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sábado, 4 de outubro de 2025

Nascia Assim a Era da Pós Verdade

"Na cronologia da pós-verdade costuma repetir-se como episódio inaugural a célebre conferência de imprensa de 22 de janeiro de 2017. Kellyanne Conway, porta-voz do presidente Trump - encurralada perante uma mentira flagrante - respondeu que não mentia, mas que oferecia “factos alternativos” (alternative facts). Não se tratava de um lapsus linguae

Umas horas antes, quando começou a chover durante a cerimónia de tomada de posse, o próprio Trump tinha respondido com simplicidade: “Não está a chover”. O homem mais poderoso do mundo dizia que não chovia debaixo da chuva, e milhares de pessoas que se tinham abrigado debaixo dos guarda-chuvas começaram a fechá-los - o que revelou uma lealdade que já não vinha da convicção, mas de algo mais sinistro: a rendição. 

Nascia a era da pós-verdade.


Máriam Martínez-Bascuñán explica como, em menos de uma década, esse mundo que então nos pareceu delirante se tornou familiar. “Já não pensamos; alinhamo-nos. Já não argumentamos; partilhamos. Já não duvidamos; confirmamos. Mentir de forma indiscriminada já não tem como objetivo fazer com que as pessoas acreditem numa mentira específica, mas sim fazer com que ninguém acredite em nada.” A disputa sobre a verdade tornou-se uma batalha simbólica e emocional, e “nessa colisão entre um povo que já não acredita e umas elites que já não ouvem, a própria verdade tornou-se irrelevante”.

Excertos do artigo de Andrés Barba, hoje no El País a propósito do livro "O fim do mundo comum. Hannah Arendt e a pós-verdade de Máriam Martínez-Bascuñán

domingo, 21 de setembro de 2025

Deus, Pátria, Trafulhice


Do jornalista Miguel Carvalho li o livro Quando Portugal Ardeu sobre o pós 25 de Abril, e das organizações de extrema-direita que andavam a colocar bombas nas sedes do partido comunista, que mataram, por exemplo, o padre Max da UDP. Entretanto publicou outros livros e regressa agora com um livro com mais de setecentas páginas sobre os bastidores do CH. 

"Esta é a investigação que revela a face oculta do Chega.

Com recurso a milhares de páginas de documentos inéditos e largas dezenas de entrevistas exclusivas com fundadores, financiadores, atuais e antigos dirigentes e militantes, Por dentro do Chega é, sobretudo, um retrato do partido por aqueles que o criaram e o fizeram. Sem filtros."

Na promoção ao livro pude ler duas reportagens, uma na Visão e outra no Jornal de Notícias e são alguns desses excertos que aqui deixo, para abrir o apetite para quem quiser comprar o livro ou, em alternativa, a revista Visão ou o Jornal de Notícias de hoje. Comecemos pelo Jornal de Notícias:


BORRADINHOS DE MEDO

"Dos financiamentos escondidos às gravações telefónicas secretas para entalar rivais internos, esta investigação mostra como André Ventura patrocinou exércitos de perfis falsos e purgas internas para criar um Chega unipessoal que sustenta as ambições desmedidas, as vidas abastadas e as madrugadas de copos dos seus mais reputados dirigentes. Pelo meio há guerras religiosas, filiações de imigrantes brasileiros em massa e a tentativa de corrupção de um ministro de Cabo Verde.

"André Ventura e a mulher, Dina, mais um punhado de dirigentes de topo do Chega, numa lancha rápida de Lagos até à cidade marroquina de Tânger, que seria a ponte até ao exílio na Costa do Marfim. O objetivo era Ventura fugir à prisão e contornar, na clandestinidade, a já sentenciada ilegalização do partido em plena pandemia. É com esta insanidade coletiva que começa o livro “Por Dentro do Chega”.

A fuga para Tânger nunca chegou a acontecer, mas o plano existiu e André e Dina chegaram mesmo a refugiar-se “borradinhos de medo” na quinta de luxo de Arlindo Fernandes em Lagos, segundo contou este empresário admirador de Salazar. Arlindo Fernandes subiu a pulso no Chega, mas, como muitos, desencantou-se quando viu um partido podre (...)


O Chega foi fundado em 2019 para “limpar Portugal” e adotou, em 2021, no Congresso de Viseu, o lema de Salazar “Deus, Pátria e Família”, ao qual acrescentou “Trabalho”. A fuga para Tânger é exemplo de como os primeiros três anos seriam encharcados de boatos que eram gasolina para a guerra civil interna. Os telemóveis eram a principal arma e Ventura acabou com a rédea solta. Decretou que quem dissesse mal dele ou do partido, em público ou privado, seria suspenso.


ESFARRAPAR A OPOSIÇÃO INTERNA


"Para agilizar as expulsões sem contraditório, Ventura criou a Comissão de Ética liderada pelo deputado Rui Paulo Sousa que suspendeu ou expulsou mais de 100 militantes, quase todos opositores internos. “Havia decisões tomadas antes de as analisarmos”, revela Carlos Monteiro. Ao fim de dois anos, o Tribunal Constitucional declarou a Comissão de Ética ilegal. Mas o objetivo de esfarrapar a oposição interna já estava alcançado.

Miguel Carvalho não tem “qualquer dúvida” que esse será o trato a dar às oposições se Ventura chegar ao poder. “No Congresso de Coimbra, uma das declarações que ele faz, naquela estratégia de namoro/arrufo com o PSD, é que queria ter quatro pastas e uma delas era o Ministério da Administração Interna. Um partido com estas práticas que tome conta do MAI, ainda que seja só essa pasta, é absolutamente assustador. Nós estaríamos perante a concretização de um Ministério do ‘Big Brother’”

CASOS E CASINHOS

"Muitos dos que se envolveram no Chega, financiadores ou não, desencantaram-se com o partido. Mais de metade dos vereadores eleitos deixaram de se rever na estratégia. Entre os vários entrevistados há sempre um aspeto comum: o Chega pratica dentro de portas aquilo que promete combater fora delas.

Um vasto rol de “casos e casinhos”

Aos vários “casos e casinhos” já conhecidos, Miguel Carvalho junta-lhe outros como o da fatura que Pedro Pinto deixou por pagar nos Bombeiros Voluntários de Beja, a da pensão de alimentos que Rui Paulo Sousa prometeu pagar quando fosse eleito deputado, a das dívidas que Diogo Pacheco de Amorim tinha quando entrou no Parlamento. Vários dos 60 atuais deputados do Chega estavam na lista negra do Fisco poucos dias antes de serem eleitos e outros refizeram a vida com a entrada para o partido.


Entre os mais próximos de Ventura não faltam cadastros iguais aos bandidos que o líder garante combater, sem que os expulse, como promete. Hélio Filipe, que é militante do Chega, guarda-costas de André Ventura e namorado de Rita Matias, foi condenado a dois anos de pena suspensa por espancar e roubar um homem. No mesmo processo, não foi provada a acusação de sequestro e extorsão. Na semana passada, foi o segurança pessoal de Ventura na incursão pela manifestação de imigrantes.


Enquanto controlou as despesas do cartão de crédito do partido, Nuno Afonso contabilizou abastadas refeições para Ventura e os seus mais próximos, com digestivos “à la carte” e estadias em hotéis, além de um carro topo de gama para uso do presidente. As noites de copos em casas de meninas eram conhecidas. Na sede, as noitadas eram umas atrás das outras. “Era um cenário típico de final de noite num bar de terceira categoria”, descreveu Nuno Afonso, também ele autor de um livro sobre os bastidores do Chega (“Ontem éramos o futuro”, 2025).


À “Notícias Magazine”, Miguel Carvalho distingue o eleitor do Chega dos seus dirigentes, pois o partido cresceu à custa de quem se desacreditou ou se sente abandonado pelo sistema político-social e pelos serviços públicos básicos como os CTT, a escola ou o centro de saúde: “Se houver um político que não se cinja às redes sociais e for por esse país fora, de porta a porta, fazer um esforço descomunal, para ouvir e tentar perceber, e que seja absolutamente fiel à palavra dada, aí o Chega não terá grandes hipóteses, nem com redes sociais”.


Até lá, Ventura será o que as massas quiserem que ele seja, como demonstra Miguel Carvalho. Qual camaleão que sempre aparece para salvar as almas do caos das circunstâncias, algumas de fabrico próprio. Ele é, se for preciso, o seminarista mais promissor que deixou de ser padre porque encontrou o amor; o dedicado académico progressista, preocupado com os direitos humanos, que se distingue na sala de aula para agradar aos professores; o mais zeloso inspetor do Fisco e combatente dos paraísos fiscais que mais tarde lhe vão pagar a campanha; o humanitário cronista de jornal que apela a que se acolha “o maior número possível de migrantes” (2015); o enraivecido megafone dos benfiquistas em horário nobre na CMTV; o messias dos crentes, católicos ou evangélicos; o farol dos desencontrados".


REVISTA VISÃO:


"Finalmente, o Chega contrata o alugar de um Renault Talisman 1.5 dCi Zen por 36 meses, para o serviço do líder, a 400 euros mensais. Fernanda Marques Lopes, primeira presidente do Conselho de Jurisdição do partido, viu-o chegar com Luc Mombito (funcionário do Chega) ao volante. “Olha lá, André, compraste um carro para o partido?” O líder explicou: “É renting.” Mas a advogada insistiu: “E o conselho de auditoria não tem de saber?” O líder, sempre, ao longo do livro, e em diversos episódios, com pouca tolerância ao escrutínio interno, começou a impacientar-se: “Sou presidente, posso comprar o que me apetecer, não vou pedir autorização para comprar uma mesa ou um carro!”


SEMPRE A MENTIR


A fuga para a frente, sempre que Ventura é questionado, reflete-se também nos grandes temas. Ainda na semana passada, depois de ser desmascarado na “gaffe dos hambúrgueres”, contra-atacou, falando – mais uma vez, falsamente, como ficou demonstrado – de mais de 1500 viagens do Presidente Marcelo ao estrangeiro. Condenado por difamação no caso da família Coxi (do Bairro da Jamaica, a quem chamou “bandidos”) com sentença confirmada nas instâncias superiores, já após recurso, disse, na AR, em outubro de 2024: “Fui a tribunal sempre que me acusaram de difamação, racismo, discriminação. Venci em todos os processos.” Como sempre, estava a mentir.


Jornal PÚBLICO:


Chega: sexo, mentiras e Deus




Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do Chega. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explicação “Ajudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o André revelou-se um Saul e não um David. É um grande actor,” diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patrícia Sousa Uva gosta de se chamar a si própria de “dondoca”. O seu testemunho sobre Ventura também revela uma personagem construída: “É uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.”

O grupo que geria as redes sociais de Ventura incluía ainda Gerardo Pedro, de Santarém. “Via-o a ralhar na CMTV, no ‘Rua Segura’, e deixei-me ir naquela conversa, era música para os meus ouvidos…” Hoje, Lucinda, Patrícia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. “Sinto vergonha de ter andado nisto. Não é o que quero, nem para a minha filha… Este homem não pode governar o país. Não pode”, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difamações sobre outros políticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O líder é a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do Chega já saíram do enredo (...)

Só na região de Lisboa há mais de mil igrejas evangélicas. As mais pequenas têm menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Maná) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congregações: “Assembleia de Deus Fogo para a Europa”, “Igreja Baptista Cristo Vive em Células”, “Igreja do Avivamento em Portugal”, ou “Igreja Evangélica Bola de Neve”.


Estas igrejas são espaços comunitários, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organização (incluindo a Igreja Católica, os sindicatos, as associações culturais) estão em crise. No início deste século, os evangélicos representavam 5% da população brasileira, sendo agora quase um terço dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega é citado por Miguel Carvalho: “Muitos evangélicos comprometeram-se com o Chega desde o início, compartilhando vídeos e textos de fiéis brasileiros contrários à agenda da esquerda (principalmente política de género e mobilização LGBTQIA+).”

Ventura deixou nas redes o convite: “O Chega é a religião dos portugueses comuns”; “Nós somos como aquelas seitas religiosas: fortíssimos”; “Sou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na História de Portugal, desde o meu percurso de comentador até ao Parlamento, é um milagre”; “Quero todas as igrejas cristãs com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito”; “Deus no Comando!”

Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho detalha as relações de Ventura com magnatas dos media (Marco Galinha e Mário Ferreira), com vendedores de armas, industriais e donos das maiores herdades do país. E, ainda assim, é visto como o político que quer acabar com o “sistema”. Nas páginas de Miguel Carvalho, constatamos que grande parte dos dirigentes, deputados e financiadores do Chega são investidores e negociantes de imobiliário. O preço das casas bate recordes e cria uma crise social profunda, mas o Chega é o partido que mais sobe nas eleições. O próprio André Ventura, imediatamente antes de se dedicar à política, aconselhava candidatos a vistos gold em negócios de compra de prédios. “Ventura provou que não é anti-sistema, é o próprio sistema”, critica uma antiga candidata do Chega em Braga.

(...)

Miguel Carvalho recolheu depoimentos que ilustram este fervor escatológico em Lisboa. A senhora que limpava a sede do partido revela que “por vezes a sede parecia uma taberna! Rasca! Enfrascavam-se de uma maneira… Se esta gente governasse o país, eu emigrava…

CORREIO DA MANHÃ

“Ventura parece ter um beliche nos estúdios de TV”



O Chega esteve envolvido em polémica desde a fundação. O livro explica, com testemunhos em ‘on’, o caso das assinaturas falsas para a constituição do partido. Face às evidências, porque é que este processo foi arquivado?

Não sou eu que devo explicar isso. O Ministério Público fez as suas diligências. E o processo acabaria arquivado, não como o Chega diz, mas apenas porque não se conseguiu identificar a pessoa que decidiu isto tudo, o autor dos crimes. Mas as assinaturas falsas existiram. Estranho, diria até escandaloso, é que André Ventura foi identificado como a pessoa que recolheu grande parte das assinaturas, que pagou a recolha das assinaturas, mas nunca foi ouvido no inquérito.

Há mais casos polémicos no livro...

Sim, e alguns, na minha opinião, têm relevância criminal. Como o das gravações ilegais no partido, por exemplo. Ou como foi feito o financiamento do partido, descrito por pessoas que estavam no centro da ação política do Chega. Mas, lá está, não sou eu que devo fazer essa avaliação. O livro está à venda ao público (...)

A questão das gravações só agora foi conhecida...
É, para mim, a questão mais grave. As gravações ilegais no partido terão surgido para afastar opositores internos. Não sei se as práticas continuam, mas, até 2021, foram feitas, colocando militantes contra militantes, dirigentes contra dirigentes, com a cumplicidade dos dirigentes nacionais. Perante estas práticas, pergunto: como será, amanhã, se o Chega for governo, se tomar conta do Ministério da Administração Interna?

Em 2020, muitos achavam que as minhas preocupações eram distopia. Agora, acho que isso é verosímil. Para mais, quem governa adotou, em parte, a agenda do Chega em vários temas. A AD quase se tornou o braço político do Chega. E o Chega quase se transformou no “braço armado” da AD. O partido de André Ventura anda a promover políticas que, a seguir, a AD vai aplicar. É um sucesso para o Chega.

No livro, critica a forma como a comunicação social levou Ventura ao colo...

Quase parece que Ventura tem beliche nas redações e estúdios das TV. Há uma espécie de “SOS: Chama o Ventura!” quando as audiências estão em baixo.

Hoje há grupos (como o 1143 de Mário Machado) que se sentem legitimados pelo discurso do Chega

E, para mais, isso é masoquista. O Ventura, várias vezes, faz ‘bullying’ aos jornalistas e à própria estação, transformando esses momentos em clips para as redes sociais. É algo que só se explica com o esboroar dos critérios editoriais dos media portugueses.


Acha que o Chega contribuiu para normalizar o discurso de ódio em Portugal?

Claramente. As pessoas começaram a perceber que este discurso de ódio era ‘mainstream’. Dizem: “Se há mais 10, 100, mil pessoas a dizê-lo, então, eu também posso dizer, não devo estar errado.”


No último capítulo do livro, descreve como o Chega é o partido mais popular entre os jovens. É preocupante?

Sim, mas, há uns anos, muitos jovens também achavam que era ‘cool’ ser do BE - que, atenção, tem um projeto político muito diferente do Chega, progressista e humanista –, também por razões disruptivas. No caso do Chega, importa destacar o papel da Rita Matias, que deu muitos seguidores e eleito- res jovens ao Chega. O Ventura e a Rita Matias fazem uma dupla que funciona bem, com aqueles vídeos nas redes sociais, fanaticamente consumidos pelos miúdos. E sempre que a Rita Matias visita uma escola, os alunos entram em ebulição – atrai os filhos das elites, mas também jovens de origens humildes, com um discurso simples, básico, por vezes mentiroso, mas que “entra” muito facilmente (...)


Também há sinais positivos. O que se tem revelado nas escolas é que as miúdas, de forma geral, são menos permeáveis às narrativas do Chega. Regra geral, conseguem refletir mais sobre certos temas – como a sexualidade, feminismo, violência, etc... –, são mais maduras, agem menos em grupo, têm capacidade para pensar pela própria cabeça. Muitas pessoas que trabalham nas escolas acham que este é o caminho para combater o extremismo: o futuro pode começar pelas mulheres.


NOTÍCIAS AO MINUTO



"Um grupo de dirigentes reuniu-se numa casa, em Setúbal, elaborou um documento com imensas perguntas – creio que até ultrapassava a centena – enviadas à direção, em que se questionava o financiamento, o que é que o partido fazia ao dinheiro, porque andavam sempre em jantares e em viagens. Aliás, as pessoas que se reuniram ameaçaram enviar aquilo para o Ministério Público (MP). A ideia de que o partido podia ser investigado e ilegalizado a qualquer momento, ou por supostos financiamentos externos, ou por ter no seu seio várias pessoas que eram oriundas de movimentos neonazis e mais violentos, criou um clima de absoluta paranoia que o Chega vai explorando até aos dias de hoje. O próprio Ventura várias vezes aludiu a situações ou episódios em que achava que o objetivo dos poderes, sejam eles quais forem, era miná-lo, porque ele luta contra o sistema. A ideia de que o partido está permanentemente sob vigilância do regime, à espera de um pretexto para o eliminar, também ajudou a unir internamente, com o tempo.

É a receita de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, e viu-se agora também na questão dos hambúrgueres… Onde é que isto nos deixa enquanto jornalistas?

É uma resposta para uma tarde. Achámos, de uma forma geral, que isto nunca nos aconteceria. O próprio António Guterres tinha dito, uns anos antes da eleição de André Ventura, que o populismo nunca venceria em Portugal, porque tínhamos uma tradição imune a isso. Cá estamos. A própria fragilidade da generalidade dos órgãos de informação em termos de recursos humanos, técnicos e financeiros – para mim o pior período do jornalismo em democracia, e já passámos por muitos – não permite ter jornalistas disponíveis, como era normal na fase pré-Internet, a acompanhar quotidianamente um determinado partido, criando fontes, com tempo, confiança. É verdade que não tínhamos um partido como este. Tivemos o Partido Renovador Democrático (PRD). No início, em 1985, também veio com um discurso muito moralista, a falar de cima da burra, como se costuma dizer, em relação ao regime, mas o PRD era profundamente democrático nas suas práticas, e até na sua postura na Assembleia da República. Portanto, achámos que não nos aconteceria, estamos frágeis para acompanhar, estávamos já na altura bastante permeáveis a tudo o que gerasse fogo nas redes sociais e fosse disruptivo. Não parámos para pensar e foi lenha que juntámos.

Quando comecei a acompanhar o Chega, já tinha feito uma reportagem, que também está no livro, por alturas do fracasso do Basta, com jovens de alguns movimentos de extrema-direita, nacionalistas, identitários, a quem Ventura não dizia grande coisa. Eram jovens, dentro daquela área ideológica, bem estruturados, com ideias muito firmes em relação a determinados temas, e isso despertou-me para o Chega. Quando Ventura é eleito, aí sim, dedico-me [ao Chega], mas eu era um privilegiado. Estava numa revista [a Visão] que, apesar de já estar na sua fase descendente, dava-me três meses para andar entretido com aquilo, sem pensar em mais nada. Fazia algumas coisas pelo meio, mais urgentes, mas, quando acabava esse trabalho para a edição X, voltava ao Chega. Quando me perguntaram se queria ficar com isso, eu disse, 'ok, mas preciso de três meses; quero almoçar com eles, quero jantar com eles, quero conhecer isto'. Comecei a ir a tudo o que era eventos. Depois, veio a pandemia. Mantive os contactos telefónicos, mas já com alguma dificuldade, porque alguns não queriam falar ao telefone; estavam paranoicos que o Governo podia ouvir, coisas assim. Retomei quanto a pandemia abrandou pela primeira vez e isso foi absolutamente essencial para chegar a este livro. Na altura, sobretudo a partir da eleição de Ventura, já o Chega começava a contaminar os jantares de família e de amigos, e toda a gente falava disso. Levei muito nas orelhas, não só de colegas, mas de pessoas que acompanham a realidade política, que diziam, 'estás tolo, daqui a uns meses a malta vai perceber que isto não faz sentido nenhum e acaba já ao virar da esquina'. Viu-se.


LA VANGUARDIA:

"Como se fosse um estagiário de si próprio, Miguel Carvalho (Porto, 1970), um dos mais reconhecidos jornalistas portugueses, passou cinco anos a acompanhar o dia a dia do partido do xenófobo André Ventura. Nesta conversa, feita por escrito e por telefone - fruto também de 17 anos de relação pessoal -, enquanto percorre o país, explica que as apresentações do seu livro "Por Dentro de Chega – a face oculta da extrema-direita em Portugal" têm um caráter de terapia coletiva. Em menos de dois meses vendeu 16.000 exemplares de um livro de política com 700 páginas, num país em que o limite do sucesso editorial ronda os 6.000. Será pela magia da Galiza, que tanto adora?

Parece-me tudo um pouco irreal. Creio que a obra interessa porque aborda o fenómeno Chega, e não tanto a figura do seu líder. Há quem o veja como uma espécie de livro de autoajuda, um guia para lidar com familiares ou amigos que votam na extrema-direita.

O que responde a quem lhe pergunta “o que faço, a minha parceira tornou-se chegana”?

Digo que no livro há ferramentas para tentar compreender e semear dúvidas. Dá pistas, mas não é uma solução. Só a estabilidade política - que não existiu, com três eleições legislativas neste quinquénio - e a resolução de problemas estruturais deixarão o Chega sem oxigénio. O partido nasce do descrédito das instituições e dos políticos. Foram eles que criaram esse território de esquecimento e ressentimento, ao encontro do qual Ventura soube ir.

O jornalismo político de Lisboa é de melhor qualidade e menos sectário do que o de Madrid, mas fez de Ventura um gigante quando ainda era um pigmeu.

Assim é. Mas o jornalismo português atravessa a pior crise da democracia, com redações minúsculas e precárias. Sucumbiu à espuma do espetáculo de um líder habituado ao sensacionalismo, fruto da sua experiência televisiva no futebol - como comentador do Benfica - e nos programas de crime. Fizemos de idiotas úteis ao serviço de um discurso que não devia ser notícia, por ultrapassar todos os limites legais.

Não é algo que aconteça só em Portugal.

É verdade, mas nós - uns de forma inconsciente, outros de propósito - quando ele tinha apenas um deputado, demos-lhe um protagonismo muito superior ao que lhe correspondia. Ele sabia como gerir o ruído e contava com o apoio de poderosos interesses económicos. A imprensa enfrenta o Ferrari da extrema-direita com uma bicicleta.

A “futebolização” da sociedade é um terreno fértil para a extrema-direita?

Claro. Em Portugal vê-se com nitidez. Quando a típica discussão tribal do futebol tomou conta das redes sociais, Ventura já a dominava como ninguém.

Um dos seus interlocutores do universo Chega chama Ventura de “Hitlerzinho”, e o livro começa com uma citação do líder nazi. Há um risco totalitário em Portugal?

O Chega é um perigo evidente para a convivência e para os pilares da democracia. O seu líder viola a Constituição todos os dias, com um discurso de ódio, racista e xenófobo. No partido, por exemplo, existem práticas criminosas, como o uso de gravações ilegais como instrumento de coerção interna.

O que sentiu quando o ouviu proclamar em Madrid o seu orgulho pela caçada de Torre Pacheco?

Nada de novo. Apela constantemente à violência simbólica, que por vezes se traduz em ameaças reais e violência física.

Como explica que Ventura tenha transformado ele próprio a sua subida nas autárquicas num fracasso?

Foi devorado pelo seu maior trunfo - a sua condição de catarata mediática -, que o levou a precipitar-se ao anunciar que conquistaria 30 câmaras. Obteve apenas três, mas expandiu-se por todo o território com um bom resultado, que lhe dá a chave da governabilidade em muitos locais. No entanto, arrisca-se também a confirmar e amplificar a perceção de que o Chega não serve sequer para gerir municípios.

Pode chegar a primeiro-ministro, ou o balão está a esvaziar-se?

Já não é uma distopia, como parecia há cinco anos, mas não me parece provável. Se a legislatura fosse interrompida após uma eventual queda do atual governante, Luís Montenegro, teria alguma hipótese.

Porque é que Ventura se candidata às presidenciais de janeiro?

Procura chegar à segunda volta para acumular mais força - graças à sua habilidade mediática - com vista a chegar a primeiro-ministro.

O que representou para si estar cinco anos embutido na extrema-direita?

Contaminou toda a minha vida, para o bem e para o mal. Não me arrependo. Desde o início quis ouvir e tentar compreender, seguindo o caminho que Hannah Arendt nos traçou.

sábado, 14 de junho de 2025

A Pressa Suicida dos Jovens



Primeiro apercebi-me que começaram a ouvir audios e ver vídeos e filmes em velocidade aumentada e ninguém achou mal... 

De repente percebeu-se que as crianças começaram a falar sem os verbos e muitos especialistas acham que é só uma mutação da língua quando, na verdade, os jovens estão tão apressados que já nem sequer pronunciam os verbos.

Mas o que eu ainda não percebi é qual é a urgência dos jovens. Bom, ir para o comboio não deve ser certamente, porque andam todos de UBER, aquela empresa que corrompeu grande parte dos líderes mundiais, mas que, ironicamente, ninguém a "cancelou", como dizem os jovens. 

Ao mesmo tempo, no mundo inteiro, todos os adolescentes entraram em modo de ansiedade. 

Ao mesmo tempo todos passaram a ver filmes e ouvir audios com a velocidade aumentada (e só o fazem porque houve um idiota ou génio qualquer que achou boa ideia disponibilizar essa ferramenta. 

Ao mesmo tempo, os jovens de todo o mundo começaram a aderir à extrema-direita... 

E agora alguém que me responda, porquê? Porque é que ao mesmo tempo, qual vírus, por todo o mundo, os jovens começaram a aderir à extrema-direita?

Ah, já sei, a culpa foi da Esquerda. Foi a Esquerda que deixou os jovens ansiosas e que criou as redes sociais, e que aumentou a velocidade dos filmes, e que propalou mentiras que os jovens, que não sabem história, acreditaram. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Como a Direita Enfrenta as Catástrofes

Um excelente artigo de Ignacio Sánchez-Cuenca, catedrático de Ciência Política da Universidade Carlos III de Madrid, publicado hoje no El País, a propósito da catástrofe de Valência, mas recordando vários outros tristes episódios, como, por exemplo, o atentado de Atocha ou o do petroleiro Prestige, entre outros, e explicando muito bem o modus operandi da direita espanhola. 

O PP Perante a Catástrofe, ou a Catástrofe do PP

"A esta altura, não parece controverso afirmar que o atraso de mais de 12 horas do presidente da Generalitat Valenciana, Carlos Mazón, em lançar o alerta e pedir à população que tomasse medidas drásticas de proteção teve consequências muito graves. Se as pessoas tivessem sido devidamente informadas, não se teriam registado tantas mortes. As chuvas e as inundações teriam sido as mesmas, os municípios afetados teriam ficado igualmente devastados, mas um alerta atempado teria reduzido consideravelmente a tragédia vivida em Valência.

Os motivos que levaram Mazón a cometer um erro desta natureza serão matéria de especulação durante muito tempo. Talvez o presidente valenciano não tenha levado suficientemente a sério as advertências dos peritos em clima, talvez não tenha havido consenso entre os seus assessores e técnicos, talvez não quisesse criar alarme, ou pesasse o interesse em manter a atividade económica; enfim, ainda não sabemos o que aconteceu, mas é difícil evitar a conclusão de que houve negligência com um enorme custo em vidas humanas. Muitas pessoas que levavam uma vida normal ficaram presas ou morreram afogadas antes de receberem o alerta.

Este é um daqueles erros que é impossível apagar. No dia seguinte, Alberto Núñez Feijóo deslocou-se a Valência e fez declarações que não o deixam bem posicionado. Para justificar Mazón, criticou o serviço da Aemet (quando as previsões sobre a gravidade da depressão isolada em níveis altos eram públicas e inequívocas) e tentou desviar a responsabilidade para o Governo central.

Desde então, o presidente Mazón tem tido uma gestão errática e hesitante, com atrasos inexplicáveis na solicitação de ajuda ao Governo central, descoordenação nos serviços de resgate e decisões difíceis de compreender (como anunciar a criação de grupos de emergência quatro dias depois da catástrofe).

A reação do Governo popular em Valência tem precedentes. O PP teve de gerir várias catástrofes e, em todas elas, seguiu um padrão recorrente de conduta. Esse padrão caracteriza-se por uma mistura, em grau variável, de vários elementos: 

1. Ocultação de informação
2. Desconfiança em relação aos peritos
3. Incapacidade de admitir erros 
4. Politização da catástrofe 
5. Falta de empatia e pouco respeito pela população



Durante o segundo mandato de José María Aznar, houve vários casos em que o Governo perdeu completamente o norte. Em 2002, com a crise do Prestige, foi tomada a pior decisão possível: afastar o petroleiro avariado para o mar alto, contaminando grande parte da costa galega. O PP governava tanto a Xunta como em Madrid. Os seus dirigentes tentaram ocultar a dimensão do desastre, recusaram-se a admitir o erro e, além disso, houve declarações incompreensíveis, como a de Mariano Rajoy, então vice-primeiro-ministro, a referir-se aos “fios de plastilina”. Antes, na crise das vacas loucas, a então ministra da Saúde, Celia Villalobos, já tinha deixado todos perplexos com as suas afirmações sobre a utilização de ossos na preparação do caldo. Este tipo de comentários frívolos em momentos de crise desorienta profundamente a opinião pública e contribui apenas para aumentar a inquietação.

A mentira, a incompetência e a falta de respeito pelas vítimas e pelos seus familiares foram as notas dominantes no acidente do Yak-42 em 2003 (62 militares mortos). Para além da polémica sobre as condições penosas em que viajavam os militares, houve uma negligência grave na identificação dos corpos, causando sofrimento às famílias. Algo semelhante ocorreu no acidente do metro de Valência em 2006 (43 mortos): Juan Cotino, então vice-presidente da Generalitat, enganou as famílias das vítimas, pressionou os meios de comunicação para não relatarem a verdade e influenciou o encerramento da investigação sobre a tragédia.

Esta forma de reação atingiu o seu auge após o atentado jihadista de 11-M (192 mortos). Nesse caso, o Governo de José María Aznar mentiu, colocando em primeiro lugar a sua permanência no poder em detrimento das vítimas. Aznar e os seus aliados acreditaram que, se se soubesse a verdade sobre a autoria do pior ataque terrorista em Espanha, perderiam as eleições. E decidiram ocultar a autoria o máximo que puderam. Nunca admitiram a mentira; preferiram incentivar a teoria da conspiração.

Muitos dos traços anteriormente descritos são reconhecíveis nesta primeira semana da crise de Valência. Primeiro, falta de confiança nos peritos e nas entidades públicas encarregadas de lidar com este tipo de situações (críticas à Aemet). Segundo, um erro grosseiro (lançar o alerta quando a situação já estava fora de controlo). Terceiro, incapacidade de admitir erros, optando por uma fuga para a frente. Quarto, falta de informação sobre mortos e desaparecidos, como se a população não estivesse preparada para saber a verdade. Quinto, desviar responsabilidades para o Governo central, quando a competência é exclusiva da comunidade autónoma. E, finalmente, falta de sensibilidade para com as vítimas, como se viu nas declarações da conselheira Nuria Montes (posteriormente corrigidas).

O estranho é que este padrão se repita tantas vezes. Seria de esperar que o PP tivesse aprendido com os erros do passado. No entanto, sempre que surge um acontecimento extraordinário, o Partido Popular volta a cair nas mesmas armadilhas. É evidente que, se não tivesse gerido tão mal as catástrofes, o PP não teria passado da maioria absoluta em 2000 para a oposição quatro anos depois. Contudo, não tiram as lições necessárias, talvez por contarem com um apoio incondicional dos meios conservadores que lhes dá uma falsa sensação de segurança, mas a opinião pública acaba por se cansar de tanta mentira e ineficácia. Às vezes demora, mas este tipo de gestão acaba por ter um custo reputacional e eleitoral significativo.

É nos momentos extraordinários que um partido no poder revela a sua verdadeira natureza. Uma coisa é governar no dia a dia, outra é enfrentar uma catástrofe. Perante as sucessivas catástrofes ocorridas durante os seus períodos de governo, seja a nível regional ou central, o PP tem-se caracterizado por cometer erros importantes de gestão e por evitar a responsabilidade, recorrendo até a informações falsas e manipulação. Parece que estamos novamente no mesmo ponto. A situação atual é muito confusa, e o PP e os meios conservadores já estão a tentar desculpar a Generalitat, desviando a responsabilidade para o topo. O ocorrido no passado domingo, quando a indignação popular se transformou em agressões por parte de membros da extrema-direita, revela uma vontade deliberada de ampliar o caos político. Alguns tentam encobrir os erros cometidos, enquanto outros procuram atingir Pedro Sánchez, o prémio mais ambicionado. Contudo, a origem da tragédia é clara e tem múltiplos precedentes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Qual o Significado Político de Direita?

Qualquer pessoa minimamente interessada por política conhece a origem das palavras e o porquê de se designar "esquerda ou "direita" aos diferentes partidos. Ainda assim tenho sérias dúvidas que a maioria das pessoas, até das pessoas que votam, que conheçam saibam porquê, o que, diga-se, considero grave. 

E mais grave ainda, é ir votar sem saber quem são aqueles que o defendem - sem ter "consciência de classe - e isso já não é uma suspeita, é mesmo uma constatação. Basta olhar para os resultados eleitorais para perceber isso. A maioria não tem qualquer conhecimento político e vota como quem anda no mundo - e é a maioria - por ver andar os outros. 

O jornalista e escritor argentino Martin Caparrós publicou na revista El País Semanal um texto extremamente interessante (também concedeu esta semana uma entrevista que saiu na revista do jornal La Vanguardia) porque responde a essa dúvida, da origem das palavras "esquerda" e "direita" na política, mas vai mais longe. Explica também, muito claramente, quais são os propósitos da direita. E fala numa só direita, não há cá centro direita, mais à direita ou extrema-direita, mas sim, "a direita". O que defende a direita?  


"Os espanhóis falam de direitas porque acreditam que são muitas; nós, os sul-americanos, dizemos direita porque talvez suspeitemos que todas são uma. Mas o significado político da palavra vem de Paris e celebrou, há algumas semanas, 235 anos: "No dia 29 de agosto começámos a reconhecer-nos: os que defendiam a sua religião e o seu rei reuniram-se à direita do presidente para evitar os gritos, os insultos e as indecências que ocorriam na parte oposta, à sua esquerda", escreveu nas suas memórias o barão de Gauville, deputado da nobreza na Assembleia da Revolução Francesa. Foi o nascimento da definição política mais eficaz dos últimos séculos: a esquerda, a direita.

Funcionou, manteve-se: era muito clara, muito gráfica e tão arbitrária que, embora agora pareça estranho, aqueles senhores poderiam ter ficado ao contrário e diríamos ao contrário, e seria o mesmo. De qualquer forma, continuamos a falar de direitas e esquerdas, com as suas matizes. Durante anos, as direitas quiseram disfarçar-se de centros. Mas viram que as esquerdas o conseguiam melhor e tiveram de se lançar à sua direita. Por isso, agora, as que mais se destacam chamam-se “extrema-direita” ou “ultradireita”.

Estamos impressionados porque a “extrema-direita” ressuscitou quando a dávamos por morta. Durante décadas, foi a etiqueta que quase todos evitavam; agora, pelo contrário, é uma que muitos procuram, mesmo quando não está muito claro o que significa, o que querem dizer. O que sim está claro é que nos vendem a ilusão de um movimento global unificado — “a extrema-direita avança no mundo” — quando as diferenças entre eles são inúmeras.

Às vezes parece que dizer “extrema-direita” é tão vago como dizer “populista”. Vago, digo, no sentido de preguiçoso, descuidado. É uma concessão que lhes fazemos e deveríamos deixar de a fazer. Definir todos esses oportunistas dispersos como parte do mesmo grupo dá-lhes poder, agiganta-os — e, por isso, vale a pena ser mais preciso e realçar as suas diferenças.

Que são tantas: alguns são estatistas, outros querem destruir o Estado; alguns são nacionalistas, outros são pura globalização; alguns veneram o mercado, outros desconfiam dele; alguns respondem a velhas tradições fascistas, outros acabaram de se inventar; muitos são bons cristãos, outros mais supersticiosos; vários são muito homofóbicos, outros um pouco menos. E costumam ser antissemitas como os seus antecessores, mas inventaram uma nova forma de o ser: apoiar o seu camarada de Israel.

O que os une, se é que há algo, é a forma como aproveitam a frustração reinante e oferecem a esses frustrados a expectativa de uma “mudança social”. É curioso: em vários países, essas direitas conseguiram aparecer como a única reacção contra um status quo que supostamente todos os outros representam. E assim tornam os outros em “conservadores” que querem manter a democracia, estas sociedades onde tantos não vivem as vidas que merecem.

Isso, sim, é uma mudança: a direita sempre se definiu por conservar, por lutar para que nada mudasse, porque qualquer mudança seria pior, destruía a ordem. Não se podia ser de direita sem uma religião, que garantia que tudo ia continuar igual, porque era a vontade de um deus. Nem se podia ser de direita sem algum dinheiro, porque a direita existia para garantir que os pobres não o “roubariam”. Nem sem se agarrar às velhas tradições e às velhas regras. Agora, pelo contrário, muitos dos eleitores de direita são trabalhadores que temem ser substituídos por migrantes, perder os privilégios que deveriam ter por terem nascido mais perto. Estas novas direitas expressam e exploram como ninguém o medo do diferente.

Mas a meta que realmente os unifica a todos é a que silenciam: melhorar a vida dos ricos. Fazem-no de muitas maneiras. O enredo fiscal é um dos seus favoritos: passa despercebido e beneficia-os muito. E assim alcançaram o seu objetivo.

Objetivo com renovada eficácia: se há algo que estas novas direitas têm em comum é a sua capacidade de conseguir que os pobres votem para defender os interesses dos ricos. Descobriram que estas novas máscaras extremistas podem dar um aspeto moderno e atraente às políticas de sempre, e tentam usá-las. Usar os descontentes para melhorar a situação dos mais satisfeitos é o truque mais velho do manual e, por isso, de vez em quando muda de nome comercial: agora chama-se extrema-direita quando deveria chamar-se grande direita, o governo tradicional dos poderosos de sempre. Ou direita pura e simples, que é o que é e tem sido desde aquele dia em que todos os nobres que defendiam o rei decidiram agrupar-se num dos lados da sala - e entrincheirar-se ali.

La Palabra derecha | Martín Caparrós | El País Semanal | 20 de Outubro de 2024

sábado, 10 de junho de 2023

As "Pessoas de Bem" da Extrema-Direita


Boris Johnson, Donald Trump, Jair Bolsonaro, André Ventura. 
O que têm em comum todas estas pessoas de países tão diferentes como Reino Unido, USA, Brasil e Portugal? São todos pessoas de bem! São todos religiosos e tementes a Deus , todos conservadores e defensores da moral e dos bons costumes e politicamente todos da extrema-direita populista. Resumindo, todos a mesma escumalha! 

Numa só semana, alguns até no mesmo dia, foram todos acusados de crimes, coisinhas menores como planear golpes de Estado, falsificação, mentir ao parlamento, apropriação de documentos classificados e ódio e perseguição a jornalistas! 

A extrema-direita populista é isto: corrupção, ódio, violência, mentira, perseguição. Deve ser isto que significa "pessoas de bem", expressão que anda sempre na boca deles. 


sábado, 4 de julho de 2020

A Manifestação Mais Idiota de Sempre em Portugal

Depois de no sábado passado Mário Machado, um nazi, racista e xenófobo de estrema-direita ter organizado para o Chega a manifestação intitulada "Não há racismo em Portugal"... 
Bom talvez isto tenha sido rápido demais. Vou recomeçar repetindo com muita calma para que o leitor que está fora do contexto possa interiorizar melhor, porque por vezes, eu mesmo como leitor tenho que voltar atrás e reler para perceber ou interiorizar melhor o que estou a ler. 
Então é assim: um polícia, militar da força aérea, racista e de extrema-direita, de seu nome Mário Machado, que foi condenado a dez anos de cadeia por ter matado (conjuntamente com mais um bando de terroristas neonazis) um Cabo Verdiano, Alcino Monteiro no 10 de Junho de 1995 em Lisboa, e que agora até já é convidado do programa do Goucha da TVI e tudo, organizou para o CHEGA uma manifestação intitulada "Não há racismo em Portugal"! 

Já perceberam certo? Um tipo neonazi, racista e xenófobo, que matou um ser humano simplesmente por se ter cruzado com ele na rua e ele ser preto, e que foi condenado a dez anos de cadeia, agora de regresso à vida civil apela a que todos os racistas e nazis de extrema-direita votem no CHEGA, organiza uma manifestação, muito indignado, porque no seu entender não há racismo em Portugal! 


Eu gostaria de deixar aqui mais algumas sugestões de manifestações originais. Posso começar por sugerir aos empresários que se manifestem contra a União Europeia, afirmando que não há discriminação salarial em Portugal. E já agora que as empresas portuguesas também não colocam o dinheiro em off-shores ou que fazem branqueamento de capitais. Nada disso é verdade! Tal como também não há salários baixos em Portugal!

Posso também deixar a sugestão para que todos os padres católicos portugueses acusados de pedofilia, que se manifestem e mostrem a sua indignação, pois como sabemos não há pedofilia em Portugal!

Já agora incito também todos os homens que foram condenados a cadeia por terem matado as suas companheiras, a manifestarem-se porque, como se sabe, não há violência doméstica em Portugal! 

Acho que até hoje nunca tinha ouvido falar numa manifestação que, em vez de reivindicar algo, como por exemplo, melhores condições de vida, não, fizeram uma manifestação de negação dos problemas! Fantástico! O CHEGA, partido formado a partir de recolha de assinaturas falsas, num ano consegue fazer a manifestação mais idiota de sempre em Portugal! Não é fácil mas conseguiram! 

Conseguiram também o feito de serem contra as manifestações, porque estamos em plena pandemia, mas depois, seguindo o exemplo do líder do partido que faz sempre o oposto do que diz, eles mesmos manifestaram-se... em plena pandemia! Espetacular, não é?!