quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Talento e Coragem de Marjane Satrapi

Marjiane Satrapi, autora de Persépolis morreu hoje aos 56 anos, noticiou logo pela manhã o jornal francês Le Monde. Segundo a família, morreu "de tristeza", na sequência da morte do marido ocorrida há um ano.

E esta reportagem do El País que aqui vou deixar, a propósito de ter vencido o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades estava aqui nos rascunhos desde abril de 2024. Fica agora  disponível para todos lerem para a para lembrar este triste dia, porque, ainda por cima, por estes dias tinha tirado o livro e o filme da estante e pensei que tinha de rever...


"Uma menina iraniana olha para a frente, com os braços cruzados. Usa o véu, e tem uma certa firmeza nos olhos. Apenas duas vinhetas depois, vêem-se homens e mulheres exaltados, protestando com o punho erguido: começa a Revolução Islâmica. Esses desenhos, que deram início no ano 2000 a Persépolis, mudaram a história dessa menina, da novela gráfica e, talvez, até do Irão. Tanto que durante anos Marjane Satrapi (Rasth, 54 anos) foi solicitada a retratar aquela jovem, ao que ela respondia: "Cresceu". Tornou-se mulher. Lenda da banda desenhada. Cineasta. Franco-iraniana. Feroz opositora do regime do seu país. E agora, Prémio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades, como anunciou ontem a fundação que entrega os prémios.

O júri definiu Satrapi, residente em Paris, como "um símbolo do compromisso cívico liderado pelas mulheres", qualificando-a como "uma das pessoas mais influentes no diálogo entre culturas e gerações" e recordou que em "Persépolis plasma exemplarmente a busca de um mundo mais justo e integrador". E ela, numa conferência de imprensa por videoconferência, dedicou ontem o prémio à luta pela liberdade no seu país e ao rapper Toomaj Salehi, condenado à morte há alguns dias: "É a voz de todo o país".

Aproveitou até para mandar um recado a Josep Borrell, alto representante da UE para Assuntos Exteriores e Política de Segurança: "Se o tivesse à minha frente, dava-lhe uma bofetada. O Irão está a travar cinco guerras neste momento. O que mais tem a Guarda Revolucionária de fazer para ser declarada grupo terrorista? Quando se falava muito do Irão no Ocidente, não matavam ninguém. Quando se deixou de falar, começaram as execuções. E o que faz a Europa em vez de os condenar? Torna o Irão presidente do fórum social de direitos humanos na ONU. Ninguém do Irão pediria ao Ocidente para fazer a revolução, mas pelo menos que reconheça que 85% da população não quer essa ditadura religiosa. A opinião pública conta e para isso importam estes prémios".


Assim, este Princesa de Astúrias reconhece muitas coisas ao mesmo tempo, exatamente o que representam as obras de Satrapi. Acima de tudo, o talento de uma narradora capaz de aprender e dominar novos formatos. Mal tinha experiência, além de frequentar há pouco tempo a Escola de Artes Decorativas de Estrasburgo, quando construiu a sua obra-prima. Ela acreditava que nunca encontraria um editor, que tudo acabaria em fotocópias para os seus amigos, mas tornou-se um marco na banda desenhada.

Persépolis, desenha a sua infância em Teerão durante a Revolução Islâmica que, em 1979, derrubou o xá da Pérsia e elevou ao poder o aiatola Khomeini, até à sua chegada à Europa, para onde os seus pais a enviaram e onde reside desde então. A família de Satrapi, acomodada e progressista, simpatizava inicialmente com a revolução, mas quando esta foi dominada pelos setores islamistas derivou num regime teocrático que restringiu as liberdades individuais e se lançou numa guerra com o Iraque em 1980, sob a vigilância dos Guardiães da Revolução. Tudo isto é narrado em Persépolis.

Entre as suas novelas gráficas, estão também Bordados, que narra a vida das mulheres iranianas, e Frango com Ameixas, sobre os últimos oito dias de vida de um parente de Satrapi chamado Nasser Ali, um conhecido intérprete de tar, o alaúde tradicional iraniano. Mas Satrapi também não sabia muito sobre cinema quando se deixou convencer a adaptar Persépolis para cinema, em colaboração com Vincent Paronnaud. Recebeu ex aequo o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2007 e, depois, a primeira nomeação de uma criadora para o melhor filme de animação na história dos Óscares.

Mas o Princesa de Astúrias também elogia a coragem de uma voz sempre pronta a dizer o que pensa. A detestar o uso do véu, como símbolo de submissão, e a defender, ao mesmo tempo, que as mulheres que queiram possam usá-lo. A definir-se "muito feminista" e a rejeitar categoricamente o patriarcado, bem como a luta concebida como mulheres contra homens: "Ninguém tem o direito de dominar ninguém. Somos todos iguais. Não há raças, somos todos da raça humana". "Há muito poucas diferenças entre um judeu, muçulmano ou católico fanático. O problema da religião é que impede as pessoas de falar e de refletir, pretende dar respostas em vez de suscitar perguntas", acrescentou ontem.

Embora os seus gritos por justiça e contra o poder opressor, tanto nas suas entrevistas como na sua arte, se dirijam sobretudo para o seu país. Recentemente, Satrapi voltou à banda desenhada para coordenar Mulher. Vida. Liberdade, antologia onde reuniu estrelas como Paco Roca e Joan Sfarr com autoras iranianas como ela própria ou Shabnam Adiban, para apoiar os protestos que agitam o seu país.

"Vendi milhões e não sei quantas centenas de conferências dei. Mudei alguma coisa? Que sei eu. Despertei a curiosidade das pessoas? Sim. Contribuí um bocadinho. Só um bocadinho, mas só assim se muda o mundo", refletia em novembro com o EL PAÍS. Embora, ainda hoje, não tenha claro o impacto real da obra: "Funcionou porque foi um bom livro, honesto. Mas muitas vezes tenho a impressão de que estou a convencer pessoas já convencidas. Se alguém como eu recebe este prémio, o mundo deve estar muito mal. Não sou super simpática nem super tolerante".

Sem comentários:

Enviar um comentário