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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A Menina que Via as Horas nos Olhos do Gato

Selligmann trazia-lhe os jornais ilustrados e o cirurgião oferecia-lhe os livros da sua biblioteca. Mas Paulo suplicou:
- Tragam-me cor!
Queria dizer: "Tragam-me flores do Sul, ou frutos do além-mar, ou uma matilha andaluza, ou uma ingénua colcha do Sudão, de cores berrantes." O cirurgião premiu o botão da campainha e a uma enfermeira que apareceu silenciosa, disse:
- Liana.
Pouco depois entrou uma menina de quinze anos, de cabelos tão vermelhos e luminosos, que parecia haver dentro deles uma lâmpada acesa.
- Aqui está a cor - disse o cirurgião.
Era sua filha: tinha os olhos maravilhados e grandes como os olhos das crianças quando lêem os contos de fadas.
- Os enfermos a quem visita - disse-lhe Paulo - curam-se logo; deve trazer a sorte consigo!
(...)


Não havia outra menina com quem brincar. O seu único amigo era o Relógio.
- Um gato.
- Que nome!
- Pus-lhe o nome de Relógio porque os olhos dele marcam as horas. Quando o chamo, ele vem logo, e os seus olhos não erram nunca. A pupila contrai de dia e dilata-se de noite com movimento tão regular que por ela deduzo as horas com exatidão: na obscuridade a pupila é redonda; pela manhã torna-se oval; ao meio-dia é uma vertical finíssima, que progressivamente se dilata pela tarde. Quando o senhor quiser saber as horas pergunte-me.
Paulo pensou em Jutta e confrontou a cerebralidade dela com a candura desta menina.
- Liana - disse-lhe -, você lê as horas nos olhos dos gatos e passa as noites a confiar as suas aspirações às estrelas, mas faz também outra coisa que não me confessou ainda.
A menina enrubesceu.
- Ontem, da minha janela, vi-a, no jardim, desfolhando um malmequer.
A menina baixou a cabeça para esconder o sorriso e a indignação e fugiu. Mas quando, dois ou três dias depois, Paulo Pott deixou a casa de saúde, ela ofereceu-lhe um ramo de malmequeres e presenteou-o com um retrato de Relógio, dizendo:
- Vejamos se aprendeu alguma coisa: a que horas foi tirada esta fotografia?
- Não sei.
- Repare nos olhos. Às quatro da tarde. É tão simples.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Diferentes Traduções do Mesmo Título dum Livro Trazem Ainda Outro Problema

Más Traduções de Títulos que Ainda Por Cima Revelam o Enredo é mau. Decidir-se dar diferentes nomes ao mesmo título traduzido ainda é pior!

Logo após ter publicado esta entrada no blogue fui à estante ver que livros de Pitigrilli ainda tinha para ler, afinal, se gostei tanto do último, porque não continuar pelo mesmo autor?

Só que, de repente pego no livro "O homem que inventou o amor" viro a capa e leio "título orignal: "L'esperimento di Pott". Ou seja, comprei uma série de livros do autor, e dois deles, um dos anos quarenta e outra edição dos anos sessenta, com diferentes títulos, são afinal o mesmo livro. Haja paciência!