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domingo, 6 de outubro de 2024

Gostava Tanto que Tu Existisses

"Gostava tanto que Deus existisse
Como havia de ser diferente
Pior ou melhor não sei
Se o visse caminhando, humano
Entre a gente que vai para o trabalho de madrugada
Tão pobre, suburbana
Gente triste como ela só
E tão desamparada que sofre
Sofre tanto mas resiste
E regressa a casa noite fechada
Sem tempo para os filhos
O amor, nada, nada, semana após semana
Gente humilhada, gente perseguida
E deles ausente, seja onde for, todo mês, todo o ano, toda a vida


Gostava tanto que Deus existisse
Como eu havia de ser diferente
Pior ou melhor não sei
Se o visse na manhã de neblina persistente
A apanhar conchinhas brancas na praia
Como quem apanha nuvens no céu
Seria menina e teria saia, azul, curta, talvez de chita
Eu, procuraria ajudá-la a encontrar a conchinha mais bonita
Depois de ver a espuma das ondas
E o ar a bailar como grandes bailarinos
E seríamos felizes os dois
Pois ficaríamos sempre meninos
Porque Deus, se existisse, era o azul mais azul...

A infância que não acaba
Era pai, colo, primavera,
Mil vezes raiar a mesma madrugada
E no desespero do fim da tarde
Havia de aspergir sobre nós
O seu olhar de infinita bondade
O calor do gesto, o cristal da voz
Tudo, tudo, outra vez seria novo
E terno mesmo só por um minuto
Água de lume mais rosa do povo
Voz, viagem, Penélope, Ulisses
São de piano, flauta, fruto
Gostava tanto que tu existisses


"Três Sonetos de Deus Ausente" | José Carlos de Vasconcelos | livro Repórter do Coração
(transcrito da entrevista ao programa "A Força das Coisas" da Antena2)

sábado, 6 de julho de 2024

Talvez Preferisses


A lo mejor preferirías pagar facturas en vez de
Cocinar salmón sobre piedras ardiendo al lado de una cascada 
Preferirías ir al bar de siempre a ver amigas
Nuevas y antiguas
Que en una panadería te saluden
Y no pagarle a alguien en Bali para que un mono amaestrado
Coja tu móvil
Y simule que hace contigo un sel fie /
Porque si no sabes quién eres
Cuando paseas por tu ciudad
Siento destriparte la historia:
Tampoco lo sabrás en Indonesia
Y no pasa nada,
Pero mejor no te gastes 3.000 euros

Poema Hit / Pol Guasch


domingo, 13 de agosto de 2023

O Amor Para Sempre é o Amor Impossível


"A 8 de março de 1933, o poeta Pedro Salinas escreveu uma carta manuscrita dirigida à sua amante, Katherine Whitmore, que constituiu um dos monumentos literários ao amor mais desconhecidos e melhores expressos, do século XX. Não é à toa que Salinas ficou conhecido, na geração de 27, como o “poeta do amor”; não é também à toa que os seus melhores trabalhos, que se acreditava serem dirigidos a Margarita Bonmatí, sua esposa, foram na verdade dirigidos a Whitmore, com quem viveu um amor apaixonado e febril durante 15 anos em que mal se viram.

“Eu continuo a falar, tenho que continuar a falar das tuas cartas. Elas possuem-me, estão presentes em mim, sou impedido pelo que me impede de pensar nelas. Vejo, entre sonhos, minhas linhas verdes, sobre o azul listrado em dois tons. (Aquela faixa azul que parece luz de verão filtrada por uma persiana)” é o início da carta.


Em 2002 foi publicado um livro surpreendente: Salinas's Correspondence with Whitmore: Letters to Katherine Whitmore. O epistolário secreto do grande poeta do amor. Surpreendente por vários motivos, desde logo porque Withmore sempre foi escrupulosamente discreto sobre o relacionamento (tão secreto que quase ninguém sabia, e quando Margarita Bonmatí, esposa do poeta soube, tentou o suicídio), e só permitiu a sua publicação quando ele morreu (foi cedido  à Universidade de Harvard em 1999 por instruções de Whitmore, que morreu 15 anos antes). Surpreendente também, porque naquelas cartas de Salinas há uma exibição absoluta da sua intimidade que é avassaladora. Referimo-nos ao autor de La voz a ti due (1933) e Razón de amor (1936), dois poemas universais escritos na febre dos seus sentimentos por Withmore; portanto, cartas particulares também escritas na época em que deixou essas obras.

Após a tentativa de suicídio da esposa de Salinas, Katherine Whitemore tentou romper o relacionamento. O casal Salinas-Bonmatí viveu nos Estados Unidos durante o exílio. Na verdade, eles viram-se sobretudo nos primeiros meses que ela passou em Madrid. Houve muito poucos encontros nos 13 anos seguintes, embora tenham deixado uma enorme correspondência. Foi um amor antes do amor, platónico e desenfreado, que, ao não se consumar, ajudou Salinas a escrever sobre ele de uma forma que ele não poderia ter escrito. A musa no seu melhor. "A vida realizada, a vida de facto e a vida desejada, a vida na esperança, são duas áreas diferentes, tragicamente separadas."


Histórias de Amor 2 / Publicado no jornal El País a 9 de Agosto de 2023


Eu tendo a concordar que o único amor para sempre é o que não é vivido, é aquele que não possui, é o que quer mas mas que, por algum motivo não pode ter. É o amor que sobrevive à rotina, às toalhas pelo chão, às dores de cabeça, ao cansaço da lida doméstica... Mas também porque, como dizia Oscar Wilde: "Cada pessoa acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente"...

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Quando Você For Embora Me Leve

 


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Tenho Que Saber Quando Acaba a Guerra



Tenho que saber

quando acaba a guerra

quero plantar flores

em toda a terra


p'ra que o homem

viva sem dor

amando seu igual

em tempo de amor


tenho que saber...

p'ra preparar a terra

é preciso toda a gente

p'ra fazer frente à guerra


a guerra não será geena

o amor não será léria

a vida será poema

quando acabar a guerra


vem comigo meu irmão

vamos fazer frente à guerra

vem e dá-me a tua mão

p'ra que haja amor na terra


tenho que saber quando acaba a guerra

(...)

eu sei!

quando os vampiros deixarem a terra


Na Minha Ditadura Poemas - Manuel António (1977)

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O sol nasceu, A casa está vazia e Amanhã é dia dos Namorados.

 

... Pareces tão real, ainda mais real 
que as ondas desse mar sempre tão cúmplice
durante as poucas horas absorvidas
entre um bar sem ninguém e o silêncio
dentro do carro, ali onde abrigámos
a nossa mágoa, a sós, fora do mundo,
e o peso gelado de um remorso
até explodir, baixinho, sob um véu de lágrimas
nos teus e nos meus olhos. Não adianta,
a vida sabe sempre acontecer
quando menos esperamos, em segredo,
e eu regresso a ti, num arrepio sem glória,
mas tão preso ao destino que nos coube,
à música do cosmos antes de nascer,
enquanto alguém dedilha num piano
os acordes febris que estilhaçam a noite
e escorrem pouco a pouco dos meus lábios
como a baba de um anjo alucinado
que só por tua causa enfim reconhecesse
o rosto mais fiel do paraíso.

Estou mais tranquilo, agora, sei que dormes
algures nesta cidade venenosa:
consigo mesmo ouvir daqui a tua
respiração submersa,
tão perto de outro corpo e já tão dentro
da minha alma. O sol nasceu,
a casa está vazia e amanhã
é dia dos namorados.


My Funny Valentine / Fernando Pinto do Amaral 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

domingo, 26 de julho de 2020

domingo, 12 de julho de 2020

As Melhores Pessoas São Esquisitas



" As melhores pessoas são esquisitas -
Eu digo e repito na boa!

Quem é bonito e normal demais,
Está fingindo.
Quem é inteligente,
Ama as pessoas esquisitas à sua volta.

Elas são as respostas e a revolta
Que a gente precisa. "

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Só Nesta Caverna Encontro Abrigo


"Aquele, a quem mil bens outorga o Fado,
Desejo com razão da vida amigo
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado:

Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque não busco as sombras do jazigo,
Refúgio perdurável, e sagrado?

Ah! bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as prisões da humanidade,
Despe o vil manto, que pertence ao nada!

Mas eu tremo!...Que escuto?...É a Verdade,
É ela, é ela que do céu me brada:
Oh terrível pregão da eternidade!"


terça-feira, 23 de abril de 2019

Tenho Amor Verde em Botão



... Mas no meu coração
Para um dia tu colheres
Tenho amor verde em botão.


Flores para Sylvia - Carlos Lança - 1982

domingo, 7 de abril de 2019

Teatro: Odeio este Tempo Detergente


Já tinha ouvido falar da peça na rádio. Ana Nave apresentava em palco a poesia de Ruy Belo, interpretada por si e por Maria João Luís, acompanhadas musicalmente por José Peixoto que reconhecemos, por exemplo, dos Madredeus. 

Eu nunca li Ruy Belo, quase não leio poesia, não sei se iria gostar da poesia de Ruy Belo. Bom, mas certamente que iria gostar da Ana Nave. Há pessoas de quem os nossos olhos gostam muito de olhar. E a Ana Nave é uma pessoa que os meus olhos gostam mesmo muito de olhar e os ouvidos de ouvir. 

Em boa verdade eu não vou ao teatro e ficava sempre bem acrescentar que não sei bem porquê. Mas na verdade até sei. Eu não vou ao teatro porque nunca fui habituado a ir. Nunca me convidam a ir, não me relaciono com pessoas que tenham por hábito ir; não me relaciono com pessoas que me digam que foram ver determinada peça e que me aconselham a ir ver.

Mal soube que a peça ia estar no Teatro Constantino Nery em Matosinhos, fiquei inclinado a ir. Comentei com uma amiga que vive nessa cidade, e estava tudo acertado para irmos juntos ver esta peça. Mas, à última hora, por questões pessoais, ela não pôde ir.

E ainda bem que foi à última hora, pois já eu tinha estacionado a trezentos metros do teatro. Se me tivesse dito com muitas horas de antecedência, eu poderia ter encontrado aqui uma desculpa para ter ficado em casa, afinal, quem é que vai ao teatro sozinho? 

Fiquei no carro a ler enquanto esperava que a chuva parasse e fui comprar o bilhete. Dias antes tinha telefonado e a senhora que simpaticamente me devolveu a chamada, disse-me que, para duas pessoas, no próprio dia arranjava bilhetes, e que se viesse um pouco mais cedo, até arranjava melhores lugares. Fiquei na terceira fila, a meio, muito bem situado, a poucos metros do palco. 

Antes do teatro fui jantar. Imensos restaurantes por aquelas ruas de Matosinhos junto ao Porto de Leixões e o Rio Leça. Entrei, sim, é uma mesa só para mim, e escolhi um bife. Saquei do livro que ando a ler e coloquei-o em cima da mesa. É sempre bom aproveitar estes tempos mortos para adiantar umas páginas. O bife estava bom, mas achei que havia bife demais e batatas a murro e verduras de menos. Come-se demais. Come-se carne demais. 

E lá fui para o teatro. Perguntei ao segurança onde era a casa de banho. Subi ao primeiro piso. Quando saía entrava um senhor, alto, forte, de grandes barbas brancas. O rosto fez-me lembrar o Alfred Molina no filme Fridha Kahlo. Desci e encostei-me a um canto. À minha frente um casal. Ela tinha uns sapatos um tanto ao quanto góticos. Quando subi os olhos vi que o estilo condizia com a argola que tinha no nariz. 

As portas abriram-se. Procurei o meu lugar e sentei-me. A sala estava quente. Tirei o casaco e dobrei-o por cima das pernas. No palco de um chão preto, estava disposta do lado direito uma mesa com um computador portátil e uma cadeira, na frente dum ecrã onde se projetavam imagens, e do lado esquerdo do palco, sozinhos, estavam dois pares de sapatos.... à espera que as atrizes entrassem em cena para os virem calçar.

"Odeio este tempo detergente" é um espetáculo de sessenta minutos, com duas atrizes e um músico reconhecidos, e que custa menos que um bife na brasa. E se calhar deveríamos todos ir mais vezes ao teatro. Ali não são precisos óculos porque ali tudo é tridimensional, real e genuíno. Nem há pipocas, nem gente a falar e a olhar para o telemóvel. E no fim há aplausos e as atrizes curvam-se perante o público.

(e não deixa de ser absurdo que o Estado cobre mais do dobro do IVA por uma ida ao teatro que por uma tourada)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Oh Não se Mate


Via Pinterest


Não se mate

Carlos, sossegue, o amor 
é isso que você está vendo: 
hoje beija, amanhã não beija, 
depois de amanhã é domingo 
e segunda-feira ninguém sabe 
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate

sábado, 7 de julho de 2018

Porque Não Tinha que Ser

Se eu morrer novo, 
Sem poder publicar livro nenhum, 
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, 
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, 
Que não se ralem. 
Se assim aconteceu, assim está certo. 

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, 
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. 
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, 
Porque as raízes podem estar debaixo da terra 
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. 
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. 

Se eu morrer muito novo, oiçam isto: 
Nunca fui senão uma criança que brincava. 
Fui gentio como o sol e a água, 
De uma religião universal que só os homens não têm. 
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, 
Nem procurei achar nada, 
Nem achei que houvesse mais explicação 
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. 

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — 
Ao sol quando havia sol 
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), 
Sentir calor e frio e vento, 
E não ir mais longe. 

Uma vez amei, julguei que me amariam, 
Mas não fui amado. 
Não fui amado pela única grande razão — 
Porque não tinha que ser. 

Consolei-me voltando ao sol e à chuva, 
E sentando-me outra vez à porta de casa. 
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados 
Como para os que o não são. 
Sentir é estar distraído.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Natal, Up-to-Date


Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
Que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
Enquanto não se sabe ao certo o resultado
Dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero

E é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado

Onde se vende pão já transformado em cinza
Para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
Que a meia-noite vós nem se demora um pouco

Só Jesus no entanto é que não aparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão Ferreira / 1969

domingo, 5 de novembro de 2017

Para Ti Meu Amor



Poema de amor, escrito por Mário Soares a Maria Barroso em 1962, quando se encontrava detido na prisão do Aljube.