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terça-feira, 23 de junho de 2026

Ninguém Deveria Acumular Mais de Quatro Vezes a Riqueza da Pessoa Mais Pobre

Para pensar na obscena sociedade que temos atualmente. Texto de David Lay Williams (professor de ciência política e autor do livro "A Maior de Todas as Pragas: Como a Desigualdade Económica Moldou o Pensamento Político de Platão a Marx") no New York Times desta semana:



Desde que Elon Musk se tornou multimilionário, as pessoas têm tentado compreender a dimensão da sua fortuna quase incompreensível. 

 Alguns observam que uma pilha de notas de 100 dólares totalizando 1 bilião de dólares (um trilião na escala curta americana) atingiria uma altura de cerca de 1.093 quilómetros. 

O economista Steven Durlauf salientou que, a certa altura, a fortuna de John D. Rockefeller equivalia a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, enquanto a riqueza de Musk representa agora pelo menos o dobro dessa proporção, ultrapassando os 3%. 

Os adeptos dos New York Knicks talvez apreciem outro exemplo: mesmo Jalen Brunson, que ganha cerca de 39 milhões de dólares por ano, precisaria de jogar mais de 25 mil épocas para acumular uma fortuna semelhante. 

 Mas, entre todos os números que vi, o que mais me impressionou foi um cálculo publicado pelo The New York Times: o património líquido de Musk é cinco milhões de vezes superior ao da família americana média. 

 Como historiador do pensamento político, pensei imediatamente em Platão, o primeiro filósofo ocidental a enfrentar seriamente a questão da desigualdade económica. Na sua obra "Leis", através da personagem do Estrangeiro Ateniense, Platão defendia que, numa república próspera, se alguém acumulasse mais de quatro vezes a riqueza dos cidadãos mais pobres, deveria entregar o excedente à cidade. 

Não cinco milhões de vezes a riqueza da família típica - apenas quatro vezes a riqueza dos mais pobres.

 É certo que é difícil imaginar como uma economia moderna poderia funcionar sob as restrições propostas por Platão à acumulação de riqueza. Mas não é difícil compreender as preocupações que o levaram a uma proposta tão radical. 




Platão cresceu em Atenas, uma cidade que, segundo escreveu Plutarco, esteve quase a ser destruída pela «disparidade entre ricos e pobres». Foi salva por um legislador extraordinário, Sólon, que anulou todas as dívidas dos pobres, para grande indignação dos ricos. 

Mais tarde, durante a juventude de Platão, enquanto a cidade combatia na Guerra do Peloponeso, sofreu três guerras civis sucessivas baseadas em conflitos de classe: uma revolução oligárquica dos ricos contra os pobres, seguida de uma revolução democrática dos pobres contra os ricos, e depois outra revolução oligárquica. 

Não surpreende, portanto, que, ao refletir sobre a desigualdade em A República, Sócrates tenha observado que um Estado marcado por grandes desigualdades de riqueza não é verdadeiramente um Estado, mas antes «dois Estados: um dos pobres e outro dos ricos, vivendo no mesmo lugar e conspirando constantemente um contra o outro». 

 Para Platão, a origem da desigualdade era uma doença da alma a que os gregos chamavam pleonexia - uma forma de ganância insaciável. No diálogo Gorgias, Sócrates compara essa condição a um jarro furado: por mais água que se despeje nele, exigirá sempre mais. Para algumas pessoas, o desejo de riqueza limita-se ao necessário para satisfazer as suas necessidades; para outras, é infinito. Platão comparava essas almas insaciáveis a escravos dominados pelos seus próprios desejos. 

Uma pessoa consumida por desejos inesgotáveis acaba por amar-se a si própria muito mais do que consegue amar o resto da humanidade. Para Platão, ela torna-se «um mau juiz do que é justo, bom e nobre», porque atribui sempre mais valor aos seus próprios apetites do que à própria verdade. Consequentemente, escreveu ele, «é impossível que aqueles que se tornam muito ricos se tornem também bons». 

 Os receios de Platão acerca da ganância sem limites parecem ter sido confirmados por Musk, que já declarou ambicionar alcançar os 10 biliões de dólares. Também confirmou as preocupações do filósofo quanto às falhas morais dos super-ricos ao descrever a empatia como «a fraqueza fundamental da civilização ocidental». 

Através do chamado Departamento de Eficiência Governamental, colocou a agência americana United States Agency for International Development «na trituradora», como afirmou com satisfação, contribuindo para a morte de cerca de 600.000 pessoas, segundo estimativas. Tal devastação é, para o autor, uma consequência previsível de uma sociedade que decidiu não impor qualquer limite superior à acumulação de riqueza. 

 Platão tinha plena consciência de que soluções ideais, como a sua proporção de riqueza de quatro para um, são impossíveis de aplicar em sociedades onde a desigualdade já atingiu níveis extremos. Mas não defendia que legisladores e cidadãos desistissem. Pelo contrário, apelava aos cidadãos - incluindo os poucos ricos dotados de um «sentido de justiça» - para que fizessem o possível por reduzir as desigualdades, começando por envergonhar aqueles que acumulam fortunas excessivas. 

Insistia que a verdadeira pobreza «não consiste na diminuição dos bens de uma pessoa, mas no aumento da sua avareza». Só ensinando os males da ganância extrema poderá uma sociedade começar a restaurar o equilíbrio de riqueza necessário ao florescimento de uma república saudável. 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Quando te Conheci Não Pensei que Gostasses de Futebol


 Se eu fosse remexer nas dezenas de cartas que trocamos, por certo que lá pelo meio encontraria uma em que ela me diz "quando te conheci pensei não gostasses de futebol". Ora, isto não deixa de ser curioso, porque foi precisamente numa conversa de futebol entre amigos comuns que nos cruzaram pela primeira vez diretamente (porque indiretamente há muito que os meus olhos tinham reparado naquela adolescente de quatorze ou quinze anos, tal como há muito ela já tinha reparado em mim, principalmente quando eu me sentava na mesma soleira da porta, da mesma casa da rua Barão de São Cosme, onde ela também gostava de se sentar enquanto espvaera a camioneta). 

E foi nas traseiras duma camioneta que ambos apanhamos, que estivemos uns quantos à conversa. Lembro-me bem da Vânia, a mais afoita defensora do seu FC Porto, bem como da Patrícia, sua prima, que mora aqui na aldeia, e talvez também o Mauro estivesse presente; se não esteve nessa ocasião, esteve depois, em muitas outras conversas, nas traseiras de muitos outros autocarros, que naquela altura chamávamos de camioneta ou carreira. Nessa tal conversa sobre futebol, retenho na minha minha cabeça que terei mantido uma postura de Álvaro Cunhal, que, perante a argumentação do Mário Soares, lá ia soltando, de vez em quando, um "Olhe que não, doutor, olhe que não". 

E se eu encontrasse a tal carta em que ela me diz que quando me conheceu não pensava que eu gostasse de futebol, procurando bem, nas outras dezenas de cartas que lhe escrevi, encontraria também a carta em que lhe respondi (porque ela mas devolveu, todas, como se tivessem sarna) em que lhe terei respondido que, sim, gostava de futebol, mas que não me tinha por fanático. Que gostava de analisar o jogo dentro das quatro linhas e que tinha as minhas opiniões.

Mas não deixa de ser muito curioso e até irónico. Quando me conheceu ela pensava que eu gostava de futebol; já eu, quando anos depois começamos a namorar, nunca pensei que um dia ela me pedisse para a levar à festa do "Penta" porque queria-se juntar à multidão em festa com as amigas da escola. "O Jardel até me disse adeus!". E eu que nem imaginava que ela fizesse ideia de quem era o Jardel. 

Relembrei esta passagem da minha vida quando, por estes dias, começou o Europeu de futebol. Como que me perguntei se deveria - sei lá, por dever patriótico? - ver os jogos da seleção, ou se iria cometer a heresia e o pecado mortal de ignorar os jogos da seleção. 

Decidi ignorar porque a paixão, aquele fogo que arde sem se ver, há muito que se extinguiu completamente e o rescaldo, aqueles trabalhos que se fazem para que não haja reacendimentos, foram muito bem feitos nos últimos quase dez anos, e, entretanto, os eucaliptos foram substituídos por carvalhos e azevinhos, e não há forma do interesse ser reacendido. 

Posso afirmar que ser um um ex-adepto de futebol como sou hoje, é como se tivesse deixado de fumar e já conseguisse ver com clareza a estupidez que cometi durante tantos anos a gastar dinheiro que me faz falta e a dar cabo da saúde com os cigarros. 

Hoje, se alguém me conhecesse assim, ignorando o futebol e toda a irracionalidade que envolve o fenómeno, muito estranharia que um dia gostei de futebol, que vibrei com as vitórias ou ficava pior que estragado nas derrotas. Se hoje fosse uma criança, ninguém me iria querer chatear porque o clube da minha simpatia perdeu - ou poderia dar também o exemplo do emprego, sim, porque parece que crescemos, mas continuamos a ter os mesmos comportamentos de criancinha, em que se fica calado como um rato quando o nosso clube perde, até se diz que não se gosta de futebol, mas depois, subitamente, já gozamos com os outros, quando é o clube dos outros a perder. Tristes aqueles que ficam felizes com o mal dos outros, é o que vos digo. 

E, se hoje alguém me tivesse conhecido a ignorar este aborrecido espetáculo de hora e meia - porque a verdade é essa, hoje em dia o futebol é uma verdadeira seca! - e em que a vitória é tantas vezes decidida pelos homens do apito, e em que todos ganham salários pornográficos à custa do pobre que vai ao estádio ou tem uma assinatura de televisão, quando mal ganha para comer - quanto muito, o que me poderia dizer, uns tempos mais à frente, seria: "nunca imaginei que um dia tivesses gostado de futebol". 

*na imagem Sócrates, antigo jogador de futebol brasileiro, médico e filósofo, que ficou conhecido por Doutor Sócrates e pelas suas convicções políticas

# O Benfica Deixou de Ter Seis Milhões de Adeptos

# Quando o Meu Avô Rasgou o Cartão de Sócio

domingo, 17 de dezembro de 2017

Viver é só Resolver Problemas?

Não sei se é o destino, se é o universo, ou então se é o raio que o parta, mas a verdade é que, quando de tudo nos acontece, e ao mesmo tempo, sem descanso quase sem tempo para respirar, fico com a sensação que viver é quase só ter de resolver problemas, uns atrás dos outros.

Quando eu era criança tinha dois medos. De tanto ouvir falar tinha medo de poder ter de ir para essa coisa que se chamava tropa, e tinha também medo de quando chegasse o fim do mundo, afinal, ia morrer ainda tão jovem, no ano de 1999, porque passava a vida a ouvir dizer que "a 2000 chegarás, de 2000 não passarás. Em criança tinha também o medo de poder chegar a adulto e não saber resolver todos os problemas que os adultos têm, ao passo que, enquanto somos crianças, não temos de os resolver nem de decidir nada, pois temos sempre os papás a resolver os problemas e a decidir por nós, até a roupa que levamos para a escola no dia seguinte.

Entretanto há muito que sou adulto. Não fui à tropa e duvido que algum dia pegue numa arma de fogo porque sou totalmente conta elas. E há quase dezoito anos que passei o ano 2000! Já nem na santa podemos acreditar! E depois, à medida que vamos abandonando a meninice, começamos a ter de tomar decisões e assumir responsabilidades. 

Os estudos, as amizades, com quem decidimos andar, os namoros, a sexualidade. Depois o trabalho, o primeiro carro, a casa... Não é necessariamente por esta ordem, mas aos poucos a nossa vida rodeia-se de um monte de decisões que temos de tomar, e algumas dessas decisões poderão ter, para o bem e o para o mal, implicações para o resto da nossa vida. 

E os problemas em adulto já não são aqueles que resolvíamos na escola primária em que se tirava a prova dos nove. Por vezes parece mesmo que o universo não tem mais nada que fazer que não seja complicar-nos a vida. Parece que pega num boneco de voodoo e nas agulhas, e vai-nos espetando, espetando e rindo-se de nós, como se tivesse mesmo muita graça foder a vida dos outros. E no meio de um monte de problemas, que surgem sempre ao mesmo tempo, tal como diz a Lei de Murphy! em que teremos de tomar decisões e resolver as situações. E logo que se resolvem uns, é como se de repente estivéssemos num jogo, passássemos de nível para logo a seguir aparecerem mais uns quantos. Às vezes fico mesmo com a sensação que, nesta vida moderna, e tantas vezes uma vida sem sentido que levamos, viver mais parece que é só ter de  problemas atrás de problemas. 

E o que me parece é que nós não andamos a viver. Andamos unicamente a ser escravos desta sociedade de consumo. Os nossos problemas não são verdadeiros problemas. São meras contas que qualquer menino resolve na instrução primária, tal como eu resolvia e ia depois, a correr mostrar à professora Alice. 

Uma grave doença; um acidente; uma incapacidade; uma morte; um desgosto amoroso. Sim, isso são problemas reais. Tudo resto, na maior parte dos casos são só pequenas decisões que temos (ou não) de tomar. E às vezes parece que os adultos, mesmo quando tudo está a correr bem, adoram criar os seus próprios problemas, tal como aquela criança que espera, na carteira, ansiosamente, que a professora coloque no quadro um novo problema para resolver. 

Sim, eu tenho em mãos alguns problemas complicados. Uns mais do que outros. Uns mais básicos, da base da pirâmide, outros mais difíceis de resolver, lá bem no cume, de cariz existencial. Mas uma coisa é certa, o universo terá que se esforçar mais, pois as agulhas que espeta no meu boneco de voodoo só me fazem umas coceguitas. Olha para mim universo, de pé, firme, sempre a resistir. É só isso que tens para mim? O que eu acho é que quem dera a muita gente ter só os problemas que eu tenho para resolver. (Ainda que, na verdade, se soubessem dos problemas que eu tenho, quem lhes dera voltar a ter só os seus).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nunca Invejes a Vida dos Outros...

Sempre que ouço as pessoas invejarem a vida dos outros, achando que os outros é que estão bem, que os outros é que têm sorte, e que elas é que estão muito mal com a vida que têm, lembro-me sempre desta frase de Sócrates que guardo desde há muitos anos: