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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Violação

"Numa noite em que interrompeu a leitura mais cedo do que era habitual, dirigia-se ele distraidamente para as retretes, quando uma porta se abriu à sua passagem na casa de jantar deserta e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Só chegou a sentir o corpo sem idade de uma mulher nua nas trevas, empapada num suor quente e com a respiração desordenada, que o empurrou para cima do beliche, lhe abriu a fivela do cinto lhe desapertou os botões e se rasgou a si própria encavalitada em cima dele, despojando-a, sem glória, da virgindade. Caíram os dois agonizantes no vazio de um abismo sem fundo a cheirar a maresia de camarões. Ela ficou um instante sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir na escuridão. 

- Agora vá-se embora e esqueça - disse. - Isto nunca aconteceu.

Amor em Tempos de Cólera / Gabriel G. Márquez (1985)

sábado, 6 de outubro de 2018

Por que é que as Pessoas defendem sempre os Agressores?

"Penso que por ser rico, bonito e um grande jogador
 as pessoas têm inveja de mim. Não encontro outra explicação"

Não é de agora, pois este já estava prometido no mês passado e há muito mais tempo que pensava escrever sobre isto. No entanto talvez me tenha sentido agora mais motivado a escrever, e dar até a minha opinião, na sequência do novo falatório da semana: o ressurgimento do tema da alegada violação por parte do herói nacional Cristiano Ronaldo, e da imediata reação das fãs (homens também claro, que eu sou inclusivo!), e que, tal como as fãs do Tony Carreira, logo vieram a terreiro defender o plagiador apesar de há dez anos se saber da verdade. Pois também com o Cristiano as fãs dizem que é tudo mentira e inveja como até diria o próprio. A gaja que o acusa é que é uma puta (neste caso sem alegadamente!) pois acabou-se-lhe o dinheiro e ela quer mas é mais.

Há muito que andava para pegar neste tema porque se há algo que me faz alguma confusão é ver as pessoas, principalmente as que me rodeiam no trabalho, mas muitas outras no universo internetesco, virem constantemente defender os agressores e porem contra as vítimas. Vejamos alguns exemplos:

– Uma portuguesa ou colombiana (não cheguei bem a perceber tão opostas eram as versões na imprensa) por certo que fez algo grave para levar nas trombas quando entrava num autocarro no Porto. 
Ah, mas ó Königvs, ela parece que estava a entrar à frente de não sei quem... Pois é, mas mesmo que isso tenha acontecido, isso dá logo todo o direito a que seja espancada brutalmente como se fosse uma assassina? É que eu cresci e fui educado, ouvindo dizer que perdemos a razão quando partimos para a violência, mas agora parece que não. Parece que qualquer motivo é válido para agredir os outros, e ainda assim permanecer com as simpatias! Eu faço uma caricatura de Maomé, porque acho que ainda vivemos em liberdade, mas mereço de imediato levar um tiro nos cornos. Não deixa de ser curioso e irónico que, tão rapidamente todos tenham deixado de ser Charlie. Parece que foi só naquela semana para as redes sociais. É pena. 

– E aquele casal homossexual espancado à porta de um centro comercial em Coimbra? Pois certamente que o casal homossexual não tinha nada que se pôr aos beijos no meio da rua. Mas onde é que nós estamos afinal? Em pleno século XXI, num Estado de Direito Democrático em que há liberdade? Não, parece que não. As pessoas têm de vir defender quem os agrediu com argumentos como "eu não estive lá, certamente que fizeram algo para merecer ser espancados". E com este tipo de argumentos não há mais nada para dizer. Só que, entre a vítima e o bárbaro agressor, as pessoas preferem sempre acreditar no agressor. É pena. 

– E o caso da rapariga que estava desmaiada e foi violada por dois trabalhadores duma discoteca de Gaia? Dizem-me que está tudo bem com a decisão judicial, afinal as gajas que vão para as discotecas são umas putas, umas oferecidas, que andam ali de mini-saia e com decotes a verem-se as mamas e depois sujeitam-se. No fundo, claro, a culpa é delas, nunca dos homens!
E o que é que faz o bom pai de família, aquele segundo o qual o juiz decide? O bom pai de família quando vê uma mulher desmaiada e inconsciente no chão, que não pode dizer nem sim nem não, chega ali viola-a e chama o amigo! Tal como por exemplo um médico! Um médico que vá operar uma mulher, que está anestesiada e não pode dizer que não, o que o bom médico de imediato faz é aproveitar a oportunidade e violar a mulher!

- E neste caso do Cristiano? Sem que ninguém lá tenha estado para ver, de imediato as pessoas defendem quem? O agressor pois claro, ainda por cima porque é rico e famoso. Então não se vê logo que acabou-se o dinheiro à mulher e ela agora quer é mais a grande puta? Ele pagou-lhe ela só tinha que estar calada!

Pois é. Só que há um pequenino problema. Um crime público não se apaga nem prescreve com dinheiro. Mau era se se apagasse, então é que os ricos nunca seriam punidos até porque, injustamente, numa sociedade tremendamente desigual, o Pedro Dias é chamado e descriminado de monstro na imprensa ao passo que o Duarte Lima é o senhor Doutor ex-deputado arguido por "alegadamente" ter morto a Catalina. Monstros é coisa de pobre. Não se vê logo?

Mas volto a sublinhar, um crime público não se apaga só porque se tem dinheiro e se tenta comprar a vítima, tal como um pedófilo compra o silêncio de uma criança com doces. Por falar em pedófilos, um dia a criança decide dar com a língua nos dentes, afirmar que o padre a violava mas é uma chatice. Ironicamente não vejo ninguém a defender os padres, afirmando que esses supostos casos de pedofilia na Igreja Católica são tudo delírios de crianças que se querem aproveitar dos santos padres que, como é óbvio, têm um comportamento inatacável. Caso para dizer que até para se ser violador é melhor cair em graça que ser engraçado!


Ah, mas ó Königvs, sabes que há muita gente a aproveitar-se das situações para tirarem proveito. E por acaso acham que sou ingénuo e não sei disso? Não sei se já contei já aqui no blogue, mas se contei conto de novo porque eu mesmo acompanhei uma situação dessas no meu anterior trabalho. Nova gaja que vem trabalhar e tem formação com um colega. A coisa vai evoluindo e ela começa-se a insinuar para ele lhe saltar para cima. Ele tendo namorada começa a resistir. Na sequência desta abordagem agressiva e consequente nega, e cheia de orgulho ferido ela não tem mais nada. Certo dia resolve rasgar a roupa (isto deve ser excesso de novelas brasileiras) e vai-se queixar aos recursos humanos que ele a tentou agarrar no elevador. Logicamente que, quem é que seria despedido se ele não tivesse todas as mensagens explícitas que eles trocaram? Seria ele, não ela como acabou por acontecer.

Daí que seja sempre preciso muito cuidado com julgamentos na praça pública, porque esses são os piores. O que aconteceu naquele hotel em 2009 entre o Cristiano e a senhora, só os dois sabem ao certo. Compete pois à justiça investigar. Ainda assim, quando estamos certos que nada de mal fizemos não andamos a tentar negociar o silêncio da suposta vítima como foi o que aconteceu. Eu não fiz nada de mal mas contrato advogados e detetives privados e digo (está escrito!) "tem de ser menos", e pega lá 375 mil dóllars e não digas que vais daqui... Se calhar só eu acho estranho. E só isso parece-me que que augura nada de muito de bom para o herói nacional.

Ainda assim, o seu clube de fãs lá continuará a defendê-lo com unhas e dentes, e ai de quem diga o contrário, que merece logo ser empalado na Praça Pública como aconteceu com o Paulo Dentinho que escreveu no Facebook algo que poderia muito bem ter sido escrito por mim: