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terça-feira, 3 de agosto de 2021

E Quando Não Há Química Digital?


Já sabemos que as pessoas conhecem-se na internet e devem ir logo a correr conhecer-se pessoalmente (ironia). Mas, e quando duas pessoas que se conhecem pessoalmente, sem saber nada do outro, e até se percebe que há interesse de parte a parte,  mas depois começam-se a conhecer no  digital e simplesmente não há química? Ah pois é! Que é que aconselharão os psicólogos neste caso? "Quando está interessado em alguém que conhece pessoalmente, vá logo a correr conhecer as redes sociais da pessoa ou, nunca, mas por nunca, que vá querer conhecer as redes sociais dessa pessoa"? Acho que se calhar vai depende do psicólogo!

A história já tem alguma distância temporal, até porque aconteceu no primeiro verão de pandemia!, mas é rápida de contar. Numa das melhores aplicações de engate que existem (Custo Justo ou OLX!) enontrei-me com uma vendedora a quem comprei uns quinze livros. Ela foi sempre muito simpática. Encontrei-me com ela na estação de comboios e acabamos por ficar a conversar uns quantos minutos porque a conversa começou a ficar muito interessante. Achei-a extremamente culta, e isso cativou-me ainda mais que as boas pernas ou o decote proeminente. Entretanto chegou a hora de pagar e ela não tinha troco. Como me vendeu os livros a um preço simbólico, acabei por a contrariar, que queria ir levantar dinheiro, e dei-lhe cinco euros a mais. "Então depois escolhe mais livros ou dou-lhe a diferença".

Essa ponta solta fez com que acabássemos a trocar mensagens. Tratávamo-nos sempre na terceira pessoa e eu sempre fui (como sou sempre) bastante respeitoso, ainda por cima sabia lá bem eu se a  senhora era comprometida ou não. Ainda por cima tinha-me dito que "estamos a mudar" por isso estava a despachar dezenas, se não centenas mesmo, centenas de livros. E "estamos" é plural, é mais do que um. Mas começou a chegar a um certo ponto que percebia-se que ela estava a ser  muito explícita no interesse - fosse ele qual fosse - na minha pessoa. 

Começamo-nos a tratar tu, a trocar mensagens, mas ela queria ir para um canal de conversação. Tudo bem. Mas coisa já nas mensagens por telemóvel não começou lá a fluir muito bem, e de forma meio despropositada pergunta-me se eu sou sempre assim, "lento" para tudo. Posteriormente percebi que estava bloqueado na rede social que usámos para teclar, durante, sei lá, um dia? Dois? 

Não houvesse tecnologia, provavelmente ia-mos sair, quem sabe até, com algum convívio íntimo e nunca se sabe o que poderia dali acontecer. Assim a senhora foi ver o meu perfil da rede social, fez os seus juízos de valor - "porque é que não gostas dos Estados Unidos" - e, aquilo que até poderia ser uma bela amizade, acabou digitalmente mais depressa que começou, porque, ao que parece, não tínhamos química digital. 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Conheci uma Pessoa na Net - e Agora?

knowyourmeme.com

Tenho por hábito, desde que comprei um telecrã e posteriormente uma coluna bluetooth, de ir ouvindo programas de rádio enquanto estou a jardinar. Dumas destas últimas vezes, resolvi ouvir o programa da Prova Oral com a psicóloga Claudia Morais a propósito do seu livro "Manual do Amor". 

Ouvi o programa até ao fim, que foi interessante, com várias participações dos ouvintes e internautas, "o programa é sempre muito partipado sempre que o tema é amor ou sexo" como disse o Alvim, mas discordei da autora e do apresentador (que concordou com ela) nesta sua opinião:

"Quando conhecemos alguém no Tinder, ou noutra aplicação qualquer, devemos passar tão rapidamente quanto possível para os encontros presenciais. Porque a nossa comunicação é maioritariamente não verbal. Eu posso estar não sei quanto tempo no digital a trocar mensagens, ficar até às duas da manhã, a trocar longos textos com outra pessoa e, a páginas tantas dou por mim e estou a envolver-me com aquela pessoa emocionalmente, até que depois eu marco um encontro e percebo que não há química. E há outra coisa, a autenticidade também é mais facilmente confirmável nos encontros físicos. A radiografia que nós tiramos a uma pessoa num encontro presencial de dez minutos nós não conseguimos tirar em semanas a trocar mensagens via texto." 

Longe de mim achar que a minha opinião é mais válida que a opinião de uma psicóloga, especialista em analisar os comportamentos das pessoas. Contudo, também tenho direito à minha opinião, de especialista em conhecer pessoas na net, que já foram algumas e, se calhar, isso também deve ter a sua relevância. Quem sabe até talvez dê equivalência a um qualquer doutoramento em ciências humanas!

Na opinião da psicóloga, assim que conhecemos alguém na net, devemos logo ir a correr conhecer a pessoa ao vivo. Mas a primeira pergunta que me surge é: e se a outra pessoa não ou puder ou até não quiser e preferir esperar um pouco mais? Responde-se: "Olha, desculpa lá, tu pareces ser muito fixe, mas eu não vou falar mais contigo porque tenho medo de estar a criar afinidade contigo e depois tu não corresponderes fisicamente. Podemos não ter química!" 

Depois há uma outra questão. Toda esta ânsia, meia dúzia de parágrafos depois - "olha, quero-te já conhecer pessoalmente, está bem"? - também dá mostras de quem está muito ansioso, quase desesperado até. E quando alguém se mostra assim, o mais provável é assustar a freguesia. Eu sou da opinião que quando se conhece alguém na net, devemos ir com calma, sem pressões, deixar fluir, cada um ao seu rito e de forma tranquila. E não é preciso colocar um ultimato, porque quando chega a altura certa, e há interesse recíproco, as pessoas sabem. Tal como os alimentos têm o seu tempo de cozedura certo, também as pessoas irão perceber qual será o tempo certo para se encontrarem pessoalmente.

Os argumentos da autenticidade e da radiografia.

Discordo também que ao vivo consigamos tirar uma melhor radiografia da pessoa e que nos consigamos mais facilmente aperceber da autenticidade de alguém. Mais, acho que, se fizermos como a autora diz, e só quisermos trocar meia dúzia de mensagens, aí sim, certamente não vamos conseguir perceber muito da pessoa. Mas se formos com calma, deixarmos a pessoa desenvolver certos assuntos, não tenho dúvidas que conheceremos muito mais da pessoa do que num encontro para café. Até porque, na minha opinião, quando duas pessoas desconhecidas conversam na net, precisamente por não se conhecerem, têm muito mais abertura em falar de assuntos que lhe são desconfortáveis, mais até do que falar com amigos ou familiares. 

Já os primeiros encontros servem para julgar. Para toldar a vista, distrair e impedir de ver o essencial. Olhamos para o pacote, se nos é agradável, ou se não nos imaginamos sequer a ter sexo com aquela pessoa, olhamos para o estilo, olhamos para tudo e prestamos pouca atenção ao conteúdo.

E prestarmos atenção a alguém, ouvir e conhecer um pouco de quem nos parece interessante, também não significa que tenhamos que namorar com essa pessoa. Querer conhecer não significa mais do que isso: conhecer. Significa só que estamos a dar uma oportunidade de conhecer alguém que nos parece interessante. E se não dermos uma oportunidade - porque à primeira vista não temos química - não saberemos quem podemos estar a perder. Não temos de ter uma relação com todas as pessoas interessantes que conhecemos na internet, mas às vezes podemos até fazer uma boa amizade. Noutras podemo-nos apaixonar ou envolver emocionalmente. 

Por experiência própria, discordo que tenhamos que ir logo a correr conhecer pessoalmente quem acabamos de encontrar na internet. Ainda por cima porque não é muito prudente! Em crianças ensinaram-nos  não confiar em estranhos! Então, agora em adultos convém pisar terra firme e dar tempo para despistar gente que bate mal dos cornos e que até pode-nos vir a perseguir. Ao menos ter tempo se não nos sai na rifa uma apoiante do Chega, uma negacionista da pandemia, ou alguém que acha que vou-me tornar num réptil por ter tomado a vacina!

Mas isto sou eu, porque cada um procede como achar melhor. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Não Tens Fotografia?

Não sei. Talvez sejam sinais dos tempos. 

Não sei ao certo quantas pessoas fui conhecendo e que, só passado algum tempo, algumas vezes muitos meses depois é que conheci pessoalmente e soube como eram fisicamente. Não quero agora começar a contar, mas foram vários casos, várias mulheres que se calhar os dedos de uma mão não cheguem para contar. 

Confesso que gosto desse jogo de ir desvendando a outra pessoa aos poucos. As palavras que emprega, as semelhanças que tem connosco, a empatia, a sua cultura, as suas opões de vida. E claro que também percebemos quando o outro nos está a analisar e nos faz determinadas perguntas. Não somos parvos, especialmente quando até já temos uns cabelitos brancos. Por outro lado, já sou muitas vezes parvo no sentido de não usar muitas máscaras e filtros. Mostro-me quase sempre como sou e, querida, aquilo que tu vês, é aquilo que levas. Mas este jogo é, pelo menos comigo por vezes tem sido, um jogo um pouco arriscado e, quando finalmente nos encontramos com aquela pessoa, mesmo sem saber muito bem como ela é, isso quase que já não interessa muito, pois a cumplicidade já é muita. E tal como Cícero, que se aproximou demasiado do Sol, também nós podemos sair chamuscados. 


Mas entretanto parece que as coisas estão a mudar. A própria forma como as pessoas estão na internet tem vindo a mudar. Se antigamente só se usava um pseudónimo e uma imagem de perfil que nunca era a foto do próprio, agora as pessoas preferem usar o nome próprio e a própria fotografia o que, diga-se, é extremamente inteligente. Quer-se ver logo tudo. Tudo escancarado, se calhar, de preferência com uma foto de nu integral! Já não há tempo a perder, ou a ganhar. A vida é agora, a queca também. Fode-se primeiro, fala-se depois. 

E, se há vinte anos, a frase mais ouvida na internet era "donde teclas?", nos últimos meses constatei, com curiosidade, por duas vezes, duas diferentes mulheres, que de imediato perguntaram: "Não tens fotografia"? E deixamos de falar porque a curiosidade física delas era superior à curiosidade de conhecerem primeiro, minimamente, a pessoa que estava do outro lado. 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Engate no Século XVIII - Orgulho e Preconceito

"Hoje não há regras não sabemos como agir quando nos encontramos. Apertamos a mão? Um beijo na cara? Dois beijos na cara? Batemos nas costas um do outro? Ninguém sabe. Não há regras.


O comportamento mais aceitável era parecer que não se queria um marido, apesar de se querer. Mas com a natureza humana a ser o que é, mulheres e homens tiveram de descobrir maneiras de se atraírem e deixarem a outra pessoa saber. Isso era aceitável. E uma grande parte disto aconteceria no salão de dança. 

A dança era absolutamente central para a sociedade da época no que diz respeito a encontrar um bom marido ou uma boa mulher. Quando se ia a um baile ou se havia uma dança no fim de uma festa, estar-se-ia sempre na presença dos pais. Portanto, se pensarmos como nos queremos comportar em frente aos nossos pais...

Era muito definido, muito claro. Ajudava muito, acho, olhando para trás. Levantamo-nos se uma senhora entra e fazemos uma vénia. Acho que hoje em dia, vemos isso como oprimente e demasiado formal. Eu de certa forma, gosto disso. Acho que dá à coisa um certo quê... Acho que é, na verdade bastante libertador.

O facto de ser difícil falar com alguém por quem se está apaixonado está brilhantemente realçado no período de Austen, onde não se podia falar com a pessoa a sós, exceto quando se dançava. Só assim podiam estar a sós e poder utilizar a dança dessa maneira. 

Os homens e as mulheres podiam estar juntos sem um chaperone e podiam falar um com o outro. 


É por isso que a ideia de um baile era tão excitante para elas. Porque se podia dançar com o filho do talhante, alguém que, num dia normal, não seria possível abordar para conversar. 

Se só se pode ter contacto físico na dança, então dançar com alguém é elétrico, é intenso. E é ter essa estrutura formal. Especialmente a dança. Representar esses pequenos momentos nessa altura formal. 

Eles não se tocam realmente. As mulheres não apertam as mãos dos homens. A primeira que o Darcy toca na Elizabeth é quando a ajuda a subir para a carruagem. E é um momento mesmo bonito. Porque é o primeiro toque de pele. E eu acho que hoje em dia não pensamos sobre isso, de todo. Eu apertoa mão às pessoas, beijo-as, o que for. É interessante pensar, se não se tiver essa natureza tátil, quão importante um toque pode ser."