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domingo, 4 de agosto de 2024

Fugir da Internet


Sara Barquinero, escritora e autora do livro "Os escorpiões" (considerado o livro de uma geração em Espanha), em entrevista ao El País:

... "Foi chamado o romance de uma geração, qual seria a essência dessa geração?

É gente para a qual a internet era uma porta de salvação pessoal diante do descontentamento que tinham com a própria vida. Tinham em comum esse escape.

A internet era um escape?

Naquele momento era. Agora as pessoas escapam da internet, mas antes fugíamos para a internet.

Por que agora fugimos da internet?

Porque antes a internet tinha um componente que funcionava como umas férias. Ninguém te conhecia, ninguém esperava nada de ti. Agora, para muita gente, a internet é uma ferramenta de trabalho, uma pressão constante, uma notificação no telemóvel. Agora, escapar é desligar a internet e encontrar-se com as pessoas.

É também o fim do anonimato?

Também, e também me parece que agora pode ser mais difícil mudar de opinião.

Na internet ou em geral?

Em geral. Agora exige-se que nos posicionemos muito rapidamente sobre coisas complicadíssimas e depois temos que ficar naquele ponto. Quantas pessoas influentes na internet disseram: "Mudei de opinião sobre este conflito bélico"? É muito difícil e já te prendeste a um lugar e isso, em conversas privadas, era mais fácil.

Como lidas com a exposição pública?

Se não tivessem prestado atenção ao livro, eu estaria profundamente deprimida. Então, toda vez que penso que estou ficando sobrecarregada, digo: preferias que ninguém tivesse lido?

Lês tudo o que se publica sobre ti?

Não leio nada.

Como te vês daqui a 20 anos?

Não tenho ideia. Antes, quando pensava no meu futuro, via-me como professora universitária, mas como mandei a filosofia para o espaço, não criei uma imagem alternativa de mim mesma. Só sei que adoraria ter um monte de animais.

Estás escrevendo agora?

Sim.

Sobre o quê?

Conto-te se não publicares na entrevista.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Quanto é que o Teu Telemóvel Bebe aos 100?

Por norma, começa-se a chegar ao fim do mês e, invariavelmente (muito eu gosto de usar advérbios de modo) começo a ouvir a minha colega a queixar que a net está a acabar. Isto é mais ou menos como a maioria das pessoas que, geralmente tem quase sempre mais mês que salário para gastar!

Mas neste mês de Outubro (em que ainda nem tivemos oportunidade de começar a gastar o salário de Setembro) já vamos a meio e já ouvi hoje a minha colega a queixar-se que já está a ficar sem net. E sempre que isto acontece, sugere que pode muito bem ser o marido que lhe "rouba" net. 

Ora bem, como eu não percebo nada disto de telemóveis modernos com internet, suponho que se roube net como fazia antigamente nos carros com o combustível. Pegava-se numa mangueirinha, e aspirava-se o combustível para dentro dum bidão para depois o meliante despejar no depósito do seu carro. Na volta com os telemóveis é igual. Talvez haja um cabo qualquer que se ligue dum telemóvel ao outro, carrega-se numa tecla e pronto, rouba-se um bocado de net para jogar ou atualizar a rede social. 

E tu queres ver que os telemóveis também são como os carros, e que uns consomem mais ou outros menos? Na volta é isso, o do meu colega bebe muito menos net que o dela! Um dia já sei, se pensar em comprar um telemóvel com internet, já sei que tenho de comprar um que seja mais económico! 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Não Tens Fotografia?

Não sei. Talvez sejam sinais dos tempos. 

Não sei ao certo quantas pessoas fui conhecendo e que, só passado algum tempo, algumas vezes muitos meses depois é que conheci pessoalmente e soube como eram fisicamente. Não quero agora começar a contar, mas foram vários casos, várias mulheres que se calhar os dedos de uma mão não cheguem para contar. 

Confesso que gosto desse jogo de ir desvendando a outra pessoa aos poucos. As palavras que emprega, as semelhanças que tem connosco, a empatia, a sua cultura, as suas opões de vida. E claro que também percebemos quando o outro nos está a analisar e nos faz determinadas perguntas. Não somos parvos, especialmente quando até já temos uns cabelitos brancos. Por outro lado, já sou muitas vezes parvo no sentido de não usar muitas máscaras e filtros. Mostro-me quase sempre como sou e, querida, aquilo que tu vês, é aquilo que levas. Mas este jogo é, pelo menos comigo por vezes tem sido, um jogo um pouco arriscado e, quando finalmente nos encontramos com aquela pessoa, mesmo sem saber muito bem como ela é, isso quase que já não interessa muito, pois a cumplicidade já é muita. E tal como Cícero, que se aproximou demasiado do Sol, também nós podemos sair chamuscados. 


Mas entretanto parece que as coisas estão a mudar. A própria forma como as pessoas estão na internet tem vindo a mudar. Se antigamente só se usava um pseudónimo e uma imagem de perfil que nunca era a foto do próprio, agora as pessoas preferem usar o nome próprio e a própria fotografia o que, diga-se, é extremamente inteligente. Quer-se ver logo tudo. Tudo escancarado, se calhar, de preferência com uma foto de nu integral! Já não há tempo a perder, ou a ganhar. A vida é agora, a queca também. Fode-se primeiro, fala-se depois. 

E, se há vinte anos, a frase mais ouvida na internet era "donde teclas?", nos últimos meses constatei, com curiosidade, por duas vezes, duas diferentes mulheres, que de imediato perguntaram: "Não tens fotografia"? E deixamos de falar porque a curiosidade física delas era superior à curiosidade de conhecerem primeiro, minimamente, a pessoa que estava do outro lado. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Meytal: Como a Internet se tornou o palco da Baterista Sorridente



Eu nasci em Israel e comecei a tocar bateria aos 18 anos. Cresci com uma ideia muito rígida do que é ter uma boa profissão, comparado com aquilo que é um completo desperdício de tempo. O meu pai morreu num acidente de carro quando eu tinha 7 anos e a minha mãe criou-me, sozinha, conjuntamente com os meus 6 irmãos. E como a típica mãe judia, era importante que eu estudasse e tivesse uma boa profissão, e ser baterista não estava nessa lista. Mas apesar de ela achar uma péssima ideia, eu resolvi dar uma oportunidade aos meus sonhos. Então decidi mudar-me para Los Angeles e tentei fazer uma carreira de baterista. Deveria ser fácil não?

Não foi. 

Rapidamente apercebi-me que L.A. estava repleto de bateristas incríveis, que tocaram bateria toda a vida e ninguém iria esperar por mim e um dia dizer "estou aqui para ti"!
Esperei. Esperei que alguma coisa acontecesse, que aparecesse uma grande oportunidade ou que alguém me descobrisse. E é fácil ficarmos presos nesta vitimização. 




Até que um dia, uma amiga apareceu com a ideia de gravarmos um vídeo para enviar ao America Got Talent. E foi o que fizemos. Gravamos um vídeo de Toxicity dos System of a Down. Bom, digamos que o programa cagou em nós, mas o vídeo de imediato tornou-se um tremendo sucesso na internet com milhões de visualizações. Carregamos um segundo vídeo, e de repente estávamos nas vidas de milhões de pessoas. E no fundo eu estava a fazer o que gostava e as pessoas estavam interessadas nisso....

Eu comprometi-me com uma ideia sem saber o que se seguiria. Olhando para trás há uma grande razão para eu estar aqui hoje a falar com vós. Propus-me a um objetivo concretizável a que muitos acharam que era um completo desperdício de tempo. Como resultado, eu comecei a praticar e a melhorar cada vez mais a minha arte e por outro lado a partilhar a minha experiência com o mundo inteiro, naquele que é o maior palco do mundo: a Internet. 

O Einstein uma vez disse que "a genialidade é 1% talento e 99% trabalho árduo". Eu não acho que seja a melhor baterista do mundo. Ao ver os primeiros vídeos que eu gravei... francamente? Fico envergonhada. Mas isto não é acerca de ser perfeita e sem falhas. Tem a ver com autenticidade, persistência e estar bem com as imperfeições e seguir em frente. 

Com esta ideia em mente, comecei a colocar vídeos no Youtube, todas as terças e todas as sextas-feiras construindo a minha própria marca: Meytal. E as pessoas que gostavam dos meus vídeos partilhavam-nos com os amigos nas diversas redes sociais. Quantos mais vídeos tinha, mais as pessoas os partilhavam. Criou-se um efeito bola de neve, e nada me parava de continuar a fazer vídeos a coisa crescia exponencialmente. 

Quando cheguei aos 100 vídeos, tinha uma enorme quantidade de seguidores. E aquilo que eu queria fazer a seguir e a razão pela qual eu me mudei de Israel para os Estados Unidos era ter uma banda. 

Através das redes sociais consegui fundos para lançar o meu próprio álbum de originais. Foi a primeira vez que tentei escrever e compor música original depois de anos e anos a tocar a música dos outros. E, depois de dois anos a escrever, e aquilo que pareceu uma luta interminável, o álbum estava pronto. Mas eu não tinha a certeza que poderia lançá-lo com sucesso. Eu tinha a noção que eu precisava da credibilidade de uma grande editora que chegasse e dissesse: ela é boa. 

Vinda do Youtube, estamos expostos a uma enorme quantidade de críticas, de que eu não era uma verdadeira artista, e quase me fez assinar um péssimo contrato com uma editora discográfica, que ficaria com todos os meus direitos e que me daria quase nada em troca. Mas felizmente no último minuto eu decidi que não me ia vender à proposta que a editora me oferecia e lancei o álbum de forma independente. 

Na primeira semana que o álbum foi lançado vendeu 10 mil cópias e chegou a primeiro lugar da Billboard para melhor novo artista. A minha relação com o público tornou isso possível. A minha relação que começou com um único vídeo, gravado na minha cama, enquanto o vizinho do lado gritava do outro lado da janela para que me calasse. 

A internet democratizou a indústria da música para sempre. Não tens de passar numa audição, não precisas da aprovação de ninguém para seres descoberto. Podes fazê-lo tu mesmo. Começa hoje mesmo!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

As mentiras que se contam na rede

Passava agora pelo Pinterest, site onde por norma vou roubar imagens para ilustrar aqui o blogue (quando não uso as minhas) e deparo-me com esta imagem seguida do seguinte comentário:


"A história: Estas cadeiras foram aqui deixadas para um casamento em 1939 na Polónia. O casamento foi abandonado devido à invasão alemã. Elas foram encontradas novamente depois da guerra com as árvores que cresceram através deles. Todos os anos são repintadas."

A história é enternecedora de facto. "Que bonito" dirá qualquer pessoa. Mas eu comecei a olhar para aquilo e .... quer dizer... Que grande sorte, em cada cadeira nasceu uma árvore. Nenhuma árvore nasceu ao lado, todas acertaram! E depois, para árvores que nasceram nos anos quarenta do século passado, e que têm agora mais de setenta anos, estão umas árvorezinhas muito magrinhas coitadas! 

"Isto não pode ser verdade", pensei.

E não é. Bastou uma breve pesquisa para desvendar o mistério. 

Isto nada mais é que uma obra ( de 2001) do escultor francês Patrick Demazeau "As Quatro Estações de Vivaldi" ao longo da estrada Haut-bois e Faulx em Namur na Bélgica. E muito do trabalho de Demazeau envolve justaposição de móveis e natureza, que simboliza as árvores (que passam a vida de pé) oferecendo assentos para compartilhar com os caminhantes e sonhadores que se deparam com eles:



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Mais de cem milhões de carneiros

Agora todos os dias é sempre a mesma coisa. A Microsoft lembra-se de me avisar que posso fazer, gratuitamente - e quando a oferta é muita o santo desconfia - a atualização do meu programa para uma versão mais recente. Mas o argumento que usa é que é extraordinariamente curioso.

Não me diz que a nova versão tem novas funcionalidades fantásticas ou que é mais rápida, que é mais segura contra vírus e esquemas fraudulentos, não, nada disso! Eu devo atualizar a minha versão porque, ouçam bem: cem milhões de pessoas já o fizeram! Uau! Se cem milhões já o fizeram então é porque eu tenho mesmo de o fazer. Nem sei o que devo andarei a perder!




Mas bateram à porta errada, se cem milhões se atirarem a um poço eu vou preferir não o fazer. E no que se refere a novas versões de programas, por norma as novas versões são feitas à pressa, cheias de erros, e quem, na ânsia de se atualizar, a única coisa que vai fazer, é servir de controlo de qualidade da empresa, para corrigir o que de mal foi feito. Atualizar o Windows? Não obrigado.