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domingo, 28 de julho de 2019

O Homem Fez Deus à Sua Imagem

"Livra-te dos homens.
E livra-te de Deus!
Não foi Deus que fez os homens, mas os homens que fizeram Deus.
E depois de o fazerem, queixam-se de ele proceder de certo modo em vez de outro. Fizeram-no com barba, pernas, mãos, umbigo, cabeça, como eles; e imaginaram que ele tinha um sistema moral e de legislação idêntico ao dos homens; tanto que, por ocasião das pestes e dos terramotos, perguntam se é justo que Deus façam assim.
Pobres de nós!
Mas se Deus verdadeiramente existe, o seu sistema de moral e de legislação deve ser fantasticamente diverso do dos nossos educadores e dos nossos tribunais.
Por isso, não receies pôr-te em conflito com Deus, porque não há entre nós quem saiba como é que ele pensa em matéria de justiça e de bondade. 

"A Decadência do Paradoxo" / Pitigrilli (1938) 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Fumadores que Fumam Mais Cigarros Vivem Mais Anos

A memória é uma coisa muito chata não é jornal "Público"?



No dia 20 de Junho de 2017 (aqui) o Público publica uma crónica (que não teve qualquer partilha nas redes sociais - mas eu nunca mais me esqueci dela) em que fala sobre como se pode mentir com a estatística. Nada de novo. Todos nós sabemos o que Pitigrilli disse a esse respeito:

"Estatística: a ciência que diz que se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um."

Na crónica do Público de Diogo Trigo ficamos a saber coisas como:

"A manipulação ou distorção de dados científicos é frequentemente usada como contra-informação para vender ou rebater uma ideia. Este processo assume vários aspetos e pode acontecer independente da integridade da investigação em si. Um dos processos mais comuns é o embelezamento de dados estatísticos, conferindo-lhes uma carga positiva ou negativa consoante a agenda a vender."

"Outro ardil frequente é a utilização de correlação como exemplo de causalidade, isto é, confundir o facto de duas coisas estarem associadas com uma delas ser especificamente um resultado da outra. Como dissemos no título, de facto, um fumador que morra de causas naturais aos 95 anos terá fumado na sua vida toda, em média, mais cigarros do que um fumador que morre de acidente de viação com 23, mas isto não quer dizer que a vida tenha sido prolongada pelos cigarros consumidos adicionalmente."

"Estes casos sucedem-se nos diferentes meios de comunicação, caindo-se por vezes em desgraça quando por negligência ou por irresponsabilidade se fazem afirmações ridículas com certezas de autoridade, sem ter havido um estudo prévio das fontes originais dos factos anunciados. "

Entretanto, na semana passada, no dia 10 de Janeiro, o mesmo jornal Público faz esta capa:



Perguntas: Era só para vermos se estávamos atentos? ou andam a tentar imitar o escarro jornalístico mais vendido do país?

Os alunos com piores notas reprovam. Os alunos com melhores médias escolhem e entram no curso que querem.

Lamentável.

sábado, 22 de dezembro de 2018

O Acaso de Pitigrilli

Como já aqui contei, foi por mero acaso que conheci a escrita Pitigrilli. E de imediato me viciei. É fascinante o que se absorve, página após página. Eu não sou de sublinhar os livros pois, para mim, um livro, como tantas outras coisas, é quase como se fosse um altar: sagrado. Mas se fosse como muitas pessoas que são de sublinhar, então não seria fácil encontrar páginas dos livros de Pitigrilli que não estivessem riscadas com chamadas de atenção.

Há de tudo, sejam pensamentos, críticas, argumentos, ideias ou informação de interesse que nos enriquece.  Depois da "Virgem de 18 Quilates" acabei por ler vários livros seguidos dele e, aos poucos comecei a apanhar-lhe a repetição de algumas mesmas ideias, aqui e ali, como por exemplo a admiração da inteligência e da memória dos elefantes. Ainda assim, mais do que as vezes que Pitigrilli se refere aos elefantes, são as inúmeras vezes que se refere ao "acaso".  Aqui deixo alguns excertos:



Tôda a vida é regulada pelo acaso. Um médico salva-nos mercê duma magistral intervenção cirúrgica, outro mata-vos com uma simples picada. O encontro de uma dama no "café" pode ser  causa de uma bifurcação na vida. Essa mulher pode envenenar-vos o sangue com uma doença, levar-vos à loucura, dar-vos um filho, tornar-vos feliz, tornar-vos mau, tornar-vos melhor. Basta olhar em volta de nós: dentistas que por enganam arrancam um dente são, críticos que com um único epíteto arruínam um artista ou uma êmpresa, engenheiros que se enganam num cálculo de resistência. E querem que só o juiz seja justo! Mas tôdas as injustiças do mundo contribuem precisamente para repetir os acasos vários de que resultam as múltiplas aparências do mundo e o imprevisto da vida. É a mistura do perfeito e do imperfeito que forma a beleza das coisas e que indica a colaboração entre Deus e os homens. Todo o acusado tem o seu destino escrito antecipadamente e coisa alguma o pode mudar.: sejam quais forem os argumentos subtis que os advogados invoquem, o que quer que seja de inevitável preside à sorte dos acusados. As razões pelas quais se absolve ou se condena são quási sempre diferentes das previstas pelos requisitórios ou pelas defesas. 

Pegue num caso grave de êrro judiciário, analise-o da origem à conclusão, da prisão aos trabalhos forçados: que série impressionante de acasos desfavoráveis que levam um inocente à grilheta! No mundo meu amigo, tudo é aparência, tudo é apenas representação. A verdade? Oh! Quem é que alguma vez soube o que é a verdade? É uma coisa bem miserável, se são suficientes dois pequenos copos de conhaque para a dissimular ou a transformar. E a Justiça? Basta um sapato que incomode, para mudar uma maneira de sentir e, por conseqüência, de julgar.
- E então?
- E então, é preciso acreditar exclusivamente no acaso. A concordância dos acasos favoráveis chama-se fortuna; a concordância dos acasos desfavoráveis, infortúnio. Quando a êsses acasos se associa a vontade dos homens, chama-se a isso o bem ou o mal, e quando êsses homens fazem profissão de julgar, então fala-se em justo ou injusto. Mas o bacilo que nos fulmina, o automóvel que nos esmaga, o homem que nos calunia, o juiz que nos condena, são apenas variantes dum mesmo fenómeno: o acaso...

(Pág. 87 / "O Homem que procurava o amor" / 1929)

Sete anos depois, no livro "Loura Delicocéfala" de 1936:




- Interessante. 
- Não é interessante - disse Teodoro. - É o acaso

(...)

As coisas parecem singulares quando as vemos do avesso; se um motorista da Cruz Vermelha, depois de vinte anos a transportar feridos do lugar do acidente para o hospital, sofre um acidente mecânico, o episódio é mais do que normal; são coisas que acontecem pelo menos uma vez na vida a todos os automobilistas. Mas para o ferido que justamente daquela vez que estava na ambulância, a coisa tocará as raias do inverosímil; depois de ter sido vítima de um acidente na estrada, é muito esquisito, para ele, ser vítima de um segundo acidente de carro. O mesmo facto que para o motorista não tem importância, para o ferido é uma probabilidade que na matemática se representa com um, dividido por um número seguido de três ou quatro mil zeros. 
Juju acendeu um cigarro. Teodoro tomou-lhe das mãos o isqueiro:
- Para si - continuou - não é esquisito que este objeto esteja cheio de gás. Mas se pensar que o gás foi extraído do petróleo e que o petróleo é a transformação de jazidas imensas de peixes que ficaram nas depressões da terra quando as águas dos oceanos se deslocaram há centenas de séculos atrás, parecer-lhe-á esquisito que para acender o cigarro, queime o que se tem conservado, através dos milénios, de um peixe que ficou a seco em qualquer planalto da Pensilvânia. 

Pág. 81...
... e doze páginas diante:

- Afinal - disse ela - compreendeste que te amo. É inútil que to confesse ou que to oculte. Mas nem te amo pelos teus olhos frios nem pelas tuas têmporas grisalhas, nem porque fazes parar os enterros e tens familiaridade com a raiz de mandrágora. Amo-te porque surgiste num momento propício. Tu compreendes estas coisas. 
- Sim, compreendo essas coisas; nós julgamos que os nossos atos têm grande importância, como os nossos méritos e a nossa vontade, e ao invés somos vítimas ou beneficiários do acaso. Se o "mycoderma aceti" pousa numa ferida, nada acontece, mas se cai num copo de vinho transforma-o em vinagre ; se o bacilo de Nicolaïer cai num copo de vinho nada acontece, mas se pousa numa ferida aí está a morte por tétano. 

(e já a caminhar para o fim do livro na página 317)

Quando Zweifel voltou para casa, não quis ver o quarto que fora de Cinci. Foi procurar a última carta de Juju: "Hoje estou bela... querem vender-me  uma plantação de borracha, em Madagascar..." Mas onde estava? Em Madagascar? Como econtrá-la? Onde encontrá-la?
Queria que Juju lhe desse uma nova Cinci.
Mas uma nova Cinci não se faz por encomenda; não se faz por medida; as coisas mais belas não nascem pela vontade dos homens; nascem por acaso.
Nascem por acaso como o jovem pessegueiro, ao longo da via férrea, florescido entre as pedras engorduradas de lubrificantes, entre os restos das cestinhas de viagem; aquele jovem pessegueiro, nascido de um caroço atirado pela janela por um viajante distraído. 
Por um viajante distraído, como Bob. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

Compreender Finalmente o Amor

"Paulo Pott não respondeu.
- Que diz? perguntou ela. 
Êle pegou-lhe numa das mãos para a convidar ao silêncio e disse-lhe:
- Para ter alguma coisa de aproximativo sôbre a mulher e sôbre o amor, estudei a psicologia dos indivíduos e a psicologia colectiva: li as histórias dos romancistas mais fantasistas e os tratados mais sábios mais positivos; estudei demoradamente as obras dos antigos e dos ultra-modernos; fiz falar os homens que foram amados e os que foram atraiçoados; examinei o problema do ciúme, da fidelidade, da perfídia; tentei experiências nos outros e em mim próprio; recolhi confissões; analisei casos inumeráveis; interroguei uma mulher inteligente  que um hábito mental torara capaz de estudar em si própria os fenómenos e de me explicar as causas, os sintomas e as conseqüências; o meu cérebro tornou-se um ficheiro; creio que nada mais me resta ler de novo ou sentir àcêrca do amor, porque vi todos os tipos e previ todos os casos. Pois bem, minha senhora: ao fim de tantos anos de experiências, de análises e de me meditações, cheguei a uma conclusão... Devo dizê-la?
-Diga.

(...) 

Passos na areia. A voz de Lem-Lem Teoldé. 
- Dir-me-á depois - murmurou Liana.
O engenheiro entrou, trazendo no braço o casaco de lã flexível guarnecido pelas peles.
- Demorei-me, - disse êle, - porque não encontrava as chaves. Não sei onde as pões. Seria mais fácil encontrá-las se as pusesses sempre no mesmo lugar!
Liana não respondeu. Olhou com para o marido com êsse olhar frio, inimitável, das mulheres que começam a não amar. Paulo Pott sabia ainda beijar a mão às mulheres e a de Liana demorou-se-lhe nos lábios.
Tinha o olhar frio das mulheres que começam a já não amar, mas o tom da sua voz era triste, enquanto as mulheres que se preparam para atraiçoar têm um timbre alegre (...)



No dia seguinte, o engenheiro dirigiu-se para o Sul, para onde se prologava o caminho de ferro.
- Venho pedir-lhe emprestado um livro, - disse Liana, entrado na casa do juiz. - Tem algum que fale de amor?
- Só tenho livros que falam de amor, - respondeu Paulo Pott, levando-a para um aposento onde as estantes da biblioteca chegavam ao teto. 

(...)

- Depois de haver estudado o amor nos livros dos que o analisam e na epiderme dos que o praticam; depois de haver interrogado as mulheres instintivas e as mulheres que raciocinam, depois de ter analisado numerosos casos, lido muitas historietas, ouvido a resposta dos competentes, visto os gráficos dos aparelhos que registam as curvas do pensamento, os imprevistos da vontade, as oscilações do sentimento, depois de haver escutado os que explicam pela química os mistérios do amor e os que explicam pela electricidade, depois de ter dado ouvidos aos homens fingidos que restringem o amor a uma fórmula de eqüação e aos exaltados que o dilatam nas rimas dum poema, começo a crer que, para compreender alguma coisa do amor, é necessário seguir o método adoptado por ti ...
- Por mim?
- É o método mais racional, mais sério, mais científico, mais positivo...
Sem abrir os olhos, ela perguntou:
- Mas que método?
Êle curvou-se-lhe sôbre o rosto e respondeu:
- _________ ___________.

FIM


"O Homem que procura o Amor" / Pitigrilli (Dino Segrè)  1929



domingo, 2 de dezembro de 2018

A Carneirada do "Sempre se Fez Assim"

"Os homens aglomeram-se na estupidez como a limalha de ferro no íman. É a estupidez, é o carneirismo, que faz andar a multidão de preferência por um lado do caminho e não por outro (...)

Nunca notaste a violenta reação, o simultâneo movimento de defesa de uma comunidade de estúpidos, quando aparece um inteligente? Quando um inteligente entra na sala, os estúpidos riem-se da sua gravata; quando aparece no meio do povo injuriam-no ou crucificam-no; Jesus lutou contra a estupidez dos formalistas; Buda contra a estupidez dos brâmanes. Quando um inteligente diz: "Para ir buscar especiarias à Índia, em vez de dar a volta por África, experimentemos navegar para oeste", acaba por fazer a viagem de regresso com grilhões nos pulsos, ainda mesmo que na ida tenha descoberto um continente. 

Outra pausa. Continuou:
- E este desastre acontece-lhe porque lutou contra a compacta organização daqueles que escolheram por mote a frase: "Sempre se fez assim". Mas se se fizesse como sempre fez, ainda hoje queimar-se-iam nas praças as feiticeiras, atormentar-se-iam com ferro em brasa os epilépticos, enforcar-se-iam como em 1600 os que comem carne na Quaresma, apedrejar-se-ia a adúltura, usar-se-ia a tortura para obrigar à confissão. É por virtude de algum inteligente que do apedrejamento da adúltera se desceu aos seis francos com que o código francês pune o adultério; é por obra de algum inteligente que a tortura não sobrevive a não ser em formas atenuadas numa ou noutra esquadra balcânica, onde os pontapés no baixo-ventre se chamam interrogatório. 


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Justiça: A Falta de Senso Comum

"Quando uma comissão da Câmara ou o Ministério da Justiça me propõe reformas parciais ou totais, respondo invariavelmente que não. Isto criou-me fama de reacionária mas o que eu sou de facto é uma rebelde: sou a primeira anarquista do Grão-Ducado. O código é que é, porém os pedidos de graça a que eu concedo perdão e o agravar de penas que inflijo, essas modificações das sentenças civis é que vão formar a jurisprudência; e nas setenças posteriores, os tribunais levam em conta as minhas modificações (...)

O estar acima da lei permite-me chegar onde a lei não chega. O sendo comum, o bom-senso, esta coisa que parece estar à disposição de todos, como a água dos chafarizes, ninguém pode usá-lo. Para usá-lo é preciso ser rei. O poucos reis o usam. Sirvo-me dele todos os dias. Surpreende-lhe que muitas vezes agrave a pena?
- Não. O que eu ão sabia é que a graça pudesse ser concedida às avessas...
Giselda volveu:
- Quer alguns exemplos? - E sem esperar resposta continuou:
- Se alguém involuntariamente mata o cão de luxo de um daqueles ricos senhores que fazem mais caso do "pedigreee" que do afeto, e o manda passear com os criados, é condenado a reembolsar o rico senhor com alguns milhares de xelins de indemnização; mas se mata por perversidade, com um tiro de espingarda, o cão de um cego que constituiu seu afeto, o seu património, o seu guia, o juiz condena-o a três xelins de castigo, porque o valor comercial do cão é mínimo e porque, pressupondo-se que a morte do cão tenha sido instantânea não há a agravante das sevícias. Acha que isto é justo? 

Se numa chávena de café não entrar nem sequer um grama de café, não acontece nada de mal, mas se ao pagar aquele café o senhor deixa sobre a mesa sessenta cêntimos em lugar de setenta, o empregado tem o direito de o arrastar até à esquadra mais próxima. Acha que é justo?
Quebrar o vidro de uma montra leva à cadeia, mas para quem destruir a um pobre órfão a única fotografia que possui de sua mãe, não há processo penal, porque o dano não é computável. Acha justo? Quem viola uma sepultura recente para roubar o alfinete de gravata do morto é condenado a seis meses. Mas se a sepultura está no Vale dos Reis e data de 4000 anos atrás, quem a profana é considerado um insigne egiptólogo. Convenço-o?


Loura Delicocéfala / Pitigrilli (1936)

domingo, 25 de novembro de 2018

No Meu País as Touradas Não Têm Touros Nem Bandarilhas

- "Vossa Alteza falou em caçada ao veado? Julgava ter ouvido dizer que em todo o Grão-Ducado era proibida a caça. 
- E assim é - respondeu Giselda - esta selvajaria está proibida há dez anos, desde que subi ao trono; a caça abusiva é punida com seis meses de reclusão, um ano para os reincidentes, mil xelins de multa e a confiscação da arma. Há cinco anos, em França convidada pela Duquesa d'Uzès, tive o desgosto de assistir a uma caçada ao veado. Ao verdadeiro veado. O pobre animal, de olhos errantes, perseguido por imbecis a cavalo, despedaçado pelos cães, no meio de delicadas senhoras que teriam desmaiado se as manicuras lhes tivessem enfiado as tesouras por baixo da unha, fez-me chorar de indignação; sem saudar ninguém, deixei a Duquesa, um ministro, um pretendente ao trono de França, e fugi para Paris. No dia seguinte mandei buscar as malas. Para se justificar, a Duquesa d'Úzès disse que antes da caçada as matilhas, os cavalos e os cavaleiros eram abençoados, numa solene cerimónia, pelo seu capelão privado. Eu disse: "Quanto a isso gostava bem de conhecer a opinião de Jesus". Toda a imprensa da direita, desde a "Croix" até à "Action Française" me atacou. Quando regressei a Glotenburgo o partido clerical tinha-se unido com aos comunistas para me derrubar. Então, mandei que em todos os cinemas do Grão-Ducado os beijos na boca, que antes duravam três metros e meio de fita fossem limitados a um metro e setenta e cinco, e em dois dias acalmei a opinião pública e os jornais. A caça ao veado, no meu país, é uma caçada sem veado e sem espingardas: um pretexto para correr ao ar livre, jogar às escondidas nos bosques, cair na relva. 


Loura Delicocéfala / Pitigrilli (1936)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A Menina que Via as Horas nos Olhos do Gato

Selligmann trazia-lhe os jornais ilustrados e o cirurgião oferecia-lhe os livros da sua biblioteca. Mas Paulo suplicou:
- Tragam-me cor!
Queria dizer: "Tragam-me flores do Sul, ou frutos do além-mar, ou uma matilha andaluza, ou uma ingénua colcha do Sudão, de cores berrantes." O cirurgião premiu o botão da campainha e a uma enfermeira que apareceu silenciosa, disse:
- Liana.
Pouco depois entrou uma menina de quinze anos, de cabelos tão vermelhos e luminosos, que parecia haver dentro deles uma lâmpada acesa.
- Aqui está a cor - disse o cirurgião.
Era sua filha: tinha os olhos maravilhados e grandes como os olhos das crianças quando lêem os contos de fadas.
- Os enfermos a quem visita - disse-lhe Paulo - curam-se logo; deve trazer a sorte consigo!
(...)


Não havia outra menina com quem brincar. O seu único amigo era o Relógio.
- Um gato.
- Que nome!
- Pus-lhe o nome de Relógio porque os olhos dele marcam as horas. Quando o chamo, ele vem logo, e os seus olhos não erram nunca. A pupila contrai de dia e dilata-se de noite com movimento tão regular que por ela deduzo as horas com exatidão: na obscuridade a pupila é redonda; pela manhã torna-se oval; ao meio-dia é uma vertical finíssima, que progressivamente se dilata pela tarde. Quando o senhor quiser saber as horas pergunte-me.
Paulo pensou em Jutta e confrontou a cerebralidade dela com a candura desta menina.
- Liana - disse-lhe -, você lê as horas nos olhos dos gatos e passa as noites a confiar as suas aspirações às estrelas, mas faz também outra coisa que não me confessou ainda.
A menina enrubesceu.
- Ontem, da minha janela, vi-a, no jardim, desfolhando um malmequer.
A menina baixou a cabeça para esconder o sorriso e a indignação e fugiu. Mas quando, dois ou três dias depois, Paulo Pott deixou a casa de saúde, ela ofereceu-lhe um ramo de malmequeres e presenteou-o com um retrato de Relógio, dizendo:
- Vejamos se aprendeu alguma coisa: a que horas foi tirada esta fotografia?
- Não sei.
- Repare nos olhos. Às quatro da tarde. É tão simples.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Diferentes Traduções do Mesmo Título dum Livro Trazem Ainda Outro Problema

Más Traduções de Títulos que Ainda Por Cima Revelam o Enredo é mau. Decidir-se dar diferentes nomes ao mesmo título traduzido ainda é pior!

Logo após ter publicado esta entrada no blogue fui à estante ver que livros de Pitigrilli ainda tinha para ler, afinal, se gostei tanto do último, porque não continuar pelo mesmo autor?

Só que, de repente pego no livro "O homem que inventou o amor" viro a capa e leio "título orignal: "L'esperimento di Pott". Ou seja, comprei uma série de livros do autor, e dois deles, um dos anos quarenta e outra edição dos anos sessenta, com diferentes títulos, são afinal o mesmo livro. Haja paciência!


domingo, 11 de novembro de 2018

Más Traduções de Títulos que Ainda Por Cima Revelam o Enredo

Acabei de ler "O homem que procura o amor" de Pitigrilli. Gostei bastante. Talvez tenha sido o livro que li mais depressa nos últimos tempos mas isso não vem ao caso agora. O que interessa é que, desde logo suspeitei que este não fosse o título original. No livro não consta o título original com que foi publicado. E se calhar deveria. Fui então pesquisar na internet e fiquei a saber o que título original é: "L'esperimento di Pott" de 1929.



Desde logo não deixa de ser muito curioso que, em 1932, foi traduzido para inglês por Warre B. Wells e, nos Estados Unidos saiu com o título de "The man who searched for love", enquanto que, a mesma tradução, saiu no Reino Unido com o título de "Mr. Pott". 


E o que eu acho que a tradução de um título tem de ser o mais fiel possível ao original. Se me dizem assim "ah mas ó Konigvs, se tivesses visto o livro com o título de "O experimento de Pott" (como também foi editado em português) se calhar não o ias ler. Mas não é nada disso que está em questão. Se o autor lhe chamou "a experiência de Pott" é esse título que deve ser usado em todo o mundo, ainda que, um melhor título possa vender melhor o livro. Muito pior ainda, é quando a própria tradução do título do livro revela ele mesmo parte do enredo do livro, que só o leitor deveria descobrir mais à frente! O próprio título está a estragar toda a surpresa do livro! 
- Por que é que eu chamei a esta publicação "Está bonita a Dona Irene"? Certamente se calhar até teria mais interesse se eu lhe tivesse chamado "A história de um amor destruído", mas eu quis-lhe chamar "Está bonita a dona Irene" e, quem quiser saber do que se trata, tem que ler até ao fim. A graça está muitas vezes em manter a surpresa, em ir revelando aos poucos e não escancarar logo tudo. 

É como aquelas traduções de títulos de filmes, em que só pelo título já percebemos o fim do filme! Qual seria a piada do filme "Sexto Sentido" (The sixth sense) se tivessem traduzido o título para "O homem morto que conversa com vivos"? Não faz qualquer sentido. E o que não faltam para aí são péssimas traduções de títulos de filmes, que além de não serem minimamente fieis, ainda por cima revelam o enredo. Um dos bons exemplos disso e que aqui no caso até tem graça, é o título do filme "Lost in Translation" que no português não se chamou "Perdido da Tradução" mas sim "O amor é um lugar estranho! Oh pá, se é difícil traduzir o título para português, então não mexam! Deixem estar o título quietinho no original. 

O livro "L'esperimento di Pott" de Pitigrilli é sobre a vida de um bom juiz, de origem grega que vive em França, de seu nome Paulo Pott que, certo dia, apesar de ser juiz-presidente, mas vendo-se obrigado a votar vencido pelos outros dois juizes, demite-se, insultando os seus dois colegas e causando assim uma grande sensação na imprensa do país. Pelo meio conhece uma linda mulher inteligente e entretanto decide mudar radicalmente de carreira. E o ex-juiz vai fazer o quê? Vai ser palhaço. De juiz a palhaço tão irónico! Sem querer revelar muito mais é isto. Claro que pelo meio há a constante procura da resposta ao que é o amor, mas o livro chama-se "O experimento de Pott" não se chama "O homem que procura o amor"!

Chamassem-lhe simplesmente "Pott" que ficava muito melhor!

domingo, 4 de novembro de 2018

As Coisas Não São Como São, Mas Como Se Consideram

"As coisas não são como são: são como as consideramos: a genebra, se lhe chamarmos genebra, é uma bebida para as pessoas que trabalham nas minas; mas se lhe chamarmos gín, é um licor de grande luxo.
Se enquanto examinar a Ceia de Leonardo de Vinci lhe não disserem: Que rosto de traidor tem o quarto conviva à esquerda!" o senhor não sabe qual dos doze é o Judas. Mas apenas lhe disserem: "Aquele é o Judas", achar-lhe-á um rosto de canalha. 
(...)
Se pronunciar diante de um farmacêutico, ou dum botânico, ou dum bebedor, ou duma porteira, a palavra "ruibarbo", o farmacêutico pensará na raiz, o botânico na planta, o bebedor no aperitivo e a boa mulher em pastilhas digestivas. 
Se um homem vai por uma estrada internacional e não tem dinheiro no bolso, os gendarmes prendem-no, porque o seu caso chama-se vagabundagem; mas, se tem um livro de cheques, toda a gente o respeitará, porque se trata não de vagabundagem, mas de turismo. 
(...)
Um senhor qualquer que dorme com sua própria mãe ou sua própria filha, faz simplesmente um ato imundo; mas, se esse senhor se chama Oedipo, o seu ato torna-se imediatamente um episódio mitológico. Eschilo faz dele uma tragédia. Se se chama Loth , o seu nome é imortalizado na Bíblia e as suas porcarias são contadas em todas as línguas em todas as escolas do mundo. Uma senhora nua será simplesmente imodesta, como dizem os eclesiásticos; mas, se lhe puser uma árvore atrás das costas, torna-se numa ninfa. Se lhe pusermos legumes nas mãos, torna-se Ceres; se for um espelho, será a Verdade; se uma espada, a Vitória; se lhe prender aos pés um pedaço de corrente, torna-se a Liberdade. Com uma camisa de noite, abotoada nos ombros, é a Tragédia. Enfie-lhe uma liga, torna-se uma cortesã. As coisas não são como são, mas como se consideram. 



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Vens Hoje a Minha Casa?

Um dia, êle disse à menina Schumann:
- Venha hoje a minha casa.
Ela respondeu:
- Não.
Outro dia, êle repetiu:
- Venha a minha casa
Ela respondeu:
- Sim.
Quando ao crepúsculo, se preparava para se retirar, ela disse-lhe:
- Teve-me duas horas em sua casa e nem sequer me deu um beijo.
- Quis demonstrar-lhe que em minha casa não corria perigo algum. Voltará?
- É possível. Ver-nos-emos àmanhã na Sorbonne. 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Mais Vale Ler um Livro Antigo

"O amigo, efetivamente, ali estava, tendo nas mãos um grosso livro de páginas furadas por uns pequenos orifícios sobre os quais passava vagarosamente os dedos pálidos, cheios de nós como um bambu, olhando para o ar, com o olhar vago.
O presidente sentou-se a seu lado, pegou-lhe na mão e apertou-lha com modo afetuoso.
- Já? - perguntou o cego com um sorriso na direção dele, mas um pouco desviado. - Acabaste?
- Acabei sim. Que estás a ler?
- Vergílio. 
- É o prémio Goncourt deste ano?
- Não. Só leio livros antigos. Todo o livro novo não é mais do que a mistura de ideias, de factos e de nomes tirados de outros livros e dispostos numa ordem um tanto diferente. Apenas impresso, vai tomar lugar nas estantes até que um novo escritor dali o tire para extrair uma ideia, um facto uma data ou um nome, que misturará com outros elementos tirados doutros livros, para deles fazer um novo livro. Mais vale ler um livro antigo.

"O Homem que Procura o Amor" - Pitigrilli (Dino Segrè

sábado, 6 de outubro de 2018

De que Serve Tanto Dinheiro aos Ricos?

A meu ver, os homens extraordinariamente ricos, são maníacos, enfermos, psicopatas. Em suma, sejamos  francos: para que serve todo esse dinheiro aos ricos? 

Eles têm no máximo vinte, trinta anos de vida, 7300 ou 10950 dias. De que lhes vale uma coleção de automóveis, se não há possibilidade de utilizar senão um de cada vez? Por muito que possua, ninguém poderá fazer mais de três a quatro refeições diárias; não ocupará mais de uma poltrona nem viajará melhor do que em primeira classe. Por mais que se use a roupa esta não durará menos de uma estação. De cinquenta pares de sapatos, escolhe-se afinal sempre o mesmo par, o que não magoa os pés. Os livros zelosamente guardados, adquiridos aos metros para encher a estante e que o dono jamais emprestaria a um rapaz inteligente, nunca serão lidos, para não estragar a encadernação preciosa. As adegas transbordantes de vinhos caros, tornam-se inúteis , porque o médico de luxo, forçado a dizer alguma coisa para justificar o preço da consulta, recomenda a abstenção das bebidas.

O colecionador hipertrófico de dinheiro acaba colhendo desprezo e ingratidão. Julga-se rodeado de amigos e está entre comparsas, remunerados como coristas de melodrama. Quanto mais se ilude de atrair os homens, tanto mais se vê isolado de si mesmo. 

Certo dia, um rico avarento foi pedir conselho e ensinamentos a um rabino. Este conduziu-o a uma janela e disse-lhe:



- Olha para esta vidraça e diz-me o que vês.
- Vejo muita gente - respondeu o ricaço.
O rabino levou-o então a um espelho e perguntou:
- Que estás vendo agora?
- Vejo-me a mim próprio.
- Muito bem, irmão. A janela e o espelho são ambos de vidro. Mas o vidro do espelho reveste-se duma ténue camada de prata. Entrando de permeio um pouco de prata, deixamos de ver os outros e só nos vemos a nós próprios. 

A camada de prata! A barreira de prata ou de ouro é que leva o operário, o artista, o boémio, o refratário, o irregular, o não-conformista, a repartir com o pobre a sua última nota de cem, ao passo que o multimiliioário, a sociedade anónima, a alta finança afrontam o tribunal, o ridículo, para negar os cinco contos que devem sacrossantamente ou para obrigar outrem a pagar os dez tostões em dívida. 

"O sexo dos Anjos" / Pitigrilli / 1952

domingo, 30 de setembro de 2018

Próximas Leituras II


Bem, como não encontrava quase nenhuma descrição dos livros de Pitigrilli na net, resolvi de uma assentada comprar mais cinco. Não satisfeito comprei mais cinco de  D. H. Lawrence. Sim, comprar dez livros de uma vez, quando dois dias antes tinha comprado quatro é assim coisa de burguês. Mas atendendo que foram quatorze livros por trinta e cinco euros, também não acho que venha daí grande mal ao meu orçamento. 

Mas a verdade é que ainda tenho mais uma data deles por acabar de ler, e de muitos outros que ainda nem peguei e que me chegaram às mãos provenientes de uma bela troca. Acho que devo ter livros para ler até 2039!


domingo, 16 de setembro de 2018

Separar-nos-emos para que o nosso Amor Sobreviva. Entendes?

"No amor verdadeiro, a comunhão dos corpos realiza-se como o coito das flores, como as bodas dos insetos. Os insetos, que sublimes mestres do amor! É muito mais interessante ver como amam os coleópteros do que as cortesãs, as atrizes, os poetas, os frades, os filósofos e os reis. 
- Sinto-me inteiramente tua! confessava Mélita ao amante. - A minha peregrinação pelo mundo talvez fosse apenas a procura de um homem que me completasse, a procura de ti. 
- Não buscavas a solidão? 
- Há uma coisa mais bela que a solidão: a solidão a dois. Existiam em mim grandes reservas de amor em estado latente; tu foste aquilo que os fotógrafos chamam o líquido revelador. Deixarás um grande traço na minha vida!
- Falas como se tivéssemos de nos separar amanhã.
Amanhã, não; mas breve. O nosso amor foi episódio tão espontâneo e imprevisto na minha vida que não deve alcançar o peso de um vínculo, nem marchar num hábito. 
Separar-nos-emos para que o nosso amor sobreviva. Entendes?

A Virgem de 18 Quilates - Pitigrilli (1924)






quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Misantropo e a Vagabunda

"Não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém"

- E o teu irmão?
- Compreendo o que queres dizer. Como é que, tendo o mesmo sangue, em vez de ser vagabundo como eu, é um misantropo, imobilizado como um cristal no meio do gelo? Explico-te: sou mulher: forte, como mulher, forte para reagir, forte para me defender; mas fraca para reagir contra mim mesma, fraca para me defender da minha melancolia.

"Meu irmão é forte: não tem necessidade de ver os aspetos caleidoscópicos da vida das cidades e de mergulhar na multidão para dominar a própria dor. Ele pensa, como Nietzsche, que a filosofia é via livre no meio dos gelos, no alto da montanha; é a procura de tudo que há de estranho e de enigmático na existência; de tudo que é vedado pela moral. 

Meu irmão segue um regime de solidão para higiene do espírito: impelido pela necessidade de conhecer todos os homens, afastou-se de todos e observa-os de longe; eu, para não conhecer nenhum, para não me afeiçoar a nenhum, procuro aproximar-me de todos. E, desse modo, o solitário misantropo e a irrequieta vagabunda acharam-se de acordo sobre o mesmo ponto, chegando a duas conclusões simétricas e equivalentes; não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém". 



A Virgem de 18 Quilates - Pitigrilli (1924)

domingo, 5 de agosto de 2018

Só Há um Meio de Nos Defendermos da Opinião Pública

- Não te preocupes com a opinião pública - advertia-lhe ela. 
- Se te virem com uma mulher elegante, serás rufião; 
se for com tua mulher, corno;
com um amigo pederasta; 
se andares só, onanista.

Só há um meio de se defender da opinião pública: suportá-la. 



"A Virgem de 18 Quilates" - Pitigrilli (1924)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Comprar um Livro só pela Primeira Frase


- O nosso amor durará um ano. 
- Ainda?
Um ano, contando tudo que já nos aturamos.



Há quem compre um livro pela capa... Pode-se dizer que eu comprei pela primeira frase. Mas também não é tanto assim. Sim, nunca li nada de Pitigrilli, mas conheço-lhe ao menos uma das frases mais conhecidas:

"Estatística: a ciência que diz que se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um."

Daqui por uns tempos talvez lhe conheça a escrita. 


"A Virgem de 18 Quilates" - Pitigrilli (1924)