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terça-feira, 25 de abril de 2023

34 Anos com 39 de Febre

 

Eu tinha conseguido marcar dois torneios para a mesma semana, o que, para malta como nós, que nem sequer somos federados e pouco competimos, era ótimo. Mas se algo de errado tiver que acontecer acontecerá sempre no pior momento. É o Murphy que o diz. 

Na empresa um colega perguntava à nova colega, de trinta e poucos anos, que idade ela lhe dava e tal e coisa e vai daí metem-me ao barulho.  

- Que idade dás ao Königvs? (ou Konigovsky, como diz a minha colega, com quem trabalho diretamente e que tem idade para ser minha filha) E a colega de trinta e poucos, que usa óculos e, provavelmente, estará a precisar de trocar de lentes, deu-me 34 anos. Basicamente errou num 1/3 da minha idade correta e, ainda por cima, nesta fase, que até ando com barba de talibã e que, acredito, me dê até mais uns quantos anos. 

Mas, se alguma coisa pode dar errado dará. 

Fevereiro e Março foram meses de cão. Bom, de cão vadio porque agora a maioria dos cães faz vida de novo burguês e um dia destes ainda tem um SNS melhor do que as pessoas. É melhor dizer vida de cão vadio, então. Trabalho em excesso. Tanto trabalho como se calhar nunca me aconteceu, até que, certo dia, comecei a ouvir vozes na minha cabeça: "isto não pode continuar assim e tens que te pôr a mexer porque isto não é vida para ninguém". Mas o corpo haveria de aguentar, firme (e hirto como dizia o outro) e teria que ser, precisamente, naquela semana dos torneios que tinha que ficar doente. Há semanas que os colegas andavam todos fodidos e, claro, ainda por cima eu com as defesas sempre nos mínimos, não sou de ferro. Mas não podia ter sido antes, ou na semana seguinte! Não, só para me chatear tinha ser naquela semana, para não poder aos torneios. Se algo tiver que dar errado, dará e sempre no pior momento!

Mas pronto, o pior já passou (outro pior virá a caminho), e mais torneios virão. E ter estado doente com 39º até foi uma experiência interessante - tal como ter adormecido com a anestesia na cirurgia - percebi que teria febre quando comecei quase a delirar, a sentir-me sozinho - e na verdade não estamos sempre sós no mundo? Por outro lado devemos focar-nos aspetos positivos. 

Afinal, tive 39º de febre mas com 34 anos!

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Sinto o Tempo Passar... II


Há muitos anos, e terá sido, de facto, há muitos anos pois ainda não tinha os cabelos compridos, eu apanhava a camioneta das sete menos dez, e passava cerca de quarenta e cinco minutos na conversa com os colegas cá da aldeia, incluindo alguns do outro lado do rio, que tinham inclusive de o atravessar de barco para entrar na primeira paragem.

Daquele conjunto de adolescentes e pré-adultos havia uma loirinha de cabelos muito compridos. Talvez tivesse quinze ou dezasseis anos. Era muito nova mas pareceu-me depois que, como dizia o Pedro Lamy, já era muito rodada. Foi com ela que comecei a treinar melhor a exploração de bocas alheias bem como a transferência de oitenta milhões de bactérias de uma boca para outra. Eu era demasiado ingénuo nestes treinos cronometrados, mas ela já fazia as voltas mais rápidas no warm-up de classificação dos treinos livres. Eu estava a descobrir e ela como estava numa de se divertir. Rapidamente foi-se divertir para outra paróquia ou várias paróquias ao mesmo tempo. Um ano depois disseram-me que estava grávida. "Eu não tive nada a ver com isso" respondi à minha avó. Soube que casou, que se separou depois, que estava muito gorda e perdi-a de vista.

Eu confesso que não achei nada estranho quando comecei a namorar com uma mulher de cinquenta anos. Pelo contrário, achei até muito estimulante. E até sorri quando constatei que agora o meu novo coleguinha com quem travei amizade também tem os mesmos cinquenta anos, e levei-o comigo para os treinos. Parecíamos os mesmos dois putos (eu mais do que ele subentendido) quando jogávamos há vinte e cinco anos no salão da sede do rancho folclórico, simplesmente com mais ferrugem nas movimentações. 

Mas quando me deparo com o resultado daquela gravidez daquela loirinha transformada num homem de barbas de vinte e quatro anos, que me tratou na terceira pessoa, confesso que isso me deixou a pensar. Não que me sinta propriamente "velho", mas sinto o tempo a passar num abrir e fechar de olhos... 

Sinto o Tempo Passar

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sinto o tempo passar quando....

Sinto o tempo passar quando olho com aquele olhar que tira as medidas, não predador mas quase lascivo, naqueles segundos em que passo de carro e vejo uma jovem que espera pela camioneta na paragem. Na mesma paragem onde eu, durante tantos anos também esperei. Dias depois apercebo-me que a jovem é filha da Mafalda, uma menina que estudou comigo na Telescola



Esta curta publicação estava para ter por título "Sinto-me velho quando...", mas a verdade é que, apesar dos cabelos brancos irem proliferando cada vez mais (apesar de ser sempre preferível ter neve nas telhas, do que ver as telhas voar!) mas na verdade continuo a sentir-me o mesmo miúdo de sempre. Parece cliché mas acho mesmo que a velhice está na cabeça, apesar de, como é lógico, com o tempo o corpo começa a não corresponder como antes, e que o digam os jogadores da bola. 
Mas há tanto puto envelhecido por aí...


domingo, 3 de abril de 2016

"Só tem vinte anos"!

Acabo de abrir o site do Público e comprovo o que penso. Há cada vez mais uma enorme condescendência com a idade. Homens e mulheres na casa dos vinte são uns coitadinhos, não sabem o que fazem!

Um homem ou mulher de vinte nos, já tem responsabilidade criminal desde os dezasseis, o que significa que pode ser preso pelos seus atos. Já pode casar e desde os dezoito já pode votar e já tem todos os direitos e obrigações que qualquer outro cidadão de qualquer outra idade. E já pode ser pai ou mãe há muitos anos...

Mas o "rapaz só tem vinte anos"!

Um homem ou uma mulher de vinte anos é coitadinho. Se calhar o melhor ainda é ir limpar-lhe o cu, porque se calhar ainda não conseguem fazê-lo sozinho. Ou então será conveniente continuar a apertar-lhe os cordões dos sapatos. Ou então ir com eles a uma entrevista de emprego, porque coitados, "só têm" vinte anos. Sabem lá bem como se comportar. Tadinhas das criancinhas que ainda ficam traumatizadas. 

E depois analisemos a notícia: Esta criança de vinte anos, está acusada de 13 crimes de ameaça agravada e três de violência doméstica. Esta criança, que "só tem vinte anos" disse aos pais:


"Eu atropelo-vos com o carro. Eu rego a casa com gasolina. Eu incendeio tudo"!




E é isto que acontece quando não se dá educação, e a educação é para ser dada pelos pais. Quando se dá tudo aos fedelhos. estes crescem e pensam que a vida lhes vai dar tudo aquilo que eles acham que merecem. E os pais são escravos destas crianças, que um dia aos vinte anos, se viram contra os próprios progenitores. 

Saber educar não é querer dar tudo aos filhos, mas sim dar-lhes ferramentas para que eles percebam que na vida é preciso lutar pelo que queremos. Nada nos é dado de mão beijada. 

Eu conheci um caso bem de perto, em que também uma criança de vinte anos ameaçava bater nos pais. Certa vez até, com o filho ao lado a mexer-lhe nas coisas junto da mota, disse que um dia ainda o matava com o martelo. Também a esta criancinha foi dado tudo. Aos dez ou doze anos já conduzia o trator do pai, que achava que tinha ali o menino Jesus, que o filho era melhor que os outros. E tudo lhes deram, e ele saiu um insurreto, que rapidamente deixou de estudar, e também foi daqueles daqueles que um dia cresceu e depois ameaçam bater nos pais se não lhe derem um Mercedes de cinquenta mil euros.


domingo, 29 de novembro de 2015

Somos da idade que parecemos

Há coisas mesmo muito interessantes... Como numa só semana vários acontecimentos, coincidentemente,  se interligam entre si à volta do mesmo tema e eu consigo ter diferentes ângulos de visão: desde logo o meu mas também dos outros.

A meio da semana na capa do Jornal I: "A crise da meia-idade existe mesmo e a fase negra é entre os 40 e os 42". 


"Estou fodido" pensei. 

Eu a pensar que só as mulheres quando entravam nos 40 é que tinham preocupações, com as intermitências do relógio biológico, as hormonas aos saltos e a chegada da menopausa. 
Já não basta a crise nas carteiras, a crise do país - que já vem pelo menos já desde a terramoto de 1755 - a crise na índole dos políticos, e quer dizer, estou a um passo de enfrentar outra crise, agora esta existencial? Já não há pachorra para tanta crise, nem para notíciazinhas de treta nas capas dos jornais. Não sabem encher chouriços com notícias positivas!?

Entretanto no dia seguinte uns sujeitos iam passar pela empresa para dar uma formação, que depois afinal parece que era só para saber das necessidades dos trabalhadores (eu não sou colaborador, eu trabalho, não colaboro ok?) para então se proceder à dita formação. 
E eis se não quando, enquanto eu e os meus colegas comíamos descansadamente na pausa a meio da manhã, irrompe pela copa adentro a colega que esteve com eles, completamente em pânico a dizer, que aquelas pessoas estão completamente diferentes:
- "Eles não são os mesmos"! 
Eu até pensei "queres ver que os gaijos foram raptados por extra-terrestres em discos voadores"? Diferentes como? Mas depois lá percebi.
- "Eles não são os mesmos"! e dizia isto, completamente chocada, enquanto colocava as mãos na cara, como que tentando perceber, o quanto terá envelhecido também ela, nesse espaço de tempo que não os viu. 
- Mas há quanto tempo foi isso"? perguntei.
- Eu só cá estou desde 2012!

Nova conversa, de novo na copa e novamente sobre o mesmo tema.

Fala-se de idades, com os meus colegas mais novos que ainda nem entraram nos trinta!, a queixarem-se de como o tempo passa depressa, disto e daquilo e como vai ser no futuro e tal e coisa. 
E eis se não quando, eu caio na asneira de me virar para uma colega, só quatro anos mais nova, e uso a expressão "da nossa idade"! Pois de imediato ela reclamou que não é nada da minha idade! De facto quatro anos faz toda a diferença. Quando eu chegar aos 100 ela só terá 96. Certo!

Mas é muito interessante, que eu, coerentemente, já usei a mesma terminologia "da nossa idade" com outra colega, esta 3/4 anos mais velha e também ela, coerentemente, diz que não somos nada da mesma idade! E neste caso ela sente-se  já velha, apesar de como eu, não parecer nada a idade que tem. Eu creio que será o peso do número... ou então queres ver que estará ela mesma a passar pela tal crise da "meia-idade"? Ò diabo!

E já no final da semana comecei com um novo livro do Aldous Huxley, livro de que nada sabia, comprei usado, baratinho, por ser deste autor, e já bem velhinho e tudo. E olho para a dobra da capa que resume o tema abordado no livro e fico a saber que aborda precisamente a morte:

"O problema da morte, questão obsessivamente que o homem enfrenta desde que alcançou a faculdade de pensar, e a exploração do que é objeto na sociedade moderna de consumo são retratados neste romance com um sarcasmo impiedoso e cáustico."

"Os bosques apodrecem e extinguem-se 
A nuvem desfaz-se em chuva sobre o solo
E o homem lavra a terra, e sob a terra jaz ,
E após muitos verões também o cisne morre."

E depois olho para a primeira página e vejo a data da assinatura - um ano depois de eu ter nascido - e penso como este livro, já velhinho, amarelecido e oxidado pelo tempo, e eu, teremos a mesma idade. " Se eu tivesse nascido um livro, hoje também estaria assim, amarelecido e oxidado pelo tempo." 

Mas depois lembro-me também, como ainda há alguns dias, novamente mais uma pessoa ficava como que escandalizada quando soube da minha idade. "Eu dava-lhe uns vinte e cinco"! Acho que vou então fazer de conta que somos da idade que parecemos... Se pareço que tenho vinte e cinco, tenho mesmo vinte e cinco não é? e assim ainda me faltam quinze anos para a tal crise existencial da meia-idade!