Ao almoço saí do restaurante a pensar que tenho de ir comer fora menos vezes e levar mais vezes comida para o trabalho. Passei a costeleta à salsicheiro e o bife especial com as porcarias do molho de francesinha e fui para a picanha. Acabei a pagar 11€ por arroz e batatas frias porque a carne era impossível de mastigar.
Saio do trabalho e passo no hipermercado para comprar uns filetes e três embalagens de esparguete. Paguei quase trinta euros.
Saio do Lidl e a alguns metros vejo uma senhora idosa com dificuldades a pedir boleia. A mesma senhora que momentos antes estava na caixa a pagar quando cheguei à bicha a pedir ajuda ao casal com a criança que estava a fazer birra imediatamente à minha frente.
Ligo o Konigvsmobile, faço marcha-atrás e, do nada, já a senhora está ao meu lado a perguntar-me se ia para os lados do Parquipão. Não fazia ideia do que era mas, pela sinalética parecia que era para os lados onde eu ia. Ajudei-a a meter o saco de compras na mala e lá fui eu ao desconhecido.
"Que Deus Nosso Senhor o Ajude", ia repetindo.
Sabe, eu não sou crente.
- Então, mas quem é que criou isto tudo?
Conversa vai e conversa vem e vai-me metendo a mão no braço. Diz-me que se divorciou e que alguém espírita já lhe tinha dito que o casamento não iria resultar. Que teve uma loja e que teve que dormir lá uns anos para não pagar renda, mas que depois comprou casa. E tirou a carta.
"Sabe que eu tenho a capacidade de tocar nas pessoas e tirar-lhes a dor"?
Eu ia conduzindo e perguntando para ela me dizer onde a poderia deixar, mas de repente já estamos em Pedroso e ela nem se apercebeu. Tinha de voltar para trás e então pedi-lhe a morada e assim foi mais fácil. Ela vive a 900m do Lidl, mas já é demais para as dificuldades que tem.
Vive sozinha, tem um único filho que de vez em quando a vai ajudar.
Pediu-me ajuda para lhe colocar o saco de compras em frente ao prédio e eu despedi-me dela com dois beijos e vim embora com mais uma história inesperada para contar...
Se vim mais leve por ela me ter tocado? Pelo menos deixou-me a sorrir com este encontro inesperado.
De resto, não sei, mas o que me parece é que as dores que carrego, se calhar, nem ela, nem o Deus Nosso Senhor dela me conseguiriam tirar, mas, por via das dúvidas eu vou guardar a morada ela.
Talvez um dia destes precise de ir falar com Deus.
Contacto precioso ;)
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