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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Quantos Anos é Preciso Trabalhar Para Compensar uma Licenciatura?

"O homem pode amar o seu semelhante até ao ponto de morrer por ele; 
mas não o ama tanto que trabalhe em seu favor." 
(Proudhon)

heraldsun.com.au/
Nesta sociedade, todos nós que vimos ao mundo somos obrigados a trabalhar para podermos sobreviver. Vamos para a escola e lá passamos muitos anos, uns mais do que outros, quer pelas diferentes capacidades de cada um, quer muitas vezes pelas possibilidades socio-económicas que os nossos progenitores têm, em poder, ou não, de nos proporcionar os estudos e mais concretamente ainda os estudos universitários. 

Desde criança que ia ouvindo dos adultos que se quisesse ser alguém na vida (seja lá o que isso queira dizer) que teria que estudar, ou então, em alternativa, ir acartar baldes de massa (só porque nasci com um pénis).

Ninguém dizia às crianças "estuda para seres culto e saberes muitas coisas" ou "vê se te esforças na escola para aprenderes e não seres um ignorante". No fundo as crianças passarão longos anos a fio nas escolas, e mesmo durante a vida adulta, para serem treinados para o trabalho e em função disso terem expectativas melhores ou piores na retribuição salarial. E muitas vezes escolhe-se em função disso, das expectativas salariais, porque sinceramente, eu duvido que haja tanta gente com vocação para medicina!

Quando eu era miúdo, ouvia muito falar na quarta classe, que eram os estudos que a maioria da população tinha, e ouvia também falar no "quinto ano" ou então no "sétimo ano", que já era uma coisa importante! Mas aos poucos e poucos a sociedade portuguesa foi mudando e os estudos e os empregos também. Se quando eu era criança a grande parte das mulheres ainda ficava em casa a cuidar da casa e dos filhos, nas últimas décadas já trabalham homem e mulher e chegados ao fim do mês muitas vezes não há dinheiro para se pôr de lado. 

Entretanto os estudos obrigatórios passaram para nove anos e de nove para doze anos (apesar do CDS ser contra). Os primeiros nove, segundo ouço falar, são agora quase de passagem obrigatória, e os doze são, se calhar a nova quarta classe. Cada vez mais os alunos vão para as universidades, e longe vão também os tempos em que as meninas ficavam em casa a aprender a bordar, e são agora elas que enchem mais as universidades. Aconteceu também o processo de Bolonha, as licenciaturas estão mais curtas, e entretanto investe-se mais em mestrados e doutoramentos que, de facto, depois compensam realmente mais do ponto de vista salarial. 

Só que, fruto de todas estas mudanças, e da recente crise que implicou a última vinda do FMI a Portugal, os salários praticados vêm sendo nivelados muito por baixo, e a crise serve de desculpa para se pagar menos e os patrões embolsarem ainda mais. E já não há vergonha para se oferecerem salários mínimos, ou pouco mais que mínimos a licenciados. E depois temos ainda o problema da falta de empregabilidade, ou seja, o jovem adulto passa três, quatro ou cinco anos na universidade, para depois ir dobrar roupa para uma loja ou estar na caixa de um hipermercado. 

Diz-se que em Portugal ainda é dos países onde mais compensa fazer fazer um curso superior visto que o salário mínimo é miserável. Mas, vamos lá ver uma coisa: quantos anos é que um jovem licenciado tem que trabalhar para compensar ter passado cinco anos a estudar a mais?

Vamos fazer umas pequenas estimativas. Segundo alguns estudos, o salário base anual dos recém-licenciados, no primeiro emprego, situa-se entre os 13 280 euros e os 17 856 euros anuais, ou seja, mais coisa menos coisa mil euros.

Vamos então supor o seguinte. Um jovem com o 12º anos, começa agora a trabalhar e nos primeiros cinco anos tem um vencimento médio de 700 euros. Ao fim de cinco anos ganhou cerca de 50 mil euros. Já o jovem que foi para a universidade, e que por lá estará durante cinco anos, vai pagar propinas, muitas vezes terá que pagar o aluguer de um quarto e todas as despesas inerentes ao estudo, como manuais, material, etc.

Se daqui por cinco anos o jovem que se ficou pelo 12º ano terá ganho cinquenta mil euros, o recém licenciado só daqui por cinco anos ganhará o seu primeiro salário (sim, é verdade que entretanto poderá fazer uns biscates, mas esse dinheiro será para sustentar os seus estudos). Fazendo as contas sem aumentos salariais será então assim:

Daqui por seis anos e seguintes:

                                  58.800    /    14.000
                                  68.600    /    28.000
                                  78.400    /    42.000
                                  88.200    /    56.000
                                  98.000    /    70.000
                                107.800    /    84.000 
                                117.600    /    98.000
                                127.400    /  112.000
                                137.200    /  126.000
                                147.000    /  140.000
                               156. 800    /  154.000
                                166.600    /  168.000
                                   
Respondendo, um licenciado que fique cinco anos na universidade, com estes valores estimados que introduzi, precisa de dezassete anos para ultrapassar o rendimento obtido por um aluno que se ficou pelo secundário.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

da Desigualdade entre Trabalhador e Patrão

Gritam os patrões que é precisa mais flexibilidade laboral, que é muito difícil despedir em Portugal ainda que a regra contratar toda a gente a contrato, mas mesmo assim, mesmo ao fim de ano e meio ainda não sabem se o trabalhador serve ou não para a função.

Os patrões queixam-se mas a flexibilidade laboral levou a que, no governo de Passos e Portas, os despedimentos tivessem sido liberalizados. O patrão pode despedir quase só porque sim porque lhe apetece. O patrão pode agora até despedir uma pessoa que esteja na empresa há trinta anos que só lhe paga doze de indemnização.

Mas vamos ver uma coisa. Se o trabalhador faltar por cinco vezes seguidas ao trabalho de forma injustificada dá imediato direito à entidade patronal para despedir o trabalhador. Já o trabalhador pode estar, como eu estou, não há cinco mas há trinta dias seguidos sem receber o salário de Setembro, sem qualquer justificação oficial e no entanto eu não posso despedir a minha entidade patronal. Posso-me até queixar que é muito difícil despedir o patrão em Portugal!

E é mesmo pena que a puta da tão falada flexibilidade laboral seja só para um dos lados: o dos patrões.

via Twitter

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Pelo Pagamento do Salário Antecipado

Eu gostaria de deixar aqui uma sugestão, que até me parece que faz todo o sentido, para que qualquer partido de Esquerda que defenda os interesses dos trabalhadores, ou até para algum sindicato possa pegar nela se quiser.

Visto que já não é a primeira vez que me acontece trabalhar as quatro semanas contratualizadas para depois ter direito ao pagamento mensal, que significa que o pagamento deverá ser feito trinta dias depois de iniciado o trabalho, mas tendo em conta que até já estive dois meses com o salário atrasado, e como neste mês, até ao momento também ainda não vi nenhum, eu pergunto:

- Então e se fizéssemos ao contrário? E se todas as empresas que querem o seu trabalhinho feito, seja com contrato a termo ou sem termo, passassem a ter que pagar o mês adiantado, em vez de ser o trabalhador a ter que estar trinta dias  à espera do pagamento do primeiro dia de trabalho?

Até nem precisava ser pagamento mensal, poderíamos pensar num pagamento semanal como se faz em alguns países, mas o que não faz sentido nenhum na lei, é ser o trabalhador, a parte mais fraca e desprotegida, a ter que esperar por um trabalho já feito, mas depois quando vamos ao supermercado não podemos pedir fiado, tal como os bancos também não se comovem minimamente se a pessoa disser que ainda não pagou o empréstimo, ou mesmo que diga "vão lá à minha empresa cobrar o dinheiro que eu já trabalhei e está ganho, mas ainda não o recebi".

Se na maioria dos serviços temos de pagar primeiro e só depois ser servidos, sim, porque ninguém vai ao cinema, vê o filme e depois é que paga - não, a pessoa, mesmo que depois tenha detestado o filme, tem que o pagar antecipadamente porque sem pagamentozinho não há filmezinho - e porque se queremos alugar uma casa até temos que pagar, não um mas dois meses antecipados, e temos que ter dinheiro para o efeito, então porque raio no emprego tem que ser diferente?

Se queremos acabar com a praga dos salários em atraso, em que no fundo é o trabalhador que tem de esperar e financiar as empresas, então só há mesmo um caminho: o fim do trabalho fiado e o pagamento antecipado do trabalho. 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Não Trabalhar a Partir de Casa




Já não é de agora que há pessoas que trabalham a partir de casa. Não precisam deslocar-se para a empresa. Muitas podem até mesmo trabalhar a partir de qualquer sítio.

E eu agora estava cá a pensar com as minhas barbas... 
Quer dizer...
Eu levanto todos os dias cedo. Vou para o banho e tomo o pequeno-almoço, meto-me no carro e faço cinquenta quilómetros a poluir o ambiente num carro a gasóleo, para depois basicamente ficar na empresa à espera da hora de sair, nove horas depois. 

- Será que não dá para não trabalhar a partir de casa?

sábado, 4 de maio de 2019

Por Que é Que Ninguém Está Empenhado nas 35H Semanais para Todos os Trabalhadores?



Nesta última semana comemorou-se o dia do Trabalhador, mas ironicamente, aos poucos, no 1 de Maio, começa a ser instituído o Dia da Promoçãozinha, à custa de trabalhadores que, em vez de folgarem este feriado (como antigamente) não, vão mas é trabalhar que os mais ricos de Portugal, os merceeiros, querem ganhar mais um bocadinho de dinheiro à custa do dia do escravo. 

De relance apanhei as reivindicações da CGTP. Querem a curto prazo um salário mínimo de 850€.

Mas o que eu não entendo é o porquê de ninguém, nem partidos nem centrais sindicais, nem governo, estarem empenhados em dar as 35 horas de trabalho semanal para todos, e não só para alguns, como aconteceu com a devolução aos funcionários públicos por parte deste governo. 

Neste momento uns trabalham 35 horas por semana, os outros que se fodam, que trabalhem mais um mês e meio por ano!! Sim, disse bem, os funcionários públicos trabalham, só no horário de trabalho normal, menos um mês e meio por ano! Que ricas férias! E ainda passam a vida em greves! 

Acho que não me enganei, e não é preciso ter um curso de matemática para fazer (como a outra) as contas. 

1 Hora a menos por dia são:

5 Horas a menos numa semana

Como trabalhamos 11 meses por ano, são 5 horas x 48 semanas:

Que dá o belo número de 240 Horas!! 

Como um mês de trabalho são 160 Horas, 240 Horas representam, precisamente, um mês e meio a mais de trabalho para um trabalhador do privado. 

Mas um trabalhador numa empresa privada trabalha bem mais que 240 horas num ano, quando comparado com um funcionário público. Nada contra a devolução de direitos cortados pela coligação de Direita, mas, se somos todos trabalhadores, todos devemos trabalhar o mesmo número de horas, e ter os mesmos dias de férias. Isso sim é Igualdade, e não haver trabalhadores de primeira, de segunda e de terceira categoria. Contudo não vejo Ninguém, nem partidos, nem sindicatos, nem governo, empenhados em combater essa tremenda Injustiça. 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Trabalhadores Pseudo-Dedicados

"Um estudo conduzido no Reino Unido pela Ashridge, da Hult International Business School, uma faculdade de gestão, concluiu que em 28 empresas existem colaboradores que parecem ter um elevado grau de empenho, parecendo sempre muito ocupados, quando na realidade trabalham pouco e prejudicam a produção coletiva, noticia a BBC.

Estes trabalhadores, que a equipa de pesquisa batizou de “pseudo-dedicados” caracterizam-se por se saberem vender bem, promovem-se em reuniões de equipa e têm a tendência de se juntarem às conversas que lhes convém, no local de trabalho. Por isso, são normalmente encarados como colaboradores “altamente dedicados”. (Jornal Económico)

Conheço-os bem. Todos conhecemos não é? Todos, vírgula, pois na verdade, só um bom trabalhador pode identificar um trabalhador pseudo-dedicado. Quando um pseudo-dedicado está na presença de outro pseudo-dedicado o mundo deles é aquele, são ambos espertos, os outros, os verdadeiros bons trabalhadores é que são uns otários.

Na imagem abaixo vemos um exemplo do trabalhador pseudo-dedicado. Mal o patrão ou a chefia abriu a porta ou ficou num ângulo em que o possa observar, ele ataca furiosamente o teclado:



Mal o chefe ou o patrão vira costas e o trabalhador pseudo-dedicado lá volta à sua rotina de fazer o menos possível. Não há como dizê-lo doutra forma. O trabalhador pseudo-dedicado é um especialista, especialmente na arte de não fazer um caralho! Mas aparenta, sempre, logicamente quando as chefias estão por perto, muita pró-atividade e dinamismo! Está sempre preocupado com a empresa! O trabalhador pseudo-dedicado passa o dia a consultar páginas da internet que não era suposto, de telecrã na mão a atualizar a rede social mas, subitamente, quando alguém se aproxima, rapidamente comuta para o que era suposto estar a fazer. Só que por vezes é lento, e quando a porta abriu lá vemos aquela comutação de janelas tããããão lenta! Acho que há trabalhadores pseudo-dedicados que deveriam fazer um curso para pseudo-dedicados, para se tornarem mais rápidos na arte  invisível de mudar de janela sem ninguém se aperceber!

O trabalhador pseudo-dedicado tem um ego imenso. É o maior. Não há ninguém como ele. Os outros é que são uma merda. Ele é que trabalha muito e os outros é que não fazem nenhum. São super despachados, principalmente a despachar o seu trabalho para os outros! Mas quando entram mais pessoas para a empresa "no tempo deles é que era"! Sozinhos faziam o trabalho de três ou quatro pessoas! Eu nem quero imaginar como seria!

O trabalhador pseudo-dedicado é especialmente dedicado na arte da coscuvilhice. A informação é poder, logo, há que se fazer amigo de toda a gente, ou, no mínimo, tentar parecer amigo de toda a gente, estar sempre em cima do acontecimento, ter o máximo de informação para se conseguir sempre antecipar ao que irá acontecer. Por exemplo, se há uma auditoria ou um trabalho mais chato de se fazer, convém antecipadamente saber a data, para que, com tempo se elabore uma estratégia de fuga, de fugir com o rabo à seringa! Porque a verdade é essa, o pseudo-dedicado é muito esperto, principalmente na arte de fazer o menos possível da forma mais rápida possível, nem que para isso tenha de atalhar caminho e deixar tudo mal feito!

Só que, infelizmente, não se consegue enganar toda a gente ao mesmo tempo. Há ângulos de visão diferentes e, aos poucos, estes pseudo-dedicados começam a ser apanhados nos seus estratagemas. E nós, os trabalhadores comuns, até fazemos de conta, mas por favor, não insultem a nossa inteligência ou os nossos ouvidos! Eu estou-me a cagar se os pseudo-trabalhadores não fazem um caralho! Não sou eu que lhes pago o salário! Eu não sou polícia, quem paga que abra os olhos, se quiser. Mas já me incomoda um bocadinho, quando vejo certos espertinhos a picar o ponto depois de almoçar, ficando assim com quase meia hora de almoço que eu. Contudo, também não me estou a ver no papel de queixinhas. Incomoda-me e revolta-me, mas, o papel de queixinhas está reservado aos pseudo-dedicados. No entanto, quando elas tiveram que sair, certamente que sairão.

Mas como os pseudo-dedicados gostam de mostrar que se preocupam muito com a empresa, passam a vida a enviar e-mails às chefias. A fazer queixinhas, a mostrar como os outros é que são maus trabalhadores, para que eles passem pelos pingos da chuva. Daí que seja normal ver um pseudo-dedicado chegar a chefe. Porquê? Porque um chefe não tem de trabalhar como os outros, só tem que mandar os outros fazer!

Por isso, muito cuidadinho com risinhos e palmadinhas nas costas. Pode ser só um trabalhador pseudo-dedicado a espetar-te uma faca nas costas. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

EU e a Empresa - Como Se Fosse Uma Relação

Na entrevista acho que foi amor à primeira vista. Ela podia ter escolhido qualquer um. Diz-se que houve centenas ou milhares de candidatos já nem sei. Mas escolheu-me a mim. Afinal são sempre elas que escolhem, não é? Desta última vez eu lancei a corte a várias, rejeitei uma ou outra antes, mas esta foi realmente a que me deu o melhor dote para casar com ela. Enamorei-me e já estamos casados vai fazer cinco anos. Mas aconteceu o que acontece mais ou menos com todas as relações. 

A paixão foi fulminante. Desmesurada. E já se sabe como é na paixão. Fode-se a toda a hora em tudo que era sítio. Era no Escritório; no laboratório de Investigação & Desenvolvimento; na Produção; na Cave; nas casas de banho dos homens e das mulheres; experimentamos no banco do empilhador enquanto eu conduzia em marcha-atrás; era em todo o lado. Claro, menos em cima da mesa de ping pong que é sagrada! E assim continuou por muitos meses. Éramos felizes. Fazíamos planos a dois para o futuro. Íamos para todo o lado juntos, davamo-nos muito bem e a palavra discussão não fazia parte do nosso léxico. Éramos o casal modelo de toda a gente. 


Sempre vivemos um para o outro e as coisas iam rolado bem, mas aos poucos o cenário começou a mudar. No último ano comecei a aperceber-me que ela me esconde coisas. Percebi que se me aproximo do telemóvel dela ela fica perturbada. Algo se passa. Cá para mim anda passarinho novo a voar no meu jardim. Comecei a ficar de sobreaviso. Na cama começou-se a escudar em relação ao sexo. Passei a ser sempre eu a abordá-la. E se ao início parece que ainda ia fazendo o frete, aos poucos começaram a aparecer as estratégicas dores de cabeça. Grande coincidência! Sempre que eu lhe começava a passar as mãos pelos sítios recônditos lá vinham a desculpa "hoje não estou com cabeça para isso". Mas é preciso cabeça para foder? É preciso é ter vontade!  E depois ainda dizem que as mulheres são multifacetadas e que fazem várias coisas ao mesmo tempo!  Mas afinal nem ter uma dor de cabeça e foder conseguem fazer ao mesmo tempo! Fartei-me quando comecei a ouvir os "só pensas nisso". Deixei de me importar e de a procurar para esses assuntos. Quando lhe passarem as dores de cabeça que me procure, se quiser. Talvez nessa altura seja eu que queira brincar de achacado às enxaquecas. 

A relação degradou-se. Vamos estando juntos por estar. Talvez seja mais por estarmos habituados um ao outro que por outra coisa. Nem sei se ainda somos amigos sequer, talvez sejamos uns meros amigos-sósia. Os amigos desabafam e apoiam-se mutuamente. A frustração acumulada é muita. A motivação nenhuma. Ambos sabemos que não temos futuro juntos. Só o lado prático de manter as mesmas rotinas e de viver na mesma casa. Talvez a maior motivação para ficarmos juntos seja a vergonha que iríamos sentir ao admitir a derrota da separação. 

Isto assim não pode continuar. Ando a pensar pôr termo a esta situação. Mas sinto-me dividido. E eu não sou homem de várias mulheres, se uma já dá tanto trabalho, sinceramente não sei como há homens que conseguem andar com duas ao mesmo tempo. Mas o fim está próximo. Sente-se. Acho que não há salvação possível. Nem com terapia para casais. Mas como eu também já sei, nem sempre tem que ser um drama. E quem sabe até podemos ficar bons amigos... 

... e há uma grande diferença nisto tudo. Um emprego e a mulher que amamos, não é bem a mesma coisa.  

domingo, 18 de novembro de 2018

A Fidelidade Laboral Não Compensa - Queres um Aumento? Muda de Emprego!



Ser "fiel" para com a entidade patronal não compensa. Minimamente. Vamos ficando porque nos sentimos bem, porque estamos confortáveis, mas não somos valorizados naquilo que mais interessa, que é a retribuição do nosso trabalho ao fim do mês, porque palmadinhas nas costas não compram bens no supermercado para comermos. E a larga maioria dos trabalhadores trabalha porque precisa, não trabalha porque gosta do que faz. E os anos passam (e eu que o diga) e aumentos salariais nem vê-los. 

Por outro lado, quem está empregado e muda de emprego é logo valorizado à cabeça. 
- Não é estranho isto?
Valoriza-nos mais quem não nos conhece, que aqueles para quem trabalhamos há anos e que sabem que desenvolvemos um bom trabalho. E se calhar é assim em tudo na vida. 

Portanto, se queremos ser valorizados e receber um aumento salarial só temos uma solução: mudar de empresa. Não podemos esperar que sejamos valorizados pelo bom desempenho, temos simplesmente procurar quem nos valorize mais. Isto é um concelho que eu mesmo deveria seguir. Porque não o fazemos? Isso são outros quinhentos. 

domingo, 16 de setembro de 2018

Bem-vindos Às Falsas Promessas do que Seria o Trabalho no Século XXI

Quando eu era miúdo prometiam-nos uma vida muito melhor. Diziam-nos que num futuro próximo as máquinas de escrever iam ser substituídas por computadores e imaginem que até se dizia que o papel iria desaparecer. Infelizmente o papel não desapareceu, e por causa disso temos um país infestado de eucaliptos. Diziam também que iríamos ter de trabalhar muito menos horas por dia e com os computadores até se poderia passar a trabalhar de casa.

As novas máquinas vieram, e hoje, ao contrário de quando era criança, em que basicamente a maioria das pessoas só tinha uma motorizada para se deslocar, hoje, toda a gente tem o seu carro, dois ou mais até, ou pelo menos um para cada elemento do agregado familiar. Hoje, ao contrário do tempo em que era criança, todos já têm o seu computador de secretária ou portátil, têm dois ou três, e todos até têm o seu telemóvel com acesso à internet. A indústria sofreu uma verdadeira revolução e até aí estão os robots para, supostamente, substituir os humanos. Mas afinal, até que ponto a nossa vida mudou verdadeiramente para melhor? A vida mudou realmente para melhor, ou as pessoas passaram a ter de trabalhar muito mais para comprarem as merdas que o capitalismo meteu na cabeça das pessoas não podem sem as ter? 

Pois é. Afinal todas as promessas não passaram de mentiras deslavadas e continuamos a ter de trabalhar de sol a sol, tal como antigamente. Simplesmente já não nos levantamos com o sol com uma enxada na mão para ir cavar. A única coisa que mudou foram os objetos dos escravos trabalhadores. Se antigamente os trabalhadores usavam foices e martelos, hoje vão para a jorna de trabalho (olha o Google nem sabe o que é jorna e sublinha como se fosse erro!) e vão para a jorna dobrar roupa, estar o dia todo, de pé a passar códigos de barras ou de telefone na mão a atender clientes ou a impingir-lhes serviços. As ferramentas foram a única que mudou.

De resto, continuamos a ter que trabalhar de sol a sol, oito horas por dia. Talvez hoje ainda se trabalhe mais, visto que antigamente as pessoas só se levantavam com o sol, e hoje, graças aos carros, já todos poderemos ir trabalhar para bem longe de casa, nem que para isso tenhamos de sair de noite, e percamos duas horas de viagem, todos os dias e viagens essas que os patrões não pagam. Mas depois as pessoas revoltam-se é com a mudança da hora! Se trabalhássemos duas horas de manhã e duas horas de tarde, alguém andava a discutir se era preciso ou não mudar a hora? Andamos sempre a discutir o que não interessa para nada, em vez de exigirmos as mudanças que interessam verdadeiramente. 


Sim, o futuro chegou, a nossa realidade mudou e foi higienizada, e tomamos dois ou três banhos por dia, mas ao contrário do que se pensa, a nossa realidade mudou para pior. Acham que não? Então pensem um bocadinho. Hoje já ninguém se reforma aos cinquenta anos, ao contrário do tempo em que era criança. Hoje, em pleno século vinte e um, vamos ter de trabalhar em prol de outro ser humano, não até aos cinquenta anos mas sim até morremos! Quão espetacular é isso, trabalhar até morrer? E vamos ter de trabalhar até morrer porque não vai haver dinheiro para pagar as reformas. Mas dizem-nos até, como se nós fôssemos muito burros, que é por causa da "esperança média de vida"! Maldita esperança média de vida que deveria era de diminuir para não sermos obrigados a trabalhar, sem forças, até aos setenta anos! E dizem-nos ainda, como se fôssemos muito burros, que temos de fazer muitos bebés para que depois, quando eles crescerem, nos possam pagar as reformas que não vamos ter porque não há dinheiro para as pagar!

Quando eu era criança, maioritariamente só o homem o trabalhava e o dinheiro de uma só pessoa chegava para construir uma casa. Acham que estamos melhor hoje? Hoje quase nenhum jovem terá dinheiro para comprar um terreno e construir uma casa! Antigamente a mulher ficava em casa a tomar conta dos filhos que não precisavam de infantários nem de amas. Eram verdadeiramente educados pelos pais. Hoje são educados por quem? Eu vou ter um filho para quê? Para ter de pagar para os outros o educarem? Antigamente as crianças brincavam livremente, tal como eu brinquei, sem horários, pelo menos até aos seis anos de idade, quando então tínhamos de ir para a escola primária.  

Hoje trabalha o homem, trabalha a mulher e aos seis meses as crianças vão para a ama ou para o infantário que é mais uma despesa no orçamento familiar. As pessoas correm de um lado para outro, as crianças correm de um lado para o outro. As pessoas não têm tempo nem pachorra para se ouvirem. Não têm disponibilidade física nem mental para ainda chegar a casa, depois de um longo dia de trabalho, e terem de fazer as tarefas domésticas, cuidar dos filhos, ouvir os problemas do cônjuge ir para a cama e ainda ter vontade fazer sexo. Temos setenta, repito, 70% de divórcios e as crianças além de correrem de um lado para o outro por causa das dezenas de atividades que os pais agora as obrigam a fazer, têm ainda de correr de casa da mãe para casa do pai por causa da guarda partilhada. E há uma nova geração de gente que cresceu em famílias disfuncionais, que mais não foram que armas de arremesso entre pais e mães. 

A vida supostamente melhor que o século vinte e um prometia, no final de contas, é ser ainda mais escravo do trabalho e ter cada vez menos tempo. É trabalhar mais horas, é fazer mais horas-extra que agora deixaram de ser pagas porque se inventou uma coisa chamada banco de horas, e é trabalhar de noite com menos horas de subsídio noturno (muito obrigado aos senhores Passos Coelho & Paulo Portas), e é, por exemplo, trabalhar sábados e domingos no turismo, que em Portugal está a fazer dinheiro como ninguém faz no mundo, e ter um salário principesco de 620€. Repito: 620€ para trabalhar aos sábados e domingos!!  E é viver num dos países da Europa onde os patrões se aumentam a si mesmos 40%  em três anos, mas onde ironicamente os escravos, perdão, é a força do hábito, onde os trabalhadores (que agora lhes chamam colaboradores) são os menos aumentados da Europa. 

sábado, 1 de setembro de 2018

Batem as Portas em Tons de Insolvência

O corno é sempre feliz enquanto não sabe nada do que se passa nas suas costas, e do que em breve pode ficar a saber. E não raras as vezes, senão quase sempre, só sabemos o que querem que nós saibamos. Mas mesmo o mais otimista, como eu geralmente costumo ser, e se bem me lembro eu era (pretérito imperfeito) provavelmente, a pessoa mais otimista da empresa, mas (conjunção adversativa) perante a crueza das evidências temos que nos render aos factos. 

E os factos, tal como diz o ditado português: "donde se tira e não se põe, não há nada mais rõe"!

Lembro ainda muito bem as palavras proféticas do gajo que manda, aquela sigla CEO que ninguém sabe o que quer dizer, mas que parece uma coisa importante: "Estamos num ponto em que, ou vamos ganhar milhões, ou então vamos encerrar portas, porque estão a ser contraídos empréstimos avultados".

E quando não há dinheiro para comprar matéria prima não se produz. Se não se produz, não se vende. Se não se vende não há dinheiro para matéria prima. Se não há matéria-prima para produzir as pessoas não têm nada para fazer. E não ter nada para fazer até pode nem ser de todo desagradável, mas por outro lado não deve ser muito agradável ter que pagar a pessoas no fim do mês para não fazer nada, mais desagradável ainda quando não se tem muito dinheiro para lhes pagar. 
Resta esperar mais ou menos tranquilamente pelo que irá acontecer. 

Batem as portas em tons de insolvência, como se fosse mais uma empresa a fechar. 


sábado, 28 de julho de 2018

A Flexibilização Laboral é Só Para um Lado: O dos Patrões

Os políticos, principalmente os mais à direita (incluindo o PS) falam constantemente que é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, que dito por palavras mais acessíveis às pessoas, é como quem diz poder despedir só porque apetece. Chegamos ao trabalho e como o patrão anda com os quilhões inchados porque se chateou com a mulher, vai daí e despede o primeiro trabalhador que lhe aparece à frente só porque sim. Flexibilizar é isto, é simplesmente poder despedir só porque apetece aos patrões. Flexibilizar é o eufemismo para precarizar. 

Mas não basta poder despedir quando apetece. Isso seria pouco. Era preciso despedir quando apetece sim, mas fazê-lo de forma a não gastar muito dinheiro, porque senão era uma chatice! Os patrões queriam poder despedir mas dar um pontapé no cu de um trabalhador que está numa empresa há quinze ou vinte anos mas sem ter que pagar o que sempre foi devido! E esse foi um dos muitos favores que Passos Coelho e Paulo Portas fizeram aos patrões, no fundo para quem a direita, mais ou menos neoliberal governa. 

Antigamente uma pessoa que estivesse numa empresa vinte anos, caso fosse despedida, trazia de indemnização de vinte salários (30 dias por cada ano de trabalho) enquanto que a partir de 2012, passou -se a receber doze dias de indemnização por cada ano de trabalho. 



No entanto a tão apregoada "flexibilização laboral", vendida tantas vezes como uma coisa boa, só é pena que só funcione para um dos lados: sempre para o lado dos patrões! Os patrões, após o governo de Portas e Passos, puderam passar a despedir quase livremente não pagando nada por isso, nem pelas horas-extra que tiveram uma redução brutal na sua compensação, e pior ainda, inventou-se uma coisa extraordinária: trocou-se trabalho suplementar por não trabalho!

Sempre que, por exemplo, tenho de ir trabalhar para fora, para Lisboa, por exemplo, e mesmo que saia da empresa ás cinco da manhã e chegue ao hotel às duas da manhã, vou ganhar quanto? Nada! Zero cêntimos! Vou depois ficar essas horas a não trabalhar! Fantástica a flexibilização laboral não é? Fantástica para os patrões que não me pagam nada pelo esforço suplementar de trabalhar doze ou dezasseis horas seguidas. 

Como se não tivesse bastado permitir que se pudesse despedir quase livremente, e tornado o valor do trabalho suplementar irrisório, reduziram-se também os dias de férias (de 25 para 22 dias), mas não satisfeitos, ainda acabaram com quatro feriados porque os portugueses ainda só eram o segundo país da União Europeia em que os trabalhadores mais horas trabalhavam por ano e com um jeitinho podíamos chegar a número um!

Então já sabemos que a "flexibilização laboral" é uma coisa muito boa, mas o que é que se flexibilizou a favor das trabalhadores?

Nada! Pois é, a flexibilização é boa mas é se for a nossa favor. Se for a favor dos outros já não presta!

Vamos a um exemplo prático. Eu vou entrar no quinto ano de trabalho na mesma empresa. A flexibilização laboral é muito boa, mas se eu hoje encontrar uma empresa que me dê melhores condições e eu me quiser mudar, continuo a ter que esperar os mesmos dois meses, para poder sair da empresa onde estou. Por que é que não se passou todo esse tempo, sei lá, para no máximo quinze dias? Pois é.  Então deixem de atirar areia para os olhos das pessoas e vão-se mas é foder todos mais a precarização laboral.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Ferraz: As Pessoas Querem Trabalhar, Não Querem é Ser Escravas dos Patrões

Há duas semanas Ferraz da Costa, conhecido por ter sido, aos 34 anos, o "patrão dos patrões", fazia a capa do Jornal I, e podia-se ler o título: "As empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar". 

Isto é não é nada de novo. Alguém que nunca teve dificuldades na vida, que nasceu numa bolha onde até se pode escolher a empresa para onde se quer trabalhar, venha chamar os outros de piegas, malandros ou pior.

Mas em primeiro lugar eu gostaria que me explicassem, que o Ferraz explicasse, como é que, entre 2011 e 2015, segundo o INE, cerca de 500 mil portugueses emigraram, indo à procura de melhores condições de vida, condições essas que não encontravam no seu próprio país. Ora bem, seguindo a lógica do Ferraz, como os portugueses são malandros e não querem trabalhar, então, emigraram para outros países para continuarem a ser malandros e a não fazer nenhum! Mas que puta de lógica é essa? 

Depois, eu gostaria que o Ferraz explicasse muito bem, como é que só os patrões portugueses se queixam dos trabalhadores portugueses. É que, nos países de destino, os emigrantes portugueses são conhecidos por serem bons trabalhadores e garantia de produtividade. Então espera lá. Cá, no seu próprio país os portugueses são malandros e não querem trabalhar, mas emigram para o estrangeiro e, em vez de continuarem a não querer fazer nada, como que por milagre trabalham muito e bem! 

Eu vou fazer um desenho. Os trabalhadores portugueses são os mesmos. Mas o que muda são os patrões. Então onde é que está o defeito Ferraz?


Ferraz, eu até te vou dar dois exemplos que, nem de propósito, acompanhei bem de perto na semana que passou. Duas pessoas, uma à procura de trabalho, a outra que, apesar de já estar a trabalhar, procura um trabalho pós laboral para ganhar mais algum dinheiro. 

O primeiro caso é de uma uma amiga minha. Acabou o curso e teve ofertas de trabalho na sua área no grande Porto. O salário que lhe ofereciam? Era o salário mínimo para um tipo de trabalho que é altamente especializado! A mesma oferta mínima que dá para qualquer trabalho indiferenciado que não precisa de qualquer formação. Só que o salário mínimo mal chegava para pagar o aluguer da casa onde estava e para comer. Não dava para mais nada! Então o ela que fez? Voltou para a sua terra natal, onde pretendia arranjar um trabalho que lhe permitisse ir juntando algum dinheiro para ir comprando alguma maquinaria para montar o seu próprio negócio.

Enviou dezenas de currículos para tudo e mais alguma coisa. Ela queria era trabalhar e ganhar algum dinheiro, mesmo que fosse o salário mínimo. E na sua cidade natal, na casa da mãe não tinha que pagar o aluguer de uma casa. E de tanto currículo enviado chegou uma oferta de trabalho para ficar "à experiência" num restaurante da cidade. Ia ganhar o salário mínimo mesmo tendo que trabalhar 11-12 horas às sextas-feiras e sábados e teria ainda de trabalhar aos domingos! Tudo isto por um salário mínimo! É espetacular não é?

Mas só lá trabalhou uma semana. Nem sequer lhe deram qualquer contrato a assinar. Mas afinal parece que as outras pessoas que lá trabalhavam também não tinham qualquer contrato de trabalho. Tudo na paz do senhor! Ela saiu porque começou a odiar aquilo. A forma como era tratada, quase humilhada por vezes. Pressão e mais pressão. Veio-se embora. Ligaram-lhe de novo no sentido dela mudar de ideias. Ela não mudou. Ela quer muito trabalhar sim, mas não quer ser escrava. 

O segundo caso duma colega de trabalho. A minha colega, junto de pessoas conhecidas, arranjou o contacto de uma padaria/pastelaria onde pretendiam contratar um serviço de limpeza diário. Seria um trabalho para três horas diárias e ela viu ali a oportunidade de, por um lado ganhar um dinheiro extra, que dá sempre jeito, e por outro, quem sabe, a oportunidade de começar a trabalhar por conta própria, até porque tem a ambição de, um dia, quem sabe ter um negócio seu, e pode muito bem passar por uma empresa de limpezas.

Chegada lá, indagou o patrão sobre quanto é que ele pretendia pagar à hora por aquele serviço de três horas diárias. O senhor disse-lhe que tinha pensado em 2,75€ à hora!! Portanto, ela sairia da minha empresa, ia-se deslocar para este segundo local de trabalho para, ao fim de três horas de andar a limpar, que é um trabalho desgastante, e ganhar essa exorbitância de 8.25€!!! Parece que o senhor não queria gastar muito dinheiro. Pois é... mas se não quer gastar dinheiro então que limpe ele! Assim não gastaria qualquer dinheiro, era só poupar!

Sabes Ferraz, os portugueses querem muito trabalhar até porque o dinheiro não cai do céu para aqueles que não tiveram a sorte de serem filhos de pais ricos. E as pessoas precisam de dinheiro para comer. As pessoas querem muito trabalhar mas não querem é ser escravas dos patrões. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Vão os Robots descontar para a Segurança Social?

Via Google Images

Visto que em breve os nossos empregos vão ser substituídos por robots - no fundo o sonho molhado de todos os patrões: ter alguém que trabalha 24h por dia sem se queixar, sem parar constantemente para atualizar o Facebook, para falar do jogo da bola do dia anterior, das novas promoções do supermercado; sem pausa de manhã nem de tarde para comer, sem direito a ser pago nem a ter direito a férias nem a subsídio de férias, nem a receber para fazer horas-extra, nem com direito a fazer greve... - a pergunta que se impõe é:

- Vão os patrões ser obrigados a fazer descontos dos seus robots para a Segurança Social para pagar as reformas dos humanos?

Mais grave ainda: que irá fazer toda esta gente, em breve nove biliões de seres humanos durante todo o dia? Consumir milhões de produtos feitos com o trabalho dos robots? Mas consumir com que dinheiro?
Pois é...

sábado, 11 de novembro de 2017

Não estudes, Corrompe!

Querido leitor: 
Nunca penses servir o teu país com a tua inteligência, 
e para isso em estudar, em trabalhar, em pensar! 
Não estudes, corrompe! Não sejas digno, sê hábil! 
E, sobretudo, nunca faças um concurso; 
ou quando o fizeres,
 em lugar de pôr no papel que está diante de ti
 o resultado de um ano de trabalho, de estudo, escreve simplesmente:
 sou influente no círculo tal e não me façam repetir duas vezes!
(Eça de Queiroz / As Farpas / 1871)


Quando eu era criança, ouvia muitas vezes dizer que era preciso estudar para se ser alguém na vida. Que quem não estudava nunca que iria sair da cepa torta. Queres estudar ou ir carregar baldes de massa? Mas hoje quando penso nisso, acho que é uma barbaridade! Uma indecência! A mentirem descaradamente às crianças logo desde pequenas. Até porque, vamos lá ver uma coisa, o que não falta para aí, é gente a trabalhar na construção civil e ganhar bem mais que licenciados! Uma empregada de limpeza ganha hoje, sem grande dificuldade, 7€ à hora, que é bem mais do que muito licenciado ganha, muitas vezes a dobrar roupa numa loja de centro comercial. 

E do que eu tenho visto, nunca foi bem assim como dizem. Aliás, desde miúdo que ouço falar de gente da minha aldeia, os "brasileiros", que foram para o Brasil  e que em poucos anos ficaram muito ricos. Conta-se que eram donos de ruas inteiras. Mas certamente que não ficaram ricos com a ajuda dos poucos estudos que tinham. E desconfio até, que não ficaram ricos a suar. Eu pelo menos nunca vi ninguém ficar rico de um dia para o outro graças ao esforço físico. E neste caso, até era público, pois uma dessas pessoas que enriqueceu contava que tinha tanto dinheiro, que dava para as suas duas filhas (da idade da minha mãe) e para os netos viverem sem nunca terem de trabalhar. Curiosamente este senhor morreu esmagado pelo próprio carro, quando este, destravado ia rua abaixo e ele foi a correr tentando sustê-lo com o seu corpo. E ele, que era tão rico, acabou esmagado contra uma parede. Não é irónico? Alguém tão riquíssimo que morre a tentar salvar algo que não lhe fazia diferença nenhuma? Mais, quase todos esses irmãos, acabaram por morrer cedo, igualmente de acidentes estúpidos.

Mas se esta afirmação nunca fez muito sentido, então hoje em dia nem se fala! Hoje em dia, cada vez mais o trabalho é mal pago. A título de exemplo, estamos em 2017 e eu tenho um salário inferior ao que ganhava em 2008. Será isto razoável? Não, não é porque o custo de vida está cada vez mais caro. A eletricidade está mais cara; a água está mais cara; o gás está mais caro; a internet está cada vez mais cara. Os transportes estão cada vez mais caros. Tudo está cada vez mais caro, mas os salários não acompanham. Porquê? E o que vejo é que, mesmo com muitos estudos, as pessoas ganham cada vez menos dinheiro, quando comparado ao que se ganhava há décadas atrás. É preciso empobrecer, gritam-nos os radicais-capitalistas! É preciso que os trabalhadores ganhem cada vez menos, para que os ricos ganhem cada vez mais! 

"Se fosse hoje nunca que tinha feito um curso superior. Passas tantos anos a queimar a pestana, para depois não arranjares trabalho na tua área e a ganhar uma porcaria". Quem mo disse foi uma ex-colega,  licenciada em engenharia química de 24 anos.

Antigamente, como a maioria das pessoas não tinha dinheiro para poder pôr os filhos a estudar (nunca que haverá igualdade de oportunidades) no máximo as pessoas ficavam-se pela instrução primária. Esse mérito de poder estudar ia para os filhos das gentes endinheiradas, que tinham sempre muitos escravos, que trabalhavam 16 horas por dia,  por uma bucha de pão e por uma malga de vinho. Mas hoje em dia, felizmente, que as pessoas já podem estudar mais um bocadinho, apesar de, não raras vezes com muito esforço.

E se agora muito mais gente estuda, a oferta, ainda por cima com taxas de desemprego altíssimas, o que não falta às empresas é por onde escolher, pagando sempre o mínimo possível, muitas vezes optando até por recrutar estagiários e nunca colocando as pessoas nos quadros da empresa. E nunca como hoje o emprego foi precário. Quase que o anterior governo tornou o despedimento livre ao sabor dos desmandos dos patrões, como se as pessoas fossem uma mercadoria.



E cada vez menos é a estudar ou a ser honesto que se vai longe. O Relvas chegou a doutor sem nunca sequer ter posto os pés numa universidade. Em Portugal (talvez como na maioria dos outros países é assim) chega-se longe a mentir, a aldrabar, a corromper. Chega-se longe fazendo-se rodear das pessoas certas nos sítios certos que fazem as coisas acontecer.

Foi precisamente isso que Eça de Queiroz escreveu n' As Farpas de Novembro de 1871, tendo sido preterido num concurso público para o Consulado da Baía: "Não estudes, corrompe! Não sejas digno, sê hábil! "

Portanto, se quereis dar uma boa vida aos vossos filhos, não os mandeis estudar porque, muito provavelmente, acabarão os dias a ter um trabalho para o qual não precisavam de nenhum curso superior, e a ganhar um salário de merda. Se quereis mesmo dar um bom futuro aos vossos filhos ensinai-os a mentir e a corromper. Por certo que terão o futuro garantido. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Quando as vítimas são culpadas do estado em que estão

O milénio caminhava a passos largos para o seu final. O salário mínimo eram 56 contos de réis ou 56 mil escudos se preferirem. Apesar de ter aparecido na entrevista todo vestido de preto, com uma camisola de capuz com três pentagramas nos braços e com um enorme nas costas, e de usar ao pescoço um fio com uma pequena caveira que tinha uns olhos que brilhavam, havia conseguido, fruto da reputação, da parceria ou provavelmente da extrema necessidade, um estágio numa reputada empresa alemã que precisava de estagiários para uma grande Central deste país. 

Acho que mais coisa menos coisa, entre compensação à hora mais ajudas de custo, o que estava acordado de forma verbal, depois duma visita guiada às instalações, eram cerca de 120 contos para trabalhar em regime de turnos rotativos durante o verão. E a necessidade era óbvia, a de preencher as férias dos próprios funcionários da empresa e não tanto proporcionar uma grande formação na área dos estagiários, para quem sabe, mais à frente, talvez o estagiário pudesse ficar com um emprego, e a empresa ficar com mais um trabalhador. Não, ninguém estava iludido a esse respeito. Eles precisavam de gente minimamente competente e responsável, a nós dava-nos jeito o dinheiro e a experiência para colocar no currículo.  

Eu desde criança que sempre trabalhei em casa, mas pode-se dizer que esta foi a minha primeira experiência no mercado de trabalho. E a esta distância, que estágio verdadeiramente surreal que foi! 

"Só me apetece dar peidos pela piça"! 

Retenho sempre esta frase de um dos seguranças da portaria. De noite, e quando só lá estávamos, naquela imensa Central, duas ou três pessoas, ele vinha para lá, para a sala de controlo, passar o tempo conversando connosco. Também me lembrei dele, quando os seguranças das empresas privadas que trabalham nos aeroportos fizeram greve por estes dias. O Pobre coitado tinha de fazer doze horas seguidas, e às vezes mais. Só pode ser mesmo escravatura.

E agora que estou a escrever e a pensar sobre isso, começam aos poucos a virem-me imagens desses tempos... e já lá vão quase vinte anos! Naquela sala de controlo, entre outras coisas, eu acho que até cheguei a levar um saco para pintar! É verdade, eu pintava os meus próprios sacos. Estão a ver aqueles sacos de estilo militar que se usam à tiracolo? Eu pintava os meus,  mas cheguei mesmo a pintar um saco para um colega de outro curso, ou amigo se preferirem. O Jorge foi meu amigo muito próximo durante dois, três anos no máximo. E naquela mesma sala, eu escrevia cartas a uma correspondente. E agora penso como seria interessante ir pegar nessas cartas e relembrar quem era afinal essa pessoa com quem me correspondi há quase duas décadas... Mais. Eu até terei essa tal carta que escrevi naquela mesma sala de controlo... 

Muita coisa se passava por lá.
Lembro-me também, quando mostrei aos operadores, que podiam jogar aqueles jogos do Windows95, em que o ambiente de trabalho estava escondido por aquelas páginas de dados, bastando para isso carregar em determinadas teclas de atalho! E pronto, a partir daí, de noite, enquanto eu pintava ou escrevia - tudo a ver com a área do curso! - alguém passava horas a jogar às cartas. 

Mas lembro também como odiava os turnos. Os turnos, como referi, eram rotativos e os colegas também rodavam, e aos poucos ia-os conhecendo a todos. Sei que detestei os turnos rotativos e naquele momento disse a mim mesmo que nunca mais votaria a trabalhar naquele regime. Aquilo não é vida para ninguém. Ninguém deveria ser obrigado, seja qual for o dinheiro que paguem, a ter de trabalhar de noite. Nós somos um animal diurno, não somos mochos nem morcegos. E é uma aberração ter de trabalhar de noite, e depois, passado umas horas ter de trabalhar de dia, e andar a rodar entre três horários e daí a algum tempo o nosso cérebro está completamente fodido. 

Até me lembro agora do Hugo, um ex-colega de trabalho, que quando trabalhava comigo, me disse que se ia despedir, para trabalhar, precisamente numa outra Central, com os mesmos turnos rotativos que eu havia experienciado. Mas ele estava muito agradado por ir ganhar mais do dobro. Mas o dinheiro não é tudo disse-lhe. E quando me lembro dele, lembro talvez um dos gaijos mais calmos que conheci. Ele tinha mais ou menos a minha altura, olhos azuis, corpo robusto, e algum cabelo já a rarear. Era o típico betinho-certinho de sapatinho de vela que qualquer mulher poderia apresentar aos pais, na certeza que o sucesso estaria garantido. Lembro-me também do que ele mudou mal casou! O Hugo sempre foi certinho e cumpridor. Pois não é que a partir do dia em que casou, nunca mais conseguiu entrar a horas? Lembro-me até, quando certo dia lhe telefono do trabalho, e ele ainda estava na cama! E conversei com ele sobre isso, sobre como com os turnos rotativos ele quase nunca se iria encontrar com a mulher na cama... Talvez ele ache que o dinheiro pague tudo isso. Eu acho que não paga.
De volta ao estágio, dizer que tudo foi correndo bem. Era era cumpridor, mostrava interesse em aprender e dava-me bem com os colegas. Não tinha por isso porque correr mal. 

Eu era tão responsável, mas tão responsável, que faltei ao próprio casamento da minha mãe. Se estou arrependido? Oh pá, foi como teve de ser. Se calhar bastaria ter trocado com outro colega ou avisado, ou sei lá, agora também já não lembro dos detalhes e também já não interessa. Estive com ela e o futuro marido em casa, e ainda cumprimentei os convidados, mas depois, quando todos foram para a cerimónia e para os comes e bebes, eu fui almoçar a um restaurante sozinho e depois fui trabalhar normalmente. E lá na empresa nunca ninguém teve nada que me pudesse apontar. E como eu costumo dizer, eu prefiro sempre que tenha de dizer dos outros, que os outros tenham alguma coisa a dizer de mim.

Mas infelizmente eu tive que dizer. O dinheiro lá foi sendo pago, mas depois parecia que afinal que nós tínhamos compreendido mal. Afinal já não eram 120 contos, parece que era só metade! E não fomos só nós, os estagiários, que tínhamos estado em reunião com o diretor lá da Central. Não, também lá tinha estado connosco o responsável do estágio por parte da instituição de ensino. 

E foi aí que o caldo ficou literalmente entornado. Sei que fiquei a saber da novidade num sábado. Pois bem, no domingo seguinte, simplesmente não apareci. E depois liga-me o responsável, todo exaltado, que não podia ser, que não podia ter faltado que só lá tinha ficado uma pessoa e mais não sei o quê. Fiz-lhe ver os meus motivos e homem já me queria pagar o táxi e tudo para ir para lá. Sim, porque na altura eu nem sequer tinha carta nem carro. Mas não, não mais lá pus os pés, pelo menos durante o período de estágio (haveria de lá voltar mais tarde). Não, eu não queria que me pagassem a merda do táxi, queria simplesmente que assumissem o que disseram e que não faltassem à palavra. Porque eu sempre aprendi em pequeno, que a palavra de honra vale mais do que um contrato assinado, mas logo ali, na primeira experiência profissional, aprendi que hoje em dia a palavra vale muito pouco. A vida está cheia de irrevogáveis.

E eu creio que seríamos uns cinco estagiários, em duas centrais distintas. Querem adivinhar quantos tomaram a posição que eu tomei?

Eu lembrei-me destes tempos, agora, porque por estes dias se tem falado muito na comunicação social, sobre esses grandes filhos da puta, desses patrões, que pisam e aproveitam-se das pessoas mais fragilizadas: os estagiários. Segundo as notícias, muito empresário obriga os estagiários a devolver o dinheiro da comparticipação da empresa no valor a receber. Se primeiro declaram que pagam ao estagiário e esse dinheiro entra no balanço das contas da empresa, depois, quando o estagiário é coagido a devolver o dinheiro, este é entregue pela porta do cavalo. 

Mas logo quando ouvi a notícia, e pasmem-se, à data da notícia não havia qualquer queixa por parte das vítimas que isto acontecia! Só depois das notícias é que começaram a aparecer as queixas! Assim ao género da Casa Pia, só depois da reportagem da Cabrita é que afinal havia gente a apresentar queixas que foram abusados. Será que também ainda vou a tempo de acusar alguém que fui violado e receber uns 50 mil euros? Quem é que querem que eu acuse?!

Mas quando ouvi a notícia, veio-me logo à memória o que tenho comentado a algumas pessoas próximas e que até certamente já terei comentado aqui no blogue: que muitas vezes a vítima é o principal culpado do seu estado. 

Pois o que eu acho é que, ninguém se deve deixar pisar. Já sei. Vão-me dizer que as pessoas sujeitam-se porque precisam, nas neste caso, nem é de todo o que está em causa! É só a merda dum estágio! Não é o trabalho de uma vida! E uma coisa é precisar, outra é que deixemos que nos roubem e que não façamos nada contra isso. Porque eu pergunto: e se um dia os estagiários chegassem ao trabalho, e o patrão também lhes dissesse: olha, agora sempre que me apetecer vou-te enrabar, se não acaba-se o estágio! Será que eles também se iam sujeitar? (excluindo os que iriam gostar como é óbvio)

Não. Se não queremos ser pisados nem humilhados, então não podemos deixar que nos pisem e nos humilhem. Se ninguém aceitasse ser roubado e denunciasse a situação, por certo mais nenhum patrão ousaria roubar os próximos estagiários. Deixar ser roubado é abrir a porta e incentivar que os próximos estagiários também o sejam. E se as pessoas aceitam ser roubadas e humilhadas, então, como digo mais uma vez, as vítimas é que são as principais culpadas do estado em que estão. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Vídeo: O último emprego na Terra

De acordo com os cientistas, nos próximos trinta anos, as máquinas podem ocupar 50% dos empregos a nível mundial. No vídeo imaginemos um mundo completamente automatizado. 


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ano e meio de outra coisa qualquer

E já passou um ano e meio. Assim num piscar de olhos. 

À medida que vamos envelhecendo mais depressa passa o tempo, pelo menos é o que eu sinto nesta fase da minha vida. Tudo passa cada vez mais rápido. Uma semana parece que passa num só dia. Um mês parece que passa numa semana, e um ano inteiro, todas as quatro estações parece que passam em quatro rápidas semanas. 

E já passou um ano e meio de outra coisa qualquer. Passou também um ano e meio desde que decidiste desaparecer sem aviso prévio, sem ao menos te dignares a dizer-me porquê. Aconteceram-me algumas coisas engraçadas neste ano e meio, outras se calhar sem graça nenhuma. E a ti aconteceu provavelmente  o mesmo. Provavelmente acontece o mesmo a toda a gente não é?


E não foi preciso tomar nota... Não anotei na agenda, no dia 4 de fevereiro de 2016: "escrever texto a publicar no blogue acerca de ter passado um ano e meio de outra coisa qualquer". Não, definitivamente não. Lembrei-me. Há datas que me lembro e até nem queria, há outras que me escapam. Olha, por exemplo, este ano, só no dia seguinte me lembrei do aniversário do meu pai... e é muito curioso, porque no dia seguinte, apercebi-me que no dia anterior não estive nada bem mesmo... Ninguém soube - não tem de saber não é? - mas só eu sei como estive. Mais ninguém. Mais ninguém se interessa não é?

Mas o que interessa é que eu me lembrei. Hoje mesmo. Quando ia a galope para o trabalho, e é engraçado pois vou sempre tão devagar, e hoje até carreguei um pouco mais no pedal - porque terá sido? - e pensava "já faz hoje um ano e meio que por lá estás a trabalhar... tal como faz também o mesmo ano e meio desde que a outra senhora desapareceu..." Sem deixar rasto que eu pudesse ter seguido. Desapareceu sem olhar para trás. Desapareceu simplesmente. 

domingo, 2 de agosto de 2015

Um ano de outra coisa qualquer...

Os dias passam muito rápido e num abrir e fechar de olhos, já passou um ano desde que voltei a trabalhar. O destino havia de me reservar uma empresa com um nome de banda de Gothic Metal, mas o mais importante, haveria de me reservar também o ambiente mais surreal que alguma vez encontrei numa empresa. Acho que surreal é mesmo o adjetivo!

Os primeiros meses não foram propriamente fáceis e se calhar por culpa própria. Mais do que as mil-e-uma-coisas diferentes que tive de aprender, creio que foi mais a ansiedade, o nervosismo e o medo de falhar que me complicaram a vida. Foi muito tempo desempregado, e a sociedade e a merda dos políticos que nos infernizam a vida estigmatizam-nos, e vendem a ideia que os desempregados umas sanguessugas mandrionas, uns verdadeiros criminosos que nada querem fazer, quando os verdadeiros criminosos são os políticos que nos roubam o dinheiro que descontamos muitos anos, para o termos disponível quando ficamos desempregados contra a nossa vontade. 

Eu acho que sei bem o que valho, principalmente como pessoa, mas também no local de trabalho. Mas é normal que comecemos a duvidar das nossas capacidades. Foi muito tempo fora da realidade laboral, há toda aquela inércia, o voltar para a rotina, o conhecer um novo ambiente, novos colegas, novos desafios, acho que é normal passar-se por esses período de ansiedade. Bom, em boa verdade talvez eu tenha ficado um bocado ansioso de mais.

Mas aos poucos as coisas foram entrando nos eixos. Começamos a ficar mais confiantes, mais autónomos, no fundo começamos a conhecer os cantos à casa e o trabalho de todos os dias deixa de ter segredos para nós, e começamo-nos a sentir parte da equipa. 


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Depois não tenho chefes, nem chefinhos, coordenador ou team leader ou outro qualquer anglicismo com nome pomposo que até parece uma coisa importante. Não tenho ninguém a foder-me o juízo constantemente. Tenho patrões e é a eles que respondo. Por vezes passam-se dias que o patrão nem vem ver o que ando a fazer. E eu gosto disso. Sei o que tenho para fazer, como fazer, sou responsável pelo meu trabalho e ele tem de aparecer bem feito. 

Depois o ambiente. Por vezes acho que é verdadeiramente surreal. Infelizmente não vos posso contar algumas das peripécias, pois certamente deve existir um qualquer código ético-deontológico do trabalho que não permite que violemos o sigilo laboral. Afinal, o que se passa no trabalho, deve ficar no trabalho certo? Mais ou menos como qualquer cavalheiro que nunca revela nada acerca das senhoras com quem confraternize!

E foi um ano em que ainda não tive de enfrentar o meu - eufemisticamente - a minha antipatia a meter-me dentro de um avião. E no fundo esse foi o meu principal motivo de ansiedade. Mas não tive de ir dar uma voltazita ali a África ou ao Brasil. Um ano depois, talvez esteja agora mais preparado a enfiar-me nessa máquina voadora, para voluntariamente, a lazer e não a trabalho, experimentar a coisa. Quem sabe?

Foi um longo calvário de desemprego. Os únicos vestígios que ficaram é um moreno, não castanho escuro, mas quase dourado na minha pele, verdadeiramente de fazer inveja! Um ano sem fazer praia, e a minha pele outrora branca, típica de quem tem cabelos loiros e olhos claros, ainda apresenta agora um moreno permanente de três anos de desemprego, mas de quem nunca ficou dentro de casa e aproveitou o sol. Afinal o sol quando nasce é para todos, mesmo para os desempregados. 

Um ano passou-se num ápice e na verdade gosto muito de trabalhar lá e não nada há dinheiro que pague sentirmo-nos bem no local de trabalho. Nesta sociedade somos obrigados a trabalhar para ter o que comer. E é o sítio onde passamos mais tempo, então, que seja ao menos um local onde nos sintamos minimamente confortáveis. Nem sempre é possível, eu tive essa sorte.