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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Pra Cima de Puta

 "Tentando documentar as suas recordações, voltou a folhear os álbuns dos Jogos Florais enquanto Sara Noriega arranjava qualquer coisa para comer. Viu cromos de revistas, postais amarelecidos dos que se vendiam como recordações nos portais de loja e foi como uma passagem fantasmagórica pela falácia da sua própria vida. Até então fora sustentado pela ficção de que era o mundo quem passava, os costumes, a moda:  tudo menos ela. Mas naquela noite viu pela primeira vez de forma consciente como ia passando a vida de Fermina Daza e como passava a sua própria, enquanto ele não fazia mais nada do que esperar. Nunca tinha falado dela com ninguém porque se sabia incapaz de dizer o seu nome sem que se lhe notasse a palidez dos lábios. Mas nessa noite, enquanto folheava os álbuns, com em tantas outras vigílias de tédio dominical, Sara Noriega teve uma dessas tiradas acidentais que gelavam o sangue.

- É uma puta - disse. 

Disse-o ao calhas, vendo uma gravura de Fermina Daza disfarçada de pantera negra num baile de máscaras e não precisou de mencionar ninguém para que Florentino Ariza soubesse de quem falava. Temendo uma revelação que o perturbasse para toda a vida, este apressou-se numa defesa cautelosa. Alegou que só conhecia Fermina Daza de vista, que nunca tinham passado dos cumprimentos formais e não sabia nada do que se passava na sua intimidade, mas dava como certo que era uma mulher admirável surgida do nada e enaltecida pelos seus próprios méritos. 

- Por obra e graça de um casamento por interesse com um homem de que não gosta - interrompeu-o Sara Noriega. 

- É a maneira mais baixa de ser puta."

"O Amor em Tempos de Cólera" / Gabriel Garcia Marquez (1985)

domingo, 3 de novembro de 2019

Em Quantos Tipos se Divide a Humanidade?

Dostoievsky, através da sua personagem Raskólnikov dividiu a humanidade entre os ordinários e os extra-ordinários... 

Já Gabriel Garcia Márquez preferiu dividir, na sua personagem Florentino Ariza, a humanidade entre os que cagam bem e os que cagam mal...




Eu acrescentaria ainda um terceiro grupo: aqueles que se estão a cagar para tudo:




quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Violação

"Numa noite em que interrompeu a leitura mais cedo do que era habitual, dirigia-se ele distraidamente para as retretes, quando uma porta se abriu à sua passagem na casa de jantar deserta e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Só chegou a sentir o corpo sem idade de uma mulher nua nas trevas, empapada num suor quente e com a respiração desordenada, que o empurrou para cima do beliche, lhe abriu a fivela do cinto lhe desapertou os botões e se rasgou a si própria encavalitada em cima dele, despojando-a, sem glória, da virgindade. Caíram os dois agonizantes no vazio de um abismo sem fundo a cheirar a maresia de camarões. Ela ficou um instante sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir na escuridão. 

- Agora vá-se embora e esqueça - disse. - Isto nunca aconteceu.

Amor em Tempos de Cólera / Gabriel G. Márquez (1985)