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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Rádio na Cozinha


"Tenho de comprar um rádio para meter na cozinha e não estar sempre a ouvir os meus pensamentos", pensei há minutos. 

Claro que poderia aceder a uma qualquer rádio portuguesa on-line e ficar a ouvir. Mas a verdade é que isso quase nunca acontece. Tal como não acontece ver a RTP Play no computador. Talvez ainda tenha um espírito demasiado analógico, não sei.

O que sei é que viver sozinho e sem televisão em casa muitas vezes é estar sempre a ouvir os meus pensamentos. E isso reflete-se ainda mais quando não estamos assim tão bem e há dias menos fáceis. 

O mais curioso é que depois reparei que eu até sempre tive ali um rádio na cozinha e tudo. Um Nora, um rádio a válvulas, que era do meu pai. 

sábado, 28 de março de 2026

Em 1977 1 Litro de Gasolina Custava 12 Cêntimos - Hoje é Mais Caro ou Mais Barato?

 O meu pai morreu há 33 anos e, como seu único herdeiro, ainda guardo todos os seus pertences. E acho que dou mais valor a peças que foram feitas pelas suas mãos, apontamentos feitos com a sua caligrafia e até ferramenta que usou, do que outras coisas. 

Num pequeno caderninho, estilo bloco de notas, com uma mulher com um ramos de rosas vermelhas nos braços e em que está escrito "Casa 1976", e, no verso "Livro de Apontamentos da Construção da Casa - Início 1977", tem toda uma série de apontamentos de gastos e dá para saber quanto custavam as coisas na altura. 

Estávamos nos anos setenta, bem longe da vertigem dos empréstimos bancários, e, tal como os meus pais, a maioria dos portugueses era aforradora e poupada e para isso convinha perceber para onde estava a ir o dinheiro. 

Hoje em dia fazem-se cursos on-line com especialistas em finanças pessoais, influencers que falam de 'literacia financeira' e explicam onde melhor aplicar o dinheiro, e o atual governo que nos governa até retirou a educação sexual das aulas de cidadania (porque no entender deles é muito melhor aprender na pornografia), e meteram no currículo uma forte componente económica para aprender de pequenino a ser bom contribuinte. 

Contudo, nos anos setenta, qualquer pessoa, mesmo sem saber ler nem escrever, sabia empiricamente mais de finanças pessoais do que hoje em dia os jovens que saem da universidade. Porque onde há muito pouco é preciso arte e engenho para saber poupar muito.

Mas vamos ver alguns preços de diferentes produtos anotados no bloco de notas do meu pai: 

Então, em 1977:

- Um saco de cimento custava 65 cêntimos

- Um garrafão de vinho = 49 cêntimos

- Uma carga de areia = 3€

- 1Kg de bacalhau = 47 cêntimos

- 1Kg feijão = 15 cêntimos

E 1 Litro de gasolina custava 12 cêntimos

Ena!, naquela altura 1L de gasolina só custava 12 cêntimos! Mas isso é mais barato ou mais caro do que agora, visto que, com as sucessivas guerras os combustíveis estão pela hora da morte?

Contas simples de merceeiro:

1977: 

1L gasolina 0,12€ 
Salário mínimo 22,45€ 

É preciso trabalhar 55 minutos para comprar 1L de gasolina 

2026: 

1L gasolina custa 1,95€ 
Salário mínimo 920€ 

É preciso trabalhar 22 minutos para comprar 1L de gasolina 

Conclusão: em 1977 a taxa de esforço era mais do dobro do que agora para comprar 1L de gasolina

sábado, 28 de agosto de 2021

Tristes Efemérides Numerológicas



Foi precisamente num sábado como o de hoje, neste mesmo dia 28 de Agosto como hoje, que o meu pai partiu há exatamente 28 anos, com a exata idade que eu tenho hoje...

sábado, 29 de agosto de 2015

22 anos

Passam hoje vinte e dois anos que vi o meu pai partir sendo ainda menor de idade. E vinte e dois anos é muito tempo. Os anos passam e o tempo vai apagando algumas memórias, porque a vida tem de continuar. Mas se paramos por um segundo a relembrar o passado, essas memórias começam a voltar aos poucos e tornam-se cada mais nítidas.  

O meu pai não teve uma vida nada fácil. Talvez se lhe adivinhasse uma vida de algum sucesso profissional, pois apesar de só ter a escolaridade obrigatória da altura, era uma espécie de empreendedor e cheio de competências técnicas. A imagem que recordo dele, é de um verdadeiro engenhocas cheio de ideias geniais e de uma habilidade fora do comum.

Mas o destino não se compadeceu e pregou-lhe uma grande partida. Um grave acidente de viação marcou-o com queimaduras pelo corpo, mas marcou-o principalmente para o resto da vida. Tudo poderia ter sido diferente, mas foi assim que as coisas tiveram de acontecer. E tudo mudou. Ainda me lembro de se contar a história, dos irmãos irem de gravata preta, esperando o pior num certo dia, depois do coração ter estar parado uma infinidade de segundos, e dos médicos os terem desenganado. Mas ele resistiu, sobreviveu esse dia, e a outro, e acabou mesmo por passar dois anos enfiado numa cama de hospital. E haveria de sair do hospital pelo seu próprio pé.

Contrariou os médicos e ainda foi a tempo de casar com a mulher que gostava dele, e que por ele sempre esperou, apesar dos "conselhos" de algumas pessoas, que a aconselhavam a desistir - afinal o amor nunca foi incondicional não é? É só na saúde e nos bons momentos. Nos maus, abandonam-se as pessoas, tal como se abandona um cão quando se vai se férias. Mas ele ainda haveria de ir a tempo de casar e ainda foi a tempo de deixar um descendente neste mundo: Eu. 

freeimages.com

E eu muitas vezes como que me culpo por não ter ajudado mais o meu pai. Ajudado naquilo que eu se calhar, hoje acho que poderia ajudar, mais do que as drogas dos médicos. Eu sei que ainda não tinha o conhecimento ou a sensibilidade para tal... E talvez também por isso acabei por me transformar numa pessoa que hoje nunca desiste de ajudar que está por perto...mas infelizmente não fui a tempo de ajudar o meu pai. 

Muitas coisas aconteceram nestes vinte e dois anos. Muitas coisas se passaram na minha vida e que o meu pai não pôde acompanhar. Talvez ele tenha mesmo ido podendo acompanhar ainda que observando as coisas de outro plano, que não o plano terreno. E eu não faço ideia do que ele acharia de mim, do adulto em que me tornei. Nós temos de viver por nós, temos de fazer as nossas escolhas, por vezes cometer os nossos erros, e por vezes temos de fazer as coisas de forma muito diferente daquilo que os nossos pais fariam. Mas claro que gostaria de saber que ele, esteja onde estiver, sentisse um pouquinho de orgulho no filho. Aquele orgulho que ele sentia, quando eu tinha três anos e sabia o nome de centenas de jogadores de futebol nos cromos da bola. "Ele tem de saber ler" diziam as pessoas estupefactas. Mas não, eu só sabia os nomes dos jogadores nos cromos da bola, porque o meu pai, me ensinava os nomes deles, e eu então memorizava-os. 

Há algum tempo, uma amiga transmitia-me a informação: "ele já não anda por cá,  ele já passou para o outro lado". Pois então, e seja esse lado onde for, que esteja bem e que tenha alcançado a paz, pois tormentos, infelizmente, já passou que chegue em vida. 

Até breve. Espero que nos possamos reencontrar de novo, um dia,  nesse tal outro lado.