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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Hitler Não Foi Eleito em Eleições Livres

Há coisas que se repetem até à exaustão no espaço público, porque pensamos que é verdade, e esta até eu repetia erradamente, mas deixarei de o fazer: Hitler não foi eleito democraticamente.

"Johann Chapoutot, historiador da Sorbonne, vendeu 70.000 exemplares em França de Irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?, sobre os agitados anos que antecederam a nomeação do líder nazi como chanceler do Reich, em janeiro de 1933. 

A sua tese é que a chegada de Hitler não foi inevitável, mas sim um cálculo de círculos políticos, económicos e militares que pensavam poder domesticá-lo e manipulá-lo. E afirma que há muitas ideias falsas sobre esse período.

Esta tese não tem nada de revolucionário. É o que todos os historiadores sabem. Mas contrasta com o que se diz no espaço mediático, onde se repete que Hitler foi eleito - o que não é verdade -, que os nazis ganharam as eleições - o que também não é certo -, e que a democracia é problemática porque às vezes a massa vota na extrema-direita, o que não foi o caso.

Nem sequer nas eleições de 5 de março de 1933?


Os nazis obtiveram 44%, mas em condições não democráticas. A verdadeira evolução interrompeu-se a 6 de novembro de 1932 (33%), as últimas eleições livres, e aí os nazis estavam em queda livre, como noutros escrutínios locais.

E à beira da cisão.

Sim, porque uma grande parte do aparelho, como o número dois, Gregor Strasser, e o presidente do grupo parlamentar, Wilhelm Frick, estavam prestes a sair. Além disso, a hierarquia em torno de Hitler, sobretudo Goebbels, constata um fracasso. Recordo isso e exploro as motivações e comportamentos dos atores sociais que colocaram os nazis no poder precisamente quando atravessavam grandes dificuldades e não havia qualquer lógica democrática.

Menciona o mundo empresarial, os latifundiários, os militares, mas quase não refere o meio cultural, a intelectualidade.

Porque não tem peso. Falo de quem, nesse período, tinha o poder. Recordo que desde março de 1930 não havia democracia parlamentar na Alemanha porque o círculo próximo do presidente Von Hindenburg decidiu abusar da Constituição para confiscar o poder. Esse círculo era composto por militares, pelo seu filho Oskar, também latifundiário, financeiros, seguradoras, banqueiros, industriais e altos funcionários. Foram decisivos na pressão sobre o presidente. Os últimos a alinhar com a solução Hitler foram os grandes exportadores do Ruhr, porque os nazis tinham projetos autárquicos que os inquietavam.

Diz que a missão histórica do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) era captar eleitores tentados pelo marxismo e levá-los para o nacionalismo.

Essa era a missão explícita em 1919, daí o nome absurdo, puro marketing. Havia indicadores de direita (nacional e alemão) e supostos indicadores de esquerda (socialista e trabalhadores). Pura fachada e propaganda, porque a linha nazi era de extrema-direita desde o início. Mas existia essa ideia de evitar que a massa flutuante fosse para a solução comunista e internacionalista. Estamos em pleno contexto revolucionário nessa época. Na realidade, fracassaram. O eleitorado nazi era de direita. O grosso era a pequena classe média, aterrorizada pela ideia comunista e pelo medo de cair na proletarização. Todos os estudos mostram que o voto operário e dos desempregados foi, na sua esmagadora maioria, para social-democratas e comunistas. Os ganhos dos nazis até julho de 1932 vieram dos abstencionistas e do eleitorado de direita.

Compara Macron com Von Papen (vice-chanceler de Hitler, que o promoveu). Porquê? Também dará o poder à extrema-direita?

A estatística fala por si. Havia dois deputados do Reagrupamento Nacional (RN, o partido de Le Pen) em 2017 e agora há 139. Macron deu entrevistas a meios como Valeurs Actuelles, condenado por incitação ao ódio racial. Este homem foi eleito duas vezes contra a extrema-direita. Esse era o seu mandato, o único. Não era destruir o serviço público, nem dar dinheiro ao senhor Arnault (dono do grupo Louis Vuitton). O seu mandato era travar a extrema-direita e fez exatamente o contrário. Efetivamente, tem o mesmo papel que Von Papen na história. Era um liberal autoritário que fez uma política de oferta, a favor do patronato, de destruição do Estado social e desregulação do mercado de trabalho. Essa é a parte liberal. A parte autocrática é quando, em França, não se respeita o resultado das eleições legislativas.

Nos anos trinta havia porosidade entre a direita e a extrema-direita. Vê um paralelismo?

Falo mais do centro extremo. Em França, Os Republicanos não contam para nada e estão condenados a desaparecer. A verdadeira nova direita é o centro extremo macronista. A extrema-direita e o extremo-centro têm o mesmo inimigo: a esquerda - e não apenas a extrema-esquerda, mas também os social-democratas e os sindicalistas cristãos. Têm a mesma base eleitoral, a pequena burguesia, e os mesmos mecenas.

Extremo-Centro?

Como historiador, levo as palavras a sério. As pessoas em torno de Von Papen apresentavam-se como centristas e moderadas. O mesmo acontece hoje em torno de Macron. Tomo esse conceito e acrescento-lhe “extremo” porque esses supostos centristas são, na realidade, extremistas, como estudou o professor Pierre Serna. Quando se trata de defender os seus interesses e o seu poder, vão até ao fim. Não respeitam os resultados eleitorais, disparam balas de borracha sobre a multidão. Ideologicamente, a extrema-direita e o extremo-centro têm a mesma cultura política. São darwinistas sociais, nacionalistas, conservadores. Em suma, têm tudo para se entender e, de facto, entendem-se e aliam-se. Mas há sempre essa ambiguidade e hipocrisia de fazer concessões constantes à direita e à extrema-direita e, quando há eleições, dizer que são o “muro”. É uma perversidade monstruosa.

La Vanguardia / 26 de Abril 2026

domingo, 19 de outubro de 2025

Avisos do Nazismo para os Dias de Hoje



Enquanto a grande generalidade da população não vê o inevitável, ao menos hoje os alunos não precisam de uma visita de estudo, podem assistir à repetição do que foi a subida do fascismo ao poder nos mais diversos países. A propósito do livro "A mentalidade nazi", o jornal espanhol La Vanguardia entrevistou o escritor Laurence Rees e aqui fica essa entrevista:

"No seu livro, Rees narra como os alemães “votaram para nunca mais votar: a democracia tinha-os traído”.

As teorias da conspiração, cada vez mais frequentes, costumam provocar hilaridade, mas muitas delas não são inocentes e algumas podem até tornar-se criminosas em larga escala. O historiador britânico Laurence Rees aponta as teses conspiracionistas como um dos veículos utilizados pelo nazismo na Alemanha para consolidar o seu poder; a pior delas deu origem à perseguição contra os judeus, que resultou em seis milhões de mortos. Rees acaba de publicar Na Mente Nazi (Crítica), um ensaio estruturado em torno de doze recursos utilizados pelo nacional-socialismo e que são perturbadoramente reconhecíveis na sociedade atual. Na realidade, trata-se, como indica o subtítulo do livro, de doze avisos.

A investigação de Rees é uma análise psicológica da mentalidade do movimento que levou o mundo ao desastre da Segunda Guerra Mundial, mas sobretudo da dos seus seguidores. “Durante 35 anos – explica a La Vanguardia – estive interessado nas mentalidades que levaram as pessoas que apoiaram o nazismo a cometer atos tão terríveis, e em saber porque é que tantos, ao falar deles, não expressavam qualquer remorso.” O resultado é um volume que reúne métodos utilizados pelos nazis para manipular mentalmente a população, bem como dinâmicas psicológicas das quais se aproveitaram.

A difusão de teorias da conspiração é uma das mais marcantes, pois o paralelismo com o que acontece hoje é, no mínimo, inquietante. A mais importante dessas teorias forneceu a base da narrativa sobre a qual se construiu o Holocausto. É certo que a ascensão nazi não se pode explicar sem a Grande Guerra, mas, no entender de Rees, não pelo Tratado de Versalhes, como se assume habitualmente, e sim pelas manobras dos generais alemães para ocultar a sua incompetência.

“Quando começou a guerra – explica o historiador – os militares estavam convencidos de que obteriam uma vitória rápida, e estiveram prestes a consegui-lo, mas o conflito ficou estagnado nas trincheiras.” Abriu-se assim a porta a uma derrota que acabaria por se concretizar quatro anos mais tarde. “Assumiram os militares a responsabilidade pela derrota e admitiram o erro? Não. Em vez disso, culparam os judeus e as forças de esquerda.” Nascia o mito da “punhalada pelas costas”, em que Hitler acreditou firmemente e que lhe permitiu apresentar-se, mais tarde, como uma vítima do establishment. Pouco depois, os judeus tornar-se-iam o alvo do nacional-socialismo.




Esse mito, por sua vez, servia para unir os alemães e reforçar a ideia do “nós e eles” – outra das técnicas nazis. Esse outro grupo, “eles”, identificado como o inimigo da Alemanha, seria depois facilmente desumanizado pela propaganda oficial. “Hoje essa ideia do ‘nós e eles’ está em todo o lado”, argumenta Rees, que aponta como exemplo as claques radicais do futebol, mas que também se pode ver nos discursos xenófobos contra a imigração ou no “América primeiro” de Trump.

O historiador dedica um dos capítulos ao que chama “corrupção da juventude”. Segundo explica, os jovens foram um alvo primordial dos fascismos, tal como o são hoje para os movimentos de extrema-direita. A razão é explicada pelas neurociências: o córtex pré-frontal é a parte do cérebro que regula o comportamento social e modera os impulsos. “Mas esta parte não se desenvolve totalmente antes dos 25 anos. Por isso, certos discursos baseados na força tiveram tanto impacto nos jovens.” “Não é por acaso também que os exércitos se alimentam de jovens como força de choque”, acrescenta.

A antipolítica é outro dos ingredientes fundamentais. Hoje, como naqueles tempos, ascendem os partidos que propõem uma rejeição total do sistema político vigente. Naquela época, os nazis usaram esse recurso, que levou, nas eleições de 1932 – as que deixaram Hitler a um passo do poder – a que a maioria dos alemães votasse no NSDAP ou nos comunistas. “Ou seja, a maioria dos alemães votou para nunca mais votar, o que não tem precedentes na história. Por que o fizeram? A democracia tinha-os traído.”

O catálogo nazi que o autor expõe completa-se com apresentar o líder como herói; atuar em conivência com as elites; perseguir e atacar os direitos humanos; explorar a fé (se os teus seguidores têm fé absoluta em ti, de nada serve argumentar com eles); intensificar o racismo; esmagar a resistência; matar à distância (as câmaras de gás representavam a execução em escala industrial, mas também protegiam psicologicamente os carrascos) e, sobretudo, fomentar o medo.

Rees insiste que o que aconteceu com o nazismo não pode ser aplicado como modelo ao presente, mas sublinha que os paralelismos são evidentes. “É muito importante compreender que as pessoas são moldadas pelo tempo em que vivem. Por isso, é impossível que o nazismo volte, porque o partido nazi, felizmente, já não existe. Mas, em contrapartida, muitos dos seus valores fundamentais – como o antissemitismo, o racismo ou o nacionalismo violento – continuam entre nós.”

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Onde se Queimam Livros

Porque hoje é o dia mundial do livro:


 No dia 10 de Maio de 1933, o Hitler fez a primeira queima de livros pública na Alemanha. A biblioteca inteira do Instituto de Ciências Sexuais da Alemanha foi juntada e ateada fogo. Perdeu-se qualquer coisa como entre doze e vinte e cinco mil livros. 

domingo, 23 de junho de 2024

O Futebol Durante o Nazismo

Junho de 2024. Joga-se o Europeu de futebol na Alemanha. Europeu que eu vi talvez uma horita, somando os dois jogos da seleção e já não conheço metade dos jogadores. E é em Belim, na Alemanha, que está patente uma exposição sobre o futebol no tempo do nazismo, que veio descrita nos dois diários espanhóis, o El País e o La Vanguadia e que achei muito interessante: 

"Os grandes eventos desportivos, como os Jogos Olímpicos de 1936, serviram ao Reich como altifalantes do nazismo. Uma exposição no Olímpico de Berlim mostra isso.Adolf Hitler elogiava as virtudes do desporto, especialmente o seu efeito entre os jovens. “Que corpos tão maravilhosos podem ser vistos hoje!”, comentou certa vez, após contemplar a foto de uma nadadora. Mas, no que toca ao exercício físico, não se pode dizer que pregasse pelo exemplo. “Recusava praticar qualquer desporto”, escreve nas suas memórias Albert Speer, o arquitecto favorito do Führer, confidente e ministro do Armamento do Reich: “Tampouco mencionou alguma vez tê-lo feito na sua juventude”.

Aos nazis, contudo, o que lhes interessava no desporto era a sua capacidade como arma de manipulação em massa. Os grandes acontecimentos desportivos, como os jogos de futebol, cenário de paixões arrebatadas, eram a ocasião ideal para inocular a ideologia fascista entre as multidões

Um bom exemplo disso é a exposição "Sport. Masse. Macht. Fußball im Nationalsozialismus" (Desporto. Massas. Poder. O futebol durante o nazismo), que se encontra no Museu do Desporto de Berlim, num edifício construído pelos nazis dentro do complexo olímpico, cujo estádio acolherá a final do Euro 2024, num momento em que a ascensão da extrema-direita - AfD foi a segunda força mais votada nas eleições europeias do passado dia 9 - preocupa o continente.

“O futebol já era um desporto de massas nos anos 20. Todos os fins de semana, milhares de pessoas de diferentes idades e classes sociais juntavam-se nos estádios. Para os nazis, esses espetáculos eram uma forma ideal de procurar o apoio de uma maioria que ainda não tinham”, explica Julian Rieck, historiador e curador da exposição. “No futebol, criava-se uma atmosfera de unidade que permitia praticar em massa gestos e rituais como a saudação nazi”.

A exposição mostra como o desporto foi utilizado para criar uma identidade comum e como ferramenta de propaganda no estrangeiro. A partir de abundante documentação, fotografias históricas e recortes de jornais, a mostra percorre o destino de dezenas de clubes judaicos de futebol durante a ascensão do nazismo e revela um aspeto pouco conhecido dos campos de concentração nazis: como também lá se jogou futebol. E como alguns dos seus prisioneiros salvaram a vida graças a isso.

A incrível história do burgalês Saturnino Navazo destaca-se entre os muitos exemplos de vidas de desportistas truncadas pelo nazismo. Navazo tinha sido jogador de segunda divisão antes de se alistar no exército republicano durante a guerra civil espanhola. Em 1939, escapou pelos Pirenéus para França: ficou internado no campo de Argelès-sur-Mer até que o governo francês enviou os republicanos espanhóis para trabalhar na indústria de armamento nazi.

Em Mauthausen, acabou por ser capitão da equipa de futebol espanhola e provavelmente graças a isso salvou-se a si mesmo e a um órfão judeu de oito anos, Siegfred Meir, que fez passar por seu filho quando o campo foi libertado. “Biografias como a de um espanhol que chega a um campo de concentração alemão e salva um menino judeu de Frankfurt evidenciam que o nazismo nasceu na Alemanha mas afetou toda a Europa”, assegura Rieck.

Um dos casos notórios de propaganda através do desporto é o jogo entre as selecções de futebol de Inglaterra e Alemanha, realizado a 4 de dezembro de 1935 em Londres, precisamente em White Hart Lane, o estádio do Tottenham Hotspur, equipa com uma notável afición judaica. Para essa ocasião, o governo nazi organizou a deslocação de 10.000 adeptos que fariam a saudação nazi durante o encontro.

O jornal Jewish Chronicle analisou assim a intenção do evento: “Há poucas dúvidas de que o propósito ulterior é apresentar ao mundo o espectáculo de uma confraternização anglo-nazi, para silenciar os protestos contra a tirania nazi [...] e para dar a impressão de que este país se reconciliou com o nazismo e tudo o que isso implica”. Assim que se soube da convocatória, o jogo desatou uma onda de protestos. Organizaram-se concentrações e difundiram-se cartazes. Um pode ser visto na exposição: “Propaganda para a guerra, propaganda para o ódio racial e o selvajismo é o propósito que Hitler vê cumprido com esta visita”.

Em 1938, proibiu-se por lei aos judeus participar em atividades desportivas. Com a invasão da Polónia pelo Terceiro Reich e o avanço da Segunda Guerra Mundial, os nazis destruíram clubes de futebol judaicos em toda a Europa ocupada. A exposição exibe reproduções das camisolas de 11 clubes destruídos pelos nazis e permite ler exemplos dos chamados parágrafos arianos, textos acrescentados aos estatutos dos clubes que vetavam sócios “não arianos”.

Durante a guerra, os atletas também viveram histórias de heroísmo e de miséria, que a exposição resgata brevemente. Como a de Otto Harder (1892-1956), bicampeão da Liga alemã com o Hamburgo e internacional pela selecção alemã, reconvertido em comandante de um campo de concentração onde morreram centenas de pessoas. Os visitantes também podem ver cinco atletas atuais apresentar em vídeo as biografias de outros tantos desportistas de elite (Lili Henoch, Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch) cujas carreiras e vidas foram destruídas pelos nazis. As suas histórias representam milhões de vítimas em toda a Europa.

El País, 16 de junho de 2024, ELENA SEVILLANO

"Em alguns campos nazis de tortura e morte, jogava-se futebol. Era um futebol precário como as vidas dos prisioneiros, que, no entanto, tinham mais hipóteses de sobrevivência se chutassem uma bola. Uma exposição no recinto do estádio Olímpico de Berlim, intitulada Desporto. Massas. Poder. Futebol sob os nazis, explora a utilização do futebol pela Alemanha de Adolf Hitler e, entre outros aspetos, detalha a paradoxal situação nos campos de concentração. A exposição, situada no Museu do Desporto, um edifício construído pelos nazis perto do estádio onde Hitler inaugurou os Jogos Olímpicos de 1936 e onde no próximo dia 14 de julho se disputará a final do Campeonato Europeu, pretende ir além da história.

“Aqui mostramos como os nazis pensavam que deviam ser os atletas e que tipo de pessoas podiam ser alemães; e se queríamos mostrar como o nacional-socialismo praticava a exclusão de determinadas pessoas, também devíamos refletir que a sua forma de excluir ainda tem continuidades pessoais e ideológicas em certa gente do desporto, embora, claro, não seja igual ao que era durante o nazismo”, explica o politólogo e historiador Julian Rieck, comissário da exposição, coorganizada pela Câmara Municipal de Berlim e pela entidade What Matters, dedicada a projetos contra o antissemitismo, racismo e outros tipos de discriminação.

Com copiosa documentação, reproduções de fotografias históricas e recortes de imprensa, réplicas de troféus realizadas com impressora 3D e camisolas de clubes judeus proibidos, a exposição percorre um tempo em que o futebol funcionou como uma peça mais do mecanismo nazi, e explora também reminiscências que afloram por vezes no desporto atual.

A imagética nazi desenvolveu-se como propaganda, e o desporto, que já nos anos vinte apresentava características de fenómeno de massas, foi sempre importante para o Terceiro Reich. “O desporto era central na ideologia nazi. Comunicava o ideal de masculinidade marcial. A ideia de uma comunidade nacional ariana ou Volksgemeinschaft podia ser gravada na psique alemã através do desporto. Além disso, os eventos desportivos, tal como outras reuniões de massas, proporcionavam um lugar para praticar rituais simbólicos como a saudação nazi”, relata um dos painéis da exposição. Mais ainda, o desporto deveria preparar a população, física e psicologicamente, para a guerra.

Tal como outras atividades da sociedade, o desporto serviu ao regime nazi para decidir quem pertencia à Volksgemeinschaft e quem não. Onze camisolas feitas para a exposição – não existem originais – lembram os onze clubes de futebol judeus proibidos a partir de 1933, como o Bar Kochba de Frankfurt ou o Hakoah de Essen. Também estrelas do desporto foram perseguidas ou assassinadas ou viram as suas carreiras truncadas, como a atleta Lilli Henoch ou os futebolistas Heinz Kerz, Béla Guttmann, Eddy Hamel e Julius Hirsch, cujas vidas são relatadas na exposição. Todos eram judeus, exceto Kerz, que foi perseguido por ser negro. Kerz e Guttmann sobreviveram.

Nos campos de concentração onde os nazis internaram milhões de pessoas em condições desumanas que levaram tantas à morte, algumas puderam jogar futebol. “As histórias de prisioneiros a jogar contra guardas são material de Hollywood, não se encontrou nenhuma evidência histórica disso; e não eram onze contra onze, os jogos faziam-se com o que estivesse disponível: bolas de trapos, os das cozinhas contra os carpinteiros, ou por nacionalidades… e fazê-lo dependia de se o comandante do campo gostava de futebol – explica Rieck. Também influía uma lógica cruel nazi: a partir de 1942 o exército precisava cada vez mais de munições, muitas eram fabricadas por trabalhadores forçados dos campos de concentração, e para que pudessem trabalhar ainda mais começaram a maltratá-los um pouco menos e a deixar-lhes o domingo livre para descansar.

Na exposição, uma grande foto panorâmica mostra os barracões do campo de Sachsenhausen com uma baliza de futebol na esplanada, em algum momento de maio ou junho de 1945, após a libertação. Também podemos conhecer a história de dois republicanos espanhóis, prisioneiros em Mauthausen (Áustria), que deixaram marca a jogar futebol. 

O socialista Saturnino Navazo (Hinojar del Rey, Burgos, 1914-Haute Garonne, França, 1986) ia ser contratado pelo Betis quando estalou a Guerra Civil. Lutou na contenda e, após a vitória franquista, fugiu para a França, onde se alistou sob bandeira francesa, foi capturado pelos alemães e enviado para Mauthausen. Lá, graças ao futebol, foi transferido da pedreira para a cozinha e organizou ligas para entretenimento dos guardas, uma oportunidade de salvação e acesso a mais alimentos para os que jogavam. Protegeu um menino judeu de Frankfurt, Siegfried Meier, que após a guerra adotou como filho –o menino passou a chamar-se Luis Navazo para que os aliados não o enviassem para um orfanato.

Também em Mauthausen e no campo anexo de Gusen jogou futebol o republicano Manuel García Barrado (La Calzada de Oropesa, Toledo, 1918-Mauthausen, 2006), que lutou na Guerra Civil, fugiu para a França e no campo nazi foi enviado para escritórios como desenhador. Treinou-se nos juvenis do Real Madrid e continuou a jogar no cativeiro, desenhando ainda cenas desportivas. Após a libertação, escolheu ficar a viver na Áustria, onde trabalhou como guia do campo de Mauthausen para visitantes espanhóis.

O pós-guerra na Alemanha não implicou desnazificação, tampouco no futebol. Um caso flagrante é o de Josef Sepp Herberger, treinador nacional durante o nazismo (numa fotografia de 1938 vê-se com suástica na camisola), que em 1950 foi nomeado selecionador da Alemanha Ocidental. Na RDA comunista, Heinz Krügel, ex-membro das SS nazis, fez carreira como treinador. “Nos anos oitenta e noventa havia muito racismo e antissemitismo nos estádios alemães, e ainda hoje se produzem incidentes – recorda o historiador Rieck. Mas hoje há muitos adeptos e futebolistas que lutam contra a discriminação; é uma tarefa de todos no futebol.

Fútbol en los campos nazis |Maria-Paz López | La Vanguardia

sábado, 29 de fevereiro de 2020

100 Anos do Partido Nazi

Na mesma semana em que passaram cem anos do Partido Nazi (também conhecido como Partido Racista ou Partido Nacional Socialista) e sem que tivesse estado atento a essa triste efeméride, recebi a "Minha Luta" do Hitler. 


Eu li algumas passagens do Mein Kampf na biblioteca nos tempos da juventude tentando perceber qual o fascínio que tanta gente tem por este ditador e quando me refiro a fascínio não me refiro a querer estudá-lo, mas sim, identificar-se com as suas ideias. 

Ditadores houve muitos, todos condenáveis, e até nós portugueses tivemos o nosso Salazar. E há ditadores mais à esquerda ou mais à direita, mas não há nada comparável ao nazismo. Nada. Muitas vezes, quase tentando medir pilinhas, tenta-se comparar o número de mortos do nazismo com o comunismo mas há uma grande diferença entre os dois: a ideologia do nazismo é a do ódio, do racismo, da supremacia de uma raça em detrimento de todas as outra, do desprezo pela vida humana. 

O programa Radicais Livres da Antena 1 dedicou-lhe um programa, e ficamos a saber algumas curiosidades, como por exemplo (e não é de estranhar neste tipo de pessoas) que não lhe foram conhecidas namoradas e amigos de Hitler, que o seu sonho era ser pintor mas que não conseguiu entrar em belas artes, aliás, não foi grande estudante. Contudo, Hitler tinha uma memória extraordinária e uma enorme capacidade oratória. Mas não tinha vícios, o único "vício" que tinha era a arte e a opera e foi ver, por exemplo, dez vezes o Tristão e Isolda. 

Hitler consegue o poder pela via democrática (depois de inicialmente ter tentado pela via armada e o ter levado à cadeia) e como bom populista que era, conseguiu a simpatia popular fazendo promessas, propondo remédios simples para problemas complicados: afinal o problema da Alemanha era só os judeus! 

O Mein Kampf, como foi dito no programa, é um livro um bocado aborrecido que, no entanto, na parte final dedica-se aquilo que o partido nazi foi exímio: a propaganda. E nunca como hoje foi fácil manipular as pessoas e as massas graças ao poder dos média, mas principalmente da capacidade da internet em difundir mentiras. Por outro lado esta gente populista tem o condão de mostrar ao que vem. O problema é que, muitas vezes, as pessoas acham que não será bem assim como dizem e depois veja-se o que Trump e Bolsonaro, que acompanhamos mais de perto, têm feito. 

Por isso mesmo convém lembrar os cem anos do partido nazi. Lembrar como, de forma democrática e eleito pelo povo, um pequeno grupo de pessoas, liderado por um doido varrido que achava que era um predestinado, conseguiu varrer a democracia da Alemanha e tornar-se ditador com poderes absolutos.