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domingo, 26 de julho de 2026

O Dinheiro de Salazar

Há uma certa classe política e muitos saudosistas do tempo da sardinha-para-três, que defende que o Salazar nasceu e morreu pobre, mas será mesmo assim? 

Ciclicamente, a revista Sábado regressa ao tema de Salazar, e desta vez o tema é o património do ditador. 


Basta só pensar um bocadinho. Se Salazar tivesse, de facto, nascido pobre teria podia ir estudar?, ainda para mais para a universidade de Coimbra? Obviamente que não. No início do século XX Portugal era um país muito pobre, a maior parte das pessoas não sabia sequer ler e escrever, e os filhos serviam para ajudar os pais na agricultura. 

E, ao contrário do que muitos querem romantizar, Salazar, não nasceu pobre - comparado com a média das famílias daquele tempo - muito menos morreu pobre.

De forma muito sintética:

- Salazar recebia naquele tempo o mesmo que recebe hoje o primeiro-ministro português
- Comprou terrenos e outros bens e deixou mais de 100 mil € no banco
- De 1939 até 1970 viveu sem pagar qualquer renda
- Usava os serviços do Estado em benefício próprio
- Teve direito a uma subvençãozinha vitalícia
- Não menos importante, num tempo em que a população bem sequer tinha direito a um Serviço Nacional de Saúde, universal e gratuito, a doença de Salazar custou aos cofres do Estado cerca de dois milhões de euros.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A Fome e a Miséria em Portugal na Ditadura Fascista de Salazar

Depois das memórias de Henrique Galvão e Camilo Mortágua, eis que terminei agora as memórias de Humberto Delgado, candidato presidencial em 1958, e que afirmou "obviamente demiti-lo-ei" referindo-se a Salazar e, posteriormente, assassinado pela PIDE em 1965. 

Bastante revelador o estado de pobreza do país, após várias décadas de ditadura fascista do governo de Salazar. para ler e refletir. 


"De alto a baixo, Portugal é um país de pobres, que pedem pão, ou trabalho, ou protecção, e isto inclui, não só os pedintes sem um tostão de seu, mas também o futuro professor que jamais terá o seu lugar se a P.I.D.E. se opuser à sua nomeação, o comerciante que tem de pertencer ao Grémio apropriado se quiser vender alguma coisa e que fracassa com certeza se houver a mínima presunção de que partilha opiniões políticas pouco recomendáveis, e até mesmo o médico que precisa de se treinar nos hospitais civis e que corre o risco de ser reprovado se não pertencer à «ordem estabelecida».

A situação foi analisada há pouco tempo em «The Reporter», nos Estados Unidos. E o artigo concluía: «Qualquer português só pode exercer a sua profissão, seja ela qual for, desde que esteja sujeito ao poder político do Estado», o que não é mais do que outra forma de apresentar o que o próprio ditador disse a um amigo meu: «Serão simplesmente aquilo que queremos que sejam».

Típico desta maneira de ver é o exemplo de Aquilino Ribeiro, o grande escritor, que, aos setenta anos, foi perseguido pela polícia, só porque no seu livro «Quando os Lobos Uivam» critica a sociedade criada por Salazar e sublinha a estupidez e malefícios do sistema totalitário.

MISÉRIA EM PORTUGAL 

Quando se estuda o mecanismo humano, é conveniente começar pela substância que o faz trabalhar. O Português subsiste com uma média de cerca de 700 calorias por pessoa, menos do que o mínimo fixado pela F.A.O. Mas como poderia ser de outra forma, com os salários miseravelmente baixos e a notória desigualdade na distribuição da riqueza, que concede ao trabalhador rural no Alentejo 16 escudos por dia, para os poucos dias da semana em que consegue arranjar trabalho?

(,,,)

Quando, entretanto, em 1958, a minha campanha eleitoral me levou ao Alentejo, mulheres a chorar agarravam-se a mim dizendo-me que no Inverno anterior tinham recebido 8 escudos por dia e, mesmo assim, só durante parte da semana. Podia-se ver a verdade das suas palavras nas crianças que me rodeavam, pele e osso, com grandes olhos tristes que obrigariam qualquer pessoa, inevitavelmente, a dar-lhes um pedaço de côdea.

(...)

A minha secretária Brasileira, Sra. Arajarŷr Campos, disse-me um dia que tivera uma jovem criada Portuguesa, à qual ouviu dizer que em Portugal jamais comera carne, e que, só agora, na casa da sua patroa, podia finalmente comer uns bifes.

Esta esfomeada rapariga tocara num ponto muito importante, pois o consumo anual de carne em Portugal é, efectivamente, de 15 quilos por pessoa, contra 69 quilos nos Estados Unidos, 61 na Inglaterra, 43 na Alemanha Ocidental. Quanto ao leite, o Português bebe 1 litro por mês, em contraste com 20 a 40 litros nos países menos atrasados.

Tudo isto prova que as proteínas fundamentais são um luxo para as classes pobres e médias. Basta olhar para as populações rurais, para se ver como, em pouco tempo, se tornam num simples saco de ossos; as mulheres, entre os quarenta e os cinquenta anos, envelhecem precocemente, e os homens começam a ficar curvados e com as pernas arqueadas, perdendo ambos os sexos, muito cedo, os dentes. A carência de vitaminas origina magreza, ou pelo excesso de carbo-hidratos, obesidade doentia.

Acertadamente, embora com dolorosa acuidade, o consumo de proteínas em Portugal foi assim descrito: «Um pequeno copo de leite por dia, um bife por semana, três ovos por mês, uma galinha por ano». Considerando que muita gente come três ovos por dia e uma quantidade proporcional de outros alimentos, não é de surpreender que, tal como constatei, haja muitas pessoas, tanto nos meios rurais como na cidade, que nunca comem tais alimentos, excepto em dias de festa. No campo, não comem ovos nem galinhas, pois que, mal dando o seu rendimento para se alimentarem, só vendendo estes pequenos extras conseguem comprar alguma coisa para além das necessidades básicas.

Contudo, o trabalhador Português gasta 67 a 87% do seu rendimento na alimentação, e, por consequência, vive pouco melhor do que um animal. Se fizermos uma comparação com um país semi-socializado do tipo democrático-progressivo, como a Suécia, constatamos que somente 31% do orçamento familiar são consagrados à alimentação. Se tomarmos a França como exemplo, o mais politicamente amadurecido e socialmente progressivo dos países latinos, constatamos que 49% do rendimento é consagrado ao mesmo fim.

SALÁRIOS

Um salário só pode ser avaliado com relação ao seu poder de compra. Assim me recordo claramente das lições de estatística que segui, há mais de cinco anos, quando me matriculei na Universidade Americana de Washington, muito embora não passasse de um curioso, interessado somente em aprender um pouco mais acerca de economia. Um trabalhador americano trabalhava cinquenta horas para comprar uma camisa de algodão, um fato e um par de sapatos, enquanto um trabalhador russo precisava de cinco vezes mais para adquirir as mesmas coisas. Isto diz-nos mais do que qualquer declaração em rublos ou em dólares, que falharia certamente, ao darmos qualquer informação acerca do respectivo poder de compra.

Uma análise similar da situação em Portugal dá-nos resultados alarmantes. É difícil calcular o salário do trabalhador rural, porque é geral o desemprego, mas ascende provavelmente a dois terços da média do trabalhador na indústria, que é de cerca de 24 escudos. Uma comparação do rendimento deste último mostra que, para comprar um quilo de carne, ele tem de trabalhar quase um dia inteiro (6 a 7 horas) em contraste com hora e meia na Inglaterra. Quanto ao leite, um inglês só precisa de trabalhar um quarto de hora para comprar um litro, enquanto o trabalhador Português, que, de qualquer forma, nunca bebe leite, teria de trabalhar quatro vezes mais. Um quilo de batatas, um dos ingredientes do «cavalo verde», dieta típica dos habitantes subalimentados do norte, requer quase uma hora do tempo do trabalhador Português, contra cinco minutos na América. Que pode ele fazer se tiver uma família a alimentar, especialmente porque um quilo de pão, alimento básico em Portugal, não custa menos do que uma hora de salário?

Isto prova que o nível nutritivo do Português é equivalente ao de um Tunisiano ou de um Congolês, como acentua o «New Scientist» de 21 de Julho de 1960. Os salários portugueses, que desceram cerca de um terço entre 1938 e 1958, só podem comprar fome, e por isso, na falta de pão, os únicos luxos possíveis são os equivalentes Salazaristas do circo Romano - futebol, fado e Fátima. (O fado é uma canção nacional melancólica e Fátima é uma localidade onde se supõe que tenha aparecido Nossa Senhora em 1917).

O PROBLEMA DA SAÚDE

Na verdade, o Português nasce em circunstâncias pouco usuais, dado que em muitas aldeias jamais se ouviu falar de parteiras ou de médicos e 50% das mães dão à luz sem assistência.

A taxa de mortalidade durante o primeiro ano de vida é de 88 por mil, contra uma média de 50 por mil em 102 países. Durante o reinado de Salazar a posição com relação à Checoslováquia, Japão e Singapura, por muito estranho que pareça, foi invertida, pois, em 1925, era o dobro da de Portugal enquanto agora é precisamente o contrário («W.H.O.», Relatório das Estatísticas Vitais e Epidemiológicas).

Mesmo que o Português não morra no berço, é-lhe quase impossível conseguir cuidados médicos, uma vez que tem de escolher entre comer e receber tratamento; este é muitas vezes demasiado caro, não deixando outra alternativa além da morte. Em Portugal há apenas 1 médico por cada 1 400 habitantes, contra 1 por 800 na Itália; similarmente, existe uma enfermeira por 3 000 habitantes, contra 1 por 500 nas democracias ocidentais. As consequências são inevitáveis e significam que 58 pessoas em cada 1 000 morrem de tuberculose, contra 5 por 1 000 na Holanda, e que, por cada criança que morre de tosse convulsa na Inglaterra, morrem quatro em Portugal, enquanto a percentagem de sarampo nestes dois países é de 1 para 9.

HABILITAÇÃO E ASSISTÊNCIA PÚBLICA

Suponhamos que um Português consegue sobreviver a tudo isto e que pretende comprar uma casa, para casar. O último recenseamento mostra que, num total de 2 047 398 famílias, 2 592 não tinham acomodações, 10 596 viviam em casas temporárias, 2 583 em habitações impróprias, 193 221 em partes de casa. Dos factos que me foram fornecidos por pessoas que vivem no país, posso assegurar que estas estatísticas oficiais ficam muito aquém da verdade.

Não se pode ler à luz de uma lâmpada nem ouvir o rádio, porque, tal como descobri quando passei um Verão em Cela, não há electricidade, apesar das promessas feitas há uns doze anos. Quando finalmente ia ser instalada, visitei a localidade na minha qualidade de candidato à Presidência, e então o Presidente da Câmara de Alcobaça, sob cuja jurisdição se encontra aquela povoação, informou os pobres desgraçados que ali viviam de que, ao fazerem-me um tão entusiástico acolhimento, tinham perdido o direito àquele luxo. Em 1953, só 1 251 das 3 374 freguesias de Portugal, possuíam electricidade, e, ainda assim, 484 já a tinham em 1935, o que implica portanto um singelo aumento de 42 freguesias por ano.

Quando chega a velho e já não pode trabalhar, o Português sem meios pessoais tem de depender dos filhos, ou, como acontece na maioria dos casos, acaba por viver da caridade, porque a assistência pública e as pensões de velhice só raramente são mais do que simples benefícios teóricos.

A situação respeitante à assistência nacional Portuguesa mostra até que ponto o país precisa de sangue novo e de novas ideias. O Estado, muito embora pague muito menos, tira muito mais ao empregado e ao patrão do que em qualquer outro país Europeu; dos 7% ao empregado e 18% ao patrão, 25% cabe ao Socorro Social, contra 5,3% na Inglaterra, 18,66% na Alemanha e 18% na Espanha.

(...)

Não admira, pois, que, no período 1948/53, a esperança de vida média do Português fosse de 49 anos, contra 71 na Suécia, 69 na Holanda e 68 na Inglaterra.

RENDIMENTO NACIONAL

Depois de apreciar o aspecto individual, gostaria de me dedicar à situação mais geral. O trabalhador não tem direitos. O sindicato não passa de uma pequena engrenagem na roda totalitária. O trabalhador não pode estabelecer qualquer opção e mal se atreve a expor as suas opiniões, não sendo pois de surpreender que somente 40% da produção industrial seja consagrada ao pagamento de salários, deixando os outros 60% para lucros de capital, em contraste com os respectivos 70% e 30% dos países democráticos mais avançados. Em Portugal não existem Keynes nem Marx.

Não é igualmente de espantar que, por causa desta medieval estagnação, o rendimento do país per capita não ultrapasse os 182 dólares, contra 1 453 dólares nos Estados Unidos, 342 na Argentina, 209 na Turquia, e isto apesar da sua grande fonte de matérias-primas nas colónias, as quais são, pelo menos, 23 vezes mais importantes do que as da mãe-pátria.

O Regime de Salazar descrito por Henrique Galvão

domingo, 1 de junho de 2025

Que Alguém os Mate

Entrevista de Xavier Mas de Xaxás (La Vanguardia) a Patricia Evangelista, jornalista, acerca do seu  livro "Alguém que os mate". É nas Filipas mas poderia bem ser em Portugal. O meu discurso populista, as mesmas soluções fáceis para problemas difíceis. O perigo de em democracia se acreditar em salvadores da Pátria que vêm com discursos de ódio. 

"A partir de julho de 2016 e durante seis anos, Patricia Evangelista cobriu a guerra contra a droga nas Filipinas, uma campanha de violência e populismo lançada pelo presidente Rodrigo Duterte para chegar ao poder e consolidá-lo. Até ao momento, mais de 30 mil pessoas foram assassinadas por justiceiros e polícias à paisana, embora o governo só reconheça 6252. Evangelista publica agora Que alguém os mate, um relato arrepiante sobre a violência impiedosa exercida pelo Estado - um testemunho que também revela o perigo que qualquer democracia corre e o enorme valor do jornalismo para a salvar.

Como trabalha?

No início da guerra contra a droga havia mortos todos os dias. Às vezes cinco, outras vezes vinte e cinco. Eu trabalhava para o jornal digital Rappler, em Manila, no turno da noite, com uma equipa de jornalistas e fotógrafos. Corríamos de um crime para outro, alertados pela polícia. Ao chegar, aprendi a ficar imóvel, em silêncio, à espera dos gritos que indicavam onde estavam os familiares. Então, com muita calma e humildade, perguntava-lhes sobre a vítima. Eram perguntas simples e diretas, porque não se pode perguntar como se sentem, nem se quer causar-lhes mais dor do que aquela que já estão a sofrer.

Imagino que os testemunhos ainda ecoam na sua mente.

Não posso nem quero esquecer, mas, ao mesmo tempo, tenho de continuar. E, sempre que a emoção me vence, digo a mim mesma que não sou eu quem está a sofrer, mas sim eles — os sobreviventes.

E sente então culpa, a sensação de os ter traído.

Exatamente. Penso que algo lhes pode acontecer por terem falado comigo. Eu posso entrar e sair do seu mundo, mas eles ficam, e não têm proteção. A maioria das vítimas da guerra contra a droga eram os mais pobres entre os pobres, e tu sabes que não podes ajudá-los. É um remorso que, como tantos jornalistas, ultrapasso com cafeína, nicotina e álcool. Também com a ajuda de outros colegas. O jornalismo é uma comunidade. Há outros repórteres a fazer o mesmo que tu, e apoiamo-nos uns aos outros.

Por que há tantas mulheres jornalistas nas Filipinas? Trabalhou com Maria Ressa, diretora do Rappler, que ganhou o Prémio Nobel da Paz por enfrentar Duterte.

O jornalismo nas Filipinas é feminino. Durante a ditadura dos anos 70 e 80 era mais masculino, mas os homens foram detidos, assassinados ou acabaram por ceder ao governo. As melhores histórias começaram a ser escritas pelas mulheres que trabalhavam nas secções de moda, estilo, e que mesmo assim entrevistavam dissidentes e denunciavam a corrupção e a violência do sistema.

É importante a sensibilidade feminina perante o trauma?

As mulheres sabemos o que sente uma filha, o medo e a responsabilidade que cai sobre ela ou sobre o irmão mais velho ao ver que os pais foram assassinados. As vítimas tendem a sentir-se mais à vontade com uma jornalista mulher. Sou sincera com elas e não lhes dou conselhos.

Acredita que o jornalismo ajuda a mudar as coisas?

Se acreditasse que o que escrevo ajuda a evitar mais crimes, sentiria um fracasso tão grande que já teria desistido há muito tempo. O jornalismo não ajuda a mudar nada.

A culpa: “Ultrapasso remorsos com cafeína, nicotina e álcool, como tantos jornalistas.”


Escrevo para registar o que aconteceu, e faço-o da forma mais honesta e precisa possível, para honrar as pessoas que me deram a informação. E, embora não sirva para mudar as coisas, é útil para preservar a memória.

E para preservar a dignidade das vítimas.

Duterte passou seis anos a dizer que as pessoas assassinadas por alegadas ligações ao narcotráfico e ao consumo de droga não eram humanas. E os familiares dos mortos tiveram de lutar muito para provar que eram. O jornalismo ajudou a deixar isso claro.

Duterte está agora numa cela do Tribunal Penal Internacional, em Haia.

Sim. As vítimas estão contentes, mas não totalmente, porque ainda há assassinos à solta.

O presidente Ferdinand Marcos entregou-o depois de se desentender com a sua filha, a vice-presidente Sara Duterte.

Sim, a política é muito turva. Esta semana houve eleições e, desde a sua cela em Haia, Rodrigo Duterte venceu as autárquicas em Davao. Ronald “Bato” dela Rosa, o arquiteto da guerra contra a droga, foi eleito senador. O povo considera que estas pessoas, mesmo acusadas de crimes contra a humanidade, merecem estar no poder.

A democracia não está no seu melhor momento.

Nas Filipinas sofremos o terror nas mãos de um autocrata democrata - e isto pode acontecer em qualquer democracia. Veja os Estados Unidos. A política reduziu-se a um homem carismático com uma história para contar a um povo que precisa de acreditar. Somos muito vulneráveis.

A droga não era um problema tão grave nas Filipinas quando Duterte fez campanha com a promessa de eliminar traficantes e consumidores.

Todo autocrata precisa de um inimigo. Com a sua narrativa, Duterte tocou em todos os medos e queixas dos filipinos nas últimas décadas: o fracasso das instituições e do Estado social, a corrupção e a pobreza extrema. E disse que tudo se devia às drogas, e que ele mataria para nos proteger desse mal. Votamos em narrativas, ou seja, em personagens imaginários. Foi assim que Duterte esmagou nas urnas e é por isso que a sua filha pode vir a ser presidente.

Como desmontar as narrativas dos autocratas?

Informando no terreno, a partir da rua, registando o que acontece.

Xavier Mas de Xaxás | La Vanguardia (28 de Maio de 2025) 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

"Ao Menos no Tempo de Salazar Não Havia Corrupção"

 

De vez em quando lá me vem alguém com o mito: "ao menos no tempo de Salazar não havia corrupção". Não sei se é ingenuidade, se é o poder na negação (agora chamado de negacionismo) ou se é mesmo burrice. E para que, da próxima vez que me vierem com essa tanga de que no tempo da ditadura fascista-católica, que apesar das pessoas não terem liberdade, serem presas e mortas arbitrariamente, mas que, ao menos, era tudo gente muito séria, aqui deixo o testemunho do historiador Fernando Rosas na revista Sábado de 18 Novembro de 2020:


"Os pedidos de cunhas e de empregos ao Presidente do Conselho

Os pobres pediam-lhe dinheiro, mas as elites (médicos, engenheiros, deputados, juízes, militares, empresários, padres e condes) queriam colocações em bancos, aumentos, cargos e comendas. Durante 36 anos, o ditador acedeu a centenas de cunhas".


!Acarta, datada de 16 de junho de 1960, começava de forma pungente: “Já não é a primeira vez que, em desespero de causa, recorro à bondade de Vossa Excelência.” Maria do Céu Taborda Barreto escrevia a Oliveira Salazar a partir da rua das Pedrinhas, em Vila Real. Mãe de sete filhos, “todos rapazes, que vão dos 5 aos 20 anos”, lamentava-se que as contas domésticas tinham mais despesas do que receitas. Estas resumiam-se ao ordenado do marido – 5.700 escudos (€2.140, usando os coeficientes de desvalorização da moeda), como engenheiro e diretor de Urbanização de Vila Real – e a “uma quintinha no Douro, que tão depressa dá 12 pipas, como dá 20”.

O Caso do Acidente

Mathilde Bornhöft (viúva alemã a viver em Portugal havia 30 anos) teve um desastre com vítimas em 1951, foi presa e teve de pagar caução de 20 contos. Em 1953 o juiz absolveu-a de culpa, foi “mandada em paz”, mas não conseguia reaver a caução, que terá sido roubada num desfalque que houve no tribunal do Torel. Dizia que precisava do dinheiro para manter a sua empresa familiar. O caso resolveu-se em menos de uma semana".





O governo de Salazar além de representar a fome, a repressão e a morte, representou também o caciquismo, o favor, a cunha, o compadrio, a corrupção, tanto a pequenina, envergonhada como a corrupção ao mais alto nível, Que se acabe pois, de uma vez por todas, com este mito e esta enorme mentira. 



sexta-feira, 29 de abril de 2022

Tenho Que Saber Quando Acaba a Guerra



Tenho que saber

quando acaba a guerra

quero plantar flores

em toda a terra


p'ra que o homem

viva sem dor

amando seu igual

em tempo de amor


tenho que saber...

p'ra preparar a terra

é preciso toda a gente

p'ra fazer frente à guerra


a guerra não será geena

o amor não será léria

a vida será poema

quando acabar a guerra


vem comigo meu irmão

vamos fazer frente à guerra

vem e dá-me a tua mão

p'ra que haja amor na terra


tenho que saber quando acaba a guerra

(...)

eu sei!

quando os vampiros deixarem a terra


Na Minha Ditadura Poemas - Manuel António (1977)

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O Paraíso Que Era Portugal nos Anos 60

Por estes dias andei a separar um montão de tralhas para deitar ao lixo, desde toda uma sérias de capas ainda do tempo da escola, bem como o primeiro computador (que me custou 250 contos!) e toda uma série de tralhas que já não faz sentido estar estar guardadas, apesar de eu ainda ter espaço (até porque estou solteiro e não tenho filhos) mas é preciso que nos livremos de um monte de tralha desnecessária, para que outras tralhas ocupem o seu lugar.

Foram horas e horas a passar os olhos por muita tralha antiga, até que cheguei a um monte de revistas, a maioria de Heavy Metal que fui colecionando ao longo dos anos e que, definitivamente, não irão para o lixo, mas encontrei também outros tipos de revistar, mormente Notícias Magazine, dos tempos em que comprava, quase religiosamente, todos os domingos, o Jornal de Notícias. Mas porque há hábitos que se perdem, há muitos anos que deixei de comprar, quer revistas ou jornais de quaisquer espécie.

Um número em particular da Notícias Magazine chamou-me a atenção. A capa do  #832 de Maio de 2008 sobre os quarenta anos do Maio de 68 fez-me pegar e abrir a revista. No meio de várias reportagens interessantes, como, por exemplo, o feminismo em Portugal, as "Três Marias", as drogas, o rock, os equipamentos eletrónicos dos anos sessenta, até que passo por uma entrevista com Jacinto Godinho, vencedor do Grande Prémio Gazeta 2006 pelo documentário da RTP "Ei-los que partem - Uma história da Emigração Portuguesa".

E as imagens dos portugueses nos arredores de Paris, em bairros de lata, fotografados por Gérald Bloncourt chocam, e levam a questionar, mas que raio de boa vida se levaria no Portugal fascista de Salazar para ser preferível ir viver para outro país naquelas condições?

"Foi uma consequência da crise do modelo económico do Estado Novo. Por variadíssimas razões, os campos ficaram esgotados, não tivemos a capacidade de basear a nossa produção industrial apenas nas matérias primas nacionais. A mecanização tardia nos campos, nos anos cinquenta, introduziu mais uma crise neste modelo, voltando a produzir muitos desempregados: a industrialização absorveu parte da mão-de-obra mas não a absorveu toda. França porquê? Porque a América estava fechada. E no Brasil praticamente tinha deixado de existir trabalho para mão-de-obra barata. 

Porque é que as pessoas emigravam na década de sessenta? 

A guerra foi um fator, mas o motivo principal que levava as pessoas a saírem do país era a falta de emprego. A agricultura ocupava muita gente e quando a mecanização chegou aos campos, com a introdução das ceifeiras, a partir dos anos cinquenta e muito fortemente na década de sessenta, deixou de haver trabalho". 



Aos poucos querem apagar e reescrever uma história passada. Branqueador o nosso ditador, que, afinal, nem matou tantas pessoas como os outros. Se calhar até era fofifnho. Se calhar nunca vivemos tão bem como no tempo de Salazar. Se calhar, o que precisávamos, hoje, a meio dos anos vinte do terceiro milénio é de outro Salazar! 

Não! Vivemos 48 anos de obscurantismo, de repressão, fome, miséria e de morte. De prisões e mortes arbitrárias. De um atraso descomunal. A vida era tão difícil que os portugueses arriscavam um ano de cadeia a tentar emigrar ilegalmente. E só na década de sessenta, nos últimos anos governados pelo ditador, cerca de um milhão de portugueses emigrou, principalmente para França. 

Não precisamos de outro Salazar. Precisamos é de aprender alguma coisa com a História. 

# Quem Foram os Responsáveis pela Ditadura em Portugal?

domingo, 8 de agosto de 2021

Ironias de um País Ingrato que Não Merece os Seus Heróis


Se há algo que a História nos tem ensinado é que não aprendemos nada com a História.  

Otelo Saraiva de Carvalho, arquiteto do 25 de Abril, morreu a 25 de Julho. António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que são primeiro-ministro e presidente da república graças a Otelo ter derrubado a ditadura, acharam por bem que acabar com 48 anos de ditadura não era feito suficiente para o militar de Abril merecer o dia de luto nacional. 

Só que, se olharmos para trás, parece que tudo merece dia de luto nacional: cantar o fado mereceu dia de luto a Amália. Jogar à bola mereceu dia de luto nacional a Eusébio. Até uma religiosa mentirosa compulsiva, sim, um país laico meteu-se nesses assuntos da religião, e achou por bem conceder-lhe dia de luto nacional! Já o fazedor do 25 de  Abril não teve direito à homenagem de um mísero dia de luto nacional para lembrar a memória do seu feito.

Ah, mas ó Konigvs, tens de compreender que ele foi uma figura polémica...

Claro que compreendo. Otelo manteve-se sempre fiel aos princípios que levaram os militares a fazer o 25 de Abril. Devolver o poder ao povo, construir um país socialista, fazer a reforma agrária. Compreendo também que o grande mal de Otelo foi lutar pelo seu sonho e não arranjar um tacho num qualquer partido, e teria sido tão fácil ir para qualquer um deles, até porque, se calhar, foi convidado por quase todos. E certamente que se estivesse filiado no PS ou PSD, aí sim, certamente teria sempre direito ao seu diazinho de luto nacional, porque afinal foi o herói de Abril! Mas Otelo teve o descaramento de não se deixar corromper e a política tem sempre muito medo de pessoas com coluna vertebral. 

Diz-se que Otelo foi polémico. Se calhar foi, polémico principalmente para todos aqueles, que não são poucos, e que odeiam o 25 de Abril e os cravos vermelhos.

Mas se Otelo foi "polémico", o que dizer então da figura do terrorista Spínola? Spínola tudo fez, depois do 25 de Abril, para instalar uma nova ditadura de extrema-direita. Spínola liderou em 1975 um movimento terrorista, o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), que andou a colocar bombas em sedes do partido comunista (e socialista), que mataram diversas pessoas, incluindo o famoso padre Max e Maria de Lurdes e tantos anos volvidos ninguém foi responsabilizado. 


Mas ser um terrorista e ter a ousadia de querer, de novo, instalar uma ditadura fascista em Portugal, não foi polémico o suficiente para negar a Spínola o direito de ter também o seu diazinho de luto nacional. Otelo é que foi polémico por se manter fiel aos princípios do 25 de Abril.

Fez-se o 25 de  Abril, mas rapidamente meteu-se essa ideia romântica de devolver o poder ao povo na gaveta. O povo rapidamente ficou a chuchar no dedo e o dinheiro novamente começou a ser desviado do esforço de todos, para o bolso de alguns, muito poucos, ficarem com o dinheiro todo. 

Cavaco Silva, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da república, que nos tempo do fascismo foi dar o nome de bom comportamento à PIDE, também negou a pensão a Salgueiro Maia, outro herói do 25 de Abril (que também não teve direito a dia de luto nacional) enquanto a concedia a dois ex-PIDE pelos "altos serviços prestados". 

Mas depois há coisas, de facto, muito irónicas. Faz-se o 25 de Abril, acabou-se com 48 anos de ditadura, inscreveu-se na Constituição que os partidos fascistas são proibidos, mas o Tribunal Constitucional não viu nada de errado com o racista, homofóbico e xenófobo partido Chega. Nem viram nada de errado na entrega de milhares de assinaturas falsas para fundar o partido, processo que ainda está a ser investigado pelo Ministério Públiico. Nem ninguém viu nada de errado com a lista que permitiu a Ventura ser eleito deputado e que não cumpria os critérios.

E, ironia das ironias. Dias depois da morte de Otelo Saraiva de Carvalho, ficamos a saber que, pela primeira vez, na recente história da democracia portuguesa, um bombista terrorista de extrema-direita do MDLP vai sentar o cu na suposta casa da democracia, eleito por um partido ilegal. Um bombista terrorista de extrema-direita vai substituir um deputado racista eleito por um partido ilegal. 

Otelo (e os militares) acabaram com a ditadura salazarista devolvendo-nos a liberdade, mas nunca devemos tomar a Liberdade por garantida. E a mim revolta-me ver este estado de coisas. Revolta-me ver um país ingrato com quem nos libertou dum jugo de repressão, de fome e de morte. E revolta-me que, apesar de teros tido quarenta e oito anos de ditadura repressiva, apareça um partido fascista ilegal, que os juízes do Tribunal Constitucional simplesmente não viram nada de errado, e que tenha levado 500 mil portugueses a votar no seu líder racista, homofóbico, xenófobo e fanático religioso nas últimas presidenciais. 

 São tudo sinais a que deveríamos estar muito atentos, porque, como se sabe, "quem adormece em democracia, acorda em ditadura".

# Spínola e Os Ataques À Bomba Patrocinados pela Igreja Católica em 1975

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Quem Foram os Responsáveis pela Ditadura em Portugal?



Antecedentes do 28 de Maio

"A República, com a generosidade que caracteriza todos os regimes democráticos, consentiu aos vencidos de 1910 (os monárquicos e a igreja reaccionária), as mesmas liberdades que aos vencedores, e agravando o erro, descurando a vigilância de tais elementos, politicamente retrógrados, socialmente parasitários - mas economicamente dominantes.
Ressentidos da derrota mas não convencidos, os monárquicos dão aguerridamente a face Tentam a ação revoluionária. Estimulam e provocam atos reivindicativos. Usam a Imprensa como arma que acutila, fere, penetra o campo adversário e aí aumenta a divisão que foi nota dominante, mal extinta ainda a madrugada festiva que viu elevar aos mastros a bandeira verde-rubra.

O Golpe Final e... Salazar!

O governo dominado de facto por uma maioria reaccionária não responde nem às interogaçoes nem às solicitações do Povo. Sente que o Exército ganhou, e apronta-se para desferir o derradeiro golpe nas esperanças dos democratas. O obstáculo maior e imediato é Mendes Cabeçadas. A um homem de tal envergadura, e que conta com o apoio popular, há que opor outro outro homem de envergadura idêntica e que conte com o apoio do Exército. Estas condições não as reúne Carmona, a carta oculta na manga dos reaccionários - mas que não pode ainda ser jogada. Faltam-lhe todas as estaturas. O seu valor está em se ter prestado a ser joguete nas mãos dos mentores da Revolução - a Igreja reaccionária e os monárquicos. Opta-se por isso por Gomes da Costa. O general presta-se a ser ator... e o cenário começa a preparar-se (...)

É este ambiente com que Salazar se depara quando chega ao comando Geral da GNR. Pede a Mendes Cabeçadas para conversarem em particular e este acede. Não se sabe o que foi dito no curto diálogo que marcou a entrevista, mas no termo dela, o capitão-de-mar-e-guerra José Mendes Cabeçadas Júnior anunciava a sua demissão. Eram 16 horas e 20 minutos do dia 17 de Junho (...)

A 18, o jornal A BATALHA retoma a ideia da greve geral anteriormente exposta num suplemento apreendido, e a União Anarquista Portuguesa solidariza-se com a CGT afirmando:

Há 15 dias que se vem enganando audaciosamente o Povo Português. Porém, agora, a máscara que escondia a face hedionda da ditadura acaba de cair por terra. Quais são os seus propósitos? Ei-los!
Liberdade religiosa e capacidade jurídica da Igreja - ou seja: a livre expansão das manifestações do catolicismo intolerante, com a mordaça para que os que possuam ideais contrários. 

... E nasce a PIDE

O golpe de Estado que conduziu Carmona à chefia da Ditadura deu origem a que aumentassem as manifestações de desagrado popular, às quais o Governo respondeu com o aumento da violência, que estimulou com a criação das medalhas de Segurança Pública destinadas a premiar os serviços prestados em defesa da vida, dos haveres ou da propriedade dos cidadãos. 
Não se sentindo ainda suficientemente forte para decretar a censura à Imprensa, mas necessitando impô-la, a Ditadura faz publicar o Decreto nº 12 008, de 29 de Julho de 1926 o qual, começando por aceitar que é lícito manifestar livremente o pensamento por meio da Imprensa (artigo 1.º), acaba por limitar esse mesmo direito, ao sujeitar a prisão correccional e multa aos autores dos escritos e desenhos que contenham injúria, difamação ou ameaça contra o presidente da República, (...) ou que aconselhem, instiguem ou provoquem os cidadãos portugueses a faltarem ao cumprimento dos seus deveres militares, ou ao cometimento de atos atentatórios da integridade e independência da Pátria, ou contenha boato ou informações capazes de alarmar o espírito público ou de causar prejuízo ao Estado, ou que contenham afirmação ofensiva da dignidade ou do decoro nacional (artigo 10.º).

(...) Fosse porque tomasse conhecimento desta aliança, ou fosse pela sensação de insegurança que é comum a todos os regimes usurpadores, o certo é que o Governo criou uma polícia política que mais tarde viria a denominar-se PIDE, mas que no seu primeiro batismo recebeu o nome de Polícia Especial. Dependia esta Polícia do Governo Civil de Lisboa, e o seu quadro era composto por um diretor; dois adjuntos; um secretário; dois amanuenses e um chefe - além dos agentes efetivos e auxiliares que fossem considerados necessários.