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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

E Se Deus Fosse Uma Velhinha a Precisar de Ajuda?


Ao almoço saí do restaurante a pensar que tenho de ir comer fora menos vezes e levar mais vezes comida para o trabalho. Passei a costeleta à salsicheiro e o bife especial com as porcarias do molho de francesinha e fui para a picanha. Acabei a pagar 11€ por arroz e batatas frias porque a carne era impossível de mastigar. 

Saio do trabalho e passo no hipermercado para comprar uns filetes e três embalagens de esparguete. Paguei quase trinta euros. 

Saio do Lidl e a alguns metros vejo uma senhora idosa com dificuldades a pedir boleia. A mesma senhora que momentos antes estava na caixa a pagar quando cheguei à bicha a pedir ajuda ao casal com a criança que estava a fazer birra imediatamente à minha frente. 

Ligo o Konigvsmobile, faço marcha-atrás e, do nada, já a senhora está ao meu lado a perguntar-me se ia para os lados do Parquipão. Não fazia ideia do que era mas, pela sinalética parecia que era para os lados onde eu ia. Ajudei-a a meter o saco de compras na mala e lá fui eu ao desconhecido. 

"Que Deus Nosso Senhor o Ajude", ia repetindo. 

Sabe, eu não sou crente. 

- Então, mas quem é que criou isto tudo?

Conversa vai e conversa vem e vai-me metendo a mão no braço. Diz-me que se divorciou e que alguém espírita já lhe tinha dito que o casamento não iria resultar. Que teve uma loja e que teve que dormir lá uns anos para não pagar renda, mas que depois comprou casa. E tirou a carta. 

"Sabe que eu tenho a capacidade de tocar nas pessoas e tirar-lhes a dor"? 

Eu ia conduzindo e perguntando para ela me dizer onde a poderia deixar, mas de repente já estamos em Pedroso e ela nem se apercebeu. Tinha de voltar para trás e então pedi-lhe a morada e assim foi mais fácil. Ela vive a 900m do Lidl, mas já é demais para as dificuldades que tem. 

Vive sozinha, tem um único filho que de vez em quando a vai ajudar. 

Pediu-me ajuda para lhe colocar o saco de compras em frente ao prédio e eu despedi-me dela com dois beijos e vim embora com mais uma história inesperada para contar...

Se vim mais leve por ela me ter tocado? Pelo menos deixou-me a sorrir com este encontro inesperado. 

De resto, não sei, mas o que me parece é que as dores que carrego, se calhar, nem ela, nem o Deus Nosso Senhor dela me conseguiriam tirar, mas, por via das dúvidas eu vou guardar a morada ela. 

Talvez um dia destes precise de ir falar com Deus. 

terça-feira, 31 de março de 2026

Tenho Comida. Queres Subir para Jantar?

O convite era para jantar, mas nós sabemos muito bem o que costuma acontecer quando uma mulher convida um homem a ir a sua casa pela primeira vez. Ainda por cima, além da comida, ela tinha também lenha para a lareira nos poder aquecer... Há perguntas retóricas de resposta única e há convites que nós sentimos que se revelarão testes. Estaria eu preparado para passar? 

Quantas vezes acontece, seja com filmes, livros, músicas, textos, qualquer coisa que nos toca e com a qual nos identificamos ou algo que quase retrata o que já nos aconteceu? Foi o que senti por estes dias, com esta última famosa coluna do jornal New York Times, intitulada Modern Love, e que, não sendo propriamente fácil, talvez se pudesse traduzir para português como "Leitor, Foi a Escrever que me Reencontrei" (Reader, I wrote myself back to life)


“Deixa-me esclarecer uma coisa”, disse a minha melhor amiga ao telefone. “Se não vais dormir com esse tipo, então não o podes mesmo convidar para tua casa.”

- Sim, percebi - respondi, sabendo que ela tinha razão. Mas já era tarde demais: eu já o tinha convidado para minha casa.

Fazia quatro anos que ninguém me tocava. Quatro anos desde a última vez que deixei alguém ver-me de verdade. Não apenas sem roupa, mas também emocionalmente nua, desarmada, esperançosa.

Aos 44 anos, estava recentemente divorciada, com dois filhos pequenos, a viver outra vez na vila balnear do sul da California onde tinha crescido. A separação custara-me quase tudo: a casa, as poupanças, a maior parte dos móveis. Dei por mim a pestanejar, desnorteada, num apartamento despido, sem sequer uma espátula, absorvida pelo trabalho de montar uma casa e de aprender a gerir um novo regime de coparentalidade. Não havia espaço para o desejo neste novo capítulo. E não haveria durante muitos anos.

Depois de ter sido dispensada do meu emprego em publicidade corporativa, com uma indemnização que me dava alguns meses para perceber o que fazer da vida, virei-me para a única coisa que ainda fazia sentido: escrever. Atirei-me para um romance, em grande parte como forma de escapismo.

Imaginei um romance viciante, passado na cena rock do início dos anos 2000, embebido em vida noturna e sexo. Inventei uma heroína ousada e imprudente, com uma inquietação aventureira a fervilhar dentro dela - porque eu já tinha sido essa mulher. Não ousava pensar que fosse capaz de escrever literatura, mas aspirava a criar uma leitura de praia arrebatadora, daquelas que julgava conhecer bem. Queria que fosse cinematográfica, sedutora, viva. Porque eu não estava.

Nesses primeiros anos pós-divórcio, deixava os meus filhos com o pai nos dias que lhe cabiam e fugia para o café escrever. Sem hesitar, para não ter um segundo sequer para absorver tudo o que perdera. Passar de uma casa cheia de gargalhadas e dos pequenos vestígios da infância para o silêncio - um silêncio enlouquecedor - feria-me profundamente, como se o meu psiquismo repetisse: alguma coisa está errada.

E muita coisa estava errada. Mas eu escrevia. E durante muito tempo, à medida que os prazeres da história iam tomando forma, faltava ao livro uma peça vital: sexualidade explícita. O livro era como uma boneca Barbie com os genitais apagados, alisados. Eu tinha literalmente rabiscado “cena de sexo aqui” como marcador provisório.

Construí um homem por quem a minha heroína se apaixonaria: um anti-herói mítico, de botas e cabedal. O outsider. O rebelde. Mas também o canal: o criador ferido que se apresenta com arrogância e esconde a ternura. Queria que as cenas de amor entre eles fossem ao mesmo tempo selvagens e devotas. Mas eu ainda não conseguia vê-las.

Talvez o tenha escrito para a existência. Porque pouco depois, no Bumble, conheci-o.

Tinha o ar de um arquétipo que sempre me atraiu, um impulso que eu tentava reprimir. Era operário da construção civil e também ele tinha os seus sonhos perdidos, depois de uma lesão lhe ter arruinado uma possível carreira profissional no skate. Alto e largo de ombros, tinha a cara de uma estrela de cinema da era dourada. Vestia-se de ganga em combinações elegantes, e tinha os braços tatuados com desenhos estranhos e indecifráveis - anjos e demónios, rabiscos grosseiros, uma banana.

Tinha 30 anos, menos 14 do que eu. Ainda assim, havia qualquer coisa nele que mergulhava fundo dentro de mim e soltava um cadeado que eu nem sabia se queria voltar a abrir.

Na noite ventosa de inverno em que veio cá a casa, limpei tudo com intenção. Minimizei os sinais da presença das crianças. Acendi uma vela chamada Night of Joy e acendi a lareira. Fiz um chá picante que trouxera de Paris e dispus revistas vintage de skate sobre a mesa de centro, como uma espécie de oferenda inconsciente.

Lembrei-me da rapariga que eu fora em Brooklyn, quando era jornalista musical - sempre a que fazia planos, a que descobria o próximo buraco escondido e ainda desconhecido. E de como eu costumava preparar noites assim: a música, os cheiros, a lingerie. Um quarto quente e pronto.

Ele chegou e foi direto às revistas. Explicou-me quem eram os pesos pesados do skate, enquanto eu lhe apontava os artistas, e a conversa derivou para o medo e a liberdade, o risco e a rebeldia. Contou-me que atirar-se para dentro de uma halfpipe imita a vida: o anjo ao ombro diz-te para avançares, e o diabo diz-te para ires embora.

Ao início, não me tocou. Nem quando se sentou ao meu lado, nem sequer depois de dois hot toddies. A contenção dele fez o meu coração disparar.

Observei-lhe o rosto, o vaso sanguíneo rebentado no olho por causa do jiu-jítsu, a curva bonita dos lábios. O meu coração batia descompassado, mas de repente senti-me suficientemente ousada para sustentar o olhar dele por mais tempo do que o necessário - um convite. Finalmente, a mão dele roçou a minha. Depois, um beijo levíssimo - quase inexistente, suave como uma teia de aranha.

Foi excruciantemente lento, dado com uma paciência quase tântrica, algo que eu não sabia que um homem tão jovem pudesse possuir. O beijo dele não era ganancioso nem estratégico. Era terno. Fazia todas as perguntas sem pressa e sem exigir respostas. O meu corpo amoleceu.

Puxou-me para o colo, e eu soube que tinha de falar.

- Quero só deixar isto claro - disse eu. - Porque fui eu que te convidei para vires cá. Quero beijar-te e conhecer-te melhor. Mas não estou pronta para ter sexo.

A resposta dele foi simples, leve:

— OK.

E essa simplicidade, esse total à-vontade, foi uma revelação. Porque na minha vida anterior, muito antes do casamento ou da maternidade, um momento destes teria provavelmente sido recebido com pressão, com coação. E enquanto nos beijávamos como adolescentes, senti uma essência de mim mesma a regressar a toda a velocidade.

Pareceu-me que o universo se abrira e me entregara este pequeno presente impossível: um homem bonito que respeitava o meu “não” ao mesmo tempo que nos mostrava um caminho para o “sim”. A boca dele desceu dos meus lábios para o meu pescoço. As mãos mantinham-se gentis, exploratórias. Eu conseguia sentir a excitação por baixo das calças de ganga dele, mas ele nunca forçou nada. Toquei nas tatuagens dos braços dele, perguntei-lhe por uma que parecia uma banana.

Ele riu-se.

- Fiz essa numa festa - disse.  Todos tirámos desenhos de um chapéu.

Era uma combinação sedutora: o exterior meio dirtbag com a delicadeza por baixo, tão semelhante ao interesse amoroso masculino sobre o qual eu estava a escrever.

A certa altura, inclinou-se sobre mim e, sem se aperceber, acabou por me pressionar contra o braço do sofá. Durante um instante, não me consegui mexer. Veio-me um clarão de uma pressão semelhante que já sentira antes, uma memória que ainda reverbera. A respiração parou-me.

Ele reparou e cruzou o olhar comigo.

- Estás bem? - perguntou. - Sentes-te confortável?

Depois daquela pausa e daquela pergunta feita com tanta delicadeza, não sei se alguma vez me senti mais confortável.

Não tivemos sexo nessa noite. Nem na seguinte. O que partilhámos foi algo muito mais íntimo do que qualquer coisa que eu tivesse vivido em anos: presença. Eu estava presente no meu corpo. Presente no desejo. Um lembrete. Eu sou ela.

Na manhã seguinte, ainda com o cheiro limpo de sabão e água dele no meu cabelo, sentei-me num café e finalmente escrevi uma cena erótica para o meu romance. Saiu de mim em jorro: uma cena apaixonada de sexo urgente numa casa de banho pública, com rock’n’roll a tocar mesmo do outro lado da porta. A cena parecia vívida, viva, sem pedir desculpa por existir. Li-a de novo, com o coração aos saltos, e senti um calor subir-me pelo peito.

Que espécie de mãe escreve uma coisa destas?

Disse a mim mesma que podia cortá-la do livro. Que ninguém precisava de a ver. Mas eu sabia que não a iria cortar. Não conseguia.

As palavras tinham ativado algo que eu não sentia desde antes do casamento, antes das ruturas e das reparações. Não tinha sido apenas um beijo. Nem sequer apenas sexo. Tinha sido o regresso da minha própria vitalidade. Foi a escrever que me reencontrei.

Afinal, essa é a verdadeira história de amor.

Tinha menos 14 anos e andava de skate. Porque não o havia de deixar entrar?

(Por Angela Cravens - escritora que concluiu recentemente um romance sobre amor e música no início dos anos 2000 / Publicado no New York Times)

Outra coluna do Modern Love: Uma Vida Abalada Por uma Velha Carta de Amor

sábado, 31 de agosto de 2024

Conversas Improváveis 84 - Carros Voadores e Ananases num Hipermercado

 


O cinema prometeu carros voadores, disseram-nos quando eu era pequeno que as máquinas iriam trabalhar para nós, que, com a chegada dos computadores (e eu ainda sou do tempo das máquinas de escrever) o papel iria deixar de se usar. 

E, afinal, o papel só se deixou de usar nas cartas de amor porque as únicas cartas que ainda recebemos são com contas para pagar. A socialização passou da rua para os ecrãs dos telemóveis. No entanto, apesar das redes sociais prometerem conectar as pessoas, elas nunca como agora estiveram tão sozinhas e até os sites de encontros estão em declínio. E acabamos todos sós, a marcar encontros com ananases numa campanha de marketing de um qualquer hipermercado perto de si. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Companhia na Viagem

Ponho o motor a trabalhar enquanto ligo o hotspot e coloco o telecrã no adaptador fixado no retrovisor. Chamo por ela na rede social que, apesar de estar a muitos quilómetros de distância, em segundos aparece quase milagrosamente no ecrã para falarmos enquanto vou conduzindo até casa. Gosto sempre de a ver e ouvir e sinto que também ela gosta de me ver e conversar comigo.

Mas há mais de vinte anos era muito diferente. Para começar os encontros nem sempre tinham data e hora marcadas. Muitas vezes simplesmente aconteciam. Inesperadamente. Eu e ela nem sequer tínhamos telemóveis e nem sequer havia internet móvel ou telemóveis com internet. 

O encontro dava-se quase sempre no autocarro porque connosco tudo aconteceu dentro dos autocarros. Naquele tempo o autocarro era a rede social, uma rede social real de cara-a-cara, olhos-nos-olhos.

Nem sempre tínhamos dois lugares livres para nos sentarmos um ao lado do outro. Afinal, os autocarros eram um transporte público e, apesar de transportar muitos estudantes, transportavam igualmente todas as outras pessoas. Contando o tempo que se demorava no trânsito e nas paragens até ela sair, tínhamos uns quarenta minutos para conversar. E o tempo passava sempre tão rápido. 

O tempo era precioso. Lembro bem quando passávamos por uma pequena fábrica de fundição, que recentemente reparei que entretanto fechou e, quando a passávamos, significava que já só teríamos mais uns dez minutos. A ansiedade aumentava porque o momento da despedida aproximava-se. 

Nesses tempos nem sequer saberíamos muito bem quando nos voltaríamos a encontrar de novo. Eu era mais velho cinco anos e ela estudava numa escola secundária histórica, onde antigamente só estudavam raparigas e, a poucos metros de outra secundária, onde nesses tempos só estudavam rapazes. Pouco tempo depois a escola dela haveria de encerrar portas por haver cada vez menos alunos. E não sabíamos quando nos iríamos encontrar de novo porque não sabíamos muito bem que camioneta o outro haveria de apanhar. E, mesmo assim, quando os astros todos se alinhavam e tudo dava certo e nos encontrávamos, isso, se bem me lembro, e devido aos horários dela, aconteceria à razão de uma vez por semana. 

Nesse tempo acho que ainda não me estava a dar conta que, pela primeira vez, me estava a apaixonar. Preferia negar para mim mesmo. Era assim que me defendia, porque não poderia ser. No futuro, e porque tudo acabou de se repetir na minha vida, outras porque não poderia ser haveriam de acontecer novamente.   

O tempo passa e os hábitos vão mudando. E é curioso pensar que, se há vinte e cinco anos a vida fosse como é hoje, em que os jovens passam o tempo de cabeça a olhar baixa a olhar para o telecrã eu certamente não teria conversado com uma desconhecida e depois passaríamos tantas horas a conversar, cara-a-cara e olhos-nos-olhos com aquela jovem rebelde de calças rasgadas nos joelhos. Por outro lado, se a vida de hoje fosse como era há vinte e cinco anos, eu certamente não me poderia ter cruzado com alguém tão distante mas tão familiar e poder ter a sua companhia, ainda que virtual, tal como há vinte e cinco anos, na viagem para casa. 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

E Quando Não Há Química Digital?


Já sabemos que as pessoas conhecem-se na internet e devem ir logo a correr conhecer-se pessoalmente (ironia). Mas, e quando duas pessoas que se conhecem pessoalmente, sem saber nada do outro, e até se percebe que há interesse de parte a parte,  mas depois começam-se a conhecer no  digital e simplesmente não há química? Ah pois é! Que é que aconselharão os psicólogos neste caso? "Quando está interessado em alguém que conhece pessoalmente, vá logo a correr conhecer as redes sociais da pessoa ou, nunca, mas por nunca, que vá querer conhecer as redes sociais dessa pessoa"? Acho que se calhar vai depende do psicólogo!

A história já tem alguma distância temporal, até porque aconteceu no primeiro verão de pandemia!, mas é rápida de contar. Numa das melhores aplicações de engate que existem (Custo Justo ou OLX!) enontrei-me com uma vendedora a quem comprei uns quinze livros. Ela foi sempre muito simpática. Encontrei-me com ela na estação de comboios e acabamos por ficar a conversar uns quantos minutos porque a conversa começou a ficar muito interessante. Achei-a extremamente culta, e isso cativou-me ainda mais que as boas pernas ou o decote proeminente. Entretanto chegou a hora de pagar e ela não tinha troco. Como me vendeu os livros a um preço simbólico, acabei por a contrariar, que queria ir levantar dinheiro, e dei-lhe cinco euros a mais. "Então depois escolhe mais livros ou dou-lhe a diferença".

Essa ponta solta fez com que acabássemos a trocar mensagens. Tratávamo-nos sempre na terceira pessoa e eu sempre fui (como sou sempre) bastante respeitoso, ainda por cima sabia lá bem eu se a  senhora era comprometida ou não. Ainda por cima tinha-me dito que "estamos a mudar" por isso estava a despachar dezenas, se não centenas mesmo, centenas de livros. E "estamos" é plural, é mais do que um. Mas começou a chegar a um certo ponto que percebia-se que ela estava a ser  muito explícita no interesse - fosse ele qual fosse - na minha pessoa. 

Começamo-nos a tratar tu, a trocar mensagens, mas ela queria ir para um canal de conversação. Tudo bem. Mas coisa já nas mensagens por telemóvel não começou lá a fluir muito bem, e de forma meio despropositada pergunta-me se eu sou sempre assim, "lento" para tudo. Posteriormente percebi que estava bloqueado na rede social que usámos para teclar, durante, sei lá, um dia? Dois? 

Não houvesse tecnologia, provavelmente ia-mos sair, quem sabe até, com algum convívio íntimo e nunca se sabe o que poderia dali acontecer. Assim a senhora foi ver o meu perfil da rede social, fez os seus juízos de valor - "porque é que não gostas dos Estados Unidos" - e, aquilo que até poderia ser uma bela amizade, acabou digitalmente mais depressa que começou, porque, ao que parece, não tínhamos química digital. 

terça-feira, 20 de julho de 2021

As Mulheres no Tinder e um Site Que Não é Para Mim

Há coincidências curiosas, ou, então, só reparamos nelas quando estamos sugestionados. Tinha acabado de comprar o telecrã (televisão de mão com internet que fica no saco porque continuo a usar como telemóvel um antigo Nokia) e, ao mesmo tempo, ouvi vários programas a falar do Tinder, nomeadamente na Prova Oral da Antena 3. E também a minha colega de trabalho disse-me na altura: "Pronto, agora também podes instalar o Tinder"! 

Mas a verdade é que, se quisesse, já o poderia ter feito no computador como aliás acabou por acontecer ainda que, posteriormente comecei a usar na empresa, motivo pelo qual comprei o telecrã: entreter-me numa empresa onde passava oito horas por dia sem fazer nada e onde até li o Ana Karenina em pouco mais de um mês.

E poderia instalar uma aplicação de engate ou todas as outras que quisesse porque, afinal, estava de novo solto para fazer o que quisesse, mas, sempre à distância, pois estávamos (e ainda estaremos mais uns tempos) a viver uma pandemia e atravessamos não sei quantos Estados de Emergência e, com proibições, por exemplo, de passar concelhos diferentes. 

Não era a primeira vez que me registava num site de encontros, mas foi a primeira vez num site que, de facto, tinha muitas mulheres registadas. O meu melhor amigo até já me tinha dado um conselho de me registar num outro site - "foi nele que nos conhecemos" - mas confesso que achei a ideia de pagar 25€ por mês desinteressante. Ora se eu nunca fui às putas, ia agora pagar para ter só a oportunidade de poder eventualmente falar com mulheres na net? Era o que haveria de faltar!

Depois do registo feito lá comecei a deslizar para a direita e para a esquerda, e, depois de ter mandado umas largas dezenas de mulheres para o lado errado e gastado os "super likes" todos por engano, lá comecei a atinar mais com aquilo e as correspondências começaram a aparecer. 

As primeiras impressões foi que aquilo causa extrema ansiedade mas algum vício também, como se fosse uma espécie de jogo em que se quer chegar ao fim num instante. A pressão de decidir em segundos se aprovamos ou desaprovamos alguém, até porque o algoritmo já tem outras largas de dezenas de perfis mulheres em espera. E como é que se aprova ou desaprova alguém só por uma foto, muitas vezes cheia de filtros, e mais importante, tantas vezes sem ter nada descrito, nem sequer os interesses? Então comecei a usar a regra, se não tem nada escrito, nem sequer os interesses se deu ao trabalho de colocar, então, dessas, escolho só as bonitas! Das que têm um perfil mais descritivo escolho as que tenho interesses comuns. E assim fui fazendo e lá comecei a conversar com algumas mulheres em que a maioria não tinha fotografia, tal como eu deixei de ter, porque me parecia que poderia causar algum ruído desnecessário.

O estereótipo da mulher que me aparecia era sempre o mesmo: entre os 40-50 anos, licenciada e que não está ali para "ONS" e com pouca disposição para comunicação. E perfil após perfil lá aparecia aparecia: "não interessada em ONS". Mas que caralho de merda é essa da ONS? E lá tive mesmo que pesquisar para ficar a saber que significava one night stand, porque na primeira vez até pensei que OMS estava mal escrito! 

Mulheres que parece que é preciso comprar-lhes a vontade para comunicar. Acho que por uma questão de cordialidade, quem dá "match" deveria ser a pessoa a interpelar o outro primeiro. Mas nem assim, eu se quisesse que falasse porque a senhora dá-se ares de muita importância para meter conversa com a ralé. 

Mas mesmo quando a conversa fluía tinha sempre que ser eu a voltar a interpelar a senhora nos dias seguintes. Sempre foi assim e era se quisesse, porque se há muita mulher no Tinder, por certo haverá muitos mais homens e o mulherio tem muita solicitação a quem atender. Mas esse é, precisamente, o problema. Demasiadas atenções, demasiadas conversas com pessoas atrás de pessoas e chegou uma altura em que eu tinha mesmo de tirar notas sobre as utilizadoras para depois não me baralhar todo para saber quem era e gostava do quê. Aliás, antes mesmo de começar a utilizar li os conselhos da própria aplicação, que diz, que não devemos interagir com mais de nove pessoas, e faz todo o sentido, precisamente porque, como referi, a pessoa começa a baralhar-se e acabamos por não conhecer ninguém, fica tudo no ar e é uma puta duma confusão.

E o meu problema, quem sabe, talvez agudizado pela idade, é que eu cada vez menos sou dado à persistência de andar sempre a reclamar atenção a quem se dá ares de importância. Não, minha cara, se não há reciprocidade desinteresso-me, corre tu atrás de mim se quiseres. Não queres conversar? Boa sorte então. E é por todos estes fatores: por causar ansiedade, vício em estar sempre a escolher os menus do dia, por saturar, pela forma como as mulheres se comportam, e, por ser verdadeiramente inútil naquilo que se propõe que abandonei o Tinder. 

# 400 Match no Tinder

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Conheci uma Pessoa na Net - e Agora?

knowyourmeme.com

Tenho por hábito, desde que comprei um telecrã e posteriormente uma coluna bluetooth, de ir ouvindo programas de rádio enquanto estou a jardinar. Dumas destas últimas vezes, resolvi ouvir o programa da Prova Oral com a psicóloga Claudia Morais a propósito do seu livro "Manual do Amor". 

Ouvi o programa até ao fim, que foi interessante, com várias participações dos ouvintes e internautas, "o programa é sempre muito partipado sempre que o tema é amor ou sexo" como disse o Alvim, mas discordei da autora e do apresentador (que concordou com ela) nesta sua opinião:

"Quando conhecemos alguém no Tinder, ou noutra aplicação qualquer, devemos passar tão rapidamente quanto possível para os encontros presenciais. Porque a nossa comunicação é maioritariamente não verbal. Eu posso estar não sei quanto tempo no digital a trocar mensagens, ficar até às duas da manhã, a trocar longos textos com outra pessoa e, a páginas tantas dou por mim e estou a envolver-me com aquela pessoa emocionalmente, até que depois eu marco um encontro e percebo que não há química. E há outra coisa, a autenticidade também é mais facilmente confirmável nos encontros físicos. A radiografia que nós tiramos a uma pessoa num encontro presencial de dez minutos nós não conseguimos tirar em semanas a trocar mensagens via texto." 

Longe de mim achar que a minha opinião é mais válida que a opinião de uma psicóloga, especialista em analisar os comportamentos das pessoas. Contudo, também tenho direito à minha opinião, de especialista em conhecer pessoas na net, que já foram algumas e, se calhar, isso também deve ter a sua relevância. Quem sabe até talvez dê equivalência a um qualquer doutoramento em ciências humanas!

Na opinião da psicóloga, assim que conhecemos alguém na net, devemos logo ir a correr conhecer a pessoa ao vivo. Mas a primeira pergunta que me surge é: e se a outra pessoa não ou puder ou até não quiser e preferir esperar um pouco mais? Responde-se: "Olha, desculpa lá, tu pareces ser muito fixe, mas eu não vou falar mais contigo porque tenho medo de estar a criar afinidade contigo e depois tu não corresponderes fisicamente. Podemos não ter química!" 

Depois há uma outra questão. Toda esta ânsia, meia dúzia de parágrafos depois - "olha, quero-te já conhecer pessoalmente, está bem"? - também dá mostras de quem está muito ansioso, quase desesperado até. E quando alguém se mostra assim, o mais provável é assustar a freguesia. Eu sou da opinião que quando se conhece alguém na net, devemos ir com calma, sem pressões, deixar fluir, cada um ao seu rito e de forma tranquila. E não é preciso colocar um ultimato, porque quando chega a altura certa, e há interesse recíproco, as pessoas sabem. Tal como os alimentos têm o seu tempo de cozedura certo, também as pessoas irão perceber qual será o tempo certo para se encontrarem pessoalmente.

Os argumentos da autenticidade e da radiografia.

Discordo também que ao vivo consigamos tirar uma melhor radiografia da pessoa e que nos consigamos mais facilmente aperceber da autenticidade de alguém. Mais, acho que, se fizermos como a autora diz, e só quisermos trocar meia dúzia de mensagens, aí sim, certamente não vamos conseguir perceber muito da pessoa. Mas se formos com calma, deixarmos a pessoa desenvolver certos assuntos, não tenho dúvidas que conheceremos muito mais da pessoa do que num encontro para café. Até porque, na minha opinião, quando duas pessoas desconhecidas conversam na net, precisamente por não se conhecerem, têm muito mais abertura em falar de assuntos que lhe são desconfortáveis, mais até do que falar com amigos ou familiares. 

Já os primeiros encontros servem para julgar. Para toldar a vista, distrair e impedir de ver o essencial. Olhamos para o pacote, se nos é agradável, ou se não nos imaginamos sequer a ter sexo com aquela pessoa, olhamos para o estilo, olhamos para tudo e prestamos pouca atenção ao conteúdo.

E prestarmos atenção a alguém, ouvir e conhecer um pouco de quem nos parece interessante, também não significa que tenhamos que namorar com essa pessoa. Querer conhecer não significa mais do que isso: conhecer. Significa só que estamos a dar uma oportunidade de conhecer alguém que nos parece interessante. E se não dermos uma oportunidade - porque à primeira vista não temos química - não saberemos quem podemos estar a perder. Não temos de ter uma relação com todas as pessoas interessantes que conhecemos na internet, mas às vezes podemos até fazer uma boa amizade. Noutras podemo-nos apaixonar ou envolver emocionalmente. 

Por experiência própria, discordo que tenhamos que ir logo a correr conhecer pessoalmente quem acabamos de encontrar na internet. Ainda por cima porque não é muito prudente! Em crianças ensinaram-nos  não confiar em estranhos! Então, agora em adultos convém pisar terra firme e dar tempo para despistar gente que bate mal dos cornos e que até pode-nos vir a perseguir. Ao menos ter tempo se não nos sai na rifa uma apoiante do Chega, uma negacionista da pandemia, ou alguém que acha que vou-me tornar num réptil por ter tomado a vacina!

Mas isto sou eu, porque cada um procede como achar melhor. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Amor ao Primeiro Ouvido

Depois dos inúmeros telefonemas que fizemos ao longo do último mês, finalmente conheci o senhor Mário e ele acabou também por me ficar a conhecer a mim. Eu não o imaginava assim mas julgo que ele ficou bem mais surpreendido comigo, e foi por isso mesmo que, depois de me ter metido no carro sorria para mim mesmo, com o ar de surpresa com que ele me olhou, quase boquiaberto.

Se eu passasse por ti na rua sem te conhecer, nunca que diria que és a pessoa que és.

A visão é um dos sentidos mais importantes que temos mas, nas relações humanas, não raras são as vezes que, infelizmente, desvia-nos do essencial e foca-nos no supérfluo. Concentra-nos demasiado no papel que embrulha e ignora o que está lá dentro. Claro que todos nós gostamos de rostos atraentes, de sorrisos bonitos com dentes direitinhos e corpos tonificados e com esta ou aquela característica consoante o gosto de cada um.  Mas já por diferentes vezes eu já me perguntei se por caso fôssemos todos cegos, se escolheríamos as mesmas pessoas com que nos envolvemos romanticamente. E a resposta é: não.

Os ouvidos não vêem. Os olhos vêem mas não prestam atenção.

E o coração, precisa de ver ou de escutar?

A partir do momento que iniciamos a comunicação com uma pessoa que não conhecemos pessoalmente nem sequer imaginamos como é fisicamente, de imediato começamos a pintar-lhe o perfil na tela em branco. E ao longos dos últimos quatorze anos muitas foram as vezes que isto me aconteceu. E a grande aproximação, principalmente se começamos pela escrita, é a voz. E agora que penso, veja-se como já existem video-chamadas há tantos anos, mais de dez certamente, mas as pessoas continuam a colocar os telemóveis nos ouvidos e não nos olhos. Não é curioso isso? Foi assim tão importante essa invenção? Sim, se for para fazer umas poucas vergonhas certamente que tem a sua grande utilidade da estimulação visual, de resto, a verdade é que ainda hoje, seja nas empresas ou do ponto de vista particular, não tem grande utilidade.

É muito curioso que agora, até nas redes sociais e tudo, que me vou apercebendo de coisas que já toda a gente sabia menos eu. Coisas como, num vídeo ou numa fotografia em que alguém está a falar de determinado assunto, as pessoas muitas vezes vão ignorar o que está a ser dito, e vão reparar na estante que está lá atrás ou em todo e qualquer pormenor sem importância e a mensagem que é importante perde-se. Os olhos não filtram, muitas vezes perturbam. Há um termo na fotografia que era revelada em película que se chamava grão ou ruído. E o mesmo se passa com os nossos olhos analógicos. Perante um determinado cenário eles focam-se um determinado ponto que lhe interessam, e tudo à volta fica granulado, com ruído, desfocado.

A este propósito observei por estes dias um bom exemplo. Naquele programa dos agricultores, o mais jovem agricultor tinha em casa três jovens mulheres. De imediato focou-se só numa e toda a sua linguagem corporal denunciava-o claramente. Olhava sempre para a mesma, a que de imediato reclamava mais atenção como se fosse uma cria de pássaro a piar mais alto e a abrir mais o bico que as outras. E ele caiu no engodo e só alimentava aquela cria que ia ficando cada vez mais gorda ao passo que as outras, se calhar tão mais cheias de virtudes, ficaram esquecidas. E o que qualquer homem no lugar dele deveria fazer era tratar todas as convidadas por igual, ouvi-las a todas por igual. Mas não é isso que as pessoas fazem. E eu quase que aposto que, se lhes fossem só mostradas as fotografias das concorrentes, a escolha deles recairia exatamente na mesma pessoa que vão escolher, ao fim de todo aquele tempo para supostamente as conhecer.

Não há amor à primeira vista. Há beleza à primeira vista.
Há beleza à primeira vista para saber se estás, ou não, à minha altura. Há conta bancária à primeira vista, para saber se és, ou não, um bom partido para mim. Há a pressão social. E o que é que os outros vão dizer? E não duvido que na maior parte dos casos é isso que pesa: a pressão social.

Eu namorava contigo mas só se cortasses o cabelo.

Por artes mágicas, foi também numa Primaverava passada, que uma certa desconhecida de uma terra distante para onde, curiosamente, eu  há vinte anos, todos os anos me dirigia, haveria de me telefonar. E eu sempre achei, ou quis achar, ou comecei a querer acreditar porque a vida tem-me mostrado que comigo é assim que vem acontecendo, que nós andamos sempre à volta daquela pessoa com quem eventualmente um dia haveremos de chocar. E nos vinte anos a correr para aquela localidade, é bem provável que já tivéssemos estado bem próximos, mas quis o sortilégio da vida que haveria ser naquela Primavera, por causa dum interesse comum, que só naquele ano é que tinha passado a ser comum. Se naquele ano, por um milhão de pequenos acasos, esse interesse não tivesse sido plantado na sua cabeça, não teríamos tido oportunidade de ter chocado um contra o outro.

E o tal dia que me haveria de telefonar chegou. Os dois desconhecidos chocaram. A conversa decorria com tal sintonia e interesse que até me haveria de esquecer dum encontro lá com a malta do ténis-de-mesa. Todo eu era todo ouvidos e estava a gostar muito do que estava a ouvir daquela pessoa eu não sabia absolutamente nada: idade, estado civil ou índice de massa corporal. Nada. Falava-me da paixão comum das plantas; que certo dia carregou o carro com livros e os doou à biblioteca (logo eu que os continuo a acumular sem ler metade). Falava-me de Mujica e do tempo, e de como todas as coisas que temos não são compradas com dinheiro, mas sim compradas com o tempo que perdemos a trabalhar... E que coisa tão bonita de se ouvir.

Ouvindo-a com atenção, a determinada altura já me tinha decidido encantar-me bem antes de saber se um dia ainda nos iríamos conhecer pessoalmente...

sábado, 26 de janeiro de 2019

"O que eu gosto em si é a sua alegria e otimismo"

Em poucos minutos a conversa estava já incontrolável, o que comigo não é nada difícil de acontecer. Eu pareço uma espécie de soldado com a metralhadora descontrolada a disparar palavras por todos os lados. Acho que no entanto deixei espaço para a ouvir, ainda por cima ela é daquelas pessoas que tem um timbre de voz que dá gosto ouvir. Há pessoas assim, que ainda não conheço pessoalmente mas já gosto da sua voz. Ela foi um desses casos.

E assim do nada disparo inesperadamente:
- Já viu como tenho as mãos?
"Já tinha reparado, mas não disse nada."
Ela já tinha reparado... Recentemente é pelo menos já a segunda pessoa que me diz que "já tinha reparado". E se calhar, agora que penso, já não há mesmo como não reparar. Mas não interessa, porque fui eu que fiz questão de lhe mostrar! Na verdade, pensando bem, acho que agora passo a vida a mostrar as minhas mãos às pessoas.

Foto emprestada da net
E já agora, faço aqui um parêntesis para me dirigir às duas leitoras que comentaram na publicação "As últimas palavras que me escreveste". Da mesma forma que vos disse na altura, que, só quem está à vontade com o seu passado é que fala abertamente dele, também só quando aceitamos uma doença ou uma deficiência é que, alegremente, até fazemos reclame dela. Porque se querem saber, durante muito tempo eu escondi as mãos, e logo eu, que sempre falei muito com elas... E ter de passar a escondê-las não era fácil. 

Muito bem. Ela tinha então já reparado nas minhas mãos...
Mas o mais engraçado foi que, minutos depois, sem nada que o fizesse prever, e com todo o à vontade do mundo, aquela mulher, que nada sabe de mim e com quem só tinha estado uma meia dúzia de vezes, talvez uns dois ou três minutos de cada vez, o tempo suficiente para pegar numa encomenda e colocá-la na mala do carro, e a quem eu sempre, respeitosamente, estendi a mão, de repente, com enorme à vontade (defeito profissional?) pega-me nas mãos e lentamente começa a massajá-las...

Ainda conversamos mais uns quantos minutos, até que a chuva fez questão de nos interromper, e também de me lembrar que tinha de ir trabalhar. Coloquei-lhe a encomenda na mala do carro, mas desta vez não lhe estendi a mão. Disse-lhe-lhe:
- Olhe, vou-lhe dar dois beijos! 
"Também já tinha pensado nisso", respondeu-me! 

Cada um foi à sua vida e eu fiquei a reviver aquele encontro meio surreal. Retive uma frase que ela me disse:
"O que eu gosto em si é a sua alegria e otimismo"...