPÍRITO LIVRE
«Não há nada mais universal do que as histórias pessoais», dizia também, citando Alexander Pushkin: «Se queres falar ao mundo, fala da tua pequena aldeia.»
E foi isso que fez. Contou a sua própria história, a do seu país, o Irão, onde nasceu em 1969. A Revolução Islâmica Iraniana abalou a sua infância. Dessa experiência nasceu Persepolis, narrado à altura da criança e da adolescente que foi.
Sabia ela até que ponto a obra iria marcar uma viragem? Mais tarde diria que pensava estar a fazer «algo importante», sem imaginar que aquela história pudesse tocar de forma tão universal: dois milhões de exemplares vendidos da banda desenhada, publicada em quatro volumes entre 2000 e 2004, e depois um filme, lançado em 2007, distinguido com o Prémio do Júri em Festival de Cannes, vencedor de um César e nomeado para os Óscares.
Transmitiu-nos o seu mundo a preto e branco. Um traço simples e direto que revolucionou o universo da banda desenhada e alterou profundamente a forma como o mundo olhava para os iranianos.
Quem era ela para além da obra?
«A obra e Marjane são a mesma coisa», assegura India Mahdavi. «Era bruta, selvagem, divertida, mostrava-se sem máscaras, indiferente aos partidos e às opiniões divergentes, com uma força de caráter imensa», acrescenta Mina Kavani.
Uma «ferida viva», resume a jornalista Mariam Pirzadeh, recordando as suas frases pontuadas por «azizam» («minha querida») e uma personalidade humilde apesar do sucesso.
«Fala-se pouco disso, mas Marjane era também extremamente discreta, apesar do seu temperamento extrovertido», observa Catherine Deneuve, que deu voz à mãe da autora no filme Persepolis. «Discreta também quanto à enorme quantidade de trabalho que fazia para concretizar um projeto, fosse um filme ou um livro.»
UMA TRABALHADORA INCANSÁVEL
Antes da revolução de 1979, a jovem Marji, filha única - algo relativamente raro na época -, cresceu num ambiente de grande liberdade, criada por um pai engenheiro e uma mãe estilista.
A história familiar já estava marcada pelos acontecimentos que abalaram o Irão: um dos seus bisavôs fora o último rei da dinastia Qajar, deposto em 1925; outro, diplomata, foi assassinado no início do século XX; um dos avôs dizia-se comunista.
E havia muitas mulheres livres na família, como a avó, por quem tinha enorme admiração e que lhe transmitiu o amor pelo cinema.
Na infância era fã de Bruce Lee e praticava karaté. Descobriu a ação política através de Z.
Dos pais dizia, numa entrevista ao Libération em 2002, que eram «muito corajosos, muito progressistas num país que não o era».
Queriam para ela um futuro fora da república islâmica, onde as perspetivas eram limitadas e onde a sua frontalidade e independência de espírito a colocavam em perigo constante.
O destino foi a Áustria. Obteve o diploma secundário no liceu francês de Viena, regressou depois ao Irão para estudar Belas-Artes e, em 1994, partiu de novo, desta vez definitivamente, a pedido dos pais.
Seguiu para Estrasburgo, onde estudou nas Artes Decorativas, antes de se instalar em Paris.
Foi aí que nasceu Persepolis.
ANTES E DEPOIS DE PERSEPOLIS
Na oficina da Associação, na Place des Vosges, partilhava espaço com autores como Joann Sfar, Christophe Blain, Emile Bravo e Emmanuel Guibert.
«Cansados de me ouvir falar do Irão, sugeriram-me que fizesse uma banda desenhada sobre isso», recordava.
O impacto foi enorme.
«Entrou nas nossas vidas como uma bala de canhão», descreve o desenhador Luz. «Com aquele preto tão denso e aquele traço tão decidido... Uma bala de canhão com batom vermelho vivo.»
UMA CARREIRA RICA E PROLÍFICA
Em Poulet aux prunes, um dos seus livros mais íntimos, conta a história de um tio-avô músico que morre de amor.
Quinze anos depois, é impossível não encontrar aí um eco da sua própria vida.
A 8 de abril de 2025 perdeu o amor da sua vida, Mattias Ripa. Pouco mais de um ano depois, a 4 de junho de 2026, foi anunciada a sua própria morte.
O último ano da sua vida ficou marcado por uma tristeza profunda e por uma incapacidade de recuperar da perda. Aos amigos que se preocupavam com ela, respondia sem rodeios que nada podia tirá-la daquele desespero.
Segundo o comunicado que anunciou o falecimento, Marjane Satrapi morreu «de tristeza».
O IRÃO NUNCA DEIXOU DE A CHAMAR
Apesar de ter procurado diversificar a sua carreira durante a década de 2010, realizando projetos sem ligação direta ao Irão, o país voltou inevitavelmente ao centro das suas preocupações.
Em setembro de 2022, a morte de Mahsa Amini desencadeou o movimento «Mulher, Vida, Liberdade».
Marjane Satrapi mobilizou-se intensamente para divulgar a revolta iraniana e chamar a atenção para a situação da laureada com o Nobel da Paz Narges Mohammadi.
Conseguiu reunir artistas, intelectuais e militantes de sensibilidades muito diferentes. Muitos membros da diáspora iraniana em França destacam a sua rara capacidade de unir pessoas para além das divisões políticas.
UMA VOZ SEM CONCESSÕES
O seu compromisso político não admitia compromissos. Apesar do amor profundo que sentia pela França e de se considerar profundamente francesa, recusou em janeiro de 2025 a Légion d'honneur, denunciando a «atitude hipócrita da França em relação ao Irão».
Para a realizadora Sepideh Farsi, o seu grande feito foi ter dado rostos às histórias iranianas.
«Foi a primeira voz iraniana a falar do Irão de forma íntima.»
Mina Kavani acrescenta:
«Foi a primeira mulher iraniana desde a revolução a ousar contar a sua própria história sem qualquer censura.»
No Irão, onde as bandas desenhadas eram proibidas quando Persepolis surgiu, cópias clandestinas circularam amplamente. Mais tarde, os DVDs do filme, legendados artesanalmente em persa, fizeram a obra chegar a milhares de pessoas.
Em Poulet aux prunes, escreveu:
«A vida é um suspiro, um suspiro de que tens de te apropriar.»
Marjane Satrapi apropriou-se dessa vida com toda a sua força. Partiu, mas permanece para sempre aquela pequena rapariga insolente de Persepolis: "Punk is not de (a ) d."
(Libération, 5 de Junho de 2026, por Hamdam Mostafavi)

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