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domingo, 1 de setembro de 2019

Interessa Mesmo Que Eu Esteja a Namorar?

Via Pinterest

Há muito tempo que me demonstravas receio que eu voltasse a namorar. Se por um lado querias muito que eu encontrasse alguém especial, que aos teus olhos me merecesse, e com quem eu pudesse ser feliz, por outro lado isso deixava-te desconfortável, porque sentias que isso nos iria afastar ainda mais.

Eu sei que é um paradoxo fodido. Querer a felicidade de alguém, nós mesmos querermos que pudéssemos ser nós a fazer o outro feliz, mas não o podermos fazer. E como é que se pode querer a felicidade do outro, se ver o outro feliz implica vê-lo sem nós. Fodido, hein?

Mas muito sinceramente, interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Afinal, de que é que adiantou eu não estar a namorar durante os últimos novecentos dias se nem por uma só vez nos pudemos ver? Se deixámos de falar ao telefone, e se passam meses sem nos correspondermos?

Interessa mesmo que eu esteja a namorar?

Pois eu acho que não interessa nada. Tal como não interessa que tenhas ainda, ou não, marido. O que interessa é o que nós sentimos um pelo outro, e que eu, sinceramente, acho que não vai mudar tanto assim com o tempo, mesmo que um de nós se mude para um planeta distante. Diferentes são as nossas vidas que têm se seguir, como as de toda a gente, dia após dia, após dia, até ao dia final.

E na vida não dá para fazer Pausa. Os dias correm. Novecentos dias passam a correr. Quando mal dermos conta estamos velhinhos e desperdiçamos toda uma vida sem nos falamos. E isso sim é um bocado triste. Eu sei, gostar de alguém com quem não se pode estar também é muito triste.

Mas, se não nos pudemos ter, ou se não nos quisemos ter porque não nos podíamos ter, interessa mesmo que outras pessoas entrem (e saiam) das nossas vidas? Tu sabes que não podemos fazer Pausa nas nossas vidas. A vida é uma correria. Cruzamo-nos com tanta gente que um dia esbarramos em alguém...

Tu andas por aí sabe-se lá por onde e eu estou aqui a escrever-te porque, para mim, verdadeiramente importante é não esquecer quem foi importante para nós. Por isso, diz-me, interessa mesmo que eu esteja a namorar?


domingo, 26 de maio de 2019

O Sábio Basta-se a Si Mesmo

"Séneca é o exemplo de um espírito que tenta conciliar as ideias mais opostas que constitue o mundo,
e fá-lo, justamente, para que o mundo seja um lugar de encontro e não de discórdia (...)
De Séneca deriva uma atitude que representa um verdadeiro ensinamento:
saber enfrentar as contrariedades sem desalento, 
saber aceitar os reveses da fortuna,
assumir que a realidade não depende da vontade do indivíduo" 


"Tal não implica que, embora se baste a si próprio, ele não deseje ter um amigo, um vizinho, um companheiro. E até que ponto se contenta consigo mesmo mostra-o o facto de, por vezes, se contentar com uma parte de si. Se uma doença, se um inimigo lhe cortarem uma mão, se qualquer acidente lhe roubar um olho, ou mesmo os dois, ele contentar-se-á com o que lhe resta, e conservará tanta alegria de espírito depois de mutilado e estropiado como tinha quando possuía um corpo válido. No entanto, embora não se queixe da sua mutilação, prefere não a sofrer. É neste sentido que o sábio se contenta consigo mesmo: não que deseje, mas sim que possa prescindir de amigos. E ao dizer "que possa" entendo que suportará com firmeza de ânimo a perda de algum. Na realidade ele nunca estará sem qualquer amigo pois tem a possibilidade de rapidamente reparar a falta de algum. (...)


O sábio, embora se baste a si mesmo, deseja no entanto ter um amigo, quanto mais não seja para exercer a amizade, para que uma tão grande virtude não fique inativa; não (como na mesma carta afirmava Epicuro) "para ter alguém que  ajude na doença e no socorros se for encarcerado ou cair na miséria", mas, pelo contrário, para ter alguém a quem ajude na doença, alguém que, caso seja capturado, possa libertar das prisões inimigas. Quem só cuida de si e procura amizades com fins egoístas não pensa corretamente. Tal como começou assim acabará: arranjou um amigo para o auxiliar na prisão, mas assim que os ferros rangerem tal amigo evaporar-se-á! Amizades deste tipo chama-se-lhes correntemente "oportunistas"; alguém que seja tomado por amigo por motivo da sua utilidade deixará de agradar quando deixar de ser útil. Por isso mesmo grande cópia de amigos rodeia os ricaços, enquanto a solidão é apanágio dos arruinados; os amigos fogem de onde são postos à prova; daí todos estes exemplos de deserções ou traições ocasionadas pelo medo. Necessariamente nestas amizades o principio e o fim estão em completo acordo: quem começou por ser amigo por conveniência, deixa de o ser também por conveniência; qualquer interesse prevalecerá também contra a amizade se nela se procurar outro interesse que não ela própria.

"Para quê arranjar então um amigo?" Para ter alguém por quem possa morrer, alguém que possa acompanhar ao exílio, alguém por quem arrisque e ofereça à morte. Isso a que aludis e que tem em vista o interesse, que considera as vantagens práticas, isso não é amizade, é uma negociata!
(...)
"O sábio basta-se a si mesmo". Amigo Lucílio, muita gente interpreta incorretamente esta máxima, afastando o sábio do mundo que o rodeia e reduzindo-o aos limites do seu corpo. Por conseguinte é imprescindível distinguir bem o que significa, e qual o alcance desta frase: o sábio basta-se a si mesmo para viver uma vida feliz, não simplesmente para viver, na medida em que para viver carece de muita coisa, mas para ter uma vida feliz basta-lhe possuir um espírito são, elevado e indiferente à fortuna.
(...)
O sábio precisa das mãos, dos olhos, de muita coisa necessária à vida quotidiana, mas não carece de coisa alguma: carecer implica ter necessidade, ser sábio implica não ter necessidade de nada.
Por isso mesmo, embora se baste a si próprio, precisa ter amigos; deseja mesmo tê-los no maior número possível, mas não para viver uma vida feliz, pois é capaz de ter uma vida feliz mesmo sem amigos.
(...)
A sua cidade fora tomada, os filhos e a mulher pereceram, tudo era pasto das chamas; sozinho, e apesar de tudo feliz, Estilbão partia quando Demétrio, aquele que das cidades destruídas tomou  cognome de Poliorcetes, lhe perguntou se havia perdido alguma coisa. Resposta do filósofo: "não, todos os meus bens estão aqui comigo". Isto é que é ser um homem forte e indomável, capaz de vencer a própria vitória do seu inimigo! "Nada perdi", disse ele; e com isto forçou Demétrio a duvidar do seu triunfo.
(...)
Que importa, de facto, a situação em que te encontras, se tu a consideras má? "Como é isso? Então se um ricaço desonesto, se um homem senhor de muitos escravos mas escravo ainda de mais, disser: "eu sou feliz!", o facto de pronunciar esta frase fará dele um homem feliz?" Não, o que interessa não é o que ele diz, mas o que sente e o que sente continuamente e não num dia qualquer. E não receies que tão afortunada situação possa ser apanágio de um ser indigno: só um sábio se contenta com o que tem, todos os insensatos sofrem de descontentamento consigo mesmo.


Cartas a Lucílio (Carta 9) / Lúcio Aneu Séneca 

terça-feira, 19 de março de 2019

Um Abraço de Dois Anos

Não me esqueço de quem se lembra de mim e não me esqueço que faz hoje dois anos que vieste, lá de tão longe, só para me ver e constatar que, apesar da falta de algumas peças e um bocado remendado, eu ainda estava inteiro. Não esqueço também de quem me telefonou, todos os dias, sem falta, para saber como estava, de quem se preocupou, e, de uma ou outra forma, esteve presente num momento complicado, e é nos momentos difíceis que fazemos a chamada e vemos quem está presente. 

Mas, por este ou aquele motivo, acabaste por ser a única pessoa que o fizeste pessoalmente, e mesmo que tivesses tido oportunidade de ter ficado só umas dezenas de minutos, a verdade é que vieste na mesma. E essas coisas não se esquecem.


Eu não cuidava era que aquele abraço, um bocadinho menos forte que o habitual, mas só para que não me pudesses rasgar pelo picotado, tivesse que aguentar tanto tempo, sem que as tuas águas viessem, de novo, banhar a minha areia...

Coisas Que me Lembram de Ti (2) - Árvore das Rosas




Um pouco por todo o lado vêem-se agora rododendros em flor. E agora, como todos os anos por esta altura, sempre que os vejo em flor, em especial com flores vermelhas, vejo-te a posares para esta fotografia num dos sítios mais bonitos do país, sítio esse que te levei a descobrirmos, os dois, juntos, pela primeira vez. 

Ensinei-te o nome, e repeti-te em diferentes alturas: "ro-do-den-dro"!
- Acho que já não te lembrarás! É normal. Eu sei que não é propriamente um nome de muito fácil memorização e podia-te ter explicado o nome, bem mais interessante que tem em português.

Rododendro vem de "Rhodon" + "dendron". Em que "rhodon" significa "rosa" e "dendron" significa "árvore". Ou seja, a um rododendro podes chamar-lhe: "Árvore das rosas".

Já viste que bonito que é? E agora já sabes que sempre que vejo uma árvore das rosas é-me impossível não me lembrar de ti...

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Conversas Improváveis (30) - A Amizade Não Deveria Ser Incondicional?

O Nuno quer namorar comigo. 
Mas já sei que se lhe disser que não, ele vai desaparecer, nunca mais o vejo e vou perder um amigo.

Depois é a Marta. Ela é lésbica mas também já percebi que está interessada em mim pela forma como se comporta comigo. Mas também já sei que se lhe disser que não quero namorar com ela, e que só quero ser amiga dela, que também ela vai desaparecer. 

Eu sou teu amigo. Por mim tanto podes namorar com o Nuno como com a Marta como podes não namorar com ninguém. Se eu sou teu amigo não vou desaparecer porque então não seria teu amigo. E faz-me um bocadinho de confusão essas amizades com um interesse associado. Eu sou teu amigo, ou faço-me passar por teu amigo, se puder obter algo de ti em troca. A partir do momento em que percebo que já não tens nada para me dar eu vou pregar para outra freguesia. 

Mas a amizade não deveria ser desinteressada e incondicional? 




segunda-feira, 18 de junho de 2018

Coisas que me Lembram de Ti

Foto emprestada da net
Bem sei que já te diziam que eras muito parecida com a Cristina. Até eu mesmo te surpreendi quando viste que eu tinha um poster da Cristina na garagem e te disse que também já tinha pensado nisso. Mas olha que, e não é de agora, que eu acho que és muito mais Ana que Cristina. Sim, a sério! Ou então, isto foi só desde o dia em que apanhei um valente susto, em que estava na bicha de um posto de combustível e olho para a minha direita e vejo-te na capa de uma revista! "Ui, que é que ela está a fazer numa capa de revista? Estarei a ver bem?" 

Acho que isto faz parte do processo, ou pelo menos do meu processo. Já tenho obrigação de o conhecer bem. É uma espécie de stress pós-traumático depois do fim de uma relação e em que se continua a gostar muito da outra pessoa. E agora que penso até nem é uma coisa que se fale muito, ou eu pelo menos nunca ouvi falar. Mas existe e pode ser muito complicado para ultrapassar. Afinal, não são só os ex-combatentes de guerra que ficam com traumas. E eu até estou em crer que a maioria dos traumas e os mais complicados que as pessoas carregam ao longo da vida, foram vividos na infância. E certamente que depois dum evento emocional fortemente traumático podem ficam sequelas para o resto da vida. (Coitadas daquelas crianças que o cabrão daquele filho-da-puta do Trump está a separar dos pais). E como é que não podiam ficar traumas, se uma das coisas mais fortes que emocionalmente experienciamos na vida é o amor? 

Ainda que, no meu caso e em boa verdade, esse stress pós-traumático se tenha transformado noutra coisa qualquer, uma vez que, ver-te nos mais variados sítios é sempre motivo de sorriso e de quase galhofa. Sim, também se pode ter transformado em loucura, é bem verdade!

Mas é claro que eu sei perfeitamente que, por exemplo, continuar a ver o teu carro em todo o lado não é nenhum sinal do Universo... Para ser honesto, e aqui que ninguém nos lê, se calhar acho que é... Se calhar também pode ser sinal que têm de existir muitos carros iguais ao teu, mas significa também que os meus olhos ignoram a maioria dos carros e só reparam em alguns. E os nossos cérebros fazem isso inúmeras vezes, mesmo que seja sem nos apercebermos, E não raras as vezes só vemos o que queremos ver. E três anos depois, ainda ver ainda o teu carro em todo o lado, significa só que, mesmo passado todo este tempo, e mesmo depois de me ter voltado a deixar encantar de novo por outra pessoa, tu continuas muito presente nas minhas memórias. Porque há coisas que não se esquecem, e mesmo que eu conseguisse, na verdade também não me quereria esquecer de ti.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Retirar o Time de Campo


"Então, e tens falado com a.... ? " 

Não, não tenho. 

Os brasileiros que gostam muito de futebol, se calhar mais até do que nós portugueses, têm várias expressões futebolísticas que se adequam a várias situações da vida e uma delas é precisamente esta: 

Retirar o time de campo. 

O exército tem de saber quando tem de atacar em força, subjugar e aniquilar completamente o inimigo, tal como também tem de saber que, por vezes, o mais sensato é bater em retirada antes que seja aniquilado. 

E se há momentos em que é preciso saber quando temos de investir em força sobre o adversário, fazer marcação cerrada, atacar, ir com tudo para cima, por outro lado também temos de perceber que há momentos em que por mais que desatemos a correr, nunca que vamos conseguir apanhar a bola antes desta ultrapassar a linha. Só estaremos a ter um enorme gasto de energia inútil. Iremo-nos cansar, ficar ofegantes e tudo para nada. Se tivéssemos aceitado que nunca que lá chegaríamos a tempo, teríamos desistido a tempo de ir ocupar tranquilamente a nossa posição dentro de campo, que ficou desguarnecida com esta imprevidência. 

Sim, há pessoas muito persistentes, e sem dúvida que muitas vezes conseguem os seus intentos. Estou ciente disso. Mas outras pessoas há, como eu, que não gostam de malhar centeio verde. Se tenho interesse em determinada pessoa acho que o demonstro claramente. Acho que ainda me consigo expressar, ainda que, na maioria das vezes sublimiarmente. Também não temos de parecer desesperados, muito menos penso que seja preciso fazer desenhos. 

E subliminarmente transmito a mensagem. "Pareceste-me interessante. Gostei de ti. Se quiseres podemos ser amigos." Mas depois é preciso perceber as mensagens que vêm do outro lado. O interesse que é demonstrado por nós. E não podemos deixar que o nosso interesse nos tolde a visão e querermos à força toda acreditar que, se insistirmos mais e mais, os outros vão-nos querer nas suas vidas. É assim que se formam os perseguidores, com essa excessiva necessidade de atenção e baixa auto-estima. Querem à força toda que os outros gostem deles: "Anda lá gosta de mim. Eu sou a tua vida. Está escrito nas estrelas. Ninguém te vai fazer feliz como eu. Se não fores meu não serás de mais ninguém". Não! Não temos que nos impingir aos outros. Não podemos obrigar os outros a gostar de nós, a quererem ser nossos amigos. Nós só nos podemos disponibilizar, nada mais. O resto, o restante esforço de aproximação, tem de ser feito pela outra parte. 

Acho que sim, que nos devemos disponibilizar, mostrar abertura para - "abre-te ao novo" - mas não nos podemos querer impingir, sentar ao lado daquela pessoa, e achar que ela irá querer seguir viagem connosco. Segue se quiser, se tiver interesse. Tal como nós, tantas vezes, não seguimos viagem com tantas outras pessoas que se calhar queriam que ficássemos ao lado delas. 

E há tempo de persistir e de mostrar interesse; tempo de marcar o território e de ir à luta. Mas também há tempo de aceitar que o melhor, como dizem os nossos irmãos brasileiros, é tirar nosso time de campo.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Não Me Morras

Eu gostava de saber mais. Muito mais. Sobre isso e sobre tudo o resto. Gostava de saber muito mais sobre ti. Sei pouco. Às vezes também não é preciso saber. Basta sentir. E gostava de saber de onde é que vem todo esse sofrimento que carregas e que tanto te consome. Um sofrimento que tem de ser quase insuportável a ponto de achares preferível deixar de viver a teres de enfrentar esse peso a cada novo dia que passa. Eu sei que não consigo imaginar o quanto estarás a sofrer, porque sei muito bem que é preciso estar a sofrer muito para nada mais interessar. Como se quisesses acabar tudo para quem sabe recomeçar de novo de forma diferente.

Nós nascemos sozinhos. Vivemos juntos. Morremos sozinhos. Ninguém pode morrer por nós. Ninguém pode sofrer por nós. O que tivermos de passar, teremos de ser nós a passar. Ninguém poderá passar por nós. E eu sei que nada do que eu te disser agora te animará. Não interessará que eu diga que és uma pessoa encantadora, certamente muito querida por todos, e de quem, certamente, toda a gente gostará. Nada adiantará eu dizer que toda a gente vai sentir muito a tua falta. Os teus pais, amigos e todos aqueles que te querem bem. Sei bem que nada disso interessa porque estás a sofrer e o sofrimento não desaparecerá com as bonitas palavras e incentivos dos outros. 



E eu não tenho que saber de nada. E o mais importante eu já sei, que é saber que não estás bem. Que queres acabar com tudo e ir-te embora. E isso é mesmo muito triste para mim. Sinto-me impotente, porque, mais uma vez, nada posso fazer. E eu sei que nada do que eu possa dizer te fará sentir melhor. E isso é muito triste para mim. 

Tu sabes melhor do que eu. Certo dia, faz hoje precisamente dois anos, aproximaste-te de mim. Aproximaste-te só para me mostrar que havia alguém, que mesmo não me conhecendo, que se importava com a minha tristeza. E só isso já diz muito sobre a pessoa que és. Hoje, sou eu que te quero dizer que estou aqui para ti. Sempre. Tens-me sempre aqui para ti. Desculpa já não ser um desconhecido para ti. Já me conheces, já sabes como eu sou, não te posso motivar a conhecer alguém alguém novo. Mas por outro lado já sabes como eu sou. Sabes com o que podes contar. E eu sempre achei que é para isso que servem os amigos. Pois é. Durante tanto tempo não conseguimos encontrar definição para o que éramos um do outro. Amigos sempre me pareceu bem. E para mim os amigos são para estarem lá quando precisamos deles.

E o que eu gostava era de poder estar agora contigo. Agora, que precisas. Gostava de poder abraçar-te e deixar-me abraçar por ti, com toda a força que entendesses, mesmo que me deslocasses duas ou três costelas! Entende que, mesmo ninguém possa resolver o que te aflige, tu não tens de lutar sozinha. É mais fácil se dividires o fardo com aqueles que te querem bem. E eu quero-te muito. E bem.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Vidas Paralelas

carta da amiga grega / maio / 2016
... we are in parallel lives in way.
things are not very promising in greece. the only thing that kept me were the refugees. unemployment makes you different and i didnt even want to be with anyone, (since people are getting very easily agitated nowadays). i was getting alone and sadder by the day watching everything go wrong, and all the real people with all this loss, they kept fighting and smiling and i said to my self, what the hell, i cant be sad any more!
i am quite better, but i lost faith in a lot of things except from people's eyes that speak our language. the language of solidarity, the language of keep making things against what law thinks should or should not be.
i stopped dancing so i dance alone on my house or in my garden. i also lost someone i felt for 2 years ago, but he was mean to me, so it took me some time to recuperate.
i thing getting more mature does things to you, it made me more sensitive to everything. We look older but we are softer inside.(or its just me)
i have a niece she is 5! she is the cutest little sweetheart, for me and she loves me a lot. Now i wish i could have a kid but the prospect is very low.
i do remember you too. your turtles your walks in all these beautiful places. if you want you can send me fotos of your new walks?
i really am very happy you didnt forget me 
BBBjos!!!
...como que vivemos em vidas paralelas hoje em dia
Na Grécia as coisas não estão muito promissoras. A única coisa que me fez aguentar foram os refugiados. O desemprego torna-te diferente e eu não quero estar com ninguém, (desde que as pessoas começaram a ficar agressivas muito facilmente). Comecei a ficar sozinha e cada vez mais triste vendo tudo ficar errado, e todas as pessoas reais com as suas perdas, continuam a lutar e sorrindo e eu disse para mim mesma, que 'sa foda , não posso mais estar triste!
Estou melhor, mas perdi a fé num monte de coisas, exceto nos olhos das pessoas que falam a sua linguagem. A linguagem da solidariedade, a linguagem de continuar a fazer as coisas contra o que as leis acham que se deve ou não fazer.
Deixei de dançar, então agora danço sozinha na minha casa ou no meu jardim. Eu também perdi alguém de quem gostei há 2 anos, mas ele era mau para mim, e levei algum tempo para recuperar.
Acho que estou a ficar mais madura com as coisas que me acontecem, tornaram-me mais sensível a tudo. Parecemos mais velhos mas estamos mais macios por dentro. (ou é só comigo)
Tenho uma sobrinha com 5 anos! Ela é a coisa mais linda para mim e ama-me muito. Agora eu gostaria de ter um filho, mas a possibilidade é muito baixa.
Eu lembro-me de ti também. As tuas tartarugas, os teus passeios naqueles sítios lindíssimos. Se quiseres podes-me enviar fotografias dos teus novos passeios?
Estou mesmo contente por não te teres esquecido de mim.
Beijos!!!

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Lembro-me frequentemente destas tuas palavras. Por vezes as pessoas ficam tristes com coisas sem qualquer importância. Ou frustradas por não poderem ter isto ou aquilo, quando desaproveitam a sorte que têm. Apesar de ter acompanhado os teus relatos, eu nunca poderei imaginar o que tens passado no teu país há já quase uma década... Talvez seja quando estou mais sensível que me lembro destas tuas palavras. Agora ficam aqui também... Quem sabe, talvez possam inspirar alguém que por aqui passe...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O Corvo que adotou um gatinho

Relembrando aqui a história do Corvo que adotou um gatinho.



O corvo tratou de arranjar comida para alimentar o bichano. E protegeu-o como se fosse seu próprio filho. O gatinho cresceu, arranjou uma família de humanos que lhe deu comida sem ele ter que fazer qualquer esforço, mas apesar disso nunca deixou de ser amigo do Corvo. Ambos ficaram amigos para a vida.

Provavelmente se esta história se passasse entre dois humanos, o humano-gato cagava no humano-corvo pois já não precisava dele para nada. Ou então pior, certo dia,  quando o humano-corvo estivesse distraído, comia-o.

Acho que temos mesmo muito a aprender com os animais, em especial com os corvos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bactéria Multirresistente

Estaríamos em 1998... 

Todos os dias apanhava o 56, um daqueles autocarros, compridos e articulados. Vestia-me de preto da cabeça aos pés, tinha uma imensa juba loira pelo fundo das costas, de meter respeito, e usava as mesmas botas pretas, todos os dias, quer fizesse calor ou frio. Nos dedos anéis, um verde com uma caveira, outro com um pentagrama prateado em fundo preto, e um outro ainda que era um olho vermelho que refletia a luz de onde quer que olhassem, parecendo que estava a olhar para quem para ele olhasse. Ora usava um, ou todos os anéis numa só mão ou em ambas as mãos, e usava também diferentes fios. Recordo uma Estrela-do-Caos que me acompanhou muitos anos...  e curiosamente ainda nos dias de hoje a uso apesar de já não ser a mesma.

Certo dia, sentado no banco plástico cor-de-laranja do autocarro, que demorava mais ou menos meia hora a chegar ao destino, e enquanto folheava um catálogo em formato revista de uma conhecida editora alemã , um homem mais alto que eu, de cabelo curto e já com entradas na testa e que usava uns pequenos óculos e uma pasta que lhe davam um ar muito intelectual, interpela-me:


Foto emprestada da net
"Essa revista..." não sei ao certo o resto das restantes palavras, mas o certo é que um completo desconhecido me interpelou. Eu virei-me para trás, respondi-lhe simpaticamente, como aliás costumo fazer sempre com pessoas desconhecidas que me abordam, e começamos a conversar sobre música.

E se à primeira vista ninguém diria que aquela pessoa, vestida de uma forma completamente diferente da minha, e aparentando ser totalmente diferente de mim, mais à frente descobri que não poderia partilhar gostos mais parecidos, fossem eles musicais, de estilos de vida, como até visões da própria sociedade. 

E um pequeno gesto pode - como já várias vezes falei disso aqui no blogue - mudar muitas coisas na vida de uma pessoa. Se até então esta era uma pessoa desconhecida que simplesmente apanhava o mesmo autocarro que eu, a partir dali começamo-nos a encontrar nas mesmas paragens de autocarro e a conversar.  E foi assim, num pequeno gesto, uma simples interpelação num transporte público, que conheci aquele que, durante muitos anos viria transforma-se no meu melhor amigo.

Curiosamente foi esta pessoa que, já há uns quantos anos, me disse certo dia, a propósito da minha resiliência, que por mais mais dificuldades que a vida me coloque, eu resisto e resisto, sempre... como uma "Bactéria multirresistente".

domingo, 1 de novembro de 2015

Nunca me deixes

Não sei porquê, mas apesar de me considerar uma pessoa relativamente bem informada - mesmo vivendo numa caverna sem televisão - há muito que deixei de saber que filmes estão em cartaz, que grandes filmes têm saído e que se calhar teria gostado, ou que filmes toda a gente anda a ver e que certamente eu não iria, a menos me convidassem, e nunca se recusa a simpatia de um convite para ir ao cinema. 

Talvez também porque, por diferentes motivos, as pessoas estejam a ir menos ao cinema, e se não vão não se comenta tanto, até porque agora se podem ver os filmes de outras formas, no conforto de casa, e de forma bem mais económica, revendo quantas vezes se quiser, e sem ser preciso recorrer aos antigos video-clubes, em que se tinha de devolver o filme dentro de determinado tempo. 

E talvez, digo eu, mas talvez porque se consome agora muito mais filmes, uns atrás dos outros, as pessoas tenham deixado de comentar, de mostrar essa emoção aos outros, de terem visto um grande filme, e quem diz um grande filme, diz um grande disco. Ninguém comenta que viu no dia anterior um grande filme em casa. Isso não é um acontecimento. Seria um acontecimento se tivesse ido ao cinema, e ao contar, os outros saberiam que a pessoa tinha ido ao cinema. Agora em casa? Qual a graça disso? E porque hoje em dia tudo se descarrega rapidamente, e atrás de um filme ou de um grande disco, vem logo outro e outro, nessa ânsia desenfreada de consumir. Mas conhecer, chega-se a conhecer e valorizar verdadeiramente alguma coisa? Eu acho que não. 

E depois, hoje em dia ninguém vai ao cinema, até porque o cinema não está propriamente barato. Chegamos ao cúmulo de ter agora peças de teatro, com atores de carne e osso em palco, mais baratas que ir ver uma projeção de um filme numa sala de cinema. E ainda por cima no cinema criou-se o hábito - consumista pois está claro - de assistir ao filme comendo pipocas e bebendo refrigerantes, o que logicamente, irá inflacionar o gasto ainda mais. Em dez anos anos, um bilhete de cinema mais do que duplicou de preço, mas os salários, esse não duplicaram bem pelo contrário.




E assim por mero acaso, passava agora os olhos pela capa de um filme, que só saiu há cinco anos, mas que me passou completamente ao lado. Acho que foi o título que me chamou agora a atenção. Talvez porque eu mesmo esteja a viver tempos, não de olhar para o presente e o futuro, mas de olhar para trás e recordar o que tem sido a minha vida. E porque relembre que, por mais esforço que tenha sempre feito em tentar manter junto de mim as pessoas com quem criei laços fortes e de quem sempre quis sempre ser cuidador, mas elas sempre me tenham fugido como areia seca por entre os dedos. 


Um dia destes vejo este filme. Mas não tem de ser já hoje ou amanhã, ou esta semana ou na seguinte. Não temos de viver nessa urgência de querer saciar todas as vontades no minuto seguinte. Pelo menos a mim basta-me saber que há por aí um filme que tenho interesse em ver, e sei que um dia destes vou ver: "Nunca me deixes (Never let me go)"