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domingo, 16 de fevereiro de 2025

O Amor Consumista

Passou mais um dia dos namorados e falou-se novamente de como 75% dos nossos jovens acham perfeitamente normal controlar, perseguir ou agredir psicologicamente. E depois o problema é as aulas de cidadania! Se calhar deveriam era aumentar a carga horária para aprender a respeitar o outro. E obviamente muito se escreveu na imprensa internacional sobre o preço dos chocolates e sobre o amor... Este artigo de José Nicolás do El País foi talvez dos que mais me chamou a atenção e aqui fica:


Se pensamos hoje numa pessoa que procura um parceiro, imaginamos frequentemente alguém que passa parte do tempo colado ao telemóvel, aprovando ou rejeitando perfis numa aplicação de encontros. Obviamente, nem toda a gente o faz, mas é muito comum. O Tinder é a aplicação mais utilizada em Espanha, com mais de três milhões de visitas por mês: agora, pode-se “namorar com toda a gente, a toda a hora e em todo o mundo”, escreve Liv Strömquist em "Não sinto nada". 

A internet e a sua utilização para encontrar um parceiro afastam-nos do momento romântico de começar a sentir algo por um colega de trabalho, de reparar na pessoa com quem coincidimos nos transportes públicos, de trocar olhares num bar… agora, tudo é escolhido. Acabamos por iniciar uma relação não por instinto, mas pela informação que um perfil escrito pelo outro nos fornece.

Strömquist acredita que optamos por esta forma racional de iniciar um relacionamento porque temos a tendência de querer compreender tudo: “A expansão da sociedade de consumo faz com que nos comportemos como consumidores racionais e que tentemos tirar o máximo proveito até mesmo das nossas relações pessoais.”

Neste excelente ensaio em forma de banda desenhada, a autora sueca cita pensadores como Byung-Chul Han, Eva Illouz e Slavoj Žižek, que argumentam que, devido à sociedade consumista e superficial em que vivemos, apaixonarmo-nos – cair de amor (fall in love em inglês ou tomber amoureux em francês) – tornou-se cada vez menos comum: “Em vez de nos deixarmos surpreender por um sentimento e tomarmos decisões intuitivas, pensamos de forma racional, como consumidores”, resume.



Há indícios de que o amor e o consumismo andam de mãos dadas. Nestes dias, as empresas de marketing lançam campanhas para oferecer as melhores experiências para casais, as floristas preparam-se para fazer o seu agosto e as empresas de chocolates e rebuçados faturam, numa semana, um terço dos lucros de todo o ano. No entanto, entre montras repletas de corações, ainda há espaço para a conexão espontânea, para os amores à primeira vista.

Algo assim aconteceu a Francis há alguns meses, durante uma visita ao Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba). Numa das salas, cruzou-se com um rapaz que “lhe pareceu muito interessante”. Foi assim que uma amiga sua o descreveu na conta de Instagram do museu, que publicou um carrossel de imagens com um apelo: “Alejandro, estamos à tua procura”. A série de fotos reproduzia o pedido da amiga de Francis: “Na sala onde estão as obras de Remedios Varo, conheceu Alejandro, um colombiano que está em Buenos Aires em home office”, dizia uma das imagens. “Quando conta a história, sente que conheceu alguém que poderia ser um amigo especial (ou talvez algo mais). […] Agradecia muito se me ajudassem a encontrar o Alejandro. A minha amiga é uma das pessoas mais maravilhosas que conheço, e tenho a certeza de que Alejandro teria muita sorte em conhecê-la melhor.”

Hoje, a publicação tem mais de 36.600 gostos e é, de longe, a mais bem-sucedida da conta do Malba. Nos comentários, centenas de pessoas torciam para que o famoso Alejandro aparecesse e aguardavam ansiosamente a continuação da história. E aconteceu. O próprio Alejandro respondeu: “Uma amiga mostrou-me este post e eu sou o Alejandro. Que loucura e que graça isto.” O museu colocou-os em contacto e, mais tarde, ele publicou um vídeo onde contava que também sentiu uma ligação com Francis e que os dois já trocavam mensagens e se estavam a conhecer melhor. “É muito bonito”, dizia, visivelmente entusiasmado.

Está visto que encontrar o amor nem sempre exige recorrer a uma aplicação de encontros, ao programa A Ilha das Tentações ou ao balcão de um bar. Às vezes, basta visitar um museu – acontece quando e onde menos esperamos.

quinta-feira, 2 de março de 2023

A Cultura da Pressa e a Desumanização das Relações

Imagem roubada da net

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A conexão perpétua condenou-nos à disponibilidade eterna nas redes sociais. A necessidade de resposta imediata e a demora quando o retorno do outro lado não vem geram uma série de angústias. O resultado é uma sociedade stressada e mentalmente doente.

A iniciativa Desacelera SP existe desde 2015 como uma “desaceleradora de pessoas e negócios”. A sua fundadora Michelle Prazeres passou a questionar a cultura da pressa após o nascimento de seu primeiro filho. “Nem todo mundo tem 24 horas iguais”, defende.

Desde então, ela já lançou uma série de iniciativas ligadas ao movimento slow, como o Guia Desacelera SP, com lugares para aproveitar a cidade com calma e o Dia Sem Pressa, com atividades que estimulam a desaceleração.

Prazertes pesquisa as relações entre a comunicação, as tecnologias e a aceleração social do tempo, e questiona avanços como o controle de velocidade de áudios de WhatsApp e de streamings.

“Empresas de tecnologia geram necessidade. O acelerador de áudio é um exemplo. De escolha passa a ser hábito e de hábito, regra.”

A pandemia teve um grande papel ao naturalizar a cultura da atenção, afirma. “Vivemos situações em que estávamos mediados pela tela, com nossa atenção muito dividida. Saímos da pandemia pior do que entramos, com dificuldade de fixação, apressados.”

Por que não conseguimos nos desconectar? 

Existe uma engrenagem que exige a gente conectado o tempo todo. Não interessa ao mundo do consumo o tempo que a gente não gasta consumindo. Pensar não dá dinheiro, dormir não dá dinheiro. Estamos vivendo algo bastante sofisticado. É ainda mais difícil para a nova geração, que não sabe virar a chave, eles não sabem o que é desconexão, ter direito a ficar alguns dias sem responder uma mensagem.


De quem é a culpa? 

Silicon Valey convenceu a gente de que agilidade é bom, de que tecnologia é progresso. E toda vez que alguém tenta falar qualquer coisa mais ponderada é tachado de nostálgico, dinossáurico, “lá vem os chatos da tecnologia”. Eu estou olhando para os aspectos humanos disso. As pessoas estão adoecendo por causa da velocidade. Não é nostalgia, não é querer acabar com a cibercultura, com a tecnologia, mas a gente olha para a desumanização das relações, as pessoas estão exaustas, aceleradas, desinteressadas pelas outras.

Há a expulsão do outro.

Como isso está comprometendo as relações sociais? Sem se interessar pelo outro, a gente não se conecta, não acha sentido comum. As trocas e os processos humanos ficam comprometidos. Esses dias eu estava numa entrevista e a pessoa do outro lado atualizava o feed. É a desumanização das relações sociais. Esse fenómeno tem a ver com o fato de as tecnologias estarem completamente imbricadas em nossa vida, de não existir mais o conceito de “entrar na internet”.

Como tornar as relações pessoais mais humanas? 

Dá para construir alguns combinados. Se é um círculo de intimidade, estipule contratos de tempo de permanência no telemóvel. Diga coisas como “olha, estou falando com você, pode terminar de responder o celular”. A pessoa fica constrangida e para. Se você está num ambiente de trabalho, proponha um pacto de concentração, de não usar o celular, de guardar num potinho. Diga que a reunião vai ser rápida, mas nesse tempo todo mundo tem que prestar atenção.

Se perceber que alguém está usando, repita o “quando terminar eu continuo”. Também rola o constrangimento. Não podemos naturalizar essa divisão da atenção.

E o que é preciso para sairmos disso? A desconexão é uma das saídas para combater a exaustão extrema. As buscas desse livramento são individualizadas, nosso regime sociopolítico empurra a gente a acreditar que as soluções têm que ser individuais. Eu sei que o que serve para mim pode não servir para os outros. Tem casos que a urgência não é individual. A gente precisa de uma transformação cultural.

Como você lida com a urgência? 

Eu estou atenta ao WhatsApp, mas tem horário que não respondo. Tenho a sensação de que quando você tem as rédeas, essa relação fica menos angustiada. Não é o caso do meu filho de 11 anos. Ele não tem maturidade para lidar. Quando ouve o celular apitar, ele quer pegar na hora, é uma angústia. Eu combinei com ele que tem horário específico para isso.

O que cada um pode fazer?

Tirar notificações, estabelecer horários, tomar medidas no âmbito do direito à desconexão. Não precisa ficar três dias ausente, mas ter pequenos momentos de desconexão já dão um respiro. Eu percebo que os dias que estou mais ativa no WhatsApp por causa do trabalho ou dos filhos, fico mais ansiosa. Eu recomendo também o “não, pera, isso é necessário?”. Não aderir a uma tecnologia só porque é moda e todo mundo entrou. Usar a tecnologia de acordo com a necessidade. Não precisa responder na hora ou estar sempre online.

Em termos de sociedade, o que pode ser feito? 

O Brasil faz uma sinalização de que haverá políticas públicas nesse sentido quando uma secretaria [Secretaria de Políticas Digitais, dentro da Secom] se propõe a pensar letramentos digitais e regulação das plataformas. Temos um longo e desafiador caminho pela frente. Temos gestos, sinais e gente construindo. Essas mudanças nunca são imediatas. Eu tenho esperança".

*Entrevista de Mateus Camillo a Michele Prazeres publicada no jornal Folha de São Paulo a 28 de Fevereiro de 2023

domingo, 29 de janeiro de 2023

O Principal Inimigo da Democracia é o Centro Comercial

Uma das minhas frases preferidas de Aldous Huxley, que até ostento aqui no blogue, e de quem li, por exemplo, "Admirável Mundo Novo", "Contraponto" ou "Também o Cisne Morre" é:
 
"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento , os escravos terão amor à sua escravidão."

Ao ler a seguinte crónica no El País sobre como as pessoas estão a abdicar da democracia e da sua liberdade, porque estão a ser compradas pelo dinheiro de imediato lembrei-me de Huxley.
 



"No Qatar ganhas poder de compra mas renuncias a ser um cidadão. Vives à grande. Vi um colega comprar um Hummer. Vi espanholas de discurso progressista escravizar as suas criadas sudanesas. Para meu espanto o meu marido escocês disse "democracy is overrated"...

Cheguei a Doha em 2013. Podemos dizer, para simplificar, que estava farta de encadear contratos lixo na Europa e aceitei um emprego de professora bem remunerado num lugar assustador. Da janela do meu escritório na universidade pude ver um deserto sem dunas que mais parecia um deserto sem fim sob uma nuvem de poeira.

Morar lá é complicado com pouca empatia que se tem.

Um: deves-te proteger contra o sistema de castas; trabalhas para os cataris, lidas com pessoas em circunstâncias semelhantes às tuas - estrangeiros com empregos qualificados - e és servido por homens e mulheres pobres.

Dois: da janela do carro, todos os dias vês centenas de trabalhadores, escravos modernos, no momento em que são transferidos de autocarro dos locais onde dormem para os prédios - estádios, museus, hotéis - que eles constroem, ou vice-versa .

Três: deves acostumar-te a ter alguns alunos cujos rostos não vais poder ver.

Quatro: planeja sempre o medo de te meteres em encrencas sem querer.

Cinco: todas essas coisas que dizem sobre o Catar - que financia o Islão radical, principalmente - são difíceis de aceitar como pertencentes ao lugar que fazes a tua casa, então tenta não pensar nelas. A lista poderia continuar.

Como é curioso o coração humano: com tudo, acabas desenvolvendo um certo vínculo sentimental com aquele deserto onde, desde o início, só foste ganhar dinheiro.

Na Europa, a onda de indignação contra o Catar – alimentada pelo recente Campeonato do Mundo – tem sido unânime e ninguém pode negar que é bem fundamentada. É uma pena que os protestos vão cair em saco roto. Alguém pensa que o emirado se preocupa com as mensagens estridentes nas redes sociais, as pulseiras que têm a validade de um suspiro?

Nós, ocidentais, imaginamos os cataris como um povo de ex-camaleões fanáticos que tiveram a sorte de encontrar gás sob a restinga onde estavam acampados. Nós os pintamos como uma tribo de novos-ricos que gostam de bugigangas sofisticadas e luzes de LED. De acordo com o que Edward Said nos ensinou a pensar no Orientalismo, essa representação surge da nossa ansiedade pela perda de status, do desejo de salvar nossos móveis num planeta cujo centro está irremediavelmente deslocado para o Oriente.

Acredita, há algo comovente no Qatar. Uma ânsia muito juvenil de conquistar o mundo - de sediar as melhores universidades, os melhores museus, as melhores competições esportivas.

Quando me mudei para Doha, o slogan Qatar merece o melhor - “O Qatar merece o melhor” - preenchia os enormes outdoors atrás dos quais estádios e novos arranha-céus estavam sendo construídos. A morte de muitos trabalhadores torna pavoroso um país que, ao contrário de outros, soube fugir ao controlo colonial e preservar o seu património energético. Há boas razões para atender a esse país empoeirado e incompleto que está parcialmente moldando o século XXI, não apenas de seu fundo de investimento e conhecimento de negócios. Vamos enfrentá-lo o mais rápido possível: o Qatar tem um poder que supera os melindres europeus.

Coloque-te na seguinte situação. Imagina que o vento da vida o levou-te a trabalhar em uma universidade do Qatar, onde está prestes a acontecer um congresso internacional de tradução, e que cerca de cinquenta tradutores e romancistas de vários países escrevem uma carta aberta pedindo o boicote ao evento. A razão? A prisão de um poeta - Muhammad AlAjami -, condenado a prisão perpétua por ter recitado um poema dissidente. Pergunta: o que fazes? Saúdam a fábrica, arrancam a roupa e voltam para a Espanha, o país das oportunidades zero? Ou eles ficam quietos como um homem morto para não se meter em problemas?

Lembro-me da reunião do corpo docente em que discutimos a questão do boicote e na qual, admito, fiquei em silêncio. Parece que ainda ouço o Dr. Jian, um chinês, sussurrando em meu ouvido: “Ah, tem algum poeta na cadeia?” enquanto levanta delicadamente um único dedo. Aquele seu espanto, que ainda não sei interpretar, foi o mais perto que cheguei do pântano onde às vezes as culturas se cruzam.

Viver em um lugar como o Qatar constitui o expatriado. Quando Peter Sloterdijk fala sobre como o habitar gera uma “práxis de fidelidade ao lugar”, acredito que a ideia crucial está na palavra práxis. Viver é fazer as coisas à maneira do novo contexto, razão pela qual quem emigra vê o seu quotidiano transformado pelo local de destino.

É incrível o que nós, ocidentais, nos tornamos quando começamos a ganhar um salário em rials. O regime do Qatar é habitável porque dá dinheiro e oferece lugares brilhantes para gastá-lo. O shopping é muito divertido! Ele é o verdadeiro rival da democracia.

No Qatar ganhas muito dinheiro mas desistes de ser um cidadão. Vives à grande. Vi um colega do departamento comprar um Hummer; Vi mulheres espanholas de discurso progressista escravizarem suas criadas sudanesas. Para meu horror, meu companheiro escocês Connor, que criava suas filhas lá, disse um dia: “democracy is overrated” (a democracia é sobrevalorizada)

O desafio que enfrentamos no Qatar não é apenas que os direitos dos homossexuais e das mulheres não sejam respeitados lá. Muitos cataris removem sua abaya preta assim que embarcam em um avião para Londres. O difícil será que a democracia seja globalmente um objetivo atrativo.

Divertindo-se até a morte, Neil Postman alertou sobre isso, fazendo sua própria profecia de Aldous Huxley: "As democracias ocidentais cantarão e sonharão até o esquecimento". É doloroso, mas vamos cair a cereja o mais rápido possível: o planeta Terra está lotado de seres humanos que não são exigentes com a ideia de se estabelecerem num regime autocrático que promete segurança e riqueza.

Na entrada do hospital Sidra, na Cidade da Educação, bem perto de onde morei e ensinei, há um grupo de grandes esculturas de Damien Hirst. É intitulado The Miraculous Journey e representa o desenvolvimento de uma vida humana, desde a concepção até o nascimento. A sua instalação foi controversa. Alguns cataris consideravam-na imoral, por isso o complexo passava temporadas coberto por lonas pretas, acostumando aos poucos os mais ortodoxos a vê-lo sem levar as mãos à cabeça.

Ultimamente, tenho pensado muito naquele trabalho de Hirst e na dança de mostrá-lo e escondê-lo. Vejo nela um estranho desfolhamento da margarida, um chocante cabo de guerra entre a democracia e a tirania que resta saber por qual lado opta.

Raquel Taranilla / El País

sábado, 17 de dezembro de 2022

Mas, Enfim, Esqueçamos Isso...

"Em 2021 a Amazon produziu embalagens plásticas suficientes para envolver a Terra mais de 800 vezes em plástico almofadado e isso é um grave problema para os oceanos..."


Mas enfim (vem aí o Natal e tudo) esqueçamos lá isso agora que nós queremos é mandar vir paletes de chinesices para oferecer à família e fazer bonito. 

A notícia pode ser lida na íntegra aqui.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Semana Negra de Compras

 Portátil HP em Outubro custava 529€

Na mesma loja, e nesta semana negra de compras, o mesmíssimo computador está com uma promoção fantástica de 549€! Aproveitem já antes que esgote!!



domingo, 22 de dezembro de 2019

As Falsas Necessidades Com Que o Capitalismo Atola as Pessoas em Dívidas

É curioso observar como as coisas têm mudado nos hábitos de consumo e como há coisas verdadeiramente contraditórias. Se por um lado, por alturas do 25 de Abril de 1974 o salário mínimo era, em comparação, maior que os 600€ que temos hoje, por outro lado, ainda por cima cada vez mais há mais despesas que são impingidas e que de repente parece que são imprescindíveis à vida. 

Quando eu era criança, por norma, em cada casa havia uma só televisão e eram raras as casas que tinham telefone. Nos anos noventa já todos os lares tinha televisão a cores e telefone. E as pessoas recebiam três cartas com contas para pagar: água, luz e telefone.



Vinte anos volvidos todas as casas têm agora, não uma mas várias televisões pela casa. Além do telefone, que se passou a chamar telefone fixo, agora todos os elementos da casa têm também o seu telefone portátil, que por cá, estranhamente, se passou a chamar telemóvel (por oposição ao cell phone). Há vinte anos, cada lar, tivesse três, quatro ou vinte pessoas, gastava em telefone uma média de três contos de rei (15€) por mês. Hoje em dia, quase todos os lares pagam para ver televisão (ou para ter internet) e cada elemento do agregado familiar tem o seu telemóvel, que entretanto anda a ficar cada vez mais esperto, mas pouco económico porque o gasto será uma média de 15€ vezes o número de pessoas de cada casa.

Há vinte anos o telefone tinha um aluguer (tal como ainda hoje temos o aluguer do contador da eletricidade e da água) mas não se gastava dinheiro para o substituir. Se avariasse os TLP (empresa pública que os nossos políticos privatizam e os nossos grandes empreendedores empresários trataram de falir) logo se apressavam a substituir, tal como substituíam, gratuitamente, quando os modelos ficavam ultrapassados. As listas telefónicas e as Páginas Amarelas também eram entregues gratuitamente.

Hoje, além de cada pessoa do agregado familiar ter a sua fatura telefónica para pagar, por norma, excluindo pessoas como eu, que os outros acham que vivem numa caverna, têm ainda que substituir, frequentemente, o seu aparelho para telefonar. Pois é, um telemóvel hoje é muito esperto, faz muitas coisas, mas nenhum outro faz e recebe chamadas, não é?

Esta semana, na TSF (rádio que quase deixei de ouvir por causa da publicidade) ouvi um programa - sim, se antigamente era expressamente proibido fazer publicidade às marcas, hoje, por vezes a publicidade é mesmo descarada - e nesse programa falavam dos melhores telemóveis que os pobres poderiam comprar por menos de 500€. Relembro de novo que o salário mínimo português é de 600€!
E a certa altura, a pessoa que apresentava o programa "Mundo Digital" dizia mesmo "Não compre nada abaixo dos 150€. Eu sei que gostaria de poupar uns bons euros mas a verdade é que, mais cedo ou mais tarde, vai arrepender-se", e o que aconselha, no mínimo, é mesmo entre os 200-250€, mas os preços vão, não até ao infinito, mas facilmente até aos 1000-1500€.
Bom, mas seria de esperar que um bom telemóvel que custa mais que um televisor ou um computador (o meu portátil custou 250€) durasse, pelo menos, uns bons anos. Não! Numa rápida pesquisa fiquei a saber que os portugueses trocam de telemóvel, em média, ao fim de dois anos!

E, se há umas quantas décadas as coisas eram feitas para durar, desde as mobílias das casas, os automóveis, a roupa, toda e qualquer geringonça durava que se fartava, com o avanço tecnológico passou-se a programar as coisas para terem um fim certo e ao fim de xis tempo, que por norma é pouco depois do tempo de garantia!, e lá tem que se ir comprar novo que agora não se repara nada e o Ambiente - todos preocupados com o Ambiente não é?, agradece! Acontece que, além da obrigatoriedade de comprar, as coisas agora duram menos tempo e gasta-se mais dinheiro. Mas não só. Temos também uma publicidade cada vez mais agressiva que mete na cabeça das pessoas que não serão felizes se não comprarem, se não tiverem o que todos os outros têm ou se não se comportarem como todas as ovelhinhas imaculadamente brancas, todas iguais, se comportam.

O capitalismo vive de crises sucessivas, para que os pobres fiquem ainda mais pobres, e os ricos fiquem ainda mais ricos. Para se ter noção, estamos hoje em 2019 e o rendimento dos portugueses é, em média, menos 175€ por mês que em 2009! Sofremos uma crise terrível e seria de esperar que as pessoas tivessem aprendido a lição e estivessem mais contidas nos gasto, certo? Não, errado!

"A verdade é que, o número de famílias a bater à porta da DECO por estar com dificuldades financeiras, ele não está a abrandar, pelo contrário, ele está novamente a aumentar. E aquilo que nós verificamos relativamente às famílias que nos estão a pedir ajuda este ano de 2019, estão a fazê-lo muita vezes devido a crédito que já foi contratado este ano ou em 2018. Isto é claramente demonstrativo que as famílias não estão a recorrer ao crédito de forma tão responsável quanto era desejável". (Natália Nunes/DECO)

Concluindo. Com o passar do tempo e com as sucessivas crises do capitalismo, o rendimento disponível das pessoas é cada vez menor. Ironicamente a pressão é cada vez maior para o consumo e as pessoas satisfazem as suas necessidades de escravatura acedendo ao crédito fácil não aprendendo com o passado recente e endividam-se ainda mais. 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Pobres São Aqueles Que Precisam de Muito


"Quando tu compras algo, não te enganes, estás a comprar com tempo da tua vida que gastaste para ganhar esse dinheiro. No fundo o que estás a gastar é tempo de vida! Quanto te proponho a sobriedade como maneira de viver, mostrei-te a sobriedade para que tenhas mais tempo. A maior quantidade de tempo possível. Para viver a vida de acordo com as coisas que te motivam. Que não necessariamente são do trabalho (...) "


"Aquele que melhor goza da riqueza é o que menos necessita da riqueza" (Cartas a Lucílio - Séneca)


domingo, 23 de dezembro de 2018

O Natal é Como Uma Dor de Dentes Que Passa com Uma Ida ao Dentista

Banksy
Respira fundo. 

É Natal e já sentes aquela dorzinha irritante desde o Dia-de-Ação-de-Graças-ao-Consumismo-Americano, mas há-de passar. Também a broca do dentista incomoda. É aquele chiar estridente que entra ouvidos adentro, às vezes até cheira a queimado quando perfura o dente, por vezes até magoa ainda que nos digam que estão só a "pôr água", mas no meio daquilo tudo só pensas que é um pesadelo. Um pesadelo que sabes que há-de passar quando acordares e tudo ficará bem. Pagas a consulta e vais à tua vida, porreiro da vida, como novo, sem dorzinha nenhuma. De igual forma também Janeiro há-de chegar num piscar de olhos, e tudo voltará a entrar nos eixos sem luzinhas a piscar, nem musiquinhas insuportáveis por todo o lado; sem multidões nas compras, e sem nenhum desconhecido a desejar-nos "Bom Natal" como se por obrigação tivéssemos todos de ser cristãos. Mas tudo isto há-de passar. 

Não, eu não gosto do Natal. 
Não gosto do Natal porque não gosto de mentiras. Nem de hipocrisia, cinismo, nem deste consumismo desenfreado que não sei onde vai parar.

Natal é mentira.
É desde cedo mentir às crianças que vem aí o menino Jesus dar prendinhas no sapatinho. Entretanto o menino foi despedido pelo capitalismo e substituído pela invenção da Coca Cola: um Pai Natal obeso, vermelho e de barbas brancas que gosta de sentar criancinhas no colo. E o Natal é isto, uma grande mentira. Da comemoração do Solstício passamos à anexação Católica que mente e inventa o nascimento do menino que, se alguma vez existiu (coisa que eu tenho muitas dúvidas) certamente não nasceu a 25 de Dezembro.

Natal é hipocrisia.
É a obrigação que as pessoas têm para fingirem que se lembram dos outros e fingirem que se importam e fingirem que se dão todas muito bem. Não houvesse Natal e parece que as famílias nunca se reuniam, quando as famílias e as pessoas em geral têm todo um ano para se encontrarem.

Natal é consumismo.
Toda a gente compra uma merda qualquer para toda a gente. O comércio agradece e os impostos também. A maior parte das pessoas nem gosta do que recebe e é ver os centros comerciais cheios no dia 26, em que toda a gente vai trocar o que recebeu. Sustentável não é de certeza, basta depois ver o estado em que ficam os caixotes do lixo nos dias seguintes.

Mas respira fundo. Tudo isto do Natal vai passar. É só um pesadelo como estar na cadeira do dentista. Fecha os olhos e relaxa. Janeiro está já aí ao virar da esquina e tudo voltará à normalidade.


# Natal, Up-To Date


sábado, 28 de julho de 2018

A Partir de Quanto Tempo Um Telemóvel é Considerado Clássico?

Pois é, mudei de telemóvel. Que grande novidade não é?! Pode-se dizer que é um telemóvel "novo" mas calma! É um modelo de 2005 e tem portanto treze anos!

Mas de repente perguntei-me se este se poderia considerar um telemóvel clássico, à semelhança da terminologia que se usa para os automóveis. Um automóvel é considerado um clássico a partir dos vinte e cinco anos de vida. E um telemóvel? Quanto tempo é preciso para ser considerado um clássico? Três anos? Um ano? Seis meses? Um mês?

Imagem emprestada da net