"Numa noite em que interrompeu a leitura mais cedo do que era habitual, dirigia-se ele distraidamente para as retretes, quando uma porta se abriu à sua passagem na casa de jantar deserta e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Só chegou a sentir o corpo sem idade de uma mulher nua nas trevas, empapada num suor quente e com a respiração desordenada, que o empurrou para cima do beliche, lhe abriu a fivela do cinto lhe desapertou os botões e se rasgou a si própria encavalitada em cima dele, despojando-a, sem glória, da virgindade. Caíram os dois agonizantes no vazio de um abismo sem fundo a cheirar a maresia de camarões. Ela ficou um instante sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir na escuridão.
- Agora vá-se embora e esqueça - disse. - Isto nunca aconteceu.
Amor em Tempos de Cólera / Gabriel G. Márquez (1985)