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sábado, 29 de junho de 2024

As Dificuldades na Escola Vieram com as Redes Sociais?

Ao ler uma reportagem sobre resultados dos PISA num jornal espanhol, foi olhar para os resultados no site oficial, e olhei para este gráfico em particular, e uma coisa chamou-me a atenção: os maus resultados dos alunos, que começaram a cair abruptamente, entre 2009-2012, foi quando as redes sociais se massificaram e em que apareceram as câmaras selfies dos smartphones.

Será que isto é só uma mera coincidência, ou há, de facto, uma causa-efeito?

domingo, 2 de junho de 2024

Não é o Excesso de Telemóvel, é a Falta da Rua

Em 2013, quando este blog só tinha apenas alguns meses, escrevi um texto a que dei o título "Educar uma geração de incapazes" porque já notava que, ao meu redor, as coisas no que há educação dos pais dizia respeito, não iam pelo melhor caminho:

"Ter morado sempre na mesma aldeia, permite-me olhar para trás e comparar como são hoje as coisas. Até aos seis anos pude brincar livremente. Não tive ama, creche, atividades de ocupação de tempos livres. Os tempos livres eram ocupados a aprender com os pais e a brincar o dia todo na rua com os vizinhos. Aos seis anos fui para a escola primária. A minha mãe levou-me à escola sim, no primeiro dia. Depois, passei a ir todos os dias para a escola, a pé, atravessando inclusive um monte, usando um quase caminho de cabras. No primeiro ano ia com a companhia do vizinho, no ano seguinte os pais mudaram-se e passei a ir sozinho" (...) Hoje em dia, na mesma pacata aldeia, onde nada se passa, tal como há trinta anos atrás, olho para os pais que têm agora agora a minha idade, que tiveram infâncias tal como a minha, e vejo a forma como tratam os filhos. Questiono-me se, este tipo de comportamento de irem levar e trazer os filhos à escola, fará deles no futuro, jovens mais confiantes, ou se pelo contrário, estão a criar uma geração de incapazes".

Temos hoje gerações de ansiosos, deprimidos, com todo o tipo de transtornos mentais e os suicídios dispararam. Os telemóveis e os algoritmos das redes sociais têm muita culpa, mas será que é só isso?

É ler este excelente artigo, publicado hoje no El País, intitulado "La calle mejora la salud mental de los niños":


 "Vários estudos questionam a ideia de que os telemóveis estejam a causar um agravamento no ânimo dos jovens e centram-se na falta de contacto social físico da última geração

Algo começou a correr mal a partir de 2010. As taxas de depressão e ansiedade entre adolescentes dispararam 50%. As de suicídio aumentaram 32%. Os membros da geração Z — nascidos a partir de 1996 — começaram a sofrer de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, atingindo níveis mais altos do que qualquer outra geração na história. Um em cada dez crianças e jovens — ou seja, 293 milhões em todo o mundo — começaram a desenvolver um transtorno mental, segundo um estudo publicado na revista JAMA Psychiatry. Os dados são claros, os motivos não tanto.

A década de 2010 foi aquela em que os adolescentes dos países desenvolvidos trocaram os seus telemóveis por smartphones e transferiram grande parte da sua vida social para a internet. A coincidência de ambos os fenómenos fez com que muitos autores os relacionassem. Diversos estudos confirmaram esta ideia, acusando as redes sociais de piorarem a saúde mental da população, fomentando um debate social e uma certa desconfiança em relação à tecnologia. O último autor a fazê-lo foi Jonathan Haidt no seu livro "A geração ansiosa" (Editorial Deusto). Mas o seu sucesso também despertou um debate, académico e social, entre aqueles que questionam uma ideia que se tinha tornado um mantra.

Candice L. Odgers, professora de psicologia da Universidade da Califórnia, publicou uma crítica na Nature em março, argumentando que culpar apenas os telemóveis é uma ideia muito apelativa, mas que “não está respaldada pela ciência. Pior ainda, (...) esta crescente histeria poderia distrair-nos e fazer com que não abordássemos as causas reais da atual crise de saúde mental entre os jovens”, explicava. Um estudo da Universidade Dragvoll da Noruega, realizado com 800 menores de 10 a 16 anos, apontava na mesma direção. “A prevalência da ansiedade e da depressão aumentou. Também aumentou o uso das redes sociais. Por isso, muita gente acredita que tem de haver uma correlação. Mas este estudo indica que não é assim”, afirmava a sua autora principal, Silje Steinsbekk.

Também há muita literatura científica que sugere precisamente o contrário. As evidências de um lado e de outro parecem multiplicar-se, e só há um ponto em que toda a comunidade científica parece concordar: a tecnologia e as redes sociais têm um efeito negativo quando substituem o jogo e as atividades ao ar livre. Não é o excesso de telemóvel, é a falta de rua.

Segundo um estudo da OnePoll, apenas 27% das crianças brincam regularmente na rua. O dado é impressionante, mas adquire outra dimensão quando comparado com o dos seus pais e avós. 71% dos baby boomers (as pessoas nascidas entre 1946 e 1964) brincavam regularmente na rua quando tinham a sua idade. Além disso, os adultos que asseguraram ter brincado na rua na sua infância tinham uma saúde mental autoavaliada consideravelmente melhor, segundo o estudo. “Atualmente há uma sensação de perigo que, embora não seja real, faz com que as crianças usem pouco a rua. Retirámos as crianças das cidades para as meter em casa ou em urbanizações fechadas”, explica Inma Marín, licenciada em magistério e autora do livro "Jugar". Assim, os pais que na sua altura brincavam ao ar livre, proíbem agora os seus filhos de o fazer sem supervisão. As coisas mudaram, argumentam, e têm razão.

As ruas são muito mais seguras hoje em Espanha do que há 30 anos. Os assassinatos e homicídios desceram 30% (são cerca de 300 por ano), a mortalidade rodoviária caiu 80% e os sequestros de menores continuam a ser um fenómeno muito raro. Em 2021, segundo a associação ANAR, especializada nestes casos, houve 18 em toda a Espanha. No ano anterior foram 8. Mas a perceção é diferente. Um declínio do capital social — o grau em que as pessoas conhecem e confiam nos seus vizinhos e instituições — exacerbou os medos dos pais. As redes sociais virtuais ganharam força à medida que as reais, aquelas que nos vinculavam ao bairro e à cidade, a perdiam. A rua começou a ser vista como um lugar perigoso e ficou vazia de crianças.

NOVAS URBANIZAÇÕES

As novas urbanizações foram construídas com esta ideia em mente, acrescentando um espaço de jogo limitado e fechado. Começaram a popularizar-se as atividades extracurriculares para proporcionar um lazer produtivo e seguro às crianças. Na década de 1990, os pais começaram a meter os filhos em casa ou no polidesportivo. Um relatório do Ministério da Cultura já estabelecia em 2009 que 90% dos alunos do ensino básico (6-12 anos) dedicavam as suas tardes a atividades desportivas, línguas, música ou dança.

Não foi uma mudança positiva. “A privatização dos espaços não favorece tanto os vínculos e as relações”, explica Marín sobre esta nova realidade. As amizades são mais homogéneas e a possibilidade de fazer novos amigos é muito mais limitada do que num espaço público. As aulas extracurriculares podem ser divertidas e positivas para o desenvolvimento da criança, mas em nenhum caso são um substituto do jogo. “Este tem de ser livre. Pode haver regras, os adultos podem propô-las, mas as crianças deveriam submeter-se livremente a elas, o jogo não pode ser uma imposição”, afirma a especialista.

A sobreproteção da infância faz com que seja visto como uma raridade ver crianças a brincar sozinhas na rua, quando não uma imprudência. Em 2015, o Pew Research Center dos EUA assinalou que os pais, em média, acreditavam que as crianças deviam ter pelo menos 10 anos para brincar sem supervisão à frente de casa, e que não deviam fazê-lo num parque público antes dos 14 anos. Ou seja, até que já não tenham idade para ir ao parque.

Em todo este processo, a tecnologia desempenhou um papel relevante, tornando-se o substituto perfeito de umas ruas cada vez mais vazias. A televisão há 30 anos oferecia um tempo limitado de programação infantil, mas isso foi mudando com a TDT, o streaming, os vídeos e DVDs. A internet tornou-se ubíqua e os videojogos, cada vez mais populares. A alternativa às ruas tornou-se mais atrativa, pois parecia mais segura. Mas era uma falsa perceção.

Somos muito medrosos na rua, mas não tanto no espaço digital, que é onde os menores precisam de mais acompanhamento. Dá a sensação de que a criança está parada em frente ao ecrã e parece por isso que está controlada, mas tem muitos mais estímulos ali do que no mundo real”, opina Silvia Sánchez Serrano, professora na Universidade Complutense de Madrid no departamento de estudos educativos e membro do grupo de investigação Cultura Cívica.

Sánchez não estigmatiza os ecrãs, tal como Marín. Ambas acreditam que os videojogos são formas de jogo lícitas, enriquecedoras e divertidas. Mas alertam para o perigo que representa quando estes substituem o jogo físico. “É necessário fazer alguma pedagogia digital”, explica Sánchez. “Não se deve proibir o uso do ecrã, devem ser oferecidas alternativas, porque esse impulso do jogo é inato, as crianças vão querê-lo”.

Mas não é isso que tem acontecido nos últimos anos. “Eu cresci a brincar na rua e não em casa, a menos que o tempo estivesse realmente mau”, explica Jennifer, professora de inglês de 50 anos. “Mas os meus filhos [tem dois filhos, de 14 e 20] estão sempre dentro a menos que tenham um jogo ou algo assim”. Jennifer dá aulas a adolescentes e sabe por isso que o que acontece na sua casa não é uma exceção. “Acho que todos podem ver esta tendência com as crianças. Nunca se aborrecem, nunca estão fora, a menos que seja em aulas extracurriculares. Passam o dia com os ecrãs”. Ela obrigava os filhos a passar tempo no parque quando eram mais pequenos, mas no final, também para ela, era um esforço extra. Quando os filhos tinham 12 ou 13 anos, desistiu.

Não é só que os pais tenham limitado o acesso à rua. É que aos filhos, por outro lado, cada vez lhes parece mais fácil e atrativo passar a tarde em casa, fechados e sozinhos nos seus quartos. Com o tempo, as empresas tecnológicas conseguiram acesso às crianças e adolescentes quase em qualquer momento. Desenvolveram atividades virtuais emocionantes, desenhadas para libertar grandes quantidades de dopamina e criar dependência.

As experiências virtuais têm-se diferenciado cada vez mais das reais. E isto tem tido um impacto nos cérebros dos menores: “Os anos de infância e adolescência são aqueles em que o cérebro está mais atento a adquirir conhecimentos, sobretudo de tipo socioemocional. Isto implica imitar o que veem, experimentar junto com os outros. E isso significa presença física”, afirma David Bueno, professor de biologia na Universidade de Barcelona especializado na genética do desenvolvimento.

Bueno explica que o cérebro da criança sofre certas mudanças para se transformar em adulto. Que as conexões criadas nesta época determinam o tipo de pessoa que será. E assinala como uma parte destas conexões é determinada pela biologia e pela genética, mas não todas: “O ambiente é que favorece certas conexões e não outras. E este ambiente é constituído pelas experiências que têm no seu dia a dia. O sistema educativo. Como se relacionam com os pais, entre si e com o seu entorno. E isto é o que liga à importância de sair para a rua”.

O jogo é o trabalho da infância, e todos os mamíferos jovens trabalham afincadamente: desta forma conectam os seus cérebros a brincar, praticando os movimentos e habilidades que precisarão de adultos. Os gatos arranham e trepam. Os cães perseguem a bola como se fosse uma presa. Os leões lutam entre si. Isto não é muito diferente nos humanos. As crianças jogam para praticar as suas habilidades físicas, os adolescentes fazem-no através do desporto, aumentando a competitividade e introduzindo interações sociais: seduzem, são muito físicos e desenvolvem piadas internas que unem os amigos. Muitos estudos mostram como os mamíferos — desde ratos até macacos — se deprimem quando são privados do jogo. Nada sugere que isto seja diferente nos humanos.

Substituir o jogo físico por um jogo virtual, e encontrar os amigos na rua por conversar com eles e interagir nas redes sociais não parece ser a melhor opção. Mas é exatamente isso que está a acontecer. Segundo um relatório da API Report, em menos de uma década aumentou 50% o tempo que as crianças passam em frente ao ecrã, ligando este fenómeno à inatividade dos menores. O seu autor, Aric Sigman, afirma que este relatório “confirma o que a maioria dos pais já sabe: que o tempo de ecrã (...) recreativo está a ocupar horas do seu dia, e substituiu o jogo ao ar livre”. Este seria o principal problema. Tal como reflete Bueno, “o jogo físico, o real, implica a ativação simultânea de todos os sentidos, enquanto no mundo virtual só se usam dois, a visão e a audição. Além disso, nas relações físicas lidamos com pessoas reais que têm virtudes e defeitos. O ecrã só nos mostra as virtudes dos outros”.

Crescer fechado em casa e socializar menos na rua pode ter as suas consequências, alertam os especialistas. E estas começam a refletir-se em múltiplos estudos. As sondagens mostram que os membros da geração Z são mais tímidos e têm mais aversão ao risco do que as gerações anteriores. São um grupo sério, menos dado a noitadas, a bebedeiras e à promiscuidade do que os seus antecessores. Socializam menos em pessoa e são mais propensos a sentir-se sozinhos. Estão mais consciencializados, mas têm mais problemas de saúde mental.

Há estudos que confirmam estas ideias, mas é arriscado convertê-las num mantra. Para cada geração existe uma narrativa simples e reducionista. Para os membros desta, os centennials, a opinião popular é que os telemóveis os tornaram infelizes e frágeis, que as redes sociais exacerbaram os seus problemas de autoestima. Mas diversos estudos começam a questionar estas ideias. Ou a matizá-las. É fácil e tentador culpar um fator externo e maligno. Demonizar Mark Zuckerberg, Silicon Valley ou os excessos do capitalismo tecnológico e torná-los os únicos responsáveis pela pandemia de ansiedade e depressão que afeta os mais jovens. Mas pode ser que isto seja apenas parte de um problema mais complexo que começa em casa. E se resolve na rua.

El País, 2 de junho de 2024 ENRIQUE ALPAÑÉS / BERNARDO PÉREZ

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Telemóveis só para Maiores de 18 Anos

Esta semana, um bocadinho escondido da comunicação social, PS e PSD chumbaram um projeto lei do Bloco de Esquerda que pretendia proibir os telemóveis no recreio das escolas até ao sexto ano. 

Como é sabido, dizem os estudos que esta é a primeira geração mais burra do que a dos pais, o que também significa que os pais atuais foram os mais burros de sempre a educar os filhos. E, um pouco por todo o lado há pessoas a exigir que os telemóveis sejam proibidos nos recreios das escolas, porque as crianças vão para as escolas para aprender mas também porque estão em idade de brincar e conviver com as restantes crianças e adolescentes.

Mas curiosamente, se por cá PS e PSD chumbam uma lei que pretendia proteger os jovens da influência nefasta dos telecrãs, nem de propósito, hoje, no El País, saiu um artigo dum especialista em suicídio infantil que pede para que os telemóveis sejam proibidos, pelo menos até aos 16 anos. 

É ler porque de facto é assustador:


"Nos últimos anos, perante a pergunta de como é possível que um menor chegue ao extremo de decidir acabar com sua própria vida, de forma crescente tem aparecido a influência dos telemóveis. Não, os telemóveis não inventaram o suicídio, não são responsáveis por ele existir. Mas, na infância e adolescência, sim, parecem ser, em parte, um dos fatores responsáveis pelo seu aumento, do mal-estar dos adolescentes, das novas violências a que se vêem expostos e, também, e muito importante, da perda de ferramentas para enfrentar a vida. Assim, enquanto a prevenção do suicídio consiste em dotar os menores de estratégias para fazer do mundo um lugar habitável, a muitos deles os telemóveis retiram-lhes as ferramentas. E esta é, a meu ver, a causa oculta.

No meu consultório, tenho ouvido esses meninos e meninas com atenção. Referem situações de cyberbullying, agressões sexuais agravadas com a humilhação de serem gravadas e compartilhadas, a influência que exercem sobre eles a infinidade de perfis nas redes sociais que incentivam o suicídio. Surgiu outra realidade mais profunda: agora chegam com maiores sentimentos de vazio, com uma atitude totalmente passiva perante o mundo, incapazes de fazer propostas às suas situações, esperando uma espécie de solução mágica externa, falta de vontade de viver, de fome de experiências novas, saturados de fogos de artifício sem sentido, sem conteúdo, sem narrativa.


Parte das causas já foram descritas em estudos científicos e em ensaios. A leitura da "Fábrica de cretinos digitais" de Michel Desmuget - Doutor em neurociência e diretor do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica de França—, abriu para mim mais de 1.082 referências bibliográficas que lançaram luz sobre o meu dia a dia. Um relatório (aumento dos sintomas depressivos nos resultados relacionados ao suicídio entre adolescentes americanos), com dados de meio milhão de adolescentes entre 13 e 18 anos, liderado por Jean M. T Onsenge, Psicólogo da Universidade de San Diego, concluiu que os adolescentes que passam mais tempo nos telecrãs têm mais probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental significativos do que aqueles que se dedicam mais a outras atividades.


A maioria (57%) das adolescentes dos EUA relatam ter sentimentos de desesperança e tristeza (Center for Disease Control and Prevention, 2021). A prevalência da ideação suicida tem aumentado nos EUA entre 2008 e 2019, passando de 9,2% para 18%, segundo vários estudos


Como os tetecrãs afetam os mais novos? Alguns apresentam atrasos no seu neurodesenvolvimento, como detectou a Associació Catalana de Llars d'Infants, a associação mais importante de creches privadas da Catalunha, numa investigação desenvolvida entre 110 creches e publicada em 13 de outubro. 80% das escolas estudadas detectaram uma correlação entre o número de crianças com um nível de atraso global e sua superexposição aos ecrãs, aumentando a cada ano. Quero destacar que quando os pais, alertados por estes centros, retiram aos seus filhos os ecrãs (para comer, no carro.), estes melhoram, segundo esta investigação. Ou seja, se for corrigido em breve, o dano é minimizado.

O tempo de telecrã pode afetar a capacidade das crianças de se desenvolverem de maneira ideal, confirma um estudo (associação entre o tempo de telecrã e o desempenho das crianças na avaliação do seu desenvolvimento) com dados de 2500 menores de um ano a um ano e meio publicado pela revista médica americana JAMA.


Sete em cada 10 crianças espanholas entre 6 e 12 anos comem com um ecrã ou um dispositivo tátil na frente, segundo dados de 2016 da Sociedade Espanhola de Pediatria extra —hospitalar e atenção primária, que destaca os problemas alimentares e obesidade que isso acarreta. Pela minha experiência, os processos internos de negociação, de gestão emocional, de tolerância à frustração que está tendo que pôr em prática uma criança que está sentada diante de um prato —sem querer estar lá— e seguindo a indicação de um adulto são essenciais para a vida adulta. Sem falar da importância de estar consciente do próprio ato da alimentação, e da capacidade narrativa das pequenas coisas, uma atividade com um início, um desenvolvimento e um fim. Escusado será dizer que tem a tolerância à espera, que em terapia requer um processo de treinamento em que a criança é colocada uns tempos de espera que aumentam progressivamente, primeiro treinando para aguentar 5 minutos, depois 10 Sim, há coisas que temos que treinar, e que melhor treinamento do que tempo de espera de uma viagem de carro ou de transporte público, aqueles "quando chegamos?, quanto falta?" sem fim.


Não, o telecrã não é um recurso para a criança comer, nem para a criança se divertir numa viagem de carro, o telecrã é uma interferência no desenvolvimento dos próprios recursos para tolerar a vida quotidiana. O mesmo acontece com o tédio, grande fonte de imaginação e motor da criatividade. O telecrã não é um recurso para que a criança não fique entediada, é a melhor maneira de incapacitar o desenvolvimento de seus próprios recursos e o maior inimigo da imaginação.



A incorporação de um elemento tão poderoso quanto os telecrãs na vida dos nossos sdolescentes foi realizada sem questionamento, sem a pergunta elementar: para quê? Alguém ingénuo e bem pensado poderia acreditar que as bigtech estão numa disputa desmedida entre elas, que competem pelo excedente comportamental na era do capitalismo da vigilância que nos aponta a socióloga Americana Shoshana Zuboff. Que o fazem a tal velocidade que os impede de fazer estudos para analisar as consequências de suas inovações. 


No valor da atenção (Península, 2023), o divulgador Escocês Johann Hari entrevistou importantes desenvolvedores de Silicon Valley que foram incapazes de continuar no negócio. Alguns até enfrentaram os 0seus companheiros. Mas eles enganaram-se novamente, eles não estavam enfrentando isso, eles estavam culpando o que estavam fazendo, seu eu do passado.


Steve Jobs proibia os telecrãs aos seus filhos, segundo contou ao jornalista do The New York Times Nick Bilton. Também é de domínio público que, em muitas escolas de Silicon Valley, os menores têm acesso a quadros de ardósia e giz e não telecrãs. Não parece muito ético fazer negócios com algo que cada vez mais estudos afirmam que pode causar danos às crianças. Tampouco o é justificar-se culpando os outros pais, tachando-os de irresponsáveis, ignorantes e incompetentes, numa espécie de argumento lógico/sinistro como "eu protejo os meus, que os demais protejam os seus".


Não há nada mais simples do que considerar os dispositivos uma coisa simples. Subestimar seu reconhecido poder e seu potencial de penetração e interferência em diferentes âmbitos do ser humano. Não, os ecrãs não são uma explicação simples para o aumento do desconforto detectado nos nossos menores. Como vimos, eles interferem no desenvolvimento das suas capacidades durante a primeira infância e adolescência. E a esses menores com menos recursos para poder enfrentar a vida submetemo-los a riscos incomensuráveis, expomo-los a imagens de êxitos inatingíveis, à comparação constante, à propaganda e à manipulação de grupos radicais, com exposições precoces a cenas de violência e de sexo, ou de ambas ao mesmo tempo, com maior risco de perpetrar violência contra os outros e contra si mesmos, e com maior tendência a expor-se a situações de vitimização.


A adolescência é uma fase difícil e isso não parece que vai mudar, evolutivamente tem que ser assim. Mas agora a evidência científica também relaciona o aumento desmesurado desse mal-estar com o abuso dos ecrãs. E o óbvio é que não estamos a responder como devíamos. É sangrento que continuemos deixando ou desejando passivamente que se regule sozinho. Mas quando as horas que nossos menores passam diante dos ecrãs não param de aumentar (a pandemia desempenhou o seu papel nessa tendência), estimando-se em nove horas diárias em menores de 11 a 14 anos nos Estados Unidos e em três horas diárias em menores de dois anos.


O mesmo vale para a idade de acesso ao primeiro dispositivo, que em alguns ambientes acontece cada vez mais cedo. Muitos menores recebem como presente de comunhão (nove anos). Uma pesquisa online da empresa de pesquisa GAD3 estimou que 20% as crianças espanholas menores de 10 anos têm telemóvel. 


Simples são os argumentos que foram usados para ceder aos nossos filhos. Como, por exemplo, que ecrãs são, ou podem ser, um recurso para crianças e adolescentes, que vão precisar deles para progredir. Esta afirmação não pode ser mais atrativa para os pais, mas a infância e a adolescência são duas etapas de desenvolvimento contínuo da pessoa nas quais são muito mais importantes as oportunidades para desenvolver os próprios recursos do que os recursos externos. Qualquer ajuda ou recurso que pretenda facilitar os desafios próprios da infância ou da adolescência pode ter o grave potencial de incapacitar a pessoa para o desenvolvimento dessa capacidade. Em que momento se pensou que o grande inimigo da aprendizagem, a distração, pode melhorar o desempenho académico? Que a melhor maneira de aprender é não estar ciente do processo de aprendizagem? Como vou saber lidar com a próxima aprendizagem?


No campo das Relações, o funcionamento é exatamente o mesmo. Eles venderam-nos os ecrãs como um recurso para socializar e relacionar-se. Além disso, eles têm a capacidade de dizer que quando estamos a olhar para um ecrã, estamos conectados. Outra obra brilhante da engenharia da publicidade. Acontece que quando eu perco de vista os meus pais durante a infância, quando perco de vista os meus irmãos e amigos, quando a ponta do meu dedo toca um telecrã frio, estou mais conectado do que quando toco outras mãos, uma pele. Estou mais conectado quando olho para um telacrã do que quando cruzo um olhar. Não, na infância e adolescência, os ecrãs não favorecem a comunicação, nem a amizade, nem as relações familiares.


Graças à coragem dos diretores de várias escolas, observamos que a única coisa que acontece quando tiras o telemóvel de um grupo de menores é que a vida abre caminho, e a interação, o movimento e o conflito visível brotam com força. Durante a infância e adolescência, todo o tempo gasto a olhar para um telecrã é tempo perdido de oportunidade de desenvolvimento de capacidades sociais, de perda de desenvolvimento empático.


Existe uma maneira de prevenir o suicídio na infância e adolescência que precisa de poucos recursos. A melhor intervenção, do meu ponto de vista, não é outra senão a proibição dos telemóveis até aos 16 anos, com uma regulamentação de uso restritiva entre os 16 e os 18. 


Uma criança antes dos seis anos nunca deve ter acesso a um ecrã e, a partir dessa idade, uma exposição máxima de meia hora por dia. Nunca antes de ir para a escola, nunca pelo menos duas horas antes de dormir, nunca em modo multitarefa (comer, viajar, fazer as tarefas...). Da minha parte, limpei minha casa de telacrãs que estavam disponíveis para que meus filhos pudessem ver. A Patrulha Pata em inglês com o argumento de que eles fizeram ouvido. Quão errado eu estava.


(Este é um texto escrito para 'Ideas' pelo psicólogo clínico Francisco Villar , para o lançamento do seu livro "Como os telecrãs devoram os nossos filhos", que será publicado no próximo dia 31 de outubro. Villar está há 10 anos coordenando o Programa de atenção ao comportamento Suicida do Menor no hospital Sant Joan de Déu, em Barcelona. Antes publicou "Morrer antes do suicídio. Prevenção na adolescência")


sexta-feira, 24 de março de 2023

Ou Te Portas Bem ou Ponho-te a Estudar na Universidade!



Há umas décadas, quando eu andava na escola, muitos pais avisavam os filhos que, ou estudavam e passavam de ano ou metiam-nos a trolha. 

Hoje em dia, em que se paga tão maus salários a quem andou a fazer o sacrifício de ter passado tantos anos a estudar, que a coisa mudou.

Agora os pais advertem os filhos:

"Ou te portas bem ou meto-te a estudar numa universidade e irás viver miseravelmente, sem dinheiro sequer para comprar uma casa".

E agora mais a sério, é por isto que os jovens emigram, por cada vez mais no nosso país - como eu próprio já aqui tinha abordado o assunto - muitas vezes não compensa fazer um curso superior e a dificuldade dos jovens em fazer face do aumento do custo de vida, nomeadamente, em sair de casa dos pais, conseguir casa e ter uma vida mais ou menos condizente com todos os anos que se passou a estudar na esperança de ter um futuro mais risonho.

É por isto que os jovens emigram e não por causa da cassete neoliberal dos impostos. 

domingo, 12 de março de 2023

Como é Lindo Portugal com 75% de Analfabetos

Escrevia ontem Hélder Pacheco no JN:

"Em 5 de Fevereiro de 1927, no jornal "O Século", D. Virgínia de Castro e Almeida, autora de obras de literatura infantil e juvenil, escreveu: "(...) Aprenderam a ler! Que lêem? Relações de crimes; noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda subversiva. Largam a enxada, desinteressam-se da terra e só têm uma ambição: serem empregados públicos. Que vantagens foram buscar à escoºla? Nenhuma. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos".



1927 foi o ano da graça do nascimento do meu avô materno e um ano antes, a 26 de Maio o golpe de Estado que manteve o país sob o jugo de cinquenta anos de ditatura fascista católica. 

É curioso que, tantos anos se passaram, mas ainda hoje, em pleno século XXI, muitos ainda acham que a escola é uma perda de tempo. Passos Coelho reintroduziu o exame da 4a classe, porque o que é preciso é fazer a instrução primária e depois ir trabalhar, porque o trabalho dignifica, mas dignifica especialmente os pobres (de quem dizem que será o reino dos céus, melhor ainda se forem abusados pelos padres). Já as crianças filhas de papás ricos, essas não! Deus nosso senhor nos livre e guarde que se misturem com os pobrezinhos! Assunção Cristas, ministra e ex-líder do defunto CDS que "tem horrô à pobre", até dizia que vestia calças de ganga e botas só para ir visitar os bairros sociais porque uma pessoa quando se mistura com pobres ainda apanha uma doença venérea!

Cavaco Silva, introduziu as propinas na universidade e e criou a PGA, uma espécie de exame para limitar o acesso ao ensino superior (mais ou menos como ainda hoje as Ordem profissionais fazem para travar quem termina a universidade formado) e o CDS defende o recuso do ensino obrigatório para o 9ºano de escolaridade ao mesmo tempo que, sem se rir, defendeu que quem pode pagar deve poder meter os seus filhos na universidade. 

Vivemos tempos em que os responsáveis políticos de direita espumam pela boca com as aulas de cidadania como continuam a espumar contra tudo que seja aulas de educação sexual. 

No fundo, para uma certa elite burguesa portuguesa, no passado como ainda hoje em dia, lindo é um país analfabeto onde só os privilegiados tenham acesso a oportunidades. 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Geração Défice de Atenção


Na semana do dia mundial da criança as "Manhãs da 3" esteve em direto do Jardim Escola João de Deus. A determinado momento entrevistam um professor que falar sobre como é difícil

"Hoje em dia os desafios são cada vez maiores, principalmente naquilo que temos de correr para chamar a atenção. Eles têm muito pouco tempo de atenção hoje em dia. É muito difícil captar e então os mais novos é muito difícil captar. O nosso método cria métodos de sala desde muito cedo e cada vez é mais difícil criar esses hábitos. Se nos fomos ver os desenhos animados, no nosso tempo um episódio do Tom Sawyer era meia-hora, quarenta minutos e ficávamos ali o tempo todo agarrados a ver... Agora é cinco, dez minutos... para eles não mudarem de canal. Agora os episódios são muito mais rápidos porque hoje em dia a grande dificuldade é mantê-los atentos e motivados naquilo que nós queremos que eles façam. 

Hugo van der Ding: Já tentaram fazer um like tocando-te duas vezas na testa? Uma amiga já me contou que o filho estava a tentar fazer isso numa revista, aumentar e fazer scroll

Esta semana, numa entrevista (que não li) à Blitz, David Fonseca diz isto que "metade das pessoas não consegue ver um concerto sem pegar no telemóvel dez vezes", e tudo isto deveria-nos fazer pensar muito bem no que andamos a fazer da vida.

domingo, 6 de setembro de 2020

Em Defesa da Liberdade de Ser Mau Cidadão

O tema fraturante da semana veio diretamente do túmulo de Ramsés Cavaco Silva. A notícia era que Cavaco, Passos Coelho e bispos pedem objeção de consciência para as Aulas de Cidadania. Quando soube fiquei intrigado porque eu nem sequer sabia que hoje em dia se tem esta aula na escola, afinal, há muitos anos que deixei de estudar e não tenho filhos para saber o que por lá se passa. Então fui ver o que é que poderia estar mal, para esta gente tão ilustre da direita assinar um manifesto pelo fim destas aulas. 



Ora bem, estou aqui no site da Direção Geral e o que é que diz aqui? Que as áreas temáticas são as seguintes:

- Dimensão Europeia da Educação
- Educação Ambiental
- Educação do Consumidor
- Educação Financeira
- Educação Intercultural
- Educação para a Segurança e a Paz
- Educação para a Igualdade de Género
- Educação para o Risco
- Educação para o Desenvolvimento
- Educação para o Empreendedorismo
- Educação para o Voluntariado
- Educação para os Direitos Humanos
- Educação para os Média
- Educação Rodoviária
- Educação para a Saúde e Sexualidade

Olhando para isto eu diria que se fosse pai tudo isto me parece muito bem. Quem me dera, se calhar, que no tempo tempo a escola tivesse tempo para me ensinar coisas além do Português e da Matemática e das outras disciplinas todas. Mas se prestarmos atenção, o que salta logo à vista é que quatorze das quinze áreas temáticas começam todas por "Educação" e parece-me que é isto que incomoda muito conservadores e Igreja. 

Ser conservador é querer conservar. Que tudo seja como sempre foi. Mas quando os conservadores querem acabar com as aulas de cidadania já não estão a conservar, estão a querer destruir o que de bem se fez. Nesse momento já deixaram de ser conservadores e passaram a ser reacionários.

No fundo o que conservadores e Igreja querem é que o povo seja ignorante, porque um povo ignorante à partida mais facilmente é manipulável. O que esta gente quer é o regresso à instrução primária (que Passos e Portas trouxeram de novo o exame, coisa única em toda a Europa) e uma enxada para trabalhar. Querem que as pessoas tenham poucos estudos, mas é para outros, os pobres, aqueles que a Cristas para visitar tinha que vestir umas calças de ganga, porque os filhos deles, esses têm que ir para a universidade, nem que seja privada, porque quem pode pagar é sempre gente de bem. 


Enquanto isso nesta mesma semana e no Portugal da Idade Média do século XXI um padre católico de Alcobaça no Jornal Alcoa incita a que se queimem livros! Pois, certamente que até deveria ser proibido aos pobres saber ler e escrever e a missa deveria ainda ser dita em Latim para ninguém perceber absolutamente nada e não ousar questionar o que está escrito! Ah, e a Inquisição deveria voltar, e deveriam queimar na fogueira toda essa gente maluca que se põe a ler livros!



A "liberdade de escolha" que há um ser objetor de consciência nas aulas de cidadania é a liberdade que há em ser mau cidadão

domingo, 10 de junho de 2018

Da Infantilização das Crianças

"Hoje em dia, e vou dizer uma coisa que não sei se será muito bem vista, mas eu acho que se infantiliza demais as crianças até muito tarde. Por outro lado dá-se-lhes muita responsabilidade muito cedo. Que é que eu quero dizer com isto? As crianças são dependentes em tudo ou quase tudo dos pais, quase até irem para a faculdade. Arrumar o quarto, levantarem-se, pôr a mesa, fazer comida, coisas básicas do nosso crescimento. Aquelas dores de crescimento que todos temos que ter, eu acho que os pais hoje em dia parece que querem retirar essas dores de crescer mas eu acho que se não vierem no tempo que têm que vir (não sei qual será) elas vêm mais tarde. Mas vêm sempre.

E eu acho que essa infantilização depois reflete-se também na escola. Os meninos chegam à escola hoje em dia, à escola primária, e quando vão à casa de banho, os professores têm que os ir ajudar a limpar o rabito quando eles vão fazer cocó. E isto, eu não tenho memória, da minha escola primária, o meu professor ou a minha professora me irem limpar o cocó. E isto a mim faz-me um pouco de confusão. E depois isto vai passando até à idade do 5º ano quando eles já saem da escola primária, daquele protetorado, da professora que eles até tratam por tu, "olha, ó professora, tu e coisa e tal..." e vão para um admirável mundo novo, que deixa de ser um admirável mundo novo porque eles estão por conta própria quase. Mas, eles estão no admirável mundo novo, mas sem saber exatamente onde é que estão. Eu acho que não conseguem de facto dizer onde é que está Portugal no mapa porque essas informações não lhes foram dadas. 



Há pouca informação que foi dada às crianças para elas crescerem. É-lhes dado muita informação tecnológica, e coisas do ter. Ter. Ter coisas. Ter coisas. Ter. A filosofia do ter tira-me um bocadinho fora do sério. Mas às vezes coisas banais... Eu tenho um sobrinho que está na escola primária, e eu dei-lhe este Natal uma coisinha, um jogo, que não era tecnológico, onde ele tinha de ir lá com uma canetazinha, e ligava-se uma luz se ele dava a resposta certa. E isto incluía corpo humano, geografia, sei lá, etc, essas coisas todas que fazem parte de nós nos acrescentarmos enquanto pessoas desde pequeninos. E, se por um lado infantilizamos muito as crianças nesta coisa de aprenderem, de se aprenderem também, por outro lado queremos que elas tenham uma vida ocupada de horários como os adultos. Eu acho que isto é um contrassenso absoluto. 

Susana China no programa Encontros Imediatos / Antena 1

domingo, 18 de março de 2018

Universidade Certifica a Ignorância de Passos Coelho

O Karma é de facto muito fodido Pedro. 

Estávamos em plena campanha eleitoral para as Legislativas de 2011, quando o nosso ex-querido Executor de Penhora do FMI, Passos Coelho, afirmou que "o programa Novas Oportunidades pretendia certificar a ignorância".

Foi até mais longe quando, numa ação de campanha, uma aluna do programa foi ter com ele e lhe disse na cara que não gostou do que ele lhes chamou. E o Pedro, já quando a aluna lhe havia virado as costas, teve a elegância de lhe dizer: "Espero que o curso lhe sirva para muito". 


Já depois de ter sido eleito como Primeiro-Ministro, no mesmo ano de 2011, o Pedrito mandou os professores emigrar e, perante um desemprego brutal, chamou mesmo os portugueses de piegas. Saiam da vossa zona de conforto e emigrem, porque aqui, comigo, não terão qualquer esperança no futuro.   


Entretanto, chegaram as Legislativas de 2015, e sem perceber muito bem (porque nunca soube o que está escrito na Constituição), Passos Coelho foi destituído de Primeiro-Ministro e passou para a oposição. Como não tinha qualquer projeto alternativo para o país além do discurso "sem mim será o caos", e como o Diabo teimava em não vir, acabou então por não ter outro remédio senão demitir -se da liderança do PSD depois da valente derrota nas eleições autárquicas. 

E então o que é que ele iria fazer depois de uma vida passada na política? Eu cheguei a pensar que ele ia fazer o que sugeriu aos outros e fosse emigrar, por exemplo, ir estudar (coisa que os políticos fazer muito pouco visto que compram os cursos em universidades privadas) e fazer, por exemplo, como o seu anterior homólogo José Sócrates que foi estudar para Paris. 

Mas qual emigrar qual quê! Passos Coelho, como qualquer ex-ministro (a melhor profissão em Portugal!) arranjou uma bela cunha e vai ser - pasme-se! - vai ser professor! Mas não um professor qualquer!! Passos Coelho vai ser "Professor Catedrático convidado", seja lá isso o que for. E, com a sua licenciatura mal amanhada completada aos 37 anos de idade, numa universidade privada, e depois de não ter feito mais nada na vida do que estar num partido político, vai agora ser professor de mestres e doutores, gente com mais habilitações do que ele. Bom, sinceramente, eu espero que o que tu vais ensinar aos teus alunos lhes sirva de muito no futuro!

Mas o Karma é mesmo muito fodido não é Pedro? 

É que realmente há coisas muito curiosas.Tu que tanto criticaste o facilitismo e disseste que as Novas Oportunidades certificavam a ignorância e mandaste os professores emigrar para arranjarem emprego e chamaste os portugueses de piegas, arranjaste agora uma cunha para que uma universidade certificasse a tua ignorância como professor catedrático. 

De facto, pimenta no cu dos outros é refresco, e o Karma é mesmo muito fodido.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Ranking da Hipocrisia

Se andam a avaliar as competências das escolas e o trabalho dos professores pelos resultados dos alunos nos exames nacionais, e até se fazem títulos nos jornais e se abrem telejornais com as "melhores" e as "piores" escolas do país, então eu pergunto:

Se pegarmos nos alunos das escolas com piores resultados, e no ano letivo seguinte os metermos nas "melhores" escolas do país, que este ano são os tais colégios privados, será que os alunos, como que por milagre, se tornarão os alunos com melhores notas do país?

E se todos as crianças deveriam ter as mesmas oportunidades, independentemente do berço onde nasceram, então, por que é que há colégios onde só os papás ricos podem colocar os seus filhos, enquanto que outras crianças há que têm de ficar em escolas públicas com turmas de trinta alunos? (Obrigado Passos Coelho e Paulo Portas)

The Guardian

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Vê lá se queres ir para Youtuber!

Há trinta anos qualquer pai ou mãe poderia dizer para o filho(*):

"Olha, ficas já avisado, se não estudares vais ter de ir carregar baldes de massa e trabalhar nas obras". 

Hoje, se eu tivesse um filho, poderia muito bem dizer-lhe:

"Vê se percebes que, se não te instruíres um bocadinho e não quiseres estudar, não te restará mais nada que não seja começares a fazer vídeos completamente idiotas, como por exemplo engolir cápsulas de detergente e colocar esses vídeos no Youtube. Toda a gente vai querer ver e depois ganharás rios de dinheiro.Vê la, não estudes não. Vê lá se queres ir para Youtuber!


(*) Filho, homem pois claro, porque hoje, trinta anos depois, felizmente que graças ao movimento feminista, que sempre reivindicou a igualdade de género, que já existe igualdade nos trabalhadores, e nenhuma casa se constrói no mundo, sem que metade dos trolhas não seja mulher.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

...nem bom Comportamento

Ainda nem uma semana passou desde a notícia de que mil alunos portugueses, na casa dos 18 anos foram expulsos de Espanha, e já outra notícia ecoa além fronteiras: o aberrante caso dos cânticos da claque troglodita do Futebol Clube do Porto, que nem a memória dos mortos da Associação Chapecoense respeita, nem tem respeito pelos próprios adeptos do clube que repudiam tais manifestações, e isto poucos dias depois de um dos elementos da claque ter, em campo e para toda a gente ver, ter partido o nariz de um árbitro de futebol. 

Eugenia Loli

Em Portugal, como em quase todos os países, gostamos de rebaixar os nossos vizinhos, no nosso caso os espanhóis, e usamos um provérbio que diz que "de Espanha nem bom vento nem bom casamento". Pois o que eu acho é que na verdade quem tem telhados de vidro não deveria atirar pedras aos outros, porque pelo que se tem visto: de Portugal nem bom vento, nem bom Comportamento.

terça-feira, 7 de março de 2017

Diz-me que Mãe tiveste, dir-te-ei o Destino que Terás

Março 1872

"A valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães. O homem é "profundamente filho da mulher", disse Michelet. Sobretudo pela educação. Na criança, como num mármore branco, a mãe grava; mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas. E educação dos primeiros anos, a mais dominante e que mais penetra, é feita pela mãe: os grandes princípios, religião, amor ao trabalho, amor do dever, obediência, honestidade, bondade, é ela que lhos deposita na alma. O pai, homem de trabalho, e de atividade exterior, mais longe do filho, impõe-lhe menos a sua feição; é menos camarada e menos confidente. A criança está assim entre as mãos da mãe como uma matéria transformável de que se pode fazer - um herói ou um pulha. 

Diz-me que mãe tiveste - dir-te-ei o destino que terás. 
A ação de uma geração é a expansão pública do temperamento das mães. A geração burguesa e plebeia de 1789 a 93, em França, foi livre sensível e humana - porque as mães que a conceberam tinham chorado e pensado sobre as páginas de Rousseau.
A geração de 1830, gerada durante o primeiro império - foi nervosa, idealista romântica, porque as mães tinham vivido nas emoções heróicas das guerras, na contemplação das fortunasmaravilhosas. 

Se a geração de 1851, em Portugal, foi mais forte e original do que a nossa - é porque as mães, de onde ela saiu, tinham sido as raparigas vivamente sacudidas pelos tempos dramáticos das lutas civis. 


É, pois superiormente interessante saber o que são hoje, em 1872, essas gentis raparigas de 15 a 20 anos de quem nascerá, para o bem e para o mal, a geração portuguesa de 1893. Assim poderemos prever o que elas serão mais tarde como mães, como educadoras (...)

A menina solteira! Vejamos o tipo geral de Lisboa. É um ser magrito, pálido, metido dentro de um vestido de grande puff, com um penteado laborioso e espesso, e movendo os passinhos numa tal fadiga, que mal se compreende como poderá jamais chegar ao alto do Chiado e da vida. O primeiro sinal evidente é a anemia (..) A palidez, as olheiras, o peito deprimido, o ar murcho - revelam um ser devastado por apetites e sensibilidades mórbidas. Ora entre nós as raparigas não têm saúde. Em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça, no sofá, com as janelas, fechadas (...)Depois não fazem exercício. (...) Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se racionalmente de peixe, carne e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. A gulodice do açúcar, dos bolos de natas, é uma perpétua desnutrição (...)

Outra causa de doença é a toilette. Com estes penteados enormes, eriçados, insólitos, em forma de capacete, de fronha, de chalé, de concha, e com os materiais tenebrosos que metem por baixo (...)
Lisboa é a cidade do Universo onde as meninas mais se apertam e espartilham (...)
De modo que o balanço das condições físicas de uma rapariga portuguesa é este: músculos sem exercício; pulmões sem ar; circulação comprimida; digestão estrangulada. (...)

É a moda dizem.  - Cruel razão! A moda começa por ter isto de absurdo: não é ela que é feita para o corpo - mas o corpo que tem de ser modificado para se ajeitar nela. (...) A moda destrói a beleza e destrói o espírito. (...) 

Depois da anemia do corpo, o que nas nossas raparigas mais impressiona - é a fraqueza moral que revelam os modos e hábitos. (...)
A sua preguiça é um dos seus males. O dia de uma menina de dezoito anos é assim dissipado: almoça, vai-se pentear, corre o Diário de Notícias, cantarola um pouco pela casa, pega no croché ou na costura, atira-os para o lado, chega à janela, passa pelo espelho, dá duas pancadinhas no cabelo, adianta mais dois pontos no trabalho, deixa-o cair no regaço, come um bocadinho de doce, conversa vagamente, volta ao espelho, e assim vai puxando o tempo pelas orelhas, derreada com a sua ociosidade, e bocejando as horas. (...)

Uma menina portuguesa, não tem iniciativa, nem determinação, nem vontade. Precisa ser mandada e governada; de outro modo, irresoluta e suspensa, fica no meio da vida, com os braços caídos. Perante um perigo, uma crise de família, uma situação difícil, rezam. (...)

Veja-se uma criança educada numa quinta. Pela manhã já ela está solta, com um bife, uns largos sapatos, um velho chapéu. Corre, visita os bois, luta com o carneiro, abraça o pacífico e grave jumento, preside à reunião de galinhas, conhece os ninhos, sabe de cor as árvores; cai, enlameia-se, arranha os joelhos, cura-se pulando, recebe os largos abraços do sol penetra-se de ar, de vida, de viço; e inocente como um bicho, fresca como uma madressilva, com o bife sujo, as mãos cheias de terra, o rosto vermelho como uma amora, as narinas palpitando de vida, sem sensibilidade e sem tristezas, com um cheiro de fenos e prados atravessados, espírito vivo da verde natureza, entra em casa aos pulos, berrando pela sua sopa. À noite, cheia de fadiga, dorme como um canário. - E que educação superior, em verdade, não sai das árvores, das relvas, do pacífico marchar dos regatos, das recolhidas sombras, das searas, dos milhos, de todos os tranquilos seres que cumprem nobremente, e sossegadamente, o seu dever de crescer! (...)
Em contraste veja-se uma menina de dez anos, aqui em Lisboa, nestas altas casas encarceradas: pálida, curvada, acanhada, com olheiras, lendo já o jornal, cheia de si, caprichosa, ardendo em vontades, em curiosidades - uma boneca de cera habitada por um bico de gás. (...)

"As meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea" 
Uma Campanha Alegre / Eça de Queiroz

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Ao ler este mordaz artigo do Eça, algumas reflexões e perguntas me assaltam. Desde logo, agora não é a mãe que educa os filhos. Nem o pai. Não é mãe nem o pai juntos. São os infantários e os depósitos de crianças, chamados de escolas (e neste longo artigo também se criticam os colégios da altura). Pergunto-me sobre como seriam as mães, que da minha idade, deram os filhos que têm hoje vinte anos. E pergunto-me também - quem são as adolescentes de hoje, que têm agora 15 ou 18 anos? E que portugueses teremos na próxima geração...?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O Peso das Mochilas

Acabo de receber um e-mail com as "causas polémicas" da Petição Pública desta semana. No topo da lista uma petição "Contra o Peso Excessivo das Mochilas Escolares". Argumentam os defensores da petição que há uma grande probabilidade das crianças desenvolverem deformações nos ossos e nos músculos. 

Pois, de facto deve ser verdade. Bem se vê que eu e os meus ex-coleguinhas de escola, e que no nosso tempo também tínhamos de carregar as mesmas mochilas com o mesmo peso de livros - a diferença é que estas não eram tão embonecadas como agora - e hoje somos todos uns verdadeiros corcundas de Notre Dame!

Tadinhas das crianças de hoje em dia. No meu tempo, com seis anos, eu saía de casa e não tinha nenhum papá rico que me fosse levar à escola de automóvel. Saía de casa, e ia a pé para a escola, por estradas de terra batida, e atravessava um monte de caminhos de cabras, e ainda recordo de no Inverno ver as poças de água congeladas, e lembro também de me cruzar, várias vezes, com cobras e licranços. Não era muita distância, mas seria certamente mais de 1Km.  

Hoje em dia nenhuma criança de seis anos vai sozinha a pé para a escola! E aos dez-onze anos, quando começam a haver mais matérias e consequentemente mais livros para carregar, as crianças, ou são levadas e trazidas pelos carros dos papás, ou então andam de autocarro como também eu andei, e têm de carregar as mochilas, da paragem do autocarro para a escola, e da escola para a paragem de autocarro. Coitadas das crianças, é um esforço descomunal, eu acho que na petição esqueceram-se de referir que é escravatura ou trabalho infantil!

Vocês, papás, que hoje são da minha idade, e que já nasceram num tempo privilegiado, sabem lá o que é uma criança fazer sacrifício. A minha mãe, criança que só teve a oportunidade de fazer a instrução primária, antes de ir para as aulas, por vezes já tinha de tocar o boi e deixar um campo de milho sachado. E de inverno, nem meias tinha, e tinha de ir se socos para a escola. 

Para os novos-papás, hoje em dia tudo é queixume. São os livros que só têm poucas vergonhas e que ai-jesus-que-os meninos-de-quatorze-ou-quinze-anos-e-que-já-sabem-mais-do-que-os-pais mas vão ficar traumatizados; ele são os Trabalhos Para Casa  (TPC) que valha-nos-deus-que-coitadas-das-crianças que não têm tempo para brincar; E agora, no tempo em que até existem malas com rodinhas, e que não custam nada a puxar, ai-nossa-senhora-de-Fátinha-a-Lúcia-e-a-Jacintinha-que-não-pode-ser porque as crianças vão ficar corcundas! Tenham juízo. 


Agora há todo um movimento de papás revoltados. Não querem os TPC, porque tadinhas das crianças que não têm tempo para brincar nem para a família. Mas se calhar, digo eu, se os papás não as metessem duas horas por dia nas explicações (antigamente ninguém tinha explicações e os TPC eram para tirar dúvidas!), na música, no ballet, no karaté, nos escuteiros, no Diabo-a-quatro e em-tudo-que-o-filho-dos-vizinhos-também-esteja, se calhar, digo eu, se calhar as crianças tinham tempo para a família, para brincar e para fazer os TPC. 

Claro que, felizmente, que os tempos hoje são outros, bem diferentes do tempo dos meus avós e dos meus pais, mas o que me parece é que os pais estão educar um bando de incapazes de fazer o que quer que seja. Parece que hoje em dia tudo traumatiza as crianças, a quem cada vez menos se exige, desde logo que estudem para passar de ano. Os pais só não exigem é que os filhos sejam bem educados, demitem-se dessa tarefa e exigem que seja a Escola que os eduque, quando a escola tem o papel de ensinar.

Hoje tudo se desculpa. A má educação das crianças tem sempre desculpa: "Sabe é hiperativo tadinho, e até toma Ritalina"! É muito mais fácil dizer que o filho é um doente mental, que assumir que falharam na tarefa de o educar convenientemente. Mas contra o facto de se estarem a drogar e a transformar as crianças em verdadeiros mortos-vivos, contra isso ninguém se revolta, porque dá muito jeito a professores e aos pais que não podem aturar as crianças. 

As criancinhas hoje parecem umas flores de estufa. Não podem fazer trabalhos de casa, não podem carregar livros, não podem reprovar de ano que ficam traumatizadas, não podem ler literatura que fale em levar no cu porque que valha-nos-deus é uma violência, mas já não é uma violência ver a forma como falam, nem é preocupante que as crianças de tenra idade, já andem todas a mandar fotografias nuas umas às outras, algumas envolvidas em orgias e a consumir drogas. Isso já não preocupa os papás, que em boa verdade, nem devem saber da missa a metade daquilo que os filhinhos fazem, porque hoje em dia quem ouve as crianças são as consolas de jogos, as televisões e os computadores.

As crianças portuguesas, segundo um relatório da UNESCO, são as crianças que até ao sexto ano, mais horas passam nesses verdadeiros depósitos a que ainda chamam escolas. Mas curiosamente, contra isso ninguém se manifesta nem se fazem petições, pelo contrário, cada vez mais se ouvem pais dizer, que as crianças ainda deveriam ficar mais tempo nas escolas!

Eu estou mesmo em crer que, hoje em dia, o ideal para os papás portugueses seria: assim que nascessem, os pais entregavam os filhos nas escolas, e só os voltavam a ver, quando estes fossem depois devolvidos, vinte anos depois, já com a escola toda, e, pelo menos, a saberem limpar o cu sozinhos.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Os Novos Pais

"Ai ai...  (que chatice) o meu filho está doente, tenho que o ir buscar, e assim (yuuuupi!) já posso tirar o resto da semana de baixa".


sábado, 17 de dezembro de 2016

As melhores escolas

Hoje ouvi falar qualquer coisa sobre das hierarquias das escolas. Sim, é mesmo muito estúpido senhores jornalistas, que para dar uma notícia sobre Educação usem um anglicismo (ranking?) quando podiam perfeitamente ter usado o português, mas eu percebo, é usando cada vez mais a língua estrangeira que defendemos a língua portuguesa, e depois fazemos de conta que somos todos patriotas contra o acordo ortográfico marchar-marchar. Eu percebo. 

Mas vamos então ao que interessa, às tais melhores escolas. Ouvi qualquer sobre as escolas privadas serem mesmo boas escolas, estão todas nos primeiros lugares... blá blá blá..



Mas eu tenho para mim, que as melhores escolas ou melhores universidades ou outras instituições de ensino, aquelas que são mesmo boas, são aquelas onde os alunos nem sequer precisam de lá pôr os pés, e num passe de mágica são imediatamente Doutores como o Relvas! Essas sim, é que são as melhores escolas.

domingo, 3 de abril de 2016

"Só tem vinte anos"!

Acabo de abrir o site do Público e comprovo o que penso. Há cada vez mais uma enorme condescendência com a idade. Homens e mulheres na casa dos vinte são uns coitadinhos, não sabem o que fazem!

Um homem ou mulher de vinte nos, já tem responsabilidade criminal desde os dezasseis, o que significa que pode ser preso pelos seus atos. Já pode casar e desde os dezoito já pode votar e já tem todos os direitos e obrigações que qualquer outro cidadão de qualquer outra idade. E já pode ser pai ou mãe há muitos anos...

Mas o "rapaz só tem vinte anos"!

Um homem ou uma mulher de vinte anos é coitadinho. Se calhar o melhor ainda é ir limpar-lhe o cu, porque se calhar ainda não conseguem fazê-lo sozinho. Ou então será conveniente continuar a apertar-lhe os cordões dos sapatos. Ou então ir com eles a uma entrevista de emprego, porque coitados, "só têm" vinte anos. Sabem lá bem como se comportar. Tadinhas das criancinhas que ainda ficam traumatizadas. 

E depois analisemos a notícia: Esta criança de vinte anos, está acusada de 13 crimes de ameaça agravada e três de violência doméstica. Esta criança, que "só tem vinte anos" disse aos pais:


"Eu atropelo-vos com o carro. Eu rego a casa com gasolina. Eu incendeio tudo"!




E é isto que acontece quando não se dá educação, e a educação é para ser dada pelos pais. Quando se dá tudo aos fedelhos. estes crescem e pensam que a vida lhes vai dar tudo aquilo que eles acham que merecem. E os pais são escravos destas crianças, que um dia aos vinte anos, se viram contra os próprios progenitores. 

Saber educar não é querer dar tudo aos filhos, mas sim dar-lhes ferramentas para que eles percebam que na vida é preciso lutar pelo que queremos. Nada nos é dado de mão beijada. 

Eu conheci um caso bem de perto, em que também uma criança de vinte anos ameaçava bater nos pais. Certa vez até, com o filho ao lado a mexer-lhe nas coisas junto da mota, disse que um dia ainda o matava com o martelo. Também a esta criancinha foi dado tudo. Aos dez ou doze anos já conduzia o trator do pai, que achava que tinha ali o menino Jesus, que o filho era melhor que os outros. E tudo lhes deram, e ele saiu um insurreto, que rapidamente deixou de estudar, e também foi daqueles daqueles que um dia cresceu e depois ameaçam bater nos pais se não lhe derem um Mercedes de cinquenta mil euros.


domingo, 27 de setembro de 2015

Por que governar um país não é gerir um orçamento familiar

Vamos fazer o seguinte exercício. Um português ganha mil euros, e não consegue amealhar um cêntimo que seja no final do mês. Então, decide experimentar começar a poupar. 

Corta a televisão por cabo. Corta a assinatura de internet. Deixa de ir jantar fora todas as semanas. Deixa de comprar o jornal todos os dias. Deixa de almoçar todos os dias no restaurante e adere à moda de levar a marmita para o trabalho. Deixa o carro em casa e passa a andar de transportes públicos. Deixa de fazer compras supérfluas e compra só o estritamente necessário.
Passado meio ano, esta pessoa chega à conclusão que afinal sim, poupar, consegue amealhar algum dinheiro todos os meses, ainda que à custa de alguns sacrifícios. 

Façamos agora o paralelo com o que o que a canalha do governo português decidiu fazer nestes quatro anos e meio, desde que tomou de assalto o poder com um monte de mentiras, como afirmar que chegava de austeridade, que bastaria unicamente cortar nas "gorduras", que os problemas do país eram dos preguiçosos que não queriam trabalhar, e daquela malta que só quer subsídios.

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Roubaram salários. Roubaram subsídios de férias de Natal e subsídios de desemprego. Roubaram nas reformas. Privatizaram a saúde sendo agora a saúde pública mais cara do que ir ao privado. Fecharam maternidades. Fecharam hospitais. Fecharam tribunais. Cortaram nas creches, aumentaram o número de alunos por turma. Fecharam escolas. Cortaram nos professores e aconselharam-nos a emigrar. Aconselharam toda a gente a emigrar. Pararam todas as obras públicas previstas como o túnel do Marão e o TGV. Aumentaram brutalmente os impostos. Cortaram freguesias. Privatizaram empresas públicas. No fundo o que o governo fez foi, deixar de ter tantas despesas cortando no investimento e passar a tentar arrecadar muitos mais impostos. Então, supostamente, deveríamos estar a juntar muito dinheiro, tal como o português que decidiu cortar no seu orçamento mensal para poupar - certo? 

Mas não. O bando de canalhas que nos governa fez cortes cegos e aumentou de forma absurda os impostos, mas infelizmente o país além de estar cada vez mais pobre, tem ainda mais dívida para pagar aos credores. Se uma família junta uns tostões apertando o cinto, um país que faz cortes cegos, além de empobrecer ainda mais, acaba ironicamente por se endividar ainda mais. Então mas o que é que passa? Passa-se que a canalha que nos governa nunca percebeu que gerir as contas de um país não é como gerir um orçamento familiar. 

domingo, 31 de maio de 2015

Manipular as crianças

Não sou pai, não sou educador, nem nunca tive assim grandes relações com crianças, mas considero-me uma pessoa atenta e observadora do que se passa ao meu redor. Gosto de observar o que se passa em volta, para tentar perceber os comportamentos. O que as leva as pessoas a agir de determinada forma, para tentarem conseguir chegar a determinado fim. Isso sempre me fascinou. Não é à toa que, na minha vida pessoal, sem ter nenhum dom de perceção extra-sensorial (que eu saiba) consigo com relativa facilidade antecipar acontecimentos.

Pitágoras tem uma frase célebre:

"Se educarmos as crianças, não será necessário castigarmos os homens". 

Não concordo totalmente, porque se assim fosse, seria fazermos do bebé uma espécie de disco formatado, onde podemos escrever todas as instruções para se programar como quiser, que teremos ali um futuro adulto como quisermos que ele seja. E isso não funciona bem assim. Há muitas condicionantes. A educação não basta, o meio onde a criança está inserida nem sempre é determinante, nada é tiro-e-queda. Temos crianças educadas pelos mesmo pais que saem completamente diferentes umas das outras, temos crianças educadas nos meios com mais condições e dinheiro que saem os maiores estroinas, temos crianças que crescem nos meios mais desfavorecidos e dão adultos muito válidos. Nem sempre as coisas são preto ou branco, certo ou errado, há muitas escalas de cinzentos.

No entanto a única coisa que nos distingue de todos os outros animais é a educação. Não é a inteligência, pois ao contrário do que aprendi na escola, basta convivermos com os animais, para vermos como eles aprendem, como eles se superam e são inteligentes. O que nos distingue verdadeiramente dos outros animais é a educação. Abandonemos um bebé à sua sorte, sem outro humano por perto, que se ele conseguir sobreviver, não irá falar nenhuma língua, e irá comporta-se como qualquer outro animal tentando simplesmente sobreviver.

A natureza não tem ética nem moral. Na natureza sobrevivem os mais fortes, astutos, resistentes, os que melhor se adaptam às condições. Na natureza não existe o certo e o errado. Todos esses conceitos que temos, foram-nos transmitidos pela educação que tivemos, daí que ao educarmos as crianças, estamos a influenciá-las para o bem ou para o mal. Claro que como referi não é tiro-e-queda, porque existe uma coisa chamada liberdade de escolha, livre arbítrio, alma ou espírito, ou o que se quiser chamar, em que cada um pode sempre escolher o seu caminho, se é que já não o escolheu antes mesmo de nascer.

Mas depois temos também adultos manipuladores, que influenciam as crianças para servirem os seus interesses e não poucas vezes como armas de arremesso sobre outros adultos.

Podemos acolher uma criança em casa, dar-lhe o carinho que lhe falta pois em casa só ouve berros, e ninguém lhe dá atenção, podemos dar-lhe de comer porque quem de direito não cuida devidamente dela e só lhe dá porcarias. Ela pode mostrar ter uma adoração especial por nós, nem que seja só pelo interesse de nos usar em seu proveito. Mas um dia, apesar de tudo o que fizemos por ela, um dia, essa mesma criança com sete anos de idade, pode reproduzir um belo ensinamento que lhe transmitiram, e decidir mostrar-nos os dois dedos médios bem levantados. E mais triste que a ingratidão da pequena fedelha, é ver a tristeza nos olhos de quem tão bem a tratou.  

Mark Twain também tem outra frase célebre:

"Se recolhes um cachorro faminto e lhe deres conforto ele não te morderá. Eis a diferença entre o cachorro e o homem".