Mostrar mensagens com a etiqueta Loura Delicocéfala. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Loura Delicocéfala. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de dezembro de 2018

A Carneirada do "Sempre se Fez Assim"

"Os homens aglomeram-se na estupidez como a limalha de ferro no íman. É a estupidez, é o carneirismo, que faz andar a multidão de preferência por um lado do caminho e não por outro (...)

Nunca notaste a violenta reação, o simultâneo movimento de defesa de uma comunidade de estúpidos, quando aparece um inteligente? Quando um inteligente entra na sala, os estúpidos riem-se da sua gravata; quando aparece no meio do povo injuriam-no ou crucificam-no; Jesus lutou contra a estupidez dos formalistas; Buda contra a estupidez dos brâmanes. Quando um inteligente diz: "Para ir buscar especiarias à Índia, em vez de dar a volta por África, experimentemos navegar para oeste", acaba por fazer a viagem de regresso com grilhões nos pulsos, ainda mesmo que na ida tenha descoberto um continente. 

Outra pausa. Continuou:
- E este desastre acontece-lhe porque lutou contra a compacta organização daqueles que escolheram por mote a frase: "Sempre se fez assim". Mas se se fizesse como sempre fez, ainda hoje queimar-se-iam nas praças as feiticeiras, atormentar-se-iam com ferro em brasa os epilépticos, enforcar-se-iam como em 1600 os que comem carne na Quaresma, apedrejar-se-ia a adúltura, usar-se-ia a tortura para obrigar à confissão. É por virtude de algum inteligente que do apedrejamento da adúltera se desceu aos seis francos com que o código francês pune o adultério; é por obra de algum inteligente que a tortura não sobrevive a não ser em formas atenuadas numa ou noutra esquadra balcânica, onde os pontapés no baixo-ventre se chamam interrogatório. 


domingo, 25 de novembro de 2018

No Meu País as Touradas Não Têm Touros Nem Bandarilhas

- "Vossa Alteza falou em caçada ao veado? Julgava ter ouvido dizer que em todo o Grão-Ducado era proibida a caça. 
- E assim é - respondeu Giselda - esta selvajaria está proibida há dez anos, desde que subi ao trono; a caça abusiva é punida com seis meses de reclusão, um ano para os reincidentes, mil xelins de multa e a confiscação da arma. Há cinco anos, em França convidada pela Duquesa d'Uzès, tive o desgosto de assistir a uma caçada ao veado. Ao verdadeiro veado. O pobre animal, de olhos errantes, perseguido por imbecis a cavalo, despedaçado pelos cães, no meio de delicadas senhoras que teriam desmaiado se as manicuras lhes tivessem enfiado as tesouras por baixo da unha, fez-me chorar de indignação; sem saudar ninguém, deixei a Duquesa, um ministro, um pretendente ao trono de França, e fugi para Paris. No dia seguinte mandei buscar as malas. Para se justificar, a Duquesa d'Úzès disse que antes da caçada as matilhas, os cavalos e os cavaleiros eram abençoados, numa solene cerimónia, pelo seu capelão privado. Eu disse: "Quanto a isso gostava bem de conhecer a opinião de Jesus". Toda a imprensa da direita, desde a "Croix" até à "Action Française" me atacou. Quando regressei a Glotenburgo o partido clerical tinha-se unido com aos comunistas para me derrubar. Então, mandei que em todos os cinemas do Grão-Ducado os beijos na boca, que antes duravam três metros e meio de fita fossem limitados a um metro e setenta e cinco, e em dois dias acalmei a opinião pública e os jornais. A caça ao veado, no meu país, é uma caçada sem veado e sem espingardas: um pretexto para correr ao ar livre, jogar às escondidas nos bosques, cair na relva. 


Loura Delicocéfala / Pitigrilli (1936)