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sábado, 24 de agosto de 2024

Se Alguém Nos Criou Era um Incompetente

Este verão e, depois de alguma insistência por parte de alguns colegas, cometi a maluquice de me meter num curso de treinador. Fins de semana inteiros a ter formação, estudar para fazer trabalhos, e ainda vou ter que fazer um estágio de um ano. E não, a ideia não era tornar-me no Erikson ou no Guardiola do ténis de mesa. Mas, meti-me nelas, então, lá terei que, melhor ou pior sair.

Numa parte sobre o corpo humano, o formador avisou em forma de graça (e diga-se que fez um excelente trabalho, não fosse preparador físico da seleção): "quem não for crente, vai passar a acreditar em Deus"! E falou-se do joelho, da rótula e da cartilagem. E de coeficientes de atrito de uma faca sobre gelo, e atrito quase zero na articulação do joelho. Então, para o formador, isso era a prova inequívoca que fomos criados por Deus, porque estava tudo muito bem pensado, muito bem planeado. 

E eu só pensava para comigo que aquilo não provava absolutamente! Nem de propósito, dias depois, lia este artigo, na secção de ciência, do jornal espanhol El País, que me parece bastante esclarecedor:






Perante todas as provas científicas, os que negam a evolução afirmam que é impossível explicá-la sem um plano prévio e um maestro.

"A evolução biológica é um facto, por mais que alguns insistam em negá-lo. A evidência científica que a sustenta é esmagadora. Os negacionistas da evolução tiveram que ir mudando o discurso e adaptando-o à medida que os seus argumentos se tornavam demasiado ridículos. Durante muito tempo assumiu-se que o relato bíblico da criação era literal. Com base na informação da Bíblia, o bispo James Usher calculou que a criação ocorreu a 22 de outubro do ano 4004 antes da era comum.

Isto contradiz o conhecimento geológico, que indica que a idade da Terra é de 4.500 milhões de anos e não explica a existência de fósseis de animais extintos datados em milhões de anos. Nenhum texto sagrado menciona esses fósseis. Perante isto, propuseram-se explicações peculiares, como a ideia de que os fósseis foram criados por Deus para testar a nossa fé, ou que os dinossauros não cabiam na arca de Noé e por isso se extinguiram, mas que antes do dilúvio coexistiram com os humanos. Claro que nunca foram encontrados fósseis de humanos e dinossauros no mesmo estrato geológico. Isso não dissuade os mais obstinados. As representações de homens primitivos a conviver com dinossauros são comuns em certa literatura religiosa.

Há uma corrente de pensamento que passa ao lado dos argumentos criacionistas mais radicais, mas que defende a impossibilidade de explicar a evolução sem a existência de um plano previamente estabelecido, ou como preferem dizer, sem um design inteligente. Não deixa de ser uma tentativa de introduzir a ideia de Deus na evidência da evolução biológica, mas tentando camuflar o pano de fundo religioso e dando-lhe uma aparência de pensamento científico. Aceita-se que os seres vivos evoluem, mas essa evolução necessita de um director. Não pode ser por puro acaso. Uma das partes mais belas da teoria de Darwin-Wallace é que explica a evolução biológica em termos de mudanças aleatórias e de seleção pelas circunstâncias da natureza. Não necessita de um ser superior a controlar o processo nem de uma folha de rota. A espécie humana existe, mas noutras circunstâncias poderia não existir. Se as circunstâncias ao longo da história do planeta tivessem sido diferentes, agora a espécie dominante poderia ser uma raça de ornitorrincos fluorescentes ou de fetos tecnológicos. 

Um dos argumentos mais utilizados pelos defensores do design inteligente é o da complexidade irreduzível. Existem estruturas biológicas muito complexas, como o olho humano, que necessitam da junção de muitos elementos. Segundo os argumentos negacionistas da evolução darwiniana, não podem ter-se formado por acaso e pela acumulação de pequenas mudanças. É fácil de refutar. O que acontece na evolução é que alguns elementos vão adquirindo novas funções. No caso das proteínas, é frequente que muitas tenham mais do que uma função e que não estejam relacionadas entre si. No exemplo do olho, existem animais na atualidade que conservam estruturas precursoras do atual olho.

O maior argumento contra o design inteligente é toda a evidência que aponta que, se existir um designer, não é inteligente. Estudando a biologia em detalhe, fica claro que, ou tudo acontece por puro acaso, ou se há um designer, ele é um incompetente. A evolução biológica seria como tentar fazer melhorias numa casa já construída. Não se pode demolir e reconstruir, mas pode-se derrubar uma parede, aumentar uma porta ou acrescentar outro andar. As obras vão-se sobrepondo, de forma semelhante às catedrais que se construíam ao longo de vários séculos e onde coexistem diferentes estilos. Há algumas estruturas que em determinado momento são úteis, mas que, para se adaptarem aos novos tempos, é preciso fazer remendos ou improvisações, ou tornam-se uma carga, podendo em alguns casos conduzir à extinção da espécie. Um exemplo destes remendos resolvidos em cima da hora seria o canal deferente que liga o testículo à uretra, e que tem de contornar o ureter devido ao facto de os nossos antepassados evolutivos terem os testículos mais acima. E poderíamos continuar. Dores nas costas, hérnias discais e hemorroidas devido aos milhões de anos que fomos quadrúpedes e que ainda não somos eficientes a andar sobre duas pernas. Poderíamos mencionar as crianças que morrem engasgadas porque o canal alimentar partilha espaço com a via respiratória, quando seria tão simples separá-los, ou as infeções graves por colocar a principal saída de resíduos sólidos do corpo ao lado dos genitais. E não só na anatomia se vêem as improvisações de design. Existem muitas rotas bioquímicas onde se nota este efeito de ir pondo remendos e que graças à engenharia genética podemos melhorar. Já que é para acreditar num ser supremo, ao menos que seja mais competente.

J. M. MULET, ILUSTRAÇÃO DE SEÑOR SALME | El País, 11 de agosto de 2024

domingo, 7 de abril de 2024

A Meritocracia é uma Justificação do Sistema



"É um dos grandes cientistas do comportamento, mas Robert Sapolsky não acredita que tenha qualquer mérito. E não diz isso com modéstia, mas com convicção. Este divulgador acredita que o livre arbítrio é uma ilusão, e que não somos mais do que a soma de uma série de fatores que escapam ao nosso controlo.

Sapolsky passou três décadas a estudar babuínos selvagens no Quénia, mas acabou por escrever livros, mundialmente famosos, o comportamento humano. Segundo a sua teoria, esta evolução estava escrita e não teve capacidade de escolha real. No seu novo livro, "Decidido", desenvolve esta ideia recorrendo à neurologia, filosofia e sociologia. Não és tu, não sou eu, é o determinismo. A frase, além de ser a melhor das desculpas, coloca questões morais sobre os conceitos de culpa, castigo, mérito ou esforço. 

Afirma que o livre arbítrio não existe. Como é então formada uma decisão sobre a qual acreditamos ter controlo?

Um comportamento é o produto final do que aconteceu no teu cérebro há um segundo. É a biologia, sobre a qual não temos controlo, a interagir com o ambiente, sobre o qual não temos controlo. A neurobiologia influencia as tuas decisões, assim como a genética, a geocronologia e as ciências sociais. Não é que todas estas disciplinas sejam diferentes, mas tornam-se numa única disciplina.

Então, o facto de ter escrito um livro não dependeu do seu esforço e vontade?

Escrever este livro exigiu muito trabalho, mas consegui fazê-lo e há um "eu" em todo este processo. Mas se realmente parar e analisar, percebo que terminei o livro devido ao tipo de pessoa que sou. E isso deve-se a muitos eventos que estão fora do meu controlo. É preciso muito trabalho para fazer isso e para refutar a crença de que tu ganhaste o que és e outras pessoas não o ganharam.

Tanto que quase ninguém o faz. Porque é que o conceito de meritocracia está tão na moda?

A meritocracia é uma justificação do sistema. As pessoas que têm mais poder são as que têm mais razões para amar e manter esta ideia. Podemos pensar que não faz sentido. Mas, por outro lado, se tiveres um tumor cerebral, queres garantir que sejas operado por um grande médico. É necessário garantir que os trabalhos difíceis sejam realizados pelas pessoas mais competentes. Mas isso deve ser feito sem lhes dizer que são melhores, que merecem estar ali, que o ganharam. O problema com esta ideia é que pode acabar com a motivação.

E pode gerar frustração. Nem toda a gente pode ser um grande médico.

Os Estados Unidos são um exemplo muito evidente disso, porque temos esta mitologia cultural incrivelmente enraizada, a ideia de que qualquer pessoa, se trabalhar arduamente, pode ter sucesso. Qualquer pessoa pode ficar rica se estiver suficientemente motivada. Qualquer criança pode vir a ser presidente. E a realidade é que, se nasceres na pobreza, há aproximadamente 90% de chances de continuares na pobreza quando fores adulto.

Se não existe livre arbítrio, o que acontece com conceitos como culpa e castigo?

Se alguém é violento, é preciso impedir que faça mal, mas isso não significa que seja culpa dele. Em vez de uma prisão, ele deveria ser colocado numa espécie de quarentena. É muito mais fácil olhar para alguém sem educação e sem sucesso e simpatizar e dizer que as circunstâncias o tornaram quem é. Mas se tiveres de olhar para um polícia que acabou de disparar contra um homem desarmado simplesmente pela cor da sua pele, porque num segundo pensou que aquela pessoa que segurava um telefone o estava a apontar com uma arma... É muito mais difícil concluir que é o produto do que viveu.

(entrevista publicada no jornal El País a 22 de Março)

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Trump Candidato a Nobel da Ciência 2020


Depois de muito se ter falado que Trump poderia ser laureado com o Nobel da Paz em 2019, e depois das recentes revelações sobre vírus, germes e bactéricas, que culminou ontem com esta conferência de imprensa, Trump está lançadísismo para ser agraciado com o Nobel da ciência deste ano.

Depois de Trump ter feito a descoberta brilhante que o coronavírus é muito inteligente e tem a capacidade de ser invisível!, eis que chega agora com a cura: fazer solário (na impossibilidade de não se ser fakir e não se conseguir engolir um candeeiro) ou então, bem mais prático: injetar desinfetante! (e andaram por aí a gozar com os youtubers, enfim!)

A pneumónica matou milhões de pessoas há cem anos, mas Trump chega-nos agora em 2020 para nos salvar a todos do novo vírus. Caso não vença o Nobel da ciência será este ano será, novamente, uma uma tremenda injustiça.