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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Porque é que Não se Ama Quem Não Ouve a mesma Canção?



"Contigo aprendi uma grande lição 
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção"

Carlos Tê, no último programa "Fala com Ela" da Antena 1 explica estes versos que escreveu para a música de Rui Veloso "Anel de Rubi": 

"Eu quando escrevi essa canção estava-me a pôr na pele de quem tem quinze anos em 1968. Alguém que em 1989 se estava a pôr na pele de alguém m 1968 num outro quadro mental e saiu-me aquilo assim. 

Claro que eu também tenho um bocado dessa pessoa mas, sempre tive essa noção de que, obviamente, isso é uma cena muito a preto e branco, não é?, mas, em 1968-70, as coisas estavam tão extremadas que se podia dizer quem estava do nosso lado e que não estava só pela roupa que vestia. só pela música que ouvia. Hoje isso já não acontece, já nos anos noventa não acontecia... as coisas mudaram tanto. Mas, nos anos sessenta, era  exatamente assim. Havia em "eles" e um "nós". Nós, os que éramos os bons, que estávamos pelos lados das mudanças, que queríamos a revolução sexual, que usávamos a cor certa, que ouvíamos a música certa, o cabelo certo... E os outros eram os caretas. Tão simples quanto isto. E havia essa divisão e querer, de algum modo misturar os dois mundos era quase impossível. E ao nível do amor isso era muito claro". 

É muito curioso como eu acho que, nos tempos atuais, de novos desafios com a subida ao poder da extrema-direita populista nos Estados Unidos, Itália e Brasil e a tornarem-se relevantes em França, Itália, Espanha, e, pasme-se, até em Portugal, e com os recentes movimentos "negacionistas", muitos deles financiados por grandes magnatas de extrema-direita, e com todas estas clivagens políticas, acho mesmo que estamos precisamente a voltar ao tempo dos anos 68-70, um tempo, como Carlos Tê refere, do" nós" e do "deles". "Nós" que defendemos o ambiente, os direitos das minorias, a democracia, e "eles", o inimigo, que defende voltarmos a um tempo não muito distante de obscurantismo, de guetos para minorias raciais, do regresso da pena de morte e da tortura, de prisões políticas e expatriamentos. 

Ainda assim, e graças à aberrante globalização, hoje é muito mais difícil olhar e separar as águas. Se antigamente um nazi rapava o cabelo e usava botas de combate, hoje, o mesmo indivíduo com ideias nazis, pode ser o teu vizinho, que veste camisinha ou polo Lacoste e pullover pelas costas, com cabelinho à foda-se e, aparentemente, ser aquele indivíduo bonitinho ideal para se levar lá a casa a conhecer os pais. 

Como várias vezes costumo repetir (frase de Bernard Shaw) a História ensina-nos que não aprendemos nada com a história. E se é verdade que não são fáceis estes tempos, ainda assim, e porque são insondáveis os mistérios do amor, acho perfeitamente possível que nos possamos encantar ou criar empatia por quem, à partida, qualquer pessoa vendo de fora acharia impossível de acontecer. 

Mas entristece-me ler determinadas coisas na internet como "eu simplesmente não me dou com pessoas diferentes de mim ou que não pensam como eu". Toda esta loucura irracional está a levar que pessoas outrora veneradas, artistas respeitados por toda a gente, como, por exemplo, Chico Buarque ou Caetano Veloso,  de repente, passaram a ser censurados ou, como agora se diz "cancelados". 

Mas, se até Wilhelm Hosenfeld, um oficial alemão nazi, ajudou a salvar a vida do pianista polaco e judeu Wladyslaw Szpilman (ver filme: O pianista de 2002)  porque é que duas pessoas que pensam diferente não podem encontrar pontos comuns? Porque raio é que não podemos amar quem vota num partido diferente do nosso?

domingo, 6 de setembro de 2020

The Inside Job - A Verdade da Crise

Dizem-nos que esta pandemia é a pior crise que há memória, ainda assim eu não tenho visto bancos e seguradoras a falir, ou gestores a suicidarem-se. E agora que passam doze anos da crise de 2008 do subprime americano, achei por bem relembrar como tudo aconteceu e ver o documentário "The Inside Job (A verdade da crise) que venceu o Óscar de melhor documentário em 2011. Como dizem que a memória coletiva só dura dez anos, se calhar convinha a muita gente ver ou rever para se lembrar do que foi esta crise, quem a provocou e de como continua basicamente tudo na mesma. Um filme que recomendo vivamente.

"Em Setembro de 2008, a falencia do banco de investimento dos EUA Lehman Brothers e o colapso da maior companhia de seguros do mundo, a AIG desencadearam uma crise financeira global. 

Esta crise não foi um acidente. Foi causada por uma indústria descontrolada. Desde 1980 o crescimento do setor financeiro americano provocou crises cada vez mais dramáticas. Cada crise provocou mais danos, e, paralelamente, a indústria ganhou cada vez mais dinheiro.  

Depois da grande depressão os EUA viveram 40 anos de crescimento económico, sem que se desse uma única crise financeira. O setor financeiro estava escrupulosamente regulado. Na sua maioria os bancos eram empresas locais e era-lhes proibido especular com as poupanças dos clientes. Os bancos de investimento, que transacionavam ações e obrigações eram sociedades pequenas e privadas. 

A administração Reagon, apoiada por economistas e lobbyistas financeiros, deu início a um período de 30 anos de desregulação financeira....

Porque é que existem os grandes bancos? Porque os bancos gostam do poder dos monopólios. Porque os bancos gostam do poder das influencias. Porque os bancos sabem que quando são demasiado grandes, serão salvos. 

Há trinta anos, se pedisse um empréstimo para comprar uma casa, o empréstimo era concedido por alguém que contava recuperar o seu dinheiro. Desde então criou-se a securitização, e quem concede um empréstimo já não corre riscos se o devedor não pagar.

No sistema antigo, quando um proprietário pagava a sua hipoteca todos os meses, o dinheiro ia para a entidade de crédito local. E como se tratava dum empréstimo de longa duração, as entidades eram cautelosas. No novo sistema as entidades venderam as hipotecas a bancos de investimento. Estes reuniram milhares de hipotecas e outros empréstimos, para criar produtos derivados complexos, a que chamaram ativos tóxicos ou CDO (collateralized debt obligations). Os bancos de investimento venderam os CDO a investidores. Neste modelo, quando os proprietários pagavam a sua hipoteca, o dinheiro ia para investidores espalhados por todo o mundo. Os bancos de investimento contratavam agências de rating para avaliar os CDO e muitos deles receberam a cotação de AAA, a nota mais alta em termos de investimento. O sistema era uma bomba-relógio. Às entidades já não interessava se o proponente podia pagar por isso começaram a fazer empréstimos de maior risco. Os bancos de investimento também não se preocupavam. Quantos mais CDO vendessem mais altos eram os seus lucros. E as agências de rating, que eram pagas pelos bancos de investimento, não eram responsabilizadas se a cotação dum CDO se revelasse mal atribuída. 

Entre 2000 e 2003, o número de empréstimos para hipotecas quase quadriplicou.

A banca de investimento referia empréstimos subprime por terem taxas mais altas. Isto conduziu a um aumento intensivo dos empréstimos predatórios. Alguns empréstimos tinham taxas de subprime desnecessariamente  e foram concedidos muitos empréstimos a quem não podia pagá-los. 

Em 2007 a Goldman foi ainda mais longe. Começou a vender CDO concebidos de forma  a que quanto mais os clientes perdessem, maiores fossem os lucros da Goldman Sachs. 

Em 2008 as execuções tinham disparado em flecha da "cadeia-alimentar" securitizada. As entidades de crédito não conseguiam vender os empréstimos à banca de investimento e, à medida que as hipotecas iam sendo executadas, dezenas delas faliram.

Sexta-feira 12 de Setembro o Lehman Brothers ficara sem liquidez e a banca de investimento afundava-se rapidamente. A estabilidade do sistema financeiro global estava comprometida.

A 4 de Outubro de 2008 Bush aprovou uma fatura de resgate de 700 mil milhões. Mas as bolsas continuaram a cair com receio duma recessão global já implantada.

Os homens que destruíram as suas próprias empresas e lançaram o mundo numa crise afastaram-se dos destroços com as suas fortunas intactas. Os cinco executivos de topo do Lehman Brothers ganharam mais de mil milhões entre 2000 e 2007. E quando a empresa foi à falência eles ficaram com o dinheiro todo. 

Porque há-de um engenheiro fianceiro receber entre 4 a 100 vezes mais do que um engenheiro normal? Um engenheiro normal constrói pontes; um engenheiro financeiro constrói sonhos. E quando esses sonhos se transformam em pesadelos, foram os outros a pagá-lo.

O sistema financeiro americano foi seguro durante décadas. Mas depois algo mudou. O setor financeiro virou costas à sociedade, corrompeu o nosso sistema político e fez mergulhar a economia mundial numa crise. Com imenso esforço, evitámos o desastre e estamos a recuperar. Mas os homens e as instituições responsáveis pela crise continuam no poder. E isso tem que mudar. Eles dirão que precisamos delese que aquilo que eles fazem é demasiado complicado para que possamos entender. Dirão que não volta a acontecer. Vão despender milhares de milhões a combater a reforma. Não será fácil. Mas há coisas por que vale a pena lutar.



Inside Job - Charles Ferguson (2010)

sábado, 12 de maio de 2018

Afinal ir ao Cinema Sozinho não Dói


Já tinha feito muita coisa sozinho. Já tinha ido a festivais de música e a concertos, e a inúmeros de outros eventos sozinho, mas curiosamente, e vá lá saber-se porquê, nunca tinha ido ao cinema sozinho. Talvez porque cedo associamos o ato de ir ao cinema, naquela grande e escura sala, na maior parte das vezes muito barulhenta, a algo que se faça, pelo menos a dois, e quantas vezes associado às primeiras descobertas de mãozinhas a desvendar a anatomia desconhecida. E talvez tenhamos metido na cabeça que, sem companhia, não faça sentido ir ao cinema. O que não deixa de ser parvo, até porque ver um filme acaba por ser um ato solitário, pois enquanto estamos a ver um filme não estamos (ou ninguém deveria) estar a conversar sobre o desenrolar da ação do filme. Quanto muito conversa-se depois no final, quando as luzes se acendem.

Talvez a dificuldade em ir sozinho ao cinema, precisamente por na nossa memória coletiva associarmos a um evento a que não se vai sozinho, resida no facto de não querermos assumir publicamente que, em determinado momento das nossas vidas, não tínhamos ninguém que pudesse ir connosco. Mas não deixa de ser estúpido visto que nós podemos ir ao cinema sozinhos pelos mais variados motivos, e nenhuma daquelas centenas de pessoas anónimas sabe nem está minimamente interessada em saber porquê.

Eu tinha um convite para duas pessoas para uma antestreia e até fazia mais sentido que aproveitasse para levar mais alguém mas levei-me só a mim mesmo. Não gastei dinheiro no bilhete, gastei mais no jantar. Escolhi o sítio naquela praça de alimentação de centro comercial e sentei-me tranquilamente a comer enquanto ia observando outras pessoas em volta. Os casais, as mulheres bonitas, na mulher da limpeza que passava com o carrinho, as pessoas que se sentaram depois ao meu lado a comer mac-merda enquanto eu já estava a fazer tempo lendo o último livro que comecei a ler. Entretanto a hora aproximava-se e lá fui fazer o xixinho dirigi-me para a sala.

Entrei, olhei em volta, e já estava muita gente sentada. Sentei-me ali perto da entrada, mais ou menos ao mesmo nível e a meio do ecrã e fiquei à espera de ser surpreendido. E gostei. Ri-me até por diversas vezes com esta comédia romântica de época francesa. Saí a sorrir, agradado com o espetáculo, e a pensar que, afinal, ir ao cinema sozinho não dói.